Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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ARMAZéM LITERáRIO >

Folha de S. Paulo

02/05/2006 na edição 379

ENTREVISTA / EDWARD WASSERMAN
Sérgio Dávila

Sigilo é problema dos tribunais, diz jornalista

‘A imprensa tem a obrigação de conseguir e publicar informações que são relevantes para o público. Tribunais e autoridades que cuidem melhor de sigilos protegidos pela lei: a função e os interesses da imprensa são outros. A opinião é de um especialista em ética jornalística, o professor Edward Wasserman, do departamento de jornalismo e comunicação de massa da universidade Washington and Lee, em Lexington, na Virgínia, Estado vizinho a Washington.

Com seu colega do ‘Miami Herald’ Andres Oppenheimer escreveu ‘Willful Blindness’ (cegueira deliberada, 2001), sobre práticas corruptas de multinacionais na América Latina, entre outros livros. Wasserman participa na semana que vem do Fórum Folha de Jornalismo, ciclo de debates que ocorre logo após a 26ª Conferência Anual da ONO (Organização de Ombudsmans de Notícias), este ano organizada com apoio da Folha (leia abaixo).

Pai de quatro filhos, 57 anos, começou no jornalismo em 1972, movido pelo caso Watergate: ‘Achei que era uma maravilha poder melhorar o mundo e escrever ao mesmo tempo’. No Fórum, Wasserman participará do debate sobre ‘Transparência e Qualidade Jornalística’. A seguir, trechos de sua entrevista:

Folha – Quão independente e transparente um ombudsman pode realmente ser?

Edward Wasserman – Há quatro tipos de ombudsmans. O que acha que seu trabalho é apresentar os leitores à Redação; o que acha que é apresentar a Redação aos leitores. O primeiro acredita que sua função é quase a de um ‘serviço ao assinante’: então só ouve as reclamações dos leitores. O outro faz um trabalho de explicar aos leitores porque o jornal faz o que faz, como faz -apresenta o ‘programa do partido’.

O terceiro faz um serviço de arbitragem, que balança entre as funções dos dois primeiros. E há o quarto, que funciona como um supereditor. Faz críticas ao jornal não sob a perspectiva do público, mas sob a perspectiva do que o jornal deveria fazer. Para mim, é o tipo mais interessante, é o que escreve as colunas mais saborosas.

Folha – E deve ser jornalista?

Wasserman – Os melhores ombudsmans o são. Porque entendem e podem explicar melhor o processo de fazer uma reportagem. Deixam claro -e não justificam- para o leitor o tipo de opções que um jornalista pode ter quando está escrevendo sobre um assunto. Assim, o leitor entenderá a pressão do fechamento, as limitações de cada tipo de mídia em que o repórter está operando.

Folha – E deve vir da Redação?

Wasserman – Se a idéia é que o ombudsman seja independente, sem medo de ser sabotado depois ou de criar inimizades, é um problema. Os modelos mais interessantes da instituição do ombudsman são aqueles que trazem um jornalista de outro veículo, por um período de tempo específico, de maneira que ele saiba que não há motivos para ter medo enquanto está na função nem que exerça sua função procurando ser aprovado.

Folha – Por que, relativamente, há tão poucos ombudsmans?

Wasserman – Falta de vontade das organizações jornalísticas de vigiar suas próprias práticas. É preciso um líder visionário para insistir em ter um ombudsman, porque essa nunca vai ser uma decisão popular. Ou então uma série de desgraças e embaraços públicos, como as pelas quais passou recentemente o ‘New York Times’, para forçar a empresa a aceitar que precisa de algum tipo de controle. Mas sempre há a desculpa do orçamento, que está sendo reduzido…

Folha – O que nos leva à pergunta sobre a crise financeira por que passa o negócio…

Wasserman – A imprensa tem de entender que a demanda por informação nunca foi tão grande. A crise não vem do fato de as pessoas subitamente decidirem que não querem mais saber o que está acontecendo no mundo ou nas suas comunidades. Elas querem.

Faço uma analogia: há 50 anos, aqui nos EUA, eram vendidos cinco vezes mais ingressos para o cinema do que em 2005, e a população era um terço da de hoje. Se Hollywood estivesse no mercado de vender ingressos, não haveria mais indústria de cinema. Mas eles descobriram que o negócio deles era vender entretenimento.

Os jornais choramingam. O que eles têm é um problema -como encontrar um meio de chegar até o público e satisfazer esse apetite. Essas soluções imediatistas, de cortar orçamentos, cortar jornalistas, são completamente autodestrutivas. A imprensa tem de descobrir que está no negócio de vender conteúdo, não papel.

Folha – O que o sr. acha que fere mais a mídia a longo prazo: a falta de credibilidade causada por escândalos como o de Jason Blair ou a queda da circulação?

Wasserman – A questão da credibilidade é exagerada. As pessoas sempre foram cautelosas em relação à imprensa e sempre entenderam que a mídia tem limitações. Não é verdade que houve um tempo em que as pessoas acreditavam cegamente e agora ninguém mais acredita.

A grande crise tem a ver com o novo modelo econômico e com o fato de a publicidade estar migrando para outros meios, como a TV e, em menor grau, o on-line. E o curioso é que o apelo da TV não tem absolutamente nada a ver com credibilidade. Ou você acha que o anunciante acredita mais no que ouve no programa em que anuncia do que no que lê?

Folha – As relações entre o governo Bush e a imprensa são, no mínimo, tensas. Por quê?

Wasserman – Esse governo faz parte de um movimento político, e os movimentos políticos, diferentemente dos partidos políticos, tendem a ser muito intolerantes em relação às instituições da sociedade que resistem às pressões deles. É revelador que as principais instituições da sociedade que receberam as críticas mais ferrenhas desta administração foram o sistema judicial e a mídia.

As duas são baseadas em uma ética profissional que exige tanto a autonomia como a independência. Essa administração não tem a menor paciência com instituições que funcionem baseadas nas próprias regras.

Folha – Também no Brasil essa relação anda conturbada. A discussão atual é até que ponto seria ético trabalhar com informações resultantes de inquéritos judiciais e policiais sobre a vida privada de políticos ou resultantes da quebra legal de sigilo fiscal, bancário e telefônico. O jornalista, em nome do interesse público, pode solicitar que as autoridades quebrem esse sigilo ou repassem as informações?

Wasserman – Sim, desde que sejam relevantes para o interesse do público e não envolvam aspectos das vidas pessoais. Pessoais, não privadas, pois se tratam de pessoas públicas. Quanto à maneira com que foram obtidas, se respeitada a ética, é problema de quem deixou vazar, não do receptor. Os tribunais e as autoridades que cuidem melhor de seu sigilo. A função e os interesses da imprensa são outros.

Folha – Então, se a história é boa, relevante para o público…

Wasserman – Sim. É um problema. Onde botar o limite? A imprensa tem a obrigação de conseguir e publicar as informações que são relevantes para o público.

Folha – É assim aqui?

Wasserman – Há, nesse momento, muito medo nas Redações de sofrer um processo. Então a imprensa reluta mais em publicá-las hoje do que há alguns anos. E não sei se isso é bom.

Folha – Uma revista semanal brasileira recebeu, provavelmente do governo ou de políticos governistas, e publicou a informação sobre o sigilo bancário de um caseiro que havia desmentido depoimentos ao Congresso do então ministro da Fazenda. O que o sr. faria nesse caso? E a revista ‘Time’?

Wasserman – Acho a história fascinante e a teria publicado. Não sei se a ‘Time’ ou a ‘Newsweek’ fariam isso, mas não porque estas sejam melhores. Quanto a divulgar a fonte, depende do acordo feito. Se a revista prometeu sigilo, deveria respeitá-lo até o fim. Se o sigilo foi rompido por outras publicações, ainda assim a revista em questão deveria ter uma autorização da fonte para o seu caso específico para revelá-la.’



OMBUDSMAN
Folha de S. Paulo

Folha organiza conferência anual de ombudsmans

‘A Folha organizará entre os dias 7 e 10 de maio a 26ª Conferência Anual da ONO (Organização de Ombudsmans de Notícias, na sigla em inglês). Será a primeira vez que a entidade, criada em 1980 e atualmente presidida por Ian Mayes, fará um encontro fora da Europa ou da América do Norte.

Com o apoio da Folha e organizado pelo ombudsman do jornal, Marcelo Beraba, o evento deve contar com a presença de 35 a 40 ombudsmans de 14 países.

A conferência da ONO será fechada ao público, mas entre os dias 10 e 11 de maio o jornal também promove, em São Paulo, o Fórum Folha de Jornalismo. O evento, aberto a interessados que se inscrevam com antecedência, fará parte das comemorações dos 85 anos de existência da Folha.

Para a conferência da ONO já confirmaram presença representantes dos EUA, Holanda, Canadá, Turquia e África do Sul, entre outros. Os últimos encontros foram realizados em Londres, Saint Petersburg, Istambul, Salt Lake City, Paris e Montreal.

Carol Nunnelley, uma das participantes da conferência, é diretora da Associated Press Managing Editors, associação que reúne os principais editores de jornais dos EUA e do Canadá. No cargo, ela comanda o National Credibility Roundtables Project (Projeto Nacional de Discussão sobre Credibilidade), que já trabalhou com 195 organizações de mídia desde 2001 abordando temas como credibilidade, precisão e equilíbrio no jornalismo, assuntos de sua conferência no Brasil.

Para Nunnelley, um dos novos desafios do jornalismo é a atual convivência com fontes de informação menos confiáveis e velozes como blogs e mídias on-line.

‘Um dos grandes desafios dos ombudsmans hoje é redefinir os valores do que é jornalismo e do que vem a ser apenas informação, e não necessariamente jornalismo. Redefinir o que chamamos na profissão de ‘núcleo’, que exige parâmetros que não devem ser alterados nesse novo contexto de competição com outras mídias’, afirma Nunnelley.

Para Marcelo Beraba, ombudsman da Folha, ‘o encontro anual de ombudsmans é um momento de reflexão maior sobre a qualidade do trabalho jornalístico e para a troca de experiências’.

A conferência em São Paulo terá, basicamente, três eixos: uma apresentação -para os ombudsmans dos outros continentes- da situação da imprensa na América Latina; a discussão sobre assuntos que questionaram a recente atuação da imprensa; e o enfrentamento de um tema de fundo, a credibilidade dos jornais.

A Folha possui um ombudsman desde outubro de 1989. A palavra ombudsman, de origem sueca, é bem mais antiga e designava, em 1807, um funcionário nomeado na Suécia para canalizar queixas de cidadãos contra o governo. Na mídia, o primeiro ombudsman surgiu em 1967, em um jornal de Louisville, no Kentucky (EUA). Hoje, há cerca de uma centena de ombudsmans em jornais, revistas, rádios e TVs.

Fórum Folha de Jornalismo

Já o Fórum Folha de Jornalismo terá quatro debates, abertos ao público, com a participação de especialistas estrangeiros da mídia dos EUA, Reino Unido, Argentina e Venezuela, entre outros.

O primeiro painel, no dia 10, terá por tema ‘Transparência e Qualidade Jornalística’. O segundo, no mesmo dia, abordará ‘Poder e Jornalismo na América Latina’. A terceira mesa, no dia 11, discutirá ‘Jornalismo e Democracia’. O quarto e último painel, no mesmo dia, terá como tema ‘Os Limites da Reportagem’.’



TELEVISÃO & TECNOLOGIA
Adriana Mattos

Preço da TV de plasma cai depois da Copa

‘A forte queda no preço das TVs de plasma vai se acentuar após a Copa do Mundo. Quem puder aguardar deve economizar. De janeiro a dezembro de 2005, o produto de 42 polegadas baixou de R$ 19.999 para R$ 9.999. Hoje, já custa menos de R$ 8 mil. Vão acontecer novos cortes no preço -de até 50% no segundo semestre-, apurou a Folha.

No final do ano passado, para elevar as vendas de Natal, várias indústrias de televisores chegaram a apregoar que novas reduções significativas não aconteceriam em 2006. Portanto, a compra naquele momento seria bom negócio. A realidade é outra.

Apenas de janeiro a abril, o preço da TV de plasma de 42 polegadas caiu de R$ 9.999 para R$ 7.986 na Lojas Cem. As Casas Bahia vendem por R$ 7.999, assim como o Ponto Frio e a rede Extra. Logo, em quatro meses, a queda é de mais de 20% -uma economia superior a R$ 2 mil em relação ao valor de dezembro de 2005. Em todo o ano passado, a redução no preço do produto foi de 50%.

A Folha entrou em contato na sexta-feira com três grandes redes varejistas. Elas fizeram as contas e calculam que no Natal de 2006 o produto deverá custar entre R$ 3.500 e R$ 4.000. Portanto, quem não quer pagar agora pelo benefício da inovação e puder esperar fará economia.

Quem levar para casa o produto neste ano terá outro ganho: está sendo definida agora, pelo governo, a nova tecnologia de TV digital que será utilizada no Brasil. Com o aparelho de plasma, o consumidor provavelmente já terá um sistema digital incorporado à TV. Se o equipamento não tiver esse benefício, é possível comprar um adaptador digital, por US$ 50.

Margens e estratégia

Nem loja nem indústria estão mexendo no próprio bolso para praticar esses preços agora. Margens de lucro estão garantidas. O que há é um interesse de popularizar a tecnologia e manter em alta a venda de mercadorias que garantem retornos superiores ao de mercadorias ‘commodities’, com margens muito baixas, como a TV de 20 polegadas ou o videocassete.

Pesquisa de preços da Fipe mostra que, de janeiro a dezembro de 2005, a TV (incluindo todos os modelos e tamanhos) teve queda de 16,8% nas lojas em relação a 2004. Apenas em dezembro, mês de Natal, a queda foi de 2,77%. Em março de 2006, a retração foi ainda maior: 3,77%.

‘Lojas e fabricantes repassaram essa retração ao mercado, como parte de um processo de popularização da tecnologia’, diz Waldemir Colleone, superintendente da Lojas Cem.

Gravador de DVD

No final de 2005, às vésperas do Natal, a direção da Gradiente não acreditava em quedas fortes nos preços em 2006. Para a empresa, a maior parte da queda já havia ocorrido nos últimos dois anos.

Mas a redução se mantém de forma acentuada como parte de um efeito dominó no mercado: o consumidor continua comprando, os ganhos com escala industrial sobem, lojas e indústrias ainda renegociam descontos e, por conseqüência, o preço volta a cair.

Ninguém nesse mercado gosta muito de falar em novas reduções nos preços. Isso posterga as vendas, porque faz o consumidor pensar duas vezes antes de gastar agora. Por isso, nos próximos 60 dias o comprador pode esperar por uma enxurrada de ações de mídia das marcas, antes da Copa do Mundo, para incentivar a compra.

No caso do gravador de DVD, a situação é muito semelhante. Há aparelhos da Gradiente por R$ 688 (Lojas Cem), um dos preços mais baixos hoje. Em dezembro de 2005, ele custava R$ 999 na maioria das redes. Outras marcas fizeram o mesmo: LG e Philips vendem o produto por até R$ 798. Pode-se parcelar o produto em até 12 vezes sem juros.

O que ainda é uma barreira à maior demanda pelo produto -as grandes marcas ainda fabricam videocassete- é o custo do DVD gravável.

Quem compra o gravador de DVD geralmente tem um gasto de manutenção maior, com o aluguel das fitas em DVD e a compra do DVD para gravação. Classes de menor renda podem não ter como adequar esse custo ao seu orçamento.’



TELEVISÃO
Daniel Castro

Modelos seminuas jogam para Globo em SP

‘A Globo vai causar um grande rebuliço nas arquibancadas do estádio do Pacaembu no próximo domingo, quando Corinthians e São Paulo se enfrentam.

Pouco antes de Carlitos Tevez pisar no gramado, a emissora colocará em campo dois times de modelos trajando apenas calcinhas e sutiãs. A segurança e o policiamento serão reforçados.

O ‘acontecimento’ será parte de gravações de ‘Belíssima’. Na novela de Sílvio de Abreu, Érica (Letícia Birkheuer) e Giovana (Paola Oliveira) comandarão dois times que disputarão uma partida de futebol para promover a marca de lingerie Lindona, idealizada por André (Marcello Antony).

No domingo, diante da torcida, serão feitas imagens das modelos entrando e deixando o campo e encenando alguns lances. Boa parte do ‘jogo’ será gravada na véspera, com o estádio vazio.

As cenas irão ao ar na terça e na quarta seguintes. O fictício jogo será transmitido pela TV. Durante a transmissão, Júlia (Glória Pires) terá certeza de que Cyro Laurenza (Nicola Siri) é o pai de Érica.

No ar na novela das sete, Henri Castelli não aparecerá mais em ‘Belíssima’ nem em fotografias, por determinação de Mário Lúcio Vaz, diretor-geral artístico da Globo. O ator, que fez Pedro, deveria voltar em ‘flashbacks’, pois o seu assassinato é um dos mistérios da novela das oito.

OUTRO CANAL

Foi Fabiano Augusto, ator-símbolo das Casas Bahia, aquele do bordão ‘quer pagar quanto?’, não voltará a fazer propaganda da rede de lojas. Fabiano ainda tem contrato com a empresa, mas foi afastado dos comerciais. Em março, a assessoria de imprensa das Casas Bahia declarou, para despistar, que Fabiano estava apenas ‘descansando a imagem’. Mas ele está fora da nova linha de comunicação da rede.

Lar O autor Manoel Carlos ambienta suas novelas sempre no Leblon, bairro do Rio em que mora. Será assim com ‘Páginas da Vida’, próximo título das oito da Globo. Mas Manoel Carlos, nos últimos meses, praticamente não vive mais no Leblon. Tem escrito os capítulos da novela ora em Angra dos Reis, ora em Petrópolis.

Meta Mesmo longe do Leblon (para poder escrever mais), Manoel Carlos não conseguirá estrear ‘Páginas da Vida’ com 18 capítulos prontos, como é praxe na Globo. O autor já escreveu seis episódios. Prometeu entregar, até julho, mais seis. Se fosse possível, Manoel Carlos escreveria cada capítulo apenas na véspera da exibição.

Topete Integrante do grupo Dominó, nos anos 80, Marcos Quintela se deu bem ao trocar a carreira de empresário da apresentadora Eliana pela de sócio do publicitário Roberto Justus. Quintela acaba de ser promovido a vice-presidente da Young&Rubicam, a maior agência de publicidade do país.’

Laura Mattos

Piloto dos jingles

‘Varig, Varig, Varig… E Varig. Archimedes Messina, 73, nunca pegou avião de outra companhia para conhecer quase todo o Brasil, além de vários outros países. Jamais desembolsou um centavo pelas passagens, e olha que já levou a mulher, os filhos, e até ocupou assentos da primeira classe.

Tanta fidelidade para quem nem é cliente do programa de milhagens tem de ter, claro, uma explicação: Messina foi autor de famosos jingles da Varig, em seus áureos tempos, a milhas e milhas da empresa que hoje está à beira da falência. De 1967 a 1990, calcula ter composto mais de cem obras, entre as canções publicitárias e spots, aqueles comerciais curtos.

A Varig queria promover ou inaugurar uma linha, e lá ia seu Messina de avião conhecer o destino para se inspirar e criar o jingle. Ele decolou -nos dois sentidos- logo de cara, quando os patrões queriam ‘bombar’ a rota Lisboa. ‘Seu Cabral’ (‘Seu Cabral ia navegando, quando alguém logo foi gritando…’) fez tanto sucesso na rádio e na TV, que ganhou versão de marchinha carnavalesca, prêmios, liderou as paradas ao lado de ‘Mamãe Eu Quero’ e foi vendido em disco compacto.

Um ano depois, em 1968, a Varig faria seu primeiro vôo para o Japão. Então manda o Messina para lá buscar alguma idéia. Ele foi e trouxe ‘Urashima Taro’ , ‘o pobre pescador’, que ‘salvou uma tartaruga, e ela como prêmio, ao Brasil o levou’. Virou febre e marchinha de Carnaval de novo. O sucesso seguiu com Itália, França, Inglaterra, Argentina…

Mas, espera, vamos deixar as coisas claras, porque, para seu Messina, o que é certo é certo. O ‘Varig, Varig, Varig…’ -que encerrava todos os jingles, às vezes cantado, às vezes só orquestrado- já existia quando ele chegou à empresa. Messina o tornou famoso, mas a criação, se ele não se engana, foi do Titulares do Ritmo, um grupo de cegos formado em Belo Horizonte nos anos 40. Outro esclarecimento: Messina viajou uma única vez na vida sem ser de Varig. Após deixar a empresa, foi chamado a compor um jingle para a Aerolineas Argentinas e, do pagamento, fizeram parte duas passagens para Buenos Aires, a dele e a de sua mulher.

Os pingos já estão nos is, voltemos ao homem dos jingles da Varig. Ele também fez o do café Seleto (‘Depois de um sono bom, a gente levanta…’) e o mais famoso de todos: ‘Lá, lá, lá, lá… Silvio Santos Vem Aí’. Esse deu confusão, deixemos para o texto ao lado.

Crise

Estávamos nos anos 60, a Varig ia bem das asas, e seu Messina dando a volta ao mundo. Corta para 2003, comemoração dos 35 anos da linha para o Japão. O autor de ‘Urashima Taro’ é procurado pela direção da companhia. Querem usar o jingle a fim de marcar o aniversário. Sem verba para grandes campanhas no rádio e na TV, pensam em colocar a música nos aviões e na espera de seus ramais telefônicos. Mesmo para isso, estava difícil arrumar dinheiro para pagar seu Messina.

Vamos dar um jeito. Há 35 anos, ele viajara a Tóquio a trabalho para compor o jingle, e a mulher não foi, o que tornou a cidade o destino dos sonhos. Ótima chance para quem sempre comemorava o aniversário de casamento com uma viagem… de Varig (E a data é 11 de setembro, veja só. Sorte, Nova York foi escolhida pelos dois em 2000, e não 2001).

Então o pagamento para liberar ‘Urashima Taro’ veio em bilhetes aéreos. Não deu para embarcarem em 2003, 2004, 2005. Mas iriam, era só arrumar oportunidade. Em 14 de janeiro último, a Varig anuncia que seus vôos ao Japão foram ‘descontinuados’. E agora, seu Messina? ‘Pois é, e agora? Agora vamos esperar. Mas você vai colocar isso na reportagem? Não sei… Não quero que pareça uma reclamação, nada disso.’

E não é mesmo. Seu Messina adora a Varig. ‘É meu xodó. Acho que de todos os brasileiros.’

Cortemos de 2003 para a última terça-feira. Ele recebe a Folha em sua agradável casa na serra da Cantareira, pouco depois dos limites de São Paulo. É clima de interior, seu Messina fica feliz com a visita da reportagem, mas não com o tema a ser abordado.

Ele se emociona ao lembrar de tanta história, tantas milhas, tantos pilotos e comissários amigos, de Ivan Siqueira, o diretor comercial da época de ouro, já morto.

Mas é triste falar sobre as manchetes atuais, Boeings parados, vôos cancelados. ‘Puxa vida’, balança a cabeça. A partir de 15 de maio, ‘Seu Cabral’, o do jingle de Portugal, não mais poderá voltar de Varig para a sua terra, ‘descontinuaram’ a linha também. Vai de TAP, que jeito. Seu Messina, óbvio, acha que o governo deve ‘dar uma mão’ porque ‘a Varig é um símbolo do Brasil, funciona como um consulado brasileiro no exterior’. Apesar do convívio íntimo com a empresa ao longo de 23 anos, não se sente à vontade para comentar os problemas de gestão que levaram a companhia à tamanha crise. ‘Eu ficava concentrado nas músicas.’

E se tudo for mesmo a cabo, o porta-voz da Varig comemorará o próximo aniversário de casamento via TAM ou Gol? ‘Não, eu nem penso nessa possibilidade de acabar. A Varig vai se reerguer.’’



***

Compositor não recebe por ‘Silvio Santos Vem Aí’

‘Se Archimedes Messina não tem um ‘a’ para reclamar dos 23 anos em que trabalhou para a Varig, com Silvio Santos a história é outra.

Em 1965, ele ainda não era dono do baú e pediu ao colega Messina para criar uma musiquinha que usaria em seu novo programa de TV.

Surgiu ‘Silvio Santos Vem Aí’ (‘Agora é hora de alegria, vamos sorrir e cantar’). Do mundo não se leva nada, mas Messina afirma jamais ter sido pago pela execução do jingle nesses mais de 30 anos de domingos. Recentemente, a música passou a ser veiculada em dias de semana também, nos novos programas apresentados por Silvio.

Seu Messina tentou ser atendido pelo homem várias vezes, em vão. Há pouco mais de cinco anos, meio contra sua vontade, concordou com a família e entrou na Justiça. Já ganhou em primeira instância, o SBT recorreu, ganhou de novo.

Pela última decisão, teria de receber por todos os anos de execução, em valor a ser calculado, além de 500 salários mínimos (R$ 175 mil) de danos morais e multa de R$ 1.000 a cada vez que ‘Silvio Santos Vem Aí’ fosse tocada sem sua autorização.

Há um ano e meio, Messina conta ter sido chamado ao SBT por Guilherme Stoliar, sobrinho e conselheiro de Silvio Santos. ‘Ele me abraçou, falou que direito autoral é sagrado, que faríamos um acordo. Mas nunca mais me procurou.’

Na última quinta-feira, a emissora, procurada pela Folha, afirmou apenas ter recorrido ao Superior Tribunal de Justiça.’

Bia Abramo

‘Cobras e Lagartos’ desvela mundo dos ricos

‘Talvez demore um tempo, mas nem a concorrência com a Record, nem o qüiproquó em torno do plágio devem atrapalhar ‘Cobras e Lagartos’, a novela certa para recuperar o tempo perdido com ‘Bang Bang’. Vai ser um sucesso: a trama é convencional no melhor sentido, mostrando a agilidade e a maturidade do autor na manipulação do melodrama; não há nenhuma aposta arriscada de elenco e capta com alguma argúcia alguns aspectos recentes da sociedade brasileira contemporânea.

Essa tem sido, com variações e inflexões aqui e ali, a receita da telenovela brasileira desde a década de 70 e que continua dando certo, vide ‘Belíssima’. Mesmo que, nesses anos 00, a audiência venha indicando que também aprecia outras receitas vez por outra, quando se pega o jeito, a combinação é quase infalível. Sobretudo se a novela flagra uma tendência de comportamento, um grupo social, uma questão cultural contemporânea com uma certa precisão.

No caso de ‘Cobras e Lagartos’, o mundo do alto consumo, do comércio de luxo, sempre entre o glamouroso e o caricato, ganhou uma versão meio deslumbrada, meio irônica. O centro da novela é a Luxus, paródia-espelho da Daslu, o templo e o símbolo dos muito ricos. Embora esse universo do privilégio goste da ostentação e tenha se tornado mais visível, valendo-se sobretudo da imprensa como vitrine, ele ainda carecia de representação ficcional -perto dos ricos da Luxus, os de novelas como as de Gilberto Braga e Silvio de Abreu parecem pertencer ao século passado. E, com a perversidade típica da (boa) novela, além de abrir as portas desse luxo ainda misterioso, ‘Cobras e Lagartos’ o faz contrastando ponto por ponto, não com a pobreza de fato, mas com a sensação de falta, de privação de todos aqueles que aspiram chegar ao lugar da desigualdade.

Um parênteses: os eventuais acertos da novela não eximem seu autor e a Globo do fato de estarem tratando com uma certa arrogância as reclamações de plágio feitas por Walter Salles e Daniela Thomas.

O personagem Duda de ‘Cobras e Lagartos’ seria em tudo semelhante a um personagem criado por Thomas e pelo roteirista George Moura para o filme ‘Linha de Passe’, a ser dirigido por Salles. As coincidências já haviam sido percebidas antes da estréia da novela, em março, e a Globo fez algumas modificações. Depois da exibição do primeiro capítulo, entretanto, Salles e Thomas continuaram apontando plágio. Até o fechamento desta coluna, na quinta-feira, o impasse não havia sido resolvido.

As coincidências detectadas por Thomas e Salles são muitas e, se por um lado não comprometem toda a história, de outro recaem justamente num dos nós centrais do roteiro, ou seja, justamente na caracterização do mocinho e, portanto, poderiam ter sido tratadas com mais cuidado.’



ILUSTRAÇÃO / FSP
Folha de S. Paulo

Folha premia ilustradores em 5 categorias

‘Um gaúcho de Vacaria, fortemente inspirado pelas escolas platinas de ilustração (principalmente a Argentina), foi, entre 1.510 inscritos, o ganhador do grande prêmio do 3º Concurso Folha de Ilustração e Humor. Eloar Guazzelli Filho, 43, radicado em São Paulo há seis anos, se inscreveu na categoria ilustração infantil e foi escolhido pela comissão julgadora como o principal vencedor do concurso. Como prêmio, será convidado a colaborar com a Folha por um período de experiência de até três meses.

‘Guazzelli tem um trabalho tão diferenciado, tão vivo, que foi praticamente um consenso’, diz o ilustrador Orlando Pedroso, colaborador da Folha e um dos membros da comissão julgadora -que contava com o cartunista Laerte (também colaborador do jornal), Marcos Augusto Gonçalves (editor da Ilustrada), Massimo Gentile (editor de Arte), Fábio Marra (editor-adjunto de Arte) e Luciana Sugino (editora de Arte da Revista da Folha).

Com o objetivo de revelar talentos do desenho e selecionar colaboradores para o jornal, o concurso teve seis categorias: ilustração livre, ilustração científica, ilustração infantil, charge/cartum, quadrinhos e retratos.

‘A Folha, que já conta com profissionais muito talentosos na área das artes gráficas, tem a tradição de realizar concursos assim. Com isso, o jornal busca descobrir novos valores, oxigenar suas páginas, levando ao leitor um produto mais vivo e preocupado em captar novos veios de técnica e criatividade’, afirma a editora-executiva da Folha, Eleonora de Lucena.

Vencedores

Foram apontados um vencedor e até mais dois destaques por categoria (cujos trabalhos estão publicados nesta página e na página ao lado), com exceção da de charge/ cartum, que não teve nenhum finalista indicado pela comissão.

‘Não encontramos material que fosse premiável. Foram muitos trabalhos, mas não teve nenhum desenho original’, explica Massimo Gentile, editor de Arte da Folha. ‘Essa é talvez a área mais difícil da ilustração’, completa.

O ganhador de cada categoria concorreu também ao grande prêmio, vencido por Guazzelli. O paulistano Sandro Castelli, 32, que já teve trabalhos publicados em revistas como ‘Superinteressante’, venceu em ilustração científica. Na mesma categoria, ficou em segundo lugar o curitibano Leandro Lopes, 27.

Na categoria com o maior número de concorrentes -ilustração livre, com 429 inscritos-, o vencedor foi o espanhol Pablo Amador, 26, que mora em São Paulo há cinco meses. O paulistano Julio Cesar Panisa, 26, foi o segundo colocado.

Duas das cinco categorias premiadas tiveram três pessoas com trabalhos selecionados: uma foi quadrinhos, com o austríaco Jan Limpens, 35 (vencedor), o paranaense Rômolo Dhipólito, 22 (segundo lugar) e o paulistano Tiago Judas, 27 (terceiro). A outra foi a de ilustração infantil, vencida por Guazzelli. Nela, o segundo lugar ficou com Paulo Terzi Ito, 28, e o terceiro com Leopoldo Tauffenbach, 29 -ambos de São Paulo.

‘A área de ilustração infantil tem se desenvolvido muito, o que não tem acontecido com a charge e o cartum, por exemplo. O resultado do concurso reflete isso’, avalia o ilustrador Orlando.

Adams Teixeira de Carvalho, 26, paulista de Sorocaba, foi o vencedor da categoria retrato, com suas ilustrações de Woody Allen e Sartre. O gaúcho Odye Fernando Bernardi, 39, que também desenhou Sartre, além de músicos como Chet Baker, ficou em segundo lugar.

Qualidade

Para chegar aos 12 finalistas, de onde saíram os cinco vencedores de cada categoria e o ganhador do grande prêmio, Orlando Pedroso e Massimo Gentile fizeram uma pré-seleção entre os inscritos.

‘Tivemos que descartar trabalhos que não tinham uma característica mais profissional e também aqueles que tinham apenas uma proposta de trabalho, um único desenho’, explica Gentile.

O ilustrador Orlando afirma que muitos dos trabalhos eram repetitivos e não inovavam em termos de idéias e de traço. Orlando vê, no entanto, aspectos positivos na enorme quantidade de trabalhos enviados. ‘A maioria tinha uma tentativa de fazer algo autoral, e isso é muito bom.’

O editor da Ilustrada, Marcos Augusto Gonçalves, destacou a diversidade de linguagens utilizadas nas obras. ‘Vi alguns trabalhos excelentes; muitos deles poderiam ser utilizados por publicações de qualidade. Na área infantil, em especial, tivemos ilustrações muito boas. Achei interessante o fato de termos exemplos diversificados de linguagem, com gente que se entrega aos recursos da computação e autores que trabalham à mão’, explica.

Esta é a terceira vez que a Folha incentiva o trabalho de novos talentos. Em 1985, o jornal revelou o chargista Spacca e o quadrinista Fernando Gonsales. Em 1999, foi premiado o chargista Jean, que se tornou colaborador regular do jornal na página 2.

O resultado está no endereço www.folha.com.br/061161. Além dos trabalhos dos 12 finalistas, todos os pré-selecionados terão suas obras divulgadas no site.’



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‘Me divirto fazendo desenhos infantis’

‘Se as origens, influências e técnicas os separam, a paixão pelo desenho e as formações em áreas correlatas (artes plásticas, belas artes, história da arte etc.) formam a base comum dos vencedores do 3º Concurso Folha de Ilustração e Humor.

O grande vencedor, o gaúcho Eloar Guazzelli Filho, afirma ter influência da escola platina.

‘Morando no Rio Grande do Sul, sofri influências dos países do Prata, que têm uma tradição muito grande na área de desenho e ilustração’, diz. Ele conta também por que se inscreveu na categoria de ilustração infantil: ‘Eu me divirto fazendo desenhos infantis, eles têm o poder de despertar em uma criança o interesse pelo desenho, isso é mágico. É o melhor público, a criança vê inúmeras vezes a mesma animação, o mesmo desenho, eles dissecam a obra com uma abordagem inocente, verdadeira’.

Já Sandro Castelli, vencedor de ilustração científica (a categoria com menos inscritos, 52), diz que sua participação nesta área surgiu como conseqüência de seu modo de desenhar. ‘Tenho preocupação grande com anatomia, por isso fui chamado para fazer alguns desenhos científicos em revistas.’

O austríaco Jan Limpens-Doenraedt, vencedor da categoria quadrinhos, teve seu trabalho elogiado por Laerte, jurado e colaborador da Folha. ‘Achei muito bom o trabalho dele, tem um tipo de roteiro muito raro’, explica.

Um caso curioso é o do espanhol Pablo Amador, que veio para São Paulo há cinco meses por causa de uma brasileira que conheceu na Espanha e, em busca de oportunidades, se inscreveu no concurso -acabou vencendo a categoria ilustração livre.

Adams Carvalho, o ganhador da categoria retrato, é um pintor que passou a trabalhar com ilustração. ‘Estou fazendo um caminho inverso ao que os artista normalmente fazem, estou indo das artes plásticas para a ilustração. Meu trabalho enfoca mais a questão pictórica do que o lado psicológico do personagem.’’



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Folha de S. Paulo

02/05/2006 na edição 379

ENTREVISTA / EDWARD WASSERMAN
Sérgio Dávila

Sigilo é problema dos tribunais, diz jornalista

‘A imprensa tem a obrigação de conseguir e publicar informações que são relevantes para o público. Tribunais e autoridades que cuidem melhor de sigilos protegidos pela lei: a função e os interesses da imprensa são outros. A opinião é de um especialista em ética jornalística, o professor Edward Wasserman, do departamento de jornalismo e comunicação de massa da universidade Washington and Lee, em Lexington, na Virgínia, Estado vizinho a Washington.

Com seu colega do ‘Miami Herald’ Andres Oppenheimer escreveu ‘Willful Blindness’ (cegueira deliberada, 2001), sobre práticas corruptas de multinacionais na América Latina, entre outros livros. Wasserman participa na semana que vem do Fórum Folha de Jornalismo, ciclo de debates que ocorre logo após a 26ª Conferência Anual da ONO (Organização de Ombudsmans de Notícias), este ano organizada com apoio da Folha (leia abaixo).

Pai de quatro filhos, 57 anos, começou no jornalismo em 1972, movido pelo caso Watergate: ‘Achei que era uma maravilha poder melhorar o mundo e escrever ao mesmo tempo’. No Fórum, Wasserman participará do debate sobre ‘Transparência e Qualidade Jornalística’. A seguir, trechos de sua entrevista:

Folha – Quão independente e transparente um ombudsman pode realmente ser?

Edward Wasserman – Há quatro tipos de ombudsmans. O que acha que seu trabalho é apresentar os leitores à Redação; o que acha que é apresentar a Redação aos leitores. O primeiro acredita que sua função é quase a de um ‘serviço ao assinante’: então só ouve as reclamações dos leitores. O outro faz um trabalho de explicar aos leitores porque o jornal faz o que faz, como faz -apresenta o ‘programa do partido’.

O terceiro faz um serviço de arbitragem, que balança entre as funções dos dois primeiros. E há o quarto, que funciona como um supereditor. Faz críticas ao jornal não sob a perspectiva do público, mas sob a perspectiva do que o jornal deveria fazer. Para mim, é o tipo mais interessante, é o que escreve as colunas mais saborosas.

Folha – E deve ser jornalista?

Wasserman – Os melhores ombudsmans o são. Porque entendem e podem explicar melhor o processo de fazer uma reportagem. Deixam claro -e não justificam- para o leitor o tipo de opções que um jornalista pode ter quando está escrevendo sobre um assunto. Assim, o leitor entenderá a pressão do fechamento, as limitações de cada tipo de mídia em que o repórter está operando.

Folha – E deve vir da Redação?

Wasserman – Se a idéia é que o ombudsman seja independente, sem medo de ser sabotado depois ou de criar inimizades, é um problema. Os modelos mais interessantes da instituição do ombudsman são aqueles que trazem um jornalista de outro veículo, por um período de tempo específico, de maneira que ele saiba que não há motivos para ter medo enquanto está na função nem que exerça sua função procurando ser aprovado.

Folha – Por que, relativamente, há tão poucos ombudsmans?

Wasserman – Falta de vontade das organizações jornalísticas de vigiar suas próprias práticas. É preciso um líder visionário para insistir em ter um ombudsman, porque essa nunca vai ser uma decisão popular. Ou então uma série de desgraças e embaraços públicos, como as pelas quais passou recentemente o ‘New York Times’, para forçar a empresa a aceitar que precisa de algum tipo de controle. Mas sempre há a desculpa do orçamento, que está sendo reduzido…

Folha – O que nos leva à pergunta sobre a crise financeira por que passa o negócio…

Wasserman – A imprensa tem de entender que a demanda por informação nunca foi tão grande. A crise não vem do fato de as pessoas subitamente decidirem que não querem mais saber o que está acontecendo no mundo ou nas suas comunidades. Elas querem.

Faço uma analogia: há 50 anos, aqui nos EUA, eram vendidos cinco vezes mais ingressos para o cinema do que em 2005, e a população era um terço da de hoje. Se Hollywood estivesse no mercado de vender ingressos, não haveria mais indústria de cinema. Mas eles descobriram que o negócio deles era vender entretenimento.

Os jornais choramingam. O que eles têm é um problema -como encontrar um meio de chegar até o público e satisfazer esse apetite. Essas soluções imediatistas, de cortar orçamentos, cortar jornalistas, são completamente autodestrutivas. A imprensa tem de descobrir que está no negócio de vender conteúdo, não papel.

Folha – O que o sr. acha que fere mais a mídia a longo prazo: a falta de credibilidade causada por escândalos como o de Jason Blair ou a queda da circulação?

Wasserman – A questão da credibilidade é exagerada. As pessoas sempre foram cautelosas em relação à imprensa e sempre entenderam que a mídia tem limitações. Não é verdade que houve um tempo em que as pessoas acreditavam cegamente e agora ninguém mais acredita.

A grande crise tem a ver com o novo modelo econômico e com o fato de a publicidade estar migrando para outros meios, como a TV e, em menor grau, o on-line. E o curioso é que o apelo da TV não tem absolutamente nada a ver com credibilidade. Ou você acha que o anunciante acredita mais no que ouve no programa em que anuncia do que no que lê?

Folha – As relações entre o governo Bush e a imprensa são, no mínimo, tensas. Por quê?

Wasserman – Esse governo faz parte de um movimento político, e os movimentos políticos, diferentemente dos partidos políticos, tendem a ser muito intolerantes em relação às instituições da sociedade que resistem às pressões deles. É revelador que as principais instituições da sociedade que receberam as críticas mais ferrenhas desta administração foram o sistema judicial e a mídia.

As duas são baseadas em uma ética profissional que exige tanto a autonomia como a independência. Essa administração não tem a menor paciência com instituições que funcionem baseadas nas próprias regras.

Folha – Também no Brasil essa relação anda conturbada. A discussão atual é até que ponto seria ético trabalhar com informações resultantes de inquéritos judiciais e policiais sobre a vida privada de políticos ou resultantes da quebra legal de sigilo fiscal, bancário e telefônico. O jornalista, em nome do interesse público, pode solicitar que as autoridades quebrem esse sigilo ou repassem as informações?

Wasserman – Sim, desde que sejam relevantes para o interesse do público e não envolvam aspectos das vidas pessoais. Pessoais, não privadas, pois se tratam de pessoas públicas. Quanto à maneira com que foram obtidas, se respeitada a ética, é problema de quem deixou vazar, não do receptor. Os tribunais e as autoridades que cuidem melhor de seu sigilo. A função e os interesses da imprensa são outros.

Folha – Então, se a história é boa, relevante para o público…

Wasserman – Sim. É um problema. Onde botar o limite? A imprensa tem a obrigação de conseguir e publicar as informações que são relevantes para o público.

Folha – É assim aqui?

Wasserman – Há, nesse momento, muito medo nas Redações de sofrer um processo. Então a imprensa reluta mais em publicá-las hoje do que há alguns anos. E não sei se isso é bom.

Folha – Uma revista semanal brasileira recebeu, provavelmente do governo ou de políticos governistas, e publicou a informação sobre o sigilo bancário de um caseiro que havia desmentido depoimentos ao Congresso do então ministro da Fazenda. O que o sr. faria nesse caso? E a revista ‘Time’?

Wasserman – Acho a história fascinante e a teria publicado. Não sei se a ‘Time’ ou a ‘Newsweek’ fariam isso, mas não porque estas sejam melhores. Quanto a divulgar a fonte, depende do acordo feito. Se a revista prometeu sigilo, deveria respeitá-lo até o fim. Se o sigilo foi rompido por outras publicações, ainda assim a revista em questão deveria ter uma autorização da fonte para o seu caso específico para revelá-la.’



OMBUDSMAN
Folha de S. Paulo

Folha organiza conferência anual de ombudsmans

‘A Folha organizará entre os dias 7 e 10 de maio a 26ª Conferência Anual da ONO (Organização de Ombudsmans de Notícias, na sigla em inglês). Será a primeira vez que a entidade, criada em 1980 e atualmente presidida por Ian Mayes, fará um encontro fora da Europa ou da América do Norte.

Com o apoio da Folha e organizado pelo ombudsman do jornal, Marcelo Beraba, o evento deve contar com a presença de 35 a 40 ombudsmans de 14 países.

A conferência da ONO será fechada ao público, mas entre os dias 10 e 11 de maio o jornal também promove, em São Paulo, o Fórum Folha de Jornalismo. O evento, aberto a interessados que se inscrevam com antecedência, fará parte das comemorações dos 85 anos de existência da Folha.

Para a conferência da ONO já confirmaram presença representantes dos EUA, Holanda, Canadá, Turquia e África do Sul, entre outros. Os últimos encontros foram realizados em Londres, Saint Petersburg, Istambul, Salt Lake City, Paris e Montreal.

Carol Nunnelley, uma das participantes da conferência, é diretora da Associated Press Managing Editors, associação que reúne os principais editores de jornais dos EUA e do Canadá. No cargo, ela comanda o National Credibility Roundtables Project (Projeto Nacional de Discussão sobre Credibilidade), que já trabalhou com 195 organizações de mídia desde 2001 abordando temas como credibilidade, precisão e equilíbrio no jornalismo, assuntos de sua conferência no Brasil.

Para Nunnelley, um dos novos desafios do jornalismo é a atual convivência com fontes de informação menos confiáveis e velozes como blogs e mídias on-line.

‘Um dos grandes desafios dos ombudsmans hoje é redefinir os valores do que é jornalismo e do que vem a ser apenas informação, e não necessariamente jornalismo. Redefinir o que chamamos na profissão de ‘núcleo’, que exige parâmetros que não devem ser alterados nesse novo contexto de competição com outras mídias’, afirma Nunnelley.

Para Marcelo Beraba, ombudsman da Folha, ‘o encontro anual de ombudsmans é um momento de reflexão maior sobre a qualidade do trabalho jornalístico e para a troca de experiências’.

A conferência em São Paulo terá, basicamente, três eixos: uma apresentação -para os ombudsmans dos outros continentes- da situação da imprensa na América Latina; a discussão sobre assuntos que questionaram a recente atuação da imprensa; e o enfrentamento de um tema de fundo, a credibilidade dos jornais.

A Folha possui um ombudsman desde outubro de 1989. A palavra ombudsman, de origem sueca, é bem mais antiga e designava, em 1807, um funcionário nomeado na Suécia para canalizar queixas de cidadãos contra o governo. Na mídia, o primeiro ombudsman surgiu em 1967, em um jornal de Louisville, no Kentucky (EUA). Hoje, há cerca de uma centena de ombudsmans em jornais, revistas, rádios e TVs.

Fórum Folha de Jornalismo

Já o Fórum Folha de Jornalismo terá quatro debates, abertos ao público, com a participação de especialistas estrangeiros da mídia dos EUA, Reino Unido, Argentina e Venezuela, entre outros.

O primeiro painel, no dia 10, terá por tema ‘Transparência e Qualidade Jornalística’. O segundo, no mesmo dia, abordará ‘Poder e Jornalismo na América Latina’. A terceira mesa, no dia 11, discutirá ‘Jornalismo e Democracia’. O quarto e último painel, no mesmo dia, terá como tema ‘Os Limites da Reportagem’.’



TELEVISÃO & TECNOLOGIA
Adriana Mattos

Preço da TV de plasma cai depois da Copa

‘A forte queda no preço das TVs de plasma vai se acentuar após a Copa do Mundo. Quem puder aguardar deve economizar. De janeiro a dezembro de 2005, o produto de 42 polegadas baixou de R$ 19.999 para R$ 9.999. Hoje, já custa menos de R$ 8 mil. Vão acontecer novos cortes no preço -de até 50% no segundo semestre-, apurou a Folha.

No final do ano passado, para elevar as vendas de Natal, várias indústrias de televisores chegaram a apregoar que novas reduções significativas não aconteceriam em 2006. Portanto, a compra naquele momento seria bom negócio. A realidade é outra.

Apenas de janeiro a abril, o preço da TV de plasma de 42 polegadas caiu de R$ 9.999 para R$ 7.986 na Lojas Cem. As Casas Bahia vendem por R$ 7.999, assim como o Ponto Frio e a rede Extra. Logo, em quatro meses, a queda é de mais de 20% -uma economia superior a R$ 2 mil em relação ao valor de dezembro de 2005. Em todo o ano passado, a redução no preço do produto foi de 50%.

A Folha entrou em contato na sexta-feira com três grandes redes varejistas. Elas fizeram as contas e calculam que no Natal de 2006 o produto deverá custar entre R$ 3.500 e R$ 4.000. Portanto, quem não quer pagar agora pelo benefício da inovação e puder esperar fará economia.

Quem levar para casa o produto neste ano terá outro ganho: está sendo definida agora, pelo governo, a nova tecnologia de TV digital que será utilizada no Brasil. Com o aparelho de plasma, o consumidor provavelmente já terá um sistema digital incorporado à TV. Se o equipamento não tiver esse benefício, é possível comprar um adaptador digital, por US$ 50.

Margens e estratégia

Nem loja nem indústria estão mexendo no próprio bolso para praticar esses preços agora. Margens de lucro estão garantidas. O que há é um interesse de popularizar a tecnologia e manter em alta a venda de mercadorias que garantem retornos superiores ao de mercadorias ‘commodities’, com margens muito baixas, como a TV de 20 polegadas ou o videocassete.

Pesquisa de preços da Fipe mostra que, de janeiro a dezembro de 2005, a TV (incluindo todos os modelos e tamanhos) teve queda de 16,8% nas lojas em relação a 2004. Apenas em dezembro, mês de Natal, a queda foi de 2,77%. Em março de 2006, a retração foi ainda maior: 3,77%.

‘Lojas e fabricantes repassaram essa retração ao mercado, como parte de um processo de popularização da tecnologia’, diz Waldemir Colleone, superintendente da Lojas Cem.

Gravador de DVD

No final de 2005, às vésperas do Natal, a direção da Gradiente não acreditava em quedas fortes nos preços em 2006. Para a empresa, a maior parte da queda já havia ocorrido nos últimos dois anos.

Mas a redução se mantém de forma acentuada como parte de um efeito dominó no mercado: o consumidor continua comprando, os ganhos com escala industrial sobem, lojas e indústrias ainda renegociam descontos e, por conseqüência, o preço volta a cair.

Ninguém nesse mercado gosta muito de falar em novas reduções nos preços. Isso posterga as vendas, porque faz o consumidor pensar duas vezes antes de gastar agora. Por isso, nos próximos 60 dias o comprador pode esperar por uma enxurrada de ações de mídia das marcas, antes da Copa do Mundo, para incentivar a compra.

No caso do gravador de DVD, a situação é muito semelhante. Há aparelhos da Gradiente por R$ 688 (Lojas Cem), um dos preços mais baixos hoje. Em dezembro de 2005, ele custava R$ 999 na maioria das redes. Outras marcas fizeram o mesmo: LG e Philips vendem o produto por até R$ 798. Pode-se parcelar o produto em até 12 vezes sem juros.

O que ainda é uma barreira à maior demanda pelo produto -as grandes marcas ainda fabricam videocassete- é o custo do DVD gravável.

Quem compra o gravador de DVD geralmente tem um gasto de manutenção maior, com o aluguel das fitas em DVD e a compra do DVD para gravação. Classes de menor renda podem não ter como adequar esse custo ao seu orçamento.’



TELEVISÃO
Daniel Castro

Modelos seminuas jogam para Globo em SP

‘A Globo vai causar um grande rebuliço nas arquibancadas do estádio do Pacaembu no próximo domingo, quando Corinthians e São Paulo se enfrentam.

Pouco antes de Carlitos Tevez pisar no gramado, a emissora colocará em campo dois times de modelos trajando apenas calcinhas e sutiãs. A segurança e o policiamento serão reforçados.

O ‘acontecimento’ será parte de gravações de ‘Belíssima’. Na novela de Sílvio de Abreu, Érica (Letícia Birkheuer) e Giovana (Paola Oliveira) comandarão dois times que disputarão uma partida de futebol para promover a marca de lingerie Lindona, idealizada por André (Marcello Antony).

No domingo, diante da torcida, serão feitas imagens das modelos entrando e deixando o campo e encenando alguns lances. Boa parte do ‘jogo’ será gravada na véspera, com o estádio vazio.

As cenas irão ao ar na terça e na quarta seguintes. O fictício jogo será transmitido pela TV. Durante a transmissão, Júlia (Glória Pires) terá certeza de que Cyro Laurenza (Nicola Siri) é o pai de Érica.

No ar na novela das sete, Henri Castelli não aparecerá mais em ‘Belíssima’ nem em fotografias, por determinação de Mário Lúcio Vaz, diretor-geral artístico da Globo. O ator, que fez Pedro, deveria voltar em ‘flashbacks’, pois o seu assassinato é um dos mistérios da novela das oito.

OUTRO CANAL

Foi Fabiano Augusto, ator-símbolo das Casas Bahia, aquele do bordão ‘quer pagar quanto?’, não voltará a fazer propaganda da rede de lojas. Fabiano ainda tem contrato com a empresa, mas foi afastado dos comerciais. Em março, a assessoria de imprensa das Casas Bahia declarou, para despistar, que Fabiano estava apenas ‘descansando a imagem’. Mas ele está fora da nova linha de comunicação da rede.

Lar O autor Manoel Carlos ambienta suas novelas sempre no Leblon, bairro do Rio em que mora. Será assim com ‘Páginas da Vida’, próximo título das oito da Globo. Mas Manoel Carlos, nos últimos meses, praticamente não vive mais no Leblon. Tem escrito os capítulos da novela ora em Angra dos Reis, ora em Petrópolis.

Meta Mesmo longe do Leblon (para poder escrever mais), Manoel Carlos não conseguirá estrear ‘Páginas da Vida’ com 18 capítulos prontos, como é praxe na Globo. O autor já escreveu seis episódios. Prometeu entregar, até julho, mais seis. Se fosse possível, Manoel Carlos escreveria cada capítulo apenas na véspera da exibição.

Topete Integrante do grupo Dominó, nos anos 80, Marcos Quintela se deu bem ao trocar a carreira de empresário da apresentadora Eliana pela de sócio do publicitário Roberto Justus. Quintela acaba de ser promovido a vice-presidente da Young&Rubicam, a maior agência de publicidade do país.’

Laura Mattos

Piloto dos jingles

‘Varig, Varig, Varig… E Varig. Archimedes Messina, 73, nunca pegou avião de outra companhia para conhecer quase todo o Brasil, além de vários outros países. Jamais desembolsou um centavo pelas passagens, e olha que já levou a mulher, os filhos, e até ocupou assentos da primeira classe.

Tanta fidelidade para quem nem é cliente do programa de milhagens tem de ter, claro, uma explicação: Messina foi autor de famosos jingles da Varig, em seus áureos tempos, a milhas e milhas da empresa que hoje está à beira da falência. De 1967 a 1990, calcula ter composto mais de cem obras, entre as canções publicitárias e spots, aqueles comerciais curtos.

A Varig queria promover ou inaugurar uma linha, e lá ia seu Messina de avião conhecer o destino para se inspirar e criar o jingle. Ele decolou -nos dois sentidos- logo de cara, quando os patrões queriam ‘bombar’ a rota Lisboa. ‘Seu Cabral’ (‘Seu Cabral ia navegando, quando alguém logo foi gritando…’) fez tanto sucesso na rádio e na TV, que ganhou versão de marchinha carnavalesca, prêmios, liderou as paradas ao lado de ‘Mamãe Eu Quero’ e foi vendido em disco compacto.

Um ano depois, em 1968, a Varig faria seu primeiro vôo para o Japão. Então manda o Messina para lá buscar alguma idéia. Ele foi e trouxe ‘Urashima Taro’ , ‘o pobre pescador’, que ‘salvou uma tartaruga, e ela como prêmio, ao Brasil o levou’. Virou febre e marchinha de Carnaval de novo. O sucesso seguiu com Itália, França, Inglaterra, Argentina…

Mas, espera, vamos deixar as coisas claras, porque, para seu Messina, o que é certo é certo. O ‘Varig, Varig, Varig…’ -que encerrava todos os jingles, às vezes cantado, às vezes só orquestrado- já existia quando ele chegou à empresa. Messina o tornou famoso, mas a criação, se ele não se engana, foi do Titulares do Ritmo, um grupo de cegos formado em Belo Horizonte nos anos 40. Outro esclarecimento: Messina viajou uma única vez na vida sem ser de Varig. Após deixar a empresa, foi chamado a compor um jingle para a Aerolineas Argentinas e, do pagamento, fizeram parte duas passagens para Buenos Aires, a dele e a de sua mulher.

Os pingos já estão nos is, voltemos ao homem dos jingles da Varig. Ele também fez o do café Seleto (‘Depois de um sono bom, a gente levanta…’) e o mais famoso de todos: ‘Lá, lá, lá, lá… Silvio Santos Vem Aí’. Esse deu confusão, deixemos para o texto ao lado.

Crise

Estávamos nos anos 60, a Varig ia bem das asas, e seu Messina dando a volta ao mundo. Corta para 2003, comemoração dos 35 anos da linha para o Japão. O autor de ‘Urashima Taro’ é procurado pela direção da companhia. Querem usar o jingle a fim de marcar o aniversário. Sem verba para grandes campanhas no rádio e na TV, pensam em colocar a música nos aviões e na espera de seus ramais telefônicos. Mesmo para isso, estava difícil arrumar dinheiro para pagar seu Messina.

Vamos dar um jeito. Há 35 anos, ele viajara a Tóquio a trabalho para compor o jingle, e a mulher não foi, o que tornou a cidade o destino dos sonhos. Ótima chance para quem sempre comemorava o aniversário de casamento com uma viagem… de Varig (E a data é 11 de setembro, veja só. Sorte, Nova York foi escolhida pelos dois em 2000, e não 2001).

Então o pagamento para liberar ‘Urashima Taro’ veio em bilhetes aéreos. Não deu para embarcarem em 2003, 2004, 2005. Mas iriam, era só arrumar oportunidade. Em 14 de janeiro último, a Varig anuncia que seus vôos ao Japão foram ‘descontinuados’. E agora, seu Messina? ‘Pois é, e agora? Agora vamos esperar. Mas você vai colocar isso na reportagem? Não sei… Não quero que pareça uma reclamação, nada disso.’

E não é mesmo. Seu Messina adora a Varig. ‘É meu xodó. Acho que de todos os brasileiros.’

Cortemos de 2003 para a última terça-feira. Ele recebe a Folha em sua agradável casa na serra da Cantareira, pouco depois dos limites de São Paulo. É clima de interior, seu Messina fica feliz com a visita da reportagem, mas não com o tema a ser abordado.

Ele se emociona ao lembrar de tanta história, tantas milhas, tantos pilotos e comissários amigos, de Ivan Siqueira, o diretor comercial da época de ouro, já morto.

Mas é triste falar sobre as manchetes atuais, Boeings parados, vôos cancelados. ‘Puxa vida’, balança a cabeça. A partir de 15 de maio, ‘Seu Cabral’, o do jingle de Portugal, não mais poderá voltar de Varig para a sua terra, ‘descontinuaram’ a linha também. Vai de TAP, que jeito. Seu Messina, óbvio, acha que o governo deve ‘dar uma mão’ porque ‘a Varig é um símbolo do Brasil, funciona como um consulado brasileiro no exterior’. Apesar do convívio íntimo com a empresa ao longo de 23 anos, não se sente à vontade para comentar os problemas de gestão que levaram a companhia à tamanha crise. ‘Eu ficava concentrado nas músicas.’

E se tudo for mesmo a cabo, o porta-voz da Varig comemorará o próximo aniversário de casamento via TAM ou Gol? ‘Não, eu nem penso nessa possibilidade de acabar. A Varig vai se reerguer.’’



***

Compositor não recebe por ‘Silvio Santos Vem Aí’

‘Se Archimedes Messina não tem um ‘a’ para reclamar dos 23 anos em que trabalhou para a Varig, com Silvio Santos a história é outra.

Em 1965, ele ainda não era dono do baú e pediu ao colega Messina para criar uma musiquinha que usaria em seu novo programa de TV.

Surgiu ‘Silvio Santos Vem Aí’ (‘Agora é hora de alegria, vamos sorrir e cantar’). Do mundo não se leva nada, mas Messina afirma jamais ter sido pago pela execução do jingle nesses mais de 30 anos de domingos. Recentemente, a música passou a ser veiculada em dias de semana também, nos novos programas apresentados por Silvio.

Seu Messina tentou ser atendido pelo homem várias vezes, em vão. Há pouco mais de cinco anos, meio contra sua vontade, concordou com a família e entrou na Justiça. Já ganhou em primeira instância, o SBT recorreu, ganhou de novo.

Pela última decisão, teria de receber por todos os anos de execução, em valor a ser calculado, além de 500 salários mínimos (R$ 175 mil) de danos morais e multa de R$ 1.000 a cada vez que ‘Silvio Santos Vem Aí’ fosse tocada sem sua autorização.

Há um ano e meio, Messina conta ter sido chamado ao SBT por Guilherme Stoliar, sobrinho e conselheiro de Silvio Santos. ‘Ele me abraçou, falou que direito autoral é sagrado, que faríamos um acordo. Mas nunca mais me procurou.’

Na última quinta-feira, a emissora, procurada pela Folha, afirmou apenas ter recorrido ao Superior Tribunal de Justiça.’

Bia Abramo

‘Cobras e Lagartos’ desvela mundo dos ricos

‘Talvez demore um tempo, mas nem a concorrência com a Record, nem o qüiproquó em torno do plágio devem atrapalhar ‘Cobras e Lagartos’, a novela certa para recuperar o tempo perdido com ‘Bang Bang’. Vai ser um sucesso: a trama é convencional no melhor sentido, mostrando a agilidade e a maturidade do autor na manipulação do melodrama; não há nenhuma aposta arriscada de elenco e capta com alguma argúcia alguns aspectos recentes da sociedade brasileira contemporânea.

Essa tem sido, com variações e inflexões aqui e ali, a receita da telenovela brasileira desde a década de 70 e que continua dando certo, vide ‘Belíssima’. Mesmo que, nesses anos 00, a audiência venha indicando que também aprecia outras receitas vez por outra, quando se pega o jeito, a combinação é quase infalível. Sobretudo se a novela flagra uma tendência de comportamento, um grupo social, uma questão cultural contemporânea com uma certa precisão.

No caso de ‘Cobras e Lagartos’, o mundo do alto consumo, do comércio de luxo, sempre entre o glamouroso e o caricato, ganhou uma versão meio deslumbrada, meio irônica. O centro da novela é a Luxus, paródia-espelho da Daslu, o templo e o símbolo dos muito ricos. Embora esse universo do privilégio goste da ostentação e tenha se tornado mais visível, valendo-se sobretudo da imprensa como vitrine, ele ainda carecia de representação ficcional -perto dos ricos da Luxus, os de novelas como as de Gilberto Braga e Silvio de Abreu parecem pertencer ao século passado. E, com a perversidade típica da (boa) novela, além de abrir as portas desse luxo ainda misterioso, ‘Cobras e Lagartos’ o faz contrastando ponto por ponto, não com a pobreza de fato, mas com a sensação de falta, de privação de todos aqueles que aspiram chegar ao lugar da desigualdade.

Um parênteses: os eventuais acertos da novela não eximem seu autor e a Globo do fato de estarem tratando com uma certa arrogância as reclamações de plágio feitas por Walter Salles e Daniela Thomas.

O personagem Duda de ‘Cobras e Lagartos’ seria em tudo semelhante a um personagem criado por Thomas e pelo roteirista George Moura para o filme ‘Linha de Passe’, a ser dirigido por Salles. As coincidências já haviam sido percebidas antes da estréia da novela, em março, e a Globo fez algumas modificações. Depois da exibição do primeiro capítulo, entretanto, Salles e Thomas continuaram apontando plágio. Até o fechamento desta coluna, na quinta-feira, o impasse não havia sido resolvido.

As coincidências detectadas por Thomas e Salles são muitas e, se por um lado não comprometem toda a história, de outro recaem justamente num dos nós centrais do roteiro, ou seja, justamente na caracterização do mocinho e, portanto, poderiam ter sido tratadas com mais cuidado.’



ILUSTRAÇÃO / FSP
Folha de S. Paulo

Folha premia ilustradores em 5 categorias

‘Um gaúcho de Vacaria, fortemente inspirado pelas escolas platinas de ilustração (principalmente a Argentina), foi, entre 1.510 inscritos, o ganhador do grande prêmio do 3º Concurso Folha de Ilustração e Humor. Eloar Guazzelli Filho, 43, radicado em São Paulo há seis anos, se inscreveu na categoria ilustração infantil e foi escolhido pela comissão julgadora como o principal vencedor do concurso. Como prêmio, será convidado a colaborar com a Folha por um período de experiência de até três meses.

‘Guazzelli tem um trabalho tão diferenciado, tão vivo, que foi praticamente um consenso’, diz o ilustrador Orlando Pedroso, colaborador da Folha e um dos membros da comissão julgadora -que contava com o cartunista Laerte (também colaborador do jornal), Marcos Augusto Gonçalves (editor da Ilustrada), Massimo Gentile (editor de Arte), Fábio Marra (editor-adjunto de Arte) e Luciana Sugino (editora de Arte da Revista da Folha).

Com o objetivo de revelar talentos do desenho e selecionar colaboradores para o jornal, o concurso teve seis categorias: ilustração livre, ilustração científica, ilustração infantil, charge/cartum, quadrinhos e retratos.

‘A Folha, que já conta com profissionais muito talentosos na área das artes gráficas, tem a tradição de realizar concursos assim. Com isso, o jornal busca descobrir novos valores, oxigenar suas páginas, levando ao leitor um produto mais vivo e preocupado em captar novos veios de técnica e criatividade’, afirma a editora-executiva da Folha, Eleonora de Lucena.

Vencedores

Foram apontados um vencedor e até mais dois destaques por categoria (cujos trabalhos estão publicados nesta página e na página ao lado), com exceção da de charge/ cartum, que não teve nenhum finalista indicado pela comissão.

‘Não encontramos material que fosse premiável. Foram muitos trabalhos, mas não teve nenhum desenho original’, explica Massimo Gentile, editor de Arte da Folha. ‘Essa é talvez a área mais difícil da ilustração’, completa.

O ganhador de cada categoria concorreu também ao grande prêmio, vencido por Guazzelli. O paulistano Sandro Castelli, 32, que já teve trabalhos publicados em revistas como ‘Superinteressante’, venceu em ilustração científica. Na mesma categoria, ficou em segundo lugar o curitibano Leandro Lopes, 27.

Na categoria com o maior número de concorrentes -ilustração livre, com 429 inscritos-, o vencedor foi o espanhol Pablo Amador, 26, que mora em São Paulo há cinco meses. O paulistano Julio Cesar Panisa, 26, foi o segundo colocado.

Duas das cinco categorias premiadas tiveram três pessoas com trabalhos selecionados: uma foi quadrinhos, com o austríaco Jan Limpens, 35 (vencedor), o paranaense Rômolo Dhipólito, 22 (segundo lugar) e o paulistano Tiago Judas, 27 (terceiro). A outra foi a de ilustração infantil, vencida por Guazzelli. Nela, o segundo lugar ficou com Paulo Terzi Ito, 28, e o terceiro com Leopoldo Tauffenbach, 29 -ambos de São Paulo.

‘A área de ilustração infantil tem se desenvolvido muito, o que não tem acontecido com a charge e o cartum, por exemplo. O resultado do concurso reflete isso’, avalia o ilustrador Orlando.

Adams Teixeira de Carvalho, 26, paulista de Sorocaba, foi o vencedor da categoria retrato, com suas ilustrações de Woody Allen e Sartre. O gaúcho Odye Fernando Bernardi, 39, que também desenhou Sartre, além de músicos como Chet Baker, ficou em segundo lugar.

Qualidade

Para chegar aos 12 finalistas, de onde saíram os cinco vencedores de cada categoria e o ganhador do grande prêmio, Orlando Pedroso e Massimo Gentile fizeram uma pré-seleção entre os inscritos.

‘Tivemos que descartar trabalhos que não tinham uma característica mais profissional e também aqueles que tinham apenas uma proposta de trabalho, um único desenho’, explica Gentile.

O ilustrador Orlando afirma que muitos dos trabalhos eram repetitivos e não inovavam em termos de idéias e de traço. Orlando vê, no entanto, aspectos positivos na enorme quantidade de trabalhos enviados. ‘A maioria tinha uma tentativa de fazer algo autoral, e isso é muito bom.’

O editor da Ilustrada, Marcos Augusto Gonçalves, destacou a diversidade de linguagens utilizadas nas obras. ‘Vi alguns trabalhos excelentes; muitos deles poderiam ser utilizados por publicações de qualidade. Na área infantil, em especial, tivemos ilustrações muito boas. Achei interessante o fato de termos exemplos diversificados de linguagem, com gente que se entrega aos recursos da computação e autores que trabalham à mão’, explica.

Esta é a terceira vez que a Folha incentiva o trabalho de novos talentos. Em 1985, o jornal revelou o chargista Spacca e o quadrinista Fernando Gonsales. Em 1999, foi premiado o chargista Jean, que se tornou colaborador regular do jornal na página 2.

O resultado está no endereço www.folha.com.br/061161. Além dos trabalhos dos 12 finalistas, todos os pré-selecionados terão suas obras divulgadas no site.’



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‘Me divirto fazendo desenhos infantis’

‘Se as origens, influências e técnicas os separam, a paixão pelo desenho e as formações em áreas correlatas (artes plásticas, belas artes, história da arte etc.) formam a base comum dos vencedores do 3º Concurso Folha de Ilustração e Humor.

O grande vencedor, o gaúcho Eloar Guazzelli Filho, afirma ter influência da escola platina.

‘Morando no Rio Grande do Sul, sofri influências dos países do Prata, que têm uma tradição muito grande na área de desenho e ilustração’, diz. Ele conta também por que se inscreveu na categoria de ilustração infantil: ‘Eu me divirto fazendo desenhos infantis, eles têm o poder de despertar em uma criança o interesse pelo desenho, isso é mágico. É o melhor público, a criança vê inúmeras vezes a mesma animação, o mesmo desenho, eles dissecam a obra com uma abordagem inocente, verdadeira’.

Já Sandro Castelli, vencedor de ilustração científica (a categoria com menos inscritos, 52), diz que sua participação nesta área surgiu como conseqüência de seu modo de desenhar. ‘Tenho preocupação grande com anatomia, por isso fui chamado para fazer alguns desenhos científicos em revistas.’

O austríaco Jan Limpens-Doenraedt, vencedor da categoria quadrinhos, teve seu trabalho elogiado por Laerte, jurado e colaborador da Folha. ‘Achei muito bom o trabalho dele, tem um tipo de roteiro muito raro’, explica.

Um caso curioso é o do espanhol Pablo Amador, que veio para São Paulo há cinco meses por causa de uma brasileira que conheceu na Espanha e, em busca de oportunidades, se inscreveu no concurso -acabou vencendo a categoria ilustração livre.

Adams Carvalho, o ganhador da categoria retrato, é um pintor que passou a trabalhar com ilustração. ‘Estou fazendo um caminho inverso ao que os artista normalmente fazem, estou indo das artes plásticas para a ilustração. Meu trabalho enfoca mais a questão pictórica do que o lado psicológico do personagem.’’



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