Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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Folha de S. Paulo

21/10/2008 na edição 508

TELES
Editorial

A capitulação da Anatel

‘MISSÃO CUMPRIDA. A Agência Nacional de Telecomunicações abençoou a mudança casuísta nas regras da telefonia, feita para beneficiar um grande negócio privado. A agência prestou serviço a lobbies empresariais e ao governo Lula. Sua credibilidade e sua autonomia como defensora do interesse público, contudo, saem profundamente abaladas.

A fusão das operadoras de linhas fixas Oi e Brasil Telecom, proibida pelas normas em vigor, poderá ser oficializada tão logo o presidente da República assine o decreto aprovado na Anatel e se cumpram outras formalidades.

As empresas e o governo não contavam com outro desfecho. O negócio foi minuciosamente engatilhado, com apoio bilionário de entidades estatais, a despeito de ser proibido. O Executivo entrou na transação não apenas com o capital dos contribuintes; deu garantias de que a lei, ora a lei, seria moldada ao fato consumado ao final do episódio.

O atropelo do que restava de autonomia na Anatel, até então a agência reguladora mais bem-sucedida do país, foi inclemente. Contou com a memorável aprovação, no Senado, do nome de uma nova diretora para a agência. Sem nada no currículo que demonstrasse vivência ou conhecimento na área, foi ressaltada a capacidade da indicada de tornar-se ‘especialista em qualquer área a que se dedica’.

Situação e oposição deixaram a animosidade e se uniram pelo bem da fusão de R$ 12 bilhões. Mostrou-se providencial a aprovação da nova diretora, pois ela desempatou a votação decisiva na Anatel. Não deixou passar nem algumas medidas mitigadoras do oligopólio vindouro recomendadas pelo relator.

Governo e operadoras fizeram, como se diz popularmente, barba, cabelo e bigode. Levaram tudo, nessa que foi um das mais absurdas e escancaradas capitulações do poder público a lobbies privados dos últimos tempos.’

 

 

Elvira Lobato

Teles elogiam Anatel, mas provedores protestam

‘Enquanto a Telefônica e a Oi/Telemar elogiaram a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) pela mudança no Plano Geral de Outorgas, que abre caminho para a compra da Brasil Telecom pela Oi, associações de pequenos provedores de internet começaram, ontem, a articular um movimento nacional em defesa da concorrência no setor.

A reação dos pequenos é coordenada pelo recém-criado Conapsi (Conselho Nacional de Provedores de Serviços de Internet), que reúne cinco associações representativas das empresas. O objetivo do movimento é pressionar a Anatel a criar o Plano Nacional de Metas de Competição, previsto no texto do novo plano.

A Telefônica e a Oi apoiaram, sem reservas, o novo Plano Geral de Outorgas aprovado anteontem à noite pela Anatel. A Brasil Telecom e a Embratel não se manifestaram. A direção da Oi referiu-se ao novo PGO como uma ‘prova de maturidade’ do setor e disse que manterá investimentos e planos de expansão, para ganhar escala.

Apesar de o novo PGO beneficiar seu concorrente, a Telefônica divulgou nota parabenizando a Anatel pela iniciativa. Na nota, ela reproduz afirmação do presidente mundial do grupo, César Alierta, de que o Brasil é prioridade de investimento e que o grupo confia no potencial de crescimento, na estabilidade econômica e nas regras de atuação empresarial do país.

Críticas ao PGO

Os pequenos provedores criticam a aprovação do Plano Geral de Outorgas sem a separação das redes de telefonia fixa e de banda larga das concessionárias, que havia sido proposta pelo conselheiro da agência Pedro Jaime Ziller, relator do processo. A proposta foi derrotada no conselho da Anatel por três votos a dois.

Fabiano Vergani, presidente da associação Internet Sul (Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul), diz que a compra da BrT pela Oi, sem as medidas de garantia de competição, ameaça o direito de escolha dos usuários e a sobrevivência dos pequenos provedores.

‘Dependemos do acesso à infra-estrutura de rede das concessionárias para oferecer o serviço de banda larga a nossos clientes. Como elas também são nossas concorrentes no serviço de banda larga, a Anatel precisa garantir condições isonômicas de competição’, afirma Vergani.

A Abramulti (Associação Brasileira dos Prestadores de Serviços de Comunicação Multimídia) e a Global Info recorreram também à via judicial.

A Abramulti chegou a obter liminar da 13ª Vara Federal em Brasília que retardou a votação do PGO por algumas horas. A liminar foi cassada pela Anatel.

O presidente da associação, Adelmo Santos, disse à Folha que entrará com nova medida judicial, cobrando a implantação do plano de metas de competição.

O presidente da Global Info, Jorge de La Rocque, diz que os pequenos provedores não se opõem à compra da BrT pela Oi, mas cobram que as teles dêem acesso às suas redes em condições de competição.

Os pequenos provedores sustentam que a compra da BrT pela Oi reduzirá a competição e elevará os preços para os usuários, a longo prazo.

Eles afirmam que, a partir de 1995, o custo do serviço de acesso à internet caiu de R$ 100 para R$ 14,90 ao mês, em conseqüência da competição, enquanto a assinatura mensal do telefone fixo, onde há competição, saltou’

 

 

CAMPANHA
Ruy Castro

Perguntas que morreram no ar

‘RIO DE JANEIRO – Na última vez que entrei no Odeon, um dos mais antigos palácios da Cinelândia, Indiana Jones estava enfrentando cobras e lagartos num filme que, nem desconfiávamos, era apenas o primeiro de uma série. Nesta quinta-feira, o Odeon recebeu outro tipo de herói: Fernando Gabeira e Eduardo Paes, candidatos a prefeito do Rio, que enfrentaram uma trinca de perguntadores, um deles eu.

Por mais que se queira mostrar serviço, sempre faltará tempo para fazer todas as perguntas. Os debates são dinâmicos e, de repente, um candidato admite que já fumou maconha, o que obriga a uma troca rápida no script. Com isso, certas perguntas vão para o fim da fila, e o debate termina antes da vez delas.

Uma pergunta que gostaria de ter feito a ambos, por exemplo, seria: Qual é a mala mais pesada para carregar nesta campanha? O prefeito Cesar Maia, que apóia Gabeira, ou o senador Marcelo Crivella, que apóia Eduardo Paes? Quando Cesar ou Crivella declara em público esse apoio, o candidato favorecido sente o beijo gelado da morte e seu oponente comemora com champanhe. No dia seguinte, a situação se inverte e é o outro quem sofre.

Queria também ter perguntado ao candidato Gabeira se ele pretende anistiar os saleiros e açucareiros, banidos há anos dos bares e restaurantes cariocas pelo atual prefeito e substituídos por aqueles pacotinhos. Tudo bem, talvez o açúcar pudesse continuar como está. Mas os saleiros precisam voltar à legalidade -ninguém consegue calcular a quantidade de sal a despejar daqueles nojentos pacotinhos úmidos.

E, depois de lembrar ao candidato Eduardo Paes sua vertiginosa vida partidária -em 16 anos de carreira, pertenceu ao PV, ao PFL, ao PTB, ao PFL de novo, ao PSDB e agora está no PMDB-, queria ter-lhe perguntado de qual partido ele gostou mais.’

 

 

Luiz Bernardo Leite Araujo

O jogo político não é reino do vale-tudo

‘UMA QUESTÃO controversa da discussão política em sociedades democráticas é a da delimitação de fronteiras entre esfera privada e esfera pública.

À primeira vista, trata-se de distinção trivial, valendo para a segunda esfera apenas aquilo que é genericamente definido como pertencente ao domínio público, que diz respeito ao interesse geral dos cidadãos.

Entretanto, toda tentativa de fixar de uma só vez e para sempre a forma e o conteúdo do discurso político resultou, senão em fracasso, certamente em novas e infindáveis controvérsias.

Quais argumentos são aceitáveis do ponto de vista da cidadania democrática? Há temas intratáveis que deveriam ser excluídos da agenda política?

Tais questões suscitam, desde logo, intenso debate entre os membros de uma comunidade política e trazem a lume o caráter complexo da referida diferenciação.

Os defensores de uma visão aberta, inclusiva e irrestrita de temas na esfera política costumam recordar, não sem razão, que as fronteiras entre o público e o privado são fluidas e porosas. O que ontem não contava como argumento a ser ponderado pode subitamente adquirir relevância, o que é atestado no caso recente da introdução de doutrinas religiosas por cidadãos que, sem anular a natureza laica do Estado constitucional, rejeitam o secularismo como ideologia dominante. O que antes era tido como assunto estritamente privado, como a relação entre marido e mulher -em cuja briga, rezava o dito popular, ninguém mete a colher!-, tornou-se matéria legítima de discussão pública com base no desvelamento progressivo de casos de violência doméstica.

Entretanto, a adoção de uma concepção dinâmica de esfera pública, permeável a toda sorte de argumentos e tópicos que permitam o exercício pleno da autonomia dos indivíduos e favoreçam uma saudável diversidade de crenças e opiniões, não implica ausência de critérios fundamentais de convivência democrática.

Entre tais critérios avulta a proteção da esfera íntima, que, por boas razões normativas, deve ser resguardada da invasão alheia.

Evidentemente, a cada um é dada a liberdade de manifestar-se publicamente, se assim o desejar, sobre seu modo particular de vida, mas ninguém pode ser obrigado, contra sua própria vontade, a tornar pública uma identidade cuja constituição não abale o princípio da igualdade cívica.

O tema da orientação sexual é, neste aspecto, particularmente eloqüente.

Com efeito, quem ousaria dizer que se trata de matéria não-pública diante de tanto sofrimento impingido a indivíduos e grupos no seio de sociedades dominadas por padrões de conduta tidos como modelares?

Por outro lado, e sem intento polêmico, o que impediria uma objeção naturalista a determinados comportamentos, fundada em raciocínio ainda sujeito ao desacordo razoável?

Se o que deve predominar na esfera pública são razões publicamente acessíveis a todos os cidadãos, não parece haver justificativa aceitável para o silenciamento de opiniões discordantes em face de questões que dividem os espíritos. Porém, pelas mesmas razões, o respeito pela integridade moral do outro é exigível de todos à luz de um dever recíproco de civilidade, constitutivo de uma sociedade democrática pluralista.

Há uma fronteira razoavelmente delimitável entre discordância e intolerância. Não estar de acordo com o que se julga ser uma conduta errônea de vida -e ter o direito de manifestar publicamente tal desacordo- não é a mesma coisa que disseminar preconceito e semear ódio ou aversão à pessoa do outro. E pouco importa, no que tange à intimidade da vida privada, se se trata do cidadão ordinário ou da pessoa pública. A esta última impõem-se, é claro, obrigações específicas decorrentes de uma função institucional que porventura exerça, não podendo alegar intromissão indevida no âmbito privado quando se trata, por exemplo, de prestar contas sobre sua situação financeira antes e depois do efetivo exercício da função.

Mas a vida privada no seu conjunto? Todo e qualquer aspecto de seu ser no mundo? Não. O jogo político não é reino do vale-tudo e nem tudo o que é sórdido se desmancha no ar.

LUIZ BERNARDO LEITE ARAUJO, doutor em filosofia pela Universidade de Louvain (Bélgica), é professor de ética e filosofia política da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). É autor de ‘Religião e Modernidade em Habermas’ (Loyola), entre outras obras.’

 

 

Leonardo Avritzer

Interesses privados e bem comum

‘A MODERNIDADE política se desenvolveu a partir da idéia de uma forte separação entre o público e o privado. Essa separação, partilhada tanto por liberais quanto por republicanos, é justificada de diferentes maneiras.

Para os liberais, o elemento central da política deve ser a defesa da inviolabilidade do privado baseada na tolerância à pluralidade. Para os liberais, ambas as dimensões não estão relacionadas à política e, nesse sentido, não devem aparecer na esfera pública. Para os republicanos, o elemento central da política é o público estritamente concebido, e nada do que é privado deve influenciá-lo. Assim, nada mais lógico do que uma estrita separação entre as duas esferas.

No entanto, a grande mudança trazida pela modernidade tardia é um processo que denominamos ‘societalização do público’. Ele torna ficção a idéia de que a política trabalha só com as questões do bem comum, uma vez que ela se transforma cada vez mais em uma interseção entre os interesses privados e os valores plurais que buscam uma expressão pública.

Por outro lado, a forte intervenção do Estado no que é social por meio de políticas que expressam concepções morais, seja na área da educação, seja na área do bem-estar social como um todo, torna muito mais tênue as fronteiras entre o público e o privado na política.

É nesse novo contexto que aparece a questão: o que a política deve processar ou publicizar sobre a vida privada dos indivíduos? A resposta a essa questão deve separar duas dimensões do privado. Em primeiro lugar, aquilo que denominamos interesses econômicos privados e, em segundo lugar, aquilo que chamamos de íntimo e que inclui um conjunto de escolhas valorativas que os indivíduos realizam privadamente. Como entender a relação entre essas escolhas e a política?

No que diz respeito aos interesses privados, não resta a menor dúvida de que o seu conhecimento desempenha papel positivo no sistema político.

Entender as relações privadas estabelecidas pelos políticos, quem os financia e quais são os interesses econômicos que eles representam constitui um dos desafios da política contemporânea. A revelação desses interesses qualifica a esfera pública e rompe uma suposta inocência, de acordo com a qual cada indivíduo representaria apenas o bem comum e tudo o que a política envolve são diferentes elaborações acerca do que é o bem comum. Nada mais falso.

O papel da esfera pública é revelar quais são os interesses privados por trás da defesa do bem comum. Nesse sentido, vale a pena ressaltar a importância da legalização dos lobbies no Brasil. O sistema político brasileiro opera a partir do suposto de que ninguém faz lobby, já que ninguém admite que o faz e os políticos não admitem que mantêm contatos com lobistas. Não existe a menor dúvida de que a pior maneira de realizar o lobby é realizá-lo privada e/ou secretamente.

Quando passamos da esfera pública para a esfera íntima, a questão sobre quais são os limites da política adquire uma tonalidade diferente.

O que separa a esfera privada da íntima é a percepção de que há uma dimensão da esfera privada que não diz respeito a interesses materiais, e sim a valores e modos de vida.

Essa esfera que chamamos de íntima pode eventualmente influenciar o sistema político. Por exemplo, discussões sobre o aborto ou sobre os direitos de minorias culturais podem ser influenciadas pelas concepções religiosas de um político ou pela maneira como ele abordou tais questões na sua própria família.

O caso da gravidez não interrompida da filha adolescente de Sarah Palin é um bom exemplo. Sua revelação diminuiu o apoio do candidato republicano à Presidência entre o eleitorado feminino. Nesse sentido, a revelação da intimidade de um candidato pode esclarecer o eleitorado.

De todo modo, o limite da publicização de fatos da vida privada dos indivíduos deve existir. A publicização deve excluir casos nos quais reforça preconceitos e ataca a pluralidade dos modos de vida, que deve ser o objetivo maior da política democrática.

LEONARDO AVRITZER, mestre em ciência política e doutor em sociologia, é professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). É autor de ‘A Moralidade da Democracia’ (Perspectiva/UFMG), entre outras obras.’

 

 

JUSTIÇA ELEITORAL
Felipe Seligman

TSE autoriza sites de jornais a publicarem opinião sobre eleição

‘O TSE decidiu mudar, por 5 votos a 2, a resolução que trata de propaganda eleitoral e condutas de agentes públicos, liberando a manifestação partidária de órgãos de comunicação impressa inclusive na internet.

A Corte alterou um parágrafo do artigo 20 da resolução 22.718. O texto afirmava que ‘não caracterizará propaganda eleitoral a divulgação de opinião favorável a candidato, a partido político ou a coligação pela imprensa escrita, desde que não seja matéria paga, mas os abusos e os excessos, assim como as demais formas de uso indevido do meio de comunicação, serão apurados e punidos’.

Os ministros incluíram, após a referência à imprensa escrita, a citação: ‘inclusive nos respectivos sítios na internet’.

O TSE também mudou o parágrafo 5º do artigo 21, que trata da programação de rádio e TV. Diferentemente de jornais e revistas, essas empresas não podem fazer propaganda ou emitir opinião sobre candidato, pois são concessões públicas.

Agora, o texto diz que as restrições ‘aplicam-se às paginas na internet mantidas pelas empresas de rádio e TV e às demais redes destinadas a prestação de serviços de valor adicionado’. O antigo texto desse parágrafo dava a entender que as empresas de comunicação que têm página na internet, inclusive as da imprensa escrita, estavam sujeitas às mesmas vedações de rádio e TV.

Com a dúvida, o Grupo Estado, proprietário do jornal ‘O Estado de S. Paulo’ e da ‘Agência Estado’, entrou com um mandado de segurança questionando o parágrafo.

O tribunal resolveu não julgar a ação, mas o presidente Carlos Ayres Britto propôs, nesta semana, uma questão de ordem administrativa para reavaliar o artigo, afirmando que o direito de expressão que jornais e revistas possuem também vale para seus sites.

A questão começou a ser discutida na quinta, mas foi interrompida por um pedido de vista do ministro Marcelo Ribeiro. Durante o julgamento, ele alegou que, pelo princípio da isonomia, todos os sites deveriam ter a mesma liberdade que jornais e revistas. Arnaldo Versiani também foi contra a mudança. Ele alegou que o TSE, em junho, recusou-se a responder consulta sobre campanha na internet. ‘Entendo que, quando nos recusamos a responder a consulta, deixamos claro que a propaganda eleitoral estava liberada na internet’, afirmou.

As restrições a páginas de rádio e TV na internet foram mantidas a sites de provedores. Votaram pelas modificações Ayres Britto, Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa, Eliana Calmon e Aldir Passarinho.’

 

 

BUSH
Sérgio Dávila

Longa sobre presidente estréia com polêmica

‘George W. Bush luta com todas as armas que ainda restam e o pouco tempo que sobra a sua Presidência para não entrar para a história apenas como aquele que deixará a seu sucessor não só a pior crise financeira das últimas décadas como duas guerras em andamento.

Pois o filme ‘W.’, cinebiografia dirigida por Oliver Stone que estreou ontem nos EUA, não ajudará seu legado. Com foco na Guerra do Iraque, o longa pinta um retrato de um presidente despreparado que, movido por convicção religiosa e desejo de se livrar da sombra do pai, leva o país e o mundo a um dos conflitos mais equivocados da história recente.

Seria só mais uma crítica a Bush, não fosse o diretor uma voz ativa -polêmica e progressista, mas ativa- na discussão política norte-americana. Stone já mirou as lentes em outros dois presidentes americanos: ‘JFK’, sobre o processo que se seguiu ao assassinato do democrata em 1963, e ‘Nixon’, sobre o processo que levou à renúncia do republicano em 1974.

A repercussão em torno do primeiro levou uma comissão do Congresso a reexaminar as circunstâncias do crime. É pouco provável que algo tão dramático aconteça com ‘W.’, pois os fatos não são inéditos e foram retirados, segundo Stone, de importantes livros de não-ficção -como a série do jornalista Bob Woodward sobre Bush.

Ainda assim, a obra já causa barulho. Jeb Bush, irmão do presidente, disse anteontem que a relação Bush pai-Bush filho tal como descrita no filme ‘não passa de uma porcaria de primeira qualidade’. Reclamou ainda que ninguém o contatou para entrevistas prévias.

Em ‘W.’, o ex-governador da Flórida é retratado como a primeira opção do clã para continuar a linhagem de políticos, e a eleição de seu irmão como governador do Texas é recebida quase como um acidente. Stone se defendeu dizendo que era um retrato ‘justo e equilibrado’ sobre a família.

Na pré-estréia, o diretor agradeceu ‘aos jornalistas investigativos’. ‘Muitos deles trabalharam muito, e esse primeiro rascunho que fizeram foi a base a partir da qual simplificamos e condensamos para fazer esse filme.’

Seu longa é uma obra de ficção e abusa das liberdades do gênero, como entrar na cabeça do presidente ao tentar justificar atos que permanecem insuficientemente justificados. É a parte mais dispensável. O melhor é a maneira com que apresenta os fatos relatados em tais livros e reportagens.

Empacotados num roteiro bem-feito, surpreendem ao relembrar o espectador a sucessão de desmandos, falta de comunicação e ligeireza que cercou a Guerra do Iraque.

A julgar por ‘W.’, a história não será grata com o presidente. Mas, como o Bush real disse e o Bush ficcional (o ator Josh Brolin, em grande atuação) repete no filme: ‘História? Todos nós já estaremos mortos’.’

 

 

CRISE
Folha de S. Paulo

Em artigo, Buffett defende compra de ações de empresas americanas

‘O megainvestidor americano Warren Buffett defendeu a compra de ações de empresas dos Estados Unidos em um artigo para o ‘New York Times’ publicado ontem. A recomendação chega no momento em que o índice Dow Jones oscilou do maior ganho histórico em pontos (936,42) para a pior queda percentual desde outubro de 1987 (7,87%) .

‘Se os preços continuarem atrativos, em breve 100% de meu capital fora da Berkshire Hathaway [holding da qual é presidente-executivo] estará em ações de empresas dos EUA’, disse o investidor no artigo ‘Buy American. I am’ (‘Compre [ações] americanas. Eu vou’).

‘Uma regra simples dita minhas compras: fique com medo quando os outros forem gananciosos; seja ganancioso quando os outros estiverem com medo’, escreveu Buffett no artigo.

Ele reconhece que haverá ‘sobressaltos’ nos resultados das companhias. ‘Mas a maioria das grandes empresas vão registrar resultados recordes em cinco, dez, 20 anos a contar de hoje’.

Buffett anunciou investimentos bilionários desde que as Bolsas americanas começaram a cair após a quebra do banco de investimento Lehman Brothers, no dia 15 de setembro. No começo deste mês, ele concordou em investir US$ 3 bilhões no conglomerado americano General Electric. No fim do mês passado, ele havia anunciado a compra de US$ 5 bilhões em ações do banco Goldman Sachs.

Com a crise, Buffett voltou ao posto de homem mais rico dos Estados Unidos, segundo a revista ‘Forbes’.’

 

 

PEQUIM 08
Folha de S. Paulo

China manterá regra de mídia mais flexível

‘A China anunciou ontem que certas restrições aos jornalistas estrangeiros, abandonadas por pressão internacional para a cobertura dos Jogos Olímpicos, não serão retomadas. A determinação consta de decreto do premiê Wen Jiabao.

O pacote olímpico isentava os jornalistas estrangeiros de pedir autorizações do governo para entrevistar chineses ou para viajar pelo país (à exceção de determinados locais, como o Tibete). As normas não impediram atos de censura durante os Jogos.’

 

 

LITERATURA
Sylvia Colombo

Escritor encerra vida com comédia

‘A morte de um homem que passou quarenta anos no exílio, sem nunca poder cumprir o sonho de voltar a ver a terra natal é sem dúvida uma história muito triste para ser contada.

Mas não foi assim com o célebre autor cubano Guillermo Cabrera Infante, que, banido da ilha pelo regime de Fidel Castro, viveu em Londres até ir-se deste mundo, em 2005.

Afinal, mesmo tendo passado os últimos anos de cama e num doloroso entra-e-sai de hospitais, Cabrera Infante escreveu um livro extremamente bem-humorado, conferindo às derradeiras linhas de sua biografia a idéia de que partiu daqui feliz.

Assim é ‘La Ninfa Inconstante’ -obra póstuma do autor do clássico da literatura latino-americana ‘Três Tristes Tigres’ (1964)- que acaba de sair na Espanha e deve chegar ao Brasil no começo de 2009.

A obra foi deixada terminada, mas completamente fora de ordem. Quem montou as centenas de papeizinhos manuscritos foi sua viúva, a também exilada atriz Miriam Gómez.

‘Guillermo foi escrevendo num bloco de notas. Quando acabava cada capítulo ou passagem, arrancava a página e jogava numa caixa de madeira que eu coloquei ao lado da cama’, conta ela em entrevista à Folha, por telefone, de Londres, onde segue vivendo, agora só.

O romance se passa em 1957, dois anos antes da Revolução Cubana, que implantou o socialismo na ilha.

A ambientação, portanto, é extremamente nostálgica. Os personagens passeiam pelo ‘malecón’, pelas praias, bares e hotéis de Havana. Evocam os tempos em que Cabrera Infante viveu na capital cubana.

Ao mesmo tempo, trata-se do livro mais cheio de referências da língua inglesa da carreira do autor, como as obras do irlandês Jonathan Swift. Na introdução, deixou um alerta para quem fizesse o copidesque: ‘Se encontrar anglicismos, não os toque: essa é minha prosa. Apesar de tudo, essa história foi escrita na Inglaterra’.

Bolero

A trama tem como centro a aventura sentimental entre um homem mais velho e uma moça de 16 anos que lhe pede que assassine sua própria mãe. ‘Há gente que tomou-a como uma ‘Lolita’ cubana. Mas não é isso, tampouco o tema é a pedofilia.

Em Cuba, com essa idade, uma menina já é uma mulher por inteiro’, diz Gómez.

A viúva conta que Cabrera Infante lhe deixou orientações claras para a edição do livro.

Teria pedido que a obra tivesse ‘um ritmo de bolero’ e que ela prestasse atenção para que o texto mantivesse a cadência de poesia dentro da prosa.

‘Ele me pediu para observar isso. E caso eu mesma não conseguisse editá-lo, que eu o rasgasse. Não queria que um editor fizesse esse trabalho.’

Gómez diz que não acrescentou uma só palavra ao livro. E que encontrou dificuldades em vários pontos por não entender direito a caligrafia, especialmente no final, quando a enfermidade já não permitia que ele escrevesse de forma clara.

Para dar a medida do esforço que teve de fazer, colou nas primeiras duas páginas um exemplo de como estava a letra do autor a essa altura. Elas formam um capítulo solto, chamado ‘Habanidades’.

Na opinião da viúva, ‘La Ninfa’ traz um Cabrera Infante mais puro para seus leitores, pois ele não teve como retocar a obra. Ela surge publicada do modo que escreveu, sem que tenha tido tempo para relê-la.

‘Às vezes penso que ele deixou essa trabalheira para eu fazer depois que ele morresse só para aliviar minha depressão com a sua partida. Se era isso que queria, deu certo.’

Mais inéditos

Além desse texto, Cabrera Infante deixou outra novela inédita, ‘Cuerpos Divinos’, já escrita há tempos, na qual Gómez começará a trabalhar na seqüência. O mesmo selo espanhol que lança ambas também comprou os direitos das obras completas do cubano, que pretende relançar a partir do ano que vem.

‘Cuerpos’ é um romance político, que evoca sua trajetória.

Cabrera Infante apoiou a Revolução no seu início, mas logo desentendeu-se com o regime e passou a ser um dos principais críticos de Fidel no exílio.

Sonhava voltar para morrer na ilha. Não teve tempo. Mas, atravessando as páginas de ‘La Ninfa’, percebe-se que preferiu rir do que poderia ficar para sua história como um fim trágico.

LA NINFA INCONSTANTE

Autor: Guillermo Cabrera Infante

Editora: Galaxia Gutenberg (importado

Quanto: 21 (283 págs.)

Onde encomendar: livros em espanhol podem ser comprados pelos sites www.cervantes.com e www.crisol.es

TRECHO

-Quero que você mate a minha mãe -me disse. Pensei que não tinha escutado bem. Ela ainda tinha olhos de inocência, mas não havia pestanejado nenhuma vez. Olhos que não pestanejam criam uma mirada perigosa. Ou ela tinha lido as mesmas novelinhas policiais que eu li ou havíamos visto juntos os mesmos filmes noir em que Barbara Stanwick pede a Van Heflin que mate Kirk Douglas. Ou em que Jane Greer pede a Robert Mitchum que mate Kirk Douglas. Ou em que Jean Simmons mata sua mãe, seu pai e Robert Mitchum. Ou tínhamos visto todos os filmes baseados em romances noir. Tudo negro. Como a noite aí fora ou o resto da casa, porque somente a sala estava iluminada. Confesso agora que me pegou tão de surpresa que não pude, clichê, deixar de dizer-lhe: -O que é isto, um filme noir?

Extraído de: ‘La Ninfa Inconstante’ (a ninfa inconstante), de Cabrera Infante Tradução: Sylvia Colombo’

 

 

TELEVISÃO
Folha de S. Paulo

Juanes é o grande vencedor em premiação da MTV Latina

‘O colombiano Juanes foi o principal vencedor de premiação promovida pela MTV Latina, anteontem, em Guadalajara (México).

Autor de canções como ‘A Dios le Pido’ e ‘La Camisa Negra’, Juanes ganhou troféus nas categorias artista do ano, melhor artista solo, melhor artista de rock e melhor artista – região central.

Ao receber um dos prêmios, o colombiano disse: ‘Estou aqui graças ao Metallica’ -a banda norte-americana de heavy metal se apresentou no evento.

‘Quando eu tinha 13 anos, eu ouvia o primeiro disco do Metallica e então comprei uma guitarra elétrica. Decidi que seria um músico.’

Juanes concorria em sete categorias.

Nascido Juan Esteban, em Medellín, o cantor já vendeu mais de 10 milhões de discos e ganhou vários Grammys. Sua música vai do rock a baladas de tempero latino.

Outros vencedores na cerimônia foram a banda mexicana Café Tacuba (melhor banda alternativa) e o chileno Kudai (melhor artista pop e melhor grupo). A banda mexicana Belanova ganhou em melhor artista revelação, vídeo do ano e melhor artista – região norte.

Além do Metallica, tocaram na festa os argentinos Los Fabulosos Cadillacs, a porto-riquenha Calle 13 e a americana Katy Perry.

Com agências internacionais’

 

 

Audrey Furlaneto

Lady Kate diverte com seu ‘carioquês’ popular

‘‘Grana eu tenho, só me falta-me [sic] o ‘gramur’, esperneia uma loira, dentro de um colante macacão de lantejoulas brancas e sandália vermelha de salto altíssimo. Ela, então, observa uma mesa de bufê e dispara ao celular -cravejado de cristais Swarovski: ‘Vem ‘pá’ cá, Bebel! Tem ‘canapete’, ‘quindi’ e ‘quinche’… ‘Quinche’, aquela torta, sabe, Bebel?’

Em seguida, Lady Kate terá de desligar o celular: encontrou seu personal stylist. ‘Graubi!’, ela grita -no que ele corrige: ‘Glau-ber’. Ela tenta ajeitar a pronúncia: ‘Grau-bi’, e ele, outra vez, insiste no ‘Glau-ber’.

Sem solução. Lady Kate tem seu próprio idioma.

Recheada de bordões sobre o ‘gramur’ e a grana, a ‘caricatura carioca’, como define a atriz Katiuscia Canoro, irá ao camarote da ‘Mandonna’ (Madonna, na língua de Lady Kate) num dos próximos episódios do ‘Zorra Total’.

O quadro da garota de programa que, após ter um caso com um senador, fica rica e precisa aprender a se comportar no high society carioca, é a estrela do humorístico global que completa 10 anos em 2009.

Lady Kate migrou do teatro para a TV em abril deste ano.

Era, nos palcos, Bruna Maribugue, sátira de Bruna Surfistinha, a garota de programa que contou sua vida em livros.

‘No teatro, ela era uma prostituta. Não podia ir para a TV assim’, conta a atriz, que criou o personagem há quatro anos na peça ‘Cinta Liga’. Para entrar na Globo, Lady Kate virou ex-prostituta, ‘mas ainda genuína e espalhafatosa’.

‘O pobre se identifica com a Lady porque queria estar no lugar dela. O rico reconhece o novo rico. A classe média sonha em dizer [o bordão] ‘Tô pagaaaando!’, avalia a atriz.

Se Lady Kate fosse paulistana, teoriza Katiuscia, poderia dizer: ‘Meu, tô pagannndo! Sou da Mooca! Mó treta, mano!’.

Mas é no ‘carioquês’ que ela encontra várias das graças de Lady Kate -inclusive um funk de batida carioca, criado pela atriz para a personagem. A letra: ‘Eu já fui-me Katilúcia e passava muito mal/ Conheci um senador/ Um cara fenomenal/ Se eu tomava água da bica/ Hoje eu tomo é mineral!’.

LADY KATE – ZORRA TOTAL

Quando: hoje, às 22h20

Onde: na Globo

Classificação: não informada pela emissora’

 

 

 

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