Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 28 E 29/11

Folha de S. Paulo

01/12/2009 na edição 566

PROPAGANDA
Mônica Bergamo

Censura livre

‘A rádio CBN tomou uma decisão extrema anteontem: tirou do ar o anúncio do papel higiênico Neve, que parodia o presidente Lula e a ministra Dilma Rousseff. A campanha foi veiculada na manhã de quinta no Rio e depois saiu da programação. ‘Sou totalmente contra a censura, mas fiquei preocupado. Afinal, é a figura do presidente, da ministra’, diz Rubens Campos, diretor-geral do Sistema Globo de Rádio.

CENSURA LIVRE 2

Campos é do Conselho de Ética do Conar [Conselho de Autorregulamentação Publicitária] e afirma que, depois de consultar um advogado do órgão, tomou a decisão. Ontem, ao abrir os jornais, disse que se surpreendeu com a declaração oficial do Conar de que não via motivos para a proibição. E voltou atrás. ‘Fui mais realista do que o rei.’ A publicidade começará a ser veiculada novamente nas rádios do Sistema Globo a partir da próxima terça.

PROCESSO?

E corre no mercado a informação de que a DPZ, que criou o anúncio, estudou até processar a CBN. A agência nega.’

 

LIVRO
Rafael Cariello

Nelson, o ex-covarde

‘O maior dramaturgo da história do país foi também seu maior ensaísta e um dos principais intérpretes da sociedade brasileira, talvez o melhor da segunda metade do século 20. Em suas ‘confissões’, crônicas de jornal publicadas entre o final dos anos 60 e início dos 70, aparece ‘uma das melhores expressões literárias de diagnóstico do nosso tempo’. ‘Para ombrear com ele, no Brasil, talvez apenas Carlos Drummond de Andrade na poesia.’

As afirmações aparecem em ‘Inteligência com Dor – Nelson Rodrigues Ensaísta’, de Luís Augusto Fischer, crítico literário e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A ênfase -rodriguiana, como observa o colunista da Folha Marcelo Coelho na contracapa do livro- pode parecer desmedida. Por que seria necessária? As peças teatrais de Nelson há décadas não carecem desse tipo de defesa. Mas o arroubo é comum entre os leitores que têm descoberto a obra em prosa do autor desde que ela foi reorganizada por Ruy Castro, no final dos anos 80.

A causa do fenômeno talvez esteja no desejo de cada leitor de resolver a contradição íntima que resulta do contraste entre a aparente fragilidade da crônica, gênero jornalístico, tido como superficial, a que o pensamento de Nelson está associado, e seu texto arrebatador, corajoso, que continua a fazer pensar muito depois de fechado o jornal -ou o livro.

É daí que parte Fischer. Seu esforço está em resolver essa aparente contradição e apresentar padrões de comparação que lhe permitam fundamentar juízos de valor sobre os textos reunidos em obras como ‘A Menina sem Estrela’ ou ‘O Óbvio Ululante’.

Ele recorrerá à tradição ensaística ocidental desde Michel de Montaigne (1533-1592) para mostrar que Nelson, na verdade, não faz crônica. Este é um gênero menor, diz Fischer, certamente aparentado ao ensaio, mas que para ele perde em qualidade reflexiva, em humor (a crônica é apenas ‘cômica’) e em maturidade existencial.

No caso brasileiro, tanto a melhor crônica quanto a obra de Nelson são sintomáticas de uma época. O país passou por um processo acelerado de urbanização, de imigração interna, de mudanças constantes e intensas no período em que Rubem Braga, por exemplo, publicava seus textos.

Mas a crônica, diz Fischer, não faz mais do que manifestar o mal-estar do cronista diante da velocidade da mudança. Toma o partido do passarinho, digamos, contra a ferocidade e a violência da cidade.

Nelson parte desse mal-estar para refletir sobre o processo em curso. Faz o diagnóstico, no calor da hora, do avanço da sociedade de massas, e toma o partido do indivíduo. Assim como Montaigne, em outra época conturbada, o Renascimento, ajudou a criar o indivíduo e seu pensamento independente.

O brasileiro, mais ainda, tematiza essa oposição. Ele afirma sua individualidade contra a ditadura do consenso, da multidão, dos ‘idiotas’ em vantagem numérica. Contra a valorização da juventude, do novo (em sintonia com a época de mudanças), ele afirma os direitos da maturidade e tematiza o seu próprio processo de aprendizagem. Confessa suas covardias, suas dúvidas, suas hesitações, e delas faz matéria de reflexão. Isso é o ensaio, afirma Fischer, em seu livro.

Daí Nelson se dizer um ‘ex-covarde’, quer dizer, um indivíduo que finalmente se arrisca a pensar por si próprio, contra o seu tempo. Por isso mesmo seu valor e sua permanência, diz o crítico, estão assegurados.

INTELIGÊNCIA COM DOR

Autor: Luís Augusto Fischer

Editora: Arquipélago Editorial

Quanto: R$ 39 (336 págs.)’

 

***

Livro esperou uma década por publicação

‘Foi preciso mais de uma década para que ‘Inteligência com Dor’ viesse finalmente a ser publicado.

O livro que será lançado hoje, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (av. Paulista, 2.073), é na verdade a tese de doutorado de Luís Augusto Fischer, defendida em 1998.

Seu périplo por editoras começou no início desta década, encontrando como obstáculo a negociação, com parte dos herdeiros de Nelson Rodrigues, sobre o valor a ser cobrado pela reprodução na íntegra das crônicas analisadas na obra.

Fischer afirma que o valor pedido foi um dos principais empecilhos para a publicação. Depois de anos com a editora Civilização Brasileira, e de uma passagem também pela Cosac Naify, a obra é agora finalmente lançada pela gaúcha Arquipélago Editorial.

Sem que um acordo quanto ao valor do pagamento fosse alcançado, a editora decidiu publicar o texto apenas com trechos das crônicas. Nenhuma delas ultrapassa 40% do conteúdo original, permitindo que respeitem as regras da lei dos direitos autorais, que autoriza a publicação de trechos em obras de crítica.’

 

Oscar Pilagallo

Blogueira cubana relata cotidiano inacessível a estrangeiros

‘A cubana Yoani Sánchez, autora de um dos blogs mais lidos do mundo, o ‘Generación Y’, é mais personagem que cronista. Não que não escreva bem, mas não foi o seu estilo que a catapultou à condição de símbolo de uma nova geração de descontentes na ilha de Fidel Castro. Foi sua atitude.

Sanchéz, 34, poderia ter emigrado, como tantos de sua geração. Mas, depois de curta temporada na Europa, preferiu voltar e enfrentar a ditadura que hoje dificulta sua saída para receber prêmios e cumprir agenda profissional em vários países, como o Brasil, onde deveria participar do lançamento do livro ‘De Cuba, com Carinho’, uma coletânea de posts. A blogueira forjou a visão crítica ao regime na adolescência, durante a escassez dos anos 90, resultado do fim do subsídio de Moscou, quando a população passou fome. Na estreia do blog, em 2007, a comida voltara às mesas graças a Hugo Chávez.

Mas a liberdade continuava cerceada, e ela usou uma das únicas brechas para denunciar o regime cubano, a internet. Sánchez é uma dissidente singular, e não só por ter escolhido viver em Cuba. Diferencia-se pelo tom da crítica. Não há revanchismo ou rancor. Ao contrário, vítima, assume parte da responsabilidade, pelos anos que calou antes do blog.

Natural que seja criticada à esquerda e à direita. De um lado, Fidel e seguidores dizem que ela está a serviço do imperialismo americano. De outro, é atacada por imigrantes cubanos em Miami, incomodados por terem perdido a hegemonia sobre a dissidência, como lembra no posfácio o sociólogo Demétrio Magnoli, a quem cabe a leitura ideológica do livro.

Não se deve procurar análise nos posts. Eles valem pelo retrato de um cotidiano pouco acessível a estrangeiros. Um dos mais surpreendentes -para quem se lembra de que o sistema cubano de saúde pública já foi considerado exemplar-, é sobre a visita a uma paciente hospitalizada a quem leva até a linha de sutura para a cirurgia.

Há também tiradas reflexivas, como quando, ao observar adolescentes da idade do filho, comenta que ‘certo toque de frivolidade os protege contra a sobriedade das ideologias’.

O estilo, diz, está condicionado à indigência da informática em Cuba. ‘Meu acesso à rede só me permite apelar à reflexão ou à crônica que não envelhecem rapidamente.’ Autodefinindo-se como linguista e hacker -sabe construir frases e computadores- apela também ao humor. Afinal, ‘as gargalhadas são pedras duras para os dentes dos autoritários’.

OSCAR PILAGALLO é jornalista e autor de ‘A Aventura do Dinheiro’ e ‘Folha Explica Roberto Carlos’ (ambos pela Publifolha).

DE CUBA, COM CARINHO

Autora: Yoani Sánchez

Tradução: Benivaldo Araújo e Carlos Donato Petrolini Jr.

Editora: Contexto

Quanto: R$ 29,90 (208 págs.)

Avaliação: bom’

 

TELEVISÃO
J.J. Abrams prepara série sobre espiões

‘Além de produzir, o diretor J.J. Abrams está negociando para dirigir o primeiro episódio da série ‘Undercovers’, que a Warner prepara para a rede norte-americana NBC.

Abrams tem no currículo ‘Lost’, ‘Fringe’ e o terceiro filme de ‘Missão Impossível’. O novo seriado já foi descrito como uma mistura da franquia de ação ‘A Identidade Bourne’ com ‘Sr. & Sra. Smith’, que trazia mais romance entre dois agentes. Não foi definida a estreia.’

 

INTERNET
Empresa britânica premia melhores do Twitter

‘A primeira cerimônia de premiação do Twitter, o Golden Twits, organizada pelo site britânico The Drum, aconteceu na noite de anteontem, num clube de Londres. Os britânicos premiados tiveram de fazer um discurso curto, de até 140 caracteres, como acontece com cada registro feito no microblog Twitter. Entre os vencedores, estão o Manchester City Football Club (na categoria voto popular), Alan Rusbridger, editor do ‘Guardian’ (indivíduo corporativo), e Tempest Devyne (estranho e humor). Na categoria beneficente, ganharam Action for Children e KeepBritainTidy. A lista completa está em www.goldentwits.com.’

 

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