Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 28 E 29/11

Folha de S. Paulo

01/12/2009 na edição 566

TV DIGITAL
Julio Wiziack

TVs terão de vir com conversor até 2011

‘Dois anos após o início da TV digital no país, o governo (Ministério das Comunicações) não só fracassou em convencer os grandes fabricantes a produzir o conversor -aparelho que capta o sinal digital das emissoras de televisão- como cedeu à pressão da indústria, interessada em vender televisores de LCD e de plasma já com o conversor embutido, uma estratégia para evitar a queda de preço desses aparelhos.

A reivindicação dos fabricantes virou regra em setembro por meio de uma portaria conjunta dos ministérios do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Ciência e Tecnologia. A partir de 2010, Sony, LG, Panasonic, Samsung, Philips e os demais concorrentes só produzirão o conversor para embarcá-lo nos televisores com mais de 32 polegadas.

A medida se amplia, a partir de 2011, quando todos os televisores de LCD e plasma terão de conter o conversor. Algumas marcas, como a japonesa Panasonic, abandonarão a produção de aparelhos analógicos já no próximo ano.

‘O governo [Ministério das Comunicações] pagou um mico porque não soube entender que o mercado não queria uma tecnologia intermediária’, diz Maurício Loureiro, presidente da Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas).

Para ele, a tecnologia japonesa de transmissão do sinal digital de TV -adotada pelo Brasil- ainda não está madura em seu próprio país e o governo não conseguiu convencer os fabricantes do contrário.

Mesmo assim, 13 deles tiveram projetos para a produção do conversor aprovados pela Zona Franca de Manaus. Só 7 deles investiram pesado na produção para tentar lançar aparelhos na faixa dos R$ 100, meta definida pelo ministro Hélio Costa (Comunicações) há dois anos para que o produto massificasse o acesso ao sinal da TV digital.

‘O problema é que o produto não atende às expectativas criadas pelo ministro’, diz Wilson Périco, presidente do Sinaees (Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares) de Manaus (AM). ‘O conversor oferece altíssima qualidade de imagem e de som, mas a interatividade está longe de ser alcançada.’

Resultado: menos de 1 milhão de conversores foi vendido em menos de dois anos. Périco afirma que o Ministério das Comunicações estimava que as vendas chegariam a 9 milhões.

Artimanha

Não foi apenas a ‘imaturidade’ do sistema japonês que levou os grandes fabricantes a desistirem da venda do conversor separadamente. ‘O preço dos televisores LCD está caindo há muitos anos, e embutir o conversor foi a forma encontrada para manter o preço em patamares razoáveis’, diz Loureiro, presidente da Cieam.

Há dois anos, o modelo de 54 polegadas da sul-coreana Samsung custava R$ 9.000 Já está sendo vendido por R$ 3.000 com o conversor digital embutido. Atualmente, cerca de 60% da produção de televisores no país já é LCD, segundo a Cieam.

Esses aparelhos nunca estiveram tão em alta. Entre janeiro e setembro, os fabricantes faturaram US$ 1,7 bilhão com a venda de 2,3 milhões de unidades, quase 28% de aumento em relação ao mesmo período do ano passado. Foi o maior crescimento registrado na Zona Franca de Manaus. Os receptores de sinal de televisão, que incluem os conversores digitais, tiveram queda de 5%.

‘Para a Copa [do Mundo de 2010], todos os nossos televisores terão o conversor embutido’, diz Ichiu Shinohara, vice-presidente da Panasonic.

Ele acredita que seja mais fácil vender uma LCD com o conversor do que o decodificador separadamente. ‘O preço está razoável e, em prestações, os consumidores não vão sentir no bolso.’

Périco discorda. ‘O consumidor não terá mais a opção de escolher um produto mais barato sem o conversor nem terá muitas ofertas para a compra do conversor separadamente.’

Procurado, o ministro Hélio Costa não quis comentar o assunto. A Folha também tentou falar com o Secretário de Comunicação do ministério, Roberto Pinto Martins, mas não obteve retorno.’

 

Tatiana Resende

Em 2 anos, sinal digital chega a 26 cidades

‘Com o interesse das emissoras de televisão em adiantar o cronograma definido pelo Ministério das Comunicações, o sinal da TV digital aberta já chegou a 26 cidades do país, das quais 19 são capitais. Nesta terça-feira, Londrina, no Paraná, junta-se ao grupo.

O governo havia definido que até janeiro do próximo ano a nova tecnologia deveria estar disponível apenas nos municípios de São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Rio de Janeiro e Salvador.

Segundo o presidente da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), Daniel Slaviero, cerca de 90 milhões de brasileiros já estão aptos a receber o sinal digital. Mesmo assim, Slaviero admite que a demanda por conversores ainda está abaixo das expectativas e as emissoras podem fazer ‘um trabalho mais eficiente [de divulgação] e o farão a partir de 2010’.

‘A Copa do Mundo vai ser um divisor de águas no avanço na compra de receptores’, diz Slaviero. Ele explica que, quando os telespectadores ‘têm contato com o sinal digital, não querem voltar ao analógico’, e destaca a crescente produção de conteúdo em alta definição. O presidente da Abert diz que 2016 será o último ano para a transmissão do sinal analógico. ‘É um tempo factível, mas não podemos descartar a necessidade de prorrogação’, observa.

Em São Paulo, primeiro local a receber o sinal no país, em dezembro de 2007, a cobertura atinge 95% da região metropolitana, de acordo com Gunnar Bedicks, coordenador do laboratório de TV digital da Universidade Mackenzie.

Há dois anos, o percentual se aproximava dos 90%, o que já era um avanço, visto que só 42% dos imóveis na região recebem sinal analógico de qualidade. Agora, essa quase totalidade (95%) se deve aos reforçadores de sinal, que funcionam como amplificadores em áreas consideradas de ‘sombra’ devido às condições topográficas.

A solução desse problema já serve de motivação aos fabricantes de televisores. ‘O fim das áreas de sombra e a antecipação da cobertura nas principais capitais são bons sinais’, diz Ichiu Shinohara, vice-presidente da Panasonic do Brasil, que produz televisores LCD com o receptor embutido.

Para Eduardo Tude, da consultoria Teleco, o ritmo da TV digital no Brasil ‘poderia ser mais acelerado’. ‘Ainda não há um conjunto que empolgue o usuário’, disse, referindo-se à transmissão do sinal, programação em alta definição e conversores a preços baixos.

Para evitar surpresas desagradáveis, Fátima Lemos, do Procon-SP, aconselha os consumidores, ao comprar o aparelho ou uma televisão com o equipamento integrado, a se certificar de que a loja aceitará a devolução se não houver sinal na área da residência.

Luciano Leonel Mendes, gerente técnico do laboratório de desenvolvimento de hardware do Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações), avalia que o Brasil tem ‘o sistema mais bem preparado para as demandas do futuro’.

Mendes destaca ainda a importância da adoção do modelo nipo-brasileiro pelos vizinhos sul-americanos (Chile, Peru, Argentina e Venezuela) para ‘aumentar a massa crítica’.

Canais pagos

As TVs por assinatura estão de olho nesse filão. A programação em alta definição foi ampliada, e aparelhos que permitem a recepção da TV digital aberta estão sendo oferecidos.

A Net foi a primeira empresa de TV por assinatura a disponibilizar o equipamento digital para seus assinantes, em dezembro de 2007. A TVA entrou nesse nicho em maio de 2008, e a Sky, em agosto deste ano.

Nenhuma das empresas, no entanto, revela a quantidade de aparelhos que foi cedida em comodato ou vendida aos clientes durante esse período.’

 

CULTURA
Editorial

O vale do MinC

‘EMBALADA por discurso sobre a importância de democratizar o acesso aos bens culturais, a proposta do vale-cultura, longe de ser uma solução, cria mais um caso de subsídio e renúncia fiscal no setor.

Segundo o projeto do governo, o mecanismo, com valor mensal de R$ 50, será oferecido a trabalhadores com rendimento de até cinco salários mínimos. A quantia poderá ser usada na compra de produtos como livros e DVDs -e também na aquisição de ingressos para espetáculos e museus. O vale-cultura chegará aos trabalhadores através de empresas, que poderão fazer deduções de seu Imposto de Renda.

É louvável a intenção de ampliar o acesso a bens culturais, mas melhor faria o governo se concentrasse esforços e recursos no ensino. É a escola e são os jovens o principal alvo a atingir, pois a cultura é parte integrante da educação de boa qualidade.

Não se pode deixar de ver na iniciativa do Ministério da Cultura também uma faceta eleitoral. Criar benefícios quando se aproximam as eleições é um velho hábito de governantes. Nesse terreno, o ministro Juca Ferreira teria se saído melhor caso tivesse recusado gastar dinheiro público na confecção de um folheto sugerindo voto em políticos que apoiam as propostas do MinC.

Questionado por parlamentares e jornalistas, Ferreira irritou-se. Disse que profissionais da imprensa são pagos para mentir. Logo ele, que na primeira versão negou o fato de o impresso ter sido custeado pela pasta.

Em nota, declarou que a assessoria o teria induzido ao erro. Por fim, considerou a iniciativa ‘absolutamente legítima’, o que não é, e saiu-se com uma estranha explicação sobre seu temperamento emocional. Um episódio a lamentar.’

 

TELEVISÃO
Sílvia Corrêa

‘Kill Bill’ inspira a vilã sensual de Grazi

‘A obsessão de Mallory, em ‘Assassinos por Natureza’. A fragilidade de Gia, em ‘Fama e Destruição’. A sensualidade de Beatrix, em ‘KillBill’. Grazi é esforçada. Procura em seus guardados os nomes corretos dos filmes que viu e explica que buscou nas personagens de Juliette Lewis, Angelina Jolie e Uma Thurman elementos para compor Deodora, a vilã de ‘Tempos Modernos’ -novela das sete da Globo que estréia em 11 de janeiro. ‘Deodora é autoritária e dedicada, mas sedutora e apaixonada.

Ela comanda um batalhão de homens, mas sabe que é mulher e joga com isso.’ Uma das ex BBBs mais bem sucedidas pós-reality, Grazi Massafera, 27, vai para a quarta novela e faz a estreia no time dos maus. Sente medo? ‘Claro!’, dispara. Grazi é objetiva. ‘Medo, ansiedade e insegurança. Mas a novela tem um tom fantástico e cômico. Acho que as pessoas não vão ter raiva de mim.’ Não parece fácil sentir raiva de Grazi. Ela é doce e mantém um tom interiorano.Diz que isso a atrapalha.

‘Deodora deveria falar mais grave’, avalia. Grazi é exigente. Por conta própria, além da fonoaudióloga e das sessões de kung fu oferecidas pela Globo, começou a fazer aulas de boxe. ‘O principal é encaixar o quadril e consertar a postura. Luta não combina com lordose’, diz ela, que acertou meia dúzia de dublês durante os ensaios dos golpes.

Ao lado de Albano (Guilherme Weber), por quem é apaixonada, Deodora é responsável pela vigilância do Titã-o edifício inteligente que está no centro da ‘comédia sentimental’ de Bosco Brasil e que põe em xeque a sensação de segurança nos mega prédios urbanos.

São vilões chiquérrimos. Deodora usa só roupas pretas, coladas e de corte reto, no estilo cintura marcada da mulher poderosa consagrada pelo estilista francês Thierry Mugler. Juntos e tirando proveito de um circuito indiscreto de câmeras, os dois serão artífices do plano para tomar o Titã e a fortuna de Leal (Antonio Fagundes), o gente que faz que ficou rico com a construção civil. ‘E conseguirão. Leal perderá tudo. Será o primeiro dos três pontos de virada da trama’, revela Bosco Brasil. ‘Albano éum vilão que, se precisar, mata’, continua. E mata? ‘Sim, mata naprimeirasemanada trama.’

GRANA X FAMA

O ‘Projeto Runway’-uma competição entre estilistas, que deverá ser apresentada por Ana Hickmann-temas cinco cotas de patrocínio negociadas, mas ainda está sem data de estréia na Record. A emissora tem medo de que o programa patine no ibope por mirar um público muito qualificado.

LIGA DAS MULHERES

Desde que a ‘Liga das Mulheres’ anunciou em seu blog que o programa terá uma segunda temporada no’Fantástico’ (Globo)-agora para resolver problemas masculinos-, centenas de e-mails chegaram à produção. Como lidar como filho da namorada e como dizer que ela anda meio desleixada são os dilemas mais comuns.

SÓ EM 2010

Marcelo de Carvalho (RedeTV!) grava no final de janeiro o piloto do’Mega Senha’.

PRÊMIO VIP

Uma viagem a Vancouver (Canadá), com acompanhante, será um dos prêmios de dezembro em ‘A Fazenda’ (Record). O vencedor poderá assistir às Olimpíadas de Inverno, entre os dias 12 e 28 de fevereiro, transmitidas pela emissora.

OVOS DE OURO

Por falarem’A Fazenda’, a Record se diz bem satisfeita com o faturamento do reality. Walter Zagari, vice-presidente comercial da emissora, afirma que a primeira temporada faturou R$60 milhões e que a segunda chegará a R$80 milhões.

MAIS ‘WEEDS’

O GNT estreia em11 de janeiro a 5ª temporada de ‘Weeds’,a premiada série que faturou oEmmy de melhor mixagem de som neste ano.É a temporada da gravidez de Nancy, com participação especial de Jennifer Jason Lee e Alanis Morissette.’

 

Nina Lemos

Sofrimento de jovem modelo turbina trama

‘‘Eu não aguento mais, preciso sair daqui!’ No leito da UTI, uma menina estonteantemente linda grita por socorro. Ela não consegue se mexer do pescoço para baixo. Depois de um acidente, ficou tetraplégica. E, no meio da noite, acorda desesperada, clamando por um amigo. Enquanto isso, em nossas casas, em geral em boas condições de saúde, não conseguimos desgrudar os olhos da TV.

A cena é tensa, e a atriz Alinne Moraes, que interpreta a modelo Luciana em ‘Viver a Vida’, de Manoel Carlos, comove. O acidente de Luciana foi, até agora, um dos pontos altos da novela, e sua internação, idem. Mas por que assistimos fascinados à cena da garota jovem e bonita paralisada e sofrendo?

Também vimos, com os olhos vidrados, a cena da família da jovem recebendo a notícia desesperadora de que a menina ‘com a vida pela frente’ havia ficado tetraplégica.

Tudo parece ficar mais pesado em ‘Viver a Vida’ porque a personagem em questão é uma menina de 20 e poucos anos. Linda. Mimada. Será que o espectador se sente vingado porque a riquinha supermal acostumada teve o que mereceu? Será que o que uma garota bonita e rica merece é sofrer um acidente de carro? Será que é por isso que ouvimos (e temos algum prazer) hipnotizados a menina gritando de desespero?

Na internet, já existe até enquete: ‘Você acha que Luciana mereceu ficar tetraplégica?’. Como se alguém merecesse tragédia desse tipo.

Claro. Espera-se que Luciana se recupere. E também que ela mude, vire uma pessoa melhor, de bom coração. Só a dor salva? É preciso literalmente quase morrer para mudar? A modelo Luciana faz pensar em muitos moralismos. A má sofre. Ser bonita e mimada mata.

O acidente da modelo (a profissão do momento, com que toda jovem telespectadora sonha) é o assunto central da trama por enquanto, espécie de ápice. Antes de a novela estrear, já se comentava que ‘uma menina ia ficar tetraplégica’. Veríamos com fascinação o sofrimento, a recuperação lenta e uma família desesperada.

Mas devemos gostar mesmo de ver moças (por que será que em geral são as mulheres bonitas que agonizam em novelas?) no hospital. Afinal, já acompanhamos uma menina grávida morrer após ser atropelada, em ‘Páginas da Vida’. E todos os detalhes de outra jovem bonita com leucemia (quem se esquece da cena em que Carolina Dieckmann raspou a cabeça?) em ‘Laços de Família’, ambas de Manoel Carlos.

Moça bonita em hospital dá ibope. E, ao desligar a TV, talvez a gente pense: ‘Não sou tão bonita nem tão rica. Mas pelo menos não estou morrendo no hospital’. Ou, se não sou bonita, ninguém também pode ser.’

 

Lúcia Valentim Rodrigues

Canal Discovery reconstitui série de ataques a SP

‘Ter estado em São Paulo em maio de 2006 significa ter agora uma memória muito clara de onde você estava -principalmente no dia 15 daquele mês. Uma onda de pânico, após série de ataques de uma facção criminosa, fez a população deixar trabalho e escola às pressas. É difícil esquecer a visão da avenida Paulista deserta em pleno dia de semana.

Ao todo, foram 46 policiais mortos, 78 feridos e 82 ônibus queimados em 280 ataques. Presos de 67 penitenciárias se rebelaram. O revide da polícia foi ainda pior: 437 civis foram mortos em represália, em circunstâncias nebulosas. Em ‘Salve Geral’, o diretor Sergio Rezende usou a data como pano de fundo para a história de uma professora que tenta proteger o filho presidiário.

Já o Discovery Channel produziu um documentário sobre o mesmo tema. ‘São Paulo sob Ataque’ reúne depoimentos dos envolvidos nas decisões que fizeram de São Paulo uma cidade deserta. Estão lá Nagashi Furukawa, ex-secretário da Administração Penitenciária de São Paulo, e Saulo de Castro Abreu Filho, ex-secretário de Segurança Pública do Estado, explicando cada ação.

A narração é sofrida, e a reconstituição em muitos momentos é dispensável, mas não se pode negar o impacto de ver todas aquelas informações reunidas de forma clara. A jornalista Fátima Souza, cujo livro ‘PCC – A Facção’ também inspirou o filme de Rezende, deu consultoria para o documentário. Ela conta como suas fontes anteciparam os ataques. ‘Dez dias antes, recebi a confirmação de duas fontes. E elas eram da polícia.’

‘O monitoramento das ligações entre presos foi intensificado. Mas não tenho dúvida de que a história pode se repetir. E os erros serão os mesmos.’

SÃO PAULO SOB ATAQUE

Quando: hoje, às 20h, no Discovery Channel

Classificação: 14 anos’

 

Denise Chiarato

Programa deixa de lado a intensidade de dias tensos

‘Para quem viveu naqueles dias de maio a ansiedade de retratar a origem e a dimensão dos ataques do crime organizado contra o Estado, o documentário ‘São Paulo sob Ataque’ acerta ao expor a incompetência do governo, mas peca pela falta de intensidade e emoção.

Morno, com uma narração fria, não consegue transmitir a angústia da sucessão de mortes e de atentados e a sensação do quanto estávamos (ou estamos?) vulneráveis.

O programa reforça a tese -não confirmada- de que, dez dias antes, o Estado sabia das ameaças, mas não alertou seus próprios policiais. Por outro lado, compra fácil a versão de que o acordo que pôs fim ao pandemônio limitou-se à visita de uma advogada para comprovar que Marcola estava bem.

Mas vale ver o jogo de empurra-empurra dos ex-secretários Nagashi Furukawa e Saulo de Castro Abreu Filho. ‘Foi uma decisão errada na hora errada’, diz Saulo, ao culpar o colega pela transferência de presos -estopim da crise. ‘Todos nós participamos das decisões’, rebate Furukawa.

E Saulo ainda disse que o pânico que fez a população esvaziar as ruas e se refugiar em casa foi provocado pela imprensa, que, embora correta, noticiou os fatos com atraso. Ah tá!’

 

Bia Abramo

A ficção eficaz do reality

‘UMA DAS grandes vantagens que os reality shows têm sobre as novelas está menos no fator realidade dos primeiros do que na capacidade de criar ficção de uma maneira, por vezes, mais eficiente do que as segundas.

Está chegando ao final a terceira temporada de ‘Brazil’s Next Top Model’ (quinta, às 21h; 12 anos). O programa escolhe uma entre várias meninas desesperadas para virarem modelo e a lança, por assim dizer, no mercado. O esquema é aquele básico dos reality shows de competição: a cada semana, as candidatas são submetidas a uma prova e uma candidata será eliminada.

Aparentemente, o esquema do programa é semelhante ao dos jogos. Há regras, há provas, há competição; o melhor vence, os piores tiveram sua chance e a desperdiçaram.

Mas, como na narrativa, esse tipo de jogo envolvido nos reality shows pressupõe o mesmo pacto fundamental, a suspensão da descrença. Entretanto, ao contrário da narrativa, onde esse pacto se firma entre narrador (ou narradores) e espectadores (ou leitores etc.), no reality de competição o pacto é bem mais complexo, pois envolve, por assim dizer, também os personagens.

Daí que a competição por um lugar ao sol no maravilhoso mundo das top models (ou dos executivos, no caso do similar ‘O Aprendiz’) assume ares inequívocos de farsa. Estão todos lá, num faz de conta que acena para o mundo real, todos topando fingir que é emoção a emoção que de fato sentem.

Por isso mesmo, é, muitas vezes, muito mais envolvente do que qualquer trama inventada na novela, com outra vantagem adicional: dura menos e só exige do espectador uma hora por semana.

Você vê uma vez e não consegue parar de voltar, a cada novo episódio. Quem será que vai ser humilhada desta vez? Quem vai se desfazer em lágrimas diante de jurados sádicos? Quem vai olhar para a ‘hostess’ Fernanda Motta implorando silenciosamente por misericórdia e ouvir a sentença final? Quem, depois de salva da guilhotina, vai prometer melhorar, com voz sumida e lágrimas, só para ser ceifada na semana seguinte?

E é claro, de acordo com a sua índole, você começa a torcer pela moça que namora meninas, ou pela da favela, ou pela que está grávida, ou pela que parece tão boazinha…

Só não é melhor porque, em vez de funcionar como um antídoto virtual para que milhares de meninas pelo Brasil desistam da profissão como seria razoável, acaba tendo o efeito contrário. Prova de que a ficção ‘artificial’ do reality é realmente eficaz.’

 

TECNOLOGIA
Roger Chartier

O Google e o futuro do livro

‘Digite ‘google’ no serviço de pesquisas Google, em www.google.com: a tela indicará a presença da palavra, e da coisa, em ‘mais de 400 milhões’ de documentos. Se o sacrilégio não o incomoda, repita a operação e digite ‘dieu’ [deus, em francês]: ‘cerca de 33 milhões’ documentos serão propostos como retorno.

A comparação basta para compreender por que, nos últimos meses, todos os debates sobre a criação de coleções digitais de livros vêm sendo fortemente influenciados pelas iniciativas incessantes da empresa californiana. A mais recente é o lançamento [previsto para 2010] da livraria digital paga Google Editions, que explorará comercialmente parte dos recursos acumulados pelo Google Books. A obsessão pelo Google, por mais legítima que seja, pode resultar no esquecimento de certas questões fundamentais acarretadas pela digitalização de textos existentes em outra mídia, impressa ou manuscrita.

Essa operação serve como fundamento à criação de coleções digitalizadas que permitirão acesso remoto aos acervos preservados pelas bibliotecas. Aqueles que considerarem inútil ou perigosa essa extraordinária possibilidade que está sendo oferecida à humanidade serão decerto insensatos. Mas nem por isso devemos perder a sensatez.

A transferência do patrimônio escrito de um meio para outro já teve precedentes. No século 15, a nova técnica de reprodução de textos foi colocada a serviço dos gêneros que então dominavam a cultura dos manuscritos: manuais de escolástica, compilações enciclopédicas, calendários e profecias. Nos primeiros séculos da nossa era, a invenção do livro que continua a ser o nosso, em formato códice, com suas folhas, suas páginas e seus índices, acolheu em um novo objeto as escrituras cristãs e as obras dos autores gregos e latinos.

A história não ensina lição nenhuma, apesar do lugar-comum em contrário, mas, nesses dois casos, ela aponta para um fato essencial à compreensão do presente, a saber: que um ‘mesmo’ texto deixa de ser o mesmo quando muda o suporte sobre o qual está inscrito e, com isso, suas formas de leitura e o sentido que lhe venha a ser atribuído por novos leitores. As bibliotecas sabem disso.

Cabe lembrar que proteger, catalogar e permitir o acesso aos textos continua a ser tarefa essencial das bibliotecas, e isso inclui oferecer acesso a todas as formas sucessivas ou concomitantes nas quais os leitores do passado os tenham lido. Essa é a primeira justificação da existência das bibliotecas, como instituição e como local de leitura.

Memória das formas

Mesmo supondo que os problemas técnicos e financeiros da digitalização venham a ser resolvidos e que todo o patrimônio escrito possa vir a ser preservado em forma digital, a conservação e comunicação das formas anteriores de suporte não se tornará menos necessária.

Pois o que é essencial, aqui, é a profunda transformação que veremos na relação entre fragmento e totalidade. Pelo menos até os nossos dias, no mundo eletrônico, é a mesma superfície iluminada da tela dos computadores que propicia a leitura dos textos, todos os textos, quaisquer que sejam seus gêneros e funções.

Rompe-se, assim, a relação que, em todas as culturas escritas anteriores, ligava estreitamente os objetos, os gêneros e os usos. Foi essa relação que organizou as diferenças imediatamente percebidas entre os diversos tipos de publicações impressas e as expectativas de seus leitores -guiadas pela própria materialidade dos objetos que transmitem essas diferenças. Já no mundo da textualidade digitalizada, o discurso não se inscreve mais nos objetos, algo que permitia que eles fossem classificados, hierarquizados e reconhecidos em sua identidade própria.

Temos um mundo de fragmentos descontextualizados, justapostos, indefinidamente reconstituíveis, sem que seja necessária ou desejável a compreensão da relação que os inscrevia na obra da qual tenham sido extraídos. Seria possível objetar que a situação sempre foi essa na cultura escrita, construída em larga medida e por largo período com base em coletâneas de extratos, de antologias de lugares-comuns, de trechos seletos. Certo. Mas, na cultura da mídia impressa, o desmembramento dos escritos é acompanhado pelo seu oposto: sua circulação em formas que respeitam sua integridade e, ocasionalmente, os reúnem em forma de ‘obras’ -completas ou não.

Além disso, no livro em si, os fragmentos são necessária e materialmente integrados a uma totalidade textual, reconhecível como tal. Diversas consequências decorrem dessas diferenças fundamentais. A própria ideia de revista se torna incerta, porque a consulta aos artigos já não está ligada a uma lógica editorial que se torna visível pela composição de cada número, mas, sim, que se organiza a partir de uma ordem temática de rubricas. E é certo que as novas maneiras de ler, descontínuas e segmentadas, se enquadram mal às categorias que regiam o relacionamento entre leitores e textos.

São exatamente essas propriedades fundamentais da textualidade digital e da leitura diante de uma tela que o projeto comercial do Google pretende explorar. O mercado da empresa é o da informação. Os livros, como todos os demais recursos digitalizáveis, constituem uma imensa jazida da qual é possível realizar extrações.

Lucro

Daí decorre a percepção imediata e ingênua de todo livro, de todo discurso, como um banco de dados que fornece ‘informações’ àqueles que as procuram. Satisfazer essa demanda e extrair um lucro é o primeiro objetivo da empresa californiana, e não construir uma biblioteca universal à disposição da humanidade.

E o Google não parece estar bem equipado para a tarefa, a julgar pelos múltiplos erros de datação, classificação e identificação cometidos durante a extração automática de dados. Essa descoberta genial de um novo mercado, em permanente expansão, e as proezas técnicas que deram ao Google um quase monopólio sobre a digitalização em massa garantiram o grande sucesso e os copiosos benefícios dessa lógica comercial. Ela supõe a conversão eletrônica de milhões de livros, entendidos como uma mina inesgotável de informações.

E exige, em consequência, acordos, já realizados ou ainda por vir, com as grandes bibliotecas do mundo. Mas também um processo de digitalização em larga escala, pouco preocupado com o respeito aos direitos autorais, e a formação de um gigantesco banco de dados, capaz de absorver outros bancos de dados e de arquivar informações pessoais sobre os internautas que utilizam os múltiplos serviços oferecidos pelo Google. Os representantes da companhia americana percorrem o mundo e as conferências para proclamar suas boas intenções: democratizar a informação, tornar acessíveis livros indisponíveis, remunerar corretamente as editoras e autores. E assegurar a conservação, ‘para sempre’, de obras ameaçadas pelos desastres que podem afetar as bibliotecas. Essa retórica de serviço público e de democratização universal não basta para rebater as preocupações causadas pelos empreendimentos do Google.

Em artigo para o ‘New York Review of Books’ (12/2/09) e em livro publicado recentemente, ‘The Case for Books -Past, Present and Future’ [Defesa dos Livros – Passado, Presente e Futuro, ed. Pub- licAffairs, 240 págs., US$°23,95, R$°41], o historiador Robert Darnton apela aos ideais do iluminismo para alertar contra a lógica do lucro que orienta as empreitadas do Google.

É fato que, até o momento, continua a haver uma clara distinção entre as obras caídas em domínio público, disponíveis gratuitamente via Google Books, e os livros protegidos por direitos autorais, órfãos ou não, cujo acesso e aquisição, via Google Editions, são pagos. Mas nada garante que no futuro a empresa, dada sua situação monopolista, não venha a impor preços consideráveis pelo acesso, a despeito de sua ideologia do bem público e do acesso público hoje oferecido.

Compromissos

Não se pode esquecer que já existe um vínculo entre os anúncios publicitários, que garantem os consideráveis lucros do Google, e a hierarquização de ‘informações’ que resulta de cada busca nesse site.

Além disso, em numerosos casos, a utilização pelas bibliotecas de suas próprias coleções, digitalizadas pelo Google (mesmo quando se trata de obras de domínio público), está sujeita a condições completamente inaceitáveis, tais como a proibição de explorar os arquivos digitalizados por algumas décadas ou de uni-los aos arquivos de outras instituições. E há outro segredo completamente inaceitável: o que envolve as cláusulas dos contratos assinados entre a empresa e cada biblioteca. A justa reticência diante de uma parceria assim arriscada tem diversas consequências.

Para começar, é preciso exigir que o financiamento público a programas de digitalização esteja à altura das necessidades, dos compromissos e das expectativas de que os Estados não transfiram a empresas privadas a responsabilidade pelos investimentos culturais de longo prazo que lhes cabem. Também é necessário decidir prioridades, sem necessariamente imaginar que todo ‘documento’ deva ser digitalizado. A obsessão, talvez excessiva e indiscriminada, pela digitalização não deve mascarar um outro aspecto da ‘grande conversão digital’, para retomar a expressão do filósofo Milad Doueihi. Essa escrita palimpséstica e polifônica, aberta e maleável, infinita e móvel confunde as categorias que, desde o século 18, servem como fundamento à propriedade literária. Essas novas produções escritas, muitas das quais digitais já de origem, propõem a difícil questão de como se deve conservá-las e arquivá-las.

É preciso estar atento, mesmo que a urgência atual seja a de decidir como e por quem será realizada a digitalização do patrimônio escrito, à necessidade de que a ‘República digitalizada do saber’ não seja confundida com o grande mercado de informação onde o Google e outros oferecem seus produtos.

ROGER CHARTIER é professor no Collège de France e autor de ‘Inscrever e Apagar – Cultura, Escrita e Literatura’ (ed. Unesp). A íntegra deste texto foi publicada no jornal ‘Le Monde’. Tradução de Paulo Migliacci.’

 

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