Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Folha de S. Paulo

07/07/2009 na edição 545


NA FLIP
Marcos Strecker Sylvia Colombo


Talese expõe-se ao falar de vida íntima


‘Depois de mais de uma hora repetindo suas tão conhecidas ideias sobre como escrever boas histórias de não ficção, o veterano Gay Talese viu-se confrontado com os limites do ‘new journalism’, ao responder a perguntas sobre o livro que está escrevendo e que trata de seu casamento.


Em entrevista ao jornalista Mario Sergio Conti, da revista ‘Piauí’, Talese contou como está reunindo cartas, bilhetes e broncas dos 50 anos de relação com a mulher, a editora Nan Talese. O clima estava descontraído e o público dava risadas, até o momento em que Conti perguntou sobre até que ponto valeria a pena expor-se tanto, e mencionou uma reportagem recente publicada na revista ‘New Yorker’ que dizia que o livro trataria de inconfidências e infidelidades dele e da mulher. Lembrou, ainda, que no livro ‘A Mulher do Próximo’, Talese havia relatado aventuras sexuais e o fato de que, para a pesquisa, quase havia se transformado num ‘cafetão’.


Nitidamente alterado, Talese disse que era verdade que havia ‘humilhado’ a mulher com o livro mencionado, mas que nunca deixou de acreditar ter tratado a relação com ela com respeito e delicadeza..


Talese começou sua fala contando como aprendeu a profissão na convivência com os pais. Filho de um alfaiate italiano e de uma vendedora de vestidos, disse que os papos da mãe com as mulheres do bairro acenderam sua curiosidade com relação a histórias de pessoas comuns. ‘Ela era uma repórter. Sua loja era um talk -show. Eu fazia serviços menores ali, mas sempre escutava tudo.’


O pai buscava mostrar-se assimilado à sociedade norte-americana e nunca falava italiano durante o dia. O fato de ele e a mãe serem de um modo no trabalho e de outro à noite, quando estavam só os três, fez com que se desse conta de que as pessoas são ‘como edifícios de dois andares, complexas’.


Quando optou pela profissão de jornalista, disse que queria ser um escritor de histórias para jornal, mas não queria escrever sobre notícias. ‘Notícias são óbvias.’ Seu interesse foi sempre o de encontrar formas diferentes de tratar das coisas humanas.


Definiu sua estratégia de apuração como a arte do ‘hang out’ (enturmar-se). Através dessa intimidade com os personagens, disse, os elementos da história surgem de modo mais legítimo e eficaz.


Suas reportagens célebres foram lembradas. Sobre o perfil de Frank Sinatra, que fez sem falar com o cantor, mas sim com as pessoas que o rodeavam, disse: ‘Ele não falaria comigo, mas eu também não queria falar com ele’. Sobre a história de Lorena Bobbit e o marido, que a editora Tina Brown recusou-se a publicar na ‘New Yorker’, demonstrou não ter ficado ressentido, pois depois pôde melhorar a história, com mais tempo e tendo acesso a mais personagens.


Talese apareceu com o visual impecável com o qual já acostumou o público da Flip. Terno, chapéu, meias combinando. Nos últimos dias, seus passeios foram a sensação da cidade e ele deu mostras de sua célebre curiosidade ao comparecer a várias mesas e fazer anotações.’


 


MICHAEL JACKSON
Tales Ab’Sáber


Ruínas do pop


‘O mundo pop já conhece suas próprias ruínas. Toda ruína é semelhante na fisionomia, mas guarda uma história particular, perdida em suas lacunas.


A vida e a morte, e sua dança na dinâmica da vida pop -em que personalidade, expressão, imagem e mercadoria se imbricam de modo único-, já podem ser catalogadas em um conjunto de possibilidades, ‘topoi’ existenciais dos que atuam no império da imagem espetacular.


Há muito se conhecem os suicídios desejados, atuados, da impossibilidade de sobreviver à contradição entre a arte e a negatividade social da crítica; o movimento da contracultura, moderno, versus o império do espetáculo e a imagem capital do ídolo, que se torna um reprodutor e também um responsável pelo sistema geral do fetichismo, do poder.


Os ‘war heroes’ dos anos 1960 e 70 ou se mataram -Hendrix, Joplin, Morrison, Vicious- ou foram mortos, em um processo que revela a articulação de suicídio e assassinato, como o de Lennon; ou sobreviveram ao próprio suicídio protelado, como [Keith] Richards, ou [Eric] Clapton, ou o nosso Arnaldo Baptista; ou, ainda, aceitaram serem mortos simbolicamente ao reduzir o seu nível de conflito ao grau zero da mera reprodução do mundo como ele é.


O processo do apaziguamento histórico da ilusão de massas da contracultura foi muito violento, uma guerra simbólica, em que os ajustes foram feitos na carne e na vida, e à qual muitos não sobreviveram. A responsabilidade dessa violência foi totalmente transferida aos dionisíacos.


Michael Jackson representou outro modo de viver e de morrer no universo tanático dionisíaco do pop. Ele é um artista positivo, da afirmação do que existe, e da realização total desse próprio espaço social e histórico em seu corpo.. Em primeiro lugar, tudo já foi dito sobre ele, e tocar outra vez no sistema explícito de suas formas e de seu dilema é simplesmente confirmar um clichê, uma reiteração do espetacular.


Mas, paradoxalmente, é este mesmo um dos aspectos mais importantes de sua forma humana e política: Jackson se transformou em um objeto de visibilidade total, ele passou a viver sob o signo daquilo que os psicanalistas chamam de ‘atuação’, em uma escala de massas talvez jamais vista.


Isso quer dizer que apenas externalizando tudo o que sentia e vivia e passando ao ato, ao teatro da realidade exterior visível, o que portava em si, ele podia chegar a conhecer algo de si mesmo. Ao contrário de alguém que sonha, e preserva um ponto de mistério em seus sonhos, e uma relação de interioridade consigo mesmo, Jackson expulsava o sonho de si realizando-o na onipotência de seu lugar real de poder, no espetáculo e no dinheiro.


Zumbi


Sua atuação total dos anos 1980 e 90, seu espetáculo total, incluindo aí o próprio corpo, a ponto de virar uma coisa de si próprio, sinalizou mesmo a época de mudança do modo de orientar a subjetividade frente ao crescente poder do mercado e o falimentar valor da política: do humanismo do sujeito sonhador ao fetichismo e exibicionismo do psiquismo atuador, que busca se identificar com o poder crescente e total da coisa na cultura, a ação visível da própria forma mercadoria sobre os homens.


Seu sonho realizado, exposto ao voyeurismo desejante de milhões, totalmente projetado na realidade que o cercava, tornou-se de fato o pesadelo da regressão humana ao polimorfo perverso das origens de todos nós, metamorfoseado em espetáculo, hipervisível para todos, sem mais dimensão de intimidade ou interioridade.


Desde ‘Thriller’ Jackson tornou-se o efeito especial por excelência, a imagem técnica da própria indústria atuando sem parar, encarnada.


O sonho foi acompanhado universalmente em tempo real.


Um travestismo total, estranhamente familiar, que invertia e suspendia o sentido de tudo: o bonito jovem negro tornou-se andrógino, mas também branco, não apenas Diana Ross, mas também Liz Taylor, mas também, à medida que envelhecia, tornou-se imune ao tempo, perpetuamente jovem, ou criança, mas também coisa, brinquedo, o próprio corpo da mercadoria, boneco do sonho pop americano, ou Barbie, que virou Chuck, ou ídolo pop que virou múmia, ou Michael Jackson que virou zumbi…


Este novo Frankenstein espetacular, que realizou em sua metamorfose milionária e sinistra o estatuto autoritário da técnica, do dinheiro e da mercadoria sobre o corpo humano e sobre as relações do sentido das coisas, acabou por virar, e revelar, o pesadelo americano e, se todos os seus consumidores contribuíram com seu gozo diante da degradação do jovem ídolo, no fim das contas Jackson simplesmente não poderia ser preso pela América, como deveria ter sido, quando passou a ‘devorar’ criancinhas como em um conto de fadas bizarro, que vem do real.


Todos sabemos, e Michael Jackson teve a loucura (ou a sanidade?) de deixar isto explícito, que aquela criança linda que entrou para a indústria do espetáculo aos cinco anos de idade, com voz de ‘castrato’ e o soul de Marvin Gaye, é que foi devorada pelo verdadeiro monstro do nosso tempo. Mas o seu próprio desejo também criou esse monstro.


No final dos anos 1960, quando os Jackson 5 assinavam seu contrato com a Motown, um outro gênio, de outra família da música negra e pop americana, Sly, com sua família Stone, cantava ironicamente aquilo que o lindo menininho Jackson, com seu canto e sua dança de fazer chorar, um dia representaria inteiramente, sacrificando a isso todo corpo e espírito: ‘All the plastic people’ [Toda a gente de plástico].


O amor de Diana Ross por ele era ao mesmo tempo admiração pelo enorme talento da música negra e simples amor materno, numa preocupação limite sobre o destino humano daquele profissional bebê. Em 1989, Gilberto Gil sinalizava a conexão interior de transformismo, poder e morte, que todos intuímos no ídolo: ‘Bob Marley morreu/ Porque além de negro era judeu/ Michael Jackson ainda resiste/ Porque além de branco ficou triste’.


Entre o menininho maravilhoso que foi invadido pela indústria tão radicalmente cedo e a coisa em si do espetáculo, e a cena perversa acompanhada por todos, do adulto que era pura visibilidade, temos a história da assimilação negra ao mercado e ao fetichismo industrial americano, que não se tornou libertária. Michael foi um verdadeiro cidadão Kane do momento avançado do capitalismo turbinado. De fato, um ‘cidadão quem?’; ou, melhor, ‘cidadão o quê?’.


TALES AB’SÁBER , psicanalista, é autor de ‘O Sonhar Restaurado’ (Ed. 34).’


 


Bia Abramo


O silêncio depois da morte


‘A MORTE de Michael Jackson impôs ainda mais silêncio ao que já cercava sua figura.


No dia em quem morreu, enquanto o jornalismo online e televisivo corria feito barata tonta atrás dos fatos, as únicas imagens eram parcas e frias -uma ambulância, um helicóptero, um ataúde. Depois, é claro, havia todo o carnaval rememorativo dos arquivos -os memoráveis videoclipes, as estranhas aparições, o enigma do rosto.


O rosto de Michael, transfigurado do menino bonito que cantava sorrindo à máscara mortuária que exibia ainda em vida, tomou telejornais e programas. MJ era um artista da imagem e seu corpo, o principal suporte de sua obra. Foi disso que ele morreu, o quinto dos Jackson 5, aos 50 anos, prestes a iniciar uma turnê de 50 shows.


A autópsia, quando concluída e se, de fato, vier à luz, pode revelar mais ou menos drogas lícitas, mais ou menos fragilidades físicas, mas não conseguirá falar mais do que tudo o que já sabemos de sua vida atormentada.


Diante do silêncio das histórias e das notícias, especula-se, analisa-se, chuta-se e, sobretudo, reitera-se. Foi esse o tom, em geral, da cobertura, com exceção da MTV, que praticamente silenciou no dia da morte. Quem procurasse a MTV, o canal inventado para mostrar a música pop, que deve quase tudo a Michael (e Madonna), para ver no mínimo os clipes na íntegra, teve de tirar o cavalinho da chuva. Nada. Nos dias seguintes, a MTV até que se aprumou, exibindo especiais no final de semana, mas o silêncio foi chocante.


Quase tudo o que amávamos em Michael estava nos videoclipes e nos trechos de programas de TV, antes da existência dos videoclipes. A criança bonita de roupas extra cool que cantava ‘ABC’ (tão fácil como 1,2,3/tão simples como dó, ré, mi) e dançava ‘como um cafetão’, no ótimo achado de André Forastieri aqui mesmo na Folha. O cafonérrimo, mas alegríssimo, clipe da brilhante ‘Don’t Stop ‘Til Get Enough’, hit máximo de pistas de dança até hoje, feito na época em que Michael ainda sorria. Os clipes-arte dos discos ‘Thriller’ e ‘Bad’. E, mesmo quando Michael já era uma entidade pop estranhíssima, dos anos 90 em diante, ainda assim emanava uma força maluca quando encarnava o personagem de si mesmo para apresentar sua música para o mundo via televisão.


Enquanto esta coluna é escrita, aparecem as últimas imagens de MJ em ação, em ensaios para a turnê ‘This is It’ (ou é isso aí, em tradução livre). Vemos um sujeito magro e cansado.


É isso aí. O resto é imagem.’


 


ARGENTINA
Folha de S. Paulo


‘Kirchner perdeu eleição para construção midiática’


‘À medida que o governo de Cristina Kirchner se enfraquece na Argentina, avança um setor da direita no país que explora a lógica dos meios de comunicação e o fim da política tradicional.


Para o filósofo Ricardo Forster, o governo cometeu erros, mas perdeu as eleições legislativas na maior Província do país para um ‘personagem construído midiaticamente’ -o empresário Francisco De Narváez-, que compara aos ex-presidentes Fernando Collor de Mello e Alberto Fujimori (Peru).


Cabeça do grupo de intelectuais que apontava risco de uma ‘restauração conservadora’ no país em caso de derrota do governo, Forster diz que esse processo ainda não se completou e que o governo ainda tem chance de seu recuperar -mas não a ponto de se manter no poder depois de 2011.


FOLHA – Por que o governo perdeu a eleição?


RICARDO FORSTER – Pelo desgaste de um longo período. Por erros ao processar conflitos agudos da sociedade. Pelo fortalecimento de uma oposição de direita, unida na deslegitimação do governo pelos grandes meios de comunicação. O vínculo do governo com a corporação midiática se rompeu em 2007 e agora ele pagou um preço caro por isso.


FOLHA – O sr. crê que o estilo do governo está ultrapassado?


FORSTER – Um dos triunfos do neoliberalismo foi deslocar a política para linguagens audiovisuais e publicitárias. Essa mutação permite que grandes triunfos da época sejam para os Berlusconi [Silvio, primeiro-ministro da Itália], os De Narváez, que constroem políticas a partir da espetacularização. É uma direita que se apropriou com astúcia dos meios de comunicação e das novas formas de subjetividade. Isso o governo não soube fazer.


FOLHA – Qual é a sua opinião sobre Francisco de Narváez?


FORSTER – Parece uma figura como Collor de Mello no Brasil, [Alberto] Fujimori no Peru. Uma parte da socidade sente que ali está o poder, as luzes do espetáculo, e não importa o que haja por trás, que seja um personagem construído midiaticamente. Expressa uma visão reacionária da sociedade, de uma direita que se oferece como leve, diferente da velha direita autoritária e violenta do século passado. São produtos de fácil digestão.


FOLHA – A eleição expressa repúdio da sociedade a um estilo visto como confrontativo?


FORSTER – O governo gestou um confronto onde as corporações econômicas querem fixar a agenda. O conflito está gerado quando se disputa renda, poder. É preciso diferenciar forma de conteúdo. O governo se equivocou em várias coisas, deveria ter revisado as estatísticas oficiais, trocado funcionários, não soube ler sinais da sociedade, perdeu contato com sua base de sustentação popular.


FOLHA – Há um fim de ciclo do kirchnerismo ou o governo pode voltar a se fortalecer?


FORSTER – Se o governo acreditar que não houve derrota, errará. Se recuperar uma visão de maior abertura, acoplar outros atores, dizer quais são seus projetos reais, poderá se reestabilizar. Talvez não para 2011, mas para o futuro. Não me atreveria a dizer que há um ocaso. É um momento difícil, um limite a que chegou, e terá que buscar as formas de se reconstruir, para dentro e para fora.’


 


TELEVISÃO
Elvira Lobato e Natália Paiva


Celular com TV vira ‘hit’ na baixa renda


‘Apareceram novas siglas no vocabulário de faxineiros, motoboys, porteiros e auxiliares de escritório que habitam as grandes cidades. São os ‘mpx’ (mp7, mp8, mp9, mp10): telefones celulares contrabandeados da China, que captam a programação da televisão aberta em sinal analógico.


Contrabandeados supostamente via Uruguai ou Paraguai e com preços a partir de R$ 260, esses aparelhos estão se disseminando, para surpresa dos radiodifusores e das indústrias eletrônicas, que previram que a mobilidade da televisão aberta viria com a TV digital.


Eles se tornaram febre de consumo entre profissionais de baixa renda que moram a grandes distâncias do trabalho. ‘A TV ameniza o estresse da viagem’, afirmou o faxineiro Roberto Naves, 32. Morador de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ele passa quatro horas por dia em ônibus e trens.


A qualidade da imagem é inferior à oferecida pelos celulares com função de TV digital, mas melhor do que a dos televisores analógicos de tela grande. Segundo fonte consultada pela Folha, 100 mil celulares com função de TV analógica foram vendidos, na cidade de São Paulo, nos meses de novembro e dezembro de 2008.


Na capital paulista e no Rio de Janeiro, a reportagem constatou a procura por esses produtos nos shoppings populares de informática e nos camelódromos. Segundo os vendedores, eles já lideram a venda de celulares, no comércio informal. Como entram no país sem pagar impostos, há modelos a partir de R$ 260. As embalagens não identificam o fabricante nem o país de origem. A marca mais presente é a ‘Vaic’, imitação da Sony Vaio -linha de notebooks da Sony.


Tela sensível ao toque, câmera na frente e atrás, internet wireless e espaço para dois chips são alguns dos atributos dos aparelhos que são vendidos como ‘mpx’. ‘Cada um põe o ‘mp’ que quer’, afirmou uma vendedora de uma galeria popular no centro de São Paulo. A confusão entre tecnologia -mp3 e mp4 são formatos de compressão de arquivos de áudio e de vídeo, respectivamente- e ‘evolução tecnológica’ dá certo.


Quando o celular Nokia de R$ 1.200 do técnico judiciário Mauro Ramirez, 38, deu problemas e teve de ficar dias na assistência técnica, ele seguiu o conselho de um amigo e comprou, por 75% menos, um genérico ‘com mais recursos’. Quatro meses depois, já estava à procura de um novo aparelho, ‘mais avançado’ -o Nokia, já consertado, está ‘encostado’.


Na ‘meca’ brasileira do comércio popular de produtos de informática, é quase impossível encontrar celulares sem TV analógica. Em uma das galerias de Santa Ifigênia, o vendedor Luis Motoyama, 64, puxou a antena do celular ‘Vaic’ e mostrou a tela com sinal meio falho (‘lá fora é melhor’). Ele disse vender cerca de 400 aparelhos do tipo por mês, comprados por ‘jovens entre 15 e 30 anos’. Ao menos a cada três meses novos modelos chegam. ‘Se a gente não vende [os antigos] logo, depois ninguém mais quer.’


O serralheiro Antônio Ratão, 52, de Vilar dos Teles, zona norte do Rio, foi presenteado com um desses celulares, com design copiado do iPhone, de R$ 330. Ele usa o aparelho, sobretudo, para ver TV nos momentos de folga do trabalho. O mensageiro Ronaldo Marques, 36, de Paracambi, Baixada Fluminense, pagou R$ 260 por um menos vistoso. Ele disse que muitos passageiros dos trens veem TV durante as viagens.


Opção nacional


A aceitação do produto despertou o interesse de empresas em comercializar o celular, no Brasil, legalmente.


A primeira a se aventurar foi a EUTV, fundada por Yon Moreira, ex-presidente da Telefonica Empresas e ex-diretor da Brasil Telecom. No ano passado, ele obteve a homologação da Anatel para um modelo produzido pela chinesa E-Techco, que está à venda nas lojas e pela internet por R$ 599.


A diferença de preço para o produto contrabandeado, de cerca de 100%, deve-se, segundo ele, aos impostos e à melhor qualidade do material usado pelo fabricante na China. A Anatel também homologou um telefone com função de TV analógica fabricado pelo grupo estatal chinês ZTE, mas o aparelho ainda não chegou às lojas.


Moreira disse que foi ‘o primeiro atrasado’ a perceber o potencial do mercado. Afirmou que, no Brasil, o hábito de ver TV no celular será criado a partir da população de baixa renda e que fabricantes do produto com sinal digital se beneficiarão disso no futuro.’


 


***


Modelo de negócio da TV móvel está indefinido no país


‘A disseminação do uso de celulares clandestinos com sinal analógico demonstra a demanda pela TV móvel, mas, ao mesmo tempo, aponta a falta de diálogo comercial entre operadoras e radiodifusores, que ainda não pensaram um modelo de negócios para a TV digital no celular no país, afirma Ricardo Tavares, da GSM (associação de 750 operadoras móveis).


O primeiro desafio para fazer decolar a TV digital no celular, diz Tavares, é mexer na base dos terminais -mas os aparelhos com sinal digital são caros (entre R$ 900 e R$ 1.500).


‘O que vai permitir uma expansão desse sinal seriam acordos atraentes entre radiodifusores e empresas de telefone celular. É preciso mudar a base de terminais instalados, mas isso leva tempo e só é feito se a operadora tiver vantagem comercial. Não estão claramente definidas quais vão ser as vantagens das operadoras’, diz.


Gerente de produto da Divisão de Telecom da Samsung, André Varga diz que há ‘conversas’ entre os atores para estabelecer um modelo -mas nada além disso. ‘Quem dá velocidade a esse avanço é a emissora.’ Ele estima que, com a tendência de queda de preço, o celular com sinal digital chegue a custar R$ 500 até o fim de 2010.


Varga diz que o fato de o brasileiro não ter de pagar para receber o sinal no celular -de forma semelhante ao que ocorre no Japão ou na Coreia- ‘trabalha a favor dessa expansão’. Na Europa e nos EUA, por exemplo, o usuário tem de comprar vídeo ou assinar pacote com acesso aos canais (como se fosse TV a cabo).


‘A TV sobrevive de anúncios. E o celular permite oportunidades de negócio. Na Coreia, quando a TV digital entrou no celular, você ganhou um ‘prime time’ [horário nobre] maior, pois as pessoas continuavam vendo TV ao sair de casa.’


A Rede Globo está desenvolvendo um tipo de conteúdo jornalístico exclusivo para o celular, no qual ‘o telespectador terá acesso a sua programação favorita customizada’. Mas o modelo de oferta e distribuição ‘ainda está sendo estudado’.’


 


Daniel Castro


Travesti aparece como pai de mutante em novela da Record


‘Pela segunda vez em menos de um ano, uma novela da Record terá um personagem travesti. Depois de ‘Chamas da Vida’, agora será a vez de ‘Promessas de Amor’, a terceira e última parte da trilogia ‘Mutantes’, apostar em homem que se veste de mulher.


Walkiria Star (Gilberto Gawronski, ator ainda não confirmado) aparecerá no dia 20 e ficará até o final, em 3 de agosto. Ele será o pai de Marli (Patricia Werneck), mutante que tem capacidade de mudar o tempo -faz nevar e parar de chover.


Mais de 20 anos atrás, antes de virar travesti, Walkiria era casado com Renata (Gorete Milagres). Na novela, há um mistério sobre o pai de Marli. A jovem sempre acreditou que o pai trocou a mãe por outra mulher. Mas ele estava na Itália, fazendo programas.


De volta ao Brasil, Walkiria se apresentará à família. A reação da filha será positiva. Vítima de preconceito por ser mutante, ela criticará o próprio preconceito. E aceitará o pai.


Em ‘Chamas da Vida’, o ator e diretor Roberto Bontempo interpretou Docinho, um travesti amigo de prostituta.


Na reta final, ‘Promessas de Amor’ terá capítulos agitados. O autor Tiago Santiago promete matar um personagem por dia, em série misteriosa.


Thereza Rachel, que acaba de participar de ‘Caras & Bocas’ (Globo), entrará na trama. Interpretará a mãe dos gêmeos Amadeus e Bernardo (Luciano Szafir). E Walmor Chagas, que teve breves passagens nas primeira e segunda fases de ‘Mutantes’, retornará, agora como líder dos reptilianos.


Em baixa no Ibope (hoje está na casa dos oito pontos na Grande SP), ‘Promessas de Amor’ teve seu final antecipado. Dará lugar a ‘Bela, a Feia’.


RESERVA DE LUXO


Guilhermina Guinle, 33, começou na semana passada a gravar ‘Caras & Bocas’. Interpretará Amarilys, uma viúva rica que volta ao Brasil depois de anos vivendo em Paris. ‘Sei que ela vai ter uma história com o [Marcos] Pasquim, que ficará sozinho porque a Ingrid [Guimarães] está grávida e deixará a novela’, conta. Enquanto desvenda Amarilys, a atriz se prepara para estrear como apresentadora do Canal Brasil, em outubro, de uma série em que entrevista cineastas e produtores de cinema de 13 Estados.


DE BEM COM A VIDA


Vem de Bruno, personagem de Thiago Lacerda (foto), a inspiração para o título da próxima novela das oito da Globo, ‘Viver a Vida’. Ele será um fotógrafo que leva uma vida de aventuras, viajando pelo mundo, sobrevivendo de trabalhos temporários. Nos primeiros capítulos, está no Oriente Médio, onde conhece Helena (Taís Araújo) e Luciana (Alinne Moraes). Joga charme para cima das duas, mas só Luciana se envolve com ele. Bruno desaparece e só retorna muitos capítulos depois. Ressurge no Brasil, causando uma reviravolta na vida de Helena e Luciana.


CONCORRÊNCIA 1


Luciano Huck foi na semana passada tema de discussões no Twitter, a rede social mais badalada da internet no momento.. Em menos de um mês, ele agregou mais de 100 mil seguidores. Não bastasse ser famoso, o apresentador distribuiu prêmios, atraindo ‘followers’.


CONCORRÊNCIA 2


A estratégia de Luciano Huck, que distribuiu iPhones e TVs de LCD, causou reações bem e mal humoradas. Uns o acusaram de ‘concorrência desleal’. Outros levaram na brincadeira, e prometeram coisas como macarrão instantâneo para o milésimo seguidor.


REALITY DOG


O SBT está testando um reality show com cachorros. Na semana passada, foi gravado o piloto da atração, que resgatará o título ‘TV Animal’. Daniela Beyruti, diretora-geral da emissora, se inspirou nos cachorros do pai, Silvio Santos, para encomendar o programa ao diretor Ocimar Castro. O reality, na verdade, será disputado por tosadores, que preparam animais e são julgados por uma banca. A cada programa, um tosador é eliminado. ‘TV Animal’ terá outros quadros, como um de dicas de adestramento, e falará de outros bichos.


OPINIÃO PÚBLICA


Fora do ar desde o início do ano passado, Denise Fraga tem boas chances de voltar à Globo em 2010. A cúpula da rede gostou do piloto de seu novo projeto, ‘Norma’, em que interpreta uma pesquisadora que pauta seu próprio comportamento pela média da população. Ela faz pesquisas até para tomar decisões simples -como se deve transar com o homem com quem sairá. O programa terá plateia, que servirá de ‘amostra’ para as pesquisas, e interatividade, via internet. Está sendo visto como uma evolução do ‘Você Decide’.’


 


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Cultura exibe série com sexo, nudez e palavrão


‘‘O Amor Segundo B. Schianberg’, minissérie de quatro capítulos que a TV Cultura estreia hoje, às 22h, promete dar o que falar. Primeira incursão do cineasta Beto Brant na televisão, traz cenas de sexo e nudez jamais imaginadas numa TV pública ou educativa.


Em uma cena, um ator suga os seios da parceira. Em outra, ele fica totalmente nu, vai até a janela e ‘copula’ com o ar. Há nus frontais masculino e feminino, muito sexo (não explícito) e alguns palavrões.


Coprodução da Cultura com o Sesc TV, ‘O Amor Segundo B. Schianberg’ custou R$ 1,3 milhão. Faz parte da terceira leva da série ‘Direções’, que testa na TV cineastas e encenadores, buscando ‘novas abordagens em teledramaturgia’.


Coordenador do núcleo de teledramaturgia da TV Cultura, Pedro Vieira compara ‘O Amor’ a uma obra de arte e nega que a intenção tenha sido a de chocar ou de atrair público.


‘A repercussão que pretendemos é a artística. Não fizemos ‘O Amor’ pensando em audiência. A gente queria uma coisa autoral, nova, radical. Conseguimos um trabalho que tem um vigor no formato, na maneira como foi feito’, diz.


‘Quando a gente procura o novo, corre riscos. Acho que a arte prevalece sempre. Muitas vezes temos que confrontar arte com moral. Mas vejo ingenuidade na obra. Não vejo maldade no nu. Não tivemos intenção de ferir’, diz.


Reality show


‘O Amor’ é uma série de ficção com um quê de reality show. Os atores/personagens dizem que não havia roteiro, que apenas receberam uma sinopse: Benjamin Schianberg, um psicanalista e professor universitário, convence a própria filha a seduzir um rapaz e levá-lo para um apartamento, onde será observado como um objeto de estudo, em um experimento, por meio de oito câmeras robotizadas. A partir desse pressuposto, o casal criou situações e diálogos.


Schianberg é um personagem secundário do livro ‘Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios’, do escritor Marçal Aquino, roteirista de ‘O Invasor’ (2002) e ‘Ação Entre Amigos’ (1998), longas dirigidos por Brant.


Em ‘O Amor’, Schianberg só aparece como narrador, na voz de Felipe Ehrenberg. O verdadeiro Schianberg é Beto Brant. Durante três semanas, em fevereiro deste ano, Brant comandou a captação de imagens da videoartista Marina Previato, 25 (mulher do global Caco Ciocler), e do ator Gustavo Machado, 36.


O casal ficou em um apartamento na Aclimação, em São Paulo. Durante o semiconfinamento (eles podiam sair), Marina gravou um vídeo, cujo resultado ocupa todo o último bloco da minissérie. Em um apartamento vizinho, ficavam a equipe de produção e o diretor.


Intervenção


Em um debate realizado pelo Sesc na última terça-feira, Beto Brant afirmou que fez algumas intervenções, em ‘momentos tumultuados’. ‘Comecei a conversar com ela [Marina] por e-mail, torpedo e por telefone. Havia uma intuição minha de estar lidando com artistas e de tornar aquilo um jogo interessante’, disse.


Após as gravações, que chamou de ‘três semanas de hospício’, o diretor passou dois meses editando as mais de 150 horas de material bruto gravado, com ‘o desafio de criar a coerência de uma história’.


Marina, que interpreta Gala, afirma que tudo no programa é ‘ficcional, forjado’, porém profundo. ‘Foi uma experiência que me virou do avesso, atordoante, tocou em pontos muito íntimos’, conta. Ela revela que encontrou o marido duas vezes durante as gravações.


Gustavo Machado classifica a obra de ‘uma dramaturgia improvisada’. ‘O que acho lindo é que há uma situação muito cotidiana, quase ordinária, e os comentários [de Schianberg] extraem da vida uma poesia linda, que está em todo lugar, brota do azulejo da cozinha’.’


 


***


Minissérie é obra apenas pretensiosa


‘Ou a televisão me deixou burro, muito burro demais, e eu não entendi nada de ‘O Amor Segundo B. Schianberg’, ou a minissérie é apenas uma obra pretensiosa, que mira na teledramaturgia e no reality show, mas não é nem uma coisa nem outra.


O programa parte de uma conjetura interessante (um psicanalista mancomunado com a filha em um experimento sobre o amor), mas não deixa isso claro.


Começa mostrando uma sequência da peça ‘Navalha na Carne’, na qual o ator Gustavo Machado atuava na época das gravações, e logo corta para o apartamento-locação, onde o casal (Machado e Marina Previato) já aparece se amando.


O telespectador tem de adivinhar que Gala (Marina) foi até o teatro e arrastou Felix (Machado) para o experimento do doutor Schianberg, seu pai.


Por não ter roteiro nem as ‘intrigas plantadas’ que o diretor Beto Brant vê nos reality shows, ‘O Amor Segundo B. Schianberg’ apresenta momentos sonolentos, chatos, com closes em formigas, papos-cabeça, longos minutos de jogos de cartas. Tudo isso apenas com o barulho de carros, buzinas, cães e pássaros ao fundo.


Brant afirmou que, na edição, buscou criar a coerência de uma história. É preciso uma dose de condescendência para concordar com essa fala. Não fossem as pontuações de Benjamin Schianberg, personagem oculto, não haveria história alguma.


É graças a Schianberg que sabemos que, embora Gala esteja apenas deitada ao lado Felix, falando de seus dreadlocks, estamos diante de um ponto de tensão máxima, pois ‘o experimento chega ao momento decisivo’, ‘é hora de examinar os ferimentos de guerra’.


Como o cobaia Felix não sabia que fazia parte de uma experiência, o diretor optou por uma iluminação natural. Em muitos momentos, não há luz alguma, e as imagens ficam escuras, granuladas, de má qualidade mesmo.


‘O Amor Segundo B. Schianberg’ tem algum parentesco com ‘Eu Sei que Vou Te Amar’ (1986), filme de Arnaldo Jabor quase todo passado dentro de uma casa. Aqui, o sexo tenta compensar a falta de ação. É o ‘voyeurismo-cabeça’.


O AMOR SEGUNDO B. SCHIANBERG


Diretor: Beto Brant


Onde: TV Cultura


Quando: hoje, 22h


Classificação indicativa: 16 anos


Avaliação: ruim’


 


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Julio Abramczyk


O perigo da propaganda de remédios


‘A propaganda é uma das formas mais conhecidas para divulgar uma informação.


No caso das que são relacionadas à saúde, existem normas a serem cumpridas para evitar graves riscos à saúde da população.


Estudos mostram que de 90% a 100% da publicidade exibida no Brasil contém irregularidades na propaganda de medicamentos, como afirma Álvaro César Nascimento, da Escola Nacional de Saúde Publica Sérgio Arouca/Fundação Oswaldo Cruz, na revista ‘Ciência e Saúde Coletiva’.


Apesar de ser obrigatória a exibição das contraindicações do remédio em sua propaganda, Nascimento assinala que ela é apenas substituída pela frase ‘contraindicado para as pessoas com hipersensibilidade aos componentes da fórmula’.


Como a publicidade é dirigida para o nome fantasia do medicamento, e a maioria das pessoas não conhece o princípio ativo de drogas que possam lhe fazer mal, podem surgir graves problemas.


Da mesma forma, a frase ‘a persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado’ estimula a automedicação, já que sugere a procura de atenção médica se não houver melhora após o uso do medicamento.


Dessa forma, afirma Nascimento, o modelo brasileiro regulador da propaganda farmacêutica, a RDC 102/ 2000 da Anvisa, serve apenas para dar a aparência de uma regulação que, na prática, não existe, já que a ação reguladora é realizada após a veiculação da peça publicitária. A população, que já foi motivada pela publicidade, poderá consumir um remédio inadequado à sua saúde.


O autor assinala ainda que as multas podem ser consideradas irrisórias em relação aos gastos efetuados com a propaganda.


Concluindo, Nascimento sugere alteração na estrutura do atual modelo de controle e um debate relacionado à aprovação prévia das peças publicitárias pelo sistema de vigilância, para prevenir riscos à saúde.’


 


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