Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Folha de S. Paulo

07/11/2006 na edição 406

PERSONAGENS
Fernando Rodrigues

Lula se beneficia na situação de vítima, diz marqueteiro

‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve sua reeleição ao fato de ter virado, no imaginário do eleitorado mais pobre, uma figura dupla: um ‘fortão’ igualmente humilde que virou poderoso e ao mesmo tempo uma vítima, um ‘fraquinho’ sob ataque das elites.

Essa é uma das explicações usadas pelo publicitário João Cerqueira de Santana Filho para o sucesso da empreitada que acompanhou de perto nos últimos meses. O marqueteiro de Lula desenvolveu uma análise própria sobre o caso de amor do eleitorado com o presidente: a teoria do ‘fortão’ e do ‘fraquinho’ -ele usa termos mais eloqüentes, mas criou esses enquanto falava à Folha ‘para ficar mais publicável’.

Lula alternaria esses dois papéis no imaginário do brasileiro das classes mais pobres. Depois que se elegeu presidente em 2002, o petista passou a ser uma projeção de sucesso para as camadas C e D da população.

‘É um deles. Chegou lá’, diz Santana. Nesse momento, a personagem é o ‘fortão’, que ‘rompeu todas as barreiras sociais e conseguiu o impossível, tornando-se um poderoso’. Já quando Lula é atacado, ‘o povão pensa que é um ato das elites para derrubar o homem do povo que está lá’.

Santana não criou essa teoria do nada. Durante 77 dias, foi alimentado por pesquisas. A cada 24 horas, o instituto Vox Populi entrevistava 700 eleitores em todo o país. Também diariamente, oito grupos de 12 pessoas eram entrevistados por cerca de uma hora e meia por especialistas -as chamadas pesquisas qualitativas.

Baiano de 53 anos, Santana assessora Lula desde 24 de agosto de 2005. Sua tarefa foi substituir outro marqueteiro da Bahia, Duda Mendonça, afastado depois de revelar ter recebido cerca de R$ 10 milhões do ‘valerioduto’.

Santana, que considerou o maior erro da campanha a fuga de Lula do debate no primeiro turno, diz ter cobrado R$ 13,750 milhões do PT pelo trabalho publicitário, nos dois turnos. No meio da semana passada, deu sua primeira entrevista desde o início da campanha eleitoral. Falou à Folha em duas sessões, em um total de seis horas de conversa.

FOLHA – Qual foi o momento mais tenso da campanha?

JOÃO SANTANA – O da eclosão do dossiê. Era uma sexta-feira, 15 de setembro. Presenciei a hora em que Gilberto Carvalho, de manhã, recebeu um telefonema. Ele ficou lívido. Posso assegurar a você que foi algo que pegou a todos de surpresa.

FOLHA – Como Lula reagiu?

SANTANA – Ele só soube na parte da tarde. Eu não vi. No dia seguinte, ele me ligou logo cedo e disse: ‘João, estão falando de uma maluquice de um dossiê contra o Serra. Queria recomendar fortemente que não use de maneira nenhuma nada contra ele no programa’.

FOLHA – E o que aconteceu depois?

SANTANA – Na segunda-feira, o presidente precisava ir para a ONU, em Nova York. Não tínhamos como colocar o presidente no programa. A saída foi ler uma mensagem dele, condenando o ocorrido. Foi o que fizemos e deu resultado.

FOLHA – Nesse período houve a propaganda com cenas de aplausos inseridas para dar a impressão que eram para Lula na ONU.

SANTANA – Uma editora fez a inserção dos aplausos de maneira errada. Podem achar que estou mentindo, mas foi o que aconteceu. Um erro. Aliás, o único.

FOLHA – Quando ficou claro que haveria segundo turno?

SANTANA – Só na antevéspera, na sexta-feira, com o resultado das pesquisas, depois que ele não foi ao debate da TV Globo. Foi uma perda de seis a sete pontos. O fato é que foi só pós-debate. Quando surgiu o dossiê, o efeito nos primeiros dias foi mínimo.

FOLHA – Por que aconteceu a queda pós-debate?

SANTANA – Uma parcela do nosso eleitorado ficava esperando uma explicação mais detalhada, vinda diretamente do presidente. Eram pessoas predispostas a compreender, mas queriam ouvir alguma coisa da boca dele. Quando o presidente não foi, veio o que chamamos do ‘voto bronca’ nas classes C e D. E também teve um segmento da classe média baixa que viu um componente de soberba na ausência do presidente no debate. Essa percepção acabou aguçada. Foi o ‘voto-castigo’.

FOLHA – Mas questão ética era sempre o pano de fundo?

SANTANA – Até criei uma teoria sobre o problema da questão ética. Chamei de ‘teoria do tumor no cérebro’. Muitas vezes, quando se detecta um tumor cerebral, a medicina ainda não tem como fazer uma intervenção cirúrgica direta. O risco não compensa. É o caso da questão ética na campanha. Vale ou não vale a pena tratar o assunto diretamente, nos perguntávamos. O grande escândalo era de agosto de 2005, com os vários depoimentos na CPI dos Correios. O presidente se manifestou na época. Ficou claro, para a maioria da população, que o presidente não teve nenhuma participação direta. Quando começou a campanha, houve uma dúvida sobre se deveríamos estourar ou não o tumor, no sentido de tratar extensivamente do assunto. Decidi tratar o problema de forma homeopática. O presidente falou dele logo no primeiro programa e fez abordagens esporádicas durante a campanha. Tudo se acomodou. Mas o episódio do dossiê reviveu uma situação de inquietude do eleitor de Lula.

FOLHA – O presidente errou ao não ir ao debate?

SANTANA – Errou. Eu disse isso a ele antes. Depois, ele até reconheceu. Num debate, estando presente, raramente você perde. Estando ausente, é sempre maior o risco de ser derrotado.

FOLHA – E se ele tivesse ido, e a candidata Heloísa Helena se colocasse numa condição de vítima e desafiasse o presidente, deixando-o encurralado?

SANTANA – Sempre havia esse risco. Mas Lula, depois de se tornar presidente, sempre que esteve em situação de vítima saiu lucrando. É outra teoria minha, a do ‘fortão’ e a do ‘fraquinho’. Duas características que convivem, paradoxalmente, no mesmo personagem.

FOLHA – Como isso ocorre?

SANTANA – Passou a existir uma projeção das camadas C e D da população. Lula é um deles. Chegou lá. Os 60% da população que se identificam com Lula enxergam o presidente como o fortão, o igual que rompeu todas as barreiras sociais e tornou-se um poderoso. É algo que mexe profundamente com a auto-estima das pessoas. Lula, nesse caso, é o ‘fortão’, o ‘libertador’ da minha teoria. Por outro lado, quando Lula é atacado, o povão pensa que é um ato das elites para derrubar o homem do povo. ‘Só porque ele é pobre’, pensam. Nesse caso, vira o bom e frágil ‘fraquinho’ que precisa ser amparado e protegido. Jamais houve, no Brasil, tamanha identificação entre um presidente e os setores majoritários da população.

FOLHA – A população é indulgente com o presidente porque se identifica com ele?

SANTANA – Não. O fato é que as pessoas não enxergaram culpa direta, e não há nenhuma prova contra o presidente. O grande absurdo de leitura nesse processo é dizer que o brasileiro tem um padrão ético baixo ou que esqueceu a ética na hora de votar. O eleitor brasileiro só votou no Lula porque tinha certeza de que ele era inocente.

NA INTERNET – Leia versão ampliada www.folha.com.br/063081′



CINEMA EM LIVRO
Carlos Heitor Cony

‘Um Filme É para Sempre’

‘RIO DE JANEIRO – Organizada por Heloisa Seixas, uma coletânea de 60 artigos sobre cinema confirma Ruy Castro como um grande biógrafo de pessoas e fatos. Entre as pessoas, é obrigatória a citação das biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e, mais recentemente, Carmem Miranda; entre fatos, a bossa nova, as lendas e mitos de Ipanema etc. etc.

‘Um Filme É para Sempre’, seu último livro, é a biografia de dezenas de atos e fatos do cinema internacional. Ele não se limita, como os críticos convencionais, a resumir o enredo e a avaliar qualidades e defeitos das obras cinematográficas, acrescentando a ficha técnica de cada um.

Ruy trata cada filme, cada ator, diretor e produtor como se fosse um personagem com gestação, nascimento, vida, paixão e, em alguns casos, morte. Ele não se limita a opinar ou a informar, coloca tudo dentro do contexto e das circunstâncias de sua época, tornando cada um dos artigos uma resenha completa do cinema como um todo.

Ao lado de Antonio Moniz Vianna, José Lino Grünewald e Paulo Emilio de Sales Gomes, ele se fixa entre os grandes críticos do cinema de todos os tempos, com a vantagem de conhecer como poucos a música popular norte-americana, tornando seus comentários mais completos e definitivos.

A atual coletânea tem pontos altos, como o ensaio sobre Busby Berkeley, o homem que fez a Depressão rebolar; John Wayne enterrado junto com o western; o ‘Terceiro Homem’; e o gostoso ensaio sobre a Geração Paissandu.

No exemplar que me enviou, Ruy colocou uma dedicatória dizendo que ‘Victor Mature também é cultura!’. Concordo. Tudo que passa pela mão de Ruy se transforma em objeto de cultura e, graças ao seu estilo inconfundível, objeto também de prazer.’



TV
Daniel Castro

Apesar dos feridos, ‘Dança no Gelo’ continua

‘A Globo vai contratar professores de educação física para acompanhar os artistas que participarão das novas edições do ‘Dança no Gelo’.

O quadro, sucesso no ‘Domingão do Faustão’, é um ‘campeão’ de contusões, temido por autores (que não querem perder temporariamente atores de suas novelas) e por potenciais participantes (que não querem se machucar).

Dos oito competidores da atual edição do quadro, cinco se feriram. Os casos mais graves foram de Lucimara Parisi e Monique Alfradique, que tiveram de deixar o programa _a primeira quebrou duas costelas e a segunda teve lesão séria no tornozelo. Claudia Ohana foi parar no hospital, mas sem gravidade, e Iran Malfitano imobilizou um pulso. Antes mesmo do programa começar, Wanessa Camargo se feriu treinando em casa. A última vítima foi Danielle Suzuki, que torceu um tornozelo na semana passada.

Relatório produzido por Marcio Trigo, um dos diretores do ‘Domingão’, aponta três causas para os acidentes: 1) falta de alongamento e aquecimento; 2) treinamento em casa ou shoppings sem acompanhamento técnico; e 3) sobrecarga de trabalho dos participantes.

Por isso, serão contratados profissionais da educação física e proibidos os treinamentos fora da Globo. Com essas medidas, a rede espera reduzir acidentes no ‘Dança no Gelo’, que volta em agosto de 2007.

DÍVIDA 1 O ator Rodrigo Santoro já negocia com a Globo como irá compensar os três meses que se licenciou da emissora para gravar o seriado ‘Lost’.

DÍVIDA 2 Santoro conversa com o diretor Luiz Fernando Carvalho. Ele quer participar da segunda microssérie do projeto ‘Quadrante’, que será inaugurada em junho de 2007 com ‘A Pedra do Reino’. Já a renovação de seu contrato com a Globo, que vence no final deste ano, continua indefinida.

BIENAL O SBT finalmente confirma que não haverá Troféu Imprensa neste ano _as gravações, inicialmente marcadas para maio, foram canceladas. Silvio Santos pensa em transformar a premiação em evento bianual.

CELEBRIDADE O Discovery trará ao Brasil no final deste mês o designer de carros Chip Foose, apresentador do programa ‘Overhaulin’. Foose participará de feira de tuning (personalização de carros) em São Paulo. Ele é uma celebridade nesse universo.

CHEIROSA A Record negocia com a empresária Cristiana Arcangeli. Quer a fundadora de marca de cosméticos e dona de lojas de perfumes como co-protagonista da versão brasileira de’The Simple Life’, ‘reality show’ em que duas patricinhas terão que viver no campo.

GUINNESS A apresentadora Luísa Mell, da Rede TV!, ficará no ar durante 24 horas no Teleton, maratona televisiva que o SBT exibe no próximo final de semana.’



ESTRÉIAS
Lucas Neves

Séries reciclam velhos formatos

‘Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. A lei de conservação de massas estabelecida por Lavoisier saltou dos livros de ciência para a cabeça dos roteiristas de televisão norte-americanos. É o que apontam as premissas de várias séries que estréiam na TV paga brasileira nos próximos dias. A nova leva de comédias de situação, dramas familiares e tramas focadas no trinômio que fascina a audiência americana -crimes, inquéritos policiais e processos jurídicos- apresenta novos personagens e conflitos ao público, mas traz um largo repertório de ‘referências’ a sucessos de anos anteriores.

É o caso de ‘The Nine’ (veja horários à esquerda), que toma as 52 horas de um assalto a banco como ponto de partida para abordar as relações que se estabelecem entre nove reféns. Foco em desconhecidos forçados a trabalhar juntos para sair de uma situação-limite, desdobramentos que demandam acompanhamento fiel do público e flashbacks que lançam luz sobre os mistérios caracterizam uma versão urbana de ‘Lost’.

Já ‘What about Brian’ (terças, às 22h, no Sony; estréia em 7/11) é herdeiro de ‘Dawson’s Creek’, sucesso adolescente do final dos anos 90. O protagonista, único solteiro em uma turma de casados, apaixona-se pela noiva do melhor amigo. Daí, advém o dilema: preservar a amizade ou se render à cilada do cupido? Alguém aí se lembra do idêntico triângulo Dawson-Joey-Pacey?

Reciclagem também é palavra de ordem entre as comédias. Tomemos ‘The Class’, sobre o reencontro de colegas de terceira série primária, 20 anos depois. A reunião traz memórias agridoces e reaviva paixões em um octeto 50% masculino, 50% feminino. Amizades como porto seguro para enfrentar a vida adulta? Proporção entre gêneros perfeita para troca-troca de casais? Nem precisava dizer que o criador é o mesmo de ‘Friends’…

Para além da insistência em formatos surrados, a safra 2006/2007 periga ostentar um rótulo desconfortável: o do fracasso. Dos 12 novos programas de ficção que os dois principais canais do segmento apresentam, três já foram cancelados nos EUA. E mais: o público brasileiro não verá as principais novidades da temporada americana, como a adaptação da novela colombiana ‘Betty, a Feia’, o drama ‘Brothers and Sisters’ – crônica do cotidiano de uma família desajustada (mais uma!) – e ‘Heroes’, sobre pessoas que descobrem ser dotadas de superpoderes. Essa última foi comprada pelo Universal Channel, que cogitou uma estréia em janeiro, mas agora diz não haver previsão.

A diretora de programação da Warner Channel para a América Latina, Wilma Maciel, explica a diferença entre a lista de estréias do canal e o ranking das novidades mais vistas e comentadas nos EUA. ‘Compramos a maior parte das séries em maio, antes de estrearem por lá. Não temos o termômetro do público.’

Já a diretora de marketing dos canais Sony para o Brasil, Estefânia Granito, relativiza o peso do ibope americano. ‘As medidas de sucesso são diferentes. Nos EUA, há uma expectativa de retorno gigante em público e publicidade. Aqui, os números são outros.’’



SECOND LIFE
Alexandre Matias

Histórias do outro mundo

‘Um videogame sem regras, em que o usuário pode fazer o que quiser -até mesmo nada. Ninguém perde, mas é possível ganhar de formas completamente diferentes da lógica tradicional dos games. ‘Vencer’ pode ser tanto encontrar um desconhecido com a mesma afinidade que a sua, comprar MP3s ou assistir a um show virtual. E nunca, depois da ‘vitória’, o jogo termina.

Assim é o Second Life, um fenômeno comportamental que funciona como uma realidade digitalizada em três dimensões, quando o jogador assume um avatar -uma personalidade virtual- que tem completa liberdade para agir num mundo que já conta com 1 milhão de ‘habitantes’.

Mais do que realidade virtual, o Second Life é um novo ambiente para que artistas e o mercado de entretenimento possam dialogar com seus clientes e fãs. Isso tem mexido com a publicidade mundial de forma que, aos poucos, empresas têm comprado territórios on-line para oferecer aos seus possíveis consumidores, além de bandas (como Duran Duran e U2), autores (Howard Rheingold e Kurt Vonnegut) e executivos do cinema (Disney e Fox) usarem a plataforma como um novo meio para interagir com seu público.

Criado pela empresa Linden Labs em 2003, o Second Life tem potencial para ser maior do que o Orkut e o MySpace juntos -apesar de parecer apenas mais um game em três dimensões para vários jogadores (conhecidos pela sigla MMORPG – Massive Multiplayer On-line Role-Playing Game, Jogo de Interpretação On-line Massivo para Múltiplos Jogadores). A diferença entre o Second Life e qualquer outro jogo é simples: não há objetivos definidos e não há regras. Ou seja, não é um jogo.

Primeiro milhão

Mais do que isso: há possibilidades infinitas. É possível voar ou tomar forma de um animal, fazer sexo e mudar de aparência, teletransportar-se de um lugar para o outro e até comprar e vender coisas on-line, usando a moeda virtual do lugar -os linden dollars, cuja cotação flutua entre L$ 250 e L$ 300 para cada dólar americano do mundo real.

E, no mês passado, a população do Second Life chegou ao seu primeiro milhão de habitantes, em pouco mais de três anos de atividade. ‘Trinta mil diferentes computadores brasileiros diferentes se conectaram à rede SL nos últimos 60 dias’, diz o diretor de marketing da Kaizen Games, Jorge Filho, que representa alguns jogos da linha MMORPG no Brasil. ‘É a terceira geração da internet, em que você tem uma versão sua em três dimensões dentro da rede’, diz. Além de meramente explorar o mundo digital, ainda é possível criar seu próprio negócio e procurar pessoas com interesses parecidos para conversar e conhecer -dentro e fora da rede.

Próxima mídia

‘A transmissão da experiência é algo novo e não é a ‘next big thing’, escreve o fundador do Second Life, Bill Lichtenstein, em seu manifesto ‘The Transmission of Experience’. ‘É literalmente a próxima mídia na velha progressão das formas de comunicação, da fala para a palavra escrita, para os livros, para o rádio, para o cinema, para a TV. Isso mudará a forma como nós nos comunicamos e vivemos, que aprendemos e fazemos negócios, da mesma forma que qualquer outra mídia que surgiu antes. Simplesmente porque agora, pela primeira vez, conseguimos transmitir experiência.’

E é daí que vem o dinheiro que financia o software. Gratuito, entrar no Second Life só requer a instalação de um programa e sua atualização. Mas qualquer um pode comprar um terreno virtual pagando dinheiro de verdade, e com isso, receber uma cota mensal de linden dólares para gastar no ambiente -como bem entender.

Mas o Second Life não é apenas uma nova forma de fazer compras e consumir cultura. O Centro de Diplomacia Pública da University of Southern Califórnia criou uma ilha para estimular a discussão sobre o papel dos MMORPGs na diplomacia mundial, o New Media Consortium está construindo um campus universitário inteiro (com biblioteca, auditórios e um planetário), o Creative Commons está construindo seu instituto on-line e instituições médicas dão noções de primeiros socorros para pessoas reais por meio de avatares digitais.’



TROCA DE FAMÍLIA
Bia Abramo

Tudo por dinheiro, inclusive a família

‘QUANDO SARTRE disse que ‘o inferno são os outros’, estava longe de imaginar como ‘os outros’ tornaram-se decodificáveis no supermercado de identidades criado pelo consumo e pela mídia.

Em ‘Troca de Família’, o novo reality show da Record, trabalha-se com essa surpresa ‘programada’. São selecionadas duas famílias-tipo, a partir de uma escolha de origens geográficas, sócio-econômicas e culturais diversas. A mãe -’por que a mãe?’ é uma pergunta que se impõe- de uma família que convive por uma semana com a outra, que será em tudo contrastante com a sua.

A previsão de conflitos e contrastes mas também da adaptabilidade da ‘mãe’-aí, talvez, esteja uma das respostas à pergunta anterior -, de sua capacidade suposta e forçosamente ‘universal’ de cuidar e acolher marido e filhos, ainda que alheios, é o que tenta fazer a graça do programa.

E, claro, há o dinheiro a que tudo apazigua -mas, no caso de ‘Troca de Família’, com uma pitada, aí sim, de surpresa mais ou menos genuína.

O negócio é que ambas as famílias são agraciadas com um prêmio de R$ 25 mil, mas cabe à outra mãe determinar como será gasto esse dinheiro. Nisso está uma espécie de julgamento moral-mercantil, o que, na família alheia, deve ser consertado pelo poder terapêutico do dinheiro, que tem sido o foco maior de discordâncias e desgostos.

Engraçado que, mesmo de mentirinha, a emissora não controla, de fato, como a família vai empregar o prêmio -é essa pegadinha do programa que tem gerado as tensões mais reais.

Na primeira troca, a ‘ingenuidade’ da trapezista itinerante que destinou R$ 10 mil para a faculdade de medicina da filha da família rica e outros tantos para a construção da nova casa, fez cair por terra toda a ‘simpatia’ da perua (‘filha, me empresta seus R$ 10 mil para comprar as janelas da casa nova?’).

Silvio Santos nunca foi tão profético quando atinou com o nome ‘Tudo por Dinheiro’ para um de seus programas mais repugnantes. Na TV, tudo se faz por dinheiro -e quanto mais de ‘graça’ é o dinheiro, melhor. Tudo bem que, por R$ 25 mil, mulheres enfrentam companheiros machistas, adolescentes insuportáveis, casas sujas e/ou de organização obsessiva.

Parece caro esse dinheiro, mas, no dia-a-dia da vida real, a maioria das pessoas não se submete a chefes mal-humorados, trabalho cansativo, transporte coletivo indigno, por um salário muitas vezes menor?’



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Folha de S. Paulo

Sábado, 4 de novembro de 2006

ERÓTICA
Carlos Heitor Cony

Tudo passa

‘RIO DE JANEIRO – Pergunto: estará passando a onda que andou pesada para os lados da pornografia, entendida em suas manifestações mais óbvias e agressivas: as revistas ditas eróticas e os filmes que foram classificados de pornochanchadas? Li algumas reportagens a respeito do assunto.

Um curador de menores, aqui no Rio, garantiu que as revistas e filmes eróticos tinham nascido de uma resolução tomada em Havana, em 1968, e faziam parte de uma estratégia para os comunistas chegarem ao poder. Essa besteira teve equivalente à esquerda: ouvi de um comunista histórico a afirmação de que a pornografia e a droga eram agenciadas pela CIA com a finalidade de enfraquecer o ímpeto libertário dos povos do Terceiro Mundo.

Talvez todos tenham razão. É nisso que venho pensando cada vez mais: o mal do mundo não é a falta de razão, mas o excesso dela. Todos têm razão, ou, pelo menos, todos têm a sua razão.

Lembro o que vi em Portugal, logo depois da Revolução dos Cravos. A austeridade de Salazar, o Casto, foi substituída por uma inundação de revistas pornográficas vindas de toda a parte, sobretudo os encalhes suecos e dinamarqueses. Até que a produção local botou para quebrar e a grossura chegou a nível insuportável. Ali no Chiado foi colocado um pôster deste tamanho, com um imenso pênis (perdão pela feia palavra) ejaculando. Era anúncio de não sei o quê. No chão, crianças, senhoras, freiras, soldados, todos pisavam em cartazes obscenos: isso fazia parte da liberdade, na avenida da própria. Dois anos depois, voltei a Lisboa e já não havia mais nada.

Nas bancas, nas livrarias, os interessados podiam comprar o que bem desejassem, mas a poluição brutal havia passado.

Não por falta de interesse dos produtores, mas pela relativa apatia dos consumidores.’



PODER NA TELA
André Caramante

Documentário forçou a Argentina a retirar controle aéreo do setor militar

‘O documentário ‘Fuerza Aerea Sociedad Anonima’, do ex-piloto de aviões da empresa Lapa (Líneas Aéreas Privadas Argentinas), investigador de acidentes aéreos e cineasta Enrique Piñeyro, lançado este ano na Argentina, conseguiu uma façanha: fez com que o controle do tráfego aéreo do país saísse das mãos dos militares.

Após o filme, a ministra da Defesa do país, Nilda Garré, retirou o controle do tráfego aéreo da FAA (Fuerza Aérea Argentina) e o transferiu para o secretário do Transporte, Ricardo Jaime.

Em setembro, o ‘Fuerza Aerea S.A.’, de Piñeyro, ganhou as telas de exibição. Piñeyro também dirigiu ‘Whisky Romeo Zulu’, filme sobre o acidente no qual um Boeing 737 da Lapa, em 31 agosto de 1999, espatifou-se no aeroparque de Buenos Aires e matou 67 pessoas.

Seu primeiro filme já causou espanto na população local ao revelar o caótico sistema de controle do tráfego aéreo argentino e como funcionava o esquema de corrupção que envolveu militares da FAA.

Para produzir ‘Fuerza Aerea S.A.’, Piñeyro utilizou câmeras ocultas e flagrou a ação dos controladores de vôo argentinos em meio à rotina e ao caos do dia-a-dia.

O filme é repleto de explicações didáticas sobre como o mau controle do espaço aéreo expõe a vida dos passageiros. Assim como ocorre hoje no Brasil, as lentes de Piñeyro mostram o desespero dos controladores: ‘Se os passageiros soubessem como o controle aéreo é feito, nenhum deles subiria mais em um avião.’’



COPA
Daniel Castro

Globo cria praia virtual para novela das 21h

‘A Globo vai recriar em cidade cenográfica um trecho da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, principal cenário de sua próxima novela das oito, a picante ‘Paraíso Tropical’, que explorará o turismo sexual.

Na verdade, a Globo criará uma praia virtual. Segundo Dennis Carvalho, diretor-geral da novela, serão construídos no Projac a fachada do hotel do personagem de Tony Ramos, uma calçada igual à da avenida Atlântica e uma pista da via.

Inúmeras ações da novela se darão nessa calçada. Na via construída no Projac, correrão carros e ônibus. A grande novidade é que a Globo irá inserir o restante da paisagem de Copacabana (a outra pista, o calçadão, a areia e o mar) em computador. Ou seja, cenas de ‘Paraíso Tropical’ serão gravadas em cidade cenográfica, mas terão ao fundo a paisagem verdadeira de Copacabana, como se tudo estivesse realmente ocorrendo na badalada praia carioca.

‘A novela terá muitas cenas em Copacabana e não dá para gravar na praia toda semana e parar o trânsito. A solução foi recriar a praia em cidade cenográfica e inserir parte dela virtualmente’, diz Carvalho.

As gravações de ‘Paraíso Tropical’ em cidade cenográfica só ocorrerão a partir de janeiro. Antes, de 20 de novembro a 22 de dezembro, serão feitas gravações externas em resorts e praias do Nordeste, região onde a trama começa, em um bordel de Suzana Vieira.

CAMPANHA 1 A Globo vai exibir no início de 2007 uma campanha de orientação sobre classificação indicativa, dirigida ao pais. O conteúdo da campanha ainda não está definido.

CAMPANHA 2 A Globo é contra o novo manual de classificação indicativa, elaborado pelo Ministério da Justiça, que se tornará obrigatório a partir de dezembro. O manual traz uma série de símbolos que as emissoras terão de veicular para informar o conteúdo do programa exibido.

MADRUGADA A cúpula da Globo aprovou o ‘BBB – Proibido para Menores’. O programa será exibido nas madrugadas das quartas e reunirá fanáticos discutindo o comportamento dos participantes de ‘Big Brother Brasil’.

SEIS POR MEIA DÚZIA Silvio Santos desistiu de colocar a novela ‘Código Postal’ no lugar de ‘Rebelde’, que acaba em dezembro. A substituta de ‘Rebelde’, por enquanto, será a também adolescente e mexicana ‘O Jogo da Vida’.

INVESTIMENTO 1 O departamento de operações da Globo levou dois meses para desenvolver um equipamento que será usado apenas para gravar um salto de 1.000 metros que o jumper Sabiá fará no próximo final de semana, na fronteira do Brasil com a Venezuela, e que será registrado pelo ‘Esporte Espetacular’.

INVESTIMENTO 2 O equipamento manterá preso ao abdômen de Sabiá uma microcâmera que focalizará apenas o rosto do saltador, captando suas reações.’



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