Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 15 E 16/04

Folha de S. Paulo

18/04/2006 na edição 377


CRISE POLÍTICA
Clóvis Rossi


Um país provisório


‘A esculhambação neste pobre país tropical é tão colossal e vem de tanto
tempo, mas tanto tempo, que a gente acaba por nem se dar conta do surrealismo e
do absurdo de determinadas situações.


Fico hoje apenas na mais recente, o Orçamento da República. Em países sérios,
examinar, aperfeiçoar (ou, eventualmente, piorar) e votar o Orçamento é a
atividade mais relevante dos Parlamentos. Define, além disso, a cara do governo,
pelos tipos de gasto que prioriza.


Quando calha de eu estar em Londres, por exemplo, nas imediações da
apresentação pública da peça orçamentária, fico intrigado com a tonelada de
informações sobre ela que freqüentam a mídia, inclusive rádio e televisão, em
tese menos interessados em temas áridos.


Uma vez, cheguei até a ouvir, no rádio do táxi, um desses ‘talk-shows’
matinais em que o tema era exclusivamente o Orçamento.


Subdesenvolvido de carteirinha, dava até risada intimamente. ‘É
inacreditável, mas eles levam a sério esse troço’, pensava.


No Brasil, ao contrário, transcorridos já três meses e meio, o Orçamento não
foi votado. Nem é uma peça definitória, mas um objeto de barganhas políticas em
geral miúdas. Justas ou não, pouco importa.


Pior: em decorrência da não-votação, o governo recorre a uma medida
provisória para liberar parte das verbas. Com isso, o que deveria ser
definitivo, torna-se provisório, como diz o nome do instrumento legal utilizado.
Em tese, pode acontecer de o Congresso rejeitar a medida provisória. Se for
assim, perde eficácia.


Digamos que uma empresa tenha recebido dinheiro para iniciar a obra de uma
ponte por conta da MP quase-orçamentária. A MP cai. A empresa devolve o dinheiro
e demole o que já tiver construído?


É surreal, não é? Mas é assim que o país funciona (ou não funciona).
Provisoriamente. Sempre.’




LULA NO LE MONDE
Folha de S. Paulo


Lula é exemplo a ser seguido, diz ‘Le Monde’


‘O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou defesa
internacional ontem, ao ser tema de editorial do jornal francês ‘Le Monde’. Em
uma comparação com a gestão do venezuelano Hugo Chávez, Lula é citado como
exemplo a ser seguido pelos líderes esquerdistas da América Latina que assumiram
recentemente, como Evo Morales, na Bolívia, e Michelle Bachelet, no Chile.


‘Entre Hugo Chávez e Lula da Silva, duas esquerdas se opõem. Uma propõe um
discurso radical com acentos populistas e avanço de soluções nacionalistas. A
outra, centrista, propõe uma política orçamentária ortodoxa a fim de atrair
capitais e busca inserir a economia na globalização’, afirma o Le Monde.


O diário francês destaca a guinada à esquerda na região e calcula que, das 17
eleições que serão realizadas na região entre dezembro de 2006 e dezembro de
2006, as lideranças de esquerda serão vencedoras em 80% delas. Para o jornal, ‘a
solução brasileira de jogar o jogo da inserção na globalização impõe
constrangimentos que limitam o crescimento’. Mas o ‘investimento na educação e
na infra-estrutura e a abertura aos capitais preparam o futuro’. Com agências
internacionais’




MEMÓRIA / MIGUEL REALE
Leandro Beguoci, Malu Delgado e Marcelo
Salinas


Jurista Miguel Reale morre aos 95 em SP


‘O jurista Miguel Reale, 95, morreu ontem, às 0h20, vitimado por um infarto
do miocárdio. Ele estava em sua casa, na cidade de São Paulo, acompanhado de um
enfermeiro. Reale morreu logo depois de assistir ao jogo do Palmeiras, seu time
de futebol.


O filho caçula, Miguel Reale Júnior, disse que três coisas animavam o pai nos
últimos anos: os netos e bisnetos, os artigos que escrevia e o Palmeiras. ‘Ele
assistiu ao jogo inteirinho, reclamando que foi um ‘joguinho porcaria’, que o
time ainda perdeu e teve muita briga’, relatou o filho. Minutos depois,
abaixou-se para tirar as meias e sofreu o infarto.


Miguel Reale foi enterrado no Cemitério São Paulo ao lado do pai, Braz Reale,
da mulher, Filomena Pucci Reale, e da filha Lívia. O jurista deixou dois filhos
-Reale Júnior, ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso, e Ebe
Reale-, quatro netos e quatro bisnetos.


Reale Júnior foi aluno do pai na USP. A proximidade do professor com o regime
militar não o afastou do filho, que estava na oposição. ‘Tínhamos uma
convivência com divergência e com afeto.’ Sobre a obra do pai, diz: ‘Deu ao
direito um senso de concretude, fincando-o na realidade’.


Lembranças do professor


Poucos políticos compareceram ao sepultamento, devido ao feriado. Celso Lafer
e Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministros de FHC, estavam presentes. Lafer
foi aluno de Reale, o conhecia desde os seis anos de idade e era um dos melhores
amigos do professor, ao lado do jurista Tércio Sampaio Ferraz Júnior. ‘Ele
encontrou um caminho dos mais fecundos para o entendimento do direito, da
filosofia e do nosso país’, diz Lafer.


De Pernambuco, o candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, telefonou
para Reale Júnior. Cláudio Lembo, governador de São Paulo e aluno de Reale, foi
ao velório, na casa em que o professor morava desde 1973. ‘Foi um exemplo de
dignidade, de valores profundos.’ O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e o
presidente do PMDB, Michel Temer, prestaram solidariedade à família.


A USP, da qual Reale foi reitor entre 1949 e 1950 e entre 1969 e 1973, foi
representada pelo pró-reitor de Cultura e Extensão, Sedi Hirano. Apaixonado pelo
mundo acadêmico, gostava de ser chamado apenas de ‘professor’. ‘Na ditadura, ele
representou o equilíbrio entre o Estado de Direito e o Estado de exceção’, diz
Hirano.


Para os amigos, lucidez e vitalidade foram virtudes que acompanharam Miguel
Reale até os últimos momentos de vida. Somente após a morte da mulher é que
viveu um tanto recluso.


O professor foi o criador da teoria tridimensional do direito, em que defende
que o direito precisa ser analisado sob três prismas ou princípios: fato, valor
e norma.


Outra obra marcante de Miguel Reale foi a revisão do Código Civil Brasileiro,
trabalho que executou ao longo de décadas e só entrou em vigor em 2002. Para o
ministro do Supremo Tribunal Federal Enrique Lewandowski, Reale foi responsável
por dar uma visão social ao Código Civil. Segundo Lewandowski, Reale deu ao
código a noção de responsabilidade social nas relações privadas.


Miguel Reale angariou uma legião de admiradores. Ex-aluno do professor,
Agenor Mônaco, 79, foi despedir-se do mestre, que conheceu na Ação Integralista
Brasileira. Foi aluno dele em 1954. ‘Sou portador de uma nota 10 do professor
que, para mim, teve mais significação que o diploma.’’


Taís Gasparian


Vida de Reale oscilou entre o direito e a política


‘Nascido em 1910, no interior do Estado de São Paulo, Miguel Reale teve uma
vida que oscilou entre o mundo jurídico e o político. Com trânsito fluente
nessas duas áreas, Miguel Reale contribuiu para a elaboração dos mais
importantes documentos jurídicos brasileiros da segunda metade do século 20.
Esteve presente na elaboração da Constituição Federal de 1946; colaborou para a
redação da emenda constitucional nº 1, em 1969; foi o responsável pela
sistematização do anteprojeto do Código Civil; deu importantes subsídios quando
da elaboração da Constituição Federal vigente e foi presidente da Comissão
Paulista de Estudos Constitucionais, criada na Secretaria de Estado da Justiça,
que tinha por objetivo elaborar sugestões para a revisão constitucional.


No que se refere à sua atuação política, Miguel Reale teve um passado de
proximidade com o poder. Em 1935, estava na linha de frente do movimento
anticomunista, tendo sido um dos líderes da Ação Integralista Brasileira, que
possuía forte inspiração fascista. Foi grande colaborador de Adhemar de Barros,
candidato vitorioso ao governo do Estado de São Paulo, em 1947, pelo PSP,
ocupando o cargo de secretário da Justiça. Foi um dos fundadores do Instituto
Brasileiro de Filosofia e, em 1950, foi nomeado reitor da Universidade de São
Paulo.


Em 1962, apesar da distância que então o separava de Adhemar -em razão de ter
sido preterido na indicação de seu sucessor-, novamente eleito ao governo de São
Paulo, Miguel Reale retorna à Secretaria da Justiça. Dali, participou das
articulações do Movimento de 1964, acreditando, verdadeiramente, serem as Forças
Armadas, àquela época, as intérpretes fiéis da opinião pública.


Ultrapassados 13 anos da revolução, Miguel Reale, em depoimento à Folha,
reafirmou sua crença no movimento: ‘Felizmente a estrutura janguista esboroou-se
tal como se constituiu, melancolicamente, sem grandeza, e a Revolução, resolvida
em poucas horas, quedou perplexa diante de seu próprio destino, até que fossem
emanados atos definidores de uma diretriz até hoje ainda não claramente
formulada, mas que, desde as suas origens, só pode ter por objetivo a realização
de uma democracia social com liberdade e segurança’. Mais cético, no mesmo ano
de 1977, em análise das reformas então apregoadas pelo presidente Geisel, Reale
afirmou que ‘o processo revolucionário possui raízes mais profundas do que
aquelas que condicionaram as primeiras atitudes aparentes, fazendo, com o tempo,
brotar e desenvolver resultados que levam de roldão as intenções ou os cálculos
originários’.


Mais uma vez assumiu a reitoria da USP entre 1969 e 1973, implantando a
reforma administrativa e universitária. Em 1970, foi cogitado para suceder a
Abreu Sodré no governo de São Paulo e, em 1975, em razão de problemas
familiares, recusou convite de Leitão de Abreu para o cargo de ministro do
Supremo Tribunal Federal.


Mais tarde, por volta de 1978, defendeu a institucionalização do regime de
1964, inclusive tendo se manifestado a favor da anistia e da adoção de medidas
visando à ‘abertura política’. Reconheceu, então, que a consolidação democrática
somente se daria com a revogação do AI-5. Sempre cauteloso, não advogava a tese
da revogação sumária, mas sim a substituição desse mecanismo por outros que
pudessem ‘proteger a sociedade da grave ameaça de atos de violência e
subversão’. Assentiu ser o AI-5 sempre indesejável, proclamando, em
contrapartida, ser esse recurso sempre utilizado cada vez que o ‘Legislativo
invade a área de segurança que o governo revolucionário reservou para si’. Em
1984, elogiou a campanha pelas eleições diretas, pelo seu caráter de ‘entusiasmo
popular’.


Como filósofo e jurista, destacou-se, sem qualquer sombra de dúvida, como o
maior paradigma que a filosofia do direito já teve no Brasil. Para Tristão de
Athayde, a carreira filosófica de Miguel Reale teria sido uma tentativa
crescente para libertar-se do rótulo de ‘integralista’, que o perseguiu durante
décadas. Presente ou não uma atitude deliberada nesse sentido, o fato é que,
apesar de a atuação de Reale sempre ter tido um caráter conservador, sua obra é
um dos pilares de qualquer análise progressista do direito.


Extremamente inovadora para a época em que foi formulada, a Teoria
Tridimensional do Direito, da qual Miguel Reale é considerado o fundador, é
expressada pela integração de três fatores -fato, valor e norma- na experiência
jurídica. Miguel Reale foi o primeiro, de acordo com os maiores centros de
cultura jurídica mundiais, a conceber a experiência jurídica com essa conotação
tríade, o que veio a proporcionar a compreensão do direito como experiência
concreta. Rejeitou a antiga interpretação que considerava esses fatores de modo
isolado, tendo com isso aberto nova fase nos estudos filosóficos nessa área.


Cursou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São
Paulo, no início dos anos 30, e em 1940, depois de um concurso conturbadíssimo,
assumiu a cátedra de filosofia do direito da USP, dela só se aposentando em
1980, aos 70 anos.


Dizem, sobre o seu concurso de cátedra, que Miguel Reale foi aprovado pela
banca examinadora, mas o parecer desta teria sido rejeitado pela congregação da
faculdade. Reale teria, então, recorrido administrativamente da decisão ao
interventor. Este, por sua vez, consultou Getúlio Vargas, que mandou que fosse
lavrada a nomeação de Reale. Contam, ainda, que em 1943, os alunos da Faculdade
de Direito permaneceram meses em greve, recusando-se a aceitar Reale como
professor.


Seus alunos guardam a lembrança de um professor didático, porém rígido. Não
fez sucessores na faculdade, sendo que Tercio Sampaio Ferraz Jr. e José Eduardo
Faria talvez sejam, atualmente, os seus mais brilhantes discípulos.


Sua vasta obra na área jurídica conta com mais de 30 livros, destacando-se,
dentre eles, ‘Fundamentos do Direito’ (1940), sua tese de cátedra; ‘Teoria do
Direito e do Estado’ (1940), no qual já se nota a concepção da Teoria
Tridimensional; ‘Filosofia do Direito’ (1953), no qual sistematizou a
metodologia da Teoria Tridimensional, sendo extrato dessa obra o livro ‘Teoria
Tridimensional’ (publicado em 1968), que ganhou repercussão internacional; e ‘O
Direito Como Experiência’ (1968).


Em 1962, escreveu um trabalho sobre ‘O Cansaço das Ideologias’, no qual,
parodiando Machado de Assis, proclamou que por onde quer que se andasse, ‘havia
um desencanto por toda e qualquer idéia encaixotada’.


Taís Gasparian é advogada, sócia do escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell
de Figueiredo, Gasparian e Tourinho, e mestre pelo Departamento de Filosofia e
Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da USP.’




EVANGELHO DE JUDAS
João Batista Libanio


Sensacionalismo passageiro, realidade perene


‘O cristianismo é uma realidade histórica de 2.000 anos que se vem
construindo, em perspectiva sociocultural, por duas forças convergentes: a
tradição e a cultura do momento. Sob o prisma da fé, nesse jogo humano,
acredita-se na atuação do espírito de Deus, garantindo-lhe fidelidade.


O Evangelho de Judas não atinge em profundidade nem o momento atual nem as
origens da tradição cristã. Portanto, não vai impactar no cristianismo. Sua
descoberta e o lançamento ao grande público pertencem antes ao sensacionalismo
mercadológico, e não garantem nenhuma relevância teológica.


Para a cultura atual, tal documento apenas interessará aos especialistas em
egiptologia, em língua copta ou em gnosticismo. Rincões freqüentados por
especialistas. E para a tradição cristã? E para o imaginário religioso popular?
Nova interpretação da figura de Judas influenciará a compreensão desse apóstolo
traidor e de Jesus? Creio que não. Será mais uma das infinitas informações
jornalísticas que nos assediam todos os dias e que passam com a velocidade das
notícias sensacionalistas.


A questão se põe mais seriamente para a compreensão dos escritos do Novo
Testamento. Nesse caso, a influência do Evangelho de Judas será de modo indireto
e não afetará a compreensão da pessoa de Jesus nalgum elemento fundamental para
a fé.


Desde o início, as comunidades se defrontaram com a pluralidade de escritos
sobre Jesus, já que ele mesmo não escreveu nada. Nos anos seguintes a sua morte,
redatores de comunidades cristãs recolhiam testemunhos oculares, pregações de
discípulos, tradições orais que se iam escrevendo em diversos gêneros literários
e elaboraram relatos mais longos e estruturados, que são os evangelhos. Os
documentos escritos mais antigos testemunhando a missão cristã são algumas
cartas de Paulo.


As comunidades cristãs, no início, se defrontaram com a produção de muitos
textos sobre Jesus. Procederam a um trabalho difícil, lento e firme de
selecionar aqueles que elas julgavam corresponder à autêntica fé. Chamamos tais
escritos de canônicos. E, por sua vez, rejeitavam aqueles que a contrariavam.
São os evangelhos apócrifos, entre eles, esse que se acaba de descobrir.


Com efeito, desde o século 2º, temos listas dos livros aceitos pelas
comunidades cristãs. Isso se fez por causa da proliferação de escritos espúrios,
mirabolantes sobre a vida de Jesus a partir da metade daquele século. Vários
concílios do século 4º em diante tomaram decisões sobre a lista dos livros
autenticamente revelados.


Os numerosos evangelhos apócrifos, quer os já conhecidos, quer algum que
eventualmente se venha a descobrir, por serem apócrifos, não alteram o dado
básico da fé. O atual texto canônico da escritura está aberto a ser aperfeiçoado
com a descoberta de manuscritos dos primeiros séculos que atestam melhor versão.
Textos apócrifos ou dados culturais da época de Jesus ajudam a situar melhor o
contexto da redação dos textos canônicos. Assim, o Evangelho de Judas, de origem
gnóstica, permitirá aos estudiosos entender melhor a reação das comunidades
cristãs na sua já conhecida luta contra o gnosticismo. Conhecê-lo tem
importância para entender por que ele provocou uma reflexão reativa por parte
dos cristãos.


A gnose apresentava-se como ensinamentos esotéricos que conduziam os
iniciados à salvação pelo conhecimento das grandes verdades religiosas, ou
êxtase. Refletiam uma rejeição das realidades materiais ou carnais, vinculadas
ao mal, a um outro princípio criador divino. No desprezo pela matéria, propunham
uma espiritualização e intelectualização da salvação.


São João, no Evangelho e na primeira carta, oferece elementos que podem ser
interpretados como contraposição aos gnósticos. A verdadeira gnose do cristão é
a fé na revelação de Deus por e em Jesus. E Jesus é o Verbo que veio na forma de
carne, e não espiritualmente. Não é se livrando do corpo que Jesus nos salva,
mas morrendo e ressuscitando. A salvação não se faz pelo conhecimento,
especialmente esotérico (gnose), mas pelo sangue de Cristo. Há identidade entre
o Cristo crucificado e ressuscitado. A insistência antignóstica da tradição
cristã do início, valorizando o corpo de Cristo na vida terrestre e depois de
glorificado, é dado essencial da fé que não será abalado por nenhuma descoberta
gnóstica. No Evangelho de Judas, Jesus pede-lhe que o liberte do corpo.


Passados, portanto, o sensacionalismo da publicidade e os jogos de mercado,
voltaremos às águas tranqüilas de uma fé no Jesus histórico, interpretado pelas
comunidades cristãs à luz da ressurreição. Dado inabalável e fundamental do
cristianismo, que sofre muito mais o impacto da cultura atual que o de tais
descobertas peregrinas.


João Batista Libanio, 74, mestre e doutor em teologia, é professor de
teologia no Instituto Santo Inácio, dos jesuítas, de Belo Horizonte. É autor de
‘Eu Creio -Nós Cremos’ (Loyola), entre outras obras.’


Luiz Felipe Pondé


A traição do cristianismo


‘Ao contrário do que pode parecer num primeiro momento, cristianismo não é um
substantivo evidente quando posto sob a lupa do especialista.


Para o senso comum, a palavra ‘cristianismo’ descreve a vinda de Deus à Terra
na pele de Jesus Cristo e sua história posterior.


Cristianismo é um substantivo polifônico, uma realidade sociohistórica
repleta de camadas que adentram campos distintos da experiência conceitualmente
organizada, tais como política, teologia, filosofia, pastoral, crítica
literária, exegese, psicologia, estudos culturais e de gênero, fisiologia,
estética. Além disso, os atores religiosos são variados no que se refere a
repertórios e práticas, portanto, não existe uma unidade monolítica em termos de
sensibilidades, esperanças e produção de sentido ao longo de grandes espaços de
tempo e em meio a um contingente significativo de pessoas.


Na interação e tensão entre esses distintos saberes e práticas, instala-se,
muitas vezes, impactos que, como ondas de efeito retardado e de intensidade
irregular, podem estabelecer entre os diversos agentes acima referidos as mais
variadas conseqüências. Sabemos que as identidades religiosas sofrem contínuas
pressões internas e externas ao seu cotidiano, principalmente no caso do
cristianismo, ‘sede geográfica’ do fenômeno da (pós)modernidade e seu rolo
compressor relativista. Trata-se de uma temporalidade quase glacial, e o
cristianismo é, nesse sentido, um ambiente excepcionalmente sujeito a todo tipo
de tempestades e terremotos.


Evidentemente, parece pouco provável imaginar um padre perguntando algo como
‘sabemos agora que Judas foi um dos evangelistas, foram as elites que nos
obrigaram a queimá-lo todo ano?’. Ou uma devota católica carregando um
‘santinho’ do Iscariotes na bolsa. Ou mesmo um pastor pentecostal, entre uma
desobsessão e outra, remetendo à força do espírito de Judas o sucesso da
destruição do demônio das quartas-feiras limítrofes entre o cristianismo e a
umbanda.


Todavia, há algum tempo, fiéis achavam estranho pregações afeitas a um
sincretismo materialista-cristão, cozido na hermenêutica marxista revolucionária
latino-americana. Ou mesmo a confusão de identidade entre pastoral e prática
militante partidária.


Novas exegeses fazem da Bíblia hebraica a matriz de uma ‘religião de
posseiros’ ou uma ‘seita da terra’ que se fez monoteísta pela opressão elitista
da casta do templo (para quem o monoteísmo servia como unidade teológica e
política manipuladora).


Ou seria o cristianismo uma religião prioritariamente contrária a qualquer
institucionalização do amor e da família, assim como uma espécie de ‘maio de 68’
na velha Israel? Pode-se interpretar a chamada ‘revolução conservadora’ do
Vaticano como uma reação contra os excessos hermenêuticos que dissipam o núcleo
duro do catolicismo romano. A própria idéia de que existe um tal núcleo pode ser
foco de acirradas controvérsias ‘cristãs’, e a ampliação do círculo
hermenêutico, pelo acúmulo de informações, pode significar o simples
esvaziamento da experiência cultural cristã ‘originária’ em formas parasitas ou
competitivas de espiritualidade contemporânea.


Como disse Heine certa feita com relação aos seus contemporâneos teólogos,
‘só se é traído pelos seus’. Além disso, é comum hoje a passagem imediata de
tendências da (indústria da) crítica cultural à exegese bíblica.


O Evangelho de Judas guarda uma certa semelhança de vocabulário e atmosfera
com outros ‘gnósticos’ (termo historicamente impreciso, mas não banal): termos
como ‘aeon’, Barbelo, Sofia, Yaldabaoth, Seth, um docetismo discreto,
representam esse parentesco.


A construção da identidade ‘primitiva’ do cristianismo foi um longo processo
de ‘eleição’ de um cânone de narrativas. O impacto possível do ‘evangelho do
traidor’ (ele não é mais mero fantoche de Deus) deve ser procurado na herança da
crítica histórica liberal protestante nascida no século 19 e suas modas
hermenêuticas, e não apenas como algo que opõe narrativas canônicas a narrativas
apócrifas no seio da pastoral da periferia de São Paulo.


A questão anterior é: em que medida a crítica histórica tem efeito retardado
sobre o tecido teórico e prático do cristianismo? A primeira resposta é: na
proporção direta em que se passar da nova exegese à nova crítica canônica, e tal
passagem pode ser fruto de mera promiscuidade técnica ‘libertária’. Como a
história pós-moderna aponta, isso dependerá das tensões entre as várias
dimensões da sociedade e suas modas culturais.


Luiz Felipe Pondé, filósofo, é professor do programa de estudos pós-graduados
em ciências da religião e do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade
de Comunicação da Faap. É autor de, entre outras obras, ‘Crítica e Profecia,
Filosofia da Religião em Dostoiévski’.’




IGREJA vs. CÓDIGO DA VINCI
Folha de S. Paulo


Vaticano hostiliza ‘O Código Da Vinci’ e Judas na Semana Santa


‘O Vaticano aproveitou a Sexta-Feira da Paixão, ontem, para voltar a atacar
duramente o best-seller ‘O Código Da Vinci’ e o filme sobre o livro. E no dia
anterior, em sua primeira cerimônia de lava-pés como papa, Bento 16 aproveitou
para criticar a idéia contida no manuscrito chamado de ‘Evangelho de Judas’,
apresentado há uma semana.


Segundo o esse documento, Jesus Cristo pediu a Judas para ser traído, o que
lhe permitiria completar sua missão de evangelização. Judas seria assim um
confidente de Jesus, não um traidor.


Na cerimônia, Bento 16 definiu Judas como ‘mentiroso’. Usou-o como exemplo
para condenar a auto-suficiência do homem atual, que se deixa conquista pelo
poder e pelo dinheiro. ‘O que faz o homem imundo? É rejeitar o amor. É a
arrogância de achar que não precisa de purificação alguma, que se fecha a
bondade salvadora de Jesus.’


‘Judas é ávido. O dinheiro para ele é mais importante que a comunhão com
Jesus, mais importante que Deus e seu amor. E assim se transforma em um
mentiroso, faz jogo duplo.’


Ao contrário de João Paulo 2º, que costumava lavar os pés de outros
sacerdotes, Bento 16 escolheu homens comuns, membros de associações e movimentos
comunitários de Roma. O papa afirmou que Jesus se ajoelhava e prestava um
serviço que era realizado pelos escravos. E que lavava os pés sujos para que
todos fossem dignos de tomar lugar à sua mesa.


Em cerimônia da Sexta-Feira da Paixão, na presença do papa, o padre
franciscano Raniero Cantalamessa, pregador oficial do Vaticano e membro da
Renovação Carismática, redobrou os ataques a ‘O Código Da Vinci’, embora sem
citá-lo. O ato confirma seu enorme sucesso e o grau de irritação que provoca no
Vaticano.


‘Cristo continua sendo vendido, mas não mais por apenas 30 moedas’, afirmou
Cantalamessa, ‘mas por editores e vendedores de livros por bilhões de
moedas.’


‘Hoje há uma fascinação para cada nova teoria em que Cristo não foi
crucificado, que não morreu, que fugiu com Maria Madalena.’ Uma das teses do
livro é que Jesus se casou com Madalena e teve filhos. Cantalamessa aproveitou
para atacar o filme baseado no livro, estrelado pelo ator americano Tom Hanks,
que será lançado no mês que vem, na abertura do Festival de Cinema de
Cannes.


‘Ninguém pode parar essa onda de especulação, que terá um grande aumento com
o iminente lançamento de um certo filme.’


Ontem à noite, o papa conduziu a procissão da via-crúcis, ao redor das ruínas
do Coliseu, em Roma. Hoje, ele realizaria a missa de Sábado de Aleluia. Amanhã,
além de celebrar a Páscoa no Vaticano, Bento 16 comemorará seu aniversário de 79
anos.


Com agências internacionais’




TELEVISÃO
Daniel Castro


Annenberg volta às ruas nos 35 anos do ‘JH’


‘Sandra Annenberg, 37, não é só um rostinho bonito. Mãe de uma menina de três
anos, a apresentadora do ‘Jornal Hoje’ acorda cedo. Começa a trabalhar às 7h e,
nos últimos dias, só tem deixado a Globo (onde está prestigiadíssima) depois das
17h, às vezes 19h.


Sandra acumula a função de apresentadora do ‘JH’ com a de editora-executiva
do próprio telejornal e de editora-chefe do boletim ‘Globo Notícia’ das 9h30
_por isso, tem que chegar cedo. Nas últimas semanas, a jornalista arrumou mais
uma ‘função’: depois do ‘JH’, vira repórter.


Na próxima sexta, quando o ‘Jornal Hoje’ completa 35 anos, Sandra estreará
uma coluna quinzenal que a obrigou a voltar a produzir reportagens nas ruas
_coisa que não fazia desde 2002.


‘Hoje em Família’, nome da coluna, tem muito a ver com a atual fase da
jornalista. ‘Vamos tratar de vários assuntos da família, do nascimento à
aposentadoria’, diz. ‘As primeiras colunas serão sobre partos. Uma das
personagens é justamente uma mulher de 35 anos, a idade do jornal, que está
tendo o primeiro filho.’


A coluna terá um tom documental. ‘São colagens de depoimentos, em que as
pessoas mostram suas emoções’, adianta.


Sandra trabalha desde os 14 anos. Já foi apresentadora de programa infantil e
atriz. Na Globo há 15 anos, atuou como repórter, moça do tempo e apresentou
todos os jornalísticos da casa.


OUTRO CANAL


SBT News 1 Anunciado na semana passada e logo depois cancelado, um segundo
telejornal com Carlos Nascimento está de pé no SBT. Na emissora, trabalha-se
para estreá-lo em duas semanas. O telejornal irá ao ar às 22h, às segundas e
terças, quintas e sextas. Não haverá edições às quartas-feiras, por causa de
‘Ídolos’.


SBT News 2 O principal problema do novo telejornal é a falta de editores.
Será usada praticamente a mesma estrutura do ‘SBT Brasil’, de Ana Paula Padrão,
que, por enquanto, continuará mesmo às 20h _e não às 18h30, como chegou a ser
anunciado oficialmente.


Retorno A atriz Giovanna Antonelli fará no seriado ‘Minha Nada Mole Vida’ seu
primeiro trabalho na Globo desde que deu à luz Pietro, no ano passado. Grava na
semana que vem participação como uma publicitária que, no meio de uma entrevista
a Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães), passa mal e desmaia.


Ficha Também participarão dos próximos episódios de ‘Minha Nada Mole Vida’ as
atrizes Graziella Moretto e Claudia Lira.


Tesoura Depois de apresentar ao Ministério da Justiça uma cópia com cortes do
longa de animação infantil ‘Pocahontas – O Encontro de Dois Mundos’ (Disney,
1988), a Globo conseguiu liberar o filme para exibição em horário livre. No ano
passado, a produção recebeu classificação de 12 anos (não poderia ser veiculada
antes das 20h).’


Ricardo Bonalume Neto


Série trata do papel político de João Paulo 2º


‘Não é preciso ser católico para respeitar a figura do papa João Paulo 2º, o
polonês Karol Józef Wojtyla (1920-2005). Ele foi o primeiro papa não-italiano
desde o século 16, e seu longo pontificado, de quase 27 anos, teve grande
influência nos eventos mundiais do último quarto do século 20.


A minissérie em dois episódios trata com respeito um dos papas mais
carismáticos da história recente, mas não chega a ser uma hagiografia total.
João Paulo 2º está em processo de canonização; a série não trata de seus
supostos milagres, mas sim de seu papel terreno, eminentemente político.


Com Jon Voight no papel do papa mais velho e Cary Elwes representando o jovem
Wojtyla, a história começa em 1º de setembro de 1939, quando os alemães invadem
a Polônia. Os amigos do futuro papa procuram resistir aos alemães com
violência.


Wojtyla opta por se tornar padre e fazer um outro tipo de combate -o mesmo
que faria depois, ao resistir aos comunistas que tomaram o poder no seu país.
Wojtyla tem seu papel na história assegurado por essa luta contra dois dos
totalitarismos que escravizaram o homem no séc. 20. Para resistir ao nazismo e
ao comunismo, sua resposta era fortalecer a igreja e a fé de seus
seguidores.


Há aspectos que teria sido interessante detalhar melhor. A inédita escolha de
um papa polonês depois de séculos de papas italianos não é explicada. Mais
polêmico, e pouco mencionado, foi o seu conservadorismo em temas sociais. Mas é
inegável que suas posições mantiveram coerência com a doutrina católica
tradicional. Ele deixava claro: ou você é católico e segue o que a igreja
define, ou é outra coisa. Ninguém é obrigado a ser católico.


Papa João Paulo 2º


Quando: hoje, às 22h (parte 1), e amanhã, às 22h (parte 2), no canal
MGM.’




******************


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E-NOTíCIAS > FIM DE SEMANA, 15 E 16/04

Folha de S. Paulo

18/04/2006 na edição 377


CRISE POLÍTICA
Clóvis Rossi


Um país provisório


‘A esculhambação neste pobre país tropical é tão colossal e vem de tanto
tempo, mas tanto tempo, que a gente acaba por nem se dar conta do surrealismo e
do absurdo de determinadas situações.


Fico hoje apenas na mais recente, o Orçamento da República. Em países sérios,
examinar, aperfeiçoar (ou, eventualmente, piorar) e votar o Orçamento é a
atividade mais relevante dos Parlamentos. Define, além disso, a cara do governo,
pelos tipos de gasto que prioriza.


Quando calha de eu estar em Londres, por exemplo, nas imediações da
apresentação pública da peça orçamentária, fico intrigado com a tonelada de
informações sobre ela que freqüentam a mídia, inclusive rádio e televisão, em
tese menos interessados em temas áridos.


Uma vez, cheguei até a ouvir, no rádio do táxi, um desses ‘talk-shows’
matinais em que o tema era exclusivamente o Orçamento.


Subdesenvolvido de carteirinha, dava até risada intimamente. ‘É
inacreditável, mas eles levam a sério esse troço’, pensava.


No Brasil, ao contrário, transcorridos já três meses e meio, o Orçamento não
foi votado. Nem é uma peça definitória, mas um objeto de barganhas políticas em
geral miúdas. Justas ou não, pouco importa.


Pior: em decorrência da não-votação, o governo recorre a uma medida
provisória para liberar parte das verbas. Com isso, o que deveria ser
definitivo, torna-se provisório, como diz o nome do instrumento legal utilizado.
Em tese, pode acontecer de o Congresso rejeitar a medida provisória. Se for
assim, perde eficácia.


Digamos que uma empresa tenha recebido dinheiro para iniciar a obra de uma
ponte por conta da MP quase-orçamentária. A MP cai. A empresa devolve o dinheiro
e demole o que já tiver construído?


É surreal, não é? Mas é assim que o país funciona (ou não funciona).
Provisoriamente. Sempre.’




LULA NO LE MONDE
Folha de S. Paulo


Lula é exemplo a ser seguido, diz ‘Le Monde’


‘O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou defesa
internacional ontem, ao ser tema de editorial do jornal francês ‘Le Monde’. Em
uma comparação com a gestão do venezuelano Hugo Chávez, Lula é citado como
exemplo a ser seguido pelos líderes esquerdistas da América Latina que assumiram
recentemente, como Evo Morales, na Bolívia, e Michelle Bachelet, no Chile.


‘Entre Hugo Chávez e Lula da Silva, duas esquerdas se opõem. Uma propõe um
discurso radical com acentos populistas e avanço de soluções nacionalistas. A
outra, centrista, propõe uma política orçamentária ortodoxa a fim de atrair
capitais e busca inserir a economia na globalização’, afirma o Le Monde.


O diário francês destaca a guinada à esquerda na região e calcula que, das 17
eleições que serão realizadas na região entre dezembro de 2006 e dezembro de
2006, as lideranças de esquerda serão vencedoras em 80% delas. Para o jornal, ‘a
solução brasileira de jogar o jogo da inserção na globalização impõe
constrangimentos que limitam o crescimento’. Mas o ‘investimento na educação e
na infra-estrutura e a abertura aos capitais preparam o futuro’. Com agências
internacionais’




MEMÓRIA / MIGUEL REALE
Leandro Beguoci, Malu Delgado e Marcelo
Salinas


Jurista Miguel Reale morre aos 95 em SP


‘O jurista Miguel Reale, 95, morreu ontem, às 0h20, vitimado por um infarto
do miocárdio. Ele estava em sua casa, na cidade de São Paulo, acompanhado de um
enfermeiro. Reale morreu logo depois de assistir ao jogo do Palmeiras, seu time
de futebol.


O filho caçula, Miguel Reale Júnior, disse que três coisas animavam o pai nos
últimos anos: os netos e bisnetos, os artigos que escrevia e o Palmeiras. ‘Ele
assistiu ao jogo inteirinho, reclamando que foi um ‘joguinho porcaria’, que o
time ainda perdeu e teve muita briga’, relatou o filho. Minutos depois,
abaixou-se para tirar as meias e sofreu o infarto.


Miguel Reale foi enterrado no Cemitério São Paulo ao lado do pai, Braz Reale,
da mulher, Filomena Pucci Reale, e da filha Lívia. O jurista deixou dois filhos
-Reale Júnior, ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso, e Ebe
Reale-, quatro netos e quatro bisnetos.


Reale Júnior foi aluno do pai na USP. A proximidade do professor com o regime
militar não o afastou do filho, que estava na oposição. ‘Tínhamos uma
convivência com divergência e com afeto.’ Sobre a obra do pai, diz: ‘Deu ao
direito um senso de concretude, fincando-o na realidade’.


Lembranças do professor


Poucos políticos compareceram ao sepultamento, devido ao feriado. Celso Lafer
e Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministros de FHC, estavam presentes. Lafer
foi aluno de Reale, o conhecia desde os seis anos de idade e era um dos melhores
amigos do professor, ao lado do jurista Tércio Sampaio Ferraz Júnior. ‘Ele
encontrou um caminho dos mais fecundos para o entendimento do direito, da
filosofia e do nosso país’, diz Lafer.


De Pernambuco, o candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, telefonou
para Reale Júnior. Cláudio Lembo, governador de São Paulo e aluno de Reale, foi
ao velório, na casa em que o professor morava desde 1973. ‘Foi um exemplo de
dignidade, de valores profundos.’ O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e o
presidente do PMDB, Michel Temer, prestaram solidariedade à família.


A USP, da qual Reale foi reitor entre 1949 e 1950 e entre 1969 e 1973, foi
representada pelo pró-reitor de Cultura e Extensão, Sedi Hirano. Apaixonado pelo
mundo acadêmico, gostava de ser chamado apenas de ‘professor’. ‘Na ditadura, ele
representou o equilíbrio entre o Estado de Direito e o Estado de exceção’, diz
Hirano.


Para os amigos, lucidez e vitalidade foram virtudes que acompanharam Miguel
Reale até os últimos momentos de vida. Somente após a morte da mulher é que
viveu um tanto recluso.


O professor foi o criador da teoria tridimensional do direito, em que defende
que o direito precisa ser analisado sob três prismas ou princípios: fato, valor
e norma.


Outra obra marcante de Miguel Reale foi a revisão do Código Civil Brasileiro,
trabalho que executou ao longo de décadas e só entrou em vigor em 2002. Para o
ministro do Supremo Tribunal Federal Enrique Lewandowski, Reale foi responsável
por dar uma visão social ao Código Civil. Segundo Lewandowski, Reale deu ao
código a noção de responsabilidade social nas relações privadas.


Miguel Reale angariou uma legião de admiradores. Ex-aluno do professor,
Agenor Mônaco, 79, foi despedir-se do mestre, que conheceu na Ação Integralista
Brasileira. Foi aluno dele em 1954. ‘Sou portador de uma nota 10 do professor
que, para mim, teve mais significação que o diploma.’’


Taís Gasparian


Vida de Reale oscilou entre o direito e a política


‘Nascido em 1910, no interior do Estado de São Paulo, Miguel Reale teve uma
vida que oscilou entre o mundo jurídico e o político. Com trânsito fluente
nessas duas áreas, Miguel Reale contribuiu para a elaboração dos mais
importantes documentos jurídicos brasileiros da segunda metade do século 20.
Esteve presente na elaboração da Constituição Federal de 1946; colaborou para a
redação da emenda constitucional nº 1, em 1969; foi o responsável pela
sistematização do anteprojeto do Código Civil; deu importantes subsídios quando
da elaboração da Constituição Federal vigente e foi presidente da Comissão
Paulista de Estudos Constitucionais, criada na Secretaria de Estado da Justiça,
que tinha por objetivo elaborar sugestões para a revisão constitucional.


No que se refere à sua atuação política, Miguel Reale teve um passado de
proximidade com o poder. Em 1935, estava na linha de frente do movimento
anticomunista, tendo sido um dos líderes da Ação Integralista Brasileira, que
possuía forte inspiração fascista. Foi grande colaborador de Adhemar de Barros,
candidato vitorioso ao governo do Estado de São Paulo, em 1947, pelo PSP,
ocupando o cargo de secretário da Justiça. Foi um dos fundadores do Instituto
Brasileiro de Filosofia e, em 1950, foi nomeado reitor da Universidade de São
Paulo.


Em 1962, apesar da distância que então o separava de Adhemar -em razão de ter
sido preterido na indicação de seu sucessor-, novamente eleito ao governo de São
Paulo, Miguel Reale retorna à Secretaria da Justiça. Dali, participou das
articulações do Movimento de 1964, acreditando, verdadeiramente, serem as Forças
Armadas, àquela época, as intérpretes fiéis da opinião pública.


Ultrapassados 13 anos da revolução, Miguel Reale, em depoimento à Folha,
reafirmou sua crença no movimento: ‘Felizmente a estrutura janguista esboroou-se
tal como se constituiu, melancolicamente, sem grandeza, e a Revolução, resolvida
em poucas horas, quedou perplexa diante de seu próprio destino, até que fossem
emanados atos definidores de uma diretriz até hoje ainda não claramente
formulada, mas que, desde as suas origens, só pode ter por objetivo a realização
de uma democracia social com liberdade e segurança’. Mais cético, no mesmo ano
de 1977, em análise das reformas então apregoadas pelo presidente Geisel, Reale
afirmou que ‘o processo revolucionário possui raízes mais profundas do que
aquelas que condicionaram as primeiras atitudes aparentes, fazendo, com o tempo,
brotar e desenvolver resultados que levam de roldão as intenções ou os cálculos
originários’.


Mais uma vez assumiu a reitoria da USP entre 1969 e 1973, implantando a
reforma administrativa e universitária. Em 1970, foi cogitado para suceder a
Abreu Sodré no governo de São Paulo e, em 1975, em razão de problemas
familiares, recusou convite de Leitão de Abreu para o cargo de ministro do
Supremo Tribunal Federal.


Mais tarde, por volta de 1978, defendeu a institucionalização do regime de
1964, inclusive tendo se manifestado a favor da anistia e da adoção de medidas
visando à ‘abertura política’. Reconheceu, então, que a consolidação democrática
somente se daria com a revogação do AI-5. Sempre cauteloso, não advogava a tese
da revogação sumária, mas sim a substituição desse mecanismo por outros que
pudessem ‘proteger a sociedade da grave ameaça de atos de violência e
subversão’. Assentiu ser o AI-5 sempre indesejável, proclamando, em
contrapartida, ser esse recurso sempre utilizado cada vez que o ‘Legislativo
invade a área de segurança que o governo revolucionário reservou para si’. Em
1984, elogiou a campanha pelas eleições diretas, pelo seu caráter de ‘entusiasmo
popular’.


Como filósofo e jurista, destacou-se, sem qualquer sombra de dúvida, como o
maior paradigma que a filosofia do direito já teve no Brasil. Para Tristão de
Athayde, a carreira filosófica de Miguel Reale teria sido uma tentativa
crescente para libertar-se do rótulo de ‘integralista’, que o perseguiu durante
décadas. Presente ou não uma atitude deliberada nesse sentido, o fato é que,
apesar de a atuação de Reale sempre ter tido um caráter conservador, sua obra é
um dos pilares de qualquer análise progressista do direito.


Extremamente inovadora para a época em que foi formulada, a Teoria
Tridimensional do Direito, da qual Miguel Reale é considerado o fundador, é
expressada pela integração de três fatores -fato, valor e norma- na experiência
jurídica. Miguel Reale foi o primeiro, de acordo com os maiores centros de
cultura jurídica mundiais, a conceber a experiência jurídica com essa conotação
tríade, o que veio a proporcionar a compreensão do direito como experiência
concreta. Rejeitou a antiga interpretação que considerava esses fatores de modo
isolado, tendo com isso aberto nova fase nos estudos filosóficos nessa área.


Cursou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São
Paulo, no início dos anos 30, e em 1940, depois de um concurso conturbadíssimo,
assumiu a cátedra de filosofia do direito da USP, dela só se aposentando em
1980, aos 70 anos.


Dizem, sobre o seu concurso de cátedra, que Miguel Reale foi aprovado pela
banca examinadora, mas o parecer desta teria sido rejeitado pela congregação da
faculdade. Reale teria, então, recorrido administrativamente da decisão ao
interventor. Este, por sua vez, consultou Getúlio Vargas, que mandou que fosse
lavrada a nomeação de Reale. Contam, ainda, que em 1943, os alunos da Faculdade
de Direito permaneceram meses em greve, recusando-se a aceitar Reale como
professor.


Seus alunos guardam a lembrança de um professor didático, porém rígido. Não
fez sucessores na faculdade, sendo que Tercio Sampaio Ferraz Jr. e José Eduardo
Faria talvez sejam, atualmente, os seus mais brilhantes discípulos.


Sua vasta obra na área jurídica conta com mais de 30 livros, destacando-se,
dentre eles, ‘Fundamentos do Direito’ (1940), sua tese de cátedra; ‘Teoria do
Direito e do Estado’ (1940), no qual já se nota a concepção da Teoria
Tridimensional; ‘Filosofia do Direito’ (1953), no qual sistematizou a
metodologia da Teoria Tridimensional, sendo extrato dessa obra o livro ‘Teoria
Tridimensional’ (publicado em 1968), que ganhou repercussão internacional; e ‘O
Direito Como Experiência’ (1968).


Em 1962, escreveu um trabalho sobre ‘O Cansaço das Ideologias’, no qual,
parodiando Machado de Assis, proclamou que por onde quer que se andasse, ‘havia
um desencanto por toda e qualquer idéia encaixotada’.


Taís Gasparian é advogada, sócia do escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell
de Figueiredo, Gasparian e Tourinho, e mestre pelo Departamento de Filosofia e
Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da USP.’




EVANGELHO DE JUDAS
João Batista Libanio


Sensacionalismo passageiro, realidade perene


‘O cristianismo é uma realidade histórica de 2.000 anos que se vem
construindo, em perspectiva sociocultural, por duas forças convergentes: a
tradição e a cultura do momento. Sob o prisma da fé, nesse jogo humano,
acredita-se na atuação do espírito de Deus, garantindo-lhe fidelidade.


O Evangelho de Judas não atinge em profundidade nem o momento atual nem as
origens da tradição cristã. Portanto, não vai impactar no cristianismo. Sua
descoberta e o lançamento ao grande público pertencem antes ao sensacionalismo
mercadológico, e não garantem nenhuma relevância teológica.


Para a cultura atual, tal documento apenas interessará aos especialistas em
egiptologia, em língua copta ou em gnosticismo. Rincões freqüentados por
especialistas. E para a tradição cristã? E para o imaginário religioso popular?
Nova interpretação da figura de Judas influenciará a compreensão desse apóstolo
traidor e de Jesus? Creio que não. Será mais uma das infinitas informações
jornalísticas que nos assediam todos os dias e que passam com a velocidade das
notícias sensacionalistas.


A questão se põe mais seriamente para a compreensão dos escritos do Novo
Testamento. Nesse caso, a influência do Evangelho de Judas será de modo indireto
e não afetará a compreensão da pessoa de Jesus nalgum elemento fundamental para
a fé.


Desde o início, as comunidades se defrontaram com a pluralidade de escritos
sobre Jesus, já que ele mesmo não escreveu nada. Nos anos seguintes a sua morte,
redatores de comunidades cristãs recolhiam testemunhos oculares, pregações de
discípulos, tradições orais que se iam escrevendo em diversos gêneros literários
e elaboraram relatos mais longos e estruturados, que são os evangelhos. Os
documentos escritos mais antigos testemunhando a missão cristã são algumas
cartas de Paulo.


As comunidades cristãs, no início, se defrontaram com a produção de muitos
textos sobre Jesus. Procederam a um trabalho difícil, lento e firme de
selecionar aqueles que elas julgavam corresponder à autêntica fé. Chamamos tais
escritos de canônicos. E, por sua vez, rejeitavam aqueles que a contrariavam.
São os evangelhos apócrifos, entre eles, esse que se acaba de descobrir.


Com efeito, desde o século 2º, temos listas dos livros aceitos pelas
comunidades cristãs. Isso se fez por causa da proliferação de escritos espúrios,
mirabolantes sobre a vida de Jesus a partir da metade daquele século. Vários
concílios do século 4º em diante tomaram decisões sobre a lista dos livros
autenticamente revelados.


Os numerosos evangelhos apócrifos, quer os já conhecidos, quer algum que
eventualmente se venha a descobrir, por serem apócrifos, não alteram o dado
básico da fé. O atual texto canônico da escritura está aberto a ser aperfeiçoado
com a descoberta de manuscritos dos primeiros séculos que atestam melhor versão.
Textos apócrifos ou dados culturais da época de Jesus ajudam a situar melhor o
contexto da redação dos textos canônicos. Assim, o Evangelho de Judas, de origem
gnóstica, permitirá aos estudiosos entender melhor a reação das comunidades
cristãs na sua já conhecida luta contra o gnosticismo. Conhecê-lo tem
importância para entender por que ele provocou uma reflexão reativa por parte
dos cristãos.


A gnose apresentava-se como ensinamentos esotéricos que conduziam os
iniciados à salvação pelo conhecimento das grandes verdades religiosas, ou
êxtase. Refletiam uma rejeição das realidades materiais ou carnais, vinculadas
ao mal, a um outro princípio criador divino. No desprezo pela matéria, propunham
uma espiritualização e intelectualização da salvação.


São João, no Evangelho e na primeira carta, oferece elementos que podem ser
interpretados como contraposição aos gnósticos. A verdadeira gnose do cristão é
a fé na revelação de Deus por e em Jesus. E Jesus é o Verbo que veio na forma de
carne, e não espiritualmente. Não é se livrando do corpo que Jesus nos salva,
mas morrendo e ressuscitando. A salvação não se faz pelo conhecimento,
especialmente esotérico (gnose), mas pelo sangue de Cristo. Há identidade entre
o Cristo crucificado e ressuscitado. A insistência antignóstica da tradição
cristã do início, valorizando o corpo de Cristo na vida terrestre e depois de
glorificado, é dado essencial da fé que não será abalado por nenhuma descoberta
gnóstica. No Evangelho de Judas, Jesus pede-lhe que o liberte do corpo.


Passados, portanto, o sensacionalismo da publicidade e os jogos de mercado,
voltaremos às águas tranqüilas de uma fé no Jesus histórico, interpretado pelas
comunidades cristãs à luz da ressurreição. Dado inabalável e fundamental do
cristianismo, que sofre muito mais o impacto da cultura atual que o de tais
descobertas peregrinas.


João Batista Libanio, 74, mestre e doutor em teologia, é professor de
teologia no Instituto Santo Inácio, dos jesuítas, de Belo Horizonte. É autor de
‘Eu Creio -Nós Cremos’ (Loyola), entre outras obras.’


Luiz Felipe Pondé


A traição do cristianismo


‘Ao contrário do que pode parecer num primeiro momento, cristianismo não é um
substantivo evidente quando posto sob a lupa do especialista.


Para o senso comum, a palavra ‘cristianismo’ descreve a vinda de Deus à Terra
na pele de Jesus Cristo e sua história posterior.


Cristianismo é um substantivo polifônico, uma realidade sociohistórica
repleta de camadas que adentram campos distintos da experiência conceitualmente
organizada, tais como política, teologia, filosofia, pastoral, crítica
literária, exegese, psicologia, estudos culturais e de gênero, fisiologia,
estética. Além disso, os atores religiosos são variados no que se refere a
repertórios e práticas, portanto, não existe uma unidade monolítica em termos de
sensibilidades, esperanças e produção de sentido ao longo de grandes espaços de
tempo e em meio a um contingente significativo de pessoas.


Na interação e tensão entre esses distintos saberes e práticas, instala-se,
muitas vezes, impactos que, como ondas de efeito retardado e de intensidade
irregular, podem estabelecer entre os diversos agentes acima referidos as mais
variadas conseqüências. Sabemos que as identidades religiosas sofrem contínuas
pressões internas e externas ao seu cotidiano, principalmente no caso do
cristianismo, ‘sede geográfica’ do fenômeno da (pós)modernidade e seu rolo
compressor relativista. Trata-se de uma temporalidade quase glacial, e o
cristianismo é, nesse sentido, um ambiente excepcionalmente sujeito a todo tipo
de tempestades e terremotos.


Evidentemente, parece pouco provável imaginar um padre perguntando algo como
‘sabemos agora que Judas foi um dos evangelistas, foram as elites que nos
obrigaram a queimá-lo todo ano?’. Ou uma devota católica carregando um
‘santinho’ do Iscariotes na bolsa. Ou mesmo um pastor pentecostal, entre uma
desobsessão e outra, remetendo à força do espírito de Judas o sucesso da
destruição do demônio das quartas-feiras limítrofes entre o cristianismo e a
umbanda.


Todavia, há algum tempo, fiéis achavam estranho pregações afeitas a um
sincretismo materialista-cristão, cozido na hermenêutica marxista revolucionária
latino-americana. Ou mesmo a confusão de identidade entre pastoral e prática
militante partidária.


Novas exegeses fazem da Bíblia hebraica a matriz de uma ‘religião de
posseiros’ ou uma ‘seita da terra’ que se fez monoteísta pela opressão elitista
da casta do templo (para quem o monoteísmo servia como unidade teológica e
política manipuladora).


Ou seria o cristianismo uma religião prioritariamente contrária a qualquer
institucionalização do amor e da família, assim como uma espécie de ‘maio de 68’
na velha Israel? Pode-se interpretar a chamada ‘revolução conservadora’ do
Vaticano como uma reação contra os excessos hermenêuticos que dissipam o núcleo
duro do catolicismo romano. A própria idéia de que existe um tal núcleo pode ser
foco de acirradas controvérsias ‘cristãs’, e a ampliação do círculo
hermenêutico, pelo acúmulo de informações, pode significar o simples
esvaziamento da experiência cultural cristã ‘originária’ em formas parasitas ou
competitivas de espiritualidade contemporânea.


Como disse Heine certa feita com relação aos seus contemporâneos teólogos,
‘só se é traído pelos seus’. Além disso, é comum hoje a passagem imediata de
tendências da (indústria da) crítica cultural à exegese bíblica.


O Evangelho de Judas guarda uma certa semelhança de vocabulário e atmosfera
com outros ‘gnósticos’ (termo historicamente impreciso, mas não banal): termos
como ‘aeon’, Barbelo, Sofia, Yaldabaoth, Seth, um docetismo discreto,
representam esse parentesco.


A construção da identidade ‘primitiva’ do cristianismo foi um longo processo
de ‘eleição’ de um cânone de narrativas. O impacto possível do ‘evangelho do
traidor’ (ele não é mais mero fantoche de Deus) deve ser procurado na herança da
crítica histórica liberal protestante nascida no século 19 e suas modas
hermenêuticas, e não apenas como algo que opõe narrativas canônicas a narrativas
apócrifas no seio da pastoral da periferia de São Paulo.


A questão anterior é: em que medida a crítica histórica tem efeito retardado
sobre o tecido teórico e prático do cristianismo? A primeira resposta é: na
proporção direta em que se passar da nova exegese à nova crítica canônica, e tal
passagem pode ser fruto de mera promiscuidade técnica ‘libertária’. Como a
história pós-moderna aponta, isso dependerá das tensões entre as várias
dimensões da sociedade e suas modas culturais.


Luiz Felipe Pondé, filósofo, é professor do programa de estudos pós-graduados
em ciências da religião e do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade
de Comunicação da Faap. É autor de, entre outras obras, ‘Crítica e Profecia,
Filosofia da Religião em Dostoiévski’.’




IGREJA vs. CÓDIGO DA VINCI
Folha de S. Paulo


Vaticano hostiliza ‘O Código Da Vinci’ e Judas na Semana Santa


‘O Vaticano aproveitou a Sexta-Feira da Paixão, ontem, para voltar a atacar
duramente o best-seller ‘O Código Da Vinci’ e o filme sobre o livro. E no dia
anterior, em sua primeira cerimônia de lava-pés como papa, Bento 16 aproveitou
para criticar a idéia contida no manuscrito chamado de ‘Evangelho de Judas’,
apresentado há uma semana.


Segundo o esse documento, Jesus Cristo pediu a Judas para ser traído, o que
lhe permitiria completar sua missão de evangelização. Judas seria assim um
confidente de Jesus, não um traidor.


Na cerimônia, Bento 16 definiu Judas como ‘mentiroso’. Usou-o como exemplo
para condenar a auto-suficiência do homem atual, que se deixa conquista pelo
poder e pelo dinheiro. ‘O que faz o homem imundo? É rejeitar o amor. É a
arrogância de achar que não precisa de purificação alguma, que se fecha a
bondade salvadora de Jesus.’


‘Judas é ávido. O dinheiro para ele é mais importante que a comunhão com
Jesus, mais importante que Deus e seu amor. E assim se transforma em um
mentiroso, faz jogo duplo.’


Ao contrário de João Paulo 2º, que costumava lavar os pés de outros
sacerdotes, Bento 16 escolheu homens comuns, membros de associações e movimentos
comunitários de Roma. O papa afirmou que Jesus se ajoelhava e prestava um
serviço que era realizado pelos escravos. E que lavava os pés sujos para que
todos fossem dignos de tomar lugar à sua mesa.


Em cerimônia da Sexta-Feira da Paixão, na presença do papa, o padre
franciscano Raniero Cantalamessa, pregador oficial do Vaticano e membro da
Renovação Carismática, redobrou os ataques a ‘O Código Da Vinci’, embora sem
citá-lo. O ato confirma seu enorme sucesso e o grau de irritação que provoca no
Vaticano.


‘Cristo continua sendo vendido, mas não mais por apenas 30 moedas’, afirmou
Cantalamessa, ‘mas por editores e vendedores de livros por bilhões de
moedas.’


‘Hoje há uma fascinação para cada nova teoria em que Cristo não foi
crucificado, que não morreu, que fugiu com Maria Madalena.’ Uma das teses do
livro é que Jesus se casou com Madalena e teve filhos. Cantalamessa aproveitou
para atacar o filme baseado no livro, estrelado pelo ator americano Tom Hanks,
que será lançado no mês que vem, na abertura do Festival de Cinema de
Cannes.


‘Ninguém pode parar essa onda de especulação, que terá um grande aumento com
o iminente lançamento de um certo filme.’


Ontem à noite, o papa conduziu a procissão da via-crúcis, ao redor das ruínas
do Coliseu, em Roma. Hoje, ele realizaria a missa de Sábado de Aleluia. Amanhã,
além de celebrar a Páscoa no Vaticano, Bento 16 comemorará seu aniversário de 79
anos.


Com agências internacionais’




TELEVISÃO
Daniel Castro


Annenberg volta às ruas nos 35 anos do ‘JH’


‘Sandra Annenberg, 37, não é só um rostinho bonito. Mãe de uma menina de três
anos, a apresentadora do ‘Jornal Hoje’ acorda cedo. Começa a trabalhar às 7h e,
nos últimos dias, só tem deixado a Globo (onde está prestigiadíssima) depois das
17h, às vezes 19h.


Sandra acumula a função de apresentadora do ‘JH’ com a de editora-executiva
do próprio telejornal e de editora-chefe do boletim ‘Globo Notícia’ das 9h30
_por isso, tem que chegar cedo. Nas últimas semanas, a jornalista arrumou mais
uma ‘função’: depois do ‘JH’, vira repórter.


Na próxima sexta, quando o ‘Jornal Hoje’ completa 35 anos, Sandra estreará
uma coluna quinzenal que a obrigou a voltar a produzir reportagens nas ruas
_coisa que não fazia desde 2002.


‘Hoje em Família’, nome da coluna, tem muito a ver com a atual fase da
jornalista. ‘Vamos tratar de vários assuntos da família, do nascimento à
aposentadoria’, diz. ‘As primeiras colunas serão sobre partos. Uma das
personagens é justamente uma mulher de 35 anos, a idade do jornal, que está
tendo o primeiro filho.’


A coluna terá um tom documental. ‘São colagens de depoimentos, em que as
pessoas mostram suas emoções’, adianta.


Sandra trabalha desde os 14 anos. Já foi apresentadora de programa infantil e
atriz. Na Globo há 15 anos, atuou como repórter, moça do tempo e apresentou
todos os jornalísticos da casa.


OUTRO CANAL


SBT News 1 Anunciado na semana passada e logo depois cancelado, um segundo
telejornal com Carlos Nascimento está de pé no SBT. Na emissora, trabalha-se
para estreá-lo em duas semanas. O telejornal irá ao ar às 22h, às segundas e
terças, quintas e sextas. Não haverá edições às quartas-feiras, por causa de
‘Ídolos’.


SBT News 2 O principal problema do novo telejornal é a falta de editores.
Será usada praticamente a mesma estrutura do ‘SBT Brasil’, de Ana Paula Padrão,
que, por enquanto, continuará mesmo às 20h _e não às 18h30, como chegou a ser
anunciado oficialmente.


Retorno A atriz Giovanna Antonelli fará no seriado ‘Minha Nada Mole Vida’ seu
primeiro trabalho na Globo desde que deu à luz Pietro, no ano passado. Grava na
semana que vem participação como uma publicitária que, no meio de uma entrevista
a Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães), passa mal e desmaia.


Ficha Também participarão dos próximos episódios de ‘Minha Nada Mole Vida’ as
atrizes Graziella Moretto e Claudia Lira.


Tesoura Depois de apresentar ao Ministério da Justiça uma cópia com cortes do
longa de animação infantil ‘Pocahontas – O Encontro de Dois Mundos’ (Disney,
1988), a Globo conseguiu liberar o filme para exibição em horário livre. No ano
passado, a produção recebeu classificação de 12 anos (não poderia ser veiculada
antes das 20h).’


Ricardo Bonalume Neto


Série trata do papel político de João Paulo 2º


‘Não é preciso ser católico para respeitar a figura do papa João Paulo 2º, o
polonês Karol Józef Wojtyla (1920-2005). Ele foi o primeiro papa não-italiano
desde o século 16, e seu longo pontificado, de quase 27 anos, teve grande
influência nos eventos mundiais do último quarto do século 20.


A minissérie em dois episódios trata com respeito um dos papas mais
carismáticos da história recente, mas não chega a ser uma hagiografia total.
João Paulo 2º está em processo de canonização; a série não trata de seus
supostos milagres, mas sim de seu papel terreno, eminentemente político.


Com Jon Voight no papel do papa mais velho e Cary Elwes representando o jovem
Wojtyla, a história começa em 1º de setembro de 1939, quando os alemães invadem
a Polônia. Os amigos do futuro papa procuram resistir aos alemães com
violência.


Wojtyla opta por se tornar padre e fazer um outro tipo de combate -o mesmo
que faria depois, ao resistir aos comunistas que tomaram o poder no seu país.
Wojtyla tem seu papel na história assegurado por essa luta contra dois dos
totalitarismos que escravizaram o homem no séc. 20. Para resistir ao nazismo e
ao comunismo, sua resposta era fortalecer a igreja e a fé de seus
seguidores.


Há aspectos que teria sido interessante detalhar melhor. A inédita escolha de
um papa polonês depois de séculos de papas italianos não é explicada. Mais
polêmico, e pouco mencionado, foi o seu conservadorismo em temas sociais. Mas é
inegável que suas posições mantiveram coerência com a doutrina católica
tradicional. Ele deixava claro: ou você é católico e segue o que a igreja
define, ou é outra coisa. Ninguém é obrigado a ser católico.


Papa João Paulo 2º


Quando: hoje, às 22h (parte 1), e amanhã, às 22h (parte 2), no canal
MGM.’




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