Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ENTRE ASPAS >

Folha de S. Paulo

01/09/2009 na edição 553

PUBLICIDADE

Editorial

Propaganda para crianças

‘É UM bom sinal que 24 empresas do setor alimentício tenham decidido banir a propaganda voltada para crianças de até 12 anos em programas de TV com audiência formada majoritariamente por esse público. A restrição se estende a seções de jornais e revistas, sites e programação de rádio com características semelhantes.

A proposta reconhece que crianças, mais vulneráveis, devem ser protegidas de alguns tipos de publicidade. Pena que a elogiável decisão corra o risco de se revelar inócua, pois nenhuma atração da TV aberta ou dos canais por assinatura possui mais 30% de público dentro da referida faixa etária. Apenas a TV Cultura leva ao ar programas que se enquadram nos termos propostos, mas a própria emissora não aceita publicidade nesses casos.

É sintomático que a medida tenha sido anunciada no momento em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária coloca em consulta pública uma série de normas para cercear a propaganda de alimentos dirigida as crianças.

O órgão quer proibir anúncios de itens com baixo valor nutricional e vetar o recurso a brindes, desenhos e personagens admirados pelo público infantil na divulgação desses produtos.

A autorregulamentação é a melhor resposta ao problema. Antecipando-se às demandas da sociedade, a indústria tem mais chances de evitar a indesejável intervenção do Estado por meio de leis draconianas. Iniciativas como a da Anvisa representam uma ameaça de tutela indevida sobre a liberdade dos indivíduos e o discernimento dos pais acerca do que é melhor para os filhos.

Seria louvável se os próprios fabricantes pensassem em desativar linhas de produtos reconhecidamente prejudiciais à saúde infantil e se entendessem a restrição à publicidade para crianças como algo efetivo, e não apenas um lance de marketing politicamente correto.’

 

HISTÓRIA

Elio Gaspari

‘1808’, um sucesso de simplicidade e trabalho

‘O ‘1808’, do jornalista Laurentino Gomes, bateu a marca mágica dos sucessos editoriais e entrou na 100ª semana de presença nas listas dos livros mais vendidos. Para quem acha que brasileiro não lê, foram 500 mil exemplares. Na categoria de trabalhos de não-ficção de autores nacionais, a melhor marca está com ‘Estação Carandiru’, do médico Drauzio Varela, lançado em 1999, que chegou a 160 semanas.

Há poucas semanas a professora canadense Margaret MacMillan publicou um livro sobre as atuais dificuldades da historiografia, contando que uma estudante decidiu estudar um período porque ele estava ‘subteorizado’. Laurentino foi na direção oposta. No ‘1808’ não se encontram expressões como ‘burguesia mercantil’ ou ‘pacto colonial’. É uma obra simples, dividida em 29 pequenos capítulos, contando a chegada de d. João 6º ao Brasil. Mostra que ele não foi o paspalho retratado pela burrice convencional.

Por trás do sucesso de ‘1808’ há uma lição. Em 2007, quando Laurentino percebeu o próprio êxito, resolveu cavalgá-lo. Contratou uma assessoria que rastreou as vendas do livro, reinventou a obra lançando uma edição juvenil, um audiolivro, uma caixa com DVD, criou um sítio na internet e entrou no Twitter. Gastou R$ 300 mil do seu bolso (mas ganhou R$ 2 milhões). Deixou o emprego que tinha na Editora Abril e, nas suas palavras, ‘botei o pé na estrada’. Visitou 60 cidades, fez 250 palestras, autografou 5.000 exemplares e respondeu a 10.000 e-mails.

É dura a vida de um autor. Há seis meses ele descobriu (graças aos leitores) que a Editora Planeta rodara 8.000 exemplares embaralhando capítulos de uma biografia de Indira Gandhi. Pior: esse reparte fora mandado para livrarias da internet para ser vendido a R$ 9,90 e acabara em livrarias a R$ 40.

Laurentino publicará em setembro de 2010 seu novo livro, ‘1822’, pela Ediouro. Para recontar a história da Independência, ele foi ao sertão piauiense e visitou o campo da batalha de Jenipapo, em Campo Maior.

Nela morreram 400 brasileiros ignorados pela história. Deles há a lembrança dos túmulos e um monumento de concreto, perdido numa mata de carnaúba.’

 

TELEVISÃO

Daniel Castro

Grazi faz ‘intensivão do mal’ para interpretar primeira vilã

‘Vilã da próxima novela das sete da Globo, a ex-big brother Grazi Massafera está passando por uma espécie de ‘intensivão do mal’. Na trama, ela trocará a aparência de mocinha amorosa pela de uma chefe de segurança de um megaprédio. Sua personagem treinará um ‘exército’ de guardas do mal. A atriz aparecerá sem os cabelos longos.

A preparação de Grazi começou há três semanas. Ele vem tendo aulas de lutas marciais com Dani-Hu, mestre em kung fu e preparador de elenco.

Os treinos ocorrem cinco vezes por semana. Vão continuar intensos até janeiro, quando a novela de Bosco Brasil entra no ar. Depois, ela continuará treinando para manter as técnicas que aprendeu. A ideia é ensinar a Grazi como golpear, fazer acrobacias e se movimentar como exímia lutadora.

Na última quinta-feira, Grazi visitou o Bope, o batalhão de polícia retratado no filme ‘Tropa de Elite’. Lá, ela aprenderá técnicas de rapel. A atriz também visitará uma central de monitoramento de um grande shopping center. O edifício em que Deodora, sua personagem, trabalhará será todo monitorado por câmeras.

Na novela, Grazi terá como parceiro de vilania o ator Guilherme Weber. Ele interpretará Albano, diretor de segurança. Durona, Deodora se derrete para Albano. E acata suas ordens para treinar um ‘exército’ de seguranças que tomará o controle do megaprédio, numa metáfora a golpes de Estado.

Todo o elenco da novela se reunirá entre 8 e 19 de setembro, no Projac, para uma série de palestras. Entre os palestrantes estará o cantor Arnaldo Antunes, que falará sobre São Paulo.

MITOLOGIA MUSICAL A Globo definiu na semana passada seu primeiro especial de fim de ano. Será ‘Dó-Ré-Mi-Fábrica’. O programa repetirá a parceria de ‘O Natal do Menino Imperador’ (2008): Denise Saraceni na direção e texto de Péricles Barros, 43. O especial trará uma fábrica de instrumentos que atravessa o tempo. Da fábrica saíram o alaúde de um faraó, um piano de Mozart e uma guitarra de George Harrison. ‘Vou brincar com esse imaginário, dar uma mitologia para os instrumentos’, diz Barros, que se inspirou em filmes que viu ‘quando era criança’. Ele diz que o especial não será uma ópera, mas deverá ter musicais. Barros recusa o rótulo de programa infanto-juvenil: ‘Vejo como programa para toda a família’.

ATAQUE ANIMAL

Depois de conquistar Richard Rasmussen, do quadro ‘Selvagem ao Extremo’, o SBT está tentando seduzir outro produtor de conteúdo ‘animal’ para o ‘Domingo Espetacular’, da Record. Negocia com o veterinário Alexandre Rossi, apresentador do quadro ‘Dr. Pet’.

VOU DE TÁXI

Luciano Huck grava nesta semana como entregador de pizza em Nova York. Ele dará plantão numa pizzaria de brasileiros. Atenderá ao telefonema de um cliente, aleatoriamente, e fará a entrega pessoalmente. Mas, irá de carro -diferentemente dos entregadores de SP.

SEGUNDA CHANCE

‘Ger@l.com’, seriado adolescente e multimídia que a Globo exibiu em julho, em cinco curtos episódios, terá uma segunda temporada em 2009. Os trabalhos recomeçam nesta semana. A série é estrelada por cinco garotos que tocam em uma banda real, a WWW.

CANTA E DANÇA

Camila Pitanga vai mostrar seu lado cantora na próxima gravação do programa ‘Som Brasil’, da Globo, que ela apresenta. A atriz, que vive cantando atrás das câmeras, vai interpretar ‘Bêbado Samba’ em edição que homenageará o músico Paulinho da Viola.

FRIO NA BARRIGA

Depois de 35 anos trabalhando com Silvio Santos, Gugu Liberato, 50, estreia hoje na Record, às 20h. Terá como concorrente justamente o ex-patrão -na quinta, o SBT anunciou que o ‘Programa Silvio Santos’ irá ao ar das 20h à 0h. ‘Estou no meu horário. Ele [Silvio Santos] é que mudou’, comenta Gugu, que não contava com o confronto direto. ‘Esperava que isso ocorresse durante uma hora, não o programa todo’, afirma. Sobre seu novo programa, Gugu tenta fazer mistério. ‘Teremos algumas surpresas e o Blue Man Group ao vivo’, diz.

PESO DA VIDA

Filha de Vera Fischer, Rafaela Fischer, 30, já sofreu muito por ser gordinha. Hoje enxuta graças a muita ginástica, Rafaela se deparará com o drama do controle do peso em seu primeiro trabalho na TV. Em ‘Viver a Vida’, próxima novela das oito, sua personagem, estudante de psicologia, ajudará Renata (Bárbara Paz) a superar a depressão. A amiga sofrerá de drunkorexia, em que mulheres trocam comida por álcool, para não engordar.’

 

Janaina Lage

Médico e louco

‘Depois de resolver todos os tipos de quebra-cabeça na medicina, House retorna à TV na sexta temporada com o desafio de solucionar um problema ainda mais engenhoso: recuperar sua sanidade. Internado em uma clínica psiquiátrica após mostrar sinais de confusão entre realidade e delírio, o médico é obrigado a passar por um processo de autoanálise.

Em entrevista para seis jornalistas da América Latina, que incluiu a Folha, o ator Hugh Laurie define essa fase como uma passagem pelo ‘purgatório’, responsável por desencadear mudanças no seriado líder de audiência no país. Ele sairá da clínica, mas pelo menos durante um período não poderá exercer a profissão.

O ator evita dar pistas, mas os personagens da atriz Jennifer Morrison (Cameron) e Jesse Spencer (Chase) voltarão para a equipe.

House pode estar perto de um processo de autoanálise, mas, para o ator, ele ainda não está pronto para relações duradouras. Laurie joga um balde de água fria nas pretensões românticas de quem ainda torce por um envolvimento mais substancial com a chefe dele no seriado, Lisa Cuddy (interpretada por Lisa Edelsten). Para ele, o enlace estragaria uma das principais tensões da série.

‘Os dois personagens são solitários, pessoas que fizeram sacrifícios emocionais para alcançar algo. Eles encontram algo irritante e atraente um no outro. Talvez seja verdade que só alguém de quem você gosta possa te irritar, caso contrário simplesmente não importa.’

Laurie rechaça, em princípio, qualquer semelhança com o médico que vive na TV. Após alguns minutos, no entanto, emenda que a convivência prolongada com assuntos como doença, morte e cinismo podem ter talvez algum ‘efeito corrosivo’ ao longo do tempo. O ator, pouco afeito a entrevistas, mostra sinais de inquietude e se prende a detalhes para manter a concentração, como enumerar todas as marcas de gravadores dos repórteres.

A estratégia é similar à que usa para vencer o nervosismo em cena. Questionado sobre o assunto, rebate ironicamente que se controla à base de fartas doses de vodca para em seguida explicar que procura criar distrações para a mente em cada tomada, como fixar a atenção em um determinado ponto do cenário. ‘Parece trivial, e é. Afinal, é um programa de TV. Então, no fundo, tudo é trivial.’

Alto salário

Ele diz se sentir ainda hoje um amador. Atribui a insegurança ao fato de considerar que tem pouco treinamento. Formado em antropologia, o ator é hoje um dos mais bem pagos na TV, com um salário de US$ 400 mil por episódio. A popularidade da série é tal que ele afirma ter dificuldades para passear na Europa, embora em seu próprio país, a Inglaterra, a repercussão seja menor.

Parte da inspiração para a criação de House começou em casa. Laurie é filho de um médico vencedor da medalha olímpica de remo. ‘Eles são bem diferentes, mas isso me deu uma certa reverência pela lógica, pela ciência e pelo empirismo. Meu pai era um homem muito sábio, e de certa forma House também é, embora seja também infantil’, diz.

A própria longevidade do personagem parece surpreendê-lo. ‘Ouvi no rádio que a média de permanência no emprego nos EUA hoje é de três anos e meio. Já faço esse papel há seis anos. É mais tempo do que se eu trabalhasse num banco.’

Fora do estúdio, Laurie diz ver pouca televisão, mas acompanha o seriado ‘Law & Order’, que mostra a investigação de casos de assassinato pela polícia. Diz que fica atraído pela fórmula do ‘eu sabia que tinha sido o cara da mercearia’, mas que tem uma relação estranha com o programa: só assiste quando se sente meio doente; quando está bem, fica meio doente ao assistir.

Nas horas vagas, divide o tempo entre tocar piano, dirigir motocicleta e praticar boxe, uma atividade que diz executar terrivelmente. ‘É a coisa mais difícil que já tentei aprender. É humilhante, mas faz parte do meu apreço por especialistas, gosto de gastar tempo com alguém que é mestre em algo que não sei fazer’, diz.

Aos 50 anos, o currículo do ator traz de fato um gosto pela diversidade. Ele faz parte da Band from TV, um grupo musical que se apresenta em eventos de caridade. Já compôs músicas, escreveu seriados para a TV inglesa, dois romances e atuou em filmes tão variados como ‘Razão e Sensibilidade’ e ‘O Pequeno Stuart Little’.

Na lista do ator, há ainda um pouco conhecido filme rodado no Brasil: ‘Girl from Rio’ (garota do Rio), em que interpreta um funcionário de banco fascinado por samba que resolve ir ao Rio de Janeiro no fim do ano após flagrar a mulher com o chefe e decidir, por impulso, roubar o banco onde trabalha.

Questionado sobre suas habilidades como dançarino de samba no filme, ele ri. As cenas ainda estão disponíveis no YouTube e mostram Laurie dançando até na areia da praia.

Para encarar o personagem, ele treinou por três semanas em Londres com um casal de dançarinos brasileiros. ‘Se em algum momento você sentir que precisa ser colocado para baixo, precisa reduzir sua confiança física, tente dançar entre dois brasileiros na frente de um espelho. Eles eram duas das pessoas mais bonitas que já vi na vida, e no meio havia aquele homem que parecia estar caindo da escada’, conta.

O treino lhe rendeu frutos. Em visita a uma escola de samba, foi o primeiro convocado para a pista e sambou com seis mulheres. ‘Passei um tempo maravilhoso no Brasil.’

O sexto ano de ‘House’ estreia no dia 21 de setembro dos EUA e no dia 22 de outubro no Brasil, na TV paga pelo Universal Channel.’

 

Marcelo Rezende

Comédias na BBC lançaram o ator inglês

‘De início os números, mostrando a dimensão do espaço que o ator Hugh Laurie ocupa na indústria da diversão e em nossas vidas: cada episódio da série ‘House’ na temporada passada foi visto por 81,8 milhões de pessoas em 66 países.

Essa é a cifra modesta. Segundo dados da TV Worldwide, há 1,6 bilhão de espectadores considerados fãs de ‘House’.

Não perdem um episódio e dizem ‘I Love Hugh’ do mesmo modo que a primeira geração educada com a televisão dizia ‘I Love Lucy’ nos anos 50 -diante do seriado que marcou o início da era das séries televisivas.

‘House’ está em toda parte. Seu merchandising (tudo o que se puder imaginar) faz de Hugh Laurie um rosto constante na paisagem. Hugh é o dr. House, e dr. House é Hugh, assim como Lucille Ball sempre foi Lucy..

House é cínico, desumano, sádico e com leve tendência a amoralidade. Mas isso não faz dele menos atraente, brilhante e sexy. Assim é House.

E quanto a Hugh Laurie?

Bom, basicamente, Hugh Laurie é inglês. Para ele tem sido mais do que o suficiente.

Antes de ser mundialmente famoso com ‘House’, Hugh Laurie era nacionalmente conhecido pelos esquetes cômicos na BBC. Depois, quis Hollywood, que aparentemente preferiu dizer não a ele. Terminou aparecendo em ‘O Pequeno Stuart Little’ (1 e 2!), e pouco mais aconteceu. Isso até o projeto ‘House’. Uma série para a TV sobre um médico incapaz de ‘ter sentimentos’.

Para a produção era necessário um ator hábil em inspirar simpatia com um personagem para o qual a antipatia é o perfume da vida.

Um inglês, os produtores imaginaram. O público americano confia neles. Hugh Laurie foi escolhido. Possuía carisma e a capacidade de criar instantes de comédia no auge de qualquer drama hospitalar. Fino humor britânico.

MARCELO REZENDE é autor do romance ‘Arno Schmidt’ e do ensaio ‘Ciência do Sonho – A Imaginação sem Fim do Diretor Michel Gondry’’

 

Inácio Araujo

Seriados precisam decidir qual a hora do final amargo

‘Um problema delicado que se coloca para os criadores de séries é: quando acabar?

Seriados de TV têm se mostrado um ótimo instrumento para desenvolver personagens, algo que o cinema contemporâneo não permite aos filmes de grande orçamento.

A série, por natureza, oferece a seus realizadores essa matéria tão delicada: o tempo. Do momento em que é aceita pelo espectador, este se torna cúmplice dos desdobramentos e da crescente complexidade que adquirem as situações e os personagens do programa.

‘A Sete Palmos’ me parece o exemplo de um seriado que, ao chegar à quarta temporada, não tinha mais nada de novo a dizer ao espectador e passou a patinar, virou uma espécie de novelão à espera de um final capaz de redimi-la.

Talvez por excesso de precaução, ‘Deadwood’ terminou quando o antigo garimpo, que ao final do terceiro ano começava a se tornar uma cidade normalizada, se aproximava de uma eleição decisiva. Seus idealizadores recusaram-se até mesmo a fechar a trama, não se dando ao trabalho de definir qual seria o resultado da tal votação política.

Mau humor eterno

E quanto a ‘House’? O genial médico poderia ainda prodigar suas tiradas cheias de incorreção política e ótimo mau humor por um bom tempo.

Mas, por mais que seja doloroso, é preciso admitir, o melhor já passou: tudo o que temos são variantes adaptadas a novas situações.

O mesmo se pode dizer dos coadjuvantes. Por temor à monotonia, a primeira equipe de médicos de ‘House’ foi desfeita em dado momento. Deu lugar a uma sonolenta escolha de novos assistentes.

Fixada a nova equipe, a anterior acabou, pouco a pouco, por voltar à ativa, ou pelo menos a manter-se de plantão, nas imediações, para eventuais emergências -como indicam os rumores na internet, eles voltarão realmente a incorporar a trama principal do seriado.

O próprio House, vamos admitir, dá sinais de cansaço. Todo o final da quinta temporada, puxado a alucinações pouco sutis e dedicado a desenvolver a progressiva insanidade do prodigioso doutor, indicava um cansaço não tanto dos personagens quanto dos roteiristas em criar situações originais sem abandonar os elementos-chave formulados ao longo do tempo.

As séries trazem o inconveniente de levar o espectador a uma longa e perversa familiaridade com os personagens, ao fim da qual eles se tornam como que pessoas mesmo, das quais ele não quer se separar, apesar da fadiga.

Encerrá-la é uma decisão dolorosa, não muito diferente da de dar fim aos namoros: é sempre amarga, mas, chega uma hora, indispensável.’

 

Laurie lança seu segundo romance

‘A ironia e o sarcasmo de Hugh Laurie não estão restritos apenas à TV. No fim de setembro, será lançado seu segundo romance, ‘The Paper Soldier’ (o soldado de papel).

Ele diz que o livro sai com seis anos de atraso e que foi muito mais difícil do que o primeiro, ‘The Gun Seller’ (o vendedor de armas), mas não fala mais nada sobre o tema.

O anterior, de 1996, trata de ex-oficial do Exército britânico que se vê numa conspiração de comerciantes de armas, terroristas, a CIA e motocicletas.

O thriller teve edições na Inglaterra e nos EUA e já foi adaptado para o teatro. ‘Pensei em pular direto para o terceiro livro. O primeiro é uma espécie de sumário de todas as coisas que pensei a vida inteira. Da segunda vez você tem menos de onde tirar’, diz.’

 

Audrey Furlaneto

Autor quer fazer novela das oito ‘ao vivo’

‘‘Envelhecer gera uma angústia, uma apreensão porque, por mais que viva, você tem pouca vida pela frente, não é?’, diz Manoel Carlos, apoiando o queixo sobre a bengala de madeira que usa para caminhar nas ruas do Leblon, bairro onde vive, na zona sul do Rio.

‘Eu não me considero uma pessoa com medo de morrer, mas, mesmo sem o medo, você tem uma certa urgência, uma certa pressa’, diz. Autor de sucessos de audiência no horário das oito da Globo, ele assina agora a novela ‘Viver a Vida’, que estreia no próximo dia 14.

E completa: ‘É aquele negócio: um dia a mais é um dia a menos. Gera uma intranquilidade. Mas, eu, particularmente, tenho encontrado bastante paz nesse sentido. Porque estou com 76 anos, escrevo 12, 14 horas por dia e tenho disposição para o trabalho’.

Ao todo, Maneco, como é conhecido, escreve de 40 a 50 páginas diariamente para a nova novela, que, apesar de suas aflições com a velhice, terá a mais jovem Helena da história de suas protagonistas. A personagem praticamente fixa nas tramas do autor desde ‘Baila Comigo’ (1986) será vivida agora por Taís Araújo.

De sua ‘urgência’, a novela vai herdar ‘capítulos quase quentes’. ‘Queria ver o capítulo hoje e escrever o de amanhã’, diz ele, que, minutos antes, apontava a ansiedade como um problema ao envelhecer: ‘Viver a vida é estar em paz com esse universo meu, estar tranquilo, sem grandes ansiedades. O problema é a ansiedade. Estar cheio de desejos. Isso é que, às vezes, gera intranquilidade. É preciso estar calmo’.

Novela verdade

Maneco, que já costumava incluir ‘várias coisas por adendos no dia da gravação ou um dia antes’, quer agora ‘estreitar ao máximo a distância entre escrever e produzir’.

A novela quase ao vivo do autor exige agilidade -e paciência- de seu elenco: em ‘Páginas da Vida’ (2006), os atores reclamavam por ter de decorar os tais adendos no dia ou horas antes da gravação.

Em ‘Viver a Vida’, ele diz que já avisou Camila Morgado, que fará o papel de uma comentarista de economia, da possibilidade de entrar até mesmo ao vivo. ‘Ela sabe disso: pode ser chamada se acontecer uma coisa muito grave na economia’, afirma.

Segundo ele, o diretor da trama, Jayme Monjardim, aceitou a proposta. Já quanto à viabilidade técnica, o autor é mais vago: ‘Pode ser ao vivo, pode não ser. Se der para gravar 15 minutos antes, pode ser. Normalmente não dá’.

Outra de suas ideias é ligar uma notícia do ‘Jornal Nacional’ a ‘Viver a Vida’. ‘A crise no Senado, a crise econômica, a morte do Michael Jackson, é evidente que eu aproveitaria [na trama]. É tão fácil meter um ator no estúdio e fazer um comentário’, diz o autor.

Talvez por isso Maneco goste de dizer que suas novelas são ‘verossímeis’. ‘Tenho o rótulo por aí de fazer novelas realistas.. Eu não acho. Faço novelas coerentes com a realidade. Ninguém voa nas minhas novelas.’

Mesmo assim, ele afirma que, por ser obra de ficção, ‘a novela se presta a qualquer coisa’. ‘A Record não está fazendo uma novela por tanto tempo sobre seres mutantes? Qual é o problema? Acho absolutamente válido. Tanto é válido que dá audiência’, diz.

Longe de ter mutantes, ‘Viver a Vida’ é uma espécie de mais do mesmo do autor: os protagonistas, como em tramas anteriores, são ricos e apaixonados, há personagens com dramas de saúde etc.

‘No capítulo cinco, os espectadores já dizem: esse cara vai ficar com aquela moça. Eles sabem tudo, do hábito de ver novela. Porque as novelas têm códigos imutáveis’, diz.

Não é sinal de que as tramas são previsíveis? ‘Por que é que vocês se surpreendem tanto com isso? Cada autor faz o que quer’, conclui.’

 

Bia Abramo

A curva de interesse e o hábito de assistir

‘AS TRAJETÓRIAS das novelas do horário mais nobre da Globo, o das ‘oito’ -que são exibidas às 21h e em geral adentram para além das 22h-, parecem seguir um padrão. Mesmo que precedidas por ampla divulgação, tanto pela mídia da emissora como pela mídia espontânea (notícias e reportagens espalhadas por quase todos os veículos de comunicação), começam com audiência abaixo das expectativas.

As razões são tantas -a história é ruim, o/a ator/atriz não segura o personagem, a ambiência é esquisita, até a abertura e a música-tema já foram consideradas responsáveis- quanto as variações em cima dos mesmos temas que costumam constituir a ‘alma’ dos novelões.

Aos poucos, autores, produção e elenco vão encontrando o caminho para manter os televisores ligados. Pode demorar mais ou menos, exigir guinadas radicais, requerer um número maior ou menor de cenas de impacto, mas, de maneira geral, elas se aprumam. Na reta final, acabam por conquistar uma fidelidade maior, bem como outras fatias do público que até então estavam mais ou menos indiferentes àquela trama.

Essa breve e algo imprecisa descrição do ritmo de uma novela pode ser interpretada de diversas maneiras. Qualquer uma delas, certamente, terá de levar em conta a permanência do gênero, no mínimo como um hábito. Tenta-se resistir, mas, depois, sucumbe-se.

Há, entretanto, algumas indagações que poderiam levar a questões mais interessantes. Quem, no sentido de quais grupos sociais, etários ou de gênero, relutam inicialmente? Por que o fazem? O que esses indivíduos gostariam de assistir, que não a novela? O que está nela que demora a ser atraente para parte dos telespectadores? E quando, finalmente, se rendem aos poderes das novelas, quais são os motivos? A novela ‘melhora’ de alguma forma na percepção desses grupos? Ou é uma espécie de comportamento de manada, ou seja, vê-se a novela simplesmente por que está se falando tanto dela?

E, bastante importante, em que medida a cobertura extensiva e intensiva que recebe a novela, de veículos especializados ou não, interfere nessa espécie de ‘conversão’?

Vendo a novela, qualquer uma, à distância, parece que cada vez menos importam a história, os personagens, o maldito merchandising social, a perfídia da vilã ou a bondade da mocinha: o destino já está, de certa forma, traçado. Não importa quanta pestana se gaste, a curva do interesse não varia.

Agora vendo a novela, como esta que está terminando em mais duas semanas, mais de perto, a gente se arrisca a morrer de tédio.’

 

INTERNET

Mônica Bergamo

YouTube, no evento Digital Age 2.0, em SP

‘Em almoço em SP, Chad Hurley, do YouTube, diz que não compartilha vídeos com o mundo e que, ‘a partir de um certo ponto’, não importa se você tem US$ 5 milhões ou US$ 5 bilhões

Chad Hurley, um dos criadores do YouTube, o site de compartilhamento de vídeos mais acessado do mundo, até gosta de filmar seus momentos com os amigos e a família. Mas, ao contrário de boa parte dos que alimentam a página, ele seleciona o modo privado na hora de subir os vídeos para o site. ‘Não gosto de me expor. Não vejo muito sentido em ficar mostrando ao mundo o que eu faço’, diz o jovem milionário de 32 anos.

De calça jeans, camisa listrada, blazer azul marinho e cabelos cujos fios loiros não saem um milímetro do lugar, Hurley passa longe do estereótipo de nerd. Em sua breve estada no Brasil -ele veio ao país na semana passada para um evento de tecnologia, o Digital Age 2.0. -, chegou a ser comparado no Twitter ao personagem Príncipe Encantado, da série de filmes ‘Shrek’.

Sua fortuna é estimada em até 530 milhões de libras pelo jornal inglês ‘Independent’. Mas ele diz levar uma vida comum e enaltecer a paixão pelo trabalho em detrimento do dinheiro que consegue com ele.

Simpático e acessível até o ponto que alguém que é responsável por uma grande empresa consegue ser, Hurley almoçou com jornalistas na quinta-feira, no restaurante Ecco, que tem entre seus sócios João Paulo Diniz, Luciano Huck e João Armentano. A repórter Daniela Arrais sentou-se bem em frente a ele.

Ao chegar, meia hora atrasado, carregava um copo de chá Matte Leão que o acompanhou durante todo o almoço. Comeu ravióli de mussarela de búfala com molho de tomate fresco e manjericão.

Na noite anterior, Hurley foi visto na boate Pink Elephant, no Jardim Europa, reduto de música eletrônica que tem atraído celebridades como o jogador Ronaldo, do Corinthians. Também passou pelo restaurante Brasil a Gosto. Na sua passagem de três dias por São Paulo, ouviu repetidamente a mesma frase: ‘Todo mundo falou ‘você tem que ir ao Rio de Janeiro’.

Hurley criou o YouTube em 2005, em parceria com os amigos americanos Steve Chen e Jawed Karim. Queria fazer uma ferramenta simples, que permitisse o envio e a visualização de vídeos na internet de maneira rápida. Antes de criar sua galinha dos ovos de ouro, trabalhou como designer de um site, atuou como consultor de tecnologia e chegou a ser produtor do filme ‘Obrigado por Fumar’, de Jason Reitman.

Pouco mais de um ano depois de criar o YouTube, o gigante Google comprou a ferramenta por US$ 1,65 bilhão.

Hurley virou um milionário. Mas diz que tenta não pensar no assunto. ‘A partir de certo ponto, não importa se você tem US$ 5 milhões ou US$ 5 bilhões’, diz. ‘Penso que sou um cara normal. Tento não ficar paranoico, pensando em concorrência’, disse.

Ele afirma que sua rotina é acordar, checar e-mail, ficar com a família, ir para o trabalho. Viaja várias vezes por mês, quase sempre em missões profissionais. Quando volta para casa, não liga a TV para relaxar. ‘Como todo mundo, ligo o computador, checo e-mail.’

Na palestra no Brasil, o empresário decretou que a internet vai matar a televisão. ‘A ideia de uma família sentada no sofá, às 20h, esperando um programa, não vai mais existir.’

Mas ele tem um programa ou seriado favorito de TV, por exemplo? ‘Não’, afirma. ‘Gasto meu tempo vendo vídeos no YouTube. Gosto de esportes. Então, quando tenho tempo, fico assistindo a uma partida de um jogo qualquer.’

O gosto por esportes se transformou em negócios: Hurley virou investidor da Fórmula 1, por ser uma área que mistura oportunidade com tecnologia, design e esporte, suas paixões. Ele será sócio da primeira equipe norte-americana em mais de 40 anos. E não revela para quem torce atualmente. ‘Mas o Lewis Hamilton [piloto da McLaren] tem feito uma boa campanha.’

Sempre político e defensor da diversidade dos vídeos do YouTube, Hurley se recusa a enumerar os seus favoritos. ‘Gosto dos que me fazem rir ou de vídeos que falam sobre alguma coisa que afeta a sociedade, como os que mostravam protestos no Irã.’

Do Brasil, acaba citando um de seus preferidos: ‘Dança do Quadrado’, um funk carioca protagonizado por um homem gordo, um magricela e um anão. E ainda lembra ‘daquela menina do Crossfox’, a garota Stefhany, que ganhou fama primeiro no YouTube e depois fora do mundo virtual ao cantar ‘eu sou linda, absoluta, eu sou Stefhany’. O vídeo, em que ela faz alusão à marca do carro citada por Hurley, já conta com mais de 225 mil visualizações.

Hurley ostenta uma aliança na mão esquerda, mas não fala de sua vida pessoal. De acordo com perfis na internet, ele é casado com Kathy Clark, filha do empresário do Vale do Silício Jim Clark, com quem tem dois filhos. Ao contrário do que era de se esperar, o empresário não deixa as crianças passarem horas no YouTube.

Como acha que o YouTube será daqui a dez anos? ‘É difícil, porque não existimos nem há cinco anos. Não faço ideia. Estamos desenvolvendo soluções para hoje, olhando para o futuro. Espero que a experiência do usuário seja mais rápida, que o catálogo de vídeos seja mais completo e diversificado’, diz Hurley. ‘Vai haver carros voando, máquinas do tempo…’, prevê ainda o empresário.

UM DIA DE 34.560 HORAS

O YouTube (www.youtube.com) é a comunidade de vídeos mais popular da internet. É, também, o segundo maior mecanismo de busca da rede nos EUA, ficando atrás apenas do Google, que o comprou em 2006 por US$ 1,65 bilhão.

A cada minuto, diz Hurley, usuários do site enviam o equivalente a 24 horas de conteúdo para o site, ou 34.560 horas por dia em vídeos, que são armazenados em centros de dados espalhados pelo mundo.

Para conseguir enviar toda essa quantidade de dados, o YouTube paga cerca de US$ 1 milhão por dia de conexão, segundo a ‘Fortune’. Em janeiro, mais de 100 milhões assistiram a 6,3 bilhões de vídeos.

A base do YouTube é composta, principalmente, por usuários que têm entre 18 e 55 anos, divididos igualmente entre homens e mulheres. Cinquenta e um por cento dos usuários acessam o YouTube semanalmente ou com mais frequência e 52% das pessoas com 18 a 34 anos compartilham vídeos frequentemente com amigos e colegas.’

 

Sérgio Dávila

Nós não vamos pagar nada?

‘Chris Anderson, editor da revista de tecnologia e novas tendências ‘Wired’ e um dos pensadores da internet, é o promotor de dois conceitos muito caros a esse meio. O primeiro é a ‘teoria da cauda longa’, estratégia de negócio segundo a qual a meta é vender poucas unidades de muitos e variados itens, o que substituiria o popular modelo dos ‘best-sellers’.

O segundo é o que ele chama de ‘freeconomics’ ou a economia das coisas de graça, alicerçada no fato de que o custo de armazenamento e transmissão de conteúdo digital baixa cada vez mais. De onde vem o dinheiro? Do conceito ‘freemium’, junção das palavras ‘free’ e ‘premium’: a maioria consome de graça (‘free’), bancada por uma minoria que paga por uma versão de mais qualidade (‘premium’).

Ambos os conceitos foram desenvolvidos em artigos, viraram palestras e livros.

O segundo surgiu recentemente em livro nos EUA e chegou neste mês ao Brasil. É ‘Free – O Futuro dos Preços’ (Free – The Future of a Radical Price, no original). Nele, e na entrevista que deu à Folha por telefone, Anderson defende que, sim, diferentemente do que popularizou o economista Milton Friedman (1912-2006), existe almoço de graça -desde que a sobremesa seja bem paga por alguém.

Nos EUA, a versão eletrônica do livro ficou disponível gratuitamente por alguns dias. Agora é vendida por US$ 26,99 [R$ 50], em papel, e US$ 9,99, versão eletrônica -o ‘audiobook’ em inglês continua de graça e pode ser baixado do site do autor, www.thelongtail.com.

No Brasil, só papel e só a dinheiro: R$ 59,90 por 88 páginas. A editora Elsevier já vendeu a primeira tiragem, de 10 mil cópias, prepara a segunda e colocou os três primeiros capítulos de graça em www.elsevier.com.br.

FOLHA – Se a informação quer ser livre/de graça, por que tenho de pagar R$ 59,90 para ler seu livro?

CHRIS ANDERSON – Não tem. Poderia ir ao site e baixar o ‘audiobook’ gratuitamente..

FOLHA – Sim, mas quem quer ler em português, caso da maioria dos leitores brasileiros, tem de desembolsar.

ANDERSON – Cada região tem um editor diferente, cada um tem um enfoque diferente para isso, uma estratégia própria.

Nos EUA, era de graça. No Reino Unido, na Bélgica. A única parte que eu controlo é o ‘audiobook’. Eu encorajei todos os editores a dar o livro, alguns aceitaram, outros não.

FOLHA – Por que um editor pagaria milhares de dólares pelos direitos de seu livro, outro tanto para traduzir, mais ainda para imprimir e distribuir e finalmente daria de graça aos leitores brasileiros? Faz sentido economicamente?

ANDERSON – O livro trata disso extensivamente, mas sim, eu acredito que, se feita corretamente, essa ação vai levar a mais vendas do livro, não a menos. Você não precisa dar a versão física, pode dar a digital.

E, se você acredita que a versão física é a ‘premium’, que as pessoas ainda preferem ler em papel por todas as razões óbvias, para manter, fazer anotações, ler na praia, então não precisa temer dar a versão digital de graça, pois será uma forma de marketing, de amostra que vai promover a física.

FOLHA – Em seu livro, o sr. defende que sim, há almoço de graça, no sentido de que há toda uma economia florescendo baseada em dar os produtos, e não vender. Como isso funciona no caso específico da indústria de conteúdo?

ANDERSON – Em primeiro lugar, não há nada de novo aí. O que está mudando é o conceito, que evoluiu de um truque de mercado para um modelo econômico. Essa mudança é impulsionada pela indústria tecnológica.. A ideia de conteúdo livre tem cem anos: rádio é de graça, TV aberta é gratuita. O problema é que agora anúncios não são mais suficientes para sustentar o modelo. Daí o que chamo de ‘freemium’, onde você dá a maior parte de seu conteúdo de graça, mas reserva parte dele, geralmente a melhor parte, para os que pagam.

FOLHA – O sr. cita Brasil e China como a nova fronteira da ‘freeconomics’ e a forte presença de pirataria nos dois países como algo positivo. Como a pirataria pode ser benéfica para uma economia?

ANDERSON – Pirataria é uma palavra mal compreendida. Nem todo o conteúdo distribuído dessa maneira é pirata. Alguns são, outros são ‘pirateados’, entre aspas, por vontade dos autores, que valorizam a distribuição gratuita. Um dos exemplos que dou é o tecnobrega brasileiro. Não é pirataria, porque os autores autorizam os camelôs a reproduzir e vender os CDs sem lhes pagar nada.

Meu ponto é: conteúdo digital pode ser copiado e distribuído a um custo cada vez mais próximo de zero e, de uma maneira ou de outra, vai ser distribuído. Usar os mesmos canais de distribuição dos piratas será uma decisão de cada artista.

Mas o fato é que essas são as forças motoras da atual economia, são intrínsecas à internet e à era digital e impossíveis de serem contidas. A pirataria não é boa para a economia, mas a distribuição gratuita sim, e os piratas são os primeiros a usá-la.

FOLHA – O sr. diz ter problemas com as palavras ‘mídia’, ‘jornalismo’ e ‘noticiário’. Por quê?

ANDERSON – Eu sei o que ‘mídia profissional’, ‘jornalismo profissional’ e ‘noticiário profissional’ significam. Mas como chamar quando isso é produzido por amadores? A maior parte do que eu leio hoje em dia está on-line e não vem desses canais. Está no Facebook, no MySpace, no Twitter, em blogs. Leio sobre amigos, família, hobbies. O que é isso? Eu não acho que a palavra ‘jornalismo’ descreve o que está acontecendo. Acho que precisamos de novas palavras.

FOLHA – Ao mesmo tempo uma breve visita a sua conta no Twitter revela que o sr. segue o ‘New York Times’, a revista ‘New Yorker’ e várias outras contas da chamada mídia tradicional. Além disso, seu trabalho principal vem de editar uma revista de papel, a ‘Wired’. Como o sr. concilia isso?

ANDERSON – Nós vivemos num mundo de hipermídia, onde não temos mais o monopólio sobre a atenção do leitor. Acho que há um papel para a mídia tradicional, mas há também um papel crescente para todo o resto. Nós vivemos em ambos os mundos. Você não vive em ambos os mundos?

FOLHA – Mas o sr. é o evangelista desse novo mundo e edita uma revista do velho mundo. Como concilia os dois?

ANDERSON – Nós usamos o modelo ‘freemium’. O que está na wired.com é de graça, faturamos um pouco com a publicidade on-line, e isso levanta assinaturas para a revista, que é o nosso ‘premium’.

FOLHA – Se o sr. me dá o conteúdo de graça on-line, por que eu pagarei por ele na revista?

ANDERSON – Porque não é o mesmo conteúdo, as palavras podem ser as mesmas, mas a revista é mais que palavras, é um pacote visual, com fotos, arte e um conceito de edição. De graça, você não tem o pacote.’

 

***

Conta dividida

‘Se a informação quer ser livre, como defende boa parte da blogosfera e o modelo sugerido por Chris Anderson em seu livro parece concordar, os jornalistas que a produzem querem ser pagos. Ou, no dizer de Bill Keller, editor-executivo do ‘New York Times’, informação de qualidade custa caro.

‘Da última vez em que eu estive em Bagdá, não vi uma sucursal do ‘Huffington Post’, do Google ou do ‘Drudge Report’, porque nenhum deles está lá’, disse ele em entrevista recente ao ‘Daily Show’, do comediante Jon Stewart, citando os agregadores de notícias mais populares dos EUA -com exceção do ‘Post’, nenhum tem equipe própria de jornalismo.

O ‘Times’ mantém um escritório de uma dezena de jornalistas no Iraque, uma operação de custo anual estimado entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões. ‘Não estão lá porque é caro, porque é perigoso’, continuou Keller. ‘É muito mais fácil ficar em casa e pegar carona no trabalho feito pelos outros.’

Lideradas pelo ‘New York Times’ e pela News Corporation, de Rupert Murdoch, que publica o ‘Wall Street Journal’, entre outros, as principais empresas jornalísticas dos EUA estão prestes a acabar com a ‘carona’ -ou pelo menos a coibir, rachando a conta.

Desde o fim do semestre passado, representantes desses e de outros títulos, como o ‘Washington Post’ e o ‘USA Today’, vêm se reunindo em busca de um modelo de negócios para seu conteúdo on-line que substitua o adotado pela maioria no começo dos anos 90, que se provaria insustentável.

Naquele momento, quando a internet começava a se popularizar, e diferentemente de no Brasil, as grandes empresas decidiram liberar suas versões on-line, cobrando apenas pelo produto impresso. Na maior parte dos casos, tudo o que está no papel pode ser encontrado de graça no site. Esperava-se que a publicidade migrasse de meios, o que não aconteceu.

Uma das exceções a esse modelo inicial foi o ‘Wall Street Journal’. O diário nunca abriu o site e tem hoje uma base de assinantes on-line de pouco mais de um milhão de pessoas, que pagam US$ 103,48 por ano (R$ 196,61). Fala-se que o ‘New York Times’ poderia começar a cobrar US$ 5 (R$ 9,50) por mês pelo acesso de seu site, hoje totalmente aberto e gratuito, ou pelo menos pelo acesso a partes de seu site, que seriam fechadas -o tal modelo ‘freemium’ que Anderson defende..

Por ser o mais prestigioso, de interesse geral e nacional, o ‘Times’ funcionaria como o pioneiro que causaria um efeito dominó a ser seguido pelo resto da indústria local. Outro movimento aguardado é o de Murdoch, que vem dando sinais de que pode implantar o modelo do wsj.com em todos os outros jornais de seu grupo.

A ideia não desagrada Chris Anderson. ‘Dependendo do que me oferecessem, eu pagaria US$ 5 por mês para ter acesso on-line ao ‘New York Times’, disse. ‘Mas não acho que eles vão fechar tudo.’’

 

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