Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 22 E 23/04

Folha de S. Paulo

25/04/2006 na edição 378

CIÊNCIA & JORNALISMO
Marcelo Leite

Hipocondria De Resultados

‘A predileção incomum do público por soluções simples para problemas complexos, em especial os de saúde, é um segredo de polichinelo explorado há milênios pelos vendedores de ungüentos, garrafadas e emplastros milagrosos. Basta visitar o mercado Ver-o-Peso, em Belém do Pará, ou ouvir programas populares de rádio AM, para verificar que a tradição continua forte. Bem mais lucrativo que inventar remédios, porém, é fabricar doenças novas, com critérios de diagnóstico amplos e algum recém-desenvolvido medicamento de uso contínuo. Dá para ganhar bilhões com pílulas como Prozac ou Viagra, os símbolos de uma época em que estar doente é pop.

A receptividade e o entusiasmo dos consumidores contemporâneos para com as novas moléstias parecem inesgotáveis. A boa e velha impotência masculina foi repaginada como disfunção erétil e até ganhou uma companheira, a disfunção sexual feminina. Todos ficaram momentaneamente convencidos de que seriam felizes para sempre, sob as bênçãos do sildenafil. A única ameaça viria talvez do transtorno disfórico pré-menstrual (a antiga TPM), mas contra ele se ergueu uma barragem de inibidores seletivos de recaptação de serotonina, as drogas da família do Prozac: fluoxetina, sertralina, paroxetina, fluvoxamina… É só escolher.

Outra ameaça para a paz no leito, não só a conjugal, ganhou o nome quase humorístico de SPI (síndrome das pernas inquietas). Milhões de pessoas descobriram que sua insônia vinha dos membros inferiores, e não da cabeça. Melhor ainda, que ela poderia ser tratada com um comprimido de ropinirol. Maravilha.

Nem a escola escapou do marketing que mantém as empresas farmacêuticas como um dos ramos mais rentáveis da indústria, ainda que sua capacidade de inovação -medida pelo número de novos princípios ativos aprovados para comercialização- esteja em queda contínua. Para a epidemia de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) existe, felizmente, o metilfenidato, que professores, enfermeiros, médicos e até pais se alegram em ministrar a uma geração incontrolável. A nova moda, agora, é diagnosticar guris de até 2 anos de idade com transtorno bipolar (ex-PMD, psicose maníaco-depressiva, antes uma prerrogativa dos adultos) e tratá-los na base dos ‘estabilizadores de humor’.

O dossiê exagera na demonização da indústria farmacêutica, que não exerce um papel tão proeminente assim na exageração de outras panacéias biomédicas

Essa tendência do mercado farmacológico para a massificação de moléstias preocupa um número cada vez maior de médicos e até de jornalistas, em geral coadjuvantes empenhados desse processo. Ele já foi chamado de medicalização da vida, mas hoje é conhecido de maneira mais pejorativa como ‘disease-mongering’ (algo como ‘apregoar doenças’, aqui traduzido por ‘fabricação de doenças’). Há duas semanas, ganhou mais visibilidade com uma coleção de ensaios publicada no periódico científico de acesso aberto ‘PloS Medicine’ (medicine.plosjournals.org), três dezenas de páginas de ataque frontal às táticas de vendas das empresas farmacêuticas e aos médicos e jornalistas que se prestam a implementá-las.

O termo ‘disease-monger’ foi criado em 1992 por Lynn Payer, relembra Leonore Tiefer, da Universidade de Nova York, em seu artigo para o dossiê da ‘PloS Medicine’. Payer também listou os dez mandamentos para a fabricação bem-sucedida de uma nova doença:

1. Tomar uma função normal e insinuar que há algo de errado com ela e que precisa ser tratada;

2. Encontrar sofrimento onde ele não necessariamente existe;

3. Definir uma parcela tão grande quanto possível da população afetada pela ‘doença’;

4. Definir a condição como uma moléstia de deficiência ou como um desequilíbrio hormonal;

5. Encontrar os médicos certos;

6. Enquadrar as questões de maneira muito particular;

7. Ser seletivo no uso de estatísticas para exagerar os benefícios do tratamento disponibilizado;

8. Eleger os objetivos errados;

9. Promover a tecnologia como magia sem riscos;

10. Tomar um sintoma comum, que possa significar qualquer coisa, e fazê-lo parecer um sinal de alguma doença séria.

O ponto forte do dossiê da ‘PloS Medicine’, editado pelos australianos Ray Moynihan (jornalista, autor do livro ‘Selling Sickness’, ou ‘Vendendo Doença’) e David Henry (farmacologista clínico, fundador da página de internet Media Doctor, www.mediadoctor.org.au), é não poupar a imprensa como co-autora dessa obra de falsificação em massa. O ponto fraco é algum excesso na demonização da indústria farmacêutica, que não exerce um papel tão proeminente assim na exageração de outras panacéias biomédicas, como a genômica e a pesquisa com células-tronco.

A ‘big pharma’, afinal, só vende o que nos dispomos a comprar, como lembrou Ben Goldacre, médico e autor do popular blog britânico Bad Science (má ciência): ‘Somos todos participantes desse jogo. Fingir que a medicalização é algo imposto a nós -por malvadas e poderosas influências externas- só enaltece um sentimento perigoso de passividade’, ressaltou Goldacre.’



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Marketing sarado

‘As novas criações da indústria da doença e suas curas extraordinárias

Disfunção erétil + Viagra (sildenafil)

Inicialmente destinado a tratar impotência proveniente de outros problemas, como diabetes, cirurgias da próstata e traumas da medula espinhal, o Viagra teve sua comercialização progressivamente ampliada para uso por homens normais, para ajudá-los a obter e manter mais e melhores ereções. O site do fabricante, a americana Pfizer, afirma sem citar a fonte que mais da metade dos homens acima de 40 anos podem sofrer da disfunção. Joel Lexchin, da York University (Canadá), diz que possivelmente se trata de um estudo feito perto de Boston em 1987-1989 e informa que o percentual de 52% foi obtido num subgrupo dos homens pesquisados, justamente o daqueles que tinham procurado uma clínica de urologia (e que portanto deve apresentar uma proporção maior de pacientes afetados). Outros estudos chegaram a cifras como 18% de disfunção erétil, em graus variados, entre homens de 50-59 anos, ou apenas 1% de incapacidade total de ter uma ereção na faixa de 50-65 anos.

Transtorno bipolar de humor + estabilizadores de humor Zyprexa (olanzapina), Risperdal (risperidona), Seroquel (quetiapina) Nova e mais popular embalagem da doença psiquiátrica antes conhecida como PMD (psicose maníaco-depressiva, agora transtorno bipolar I). Estimativas de incidência do transtorno bipolar passaram de 0,1%, no tempo da PMD, que implicava pelo menos um episódio de hospitalização, para 5%, agora que foram incluídas na definição também variantes ‘comunitárias’ do transtorno. Com o milagre da multiplicação dos diagnósticos, inclusive com a proliferação de testes para autodiagnóstico, criou-se também a racionalidade para passar a prescrever medicamentos antipsicóticos como preventivos. Surgiram então periódicos, sociedades profissionais e conferências anuais sobre transtorno bipolar, parcialmente financiados por empresas farmacêuticas. Segundo David Healy, da Universidade de Cardiff, não há apoio empírico para justificar esse uso profilático nem para a crença de que ele possa evitar suicídios (antes o contrário). De 2000 para cá, crianças de até 2 anos de idade passaram a ser diagnosticadas como bipolares e tratadas com antipsicóticos, nos EUA.

Transtorno disfórico pré-menstrual + inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como Sarafem (fluoxetina), Zoloft (sertralina), Aropax (paroxetina), Luvox (fluvoxamina) e Cipramil (citalopram) Casos mais radicais da já conhecida e até folclórica tensão pré-menstrual (TPM) foram elevados à condição de doença psiquiátrica séria, rebatizada como transtorno disfórico pré-menstrual. Um estudo de 2002 concluiu que 6% das mulheres americanas sofriam com o transtorno e que outros 19% eram casos limítrofes. Em paralelo, a fluoxetina -nada menos que o popular Prozac- foi reformulada para o novo uso como Sarafem pela empresa Eli-Lilly. Segundo Barbara Mintzes, da University of British Columbia (Canadá), a Agência Européia de Avaliação de Medicamentos recusou aprovação para o uso de inibidores seletivos de recaptação de serotonina para tratar o sucessor da TPM, mas eles foram licenciados nos Estados Unidos e na Austrália.

Disfunção sexual feminina + Viagra (sildenafil) Por volta de 1997, a febre do Viagra ameaçou contaminar também a sexualidade das parceiras, e urologistas começaram a falar numa nova doença, a ‘impotência’ (disfunção sexual) feminina, também chamada de transtorno de excitação sexual feminino. Em 2004, segundo Leonore Tiefer, da Universidade de Nova York, fracassou de vez a busca da Pfizer para ver o Viagra aprovado para resolver o novo problema das mulheres, também, porque os testes clínicos com doença e remédio inovadores deram resultados inconsistentes sobre a eficácia do segundo em tratar a primeira. Apesar disso, médicos americanos continuam a prescrever Viagra para mulheres.

Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) + Ritalina (metilfenidato) Depois da epidemia de diagnósticos de dislexia, a moda em matéria de medicalização do desempenho escolar passou a ser a TDAH, contemporânea da ascensão da Ritalina como remédio certo para a doença certa. Somente entre 1990 e 1995, multiplicaram-se por 2,5 nos Estados Unidos as prescrições da droga para crianças e jovens. No Canadá, por 5. Segundo Christine Phillips, da Australian National University, o envolvimento de professores na popularização do diagnóstico foi fundamental para a estratégia de marketing das empresas fabricantes, como a Novartis e a Shire, que patrocinam sites ‘educacionais’ na internet com seções dedicadas a educadores e enfermeiros escolares. A indústria também apóia financeiramente grupos de pressão como o norte-americano Children and Adults with ADHD (www.chadd.org).

Síndrome das pernas inquietas + Requip (ropinirol) Antes de 2003, dificilmente ocorreria a uma pessoa com uma sensação incômoda nas pernas e uma urgência em movimentá-las, em especial durante a noite, que ela poderia estar sofrendo de uma doença, muito menos séria. Naquele ano, porém, a GlaxoSmithKline lançou nos EUA uma campanha de esclarecimento segundo a qual ‘uma nova pesquisa revela um transtorno comum porém pouco reconhecido -síndrome das pernas inquietas- que está mantendo americanos acordados à noite’. Em 2005, a FDA aprovou o uso do medicamento ropinirol para tratar essa condição. Segundo Steven Woloshin e Lisa Schwartz, da Escola Médica Dartmouth (EUA), reportagens sobre a doença costumam citar que ela aflige 12 milhões de americanos, ou algo como 1 em 10 adultos, embora uma cifra inferior a 2,7% seja mais provável. Algumas reportagens mencionam que melhoram os sintomas de 73% dos pacientes que tomam o remédio, mas são raras as que informam que o mesmo acontece com 57% dos que tomam placebos, ou que o ropinirol pode causar náuseas, tonturas e até sonolência e fadiga (sintomas que deveria curar).

Alzheimer + inibidores de colinesterase Aricept (donepezil), Exelon (rivastigmina) e Reminyl (galantamina) O inibidor donepezil foi aprovado em 1996 nos Estados Unidos para tratar manifestações do mal de Alzheimer como demência e problemas cognitivos, antes mesmo que estudos clínicos apropriados tivessem sido publicados nos periódicos médicos. Em 2003, um estudo mais completo de revisão dos testes clínicos realizados revelou que o efeito benéfico era mínimo, com somente 10% dos pacientes tratados obtendo resposta melhor que a de um placebo. Segundo Marina Maggini, Nicola Vanacore e Roberto Raschetti, do Instituto Nacional de Saúde da Itália, todos os testes clínicos têm metodologia questionável, pois acompanham pacientes por apenas alguns meses, quando se trata de uma doença que se desenvolve ao longo de décadas.

Editor de dossiê reclama de mau comportamento das farmacêuticas, mas diz que elas são necessárias’



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‘Imprensa é culpada’

‘Leia abaixo as respostas ‘um tanto apressadas’ a questionamentos sobre o dossiê da ‘PLoS Medicine’ enviadas por e-mail da Austrália por David Henry, um de seus editores.

Folha – A fabricação de doenças é só um efeito colateral de jornalismo negligente em saúde e ciência ou uma tendência mais enraizada nos repórteres dessa área para exagerar e promover a pesquisa biomédica?

David Henry – Há muito mais atores do que os jornalistas: as empresas, seus departamentos de relações públicas, médicos e grupos de ajuda de pacientes -alianças essencialmente informais. Mas os jornalistas, como os médicos, estão no centro do sucesso na fabricação de doenças. Eles parecem com freqüência ser menos céticos com afirmações na área da saúde do que com as de outras indústrias. É possível publicar como ‘notícia’ informações sobre um tratamento que descumpririam padrões de publicidade. Enfim, é mais do que jornalismo ruim, mas jornalistas têm um papel importante.

Folha – Além de médicos e jornalistas, o público também não tem culpa? Não estamos nos transformando numa sociedade de consumidores infantilmente crédulos, prontos a embarcar na próxima moda de combinação nova doença/remédio milagroso?

Henry – Receber a instrução de que sintomas leves ou uma característica indesejada são um ‘transtorno’ [doença] remove alguma responsabilidade e legitima o uso dos ‘tratamentos’.

Folha – A síndrome de pernas inquietas, por exemplo, é um fenômeno tipicamente americano? Seriam os americanos mais inclinados que outros povos a cair nessas armadilhas de doenças fabricadas, ou seria tudo uma questão de velocidade -os americanos são só os primeiros e depois são seguidos por todos os outros?

Henry – A síndrome das pernas inquietas é bem conhecida nos círculos médicos e pode ser perturbadora para algumas pessoas (pela perda de sono). A razão pela qual essas ‘condições’ parecem mais comuns nos EUA são o tamanho e a rentabilidade dos mercados potenciais, além do fato de que o país permite a publicidade direta ao consumidor.

Folha – A publicação de todos esses ensaios pela ‘PLoS Medicine’ terá algum efeito sobre as profissões mais vulneráveis, médicos e jornalistas?

Henry – Não por si só, mas ela é um aspecto útil de um movimento para enfatizar a importância de tratamentos genuínos e estratégias preventivas (por exemplo, vacinas contra o tabagismo) e para desenfatizar os ‘transtornos’ mais leves, que são um aspecto da condição humana e com os quais temos de conviver. Precisamos fomentar ceticismo, no público e na mídia, diante de alegações exageradas em saúde.

Folha – Tem havido algum movimento para barrar a crescente influência da ‘big pharma’ [indústria farmacêutica] na prática clínica e na literatura biomédica, seja criando regras mais estritas em periódicos médicos auditados e em testes clínicos, seja com livros de denúncia. Estamos testemunhando uma onda de maior ceticismo em relação ao complexo médico-farmacêutico, comparável à situação enfrentada pelas indústrias química e nuclear nos anos 60 e 70?

Henry – Creio que sim. E o mau comportamento das empresas [farmacêuticas] no mundo em desenvolvimento não as tem ajudado muito, como levar o governo da África do Sul aos tribunais [para barrar lei que tornava remédios vitais mais acessíveis, como antirretrovirais do coquetel contra Aids]. Mas NÃO é a mesma coisa que ‘big tobacco’ [indústria do cigarro]. Nós precisamos de seus produtos.

Folha – Alguns dos ensaios na ‘PLoS Medicine’ correlacionam a atual estratégia de marketing com a quantidade declinante de remédios inovadores aprovados pela FDA [agência de alimentos e fármacos dos EUA]. A fabricação de doenças deve ser vista como um sintoma de alguma doença mais séria? Devemos esperar que ela se agrave no futuro próximo, já que o Projeto Genoma Humano não está cumprindo ainda a promessa de melhores alvos para remédios?

Henry – Em alguma medida, isso é verdade -estão se esgotando para a indústria os tratamentos de massa que são realmente lucrativos (hipertensão, colesterol, refluxo gástrico). As últimas fronteiras são a dependência química e a obesidade. Depois disso, ela terá de se concentrar em doenças sérias. A fabricação de doenças, enquanto isso, a ajuda a vender remédios e a manter os acionistas contentes.

Folha – A fabricação de doenças está agora sob fogo de todos os lados no espectro político-ideológico. Será isso um sinal de força ou um bipe passageiro no radar ético da sociedade, que logo será abandonado sob a pressão de questões mais urgentes?

Henry – Existe alguma base filosófica, no sentido de que estamos sendo convocados a nos conformar com noções idealizadas de aparência, sentimentos e comportamento. Mas não por parte de algum regime autoritário, e sim das forças coletivas do marketing, que desencadeamos em razão da nossa própria busca por bens baratos e outras posses.

Folha – Outro grande assunto de saúde na mídia é a pesquisa com células-tronco, uma fabricação de panacéias para traumas de medula, diabetes, cardiopatias, Alzheimer etc. O problema é que não há uma Big Pharma por trás, ao menos por enquanto, para culpar pelos exageros com células-tronco. Quem está deixando de cumprir sua obrigação, aqui?

Henry – Cientistas, empresas ‘startups’ e a nossa crença em progresso contínuo e soluções técnicas.’



ALCKMIN SOB SUSPEITA
Frederico Vasconcelos e Rogério Pagnan

Sob Alckmin, Nossa Caixa abrigou suspeitos de fraude

‘A diretoria da Nossa Caixa nomeada pelo ex-governador Geraldo Alckmin, pré-candidato à Presidência da República pelo PSDB, abrigou executivos e assessores acusados de supostas irregularidades e fraudes em licitações na administração de outros bancos oficiais durante o governo FHC.

A Nossa Caixa é investigada pelo Ministério Público estadual por suspeita de direcionamento de recursos de publicidade pelo Palácio dos Bandeirantes para favorecer deputados da Assembléia Legislativa de São Paulo, conforme a Folha revelou na edição de 26 de março passado.

A investigação poderá apontar a semelhança entre atos praticados por diretores e ex-assessores do banco estadual investigados em irregularidades na Caixa Econômica Federal, comparação feita por deputados de oposição na Assembléia Legislativa.

Geraldo Alckmin e o atual presidente do banco estadual, Carlos Eduardo Monteiro, dizem considerar ‘absurda’ essa comparação. Em entrevista anterior, Alckmin disse que os R$ 43 milhões gastos com publicidade sem amparo legal seriam um ‘erro formal’.

Chefe-de-gabinete

Um desses assessores sob suspeita é o ex-presidente do Banco do Estado de Goiás Waldin Rosa de Lima. Inabilitado pelo Banco Central para dirigir instituições financeiras, por conceder empréstimos sem cumprir as normas bancárias, ele atuou em 2003 como chefe-de-gabinete do então presidente da Nossa Caixa Valdery Frota de Albuquerque.

Lima só conseguiu se livrar dessa penalidade do BC em janeiro de 2004, quando o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional, o ‘Conselhinho’ -órgão paritário formado por membros do governo e do mercado-, transformou a punição em arquivamento. Não há registro da entrada e da saída desse funcionário.

O assessor especial não tinha registro formal nos quadros da Nossa Caixa, mas possuía senha de acesso ao sistema de dados do banco. Acompanhava o andamento de contratos com as agências de propaganda, caso sob investigação pelo promotor da Cidadania Sérgio Turra Sobrane.

Funcionários da Nossa Caixa desconheciam quem remunerava Lima e Elmar Gueiros, outro assessor especial de Albuquerque, também punido pelo BC, com multa, por supostas irregularidades na alienação de bens.

O atual presidente da Nossa Caixa diz que o banco não remunerava os dois assessores. Na sua visão, Lima era um ‘chefe-de-gabinete informal’. ‘Eles foram trazidos por Valdery. Eles não eram remunerados pelo banco. Não tenho a menor idéia se eles receberam remuneração’, afirmou Carlos Eduardo Monteiro.

Formalmente, porém, o assessor especial de Albuquerque chegou a ser apresentado a desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo como o chefe-de-gabinete da presidência.

Lima também foi citado em relatório final da CPI do Narcotráfico. O ex-presidente do banco de Goiás teria dificultado o trabalho da comissão ao retardar o envio de informações de investigados que tiveram quebra de sigilo.

Prevaricação e improbidade

Outro executivo sob suspeição na equipe da Nossa Caixa, que atuou tanto na gestão de Albuquerque quanto na de Monteiro, é o ex-diretor de rede e distribuição do banco paulista Luiz Francisco Monteiro de Barros Neto. Ele foi acusado pela CPI dos Bingos por prevaricação, improbidade administrativa e crimes contra o procedimento licitatório nos contratos com a GTech, quando foi vice-presidente da CEF.

Barros Neto deixou a diretoria do banco em fevereiro deste ano, após ter seu indiciamento recomendado no relatório parcial da CPI dos Bingos. Ele é citado, com mais 16 pessoas, por permitir que a GTech prestasse serviços diversos à CEF por mais de oito anos sem participar de licitação.

O ex-diretor do banco impetrou mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal, com pedido de liminar, para retirar seu nome do relatório da CPI dos Bingos, mas seu pedido foi negado pelo ministro Carlos Ayres Britto.

Entre 1997 e 2004, segundo o Tribunal de Contas da União, as irregularidades nos contratos entre a CEF e GTech provocaram um prejuízo aos cofres públicos de R$ 433 milhões.

Loterias

Barros Neto foi superintendente Nacional de Loterias da CEF. O grande filão nesse mercado são os chamados ‘correspondentes bancários’: a terceirização, com transferência de serviços, por exemplo, para casas lotéricas. Além das loterias, essas redes privadas são remuneradas pelo recebimento de contas de serviços públicos, como água e luz.

O relatório da CPI dos Bingos diz que a GTech e o empresário de jogos Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, mantinham ‘negociações de parceria’ para atuar nos mercados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

Em novembro de 2003, Albuquerque deixou a presidência da Nossa Caixa, ‘por motivos profissionais’, segundo o banco. Foi contratado pelo Unibanco, que pretenderia romper o monopólio da CEF no setor de lotéricos, iniciativa que teria sido frustrada pela resistência do banco federal e pela eclosão do escândalo envolvendo Cachoeira e Waldomiro Diniz, ex-assessor especial do ex-ministro José Dirceu, então chefe da Casa Civil do governo Lula. O Unibanco não comenta.

Albuquerque foi presidente da Caixa Econômica Federal e trouxe vários ex-diretores para compor a sua equipe na Nossa Caixa. Por entender que o banco estadual teria praticado irregularidades semelhantes às atribuídas à CEF pela CPI dos Bingos, o deputado Romeu Tuma Jr. (PMDB), corregedor da Assembléia Legislativa, pretende enviar cópia da sindicância à Câmara Federal.

O objetivo é tentar a reconvocação de Albuquerque e Barros Neto pela CPI dos Bingos e romper a barreira da base aliada do governo paulista, que impede a constituição de Comissão Parlamentar de Inquérito em São Paulo para investigar a Nossa Caixa.

‘Vejo uma continuidade do que aconteceu antes na Caixa Econômica Federal’, diz Tuma Jr. O deputado acredita que a forma de atuação da CEF e da Nossa Caixa guardaria semelhanças: trocas de advogados para substituir pareceres em licitações suspeitas na área de informática, falta de controle nos contratos e aditivos ilegais para elevar preços e favorecer empresas prestadoras de serviços.

‘Vislumbro algumas irregularidades significativas que merecem comunicação imediata e providências da alçada do Banco Central’, diz o deputado.’



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Assessor interferiu em processo sem ser funcionário

‘Depoimentos feitos na sindicância revelam que o assessor Waldin Rosa de Lima, mesmo sem ser funcionário, interferiu no processo que permitiu às agências de publicidade Full Jazz e Colucci oferecer serviços ao banco por um ano e nove meses sem amparo legal.

O ex-gerente de Marketing Jaime de Castro Júnior afirmou ter entregue o processo ‘em mãos’ a Lima em agosto de 2003. E disse: ‘A dificuldade na comunicação direta com o presidente Valdery e a intermediação e interferência do sr. Waldin e do sr. Roger [Ferreira, ex-assessor], nos assuntos do Demar [departamento de marketing] afetaram diretamente a rotina da área.’

A presidente da Full Jazz, Maria Christina Pinto, disse que Lima participava de algumas reuniões com a agência, ‘mas não tinha uma presença constante’.

O Departamento de Gestão de Pessoas da Nossa Caixa informou que não havia localizado Lima no quadro de empregados ativos nem de inativos do banco.’



FRANÇA
João Batista Natali

‘Marketing é sua principal ferramenta’

‘Nicolas Sarkozy foi objeto de nove livros lançados nos últimos anos. Michaël Darmon, jornalista na rede pública de televisão France-2, é o autor do mais politizado entre eles, ‘Sarko Star’, publicado pelas edições Seuil.

Darmon não esconde uma mistura de atração e repulsa por um político que quebrou tabus e adere ao marketing político para reforçar sua popularidade. Eis trechos da entrevista.

Folha – Seria há alguns anos considerado meio louco o francês que dissesse que quer ser presidente. Por que não internaram Sarkozy?

Michaël Darmon – A grande originalidade de Nicolas Sarkozy na política francesa está no fato de ele ter rompido o tabu pelo qual ninguém afirma abertamente que quer ser presidente. A ambição presidencial não era explicitamente declarada por Jacques Chirac ou pelo socialista Lionel Jospin, quando foi primeiro-ministro. Era uma obsessão, mas ele declarava que tudo não passava de boato de jornalistas. Sarkozy mudou a regra, ‘dizendo o que eu faço e fazendo aquilo que eu digo’.

Folha – Se deu certo até agora, não é porque havia um espaço político vazio que ele ocupou?

Darmon – Esse vazio realmente existia, e ele o preencheu com habilidade. Mas ele foi também o primeiro a compreender o trauma que a França viveu em abril de 2002, quando Jean-Marie Le Pen, o líder da Frente Nacional (extrema-direita) chegou ao segundo turno da eleição presidencial. Sarkozy percebeu que havia uma ruptura entre a sociedade francesa e suas lideranças políticas. Concluiu que os políticos não deveriam mais ser uma ‘elite’ e tinham de mudar sua linguagem.

Folha – Em ‘populismo’?

Darmon – Ele deixou de usar o jargão institucional, as palavras difíceis que os cidadãos não compreendiam direito, mas que davam ao político certa respeitabilidade. O uso de uma linguagem simplificada é acompanhado do diagnóstico de que a sociedade francesa deseja a renovação. Embora de modo diferente, a possível candidata presidencial socialista, Ségolène Royal, também expressa esse desejo. As eleições de 2007 terão a marca da renovação.

Folha – Mas Sarkozy também vem piscando um olho para o eleitorado da Frente Nacional…

Darmon – Foi bem mais que uma piscada de olhos. Essa tentativa de sedução existe, embora não se possa qualificar Sarkozy de fascista. Ele sabe que no segundo turno será preciso atrair eleitores que não estejam em seu campo tradicional, o de centro-direita. E ele está, desde já, atraindo eleitores ‘populares’, que por muito tempo votaram nas esquerdas ou nos partidos de centro-direita e que, desapontados, passaram a votar em Le Pen. Desde 1995, há no eleitorado francês um segmento que alguns analistas chamam de ‘esquerdo-lepenismo’. Não são fascistas. São eleitores desapontados, que Sarkozy diz querer trazer para o campo republicano.

Folha – Seu plano é explícito?

Darmon – Muito explícito. Semana passada fui pautado para acompanhá-lo na região do Norte (fronteira com a Bélgica). A Frente Nacional é muito forte por lá. Ela cresceu em cima de um eleitorado que já foi basicamente socialista. Os discursos que Sarkozy fez aos operários tinham a mística de um socialista do início do século 19. Ele sabe como falar com os ‘esquerdo-lepenistas’.

Folha – Ele simula ter alguma raiz nas esquerdas?

Darmon – Não há simulação. Sua linguagem também levanta tópicos que agradam o eleitorado da direita, como as críticas que ele faz à política de imigração das últimas décadas. Ele defende a flexibilização do mercado de trabalho e elogia a globalização. Sarkozy está certo de contar com o eleitorado de centro-direita. Mas ele quer ampliá-lo, desde já, na direção do centro e da esquerda.

Folha – Como explicar o fato de a esquerda tradicional, comunistas e socialistas, estar catatônica, sem reagir à emergência de Sarkozy?

Darmon – Sarkozy e a esquerda tradicional atuam em terrenos bem diferentes. Sarkozy não traz em sua bagagem propostas recheadas de ideologia. Ele traz é muito marketing político, que para ele não é apenas uma das ferramentas para chegar ao poder. É a ferramenta principal.

Folha – Ele está rodeado de marqueteiros, ou reage segundo suas impressões pessoais?

Darmon – Seus assessores repetem que ‘a assessoria de comunicação de Sarkozy é formada pelo próprio Sarkozy’. Mas não é verdade. Ele consulta com freqüência publicitários, tem três assessores informais na área de marketing político. Foi essa equipe que forjou o slogan ‘Imaginemos a França de depois’.

Folha – Mas ele não é um ‘produto’ fácil de vender: é feio, não tem mais uma mulher bonita…

Darmon -Ele utiliza atributos desfavoráveis para obter vantagem. ‘Sou como todos os franceses’, que às vezes são largados pela mulher e às vezes nascem em famílias de imigrantes judeus.

Folha – Sarkozy é verdadeiramente um sedutor?

Darmon – É sua profissão. Ele pratica a sedução como profissão. Ele sabe como se aproximar das pessoas.’



INTERNET
Alison Maitland

Skype ainda acredita em telefonia paga

‘DO ‘FINANCIAL TIMES’ – Como presidente de uma companhia que deseja revolucionar a maneira pela qual o mundo se comunica, Niklas Zennström é um homem surpreendentemente difícil de contatar. O site do Skype, a companhia que ele dirige e cujo software permite telefonemas gratuitos via internet, não informa o endereço dos escritórios do grupo nem oferece telefone para contato.

Talvez esse sueco de fala rápida, que lançou o Skype em parceria com o sócio Janus Friis em 2003 e o vendeu ao eBay no ano passado, embolsando pagamento inicial de US$ 2,6 bilhões, esteja tentando provar alguma coisa àqueles dentre nós que ainda não ousam abandonar os grilhões da telefonia convencional em troca da conversação ilimitada no ciberespaço?

No escritório do Skype em Londres, localizado em uma rua lateral sem graça no bairro do Soho, perto de Picadilly Circus, Zennström ri da idéia e explica que operar uma central telefônica não se enquadra ao modelo de negócios que ele propõe.

‘Temos mais de 80 milhões de usuários e registramos 250 mil novos assinantes ao dia’, diz. ‘Oferecemos serviços gratuitos. Se decidíssemos dar assistência técnica completa a todos os usuários, tanto gente nos ligaria que o custo se tornaria proibitivo.’

O escritório dispõe de ‘algumas’ linhas convencionais de telefonia, incluindo uma de fax, mas qualquer dúvida ou questão será respondida de maneira mais rápida se o interessado preencher um formulário no site, diz ele. Na minha experiência, tentar contatar empresas dessa maneira é ineficiente. Mas o Skype, por outro lado, não é exatamente uma companhia convencional.

Os admiradores de Zennström no setor de ‘venture capital’ (capital para empreendimentos de risco) dizem que ele pode se tornar um novo Michael Dell (da Dell), Jeff Bezos (Amazon) ou até mesmo Bill Gates (Microsoft), com quem é parecido fisicamente. Mas, se você não o conhece, é difícil distinguir quem exatamente é o chefe, no escritório sem divisórias do qual a empresa é comandada.

Ele se senta numa longa mesa de canto, compartilhada por meia dúzia de outros colegas, e está absorto na tela de um computador à sua frente. Não se pode nem dizer que aquele é o lugar dele, já que outros funcionários costumam ocupar sua posição quando Zennström viaja.

Em janeiro, quando a equipe de Londres voou para uma reunião da companhia na Estônia, onde o Skype desenvolve seu software, o presidente-executivo, um homem de 1,95 metro, viajou no assento do meio, aprisionado entre dois passageiros na classe turística de um vôo comercial.

Ele entra na sala de reunião vestindo uma camisa xadrez, de colarinho aberto, e calças de veludo escuras, trazendo na mão uma caneca de café, que manipula enquanto fala.

Por trás da aparência discreta, porém, existe uma vontade férrea. A missão do Skype é mais importante do que o status ou o nome do cargo e ele espera que todos os demais funcionários compartilhem desse sentimento.

‘Se as pessoas começam a se posicionar internamente para obter mais poder ou um cargo melhor, estão na empresa errada’, diz. ‘Não temos tempo para disputas políticas internas que acontecem nas grandes empresas. No começo, fizemos diversas contratações que não funcionaram. É preciso perceber esse tipo de problema cedo e dispensar essas pessoas.’

Kazaa

Zennström, que acaba de completar 40 anos, é conhecido por desenvolver tecnologias perturbadoras. Ele e Friis criaram o Kazaa, software que permitia que milhões de usuários compartilhassem arquivos musicais ilegalmente via internet e gerou processos judiciais contra os criadores.

O que fez com que ele tomasse esse rumo? Filho de um casal de professores de Uppsala, ele nega que seja um radical. Mas, como consumidor, o imenso poderio das grandes corporações o incomoda. ‘Todos têm a obrigação de lutar contra os monopólios e também contra as empresas que oferecem maus serviços’, afirma.

Depois de concluir simultaneamente cursos superiores de engenharia e administração de empresas, ele começou a ganhar experiência como gerente encarregado de desenvolver novos negócios na Tele2, uma empresa de rápido crescimento que ele descreve entusiasticamente como a primeira empresa européia de telecomunicações a desafiar a companhia dominante do setor.

A seguir, ele contratou Friis, um jovem e ‘brilhante’ dinamarquês com pouca educação formal mas grande capacidade intuitiva para conceber modelos de negócios nada convencionais, e os dois vêm trabalhando em estreita colaboração desde então.

Zennström é um líder natural, de acordo com Howard Hartenbaum, que acompanha sua carreira há muito e foi o primeiro investidor a apoiar o Skype, quando os profissionais de ‘venture capital’ na Europa ‘não chegariam perto dele nem usando luvas’, devido à disputa judicial entre a indústria do entretenimento e o Kazaa e à hesitação do mercado depois da bolha do setor de internet.

Hartenbaum, hoje sócio da Draper Richards, empresa de ‘venture capital’ na costa oeste dos Estados Unidos, lembra que a visão de Zennström o ‘capturou’. Ele diz: ‘Fiquei tentado a deixar o setor de ‘venture capital’ e simplesmente segui-lo. Provavelmente deveria tê-lo feito, porque assim teria mais ações. Mas comprei número suficiente’.

Receita

Ao contrário da maioria das empresas, o Skype não fatura dinheiro com a maioria de seus usuários, que usam seu software de download gratuito para realizar telefonemas usando seus computadores.

A receita da empresa -US$ 60 milhões no ano passado e meta de US$ 200 milhões neste ano- é derivada da minoria de assinantes que paga para fazer e receber telefonemas de e para linhas telefônicas convencionais e móveis (SkypeOut e SkypeIn) e de serviços como correio de voz.

Zennström se irrita diante de qualquer sugestão de que o eBay teria ‘tomado o controle’ de sua empresa. O Skype continua a ter estratégia, orçamento, cultura e marcas separadas, aproveitando, ao mesmo tempo, a sinergia com o eBay, ele afirma.

‘Uma das coisas importantes para nós, e também uma das melhores coisas quanto ao eBay, é que desejávamos garantir que pudéssemos nos fundir com uma empresa maior sem que o Skype perdesse a identidade como companhia. Meg [Whitman, presidente-executiva do eBay] disse que deveríamos aproveitar os recursos de que eles dispõem, mas que ela não nos diria o que fazer, porque nós éramos as melhores pessoas do mundo para dirigir o nosso negócio.’

Agora que a Skype é parte do eBay, porém ele não pode comentar sobre as perspectivas de que a empresa saia do vermelho ou sobre a porcentagem de usuários que pagam pelos serviços oferecidos pelo grupo.

O que ele tem a dizer sobre a aparente contradição em sua estratégia? Os fundadores dizem que querem ‘tornar possível ao mundo inteiro conversar de graça’, mas os serviços que geram receita dependem da sobrevivência da telefonia tradicional.

A visão de ‘dominar o mundo’ é distante, admite Zennström. ‘Em algum momento, esse modelo de receita desaparecerá, mas esse momento ainda está muito distante’, diz. ‘Não é possível acreditar que os pagamentos por serviços telefônicos desaparecerão completamente.’

Enquanto isso, o Skype está desenvolvendo outros serviços em parcerias com produtores de hardware e software, grupos de varejo, operadoras de telefonia móvel e até mesmo gravadoras.

O maior desafio para Zennström é controlar o crescimento vertiginoso do grupo e comunicar a cultura comum da empresa aos novos recrutas que começam a trabalhar na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. Ele e Friis agora contam com uma equipe executiva de oito membros, dois dos quais oriundos do eBay.

A comunicação por meio do Skype não é suficiente com uma força de trabalho que quadruplicou para 300 funcionários de 30 diferentes nacionalidades em um ano. ‘Há muitas ocasiões em que é preciso garantir que as pessoas em diferentes escritórios se conheçam e encontrem. Temos muitos eventos sociais, organizados e desorganizados.’

E a cultura da empresa tampouco pode ser imposta. ‘É a forma de operar, o modo de se comportar. Começa com a contratação. Eles precisam estar realmente excitados quanto à Skype como movimento, não como simples local de trabalho.’

Os excêntricos são bem-vindos, até certo ponto. ‘Não se pode ter uma equipe inteira dessas pessoas. É necessário que os gerentes de projetos sejam muito bons. Jamais tivemos escassez de idéias. O desafio é decidir quais são as idéias corretas e implementá-las.’

Será que o empresário serial que já co-fundou quatro empresas se sentirá tentado a seguir adiante? Ele e Friis têm incentivo para ficar, dados os objetivos de lucros que, se atingidos, elevarão o valor de aquisição do Skype de US$ 2,6 bilhões a mais de US$ 4 bilhões.

Ele diz também que essa é a tecnologia de troca de arquivos que ele vinha procurando desde 2000 e que deseja levar o projeto a bom termo. ‘O dia em que você percebe que não sabe mais o que acrescentar é o dia em que você deveria deixar a empresa. Não sei se estarei aqui pelo resto da vida. Mas, enquanto eu tiver esse entusiasmo, tudo vai bem.’’



TELEVISÃO
Daniel Castro

Assassino de ‘Belíssima’ dá ordens a André

‘A misteriosa pessoa que dá ordens por celular para André (Marcello Antony), em ‘Belíssima’, é a mesma que chefia o esquema que matou Valdete (Leona Cavalli) e Pedro (Henri Castelli).

O ‘serial killer’ também está por trás da tentativa de assassinato sofrida por Vitória (Cláudia Abreu) num presídio. Quem é essa pessoa? O autor de ‘Belíssima’, Sílvio de Abreu, responde com um bem-humorado ‘Ah, ah, ah’.

Abreu dá uma única pista: a identidade do grande mestre de todas as maldades é conhecida pelo aparentemente inofensivo Seu Quiqui (Serafim Gonzalez).

‘A razão disso tudo é muito simples: ficar com a Belíssima [a fábrica de lingeries]. O que importa é que a trama vai se complicando à medida em que as coisas não vão saindo como foram planejadas. Norma [ex-mulher de André] vai dizer a Júlia [Glória Pires] que André foi procurado no Rio pelo pai [Seu Quiqui] para entrar nesse plano. O que Norma não sabe, portanto nem Júlia, é que o pai de André foi procurado pela tal pessoa’, revela Abreu.

Nos próximos capítulos, será revelado que Bia Falcão (Fernanda Montenegro) não morreu. O corpo carbonizado que foi enterrado no lugar do dela, provavelmente, é o de uma vendedora de bananas de beira de estrada. É pouco plausível que Bia seja a idealizadora de todos os crimes. Ela teria forjado a própria morte porque sabia que corria risco.

OUTRO CANAL

Elenco 1 A Record fechou na semana passada o elenco de ‘Bicho do Mato’, novela que substituirá ‘Prova de Amor’ em julho. As novidades são Jonas Bloch, em sua primeira novela na emissora, como um vilão, e Amandha Lee (lançada pela Globo em ‘A Casa das Sete Mulheres’, de 2003) no papel de uma universitária.

Elenco 2 Outro ex-Globo em ‘Bicho do Mato’ é Matheus Rocha (que estreou em ‘A Indomada’ e andou sumido da TV para se dedicar a uma banda). A novela também terá atores totalmente desconhecidos dos telespectadores. Um dos ‘calouros’ é Ruy Pollonah, de 81 anos, veterano no cinema.

Força Apesar de ‘Sinhá Moça’ só ter estreado em 13 de março, Bruno Gagliasso, galã da novela, já aparece entre os cinco atores da Globo que mais receberam cartas de fãs no mês passado. Só perde para Kayky Brito (‘Alma Gêmea’) e Guilherme Berenguer (‘Bang Bang’).

Racha A cúpula da Globo está dividida sobre a exibição de uma reprise da minissérie ‘Hilda Furacão’ entre agosto e outubro, durante o horário eleitoral gratuito, no horário da segunda linha de shows (‘A Diarista’, ‘Linha Direta’). Uma parte quer ‘Hilda Furacão’. Outra defende a manutenção dos programas da segunda linha de shows. São mais atraentes do ponto de vista comercial.’

Marcelo Bartolomei

TV é pressão, diz autor mais jovem da Globo

‘Mais jovem autor de novelas da Rede Globo, o escritor João Emanuel Carneiro, 35, se sente pressionado ao estrear amanhã, às 19h15, sua segunda novela na emissora, ‘Cobras & Lagartos’.

Além do volume de trabalho -são, em média, 40 páginas por capítulo-, a responsabilidade de elevar a audiência do horário, derrubada por ‘Bang Bang’, preocupa o novelista. ‘Estrear uma novela e fazer essa quantidade de capítulos já é uma pressão. Tento fazer o melhor porque eu gosto de idéias originais’, diz. ‘Agora, o que vai ser de mim? É uma incógnita!’

Se houver êxito, Carneiro terá carta-branca para estrear no horário nobre da emissora, num projeto com Wolf Maya, seu parceiro na direção de ‘Cobras & Lagartos’. ‘Pouca gente escreve novela. É preciso ter condicionamento físico e personalidade apropriada para agüentar as pressões, como a de se comunicar com as pessoas que assistem.’

Também autor de textos para cinema e dono do melhor resultado no Ibope dos últimos dois anos com ‘Da Cor do Pecado’, ele questiona a forma de fazer TV, mas diz aceitar o desafio. ‘Televisão é sempre um esboço. Há o problema de tempo, pois é preciso correr muito. Nada é 100%: o script, a gravação, o que vai ao ar, nem a intenção do ator’, diz.

Em 2004, sua primeira novela teve uma média de 43 pontos de ibope (cada ponto equivale a 52,3 mil domicílios na Grande SP), com share (participação de televisores ligados) de 65%. ‘A Lua me Disse’ e ‘Bang Bang’ baixaram os índices para a média dos 30 pontos -o faroeste levou o share a 50%. ‘Achei ‘Bang Bang’ uma novela ótima, ousada e bonita. Tenho a impressão de que as pessoas se acostumem melhor à minha novela porque ela tem uma estrutura mais tradicional, de folhetim’, analisa.

Consumo

Sua novela é um drama com pitadas de comédia. ‘Não gosto muito de paródia; é muito anos 80’, afirma Carneiro. ‘Cobras e Lagartos’ conta uma história de ascensão social e faz menção a ‘templos de consumo’ como a paulistana Daslu, por meio da Luxus, que se contrapõe ao comércio popular do Rio de Janeiro, o Saara. ‘Fui à Daslu por causa da novela. A Luxus é muito mais doida. Ela não existe em lugar nenhum do mundo. Sua idéia é um paraíso na Terra, onde todos os seus desejos possam ser realizados, mas com um cartão de crédito’, conta.

Carneiro não se define como um militante de esquerda, tampouco como um crítico da sociedade. ‘Tem um lado crítico de falar do assunto mas também há outro lado de adesão, de quem gostaria de ir à loja e gastar. Não sou um grande consumista, não tenho paciência’, afirma.

Entretanto, cabe ao autor -que é noveleiro, cinéfilo e fã de quadrinhos e dos seriados norte-americanos como ‘Lost’- criticar o consumo excessivo da sociedade global. ‘Surgiu da observação à minha volta, das pessoas consumistas. O Brasil é o país com maior endividamento da América Latina. Para mim, o mote da novela é o contraponto a esse mundo luxuoso, que é o comércio popular; e também a possibilidade de o personagem batalhador se tornar o dono de um poderoso império’, diz.

Seu protagonista, vivido pelo ator Lázaro Ramos -também em estréia nas novelas-, será um personagem ambíguo e ‘perigoso’, segundo o próprio autor, pelo fato de não ser tão politicamente correto quanto se espera e também por fugir a algumas regras ou cometer pequenos delitos para se dar bem na vida. Logo nas primeiras cenas, Foguinho faz um test-drive num carro de luxo e não devolve o veículo à concessionária.

‘Cobras & Lagartos’ terá 24 personagens, menos do que a primeira novela, que tinha 32, regra que Carneiro traz das obras de Cassiano Gabus Mendes (1929-1993) e adaptação à dificuldade de reservar elenco para sua obra. ‘Eu acho que o Wolf [Maya] está me ajudando muito a contar essa história. Ele é muito autoral e dá a cara que eu queria dar à novela. Espero fazer muitos trabalhos com ele no futuro’, afirma. Ele não considera as novelas obras escapistas. ‘O povo precisa de fábula. A realidade é muito dura.’

Carneiro usa a reação do público e as pesquisas realizadas internamente pela Globo em favor da novela e escreve de acordo com o gosto dos espectadores. ‘Eu gosto de ver TV na rua. Sento no restaurante e quero ver a reação das pessoas. Quando fiz ‘Da Cor do Pecado’, eu sofria uma angústia. O ibope é muito real e as pessoas comentam. Quanto mais as pessoas reclamam, mais elas assistem.’’



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Record prepara ofensiva à nova novela Globo

‘A Record prepara uma ofensiva para combater a estréia de ‘Cobras & Lagartos’. Durante toda a semana, ‘Prova de Amor’, sua novela das sete, antecipará a maioria dos desfechos dos personagens principais para tentar segurar o espectador que a emissora acredita ter tirado da Globo após o tropeço de ‘Bang Bang’.

Segundo o diretor-geral de ‘Prova de Amor’, Alexandre Avancini, os capítulos serão maiores que os habituais. ‘Serão caprichados’, disse, entre um grito de ‘ação’ em plena gravação da novela no RecNov, no Rio. ‘Nossos personagens mais importantes estão vivendo muito conflito e muita ação neste momento.’

Devido ao sucesso -a novela mantém uma média de 20 pontos no Ibope, já tendo atingido um pico de 27 pontos-, a trama foi esticada pela segunda vez, agora até julho. Assim, ela passa de 190 para 220 capítulos, em média. ‘O forte da novela é o texto do Tiago [Santiago], que caiu na graça do público’, afirmou o diretor.

Na segunda-feira, a policial Diana (Patrícia França) conseguirá prender o assassino de seus pais. Na terça, o psiquiatra Marco (Ricardo Pereira) será assaltado, baleado e morto na rua; além disso, Joãozinho (Pedro Malta) encontrará o pai. Na quarta, o vilão Lopo (Leonardo Vieira) beija a vilã Elza (Vanessa Gerbelli), enquanto Gerião (André Segatti) é preso e entrega tudo sobre Lopo à polícia. Na quinta, começa uma perseguição de policiais a Lopo, que culmina com sua prisão; e Gui (Rogério Fróes) pede Alice (Helena Xavier) em casamento. Sexta é dia de Diana receber sua sentença de morte, dada por criminosos.

Então a novela praticamente acaba? Não, pois, segundo Avancini, haverá reviravoltas. ‘Depois disso, vai se encaminhar neste mês para um clímax e ainda começa uma série de reviravoltas, para seguir até julho.’’

Marcelo Bortoloti

SBT e Record são as emissoras que mais reprisam filmes

‘O thriller de ação ‘A Ilha da Garganta Cortada’, produzido em 1995, definitivamente não teve uma boa passagem pelo cinema. Com custo de produção orçado em US$ 100 milhões, faturou apenas 10% disto, levando o estúdio Carolco Pictures à falência. O resultado o levou também para o Guiness Book, onde por alguns anos foi apontado como o pior fracasso de bilheteria do cinema norte-americano.

A rejeição de público não impediu sua presença na televisão. Pelo contrário. Em 2005 ele foi um dos seis filmes mais reprisados da TV aberta no Brasil. Foram quatro exibições pela Rede Record no período, com uma média de uma vez a cada três meses. Ao lado de outros títulos com igual persistência, o filme integra o time dos chamados ‘fillers’ (tapa-buracos) da TV aberta, que ajudam as emissoras a preencher sua programação martelando a mesma história na cabeça do espectador.

Tomando como base 2005, pelo menos 15% de todos os filmes exibidos na TV foram reprisados com intervalo de poucos meses. Em um ano, 270 títulos passaram duas vezes, 72 foram exibidos três vezes e seis filmes passaram quatro vezes, considerando as emissoras Globo, SBT, Record e Bandeirantes. O acompanhamento foi feito pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), que monitora todos os títulos exibidos na televisão para a cobrança da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional), taxa anual que incide sobre filmes veiculados no cinema e na TV.

Líder absoluto entre as emissoras que mais reprisaram em 2005, o SBT teve 183 filmes repetidos. A Record reexibiu 95 títulos. A diferença entre as duas emissoras é que enquanto as reprises do SBT acontecem fundamentalmente de madrugada, as da Record vão ao ar durante a tarde e à noite, em horário nobre. No mesmo período, a Globo repetiu 38 títulos e a Bandeirantes 32.

O Departamento de Programação do SBT, por meio da assessoria de imprensa, justifica que as reprises se devem à quantidade de horas de programação que a emissora dedica aos filmes. ‘Trata-se de uma simples relação quantitativa. O SBT exibe mais filmes que as outras três emissoras somadas, portanto, nada mais lógico que a quantidade de reprises também seja maior’, declara. Ainda de acordo com a assessoria, o critério para escolha para as reexibições é o sucesso de audiência que o título teve na última vez que foi ao ar. ‘A proporção entre críticas dos espectadores em relação à freqüência dos filmes e pedidos de reprises se equivalem. Mas é impossível obter uma unanimidade nesse âmbito’, diz.

A sátira política ‘Máquina de Guerra’, o drama ‘A Segunda Chance’ e o desenho infantil ‘As Peripécias de um Ratinho Detetive’ foram os filmes mais repetidos pelo SBT no ano passado, sempre de madrugada. Segundo a assessoria do canal, o horário possui um público fiel e qualificado, que ‘remete a uma incidência maior de reprises’. Ainda de acordo com a emissora, a audiência da madrugada não sofre grandes oscilações, independente do filme que estiver sendo exibido.

Já a Rede Record ocupou com reprises suas principais faixas de cinema em 2005, tanto no período da tarde, às 14h, quanto de noite, às 20h30 e às 22h. O diretor de cinema e aquisições da emissora, Paulo Calil, afirma que o público e a audiência são responsáveis pelas reexibições. ‘Nós procuramos sempre atender o pedido dos telespectadores, é a melhor coisa a se fazer. É bom para o telespectador saber que o filme que ele assiste na Record é o filme que ele realmente gosta’, diz.

No total, 64 filmes foram exibidos duas vezes pela emissora em 2005, 28 tiveram três exibições e três filmes foram exibidos quatro vezes. Segundo Calil, o maior número de reprises se concentra no horário da tarde em razão da faixa ‘Cine Aventura’, que possui audiência fiel. Com quatro exibições em 2005, duas no mesmo mês, o drama ‘Nascido para Ser Campeão’ teve todas as suas reprises programadas para as 14h. O mesmo aconteceu com o título ‘A Revanche do Tornado’, também com quatro aparições no ano. ‘Se não fosse a audiência e o pedido dos telespectadores, certamente eles não seriam reexibidos’, afirma o diretor.’

Bia Abramo

Silvio Santos e os ídolos de antanho

‘Entra logo depois de ‘Ídolos’, o programa, e o contraste é curioso. ‘Rei Majestade’ traz de volta para a TV cantores e cantoras que já tiveram seu momento de glória e estão em relativa hibernação.

O público decide qual deles merece participar de um CD. Enquanto isso, em ‘Ídolos’ procuram-se novas vozes e caras.

Silvio Santos não dá ponto sem nó -é evidente que há uma estratégia por trás disso, só não se sabe qual poderia ser. Por que estrear quase que ao mesmo tempo dois programas em torno do universo da música e da idéia de sucesso de massa?

Qualquer especulação que se faça em termos da lógica de programação do SBT -leia-se, de Silvio Santos- é um negócio arriscado. Errática e sujeita a mudanças de horário de última hora, cancelamento de programas sem o menor aviso, a grade da emissora é um mistério.

O que parece é que se quer garantir, numa mesma noite, o público mais jovem e novidadeiro e a sua audiência cativa, mais velha e menos exigente. É como se, ao mesmo tempo em que aposta numa produção mais cuidada e mais cara, Silvio Santos tivesse a nostalgia do precário.

De qualquer maneira, em termos de antropologia musical, ‘Rei Majestade’ é divertido. Desfilam lá homens e mulheres (bem) acima dos 40 anos, apresentam novamente seus hits -com playback assumido- e voltam para, desta vez, enfrentar uma música de ‘hoje’ (embora esse ‘hoje’ inclua ‘As Rosas Não Falam’ e ‘Vem Quente que Eu Estou Fervendo’, por exemplo).

Alguns já velhinhos, passados dos 80, outros enfrentando com maior ou menor galhardia a meia-idade, os artistas também são flagrados em seu cotidiano de pais e mães, nas suas casas mais ou menos modestas, na memória de seu sucesso e no presente pouco glamouroso.

Visto na seqüência de ‘Ídolos’, soa como uma advertência ao que pode ocorrer com o futuro daqueles aspirantes ao estrelato.

O auditório vibra, é claro, com as reminiscências da era do rádio, da jovem guarda, do brega de todos os tempos.

As mini-entrevistas conduzidas por Silvio Santos dão conta de como esses ‘reis’ e ‘rainhas’ do passado se mantêm nos palcos anos, às vezes décadas, depois de arrefecido o pico de popularidade. Com aquele sadismo que lhe é característico, Silvio Santos tripudia em cima da idade, do esquecimento, da humildade da vida dos participantes.

A tal da ‘majestade’ (o título do programa é uma alusão ao dito popular ‘quem já foi rei, não perde a majestade’) só transparece por vezes, numa voz surpreendentemente firme em um octogenário, num carisma que reaparece uma vez em cima do palco, numa canção injustamente esquecida.

Um mundo quase antípoda ao dos ‘ídolos’ ansiosos, chorosos e espalhafatosos de uma hora antes.’



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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

Jornal do Brasil

Veja

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Jornal de Piracicaba

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Todos os comentários

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 22 E 23/04

Folha de S. Paulo

25/04/2006 na edição 378

CIÊNCIA & JORNALISMO
Marcelo Leite

Hipocondria De Resultados

‘A predileção incomum do público por soluções simples para problemas complexos, em especial os de saúde, é um segredo de polichinelo explorado há milênios pelos vendedores de ungüentos, garrafadas e emplastros milagrosos. Basta visitar o mercado Ver-o-Peso, em Belém do Pará, ou ouvir programas populares de rádio AM, para verificar que a tradição continua forte. Bem mais lucrativo que inventar remédios, porém, é fabricar doenças novas, com critérios de diagnóstico amplos e algum recém-desenvolvido medicamento de uso contínuo. Dá para ganhar bilhões com pílulas como Prozac ou Viagra, os símbolos de uma época em que estar doente é pop.

A receptividade e o entusiasmo dos consumidores contemporâneos para com as novas moléstias parecem inesgotáveis. A boa e velha impotência masculina foi repaginada como disfunção erétil e até ganhou uma companheira, a disfunção sexual feminina. Todos ficaram momentaneamente convencidos de que seriam felizes para sempre, sob as bênçãos do sildenafil. A única ameaça viria talvez do transtorno disfórico pré-menstrual (a antiga TPM), mas contra ele se ergueu uma barragem de inibidores seletivos de recaptação de serotonina, as drogas da família do Prozac: fluoxetina, sertralina, paroxetina, fluvoxamina… É só escolher.

Outra ameaça para a paz no leito, não só a conjugal, ganhou o nome quase humorístico de SPI (síndrome das pernas inquietas). Milhões de pessoas descobriram que sua insônia vinha dos membros inferiores, e não da cabeça. Melhor ainda, que ela poderia ser tratada com um comprimido de ropinirol. Maravilha.

Nem a escola escapou do marketing que mantém as empresas farmacêuticas como um dos ramos mais rentáveis da indústria, ainda que sua capacidade de inovação -medida pelo número de novos princípios ativos aprovados para comercialização- esteja em queda contínua. Para a epidemia de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) existe, felizmente, o metilfenidato, que professores, enfermeiros, médicos e até pais se alegram em ministrar a uma geração incontrolável. A nova moda, agora, é diagnosticar guris de até 2 anos de idade com transtorno bipolar (ex-PMD, psicose maníaco-depressiva, antes uma prerrogativa dos adultos) e tratá-los na base dos ‘estabilizadores de humor’.

O dossiê exagera na demonização da indústria farmacêutica, que não exerce um papel tão proeminente assim na exageração de outras panacéias biomédicas

Essa tendência do mercado farmacológico para a massificação de moléstias preocupa um número cada vez maior de médicos e até de jornalistas, em geral coadjuvantes empenhados desse processo. Ele já foi chamado de medicalização da vida, mas hoje é conhecido de maneira mais pejorativa como ‘disease-mongering’ (algo como ‘apregoar doenças’, aqui traduzido por ‘fabricação de doenças’). Há duas semanas, ganhou mais visibilidade com uma coleção de ensaios publicada no periódico científico de acesso aberto ‘PloS Medicine’ (medicine.plosjournals.org), três dezenas de páginas de ataque frontal às táticas de vendas das empresas farmacêuticas e aos médicos e jornalistas que se prestam a implementá-las.

O termo ‘disease-monger’ foi criado em 1992 por Lynn Payer, relembra Leonore Tiefer, da Universidade de Nova York, em seu artigo para o dossiê da ‘PloS Medicine’. Payer também listou os dez mandamentos para a fabricação bem-sucedida de uma nova doença:

1. Tomar uma função normal e insinuar que há algo de errado com ela e que precisa ser tratada;

2. Encontrar sofrimento onde ele não necessariamente existe;

3. Definir uma parcela tão grande quanto possível da população afetada pela ‘doença’;

4. Definir a condição como uma moléstia de deficiência ou como um desequilíbrio hormonal;

5. Encontrar os médicos certos;

6. Enquadrar as questões de maneira muito particular;

7. Ser seletivo no uso de estatísticas para exagerar os benefícios do tratamento disponibilizado;

8. Eleger os objetivos errados;

9. Promover a tecnologia como magia sem riscos;

10. Tomar um sintoma comum, que possa significar qualquer coisa, e fazê-lo parecer um sinal de alguma doença séria.

O ponto forte do dossiê da ‘PloS Medicine’, editado pelos australianos Ray Moynihan (jornalista, autor do livro ‘Selling Sickness’, ou ‘Vendendo Doença’) e David Henry (farmacologista clínico, fundador da página de internet Media Doctor, www.mediadoctor.org.au), é não poupar a imprensa como co-autora dessa obra de falsificação em massa. O ponto fraco é algum excesso na demonização da indústria farmacêutica, que não exerce um papel tão proeminente assim na exageração de outras panacéias biomédicas, como a genômica e a pesquisa com células-tronco.

A ‘big pharma’, afinal, só vende o que nos dispomos a comprar, como lembrou Ben Goldacre, médico e autor do popular blog britânico Bad Science (má ciência): ‘Somos todos participantes desse jogo. Fingir que a medicalização é algo imposto a nós -por malvadas e poderosas influências externas- só enaltece um sentimento perigoso de passividade’, ressaltou Goldacre.’



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Marketing sarado

‘As novas criações da indústria da doença e suas curas extraordinárias

Disfunção erétil + Viagra (sildenafil)

Inicialmente destinado a tratar impotência proveniente de outros problemas, como diabetes, cirurgias da próstata e traumas da medula espinhal, o Viagra teve sua comercialização progressivamente ampliada para uso por homens normais, para ajudá-los a obter e manter mais e melhores ereções. O site do fabricante, a americana Pfizer, afirma sem citar a fonte que mais da metade dos homens acima de 40 anos podem sofrer da disfunção. Joel Lexchin, da York University (Canadá), diz que possivelmente se trata de um estudo feito perto de Boston em 1987-1989 e informa que o percentual de 52% foi obtido num subgrupo dos homens pesquisados, justamente o daqueles que tinham procurado uma clínica de urologia (e que portanto deve apresentar uma proporção maior de pacientes afetados). Outros estudos chegaram a cifras como 18% de disfunção erétil, em graus variados, entre homens de 50-59 anos, ou apenas 1% de incapacidade total de ter uma ereção na faixa de 50-65 anos.

Transtorno bipolar de humor + estabilizadores de humor Zyprexa (olanzapina), Risperdal (risperidona), Seroquel (quetiapina) Nova e mais popular embalagem da doença psiquiátrica antes conhecida como PMD (psicose maníaco-depressiva, agora transtorno bipolar I). Estimativas de incidência do transtorno bipolar passaram de 0,1%, no tempo da PMD, que implicava pelo menos um episódio de hospitalização, para 5%, agora que foram incluídas na definição também variantes ‘comunitárias’ do transtorno. Com o milagre da multiplicação dos diagnósticos, inclusive com a proliferação de testes para autodiagnóstico, criou-se também a racionalidade para passar a prescrever medicamentos antipsicóticos como preventivos. Surgiram então periódicos, sociedades profissionais e conferências anuais sobre transtorno bipolar, parcialmente financiados por empresas farmacêuticas. Segundo David Healy, da Universidade de Cardiff, não há apoio empírico para justificar esse uso profilático nem para a crença de que ele possa evitar suicídios (antes o contrário). De 2000 para cá, crianças de até 2 anos de idade passaram a ser diagnosticadas como bipolares e tratadas com antipsicóticos, nos EUA.

Transtorno disfórico pré-menstrual + inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como Sarafem (fluoxetina), Zoloft (sertralina), Aropax (paroxetina), Luvox (fluvoxamina) e Cipramil (citalopram) Casos mais radicais da já conhecida e até folclórica tensão pré-menstrual (TPM) foram elevados à condição de doença psiquiátrica séria, rebatizada como transtorno disfórico pré-menstrual. Um estudo de 2002 concluiu que 6% das mulheres americanas sofriam com o transtorno e que outros 19% eram casos limítrofes. Em paralelo, a fluoxetina -nada menos que o popular Prozac- foi reformulada para o novo uso como Sarafem pela empresa Eli-Lilly. Segundo Barbara Mintzes, da University of British Columbia (Canadá), a Agência Européia de Avaliação de Medicamentos recusou aprovação para o uso de inibidores seletivos de recaptação de serotonina para tratar o sucessor da TPM, mas eles foram licenciados nos Estados Unidos e na Austrália.

Disfunção sexual feminina + Viagra (sildenafil) Por volta de 1997, a febre do Viagra ameaçou contaminar também a sexualidade das parceiras, e urologistas começaram a falar numa nova doença, a ‘impotência’ (disfunção sexual) feminina, também chamada de transtorno de excitação sexual feminino. Em 2004, segundo Leonore Tiefer, da Universidade de Nova York, fracassou de vez a busca da Pfizer para ver o Viagra aprovado para resolver o novo problema das mulheres, também, porque os testes clínicos com doença e remédio inovadores deram resultados inconsistentes sobre a eficácia do segundo em tratar a primeira. Apesar disso, médicos americanos continuam a prescrever Viagra para mulheres.

Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) + Ritalina (metilfenidato) Depois da epidemia de diagnósticos de dislexia, a moda em matéria de medicalização do desempenho escolar passou a ser a TDAH, contemporânea da ascensão da Ritalina como remédio certo para a doença certa. Somente entre 1990 e 1995, multiplicaram-se por 2,5 nos Estados Unidos as prescrições da droga para crianças e jovens. No Canadá, por 5. Segundo Christine Phillips, da Australian National University, o envolvimento de professores na popularização do diagnóstico foi fundamental para a estratégia de marketing das empresas fabricantes, como a Novartis e a Shire, que patrocinam sites ‘educacionais’ na internet com seções dedicadas a educadores e enfermeiros escolares. A indústria também apóia financeiramente grupos de pressão como o norte-americano Children and Adults with ADHD (www.chadd.org).

Síndrome das pernas inquietas + Requip (ropinirol) Antes de 2003, dificilmente ocorreria a uma pessoa com uma sensação incômoda nas pernas e uma urgência em movimentá-las, em especial durante a noite, que ela poderia estar sofrendo de uma doença, muito menos séria. Naquele ano, porém, a GlaxoSmithKline lançou nos EUA uma campanha de esclarecimento segundo a qual ‘uma nova pesquisa revela um transtorno comum porém pouco reconhecido -síndrome das pernas inquietas- que está mantendo americanos acordados à noite’. Em 2005, a FDA aprovou o uso do medicamento ropinirol para tratar essa condição. Segundo Steven Woloshin e Lisa Schwartz, da Escola Médica Dartmouth (EUA), reportagens sobre a doença costumam citar que ela aflige 12 milhões de americanos, ou algo como 1 em 10 adultos, embora uma cifra inferior a 2,7% seja mais provável. Algumas reportagens mencionam que melhoram os sintomas de 73% dos pacientes que tomam o remédio, mas são raras as que informam que o mesmo acontece com 57% dos que tomam placebos, ou que o ropinirol pode causar náuseas, tonturas e até sonolência e fadiga (sintomas que deveria curar).

Alzheimer + inibidores de colinesterase Aricept (donepezil), Exelon (rivastigmina) e Reminyl (galantamina) O inibidor donepezil foi aprovado em 1996 nos Estados Unidos para tratar manifestações do mal de Alzheimer como demência e problemas cognitivos, antes mesmo que estudos clínicos apropriados tivessem sido publicados nos periódicos médicos. Em 2003, um estudo mais completo de revisão dos testes clínicos realizados revelou que o efeito benéfico era mínimo, com somente 10% dos pacientes tratados obtendo resposta melhor que a de um placebo. Segundo Marina Maggini, Nicola Vanacore e Roberto Raschetti, do Instituto Nacional de Saúde da Itália, todos os testes clínicos têm metodologia questionável, pois acompanham pacientes por apenas alguns meses, quando se trata de uma doença que se desenvolve ao longo de décadas.

Editor de dossiê reclama de mau comportamento das farmacêuticas, mas diz que elas são necessárias’



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‘Imprensa é culpada’

‘Leia abaixo as respostas ‘um tanto apressadas’ a questionamentos sobre o dossiê da ‘PLoS Medicine’ enviadas por e-mail da Austrália por David Henry, um de seus editores.

Folha – A fabricação de doenças é só um efeito colateral de jornalismo negligente em saúde e ciência ou uma tendência mais enraizada nos repórteres dessa área para exagerar e promover a pesquisa biomédica?

David Henry – Há muito mais atores do que os jornalistas: as empresas, seus departamentos de relações públicas, médicos e grupos de ajuda de pacientes -alianças essencialmente informais. Mas os jornalistas, como os médicos, estão no centro do sucesso na fabricação de doenças. Eles parecem com freqüência ser menos céticos com afirmações na área da saúde do que com as de outras indústrias. É possível publicar como ‘notícia’ informações sobre um tratamento que descumpririam padrões de publicidade. Enfim, é mais do que jornalismo ruim, mas jornalistas têm um papel importante.

Folha – Além de médicos e jornalistas, o público também não tem culpa? Não estamos nos transformando numa sociedade de consumidores infantilmente crédulos, prontos a embarcar na próxima moda de combinação nova doença/remédio milagroso?

Henry – Receber a instrução de que sintomas leves ou uma característica indesejada são um ‘transtorno’ [doença] remove alguma responsabilidade e legitima o uso dos ‘tratamentos’.

Folha – A síndrome de pernas inquietas, por exemplo, é um fenômeno tipicamente americano? Seriam os americanos mais inclinados que outros povos a cair nessas armadilhas de doenças fabricadas, ou seria tudo uma questão de velocidade -os americanos são só os primeiros e depois são seguidos por todos os outros?

Henry – A síndrome das pernas inquietas é bem conhecida nos círculos médicos e pode ser perturbadora para algumas pessoas (pela perda de sono). A razão pela qual essas ‘condições’ parecem mais comuns nos EUA são o tamanho e a rentabilidade dos mercados potenciais, além do fato de que o país permite a publicidade direta ao consumidor.

Folha – A publicação de todos esses ensaios pela ‘PLoS Medicine’ terá algum efeito sobre as profissões mais vulneráveis, médicos e jornalistas?

Henry – Não por si só, mas ela é um aspecto útil de um movimento para enfatizar a importância de tratamentos genuínos e estratégias preventivas (por exemplo, vacinas contra o tabagismo) e para desenfatizar os ‘transtornos’ mais leves, que são um aspecto da condição humana e com os quais temos de conviver. Precisamos fomentar ceticismo, no público e na mídia, diante de alegações exageradas em saúde.

Folha – Tem havido algum movimento para barrar a crescente influência da ‘big pharma’ [indústria farmacêutica] na prática clínica e na literatura biomédica, seja criando regras mais estritas em periódicos médicos auditados e em testes clínicos, seja com livros de denúncia. Estamos testemunhando uma onda de maior ceticismo em relação ao complexo médico-farmacêutico, comparável à situação enfrentada pelas indústrias química e nuclear nos anos 60 e 70?

Henry – Creio que sim. E o mau comportamento das empresas [farmacêuticas] no mundo em desenvolvimento não as tem ajudado muito, como levar o governo da África do Sul aos tribunais [para barrar lei que tornava remédios vitais mais acessíveis, como antirretrovirais do coquetel contra Aids]. Mas NÃO é a mesma coisa que ‘big tobacco’ [indústria do cigarro]. Nós precisamos de seus produtos.

Folha – Alguns dos ensaios na ‘PLoS Medicine’ correlacionam a atual estratégia de marketing com a quantidade declinante de remédios inovadores aprovados pela FDA [agência de alimentos e fármacos dos EUA]. A fabricação de doenças deve ser vista como um sintoma de alguma doença mais séria? Devemos esperar que ela se agrave no futuro próximo, já que o Projeto Genoma Humano não está cumprindo ainda a promessa de melhores alvos para remédios?

Henry – Em alguma medida, isso é verdade -estão se esgotando para a indústria os tratamentos de massa que são realmente lucrativos (hipertensão, colesterol, refluxo gástrico). As últimas fronteiras são a dependência química e a obesidade. Depois disso, ela terá de se concentrar em doenças sérias. A fabricação de doenças, enquanto isso, a ajuda a vender remédios e a manter os acionistas contentes.

Folha – A fabricação de doenças está agora sob fogo de todos os lados no espectro político-ideológico. Será isso um sinal de força ou um bipe passageiro no radar ético da sociedade, que logo será abandonado sob a pressão de questões mais urgentes?

Henry – Existe alguma base filosófica, no sentido de que estamos sendo convocados a nos conformar com noções idealizadas de aparência, sentimentos e comportamento. Mas não por parte de algum regime autoritário, e sim das forças coletivas do marketing, que desencadeamos em razão da nossa própria busca por bens baratos e outras posses.

Folha – Outro grande assunto de saúde na mídia é a pesquisa com células-tronco, uma fabricação de panacéias para traumas de medula, diabetes, cardiopatias, Alzheimer etc. O problema é que não há uma Big Pharma por trás, ao menos por enquanto, para culpar pelos exageros com células-tronco. Quem está deixando de cumprir sua obrigação, aqui?

Henry – Cientistas, empresas ‘startups’ e a nossa crença em progresso contínuo e soluções técnicas.’



ALCKMIN SOB SUSPEITA
Frederico Vasconcelos e Rogério Pagnan

Sob Alckmin, Nossa Caixa abrigou suspeitos de fraude

‘A diretoria da Nossa Caixa nomeada pelo ex-governador Geraldo Alckmin, pré-candidato à Presidência da República pelo PSDB, abrigou executivos e assessores acusados de supostas irregularidades e fraudes em licitações na administração de outros bancos oficiais durante o governo FHC.

A Nossa Caixa é investigada pelo Ministério Público estadual por suspeita de direcionamento de recursos de publicidade pelo Palácio dos Bandeirantes para favorecer deputados da Assembléia Legislativa de São Paulo, conforme a Folha revelou na edição de 26 de março passado.

A investigação poderá apontar a semelhança entre atos praticados por diretores e ex-assessores do banco estadual investigados em irregularidades na Caixa Econômica Federal, comparação feita por deputados de oposição na Assembléia Legislativa.

Geraldo Alckmin e o atual presidente do banco estadual, Carlos Eduardo Monteiro, dizem considerar ‘absurda’ essa comparação. Em entrevista anterior, Alckmin disse que os R$ 43 milhões gastos com publicidade sem amparo legal seriam um ‘erro formal’.

Chefe-de-gabinete

Um desses assessores sob suspeita é o ex-presidente do Banco do Estado de Goiás Waldin Rosa de Lima. Inabilitado pelo Banco Central para dirigir instituições financeiras, por conceder empréstimos sem cumprir as normas bancárias, ele atuou em 2003 como chefe-de-gabinete do então presidente da Nossa Caixa Valdery Frota de Albuquerque.

Lima só conseguiu se livrar dessa penalidade do BC em janeiro de 2004, quando o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional, o ‘Conselhinho’ -órgão paritário formado por membros do governo e do mercado-, transformou a punição em arquivamento. Não há registro da entrada e da saída desse funcionário.

O assessor especial não tinha registro formal nos quadros da Nossa Caixa, mas possuía senha de acesso ao sistema de dados do banco. Acompanhava o andamento de contratos com as agências de propaganda, caso sob investigação pelo promotor da Cidadania Sérgio Turra Sobrane.

Funcionários da Nossa Caixa desconheciam quem remunerava Lima e Elmar Gueiros, outro assessor especial de Albuquerque, também punido pelo BC, com multa, por supostas irregularidades na alienação de bens.

O atual presidente da Nossa Caixa diz que o banco não remunerava os dois assessores. Na sua visão, Lima era um ‘chefe-de-gabinete informal’. ‘Eles foram trazidos por Valdery. Eles não eram remunerados pelo banco. Não tenho a menor idéia se eles receberam remuneração’, afirmou Carlos Eduardo Monteiro.

Formalmente, porém, o assessor especial de Albuquerque chegou a ser apresentado a desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo como o chefe-de-gabinete da presidência.

Lima também foi citado em relatório final da CPI do Narcotráfico. O ex-presidente do banco de Goiás teria dificultado o trabalho da comissão ao retardar o envio de informações de investigados que tiveram quebra de sigilo.

Prevaricação e improbidade

Outro executivo sob suspeição na equipe da Nossa Caixa, que atuou tanto na gestão de Albuquerque quanto na de Monteiro, é o ex-diretor de rede e distribuição do banco paulista Luiz Francisco Monteiro de Barros Neto. Ele foi acusado pela CPI dos Bingos por prevaricação, improbidade administrativa e crimes contra o procedimento licitatório nos contratos com a GTech, quando foi vice-presidente da CEF.

Barros Neto deixou a diretoria do banco em fevereiro deste ano, após ter seu indiciamento recomendado no relatório parcial da CPI dos Bingos. Ele é citado, com mais 16 pessoas, por permitir que a GTech prestasse serviços diversos à CEF por mais de oito anos sem participar de licitação.

O ex-diretor do banco impetrou mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal, com pedido de liminar, para retirar seu nome do relatório da CPI dos Bingos, mas seu pedido foi negado pelo ministro Carlos Ayres Britto.

Entre 1997 e 2004, segundo o Tribunal de Contas da União, as irregularidades nos contratos entre a CEF e GTech provocaram um prejuízo aos cofres públicos de R$ 433 milhões.

Loterias

Barros Neto foi superintendente Nacional de Loterias da CEF. O grande filão nesse mercado são os chamados ‘correspondentes bancários’: a terceirização, com transferência de serviços, por exemplo, para casas lotéricas. Além das loterias, essas redes privadas são remuneradas pelo recebimento de contas de serviços públicos, como água e luz.

O relatório da CPI dos Bingos diz que a GTech e o empresário de jogos Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, mantinham ‘negociações de parceria’ para atuar nos mercados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

Em novembro de 2003, Albuquerque deixou a presidência da Nossa Caixa, ‘por motivos profissionais’, segundo o banco. Foi contratado pelo Unibanco, que pretenderia romper o monopólio da CEF no setor de lotéricos, iniciativa que teria sido frustrada pela resistência do banco federal e pela eclosão do escândalo envolvendo Cachoeira e Waldomiro Diniz, ex-assessor especial do ex-ministro José Dirceu, então chefe da Casa Civil do governo Lula. O Unibanco não comenta.

Albuquerque foi presidente da Caixa Econômica Federal e trouxe vários ex-diretores para compor a sua equipe na Nossa Caixa. Por entender que o banco estadual teria praticado irregularidades semelhantes às atribuídas à CEF pela CPI dos Bingos, o deputado Romeu Tuma Jr. (PMDB), corregedor da Assembléia Legislativa, pretende enviar cópia da sindicância à Câmara Federal.

O objetivo é tentar a reconvocação de Albuquerque e Barros Neto pela CPI dos Bingos e romper a barreira da base aliada do governo paulista, que impede a constituição de Comissão Parlamentar de Inquérito em São Paulo para investigar a Nossa Caixa.

‘Vejo uma continuidade do que aconteceu antes na Caixa Econômica Federal’, diz Tuma Jr. O deputado acredita que a forma de atuação da CEF e da Nossa Caixa guardaria semelhanças: trocas de advogados para substituir pareceres em licitações suspeitas na área de informática, falta de controle nos contratos e aditivos ilegais para elevar preços e favorecer empresas prestadoras de serviços.

‘Vislumbro algumas irregularidades significativas que merecem comunicação imediata e providências da alçada do Banco Central’, diz o deputado.’



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Assessor interferiu em processo sem ser funcionário

‘Depoimentos feitos na sindicância revelam que o assessor Waldin Rosa de Lima, mesmo sem ser funcionário, interferiu no processo que permitiu às agências de publicidade Full Jazz e Colucci oferecer serviços ao banco por um ano e nove meses sem amparo legal.

O ex-gerente de Marketing Jaime de Castro Júnior afirmou ter entregue o processo ‘em mãos’ a Lima em agosto de 2003. E disse: ‘A dificuldade na comunicação direta com o presidente Valdery e a intermediação e interferência do sr. Waldin e do sr. Roger [Ferreira, ex-assessor], nos assuntos do Demar [departamento de marketing] afetaram diretamente a rotina da área.’

A presidente da Full Jazz, Maria Christina Pinto, disse que Lima participava de algumas reuniões com a agência, ‘mas não tinha uma presença constante’.

O Departamento de Gestão de Pessoas da Nossa Caixa informou que não havia localizado Lima no quadro de empregados ativos nem de inativos do banco.’



FRANÇA
João Batista Natali

‘Marketing é sua principal ferramenta’

‘Nicolas Sarkozy foi objeto de nove livros lançados nos últimos anos. Michaël Darmon, jornalista na rede pública de televisão France-2, é o autor do mais politizado entre eles, ‘Sarko Star’, publicado pelas edições Seuil.

Darmon não esconde uma mistura de atração e repulsa por um político que quebrou tabus e adere ao marketing político para reforçar sua popularidade. Eis trechos da entrevista.

Folha – Seria há alguns anos considerado meio louco o francês que dissesse que quer ser presidente. Por que não internaram Sarkozy?

Michaël Darmon – A grande originalidade de Nicolas Sarkozy na política francesa está no fato de ele ter rompido o tabu pelo qual ninguém afirma abertamente que quer ser presidente. A ambição presidencial não era explicitamente declarada por Jacques Chirac ou pelo socialista Lionel Jospin, quando foi primeiro-ministro. Era uma obsessão, mas ele declarava que tudo não passava de boato de jornalistas. Sarkozy mudou a regra, ‘dizendo o que eu faço e fazendo aquilo que eu digo’.

Folha – Se deu certo até agora, não é porque havia um espaço político vazio que ele ocupou?

Darmon – Esse vazio realmente existia, e ele o preencheu com habilidade. Mas ele foi também o primeiro a compreender o trauma que a França viveu em abril de 2002, quando Jean-Marie Le Pen, o líder da Frente Nacional (extrema-direita) chegou ao segundo turno da eleição presidencial. Sarkozy percebeu que havia uma ruptura entre a sociedade francesa e suas lideranças políticas. Concluiu que os políticos não deveriam mais ser uma ‘elite’ e tinham de mudar sua linguagem.

Folha – Em ‘populismo’?

Darmon – Ele deixou de usar o jargão institucional, as palavras difíceis que os cidadãos não compreendiam direito, mas que davam ao político certa respeitabilidade. O uso de uma linguagem simplificada é acompanhado do diagnóstico de que a sociedade francesa deseja a renovação. Embora de modo diferente, a possível candidata presidencial socialista, Ségolène Royal, também expressa esse desejo. As eleições de 2007 terão a marca da renovação.

Folha – Mas Sarkozy também vem piscando um olho para o eleitorado da Frente Nacional…

Darmon – Foi bem mais que uma piscada de olhos. Essa tentativa de sedução existe, embora não se possa qualificar Sarkozy de fascista. Ele sabe que no segundo turno será preciso atrair eleitores que não estejam em seu campo tradicional, o de centro-direita. E ele está, desde já, atraindo eleitores ‘populares’, que por muito tempo votaram nas esquerdas ou nos partidos de centro-direita e que, desapontados, passaram a votar em Le Pen. Desde 1995, há no eleitorado francês um segmento que alguns analistas chamam de ‘esquerdo-lepenismo’. Não são fascistas. São eleitores desapontados, que Sarkozy diz querer trazer para o campo republicano.

Folha – Seu plano é explícito?

Darmon – Muito explícito. Semana passada fui pautado para acompanhá-lo na região do Norte (fronteira com a Bélgica). A Frente Nacional é muito forte por lá. Ela cresceu em cima de um eleitorado que já foi basicamente socialista. Os discursos que Sarkozy fez aos operários tinham a mística de um socialista do início do século 19. Ele sabe como falar com os ‘esquerdo-lepenistas’.

Folha – Ele simula ter alguma raiz nas esquerdas?

Darmon – Não há simulação. Sua linguagem também levanta tópicos que agradam o eleitorado da direita, como as críticas que ele faz à política de imigração das últimas décadas. Ele defende a flexibilização do mercado de trabalho e elogia a globalização. Sarkozy está certo de contar com o eleitorado de centro-direita. Mas ele quer ampliá-lo, desde já, na direção do centro e da esquerda.

Folha – Como explicar o fato de a esquerda tradicional, comunistas e socialistas, estar catatônica, sem reagir à emergência de Sarkozy?

Darmon – Sarkozy e a esquerda tradicional atuam em terrenos bem diferentes. Sarkozy não traz em sua bagagem propostas recheadas de ideologia. Ele traz é muito marketing político, que para ele não é apenas uma das ferramentas para chegar ao poder. É a ferramenta principal.

Folha – Ele está rodeado de marqueteiros, ou reage segundo suas impressões pessoais?

Darmon – Seus assessores repetem que ‘a assessoria de comunicação de Sarkozy é formada pelo próprio Sarkozy’. Mas não é verdade. Ele consulta com freqüência publicitários, tem três assessores informais na área de marketing político. Foi essa equipe que forjou o slogan ‘Imaginemos a França de depois’.

Folha – Mas ele não é um ‘produto’ fácil de vender: é feio, não tem mais uma mulher bonita…

Darmon -Ele utiliza atributos desfavoráveis para obter vantagem. ‘Sou como todos os franceses’, que às vezes são largados pela mulher e às vezes nascem em famílias de imigrantes judeus.

Folha – Sarkozy é verdadeiramente um sedutor?

Darmon – É sua profissão. Ele pratica a sedução como profissão. Ele sabe como se aproximar das pessoas.’



INTERNET
Alison Maitland

Skype ainda acredita em telefonia paga

‘DO ‘FINANCIAL TIMES’ – Como presidente de uma companhia que deseja revolucionar a maneira pela qual o mundo se comunica, Niklas Zennström é um homem surpreendentemente difícil de contatar. O site do Skype, a companhia que ele dirige e cujo software permite telefonemas gratuitos via internet, não informa o endereço dos escritórios do grupo nem oferece telefone para contato.

Talvez esse sueco de fala rápida, que lançou o Skype em parceria com o sócio Janus Friis em 2003 e o vendeu ao eBay no ano passado, embolsando pagamento inicial de US$ 2,6 bilhões, esteja tentando provar alguma coisa àqueles dentre nós que ainda não ousam abandonar os grilhões da telefonia convencional em troca da conversação ilimitada no ciberespaço?

No escritório do Skype em Londres, localizado em uma rua lateral sem graça no bairro do Soho, perto de Picadilly Circus, Zennström ri da idéia e explica que operar uma central telefônica não se enquadra ao modelo de negócios que ele propõe.

‘Temos mais de 80 milhões de usuários e registramos 250 mil novos assinantes ao dia’, diz. ‘Oferecemos serviços gratuitos. Se decidíssemos dar assistência técnica completa a todos os usuários, tanto gente nos ligaria que o custo se tornaria proibitivo.’

O escritório dispõe de ‘algumas’ linhas convencionais de telefonia, incluindo uma de fax, mas qualquer dúvida ou questão será respondida de maneira mais rápida se o interessado preencher um formulário no site, diz ele. Na minha experiência, tentar contatar empresas dessa maneira é ineficiente. Mas o Skype, por outro lado, não é exatamente uma companhia convencional.

Os admiradores de Zennström no setor de ‘venture capital’ (capital para empreendimentos de risco) dizem que ele pode se tornar um novo Michael Dell (da Dell), Jeff Bezos (Amazon) ou até mesmo Bill Gates (Microsoft), com quem é parecido fisicamente. Mas, se você não o conhece, é difícil distinguir quem exatamente é o chefe, no escritório sem divisórias do qual a empresa é comandada.

Ele se senta numa longa mesa de canto, compartilhada por meia dúzia de outros colegas, e está absorto na tela de um computador à sua frente. Não se pode nem dizer que aquele é o lugar dele, já que outros funcionários costumam ocupar sua posição quando Zennström viaja.

Em janeiro, quando a equipe de Londres voou para uma reunião da companhia na Estônia, onde o Skype desenvolve seu software, o presidente-executivo, um homem de 1,95 metro, viajou no assento do meio, aprisionado entre dois passageiros na classe turística de um vôo comercial.

Ele entra na sala de reunião vestindo uma camisa xadrez, de colarinho aberto, e calças de veludo escuras, trazendo na mão uma caneca de café, que manipula enquanto fala.

Por trás da aparência discreta, porém, existe uma vontade férrea. A missão do Skype é mais importante do que o status ou o nome do cargo e ele espera que todos os demais funcionários compartilhem desse sentimento.

‘Se as pessoas começam a se posicionar internamente para obter mais poder ou um cargo melhor, estão na empresa errada’, diz. ‘Não temos tempo para disputas políticas internas que acontecem nas grandes empresas. No começo, fizemos diversas contratações que não funcionaram. É preciso perceber esse tipo de problema cedo e dispensar essas pessoas.’

Kazaa

Zennström, que acaba de completar 40 anos, é conhecido por desenvolver tecnologias perturbadoras. Ele e Friis criaram o Kazaa, software que permitia que milhões de usuários compartilhassem arquivos musicais ilegalmente via internet e gerou processos judiciais contra os criadores.

O que fez com que ele tomasse esse rumo? Filho de um casal de professores de Uppsala, ele nega que seja um radical. Mas, como consumidor, o imenso poderio das grandes corporações o incomoda. ‘Todos têm a obrigação de lutar contra os monopólios e também contra as empresas que oferecem maus serviços’, afirma.

Depois de concluir simultaneamente cursos superiores de engenharia e administração de empresas, ele começou a ganhar experiência como gerente encarregado de desenvolver novos negócios na Tele2, uma empresa de rápido crescimento que ele descreve entusiasticamente como a primeira empresa européia de telecomunicações a desafiar a companhia dominante do setor.

A seguir, ele contratou Friis, um jovem e ‘brilhante’ dinamarquês com pouca educação formal mas grande capacidade intuitiva para conceber modelos de negócios nada convencionais, e os dois vêm trabalhando em estreita colaboração desde então.

Zennström é um líder natural, de acordo com Howard Hartenbaum, que acompanha sua carreira há muito e foi o primeiro investidor a apoiar o Skype, quando os profissionais de ‘venture capital’ na Europa ‘não chegariam perto dele nem usando luvas’, devido à disputa judicial entre a indústria do entretenimento e o Kazaa e à hesitação do mercado depois da bolha do setor de internet.

Hartenbaum, hoje sócio da Draper Richards, empresa de ‘venture capital’ na costa oeste dos Estados Unidos, lembra que a visão de Zennström o ‘capturou’. Ele diz: ‘Fiquei tentado a deixar o setor de ‘venture capital’ e simplesmente segui-lo. Provavelmente deveria tê-lo feito, porque assim teria mais ações. Mas comprei número suficiente’.

Receita

Ao contrário da maioria das empresas, o Skype não fatura dinheiro com a maioria de seus usuários, que usam seu software de download gratuito para realizar telefonemas usando seus computadores.

A receita da empresa -US$ 60 milhões no ano passado e meta de US$ 200 milhões neste ano- é derivada da minoria de assinantes que paga para fazer e receber telefonemas de e para linhas telefônicas convencionais e móveis (SkypeOut e SkypeIn) e de serviços como correio de voz.

Zennström se irrita diante de qualquer sugestão de que o eBay teria ‘tomado o controle’ de sua empresa. O Skype continua a ter estratégia, orçamento, cultura e marcas separadas, aproveitando, ao mesmo tempo, a sinergia com o eBay, ele afirma.

‘Uma das coisas importantes para nós, e também uma das melhores coisas quanto ao eBay, é que desejávamos garantir que pudéssemos nos fundir com uma empresa maior sem que o Skype perdesse a identidade como companhia. Meg [Whitman, presidente-executiva do eBay] disse que deveríamos aproveitar os recursos de que eles dispõem, mas que ela não nos diria o que fazer, porque nós éramos as melhores pessoas do mundo para dirigir o nosso negócio.’

Agora que a Skype é parte do eBay, porém ele não pode comentar sobre as perspectivas de que a empresa saia do vermelho ou sobre a porcentagem de usuários que pagam pelos serviços oferecidos pelo grupo.

O que ele tem a dizer sobre a aparente contradição em sua estratégia? Os fundadores dizem que querem ‘tornar possível ao mundo inteiro conversar de graça’, mas os serviços que geram receita dependem da sobrevivência da telefonia tradicional.

A visão de ‘dominar o mundo’ é distante, admite Zennström. ‘Em algum momento, esse modelo de receita desaparecerá, mas esse momento ainda está muito distante’, diz. ‘Não é possível acreditar que os pagamentos por serviços telefônicos desaparecerão completamente.’

Enquanto isso, o Skype está desenvolvendo outros serviços em parcerias com produtores de hardware e software, grupos de varejo, operadoras de telefonia móvel e até mesmo gravadoras.

O maior desafio para Zennström é controlar o crescimento vertiginoso do grupo e comunicar a cultura comum da empresa aos novos recrutas que começam a trabalhar na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. Ele e Friis agora contam com uma equipe executiva de oito membros, dois dos quais oriundos do eBay.

A comunicação por meio do Skype não é suficiente com uma força de trabalho que quadruplicou para 300 funcionários de 30 diferentes nacionalidades em um ano. ‘Há muitas ocasiões em que é preciso garantir que as pessoas em diferentes escritórios se conheçam e encontrem. Temos muitos eventos sociais, organizados e desorganizados.’

E a cultura da empresa tampouco pode ser imposta. ‘É a forma de operar, o modo de se comportar. Começa com a contratação. Eles precisam estar realmente excitados quanto à Skype como movimento, não como simples local de trabalho.’

Os excêntricos são bem-vindos, até certo ponto. ‘Não se pode ter uma equipe inteira dessas pessoas. É necessário que os gerentes de projetos sejam muito bons. Jamais tivemos escassez de idéias. O desafio é decidir quais são as idéias corretas e implementá-las.’

Será que o empresário serial que já co-fundou quatro empresas se sentirá tentado a seguir adiante? Ele e Friis têm incentivo para ficar, dados os objetivos de lucros que, se atingidos, elevarão o valor de aquisição do Skype de US$ 2,6 bilhões a mais de US$ 4 bilhões.

Ele diz também que essa é a tecnologia de troca de arquivos que ele vinha procurando desde 2000 e que deseja levar o projeto a bom termo. ‘O dia em que você percebe que não sabe mais o que acrescentar é o dia em que você deveria deixar a empresa. Não sei se estarei aqui pelo resto da vida. Mas, enquanto eu tiver esse entusiasmo, tudo vai bem.’’



TELEVISÃO
Daniel Castro

Assassino de ‘Belíssima’ dá ordens a André

‘A misteriosa pessoa que dá ordens por celular para André (Marcello Antony), em ‘Belíssima’, é a mesma que chefia o esquema que matou Valdete (Leona Cavalli) e Pedro (Henri Castelli).

O ‘serial killer’ também está por trás da tentativa de assassinato sofrida por Vitória (Cláudia Abreu) num presídio. Quem é essa pessoa? O autor de ‘Belíssima’, Sílvio de Abreu, responde com um bem-humorado ‘Ah, ah, ah’.

Abreu dá uma única pista: a identidade do grande mestre de todas as maldades é conhecida pelo aparentemente inofensivo Seu Quiqui (Serafim Gonzalez).

‘A razão disso tudo é muito simples: ficar com a Belíssima [a fábrica de lingeries]. O que importa é que a trama vai se complicando à medida em que as coisas não vão saindo como foram planejadas. Norma [ex-mulher de André] vai dizer a Júlia [Glória Pires] que André foi procurado no Rio pelo pai [Seu Quiqui] para entrar nesse plano. O que Norma não sabe, portanto nem Júlia, é que o pai de André foi procurado pela tal pessoa’, revela Abreu.

Nos próximos capítulos, será revelado que Bia Falcão (Fernanda Montenegro) não morreu. O corpo carbonizado que foi enterrado no lugar do dela, provavelmente, é o de uma vendedora de bananas de beira de estrada. É pouco plausível que Bia seja a idealizadora de todos os crimes. Ela teria forjado a própria morte porque sabia que corria risco.

OUTRO CANAL

Elenco 1 A Record fechou na semana passada o elenco de ‘Bicho do Mato’, novela que substituirá ‘Prova de Amor’ em julho. As novidades são Jonas Bloch, em sua primeira novela na emissora, como um vilão, e Amandha Lee (lançada pela Globo em ‘A Casa das Sete Mulheres’, de 2003) no papel de uma universitária.

Elenco 2 Outro ex-Globo em ‘Bicho do Mato’ é Matheus Rocha (que estreou em ‘A Indomada’ e andou sumido da TV para se dedicar a uma banda). A novela também terá atores totalmente desconhecidos dos telespectadores. Um dos ‘calouros’ é Ruy Pollonah, de 81 anos, veterano no cinema.

Força Apesar de ‘Sinhá Moça’ só ter estreado em 13 de março, Bruno Gagliasso, galã da novela, já aparece entre os cinco atores da Globo que mais receberam cartas de fãs no mês passado. Só perde para Kayky Brito (‘Alma Gêmea’) e Guilherme Berenguer (‘Bang Bang’).

Racha A cúpula da Globo está dividida sobre a exibição de uma reprise da minissérie ‘Hilda Furacão’ entre agosto e outubro, durante o horário eleitoral gratuito, no horário da segunda linha de shows (‘A Diarista’, ‘Linha Direta’). Uma parte quer ‘Hilda Furacão’. Outra defende a manutenção dos programas da segunda linha de shows. São mais atraentes do ponto de vista comercial.’

Marcelo Bartolomei

TV é pressão, diz autor mais jovem da Globo

‘Mais jovem autor de novelas da Rede Globo, o escritor João Emanuel Carneiro, 35, se sente pressionado ao estrear amanhã, às 19h15, sua segunda novela na emissora, ‘Cobras & Lagartos’.

Além do volume de trabalho -são, em média, 40 páginas por capítulo-, a responsabilidade de elevar a audiência do horário, derrubada por ‘Bang Bang’, preocupa o novelista. ‘Estrear uma novela e fazer essa quantidade de capítulos já é uma pressão. Tento fazer o melhor porque eu gosto de idéias originais’, diz. ‘Agora, o que vai ser de mim? É uma incógnita!’

Se houver êxito, Carneiro terá carta-branca para estrear no horário nobre da emissora, num projeto com Wolf Maya, seu parceiro na direção de ‘Cobras & Lagartos’. ‘Pouca gente escreve novela. É preciso ter condicionamento físico e personalidade apropriada para agüentar as pressões, como a de se comunicar com as pessoas que assistem.’

Também autor de textos para cinema e dono do melhor resultado no Ibope dos últimos dois anos com ‘Da Cor do Pecado’, ele questiona a forma de fazer TV, mas diz aceitar o desafio. ‘Televisão é sempre um esboço. Há o problema de tempo, pois é preciso correr muito. Nada é 100%: o script, a gravação, o que vai ao ar, nem a intenção do ator’, diz.

Em 2004, sua primeira novela teve uma média de 43 pontos de ibope (cada ponto equivale a 52,3 mil domicílios na Grande SP), com share (participação de televisores ligados) de 65%. ‘A Lua me Disse’ e ‘Bang Bang’ baixaram os índices para a média dos 30 pontos -o faroeste levou o share a 50%. ‘Achei ‘Bang Bang’ uma novela ótima, ousada e bonita. Tenho a impressão de que as pessoas se acostumem melhor à minha novela porque ela tem uma estrutura mais tradicional, de folhetim’, analisa.

Consumo

Sua novela é um drama com pitadas de comédia. ‘Não gosto muito de paródia; é muito anos 80’, afirma Carneiro. ‘Cobras e Lagartos’ conta uma história de ascensão social e faz menção a ‘templos de consumo’ como a paulistana Daslu, por meio da Luxus, que se contrapõe ao comércio popular do Rio de Janeiro, o Saara. ‘Fui à Daslu por causa da novela. A Luxus é muito mais doida. Ela não existe em lugar nenhum do mundo. Sua idéia é um paraíso na Terra, onde todos os seus desejos possam ser realizados, mas com um cartão de crédito’, conta.

Carneiro não se define como um militante de esquerda, tampouco como um crítico da sociedade. ‘Tem um lado crítico de falar do assunto mas também há outro lado de adesão, de quem gostaria de ir à loja e gastar. Não sou um grande consumista, não tenho paciência’, afirma.

Entretanto, cabe ao autor -que é noveleiro, cinéfilo e fã de quadrinhos e dos seriados norte-americanos como ‘Lost’- criticar o consumo excessivo da sociedade global. ‘Surgiu da observação à minha volta, das pessoas consumistas. O Brasil é o país com maior endividamento da América Latina. Para mim, o mote da novela é o contraponto a esse mundo luxuoso, que é o comércio popular; e também a possibilidade de o personagem batalhador se tornar o dono de um poderoso império’, diz.

Seu protagonista, vivido pelo ator Lázaro Ramos -também em estréia nas novelas-, será um personagem ambíguo e ‘perigoso’, segundo o próprio autor, pelo fato de não ser tão politicamente correto quanto se espera e também por fugir a algumas regras ou cometer pequenos delitos para se dar bem na vida. Logo nas primeiras cenas, Foguinho faz um test-drive num carro de luxo e não devolve o veículo à concessionária.

‘Cobras & Lagartos’ terá 24 personagens, menos do que a primeira novela, que tinha 32, regra que Carneiro traz das obras de Cassiano Gabus Mendes (1929-1993) e adaptação à dificuldade de reservar elenco para sua obra. ‘Eu acho que o Wolf [Maya] está me ajudando muito a contar essa história. Ele é muito autoral e dá a cara que eu queria dar à novela. Espero fazer muitos trabalhos com ele no futuro’, afirma. Ele não considera as novelas obras escapistas. ‘O povo precisa de fábula. A realidade é muito dura.’

Carneiro usa a reação do público e as pesquisas realizadas internamente pela Globo em favor da novela e escreve de acordo com o gosto dos espectadores. ‘Eu gosto de ver TV na rua. Sento no restaurante e quero ver a reação das pessoas. Quando fiz ‘Da Cor do Pecado’, eu sofria uma angústia. O ibope é muito real e as pessoas comentam. Quanto mais as pessoas reclamam, mais elas assistem.’’



***

Record prepara ofensiva à nova novela Globo

‘A Record prepara uma ofensiva para combater a estréia de ‘Cobras & Lagartos’. Durante toda a semana, ‘Prova de Amor’, sua novela das sete, antecipará a maioria dos desfechos dos personagens principais para tentar segurar o espectador que a emissora acredita ter tirado da Globo após o tropeço de ‘Bang Bang’.

Segundo o diretor-geral de ‘Prova de Amor’, Alexandre Avancini, os capítulos serão maiores que os habituais. ‘Serão caprichados’, disse, entre um grito de ‘ação’ em plena gravação da novela no RecNov, no Rio. ‘Nossos personagens mais importantes estão vivendo muito conflito e muita ação neste momento.’

Devido ao sucesso -a novela mantém uma média de 20 pontos no Ibope, já tendo atingido um pico de 27 pontos-, a trama foi esticada pela segunda vez, agora até julho. Assim, ela passa de 190 para 220 capítulos, em média. ‘O forte da novela é o texto do Tiago [Santiago], que caiu na graça do público’, afirmou o diretor.

Na segunda-feira, a policial Diana (Patrícia França) conseguirá prender o assassino de seus pais. Na terça, o psiquiatra Marco (Ricardo Pereira) será assaltado, baleado e morto na rua; além disso, Joãozinho (Pedro Malta) encontrará o pai. Na quarta, o vilão Lopo (Leonardo Vieira) beija a vilã Elza (Vanessa Gerbelli), enquanto Gerião (André Segatti) é preso e entrega tudo sobre Lopo à polícia. Na quinta, começa uma perseguição de policiais a Lopo, que culmina com sua prisão; e Gui (Rogério Fróes) pede Alice (Helena Xavier) em casamento. Sexta é dia de Diana receber sua sentença de morte, dada por criminosos.

Então a novela praticamente acaba? Não, pois, segundo Avancini, haverá reviravoltas. ‘Depois disso, vai se encaminhar neste mês para um clímax e ainda começa uma série de reviravoltas, para seguir até julho.’’

Marcelo Bortoloti

SBT e Record são as emissoras que mais reprisam filmes

‘O thriller de ação ‘A Ilha da Garganta Cortada’, produzido em 1995, definitivamente não teve uma boa passagem pelo cinema. Com custo de produção orçado em US$ 100 milhões, faturou apenas 10% disto, levando o estúdio Carolco Pictures à falência. O resultado o levou também para o Guiness Book, onde por alguns anos foi apontado como o pior fracasso de bilheteria do cinema norte-americano.

A rejeição de público não impediu sua presença na televisão. Pelo contrário. Em 2005 ele foi um dos seis filmes mais reprisados da TV aberta no Brasil. Foram quatro exibições pela Rede Record no período, com uma média de uma vez a cada três meses. Ao lado de outros títulos com igual persistência, o filme integra o time dos chamados ‘fillers’ (tapa-buracos) da TV aberta, que ajudam as emissoras a preencher sua programação martelando a mesma história na cabeça do espectador.

Tomando como base 2005, pelo menos 15% de todos os filmes exibidos na TV foram reprisados com intervalo de poucos meses. Em um ano, 270 títulos passaram duas vezes, 72 foram exibidos três vezes e seis filmes passaram quatro vezes, considerando as emissoras Globo, SBT, Record e Bandeirantes. O acompanhamento foi feito pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), que monitora todos os títulos exibidos na televisão para a cobrança da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional), taxa anual que incide sobre filmes veiculados no cinema e na TV.

Líder absoluto entre as emissoras que mais reprisaram em 2005, o SBT teve 183 filmes repetidos. A Record reexibiu 95 títulos. A diferença entre as duas emissoras é que enquanto as reprises do SBT acontecem fundamentalmente de madrugada, as da Record vão ao ar durante a tarde e à noite, em horário nobre. No mesmo período, a Globo repetiu 38 títulos e a Bandeirantes 32.

O Departamento de Programação do SBT, por meio da assessoria de imprensa, justifica que as reprises se devem à quantidade de horas de programação que a emissora dedica aos filmes. ‘Trata-se de uma simples relação quantitativa. O SBT exibe mais filmes que as outras três emissoras somadas, portanto, nada mais lógico que a quantidade de reprises também seja maior’, declara. Ainda de acordo com a assessoria, o critério para escolha para as reexibições é o sucesso de audiência que o título teve na última vez que foi ao ar. ‘A proporção entre críticas dos espectadores em relação à freqüência dos filmes e pedidos de reprises se equivalem. Mas é impossível obter uma unanimidade nesse âmbito’, diz.

A sátira política ‘Máquina de Guerra’, o drama ‘A Segunda Chance’ e o desenho infantil ‘As Peripécias de um Ratinho Detetive’ foram os filmes mais repetidos pelo SBT no ano passado, sempre de madrugada. Segundo a assessoria do canal, o horário possui um público fiel e qualificado, que ‘remete a uma incidência maior de reprises’. Ainda de acordo com a emissora, a audiência da madrugada não sofre grandes oscilações, independente do filme que estiver sendo exibido.

Já a Rede Record ocupou com reprises suas principais faixas de cinema em 2005, tanto no período da tarde, às 14h, quanto de noite, às 20h30 e às 22h. O diretor de cinema e aquisições da emissora, Paulo Calil, afirma que o público e a audiência são responsáveis pelas reexibições. ‘Nós procuramos sempre atender o pedido dos telespectadores, é a melhor coisa a se fazer. É bom para o telespectador saber que o filme que ele assiste na Record é o filme que ele realmente gosta’, diz.

No total, 64 filmes foram exibidos duas vezes pela emissora em 2005, 28 tiveram três exibições e três filmes foram exibidos quatro vezes. Segundo Calil, o maior número de reprises se concentra no horário da tarde em razão da faixa ‘Cine Aventura’, que possui audiência fiel. Com quatro exibições em 2005, duas no mesmo mês, o drama ‘Nascido para Ser Campeão’ teve todas as suas reprises programadas para as 14h. O mesmo aconteceu com o título ‘A Revanche do Tornado’, também com quatro aparições no ano. ‘Se não fosse a audiência e o pedido dos telespectadores, certamente eles não seriam reexibidos’, afirma o diretor.’

Bia Abramo

Silvio Santos e os ídolos de antanho

‘Entra logo depois de ‘Ídolos’, o programa, e o contraste é curioso. ‘Rei Majestade’ traz de volta para a TV cantores e cantoras que já tiveram seu momento de glória e estão em relativa hibernação.

O público decide qual deles merece participar de um CD. Enquanto isso, em ‘Ídolos’ procuram-se novas vozes e caras.

Silvio Santos não dá ponto sem nó -é evidente que há uma estratégia por trás disso, só não se sabe qual poderia ser. Por que estrear quase que ao mesmo tempo dois programas em torno do universo da música e da idéia de sucesso de massa?

Qualquer especulação que se faça em termos da lógica de programação do SBT -leia-se, de Silvio Santos- é um negócio arriscado. Errática e sujeita a mudanças de horário de última hora, cancelamento de programas sem o menor aviso, a grade da emissora é um mistério.

O que parece é que se quer garantir, numa mesma noite, o público mais jovem e novidadeiro e a sua audiência cativa, mais velha e menos exigente. É como se, ao mesmo tempo em que aposta numa produção mais cuidada e mais cara, Silvio Santos tivesse a nostalgia do precário.

De qualquer maneira, em termos de antropologia musical, ‘Rei Majestade’ é divertido. Desfilam lá homens e mulheres (bem) acima dos 40 anos, apresentam novamente seus hits -com playback assumido- e voltam para, desta vez, enfrentar uma música de ‘hoje’ (embora esse ‘hoje’ inclua ‘As Rosas Não Falam’ e ‘Vem Quente que Eu Estou Fervendo’, por exemplo).

Alguns já velhinhos, passados dos 80, outros enfrentando com maior ou menor galhardia a meia-idade, os artistas também são flagrados em seu cotidiano de pais e mães, nas suas casas mais ou menos modestas, na memória de seu sucesso e no presente pouco glamouroso.

Visto na seqüência de ‘Ídolos’, soa como uma advertência ao que pode ocorrer com o futuro daqueles aspirantes ao estrelato.

O auditório vibra, é claro, com as reminiscências da era do rádio, da jovem guarda, do brega de todos os tempos.

As mini-entrevistas conduzidas por Silvio Santos dão conta de como esses ‘reis’ e ‘rainhas’ do passado se mantêm nos palcos anos, às vezes décadas, depois de arrefecido o pico de popularidade. Com aquele sadismo que lhe é característico, Silvio Santos tripudia em cima da idade, do esquecimento, da humildade da vida dos participantes.

A tal da ‘majestade’ (o título do programa é uma alusão ao dito popular ‘quem já foi rei, não perde a majestade’) só transparece por vezes, numa voz surpreendentemente firme em um octogenário, num carisma que reaparece uma vez em cima do palco, numa canção injustamente esquecida.

Um mundo quase antípoda ao dos ‘ídolos’ ansiosos, chorosos e espalhafatosos de uma hora antes.’



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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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