Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 10 E 11/02

Folha de S. Paulo

13/02/2007 na edição 420

PREFEITO ARREPENDIDO
Gilberto Kassab

Imagens e palavras: a arte da política

‘POLÍTICA é persuasão, é convencimento. Política é a arte e a ciência de transformar vontade e esforço coletivos em ações em favor do bem comum. Assim, desde sempre, e mesmo numa época e numa sociedade em que a imagem tem supremacia, o principal instrumento da política é a palavra. A palavra que convence, que agrega, que dá rumo e sentido aos desejos da sociedade e os transforma em realizações destinadas a melhorar a vida das pessoas.

Engenheiro e economista por formação, político e administrador público por vontade e vocação, eu acredito na palavra e na persuasão. Acredito no convencimento. Acredito que o papel do político é formar maiorias que permitam à sociedade avançar. E que dêem ao administrador público o as condições para materializar esses avanços. Acredito que a principal tarefa é desenhar um projeto que melhore as condições coletivas de vida e, a partir daí, usar a palavra, o convencimento para fazer valer a vontade da sociedade por uma vida melhor.

A essa atividade de tornar sonhos coletivos em realidade pela via democrática -pela palavra, pelo convencimento- se dá, genericamente, o nome de liderança política. Como prefeito de São Paulo, é nisso que penso ao sair de casa, todos os dias, para trabalhar. Minha missão é transformar sonhos e desejos em ações que ajudem a melhorar a vida da imensa maioria dos paulistanos.

E era isso o que eu estava fazendo quando o destino me pregou uma peça. No último dia 5, fui ao bairro de Pirituba, na zona norte, para inaugurar mais uma AMA, as unidades de assistência médica ambulatorial que estamos implantando. As AMAs são dessas realizações que dão alegria a um homem público. São unidades médicas intermediárias entre os postos de saúde (as UBS) e os hospitais. Têm especialistas, fazem exames e pequenas cirurgias. Foram criadas nesta administração para aliviar o caos dos postos de saúde e hospitais municipais.

Em menos de dois anos, já entregamos 41 AMAs, com a de Pirituba. Juntas, elas atendem mais de meio milhão de paulistanos por mês. O problema do atendimento de saúde no município foi resolvido? Não. Mas avançamos: além das 41 AMAs, já reformamos 194 UBSs e 21 hospitais e prontos-socorros e estamos construindo dois novos hospitais, além do programa Remédio em Casa, da contratação de novos médicos etc.

Foi com esse espírito que fui à inauguração da AMA de Pirituba, convicto de que era mais um passo no árduo trabalho de melhorar a vida dos paulistanos. Visitava a unidade quando fui informado que uma pessoa, o microempresário Kaiser da Silva, se encontrava na recepção protestando contra o projeto Cidade Limpa.

O Cidade Limpa é outra das boas iniciativas que vão melhorar a vida na nossa cidade. Aprovado pela Câmara Municipal, tem o objetivo de diminuir a poluição visual e acabar com a propaganda irregular ao ar livre. Como era de esperar, algumas pessoas foram contra o projeto, pois ele altera condições de sobrevivência econômica de empresas. Não tenho dúvida de que, a curto prazo, pessoas como o sr. Kaiser tiveram prejuízos. Mas o Cidade Limpa tem um mérito inegável: sobrepõe os interesses da maioria ao interesse individual ou de grupos.

São, portanto, dois bons projetos e duas boas realizações: inaugurar AMAs, melhorando o atendimento de saúde, e implantar o Cidade Limpa, diminuindo a poluição visual.

Então, fica a pergunta: como é que duas boas notícias para a cidade descambaram no descontrole do prefeito? Não tem explicação, a não ser no âmbito das imperfeições humanas, das minhas, na esteira das vastas emoções e pensamentos imperfeitos.

Não vou tergiversar, não uso meias-palavras. Errei, me excedi. Perdi a cabeça. Não tenho sangue de barata e reajo, às vezes, como muitos reagiriam. Não tinha o direito de perder a calma, e perdi. Foi um acidente. Mas nada o justifica. Mostrei-me como não sou. No dia seguinte, pedi desculpas. Não tenho problemas em reconhecer um erro. Faço-o novamente agora, por escrito. Peço desculpas ao senhor Kaiser, à cidade e aos brasileiros. Faço-o de coração aberto.

O prefeito de São Paulo vive sob a pressão das demandas de uma metrópole gigantesca, mas necessitada; milionária, mas miserável; pujante, mas carente. Vive sob marcação cerrada de adversários que nem sempre agem com espírito público. Vive sob a angústia dos recursos escassos.

Mas isso é próprio do cargo, como os de controladores de vôo, médicos, bombeiros e outros profissionais que vivem sob pressão. Como prefeito, sou -e serei- sensível às opiniões, cobranças e queixas dos paulistanos.

E agirei como sempre agi (até a escorregada desta semana): com serenidade, ouvindo, argumentando, persuadindo, acreditando no poder da palavra e no trabalho que está sendo feito.

Como prefeito, tirarei do episódio uma lição que, tenham certeza, me ajudará a melhorar nossa cidade e a vida dos cidadãos. Vamos em frente!

GILBERTO KASSAB , 46, é o prefeito de São Paulo.’



MÍDIA & RELIGIÃO
Elvira Lobato

Prisão de líderes freia projeto da Renascer

‘A prisão dos fundadores da Igreja Renascer em Cristo, apóstolo Estevam Hernandes e bispa Sônia Haddad Hernandes, nos Estados Unidos, e a ação judicial do Ministério Público de São Paulo contra o casal por lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e estelionato interromperam o megaprojeto de radiodifusão da igreja que estava em andamento.

Levantamento exclusivo da Folha revela que a igreja havia comprado em licitações públicas duas concessões de TV e 23 de rádio, por intermédio de três empresas em nome de dirigentes da instituição. Paralelamente, as empresas e a Fundação Renascer têm 155 pedidos de retransmissoras de TV e de rádios FM educativas no Ministério das Comunicações.

A igreja não se manifestou sobre o assunto. Na quarta-feira, sua assessoria de imprensa foi informada sobre os principais pontos da reportagem. Na quinta, informou que o assunto estava sendo examinado pela assessoria jurídica. Até a noite de sexta, não houve resposta.

O ministro Hélio Costa, das Comunicações, determinou a suspensão de todos os processos, até o término dos processos judiciais, incluindo os das concessões compradas nas licitações públicas que ainda tramitam no governo.

Além disso, a igreja corre o risco de perder a concessão de sua principal geradora: a TV Gospel (SP). O prazo de vigência da concessão, de 15 anos, acabou em 2003. Segundo Costa, a renovação só foi pedida em 2006, o que, em tese, permitiria o cancelamento da concessão.

A TV Gospel ocupa um canal educativo. O ministro quer que a Fundação Evangélica Trindade, dona da concessão, prove que a TV cumpre o papel educativo. O ministro já havia cancelado, no final de janeiro, a autorização que dera para uma retransmissora da TV Gospel, da Renascer, no Espírito Santo.

R$ 20 milhões

Informações obtidas pela Folha em Juntas Comerciais, cartórios e na página do Ministério das Comunicações na internet dão uma visão do megaprojeto de radiodifusão.

Em 1997, as empresas Ivanov, Mello e Bruno e FH Comunicação e Participações foram registradas em nome de bispos, para comprar concessões de rádio e de TV nas licitações públicas do governo. Disputaram 117 licitações, em 2000, e venceram 25.

Segundo especialistas do mercado, elas ofereceram preços muito elevados por concessões no interior, e estariam sem dinheiro para honrar os lances feitos nas licitações, no total de R$ 10,2 milhões. Para instalar as 23 rádios, duas TVs e as 155 retransmissoras solicitadas, a igreja gastaria mais R$ 10,3 milhões em equipamentos.

Até a semana passada, nem o governo tinha visão precisa das empresas ligadas à Renascer. Costa soube, pela reportagem da Folha, que a FH é um braço da igreja. Ela é uma das empresas acusadas pela Promotoria de São Paulo de integrar um suposto esquema de lavagem de dinheiro da Renascer.

Ilegalidade

A FH Comunicação e Participações foi registrada na Junta Comercial de São Paulo, em 1997, em nome da bispa Sônia Hernandes e do filho Felipe Daniel Hernandes, o bispo Tid. Os dois figuram como donos da empresa no cadastro do Ministério das Comunicações, mas a Junta Comercial informa que 100% das cotas mudaram de mãos em 2002, sendo transferidas para um outro casal de bispos da Renascer: Hamilton Gomes e Ana Lúcia Gomes.

A troca não foi comunicada ao ministério, o que tornaria ilegal a vitória da empresa nas licitações. Pelo mesmo motivo, o apresentador de TV Gugu Liberato perdeu uma concessão de TV em Cuiabá, em 2002.

Segundo o ministro Hélio Costa, a legislação só permite a mudança de controle de concessionárias de radiodifusão decorridos cinco anos de funcionamento.’

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Igreja busca sócios para as emissoras

‘A Igreja Renascer busca sócios para montar as emissoras de rádio e de TV que comprou nas licitações do governo. Ela estaria sem dinheiro para o pagamento das concessões. Segundo levantamento da Folha, ela terá de desembolsar R$ 10,2 milhões para pagamento das outorgas adquiridas nas licitações e outro tanto para a compra dos equipamentos.

Empresários e prefeitos foram procurados por bispos da igreja após as empresas FH, Ivanov e Mello e Bruno vencerem as licitações. Algumas prefeituras foram solicitadas a ajudar com imóveis.

O prefeito de Campo Mourão (PR), Nelson Tureck, do PMDB, disse que foi procurado por um bispo da Renascer no ano passado, que propôs sociedade à prefeitura em uma TV na cidade. O negociador seria o deputado estadual bispo Gê, Geraldo Tenuta. ‘O deputado contou que a igreja ganhou a concessão e queria vendê-la ou ter um sócio. Cheguei a ligar para alguns empresários da região, mas ninguém quis. O negócio também não interessava à prefeitura’, disse.

A venda da concessão sem autorização do Ministério das Comunicações é ilegal.

A empresa Mello e Bruno Comunicação e Participações, registrada na Junta Comercial de São Paulo em nome do bispo José Bruno (deputado estadual de SP), venceu a licitação com a proposta de R$ 2,2 milhões pela concessão da TV.

Um grupo de empresários locais que havia participado da mesma licitação com a proposta de R$ 400 mil também foi procurado pelo emissário da Renascer.

Ronauro Gouveia, um dos empresários procurados, disse que a igreja propôs que eles pagassem a concessão ao governo em troca de participação de 50% na TV. Os bispos arcariam com a compra dos equipamentos.

Para Gouveia, o preço de compra da concessão da igreja foi exageradamente alto e tornaria o negócio inviável. Após dois encontros com o bispo, o empresário concluiu que a igreja tem dificuldade para justificar a origem de seu dinheiro, e, por isso, busca sócios. Segundo ele, a Mello e Bruno ainda não pagou a concessão ao governo.

O Congresso aprovou o decreto para outorga da TV de Campo Mourão há dois anos. Pelo edital de licitação, o contrato de concessão e o pagamento da primeira parcela deveriam ter acontecido no prazo de 60 dias. Mas, a informação oficial existente na internet é que o processo continua em tramitação no ministério.

Inflacionado

O mesmo problema acontece com a concessão da rádio comercial em Nova Europa (SP), adquirida pela FH Comunicação e Participações. A empresa venceu a licitação com a proposta de R$ 263,58 mil. A outorga foi aprovada pelo Senado em novembro de 2005, e o processo continua em tramitação no ministério.

O prefeito Sebastião Cacheta (PSDB) diz que a cidade, a 318 km de São Paulo, tem apenas 8.000 habitantes e não comporta a instalação de uma rádio comercial. A cidade, segundo ele, tem uma radio comunitária que atende às necessidades.

Ele disse que há dois anos algumas pessoas o procuraram sobre a implantação da rádio. ‘Queriam um empréstimo ou ajuda. Mas a prefeitura não se interessou.’

A Prefeitura de Quixeré, no Ceará, chegou a oferecer uma sala à FH para a instalação da rádio. O prefeito Raimundo Nonato Maia (PPS) foi procurado por representantes da Renascer, há um ano. Ele disponibilizou o espaço, mas o projeto não prosseguiu.’

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Ministro diz querer saber se TV Gospel cumpre papel educativo

‘O ministro das Comunicações, Hélio Costa, disse que está sendo examinado o pedido da Fundação Evangélica Trindade, da Igreja Renascer em Cristo, para renovação da concessão da TV Gospel, canal 53, de São Paulo.

Por se tratar de uma concessão de TV educativa, ele diz que quer saber se a emissora cumpre o papel educativo determinado pela legislação. ‘Minha preocupação não está no vínculo da fundação com a igreja, mas no fato de se tratar de uma emissora educativa’, afirmou.

A concessão, por 15 anos, renováveis, foi dada à fundação em 1988, no governo José Sarney (1985-1989). Segundo o ministro, a entidade pediu a renovação com a concessão vencida, o que tem de ser levado em consideração pelo ministério.

Denúncias

Costa disse que tem recebido denúncias sobre a existência de empresas que compraram concessões para revendê-las no mercado, fazendo as licitações públicas de balcão de negócios.

Para burlar a legislação, que proíbe a venda das emissoras antes de concluir cinco anos de seu funcionamento, a venda é feita por contratos de gaveta. ‘O mais difícil é descobrir quem está por trás das empresas’, afirmou Hélio Costa.

‘Quando constatamos uma transferência ilegal, a tramitação do processo de concessão é suspensa. Mas falta pessoal para examinar os contratos’, diz.

Segundo Costa, há uma comissão interna examinando os casos suspeitos, mas ela precisaria de mais funcionários para se debruçar sobre os processos.

Ele disse que até 2002 o ministério tinha escritórios nos Estados que faziam avaliação preliminar dos contratos antes de encaminhá-los para Brasília.

Afirmou que há 40 mil processos de transferência de cotas de emissoras para serem examinados na pasta, e alguns estão lá há mais de dez anos.

Questionado sobre o fato de continuar em tramitação processos de concessão de outorgas aprovados há mais de dois anos pelo Congresso, quando os editais de licitação estipulavam prazo máximo de dois meses, Costa disse que a legislação de radiodifusão não estabelece prazo fixo para o ministro. Na avaliação dele, o edital não poderia extrapolar a lei.’

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Advogado afirma que pedido de extradição dos Hernandes é ilegal

‘O advogado dos fundadores da Igreja Renascer em Cristo -Estevam Hernandes Filho e Sônia Haddad Moraes Hernandes-, Luiz Flávio Borges D’Urso, afirmou anteontem que a proposta de reformular o acordo de extradição entre Brasil e Estados Unidos evidencia que o tratado vigente não contempla a modalidade de lavagem de dinheiro para as possibilidades de extradição, de maneira que se configura impróprio o pedido feito pelo Ministério Público de São Paulo contra os Hernandes e a ordem judicial que determinou o encaminhamento do pedido para os EUA.

‘Estamos diante de um pedido e de uma decisão judicial que contrariam o Tratado de Extradição, sendo, portanto, ilegais’, disse D’Urso.

Brasil e EUA vão reformular o acordo bilateral que mantêm para pedidos de extradição. A decisão de mudar os termos do documento, firmado em 1961 e considerado obsoleto, foi tomada ontem, em Brasília, durante reunião entre o ministro da Justiça do Brasil, Márcio Thomaz Bastos, e seu equivalente americano, o secretário da Justiça, Alberto Gonzalez.

O acordo em vigor não contempla crimes como lavagem de dinheiro e terrorismo, que devem ser incluídos agora.’



PT & MÍDIA
José Alberto Bombig, Conrado Corsalette e Kennedy Alencar

Irritada, esquerda do PT rebate críticas de Lula ao partido

‘A abertura de encontro do Diretório Nacional do PT, ontem pela manhã, em Salvador (BA), se transformou em um ato de repúdio de correntes à esquerda do partido ao ‘pito’ que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou nos petistas na noite anterior, também na capital baiana.

Em jantar para comemorar os 27 anos de aniversário do partido, Lula fez duro discurso em que condenou a ‘luta interna’ e disse que os petistas muitas vezes são mais contundentes nas críticas à sua gestão e a seus colegas do que as próprias CPIs que devassaram seu primeiro mandato.

Integrantes do partido concordaram que é preciso unidade, mas afirmaram que o discurso desagradou. A fala acertou em cheio o grupo que ontem lançou o texto ‘Mensagem ao Partido’, um manifesto pela reformulação da sigla e pela implosão do Campo Majoritário, corrente da qual fazem parte o próprio Lula e o presidente da legenda, Ricardo Berzoini.

A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, da corrente Democracia Socialista, afirmou que Lula foi ‘infeliz em alguns momentos’ e que suas declarações podem ‘criar obstáculos’ para o Congresso Nacional da sigla, a ser realizado em julho.

Para o deputado José Eduardo Cardozo, que assina a ‘Mensagem’, ‘trocar idéias não é dar tiros, não é matar, não é aniquilar’. Ele se referia a um trecho do discurso do presidente.

Mesmo petistas mais alinhados ao governo ficaram desconfortáveis com o discurso. Eles identificaram recados duros ao ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) e Berzoini.

Após o jantar, a piada entre os petistas era que o sermão transformara o evento na ‘Escolinha do Professor Lula’. Com a voz embargada e gesticulando muito, Lula, por quase meia hora, pregou a união do partido e pediu um combate aos ‘inimigos’ externos.

‘Vejo na imprensa uma disputa no PT e eu me pergunto, Ricardo [Berzoini, presidente do partido], por que a gente não sabe levantar um pouco a metralhadora para atingir os inimigos e atiramos tanto nos nossos pés. A impressão que eu tenho é que nós não gostamos dos pés, que nós gostamos é de nos triturar, porque, se a gente levanta a metralhadora na altura do peito, a gente vai acertar um adversário’, disse Lula.

Ao dizer ao PT que é preciso obter maioria no Congresso, porque não pode governar por ‘decreto supremo’, Lula afirmou: ‘O exercício da democracia é complicado, mas é melhor’. ‘Não me peçam para que o governo entre na disputa do PT, na briga do PT. Não vamos entrar. Embora no meu sangue corra o sangue do PT, não me peçam para deixar de governar o país para pensar nos problemas do nosso partido’, disse.

Para Lula, o PT deve identificar ‘quem são os inimigos na Câmara e no Senado’ e se esforçar para ajudá-lo a ‘construir maioria’ no Congresso. Ele pediu empenho na aprovação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e disse que não poderia pensar nas ‘pendengas internas’ da sigla.

O ministro Tarso Genro participou do lançamento da ‘Mensagem’, que teve a sua assinatura. Ele tentou minimizar o impacto do discurso de Lula sobre as correntes que pregam a renovação do PT e fazem a crítica no âmbito da ética.

‘O presidente fez questão de dizer que não tomava partido. A fala do presidente estimula o debate’, disse Tarso.

José Dirceu

O ex-ministro da Casa Civil e ex-deputado José Dirceu, cujo projeto de anistia vem causando polêmica dentro do PT, acompanhou o discurso de Lula em uma mesa a poucos metros do palco, mandou um beijo para a primeira-dama, Marisa Letícia, que retribuiu.

‘Lula fez certo, está pensando na sua missão que é governar o Brasil’, disse o ex-ministro, cassado pela Câmara na esteira do mensalão. Durante o discurso, o presidente citou a presença de Dirceu no evento.’

Letícia Sander e Adriano Ceolin

Congresso é ímã mesmo para derrotados

‘Mesmo sem mandato, um grupo de ex-deputados continua a circular com desenvoltura no Congresso. Alguns têm cargos na máquina pública, outros ainda conseguem exercer influência política.

Deputado federal por três mandatos, o candidato derrotado ao Senado Moroni Torgan (PFL) é um deles. Ele podia voltar ao Ceará e ser reintegrado à Polícia Federal como delegado, mas continuou em Brasília.

Arrumou um CNE (Cargo de Natureza Especial) na liderança do PFL, com salário de R$ 7,5 mil. O pedido de nomeação foi feito no fim do ano passado pelo então líder do PFL na Câmara, deputado Rodrigo Maia (RJ). ‘Como delegado e ex-presidente da CPI do Tráfico de Armas, pode colaborar muito com o partido’, disse Maia.

Ex-presidente da Câmara que renunciou após ser acusado de cobrar propina do dono de um dos restaurantes da Casa, Severino Cavalcanti (PP-PE) também é visto com freqüência em Brasília. Na semana passada, foi até recebido pelo atual presidente da Casa, Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Antes de entrar no gabinete do petista, foi abordado por três funcionários de Furnas que pediam ajuda para impedir a demissão de trabalhadores terceirizados. ‘Vou ver o que posso fazer’, disse Severino, que saiu da sala dizendo não ter conseguido atender o pedido.

Ex-líder do PMDB, José Borba, que renunciou em 2005 suspeito de envolvimento com o ‘mensalão’, é outro visto com freqüência no Congresso.

‘Não saí da política, saí do Congresso. Tem restos a pagar [de emendas] que vêm se arrastando’, afirmou.

Ex-assessor de José Janene (PP-PR), também citado no escândalo do mensalão, João Cláudio de Carvalho Genu também ainda trabalha na Câmara. Segundo o último boletim administrativo da Casa, ele tem um cargo CNE na liderança do PP. No auge da crise do ‘mensalão’, ele apareceu como sacador de dinheiro das contas do Banco Rural.’



INTERNET
John M. Broder

Sob crítica de religiosos, Edwards decide manter blogueiras ‘incendiárias’

‘DO ‘NEW YORK TIMES’, EM WASHINGTON – John Edwards aprendeu da forma difícil na semana passada os perigos de transplantar a barulhenta cultura da internet para o decididamente mais conservador mundo de uma campanha presidencial. Na quinta-feira, ele anunciou, após 36 horas de deliberação, que manteria em sua equipe duas blogueiras, Amanda Marcotte e Melissa McEwan, com longa trajetória de comentários incendiários sobre sexo, religião e política.

Em nota, Edwards se distanciou das declarações mais inflamatórias das blogueiras, as quais, disse, ‘me ofenderam pessoalmente’. Ele afirmou que a ninguém em sua campanha seria permitido uma linguagem tão intolerante, mesmo em tom de sátira.

‘Mas também acredito em tratar a todos de forma justa’, disse Edwards. ‘Conversei com Amanda e Melissa; as duas me asseguraram que nunca foi sua intenção difamar a fé de qualquer um, e eu acredito nelas.’

Ao decidir mantê-las, ele arrancou delas desculpas públicas em relação a parte de seu trabalho e uma promessa de manter um tom civilizado enquanto estiverem com ele.

Edwards também disse que não deixaria sua campanha ser ‘seqüestrada’ por conservadores religiosos, que identificaram os comentários mais provocativos e exigiram a demissão das moças.

Em alguns de seus escritos, Marcotte e McEwan usaram termos vulgares para se referir a conservadores religiosos e a ensinamentos católicos sobre controle de natalidade e homossexualismo.

Em seu blog pessoal, A Irmã de Shakespeare, McEwan se referiu a cristãos conservadores como ‘cristofascistas’. Já Marcotte afirmou que a proibição da Igreja Católica do uso de anticoncepcionais forçava as mulheres a aceitar ‘católicos mais adeptos ao dízimo’.

William Donohue, presidente da Liga Católica para Direitos Civis e Religiosos, exortou Edwards a dispensá-las. Surpreso ao descobrir que ele não o fez, Donohue disse que as blogueiras não são mais o tema. ‘Edwards é a questão.’’



CLIMA & MÍDIA
Marcelo Leite

Mudança de clima

‘Antes, o aquecimento global entrava por um ouvido do público e saía pelo outro

Inequivocamente, mudou o clima em relação ao aquecimento global. Caiu na boca do povo, como se diz. Muita gente falando de como o verão está quente ‘por causa do buraco do ozônio’… quando o coitado não tem nada a ver com a história.

Até o diligente Senado Federal brasileiro estuda criar uma subcomissão sobre aquecimento global (que pode ser entregue ao ex-presidente Fernando Collor) e uma Comissão Permanente de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática. Também na Câmara dos Deputados ocorreram na semana que passou vários movimentos em torno da constelação ciência-ambiente. E não parece que tenham sido só para honrar faturas políticas emitidas durante a eleição para as presidências das duas Casas, quer dizer, acomodar correligionários e eleitores. O presidente Lula se pôs a falar sobre mudança climática, depois de ter silenciado sobre temas ambientais no famigerado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). O chanceler Celso Amorim, igualmente, descobriu a Amazônia. Ambos sob o prisma gasto do conflito Norte-Sul, mas vá lá.

Tudo isso tem alguma coisa a ver com a divulgação em Paris, há nove dias, da base científica do quarto relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima). Um milhar de jornalistas acorreu à Cidade Luz, que apagou a Torre Eiffel por alguns minutos, um gesto em respeito ao clima do planeta. A súmula produzida por centenas de pesquisadores e delegados de dezenas de países, sob a bandeira da ONU, disse que o aquecimento global é inequívoco. E que a responsabilidade cabe à espécie humana, com mais de 90% de certeza.

A popularização do tema tem muito a ver com o circo de Paris, sim, mas falta alguma coisa. Para quem descobriu o assunto há 18 anos, em 1988 (ano em que a Amazônia ardeu e Chico Mendes foi morto), chega a ser frustrante. Não dá para entender. Toneladas de tinta foram jogadas no papel, por duas décadas, para mostrar ao público o que acontecia. Uma pequena parte, certo, para tentar provar que nada estava acontecendo. Só caíram nessa os cínicos fantasiados de céticos e os jornalistas americanos acometidos de equilibrismo, doença infantil do pluralismo.

Como tudo que é complicado e chato, o aquecimento global entrava por um ouvido do público e saía pelo outro. Não havia armas fumegantes. Agora vem o IPCC, pronuncia a palavra ‘inequívoco’, e todo mundo sai esbaforido gritando que o mundo vai acabar amanhã -quer dizer, em 2100. Não é nada disso. O mundo não vai acabar amanhã nem em 2100. Só está esquentando, devagar, há tempos. Desde 1850. E por causa de leis da física que valem tanto quanto a da gravidade. Só que ninguém dava ouvidos aos ecochatos, nerds e inimigos do desenvolvimento econômico.

Será tudo culpa -ou mérito- de Al Gore? O documentário por ele estrelado, ‘Uma Verdade Inconveniente’, decerto terá exercido alguma influência. Pouca. Em São Paulo foi exibido em salas minúsculas, que nem chegavam a lotar com os pré-convertidos que aplaudiam no final a confirmação do que já pensavam. Verões e invernos esquisitos, no sul e no norte do globo, tampouco se qualificam como arma fumegante da mudança do clima sobre o clima. Houve outros, mesmo neste breve século 21, sem que ninguém sentisse calores. Onda de calor na Europa? O tsunami não, embora alguns achem que sim. Katrina e Catarina, talvez. A seca na Amazônia. Quem sabe o urso polar, sem gelo para pisar no Ártico. Sei lá.

MARCELO LEITE é doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, autor do livro paradidático ‘Pantanal, Mosaico das Águas’ (Editora Ática) e responsável pelo blog Ciência em Dia (www.cienciaemdia.zip.net).’



TELEVISÃO
Daniel Castro

Novela das oito da Globo terá ‘ícone gay’

‘Próxima novela das oito da Globo, ‘Paraíso Tropical’ manterá a tradição das últimas tramas do horário de ter pelo menos um personagem gay.

‘Paraíso’, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, terá três personagens fixos ligados à temática homossexual, fora os eventuais. Dois deles, Rodrigo (Carlos Casagrande) e Tiago (Sérgio Abreu) formarão um casal ‘bem aceito por todos os personagens’, de acordo com a sinopse da novela.

Rodrigo será assistente de Antenor (Tony Ramos) na empresa em que boa parte da trama se desenrolará. A sinopse o define como ‘não afeminado’. Tiago, recepcionista no hotel de Antenor, será sobrinho de Virgínia Batista (Yoná Magalhães), essa, sim, um ‘personagem gay’ novo nas novelas.

Virgínia será um ícone dos gays, que gritam seu nome quando ela passa na rua.

Apesar da idade (Yoná tem 71), Virgínia é descrita como uma pessoa ‘bonita, corpo perfeito, que malha todos os dias’. Usa calças justas, salto alto e bijuterias chamativas. ‘Ela surgiu como garota propaganda na época da TV ao vivo. Sem ter qualquer talento especial, sempre trabalhou para se sustentar. Foi júri de programa de auditório, conhecida por dar notas dez, e apresentou shows de travestis’, conta Braga.

Ao lado do trambiqueiro Belisário (Hugo Carvana), Virgínia será um dos pilares cômicos de ‘Paraíso Tropical’.

PRÓXIMOS CAPÍTULOS 1’Caminhos do Coração’, novela que em julho substituirá ‘Vidas Opostas’ na Record, terá uma trama de história em quadrinhos. ‘A história central será a de um policial federal que protege uma artista de circo e crianças e adolescentes mutantes’, revela o autor Tiago Santiago, que volta depois da bem-sucedida ‘Prova de Amor’. ‘Vou me enveredar para o realismo fantástico’, diz.

PRÓXIMOS CAPÍTULOS 2Bianca Rinaldi interpretará a artista de circo. Ela será acusada de ter matado o dono de uma clínica de reprodução assistida onde se desenvolveu um projeto de mutação genética. Cada jovem mutante terá um poder (visão de águia, asas, supervelocidade etc.) e viverá sempre sob ameaça de alguém que quer exterminá-los.

DONO DO DOMINGOOs programas de Silvio Santos no SBT voltarão a ser exibidos apenas aos domingos à tarde, e não mais durante a semana, a partir de março. O apresentador comandará novas edições do ‘Bailando por um Sonho’ e do ‘Topa ou Não Topa’.

CASAL 20Intérpretes de Luciano e Gisele em ‘Páginas da Vida’, em que formam um casal adolescente, Rafael Almeida e Pérola Faria trabalharão juntos no cinema. Foram contratados para dublarem os principais personagens de ‘Ponte para Terabítia’, filme infantil que será lançado com estardalhaço em março pela Imagem Filmes.

CULTURA NO ‘BBB’ Os participantes de ‘BBB 7’ têm usado páginas de um livro para confeccionarem cigarros.’

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Diretor do ‘Big Brother’ pede para sair

‘O diretor-geral do ‘Big Brother Brasil’, J.B. de Oliveira, o Boninho, pediu afastamento do cargo, que ocupa desde 2001, quando o programa começou a ser produzido. Boa parte do sucesso do ‘Big Brother’ brasileiro é atribuído a Boninho.

A auto-indicação de Boninho ao ‘paredão’ da Globo aponta para uma tendência de esgotamento do programa, mas não teria a ver com a queda de audiência que o ‘reality show’ registra nesta sétima edição.

As edições de terça-feira de ‘BBB’, que marcavam 50 pontos no Ibope há dois anos, caíram para 41 neste ano. O ‘reality’ perdeu alguns pontos para ‘Vidas Opostas’, da Record, mas continua sendo um megassucesso de audiência (dá mais do que ‘A Grande Família’, que vai ao ar na mesma faixa de horário) e de faturamento.

Além disso, em 2005, ‘BBB’ era precedido pela novela ‘Senhora do Destino’, maior audiência das 21h nesta década, que encerrava os capítulos marcando mais de 60 pontos. Hoje, ‘Páginas da Vida’ dificilmente passa dos 50.

Na semana passada, ‘BBB 7’ deu sinais de reação. Graças à indicação ao ‘paredão’ de um personagem acusado de homofobia, o programa finalmente ‘repercutiu’, virou assunto nas rodas de conversas.

A Folha apurou que ‘BBB 7’ teve um início tumultuado nos bastidores. Diretores da Globo acharam o elenco desinteressante para o telespectador mais pobre. Sobrou até para Pedro Bial. O apresentador, avaliou-se na Globo, não conseguiu entrar em ‘sintonia’ com a casa, entrosar-se com os participantes, perdeu a agilidade que demonstrou em outras edições. Não entrou no ar.

O diretor Boninho nega haver qualquer problema com o jornalista. ‘Pedro dá um show no comando e participa ativamente de tudo’, afirma. Perguntado sobre eventuais mudanças nas próximas edições, ele se entrega: ‘Provavelmente, a mudança será na direção, já estamos discutindo isso’, afirmou, via e-mail.

Boninho não revelou os motivos de seu pedido de afastamento do programa. A pessoas próximas, ele confidenciou que está cansado, que não agüenta mais ficar sem ver os filhos nas férias. Além disso, não estaria mais suportando a pressão da cúpula da Globo, que reclama de quase tudo do ‘reality show’, da música que toca nas festas ao som sobreposto aos palavrões dos participantes.

Para Boninho, ‘Big Brother Brasil’ ‘pode durar muito’ -a Globo já comprou diretos para exibi-lo até 2011. O diretor acha ‘que ainda é cedo’ para trocar os participantes anônimos por famosos. ‘O maior desafio seria o elenco. Não seria interessante escalar um grupo sub-VIP. E convencer estrelas ‘reais’ a participar de um programa como esse, com três meses de exposição, vai dar trabalho’, afirma.

Boninho não acredita que o maior número de participantes (16 começaram o programa neste ano) tenha afastado o telespectador no início. ‘Fizemos a opção de colocar mais pessoas para dar tempo ao público se acostumar e conhecê-los melhor. A casa vai bem, os participantes estão funcionando como imaginávamos. O jogo está melhor e nos livramos do espírito chato e de união do ‘BBB 6’. Temos intrigas, romances, panelinha, traição. Está tudo aí’, defende Boninho.’

Thiago Ney

Briga e sexo dão tempero ao ‘reality’

‘Pedro Bial chamando todo mundo de ‘herói’; as brincadeiras e historinhas ‘hilárias’ feitas pelos editores do programa; Pedro Bial chamando todo mundo de ‘herói’; novas regras que são apenas invencionices esdrúxulas; Pedro Bial chamando todo mundo de ‘herói’…

Parece que a Globo faz força para deixar o telespectador do ‘BBB’ irritado, mas esta sétima edição traz duas coisas que até intelectual adora: briga e triângulo amoroso.

Antes do que se imaginava, as ‘afinidades’ entre os participantes já não estão tão afinadas. E o politicamente correto foi esquecido. Felipe, o skatista machão, chamou Fani de ‘piranha’ e ‘rasgadeira’; disse que ‘sacoleira é bandida’ (Iris é sacoleira).

Certo? Errado? Deixa o povo decidir. Mandado ao paredão, Felipe foi fuzilado com o índice recorde de 93% de rejeição.

Iris e Fani estão grudadinhas em Diego. O triângulo provocou uma crise; o resto da casa está contra.

Que siga assim. Quem sabe no ‘BBB 8’ tenhamos um quadrado mágico…’

Roberto De Oliveira

Programa é ‘Malhação’ para adultos

‘Cadê a biba que se sentia perseguida pelos brutamontes supostamente homofóbicos da casa? E a carioca suburbana que falava o que vinha à cabeça?

Fãs da atual versão do ‘reality show’ podem alegar: ‘Chega de saudade, a fila anda e, com ela, veio o ‘BBB 7’. O problema é que a nova versão carece de personagens autênticos. Preferiram escalar um bando uniformizado que parece ter saído da academia para a ‘Playboy’ e a ‘G Magazine’.

O resultado? O programa virou uma espécie de ‘Malhação’ para adultos. Falta gente que se encontra na rua, na quitanda, na borracharia de estrada.

Na tentativa de dar mais ‘autenticidade’ ao confessionário, o ‘BBB 7’ instalou um detector de mentiras. Luzes verdes, amarelas e vermelhas ficam piscando numa velocidade que nem mesmo a ligeira Cida -aquela mistura de aeromoça e vidente espiritual do ‘BBB 2’- seria capaz de acompanhar.

Dá uma vontade doida de mandar todos os integrantes para o paredão de uma vez por todas.’

Laura Mattos

A Revanche

‘Parece coisa de profeta. Em 2002, aborrecido por ter sido demitido da Globo, o autor Marcílio Moraes afirmou à Folha: ‘Sei fazer novelas e, se algum concorrente me der recursos, sei como bater a Globo’.

Cinco anos depois, o improvável aconteceu. Na quarta passada e na anterior, Moraes arregalou os olhos ao ver, no seu computador ligado ao Ibope, a Record ultrapassar a audiência da Globo graças à sua novela das 22h, ‘Vidas Opostas’.

A vitória foi por sete minutos na semana passada e dez na retrasada, e a diferença chegou a três pontos (26 a 23), na Grande SP. Nas duas ocasiões, a Globo exibia jogos do Palmeiras, que atravessa uma fase ruim. Ainda assim, uma vitória da Record nesse horário é inédita. Fora isso, Moraes, 62, conseguiu o feito apenas dois anos após a retomada da teledramaturgia na TV de Edir Macedo.

Enquanto a Globo exibe a ultraconvencional ‘Páginas da Vida’, ‘Vidas Opostas’ atrai o público por sua ousadia. Metade dos personagens mora na favela, e há um retrato realista dos morros, com cenas violentas envolvendo traficantes de drogas e policiais corruptos. A audiência se amplia desde a estréia e dificulta o crescimento de ‘Big Brother’ e ‘Amazônia’.

Na Globo, Moraes trabalhou de 1984 a 2002, foi parceiro de Dias Gomes e Lauro César Muniz, entre outras grifes, e co-autor de sucessos como ‘Roda de Fogo’, ‘Mandala’ e ‘Irmãos Coragem’. Assinou a bem-sucedida ‘Sonho Meu’, mas a direção da rede nunca o elevou ao primeiro escalão de autores. Também por isso, a surpreendente liderança de ‘Vidas Opostas’ gera, confessa Moraes, um gostinho de revanche.

À Folha, ele fala disso e dos trunfos que o levaram a cumprir a profecia. Leia abaixo.

FOLHA – Ao ser demitido da Globo em 2002, o sr. disse: ‘Agora estou no mercado. Sei fazer novelas e, se algum concorrente me der recursos, sei como bater a Globo’. Profético…

MARCÍLIO MORAES – [risos] É, eu realmente sabia. Acreditava em meu talento. Saí da Globo mais por desentendimento com alguns idiotas lá do que por questão de competência. Meu contrato acabou, e não quiseram renovar. Eles me pediam ‘remake’ e eu não tinha mais saco para fazer. Insistia para que a Globo se abrisse para idéias novas dos autores. A Globo não confiava em mim, mas essa é uma longa história. Um dia vou escrever um livro de memórias pra contar. Mas não vamos falar de Globo! A Globo já era.

FOLHA – Depois de sair da Globo dessa forma, ultrapassá-la no Ibope não tem um gostinho de revanche?

MORAES – [risos] Dá um gostinho bom. Sabia que tinha competência e achava que não era reconhecido. Essa vitória me dá prazer também por vir no bojo de uma abertura de mercado, quando a Globo deixa de ser a única a fazer novelas. Vamos ver se agora deixam de dizer que sou ex-Globo. A Globo é que virou ex-Marcílio [risos].

FOLHA – ‘Vidas Opostas’ passou a Globo apenas por mérito próprio ou a culpa é da fase ruim do Palmeiras?

MORAES – Fundamentalmente, o mérito é da novela. Há uma boa história, que chegou ao clímax e ultrapassou a Globo. Não foi casual, o público vem crescendo desde a estréia. É claro que o futebol pode ter sido uma boa oportunidade, mas a novela enfrenta ‘Big Brother’, ‘Amazônia’. Não é nada fácil.

FOLHA – Quais são os trunfos de ‘Vidas Opostas’ no Ibope?

MORAES – A história é firme. Não é nenhuma novidade, a mocinha pobre que se apaixona por um rapaz rico. Mas as circunstâncias são diferentes, porque pego os dois extremos da pirâmide social. O elenco é bom, a direção do [Alexandre] Avancini, afiada. E pegou a questão da favela, da violência urbana, briga de tráfico e corrupção policial. Essa temática, não usual em novela, despertou curiosidade grande do público.

FOLHA – A Globo exibiria uma novela como ‘Vidas Opostas’?

MORAES – Creio que não. O investimento na Globo é tão alto que ela fica engessada. O potencial de merchandinsing da minha novela não se compara ao de ‘Páginas da Vida’, que se passa no Leblon, de classe média. Favelado consome pouco.

FOLHA – O seu contrato, como o de Lauro César Muniz, prevê bônus a cada cinco pontos de audiência e paga R$ 1 milhão se chegar a 30?

MORAES – Tem isso. Se der 30, no meu caso, não chega a R$ 1 milhão, não. Mas se der 30, vou te contar, não precisa nem me pagar. Vou achar tanta graça… E acho que até a Globo demitiria meus desafetos e me chamaria de volta [risos].

FOLHA – O sr. é contrário à idéia de o governo decidir a que horas os programas devem ser exibidos. ‘Vidas Opostas’ foi classificada para 21h, e o sr. defendia que fosse 20h, horário recomendado a maiores de 12 anos. Com tantas cenas de violência, acha que uma criança dessa idade pode ver [em busca de ibope, a Record depois decidiu estrear às 22h]?

MORAES – Acho que sim, talvez 14 fosse melhor [21h]. A sociedade é que é violenta, e a violência é parte intrínseca da dramaturgia. O público de Shakespeare podia ver violência e o nosso não pode ver mais? Esse negócio de má influência é vago, acho que a burrice faz mais mal do que a violência. Não é isso que fará a nossa sociedade ficar ruim. O Brasil inteiro viu em TV aberta aquele ônibus 174 à tarde [cena semelhante ajudou a novela a bater a Globo na semana passada]. Era ficção?’

***

Novela inova ao retratar a vida nas favelas

‘‘Vidas Opostas’ gira em torno do velho conto da Cinderela, com mocinha pobre apaixonada por rapaz rico. A novela da Record, contudo, inova ao fazer da heroína pobre mesmo, de ‘marré de si’.

Mora na favela e não numa casinha colorida de subúrbio. A vida no morro, tráfico de drogas, tiroteios e corrupção policial são retratados com realismo, e esse é um trunfo de ‘Vidas Opostas’.

As gravações acontecem na favela Tavares Bastos, no Catete (Rio), e são muitas as cenas externas, de ação. A estética tem como ponto de partida ‘Cidade de Deus’. A novela também traz atores do filme, como Phellipe Haagensen e Leandro Firmino, que interpretam traficantes.

‘Vidas Opostas’ apostou em iniciantes para o casal protagonista. Maytê Piragibe, que antes teve pequenos papéis, é a mocinha Joana. O ex-goleiro do Grêmio Leo Rosa (demitido por ser baixo para a profissão) estréia na TV como o milionário Miguel. O casal tem química.

O elenco traz ex-globais como Lucinha Lins, Lavínia Vlasak, Marcelo Serrado, Cecil Thiré. Também teve Márcio Garcia, que foi bem no papel de um policial corrupto, já assassinado na história.’

Lucas Neves

Faxineiro cria ‘BBB’ em sua casa

‘Em Sabará, cidade de cerca de 130 mil habitantes na Grande Belo Horizonte, todo mundo já sabe: ‘dar uma espiadinha’ significa bem mais do que assistir, na Globo, às intrigas e azarações de uma turma que está a 450 km dali, na casa carioca do ‘Big Brother Brasil’.

Para dar vazão ao voyeurismo, basta andar alguns quarteirões e acomodar-se diante da casa de Francisco Dario dos Santos, 33, o Chiquinho, onde o próprio comanda o ‘Muro Brother Brasil’, com oito participantes (todos parentes dele, com exceção do cachorro Duque) disputando a preferência de uma audiência que escolhe o eliminado da vez pelo número de batidas na porta -em que, aliás, um furo permite olhadelas generosas no cotidiano dos competidores.

Os conchavos e complôs, diz Chiquinho, são exibidos ‘quase todo dia’, em uma TV de 14 polegadas colocada num buraco do muro e virada para a rua.

Faxineiro da prefeitura, onde recebe um salário mínimo, Chiquinho decidiu criar a versão caseira do ‘reality show’ depois de mandar fitas para as sete edições oficiais já realizadas e receber uma negativa atrás da outra. ‘Não quero ficar rico, mas famoso. Meu sonho é ser apresentador de TV’, diz, explicando a insistência.

A obstinação o segue pelo menos desde 17 de janeiro de 1997, quando flagrou um sujeito em ebulição intestinal acocorado atrás de uma igreja, no que seria a transmissão inaugural da TV Muro. De lá para cá, o Murojac (corruptela do Projac global) já produziu atrações como o jornal esportivo ‘Muro Espetacular’ e a revista gastronômica ‘A Hora da Janta’.

O ‘Muro Brother Brasil’, no ar há nove dias, é o carro-chefe das comemorações dos dez anos do canal. Na disputa por uma cesta básica, estão, além do cão Duque, Tayná, 11, Taís, 8, e Sandy, 7, enteadas de Chiquinho; a mãe, Maria da Piedade, 68; a irmã dele, Maria de Fátima, 48; a sobrinha Fabrícia, 17; e a cunhada Jucélia, 16.

Chiquinho Mial

No ‘murão’ da última quarta-feira, quem deixou a competição foi Maria de Fátima, a Risadinha, que, dois dias antes, dissera à Folha se achar parecida com a DJ paranaense Analy, do ‘BBB7’, ‘por causa do jeito comunicativo’ -a reportagem pôde comprovar. A eliminação rendeu pico de audiência de 28 pessoas na porta da casa, segundo aferiu, pelo buraco do portão, a matriarca e ‘guardiã’ (versão para o ‘anjo’ do ‘BBB’) vitalícia Maria da Piedade.

A interação do público com o ‘Muro Brother’ vai além das batidas na porta: a ‘câmera do povo’, encarapitada no telhado, grava perguntas dos espectadores para os confinados. As respostas são exibidas na TV Muro. Se não forem satisfatórias, há sempre a possibilidade de inquirir os participantes cara a cara, pelas ruas da cidade, já que o isolamento é parcial: a criançada vai à escola, e os adultos trabalham. À noite, entretanto, todos devem se recolher ao número 299 da rua São Francisco, uma antiga (e, reza a lenda, assombrada) fábrica de caixões, para cumprir as tarefas ditadas por Chiquinho Mial (o Bial das alterosas), desabafar e lavar a roupa suja no confessionário, leia-se, banheiro.

A lista de regras inclui imunidade tripla para a ala mirim (ou seja, as crianças têm que ser votadas quatro vezes para sair) e proibição de álcool, cigarro e palavrão na casa. Quem perder a linha está fora.

Se a rotina doméstica ficar monótona, Chiquinho sabe como afastar o marasmo. ‘Haverá filmagens externas: na missa e na ‘pelada’ de rua.’ Os passos do grupo serão seguidos por uma engenhoca chamada ‘bike link’ (leia acima). A gincana termina junto com o ‘BBB’, ou seja, daqui a mais de um mês.’

Bia Abramo

O esporte e sua interminável falação

‘O ESPORTE é ‘cosa mentale’: boa parte de sua fruição acontece bem longe de campos e arenas e pistas e quadras. É quase como se o jogo, a disputa, a partida fossem, no fundo, meros pretextos para o que vem depois: uma atividade cerebral profusíssima, em torno de informação, opinião e paixão.

O espectador de esporte gosta de ver, de assistir e de vibrar, mas como preliminares. O gozo acontece na troca de idéias, no jogar conversa fora, no embate verbal. Um gol, um ponto, um lance qualquer pode render horas e horas de falatório, de discussão e, claro, de briga.

É incrível como se fala de esporte a julgar pelos canais esportivos -mais do que de sexo, dinheiro ou política.

Não que isso seja problema, mas, para os não-aficionados, é espantosa a capacidade que o esporte tem de se tornar um terreno tão fértil para a falação. Comenta-se sobre tudo e todos: os jogos e resultados, claro, mas também a administração das equipes, o comportamento dos jogadores, os humores das torcidas, o caráter nacional associado (ou não) a esse ou aquele esporte…

A ESPN estreou uma série de novos programas neste início de mês que exploram essa característica intensamente oral do gosto pelo esporte. O mais divertido, em termos de formato, trata-a com uma certa ironia: ‘É Rapidinho’ define um menu de dez temas e estabelece um teto de dois minutos para os comentários de três especialistas, Flávio Gomes e Antero Greco, mais um convidado por semana. Ao final do tempo, cujo decorrer o espectador acompanha numa espécie de ‘janela’, soa um gongo e o apresentador João Carlos Albuquerque interrompe a conversa sem mais cerimônia. No programa de estréia, o gongo ganhou de 10 x 0 dos comentaristas. É de se perguntar se a disciplina de síntese e concisão vai se impor.

‘Juca Entrevista’ privilegia a conversa em passo mais lento e em mais profundidade com o jornalista Juca Kfouri e personalidades do universo esportivo. Funciona, é claro, porque Kfouri tem larga estrada, mas pode ser excessivo -o programa é apresentado três vezes por semana.

E como a televisão realmente é decisiva no jogo esportivo atual, inclusive na formação do gosto do espectador, dois programas dedicam-se aos esportes ‘globalizados’. ‘Fora de Jogo’ trata do futebol, que se tornou fenômeno mundial porque se internacionalizou de fato, e ‘The Book Is on the Table’, no sentido contrário, mostra esportes dos EUA que ganharam audiência global.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

O Globo

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