Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 19 E 20/4

Folha de S. Paulo

22/04/2008 na edição 482

CASO ISABELLA NARDONI
Daniel Castro

Caso derruba comerciais por 3 h na Globo

‘O caso Isabella derrubou ontem um dos pilares da política de qualidade da Globo: o respeito aos intervalos comerciais.

Para transmitir o deslocamento de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta da menina, até uma delegacia, a Globo jogou fora na Grande SP toda a sua programação infantil e exibiu um ´SP TV` ´especial` com três horas e 16 minutos de duração.

A emissora derrubou todos os intervalos comerciais das 9h30 às 12h31. Na sexta anterior, a ´TV Globinho` (programação infantil) teve três intervalos.

A Globo argumenta que o corte da ´TV Globinho` se justifica porque foi ´um dia jornalisticamente relevante´. A emissora avaliou que o caso Isabella seria esclarecido ontem.

A Globo informa que os anúncios da ´TV Globinho´, por serem segmentados, não entraram no ´SP TV´. Os anunciantes serão compensados.

Não é reação

A emissora nega que a transmissão de mais de três horas ininterruptas de um caso policial seja reação às recentes derrotas para a Record, no mesmo horário. A opção por Isabella deu certo: o longo ´SP TV` marcou 13 pontos, contra 9 da Record, segundo dados preliminares.

Com a suspensão da ´TV Globinho´, a Globo igualou o caso Isabella a coberturas de alta relevância, como o 11 de Setembro, os ataques do PCC (2006) e a visita do papa (2007).’

 

É ´crueldade` prejulgar o casal, afirma advogado

‘O advogado Ricardo Martins, um dos defensores do pai e da madrasta de Isabella, diz ver como ´crueldade` a forma como o casal está sendo julgado ´antecipadamente´.

A defesa afirma que Alexandre Nardoni e Anna Jatobá são inocentes. O assassino da menina, segundo ela, seria alguém escondido dentro do apartamento quando a menina foi deixada pelo pai.

Martins fez referência a um texto bíblico para pedir calma aos que acusam a dupla. ´Estão julgando a família antecipadamente e com uma crueldade que eu não consigo nem sequer mensurar. As pessoas deveriam ter o mínimo de consciência. Não julguem para não serem julgados´, afirmou.

O advogado não comentou a decisão da polícia de indiciar o casal nem sobre o resultado da perícia, que trouxe novos detalhes sobre o que ocorreu na noite de 29 de março.

Ele falou com jornalistas ontem pela manhã, diante da casa dos pais de Alexandre Nardoni, no Tucuruvi (zona norte de São Paulo), momentos antes de o casal ser levado à delegacia para depor. Nesse horário, nem dos dois detalhes eram ainda conhecidos ou divulgados.

Até a conclusão desta edição, os advogados que defendem o casal acompanhavam o depoimento de Anna no 9º DP (Carandiru). A previsão era que interrogatório (a estudante seria indiciada) fosse concluído por volta das 3h de hoje.

A família e os advogados do casal, segundo a Folha apurou, já esperavam pelo indiciamento. Para eles, isso era esperado pela forma como a polícia vem conduzindo as investigações, ao colocar, desde o início, os dois como os únicos suspeitos.

Nesse afã, ainda segundo a tese da defesa, a polícia deixou de apurar fatos importantes que poderiam provar a existência de uma terceira pessoa na cena do crime e o responsável pelo assassinato da menina.

Para os advogados, quanto mais o caso for investigado, mas clara ficará a inocência do casal. Os dois (pai e madrasta), segundo eles, eram apaixonados pela menina e estão entre as pessoas que mais querem encontrar os culpados.

O principal argumento utilizado pela defesa para dizer que não há provas suficientes contra o casal para indiciá-lo e, muito menos, condená-lo, é a liminar concedida pelo Tribunal de Justiça que suspendeu a prisão temporária do casal. Para os advogados, o desembargador Caio Eduardo Canguçu de Almeida, ao conceder a liminar, demonstrou a fragilidade das provas contra os dois.

Canguçu analisou principalmente se o casal estava agindo para atrapalhar a investigação -o que, para ele, não ocorreu.

Quando falou com jornalistas na manhã de ontem, Martins era cercado por repórteres e mais cerca de 300 pessoas que tentavam ver o casal deixar a casa. Parte dos curiosos gritava palavras como ´justiça` e ´assassinos´. Um objeto foi atirado contra a dupla quando entrava no carro da polícia.

Martins queixou-se do fato de a família ter tido de contratar seguranças particulares por causa dos ânimos exaltados das pessoas do lado de fora. Para ele, isso é ´humilhante´.

Na noite anterior, pedaços de tijolo foram atirados contra a casa dos pais de Nardoni. Em muros vizinhos, há pichações acusando o casal de ter assassinado Isabella. ´Eu gostaria de pedir que respeitem esta família´, disse o advogado.’

 

José Gregori

Um crime infame e o show de horrores

‘Tenho acompanhado o caso do assassinato da menina Isabella de forma ansiosa, mas ao mesmo tempo tenho refletido sobre a cobertura dada ao caso pela imprensa e pela mídia de nossa sociedade do espetáculo.

Sim, porque embora os veículos de comunicação devam cumprir o seu dever/ dogma de reportar a notícia, verificamos que a violência inominável contra uma criança serve como desculpa para a montagem de um show em capítulos.

A verdade objetiva manda dizer que o fato das instituições, cujo caso está afeto, terem demorado em demasia na apuração dos fatos contribuiu para isso.

Conforme as investigações prosseguem, novos indícios apontam para esta ou aquela direção -negligência, barbarismo ou fatalidade-, mas uma coisa é certa: o inquérito não está concluído.

Até quando teremos que ouvir no Brasil -´o laudo técnico estará concluído em 15 dias´? E enquanto isso, muitos foram julgados em praça pública. Infelizmente, o sigilo na investigação nunca existiu, apesar da tentativa de um juiz em fazer respeitá-lo.

Não se trata de privar os cidadãos do direito à informação -repito, dogma da democracia-, mas de tratar um tema tão delicado da forma correta. Causa choque ler e ouvir nos meios eletrônicos supostos detalhes do estado do corpo da criança e de como foi a sua queda. A cada instante, uma nova especulação é noticiada por um veículo, seguida de um desmentido. Tem razão o cientista social Sergio Miceli, que afirma que o jornalismo televisivo está cada vez mais próximo das novelas, mas talvez possamos ampliar essa conceituação para os demais. A notícia é tratada como um enredo que o público ávido acompanha a cada instante, com diversos atores buscando o seu lugar ao sol: a suposta testemunha aqui, o promotor lá, a teatralidade de uma delegada acolá.

No entanto, é importante ressaltar que não estamos diante de uma novela, ou de um filme policial onde se disseca a vítima em público. A questão da violência, doméstica ou não, não pode ser tratada com essa falta de critério e de respeito. Não é um tema banal, pois essa forma de abordagem gera mais violência, fazendo com que nos tornemos indiferentes ao sofrimento do nosso próximo. Banaliza-se uma tragédia.

A dor não propicia um momento de reflexão, ou a tentativa de entender em profundidade o problema de uma sociedade exponencialmente violenta, mas sim provoca uma ensurdecedora gritaria e um escândalo vulgar. Foge-se do problema e cria-se outro. A justiça, os direitos humanos da vítima, uma criança indefesa, e daqueles que perderam a neta, filha ou enteada são postos em segundo plano. Editores ou colunistas têm alertado para o desrespeito, mas infelizmente vence a pirotecnia da violência.

No caso, alguém já indagou se um juiz da infância, exímio especialista na matéria, já se manifestou para saber que tipo de vida tinha essa criança com dupla família?

Este caso e o outro envolvendo a tortura de uma menina em Goiás devem servir de basta. Embora contemos com um instrumento específico de proteção às crianças -o ECA-, muito deve ser construído para protegê-las física e moralmente. A Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) coloca que esta possui, como qualquer outro ser humano, dignidade e, com base em sua vulnerabilidade específica, possui direitos especiais.

Onde estás, Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente)?

O poder público deve adotar uma postura de sobriedade diante dos últimos atentados à criança no Brasil, fazendo com que os envolvidos direta ou indiretamente sejam poupados até o término dos inquéritos, em especial quando não existem provas conclusivas. Devem ser levantados exaustivamente todos os fatores que influem no caso -policiais, legais, familiares e sociais- para contextualizar o fato. Temos que lembrar sempre o que aconteceu no caso da Escola Base -inocentes foram prejulgados, as suas vidas foram destruídas e nem sabemos ao certo o dano provocado às crianças, usadas como pivô de um enredo infeliz.

Todos nós exigimos justiça neste e em qualquer caso de violência, em especial quando praticada contra uma criança, mas deste circo acho muito difícil que saia a verdade.

José Gregori foi ministro da Justiça e secretário Nacional de Direitos Humanos, no governo FHC. É presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos de São Paulo’

 

CORDIALIDADE
Clóvis Rossi

Liberdade em mão única

‘ROMA – Lembra-se da discriminação e maus-tratos a cidadãos brasileiros que tomaram os jornais faz pouco? Imagino que você deva ter dado um sorriso de superioridade e pensado: no Brasil essas coisas não acontecem, porque somos a quintessência do povo cordial, conforme diz a lenda. Pois esconda o sorriso e jogue a lenda no lixo. Brasileiro não é nada cordial com os estrangeiros, conforme pesquisa feita pelo Latinobarómetro e ontem resumida nesta Folha por Andrea Murta. O Latinobarómetro é o melhor metro para medir os humores dos latino- americanos.

Para começar, só 37% dos brasileiros consultados aprovam a livre circulação de pessoas. Ou, posto de outra forma: toda a chiadeira em torno dos bloqueios impostos por Espanha, Irlanda, Estados Unidos etc. pode ser traduzida assim: viva a livre circulação de pessoas, desde que seja a da minha pessoa, não a dos outros.

Na média latino-americana, a livre circulação é aplaudida por apenas 44%, o que significa que ela é aprovada desde que só tenha um sentido: do meu país para o país dos outros.

Reforça essa sensação o fato de que em nenhum dos 18 países em que foi feita a pesquisa aparece uma maioria favorável a que estrangeiros venham viver por estas bandas, mesmo que sejam da raça que predomina no país. No Brasil, só um em cada cinco aceita a ´invasão` estrangeira. Se for de outra raça, então, menos ainda (17%). Se for de país pobre, 18%.

Até entendo o medo de abrir as portas muito amplamente. Aqui na Itália, esse medo foi importante para o resultado eleitoral. Não é mesmo trivial aceitar o ´diferente´, como necessariamente é o estrangeiro. Mas, neste caso, como em tantos outros, não dá para reclamar de que os outros não nos queiram e, ao mesmo tempo, não querer que invadam a nossa praia.’

 

LACUNA
Ruy Castro

Girafas no zoológico

‘RIO DE JANEIRO – José Lino Grünewald telefonou e perguntou se eu poderia ir à redação do ´Correio da Manhã` aquela noite. Queria me recomendar ao redator-chefe, Newton Rodrigues, para um estágio na reportagem do jornal. Respondi: ´Que dúvida!´. Era fevereiro de 1967 e eu acabara de fazer 19 anos. Trabalhar num jornal -e no ´Correio da Manhã` -era o único sonho que até então tivera na vida.

O ´Correio` era um reduto da inteligência brasileira e da resistência à recém-instalada ditadura militar. José Lino, que eu já conhecia havia dois anos, era editor do Segundo Caderno. Em minha cabeça piscaram os ensaios que eu escreveria sobre as candentes questões culturais da hora. No Brasil, o cinema, o teatro, a música popular e o movimento estudantil pegavam fogo. E, com a pílula à venda na farmácia da esquina, começara a ´revolução sexual´. Lá fora, havia os Beatles, os filmes de Godard, o LSD, a contracultura, o Poder Jovem.

Newton Rodrigues me recebeu muito bem e disse duas coisas. Primeiro, que eu trabalharia como um profissional e receberia como amador. Ou seja, trabalharia de graça. Não me importei -morava com meus pais no Flamengo, eles também fãs do ´Correio´, não precisava de dinheiro. Segundo, eu começaria pela reportagem geral. José Lino riu e disse que isso significava cobrir o buraco de rua, o cachorro atropelado e o nascimento da girafa no zoológico. Meu mundo caiu, mas aceitei assim mesmo.

Aconteceu que, com os choques diários entre a polícia e os estudantes, um ou outro atentado a bomba e a vinda de Kim Novak ao Rio aquele ano, nunca precisei cobrir o nascimento da girafa. Vejo agora que o casal de girafas Zagallo e Beija-Céu está se acasalando no zôo do Rio. Estou pensando em ir lá e preencher esta lacuna em minha vida profissional.’

 

CHINA
Raul Juste Lores

Paranóia olímpica

‘O GOVERNO chinês aposta alto no surto nacionalista. Jornais e televisão estatais falam sem parar no complô que ´potências e mídia ocidentais` armam contra a Olimpíada de Pequim.

Inventar um inimigo externo até pode ser vantajoso para a política doméstica imediata do Partido Comunista, há 58 anos no poder, mas já compromete os Jogos, que seriam a exibição de desenvolvimento do país.

Pela propaganda e pelo trato dado aos dissidentes e ao Tibete, o que a China mostra é a sua velha cara autoritária. Só um punhado de belos prédios não é garantia de modernidade.

A China enriqueceu e prosperou ao se abrir para o resto do mundo. Apesar de os estudantes chineses aprenderem que o país foi ´humilhado` nos últimos 150 anos por potências ocidentais, as maiores calamidades que o país sofreu no século passado foram ações internas de seus líderes -dos 30 milhões de mortos de fome no Grande Salto à repressão da Revolução Cultural.

Na última década, chefes de Estado e donos das maiores empresas do mundo chegaram a Pequim como vassalos dos tempos modernos.

Em troca de negócios com o país, deixaram de lado os direitos humanos, a devastação do meio ambiente local e, principalmente, a situação do trabalhador chinês -digna da Londres do século 19 em algumas linhas de montagem.

Pela mesma razão, o Comitê Olímpico Internacional concedeu a Olimpíada a Pequim, ainda que a cidade seja a mais poluída do mundo. A promessa de que haveria um respeito maior aos direitos humanos foi esquecida -e nem é cobrada pelo COI. O número de prisões de dissidentes aumentou.

O extraordinário sucesso econômico chinês alcançado nestas últimas três décadas não exime o país de críticas externas. Felizmente, nem tudo na vida se resume a dinheiro, como alguns comunistas parecem crer.

Ao se tornar potência e querer abrigar eventos internacionais, a China precisa estar mais madura para a democracia que existe fora de suas fronteiras.

Protestos contra a tocha olímpica na Europa ou críticas exageradas feitas na rede de TV CNN não podem ser reprimidos ao estilo chinês. Alguns tibetanos devem comemorar o empurrãozinho que a linha-dura chinesa deu à promoção de sua causa.

Bush recorreu ao nacionalismo ferido para invadir o Iraque, passando por cima da ONU. Foi criticado em casa e em todo o mundo, inclusive pela China. Até se reelegeu. Mas essa história a gente já sabe como acabou.

RAUL JUSTE LORES é correspondente em Pequim.’

 

Presos na China por protestos chegam a 2.200

‘Cerca de cem pessoas foram detidas ontem em Qinghai, Província chinesa próxima ao Tibete, por protestarem contra a prisão de religiosos e a invasão de um monastério local. O número oficial de pessoas presas desde o início dos protestos no Tibete, em 14 de março, já é de 2.200.

As pressões pró-Tibete acirraram o nacionalismo chinês contra empresas e meios de comunicação ocidentais, inicialmente instigado pela imprensa oficial. Ontem, porém, Pequim pediu que os cidadãos direcionem seu ´zelo patriótico` para a economia, num sinal de que pretende esfriar a reação.

Com agências internacionais’

 

TELEVISÃO
O Estado de S. Paulo

Witte Fibe será a nova âncora do ´Roda Viva´

‘A jornalista Lillian Witte Fibe, 54, assumirá, a partir de junho, a apresentação do ´Roda Viva´, segundo anunciou ontem a TV Cultura. A emissora ainda não decidiu quem será o mediador do programa até a sua estréia.

Witte Fibe substitui o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, 55, novo ombudsman da Folha.

Formada pela USP, Witte Fibe foi apresentadora do ´Jornal Nacional` e âncora do ´Jornal da Globo` e do ´Jornal do SBT´. Seu último trabalho foi como âncora do site UOL News.’

 

LIVRE ACESSO
Claudio Dantas Sequeira

Governo promete aprovar lei de acesso livre a dado público

‘O governo Lula se comprometeu nas Nações Unidas a aprovar uma lei de acesso à informação pública. Dentre as 15 recomendações feitas nesta semana pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, a de número dez insta o Brasil a fazer ´o máximo para que o Congresso adote a lei sobre acesso dos cidadãos à informação pública´.

O documento foi firmado por Rogério Sottili, secretário-adjunto da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), da Presidência da República. ´Nós apresentamos o tema como uma meta voluntária do governo Lula´, disse Sottili à Folha.

Segundo ele, a Casa Civil trabalha há seis meses ´num projeto de acesso à informação pública´.

Para o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), as recomendações feitas pela ONU ´vão ficar só na recomendação´.´Não há o que fazer. Com tanta medida provisória trancando a pauta, não vamos conseguir votar nada até o final do ano´, afirmou ele à reportagem. As recomendações foram feitas na Revisão Universal Periódica, balanço anual dos países membros.’

 

CAMPANHA
Catia Seabra

Kassab usa evento para gravar cenas de campanha com Serra

‘Uma equipe da campanha de Gilberto Kassab (DEM) filmou ontem a participação do governador José Serra (PSDB) na inauguração da 100ª unidade de AMA (Assistência Médica Ambulatorial) da cidade. Ao lado de Serra e do prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, Kassab usou microfone sem fio, numa cerimônia marcada por elogios de tucanos à sua gestão e cochichos do democrata ao ouvido do governador.

A presença de uma equipe de TV -composta por repórter, cinegrafista e técnico de som- revela não só a disposição de Kassab de disputar a reeleição mas também a intenção de exibir imagens de Serra no programa eleitoral do DEM.

A Justiça Eleitoral proíbe a participação de filiado a um partido no programa eleitoral de candidato de outra sigla. Mas, para especialistas, o conceito de participação pode ser a gravação de um depoimento. Não a exibição de imagens.

Procurado pela Folha, o publicitário José Maria Braga -convidado para assumir a comunicação da campanha de Kassab- afirmou que pretende apresentar, ao longo da disputa, marcas da administração.

´É preciso mostrar as inaugurações. O que vou fazer com as imagens do governador? Apagá-las?´, reagiu.

Ontem, na Casa Verde, a equipe também gravou depoimentos de médicos da recém-inaugurada AMA Vila Barbosa.

Além dos discursos de Kassab e Serra, a equipe registrou os agradecimentos do secretário municipal de Saúde, Januário Montone, a Kassab -a quem chamou de ´comandante-em-chefe´- e a Serra.

´Espero que essa parceria sobreviva aos mares revoltos em benefício da cidade´, discursou Montone, que foi presidente da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) quando Serra era ministro da Saúde.

O líder do PSDB na Câmara Municipal, Gilberto Natalini, também parabenizou Kassab pela ´continuidade das ações do prefeito Serra´. ´Não mudou uma vírgula.´

Cinco vereadores do PSDB participaram da solenidade. Na quinta-feira, a bancada se reunirá com o ex-governador Geraldo Alckmin, a convite deste. Segundo Natalini, a idéia é fazer um apelo pela manutenção da aliança na cidade, ainda que Alckmin seja cabeça de chapa.

Na cerimônia, Kassab exaltou a parceria com Serra. Dirigindo-se ao tucano, usou a primeira pessoa do plural (´nossa´) para se referir à gestão.

Segundo ele, ´a cidade de São Paulo nunca teve uma parceria com um governador com essa profundidade e extensão´.

Antes de passar a palavra para Serra, Kassab pediu aplausos para o governador.

´Ele é o grande responsável pelo bom momento que vive a saúde pública na cidade.´

À saída, Serra esquivou-se de falar sobre eleições.’

 

CUBA
France Presse

´Granma` diz que preguiça é o maior desafio às mudanças

‘Matéria do jornal oficial ´Granma` identificou o maior vilão das reformas lançadas pelo dirigente Raúl Castro em Cuba: a preguiça.

´Mudanças. Melhora do nível de vida. Diminuição das proibições. Todos apostamos que o país caminhará se nos comprometermos, mas estamos todos realmente engajados para que a sociedade cubana dê o passo necessário?´, perguntou o artigo.

Junto, fotos mostravam um grupo de jovens sentado ao lado de um lixão e um homem dormindo em um banco de uma praça. ´Quantos nos deixamos abater pela preguiça? Quantos cruzamos os braços enquanto o resto trabalha?´, continua o texto.

Desde que assumiu o poder em fevereiro, Raúl Castro anunciou reformas na agricultura e autorizou o acesso de cubanos a hotéis, além da venda de eletrônicos e de celulares.

Segundo a edição de anteontem do jornal espanhol ´El País´, a bola da vez agora será o anúncio, em breve, da suspensão das restrições às viagens de cubanos ao exterior. A maioria dos cubanos não precisaria mais de permissão oficial nem de carta-convite do país a ser visitado. Hoje, obter permissão de saída da ilha custa 150 pesos conversíveis (US$ 180) e leva meses, sem garantias de resposta afirmativa.

Funcionários da Imigração cubana e embaixadas estrangeiras disseram ontem que ainda não foram notificados das mudanças.

Em Washington, porta-voz da Casa Branca chamou de ´cosméticas` as reformas, por ´não representarem mudança na natureza do sistema [socialista]´.’

 

ITÁLIA
Folha de S. Paulo

Berlusconi ´atira` em jornalista

‘Mal garantiu sua volta à chefia do governo da Itália, nas eleições encerradas na última segunda, Silvio Berlusconi reavivou memórias sobre seu estilo controvertido em entrevista na Sardenha. Incomodado com uma pergunta feita ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, com quem se reuniu ontem, ele fez com as mãos o sinal de quem empunhava um fuzil contra a imprensa.

O episódio foi detonado quando uma repórter russa questionou Putin, 55, sobre relatos de que ele teria se divorciado de sua mulher, Lyudmila, para se casar com a deputada Alina Kabayeva, 24, ex-campeã olímpica de ginástica rítmica.

´Não há uma palavra de verdade nisso´, respondeu o presidente russo. ´Eu sempre reagi negativamente a [jornalistas] que, com seus narizes empinados e fantasias eróticas, metem-se na vida dos outros.´

Em seguida, Berlusconi sugeriu que talvez Putin quisesse trocar os repórteres russos pelos italianos. ´Eu me encarrego disso´, afirmou, imitando com as mãos uma arma apontada para a jornalista que fez a pergunta, Natalia Melikowa. Ela chorou ao fim do evento.

Assim como Melikowa, a Federação Nacional de Imprensa da Itália também não achou graça. ´As brincadeiras de Berlusconi são inconvenientes, principalmente se levarmos em conta que nos últimos dez anos foram assassinados mais de 200 jornalistas na Rússia´, afirmou o secretário-geral do órgão, Franco Siddi.

O tablóide ´Moskovski Korrespondent´, o primeiro a divulgar os rumores sobre o noivado de Putin, anunciou ontem a suspensão de sua edição, mas negou pressão política.

Além da relação áspera com a imprensa, os dois líderes têm em comum o fato de cultivarem a imagem de conquistadores. Putin não economizou comentários sobre o sexo oposto.

´Em muitas publicações, os nomes de jovens russas lindas e bem-sucedidas são mencionados´, disse o presidente. ´Não seria inesperado se eu dissesse que gosto de todas elas -assim como gosto de todas as mulheres russas.` ´As russas´, completou, ´são as mais talentosas e belas mulheres do mundo.´

E fez uma concessão a Berlusconi: ´talvez apenas as italianas possam competir´.

Com agências internacionais’

 

MERCADO
Bloomberg

Queda do dólar eleva lucros de Coca-Cola, Google e IBM

‘A desvalorização do dólar ajudou a elevar os lucros do primeiro trimestre de empresas como Coca-Cola, IBM e Google -e a queda da moeda pode continuar protegendo as empresas norte-americanas da desaceleração da economia do país.

O declínio de 6,4% do dólar ante uma cesta de moedas nos últimos três meses barateou os produtos fabricados nos Estados Unidos para os compradores externos e aumentou o valor das vendas internacionais no momento em que elas são convertidas para dólares. O crescimento econômico da Europa, da China e do Brasil está superando a expansão dos Estados Unidos e ajudando as empresas que obtêm a maior parte de sua receita fora do território norte-americano.

´Existe uma economia global que, por acaso, está crescendo a um ritmo mais acelerado do que os EUA e um dólar que aparentemente vai continuar registrando novas baixas´, disse Brian Rauscher, diretor de estratégia de carteiras da Brown Brothers Harriman. ´Excessivamente otimistas´, segundo ele, os investidores não percebem a ligação entre o dólar e o crescimento mundial.’

 

Ações do Google têm maior valorização desde abertura de capital

‘As ações do Google subiram ontem 19,99%, a maior alta registrada desde seu IPO (oferta inicial de ações), em agosto de 2004, puxadas pelos dados positivos divulgados anteontem. O lucro da empresa atingiu US$ 1,31 bilhão no primeiro trimestre, resultado 31% maior que o do mesmo período de 2007. As vendas internacionais da empresa dispararam 55% no primeiro trimestre, aliviando o receio de que o Google esteja sofrendo com a crise econômica dos EUA.’

 

TV PAGA
Folha de S. Paulo

Net amplia lucro em 9% no 1º tri com internet e telefone

‘A Net, maior operadora de TV por assinatura do país, teve lucro líquido de R$ 32,3 milhões no primeiro trimestre, 9% acima do registrado em igual período de 2007. No mesmo comparativo, a receita líquida subiu 27%.

A base de clientes de TV a cabo cresceu 15%, para 2,56 milhões de assinantes. A empresa não detalha a participação, mas o ´triple play´, no qual o consumidor tem desconto ao adquirir mais de um serviço, vem ajudando a alavancar as vendas. A banda larga teve expansão de 61%, para 1,59 milhão de clientes, e o Net Fone via Embratel já é usado por 718 mil assinantes, 179% a mais do que no primeiro trimestre de 2007.

No final de fevereiro, a operadora acirrou a concorrência com as teles ao lançar um pacote que não incluía TV por assinatura, mas englobava internet rápida (100 kbps), telefone e recepção de canais abertos pelo cabo por R$ 39,90, valor similar ao das assinaturas residenciais.

Enquanto a telefonia móvel cresce em ritmo acelerado, a fixa segue estagnada. Segundo a Anatel, havia 39,4 milhões de linhas em operação no mês passado -2% a mais que em março de 2007. A Telefônica, que oferece o serviço no principal mercado do país, reduziu em 1,2% as linhas no ano passado.’

 

IMPRENSA E RELIGIÃO
Walter Ceneviva

Liberdades que se somam

‘AS AÇÕES INDENIZATÓRIAS que fiéis da igreja Universal do Reino de Deus movem, em diversas partes do Brasil, contra a Folha alegam que reportagem do jornal os ofendeu. A sincronização e a distribuição nacional desse movimento deixa claro que se trata de atos de deliberação conjunta, voltados para os mesmos fins. Retomo o tema porque as ações põem em choque duas liberdades dignas igualmente de proteção constitucional: a religiosa e a da comunicação social.

A novidade do choque está na arregimentação de fiéis para moverem os processos, querendo indenizações. Como se deve avaliar a situação criada? Cabe afirmar, em primeiro lugar, que qualquer indivíduo, no território nacional, é garantido pelo direito de socorrer-se do Poder Judiciário para enfrentar toda ameaça ou ofensa a direito seu, desde que satisfeitos os requisitos do processo comum. Para dar equilíbrio ao debate, devemos saber se um dos dois beneficiados pela garantia (a fé e os cultos religiosos), confrontado com o outro (a manifestação do pensamento e da cobertura noticiosa), pode reclamar tratamento diverso daquele que reclama para seu direito. A resposta é negativa. Nem um nem outro podem impor tal restrição ou a obter por qualquer forma. Ora, noticiário e comentário jornalístico, ainda que adversos, não restringem a liberdade dos cultos. Seus fiéis podem freqüentar as cerimônias correspondentes realizadas em seus templos e manifestar-se livremente em face delas. Não são restringidos sob qualquer forma.

Cabe avaliar, ainda, a restrição pretendida pelos fiéis da Universal contra a divulgação nos meios impressos ou eletrônicos de comunicação, atingindo-os com sanções graves. A restrição é inaceitável porque a liberdade de imprensa é um valor em si mesmo, independentemente das condições gerais de sua prática. Integra a consciência democrática e, entre nós, o Estado Democrático de Direito. Submeter a empresa jornalística ao ataque coletivo (embora manifestado por indivíduos em distantes comarcas nacionais), forçando-a aos encargos de sua defesa, oculta o propósito de restringir a liberdade da informação jornalística. Ao mesmo tempo, os seguidores da seita, onde quer que estejam, gozam tanto da liberdade religiosa, quanto da liberdade de manifestação do pensamento. Contraditoriamente querem restringir a mesma liberdade assegurada ao jornal. Compõem, assim, formas de censura, para excluir-se da avaliação pública, vedadas pela Carta Magna.

Não se pode esquecer que, apesar da liberdade de cultos e dos lugares de seu exercício, tem havido líderes religiosos que têm cometido faltas graves, em diversas denominações. São faltas que o jornalismo aponta e deve apontar. A liberdade de crítica é tão ampla, conforme já se disse nesta coluna, que serve até para verberar o preconceito ou a discriminação contra elas, seja qual for sua espécie.

Também não se pode esquecer que líderes das várias igrejas (aí destacada a Universal) são providos de meios e acessos para a divulgação de suas posições, em particular na televisão, enquanto comunicadores sociais. Para eles a soma das liberdades de manifestação e de culto deveria mostrar-lhes que não podem, em favor de uma delas, diminuir a liberdade dos outros.’

 

CINEMA
Silvana Arantes

Público do filme nacional despenca no trimestre

‘O público do filme estrangeiro no Brasil teve um pequeno crescimento (1,5%) e o dos títulos nacionais diminuiu consideravalmente (24%) no primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2007.

Os índices, divulgados nesta semana pelo portal especializado em mercado de cinema Filme B, atestam que o período registrou um sucesso isolado entre as dez estréias nacionais.

´Meu Nome Não é Johnny´, de Mauro Lima, sobre a trajetória real de um garoto da zona sul carioca que torna-se consumidor e traficante de drogas, teve dois milhões dos totais 2,9 milhões de espectadores obtidos pela safra brasileira.

´Do garoto de 14 anos que o pai levou ao cinema até o avô de 70, o filme conseguiu uma comunicação com as diversas gerações. Isso explica muito o sucesso que ele teve´, diz a produtora do longa, Mariza Leão.

´Filme-família`

A ausência de mais títulos com o perfil de ´filme-família` no período de férias escolares é apontada pelo distribuidor Rodrigo Saturnino (Columbia/ Disney) como determinante para a queda de público.

Saturnino emplacou o sucesso ´Meu Nome Não É Johnny` e amargou o fraco resultado de ´Polaróides Urbanas´, de Miguel Falabella, que acumula 77 mil espectadores. ´O público não gostou do filme. Não aconteceu. Paciência´, diz.

Mas ´talvez a grande novidade, a surpresa` para o distribuidor esteja na seara da produção infantil, com o fiasco de ´Xuxa em Sonho de Menina´, de Rudi Lagemann, cujos 321 mil espectadores são anêmicos diante das pretensões de seu lançamento, com 220 cópias, número superior às 170 de ´Meu Nome Não É Johnny´.

A Warner, responsável pelo lançamento de ´Xuxa´, não comentou o resultado.

A bilheteria negativa do primeiro trimestre não é o aspecto que mais preocupa os profissionais desse mercado, mas sim a perspectiva de que a tendência se mantenha ao longo do ano.

´Olhando as perspectivas de lançamento até o fim do ano, você não vê outro filme que possa ter o mesmo sucesso de público de ´Meu Nome Não É Johnny´, o que anunciaria uma estagnação da indústria´, afirma Marcelo Bertini, presidente da rede Cinemark.

Jorge Peregrino, executivo da Paramount, que lançou o líder de bilheteria nacional em 2007 (´Tropa de Elite´) diz que, embora ´a produção estrangeira esteja muito forte neste ano, se não houver uma surpresa do lado brasileiro, o mercado não vai crescer´.

Marcelo Mendes, distribuidor e exibidor do grupo Estação, tem ´expectativa negativa` porque considera evidente que o público encolheu. ´Basta comparar ´Tropa` e ´Johnny´, que foram os maiores sucessos [de 2007 e 2008, até aqui] e estão na faixa de 2 milhões de espectadores. Ambos fariam muito mais em outras épocas.´

O que está em questão, para Mendes, não é só o resultado do filme brasileiro, mas ´o modelo de exibição de cinema, que é o mesmo há praticamente cem anos e precisará ser revisto num momento em que as pessoas têm cinema em casa e medo de sair à rua´.

A atriz Bruna Lombardi notou ´o tremendo aperto de cinemas` do país ao lançar, em janeiro, ´O Signo da Cidade` (36 mil espectadores em sete semanas), que ela roteirizou e Carlos Alberto Riccelli dirigiu. ´São muito poucas salas e uma quantidade enorme de filmes, contando com os da indústria americana. A rotatividade acaba tendo que ser insana´, diz.

O exibidor Adhemar Oliveira (Espaço Unibanco/Unibanco Arteplex) afirma que ´não adianta reclamar da exibição, porque o espaço pedido foi dado` e acha que, para achar a raiz desse problema, ´só indo ao psicoterapeuta´.’

 

Mercado torce por companhia para ´Johnny`

‘Acostumado a verões de duas andorinhas -´Tropa de Elite` (2,4 milhões de espectadores) e ´A Grande Família` (2 milhões) em 2007; ´Se Eu Fosse Você` (3,6 milhões) e ´Didi – O Caçador de Tesouros` (1 milhão) em 2006-, o mercado de filmes brasileiros torce para que ´Meu Nome Não É Johnny` encontre, no próximo semestre, uma companhia no ranking de público acima de 1 milhão.

O novo longa de Bruno Barreto, que tem o título provisório de ´174´, é a aposta mais freqüente. Baseado na história de Sandro Nascimento tal qual foi contada no documentário ´Ônibus 174´, de José Padilha, o filme enfoca a vida do autor do seqüestro do coletivo que terminou em tragédia no Rio de Janeiro -Sandro e uma passageira morreram.

A distribuidora Paramount fez testes de público com o filme no Rio e em São Paulo e animou-se com os resultados. A estréia deve ser em agosto.

Antes disso, no dia 25 de julho, o recordista de público Breno Silveira (´Dois Filhos de Francisco´, 5,4 milhões de espectadores em 2005) lança seu novo longa, ´Era uma Vez…´, sobre um romance entre jovens de distintas classes sociais, no Rio de Janeiro.’

 

LIVROS
Mário Magalhães

Obra traça roteiro da boa reportagem

‘Dois enganos sobrevivem em alguns redutos das Redações jornalísticas e das faculdades de jornalismo.

Nas Redações, ainda se encontra quem imagine que boa parte dos pesquisadores acadêmicos seja inepta para noticiar até o aparecimento de um buraco de rua. Nas universidades, persiste, embora decadente, a ilusão de que parcela expressiva das Redações é intelectualmente desqualificada para produzir conhecimento sobre a sua atividade -saber informar, mas não analisar como a informação é elaborada.

Assim como tantos professores dominam as técnicas jornalísticas, e não por acaso sua origem são as Redações, os ´jornalistas da ativa` estão habilitados a transmitir seus métodos de trabalho e a refletir a respeito deles. É o que se reafirma em novo livro, ´Anatomia da Reportagem – Como Investigar Empresas, Governos e Tribunais´, do repórter especial da Folha Frederico Vasconcelos.

O subtítulo não trai -trata-se mesmo, ou também, de um roteiro com lições a jornalistas, novatos ou não, e candidatos ao exercício do jornalismo.

Décadas de profissão

O repórter inventaria alguns dos seus mais relevantes ´furos` em quatro décadas de profissão e instrui sobre a boa reportagem. Na seleção de 28 recomendações, ele ensina: ´Se ficar comprovado o erro [de informação], o jornalista deve admitir o fato com naturalidade e honestidade e assumir sua responsabilidade´.

O mais comum, contudo, é o jornalismo recusar o reconhecimento dos tropeços que lhe apetece identificar nos outros.

Conselho: ´Antes de iniciar uma investigação, esteja certo de que a publicação para a qual trabalha tem interesse no tema e disposição para enfrentar resistências e coibir pressões. Esse cuidado aparentemente óbvio evita frustrações, desentendimentos posteriores com chefias e constrangimentos que poderão ser evitados´.

Dois notáveis exemplos (ou contra-exemplos) constam do volume: as reconstituições dos bastidores de reportagens que esquadrinharam a administração Aécio Neves e descortinaram as suspeitas de enriquecimento ilícito de magistrados.

As coberturas, ambas de Vasconcelos, foram veiculadas na Folha.

O autor observa o comportamento submisso da imprensa de Minas Gerais diante do governo do Estado -lá portas se fechariam, ou páginas seriam vetadas, a um relato como o da lavra dele.

No segundo caso, as revelações sobre juízes mal-aprumados contrastam com a recusa histórica do jornalismo nacional em exercer o escrutínio do Poder Judiciário.

Não são apenas empresas de comunicação que resistem a monitorar a Justiça; os jornalistas também. Um motivo é o temor de retaliação nos tribunais, com processos dos magistrados contra os repórteres. A disposição para adentrar nessa ´área minada´, como a define Janio de Freitas na orelha do livro, é característica dos repórteres corajosos.

Coragem é qualidade que distingue a trajetória de Frederico Vasconcelos, como se constata nos casos investigados por ele -de bancos como os falecidos Nacional e Econômico à empresa de um presidente da Fiesp; da importação superfaturada de equipamentos na administração Orestes Quércia, em São Paulo, à publicidade dirigida da Nossa Caixa no governo Geraldo Alckmin.

Em ´Anatomia da Reportagem´, o autor compartilha sua metodologia de apuração e edição e expõe as engrenagens do jornalismo. Assina uma reportagem sobre suas reportagens. Com elas, Vasconcelos tornou públicas informações que o poder queria manter em sigilo. No livro, os leitores ganham novamente, ao conhecer os ´segredos` do trabalho de um grande repórter.

ANATOMIA DA REPORTAGEM

Autor: Frederico Vasconcelos

Editora: Publifolha

Quanto: R$ 27 (152 págs.)

Avaliação: bom’

 

Em 2006, Jabuti premiou livro anterior

‘´Juízes no Banco dos Réus` (Publifolha), de Frederico Vasconcelos, ficou em segundo lugar no 48º Prêmio Jabuti (2006), na categoria ´reportagem` (os três primeiros livros em cada categoria recebem o prêmio).

Lançada em 2005, a obra aborda as investigações sobre a conduta de magistrados, policiais e procuradores da Justiça Federal da 3ª Região, com sede em São Paulo, o caso do TRT de São Paulo e a denúncia da existência de organização criminosa revelada na Operação Anaconda.’

 

Ricardo Bonalume Neto

Mórbido e divertido, livro traz obituário de nomes da cultura pop

‘´Quero morrer nos braços de uma mulher peituda´, dizia uma famosa pichação nos muros de SP anos atrás. Escolher a maneira de morrer teoricamente poderia ser privilégio dos ´ricos e famosos´, mas como mostra o mórbido e divertido livro do escritor Michael Largo, foram poucos os que conseguiram a morte da maneira desejada.

A realidade acaba mostrando o contrário: as ´celebridades` morrem quase sempre do mesmo modo que o cidadão anônimo. É simples. Se você fuma muito, morre de câncer do pulmão. Se bebe muito, morre de alguma complicação do fígado.

O título original de ´Assim Morreram os Ricos e Famosos` é ´O Obituário Portátil´. Largo colocou em ordem alfabética seres vivos dos mais variados tipos, como o golfinho Flipper, ou cavalos e chimpanzés célebres na TV. Já as pessoas da lista são nomes da cultura pop americana e algumas personalidades da história mundial.

Exemplo: o ator Jonathan Harris, da série ´Perdidos no Espaço´, morto em 2002, ´quando uma embolia sabotou seu coração, aos 87 anos´; ou Átila, o Huno, morto após uma noite de excesso de vinho e sexo violento aos 47 anos, em 453 d.C.

Em forma de almanaque, com ilustrações e estatísticas, o livro tem erros factuais variados. Diz que Albert Einstein (morto de aneurisma cerebral em 1955, aos 76 anos) ganhou o prêmio Nobel pela ´descoberta da teoria da relatividade´. Bem, uma ´teoria` não se descobre, propõe-se; e ele ganhou o Nobel pela descoberta do efeito fotoelétrico. Mas isso não tira seu valor como produto de cultura pop. Onde mais se poderia ler que o inventor da privada com descarga se chamava Thomas Crapper, e que ´to crap` em inglês significa hoje ´defecar´?

Crapper morreu em 1910, aos 73, segundo Largo, ´não, como rezam algumas lendas urbanas, de obstrução intestinal, mas de artérias obstruídas´.

ASSIM MORRERAM OS RICOS E FAMOSOS

Autor: Michael Largo

Tradução: Clara Alicia Allain

Editora: Larousse

Quanto: R$ 34,90 (300 págs.)

Avaliação: bom’

 

 

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