Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 21 E 22/07

Folha de S. Paulo

24/07/2007 na edição 443

TRAGÉDIA EM CONGONHAS
Editorial

Acidente e discurso

‘DURANTE dez meses, repetiram-se em ritmo quase diário os sinais de completa exaustão do sistema de tráfego aéreo brasileiro -e também os sinais revoltantes de indiferença, inépcia e despudor das autoridades perante a situação. Do descalabro de todos os dias passou-se a uma tragédia -a segunda em menos de um ano.

Enquanto as cenas de caos nos aeroportos se transformavam em rotina, provinham do governo sucessivos anúncios de que a crise estava superada; deu-se a declaração do ministro da Fazenda, Guido Mantega, creditando à ‘prosperidade econômica’ o colapso cotidiano; ouviu-se também a memorável sugestão de ‘relaxe e goze’ dirigida aos usuários de avião pela ministra do Turismo, Marta Suplicy. Para cúmulo do escárnio, enquanto ainda fumegam as ruínas do acidente, diretores da Anac são condecorados oficialmente.

Nesse contexto, ganham significado as imagens, flagradas indiscretamente pelas câmeras de TV, da gesticulação obscena com que assessores presidenciais comemoraram, em particular, a notícia de que havia falha no sistema de frenagem do avião acidentado. Para esses animados estrategistas do Planalto, um defeito na aeronave ou um erro do piloto viriam naturalmente a diminuir as tentativas de exploração política da tragédia.

Não se trata, contudo, de transformar um problema de ranhuras na pista de Congonhas ou do reverso de um Airbus em instrumento político para governo ou oposição. Trata-se de reconhecer a necessidade premente de soluções para um quadro caótico que o governo, em atitudes públicas ou privadas, deu freqüentes sinais de minimizar.

Eis que, finalmente, o presidente da República procura reverter o desgaste político que se acumulou durante todo o período, e a que a tragédia da terça-feira passada certamente deu maior intensidade.

Lula anunciou o projeto de construir um novo aeroporto em São Paulo, sua disposição de corrigir a atuação da Anac -completamente subordinada aos interesses das companhias aéreas- e a necessária redução dos vôos em Congonhas.

Certamente, os exasperantes problemas do apagão aéreo não se resumem ao esgotamento operacional do campo de pouso paulistano – cujas condições de segurança o presidente se empenhou, aliás, em confirmar com a mesma ênfase que dedicou aos projetos para limitar seu tráfego.

Se o trauma do acidente exigia que as propostas de Lula incidissem principalmente sobre o tráfego em Congonhas, a revolta e a inquietação da opinião pública não se dissipam, naturalmente, apenas com discursos e anúncios de novos projetos.

Não faltaram, por parte do governo, promessas ambiciosas nas mais diversas áreas, esquecidas assim que o impacto do noticiário deixava de se fazer sentir. Que não se tenha de esperar por outro acidente, e outro discurso, para ver postos em prática os planos agora anunciados.’

Daniel Bergamasco, Daniela Tófoli e André Caramante

Em ato, comissários ‘aplaudem’ gestos de assessor de Lula

‘‘Uma salva de palmas para o Marco Aurélio Garcia!’, gritava ontem um jovem de preto no local do acidente. À sua frente, cerca de 30 jovens, em parte comissários de bordo, aplaudiam ironicamente o assessor da Presidência da República, autor do gesto obsceno ao ouvir que a falha pode ser do avião.

A aeromoça Gracie Kelly, 22, chorava compulsivamente. Era colega de Michele Leite, 26. ‘Já moramos juntas, foi ela quem me trouxe para a aviação. Gracie trabalhou na sexta-feira. ‘Eu olhava para os passageiros e cada rostinho prestava muita atenção nos procedimentos de emergência, algo que nunca acontece.’ Uma faixa saudava os ‘bombeiros heróis’, que também mereceram aplausos (estes, sinceros) e rosas.

Os manifestantes pediram ‘justiça’ e ‘segurança na aviação’. Rezaram o pai-nosso e cantaram o Hino Nacional.

Ontem, os bombeiros encerraram o trabalho às 18h30 e retomarão as buscas hoje às 7h. As cadelas labradores Dora, Dara e Ane, que participaram das buscas na tragédia do metrô de Pinheiros, em janeiro, foram levadas para o local. Pelo menos 197 pessoas morreram no acidente. Até ontem, 53 haviam sido reconhecidas.

Demora

O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Ronaldo Marzagão, e o perito criminal Celso Perioli, coordenador da Polícia Técnico-Científica, se reuniram com parentes de parte das vítimas do vôo JJ 3054. A principal reclamação foi a de que existe demora na identificação e na liberação dos corpos.

Ontem, integrantes da polícia cientifíca paulista estiveram nos três hotéis em que estão familiares para coletar sangue dos parentes das vítimas para a provável necessidade de realização de exames de DNA. Os familiares também reclamaram do fato de ficarem sabendo da identificação de muitos corpos somente pela imprensa.

Os parentes também se encontraram com familiares de mortos no vôo 1907 da Gol, em setembro, para trocar informações sobre como agir após a tragédia.’

EL PAÍS
Folha de S. Paulo

Morre em Madri publisher do jornal ‘El País’

‘Morreu ontem em Madri Jesús de Polanco, presidente do Grupo Pisa, que edita o jornal ‘El País’, e um dos homens mais ricos do mundo. De Polanco, 77, morreu devido a complicações de uma doença reumática.

Além do ‘El País’, o principal jornal da Espanha, o Grupo Pisa possui rádios, TVs e editoras.

De Polanco, apontado pela ‘Forbes’ como o 287º bilionário do mundo, tinha patrimônio estimado em US$ 3 bilhões.’

MERCADO EDITORIAL
Folha de S. Paulo

Último ‘Harry Potter’ deve bater recorde

‘‘Harry Potter e as Relíquias da Morte’ deve bater o recorde de livro mais rapidamente vendido. O ‘vazamento’ da trama na internet, com a revelação de que vários personagens morrem no último volume da série, não retraiu os leitores. No Reino Unido, as cadeias de livrarias divulgaram que as vendas ‘eclipsaram’ as do livro anterior. Nos EUA, a Amazon teve aumento de 47% nas pré-vendas, também em relação ao volume 6. As críticas têm sido positivas.’

TELEVISÃO
Bia Abramo

Quem precisa de televisão?

‘QUEM PRECISA de televisão quando tudo o que interessa ver e ouvir está na rede? A TV é uma prisão balizada pelo horário e pelas decisões de programação das emissoras. Na rede, encontra-se o que se quiser, quando e da maneira que se desejar.

Um acidente como o ocorrido na última terça-feira, um grande evento esportivo, suas séries favoritas ou o capítulo da novela perdido -está (quase) tudo lá, para ser visto e revisto a qualquer hora e quantas vezes se quiser. Ainda é quase: não é toda a programação das emissoras comerciais que está disponível, nem tudo o que está é de acesso totalmente livre.

Mas já é bastante, para ver, rever e reviver sons e imagens que vão construindo uma história -desta vez numa combinação, digamos, pessoal.

A história do pior ‘desastre aéreo do mundo’ nos últimos cinco anos, por exemplo, pode começar com o blogueiro Bressane no YouTube, acompanhando a cobertura de TV, comparando as entradas ao vivo da Globo e da CNN, no próprio dia do acidente. Crítico, atento aos detalhes, Bressane -brasileiro, 31 anos- atentou, no calor da hora, para a dimensão da tragédia.

Ou observar, de novo, a esquizofrenia do ‘Jornal Nacional’, que ora faz ótimo jornalismo (colocando seus repórteres mais experientes para costurar as informações que todos já tinham, mas que ainda teimavam em não fazer sentido na noite de quarta-feira), ora cede ao voyeurismo ávido e faz farra com a desgraça, quando é capaz de arregalar o olho da câmera nem bem ouve um choro, um grito, um mínimo sinal da ‘emoção’ tão cara ao espetáculo televisivo em qualquer modalidade.

No quesito emoção, as possibilidades de reiterar horror, sofrimento, desespero e dor são quase infinitas.

As imagens das labaredas sugerem, as formas carregadas pelos bombeiros confirmam, os semblantes das famílias reafirmam: pode-se fruir, e é essa a palavra, a vontade da morte, desde que alheia.

Num outro diapasão, a lucidez e simplicidade dos trabalhadores da tragédia, os bombeiros, de uma eloquência simples e, aqui sim, de uma emoção próxima da beleza. Nos áudios captados no início dos trabalhos de resgate, um bombeiro que fala com o Centro de Operações do Corpo de Bombeiros (Cobom) consegue enunciar a urgência: ‘Mais água, Cobom. Eu preciso de mais água’. Num vídeo, a ética do trabalho em palavras exatas: ‘É um trabalho difícil, mas alguém tem que fazer. E nós vamos fazer até o final’.

Livres das amarras da TV, sons e imagens se combinam em sintaxes inesperadas, cujo sentido pode se fazer de outras formas.’

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Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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