Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 22 E 23/3

Folha de S. Paulo

25/03/2008 na edição 478

CHINA
Raul Juste Lores

Tibete derruba slogan da assimilação feliz

‘A China tentou de tudo, nas últimas décadas, para pacificar e assimilar suas minorias étnicas, que correspondem a menos de 10% de sua população e compreendem tibetanos, mongóis, hui e uigures.

O governo central fez investimentos pesados em suas regiões, aumentou a participação da população local nos governos provinciais e insistiu na propaganda de que eles estavam no lugar certo: a potência emergente China.

Das cédulas de yuan, a moeda nacional, com figuras representando as minorias, às reuniões parlamentares do Congresso do Povo, onde representantes étnicos usam trajes típicos, como atração turística em meio à maioria chinesa de terno e gravata, a idéia é de uma feliz assimilação.

Pela violência dos protestos que vêm ocorrendo no Tibete e Províncias vizinhas há 11 dias, e pela repressão que se seguiu, nota-se que a receita desandou. O ressentimento cresceu e o país ainda não consegue lidar com a dissidência. Precisou lacrar o Tibete para o resto do mundo e bloquear sites da internet para impedir que se visse o que de fato acontece por lá.

Além das tensões econômicas, de um país onde a diferença de renda entre ricos e pobres não pára de crescer, a tensão étnica é outro desafio para o Partido Comunista, que pretendia em agosto, com a realização das Olimpíadas de Pequim, mostrar a nova China como uma ‘sociedade harmoniosa’.

Os protestos tibetanos, que terminaram com 19 mortos (segundo o governo) ou cem vítimas, como dizem os tibetanos no exílio, mostraram que a harmonia ainda é propaganda.

Na China, não há discriminação legal, mas privilégios e poder estão nas mãos dos han, a etnia de 91% do 1,3 bilhão de chineses.’

 

***

Cobertura estatal chinesa reforça ódio do ‘nós contra eles’

‘A cobertura que a tevê estatal chinesa tem feito dos protestos do Tibete reforça a imagem do ‘nós’ contra ‘eles’. São repetidas as imagens de lojas e mercados pertencentes a cidadãos han destruídos em Lhasa, a capital do Tibete. O choro de cidadãos chineses feridos merece destaque nos principais telejornais do país, perguntando-se ‘por que nós?’.

Mas não há uma única cena que mostre tibetanos sofrendo repressão policial, nem nada sobre as mortes de cidadãos tibetanos, que o governo não reconhece (tibetanos no exílio falam em até cem mortes).

Apenas na quinta-feira, a agência estatal Xinhua informou que a polícia também atirou em manifestantes, na Província de Sichuan, mas não deu detalhes. Há pelo menos 120 tibetanos presos.

Na blogosfera chinesa, a divisão continua. São inúmeros os textos que acusam os tibetanos de ‘ingratos’ e ‘preguiçosos’, afinal a China tem investido muito no Tibete (e a Província era miserável e feudal até 1951, quando invadida pela China).

Segunda classe

‘A tensão vai muito além da economia, há ressentimento das minorias que se julgam cidadãos de segunda classe, que têm menos direitos que os chineses han’, disse à Folha Robbie Barnett, professor da Universidade Columbia (veja entrevista à pág. A16).

A Folha conversou com estudantes tibetanos que estão em Pequim. Fazem parte da elite provincial, pois seus pais puderam mandá-los fazer a universidade na capital.

Com medo de fazer qualquer comentário político, pediram anonimato. Mas revelaram que temem que, quando terminarem a universidade, terão mais dificuldades para conseguir um bom emprego por serem tibetanos. Dizem que há muito preconceito e que os chineses han sempre têm a prioridade.

E ainda dizem que, para os tibetanos, não há a válvula de escape do êxodo rural que existe em outras Províncias. Sem falar chinês, os camponeses tibetanos não conseguem emprego em outras regiões.

O espaço tibetano também foi desmembrado. Áreas de população tibetana hoje estão sob jurisdição de províncias como Qinghai, Sichuan e Gansu, onde protestos aconteceram após a repressão em Lhasa. Metade da população tibetana da China vive fora do Tibete.

Inundação étnica

Alguns especialistas chamam de ‘inundação étnica’ o que a China tem feito nas últimas décadas, ao estimular que milhares de chineses han habitem as Províncias com algum risco separatista.

Em 1955, 90% da população da província de Xinjiang, no extremo ocidental do país, era formada por não-chineses, principalmente os muçulmanos sunitas hui e os xiitas uigures. Hoje, quase 60% da população é de origem han.

Na Mongólia Interior, a enchente étnica é maior: dos 23 milhões de habitantes, apenas 4 milhões são mongóis.

No Tibete, os assentamentos foram mais sutis por causa das condições geográficas da região, mas em Lhasa os principais negócios já estão nas mãos de chineses han.

Tibete e Xinjiang detêm mais de 22% do território chinês.

Se a situação geográfica do Tibete, que faz fronteira com a Índia, é estratégica para a China, Xinjiang, a Província onde a maioria dos muçulmanos chineses vive, é rica em reservas de carvão e gás.’

 

ALARMISMO
Eliane Cantanhêde

Ovinhos de Páscoa

‘BRASÍLIA – Lá pelas tantas, em meio à avalanche de denúncias sobre o uso do cartão corporativo, telefonam para a Defesa num final de sábado com ‘uma bomba’: a FAB havia gasto sabe-se lá quanto num motel do Rio de Janeiro.

Foi um deus-nos-acuda, com assessores civis ligando para majores, que ligavam para coronéis, que ligavam para brigadeiros. A hierarquia avançou a jato. Passam-se as primeiras horas, e ninguém conseguia explicar. Passa um dia inteiro, e nada. Até que, enfim, surgiu a luz: um suboficial tinha batido com um carro da FAB no muro do motel. Pagou-se com o cartão.

Esse tipo de situação, juntamente com tapiocas de R$ 8 e ursinhos de pelúcia que não eram ursinhos de pelúcia, mas sim panos para toalhas de mesa de recepções, dá um tom meio carnavalesco ou às vezes dramático a toda essa história.

Foi por isso que o controlador-geral da União, Jorge Hage, dividiu as opiniões quando foi ao Congresso e criou a expressão ‘escandalização do nada’. Tinha razão, se a gente olha pelo lado da miudeza, do ‘nada’. E não tinha razão nenhuma se o olhar é pelo lado do princípio.

No frigir dos ovos (não os de Páscoa), a mistura de tapiocas com hotéis cinco estrelas e aluguéis de carros em feriados e fins de semana produziu um bom omelete. O que se discute é o que pode e não pode, o que é ilegal e o que é ilegítimo, o que é um erro e o que é abuso consciente, uma mutreta.

A CPI da Tapioca já nasceu morta, porque nem o governo atual nem o anterior têm interesse em que se vasculhem seus gastos e suas compras, guerreando entre eles com armas curiosas: os tucanos, com os cartões; os petistas, com as contas ‘tipo B’. No fundo, a mesma coisa.

Assim, vamos patinar na ‘escandalização do nada’ e na ‘não-investigação de tudo’. Em alguns casos, o nada é nada. Em outros, pode ser muito. E é melhor uma gente escandalizada por nada do que simplesmente cansada de se escandalizar.’

 

DITADURA
Elio Gaspari

O terrorista de 1968 remunera-se em 2008

‘QUARENTA ANOS DEPOIS do atentado a bomba contra o Consulado Americano em São Paulo, Sérgio Ferro, intitulando-se ‘único sobrevivente’ do grupo terrorista que fabricou, transportou e detonou o explosivo, informa:

1) Diógenes Oliveira e Dulce Maia não participaram dessa ação. 2) A ação foi iniciativa da ALN (Ação Libertadora Nacional), e não da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).

Quem disse que Diógenes, o ‘Luís’, e Dulce de Souza, a ‘Judith’, participaram do atentado, organizado pela VPR, foi o doutor Sérgio Ferro em seu depoimento à polícia em 29 de março de 1971. Na ocasião, Ferro estava preso e a tortura era uma política de Estado para obtenção de confissões, verdadeiras ou falsas. Passados 37 anos, Ferro julgou oportuno corrigir seu testemunho. Em 1969, na prisão, Pedro Lobo de Oliveira e Diógenes, ambos da VPR, revelaram suas participações no atentado. Diógenes admitiu ter fabricado a bomba, com ‘um ou dois quilos de dinamite’.

Quando Ferro incriminou Dulce de Souza Maia, sabia que ela estava a salvo, no exílio. Além disso, uma bomba a mais, uma bomba a menos, não faria muita diferença na carga que a polícia imputava à dupla mencionada por Ferro.

Diógenes e Dulce foram associados a dois retumbantes atentados terroristas. No dia 26 de junho de 1968, a VPR lançou um caminhão-bomba com 15 quilos de dinamite contra o Quartel General do 2º Exército, em São Paulo. Na explosão, morreu o soldado Mário Kozel Filho, de 18 anos. Dulce Maia contou sua participação nesse episódio numa entrevista a Luiz Maklouf Carvalho. Ela foi publicada no livro ‘Mulheres que foram à luta armada’, em 1998. Diógenes nunca falou publicamente sobre o caso. Os documentos conhecidos, que devem ser vistos com reservas, são o depoimento dele e de camaradas seus, todos presos. Diógenes admitiu ter fabricado a bomba. Onofre Pinto, que participou do atentado, disse que Diógenes acendeu o estopim.

Diógenes e Dulce também foram acusados de terem participado do planejamento e do assassinato do capitão americano Charles Chandler, em outubro de 1968. Na mesma entrevista a Maklouf, Dulce narrou sua colaboração no levantamento dos hábitos do capitão. Diógenes nunca discutiu esse atentado em público. Contudo, Pedro Lobo de Oliveira, seu colega de VPR, contou aos organizadores do livro ‘Esquerda Armada no Brasil’, premiado em Cuba em 1973, que eram três as pessoas que estavam no carro do qual partiram os assassinos do capitão: ele, que ficou ao volante, e mais dois, um com um revólver e outro com uma metralhadora. Pedro Lobo não os nomeou. Informou que a dupla só foi identificada quando um militante da VPR que ‘sabia quais os companheiros que haviam participado’ contou o caso à polícia, na prisão. Esse ‘delator’, Hermes Camargo, tornou-se um colaborador do regime. Anos mais tarde ele repetiu o dois nomes numa entrevista a ‘O Estado de S. Paulo’: os atiradores foram Diógenes Oliveira, o ‘Luís’, e Marco Antonio Brás de Carvalho, o ‘Marquito’, morto meses depois do atentado.

Assim como deve-se dosar o crédito às confissões de Sérgio Ferro e deve-se duvidar dos depoimentos de pessoas presas, é necessário registrar que a narrativa de Diógenes, preso, é semelhante à de Pedro Lobo, solto. Diógenes reconheceu ter sido um dos autores dos disparos.

Orlando Lovecchio, que teve a perna esquerda amputada abaixo do joelho por conta da explosão da bomba que Sérgio Ferro e seus camaradas puseram no Consulado Americano, recebe R$ 570 mensais da Viúva. Os pais do soldado Mário Kozel conquistaram em 2003 uma pensão de R$ 330, reajustada no ano seguinte para R$ 1.140 mensais. Desde o dia 24 de janeiro, Diógenes ficou em melhor situação. Ele ganhou uma Bolsa Ditadura de R$ 1.627 mensais (as vítimas, juntas, recebem R$ 1.710), com direito a R$ 400 mil de atrasados. Repetindo: há algo de errado na aritmética das indenizações e numa álgebra que acaba remunerando melhor o terrorista que participou de um atentado do que a família da sentinela assassinada ou o transeunte amputado.’

 

VATICANO
Folha de S. Paulo

Bento 16 batiza jornalista italiano de origem islâmica

‘O papa Bento 16 batizou ontem sete adultos, entre os quais um jornalista italiano de origem muçulmana. Na missa de Vigília da Páscoa, celebrada na basílica de São Pedro, no Vaticano, o papa alemão concedeu o sacramento a Magdi Allam, 55, que trabalha no ‘Corriere della Sera’ e é crítico, no material que escreve, do radicalismo islâmico.

Allam nasceu no Egito, mas foi educado por católicos e afirma nunca haver praticado o islamismo. Em 2003 ele chegou a receber do governo italiano proteção policial devido a ameaças que recebeu do grupo radical islâmico Hamas.

Entre os batizados estava também uma chinesa.’

 

PRECONCEITO
Fábio Zanini

Vídeo racista leva África do Sul a rever integração

‘O vídeo começa de forma inocente: quatro estudantes brancos se divertem embebedando cinco empregados negros, que parecem se divertir também. Corta para uma cena de dança de salão e outra numa pista de atletismo, em que os negros correm ao som da trilha de ‘Carruagens de Fogo’.

Assim continua por sete minutos o que seria um trote não muito diferente do que se vê em várias universidades pelo mundo, até chegar o trecho que chocou a África do Sul, demolindo o mito de que, 14 anos após o fim do apartheid, o país de Nelson Mandela seja uma democracia racial plena, e que está obrigando o governo a reavaliar sua política de integração.

De costas para a câmera, um estudante aparentemente urina numa tigela de ‘jaggie’, um cozido gosmento que leva tomate, alho, abacaxi e cenoura, e serve a mistura para os negros (o estudante alega que simulou a urina e que despeja água de uma garrafa). Ajoelhados no chão, os negros comem e vomitam. A frase final, em africâner, língua derivada do holandês que é falada pela maioria dos brancos sul-africanos, é provocação explícita: ‘Isso é o que chamamos de integração’.

Mitologia branca

O vídeo está no site YouTube (www.youtube.com/watch?v=F4jq-sucA34). Sua divulgação, no final de fevereiro, produziu ondas de choque cujo epicentro é Bloemfontein, cidade universitária no centro do país que até esse episódio tinha como única distinção o fato de ser o berço do escritor J. R. R. Tolkien, de ‘O Senhor dos Anéis’ (que saiu ainda criança).

Mas este também é o coração africâner do país, onde os brancos se estabeleceram no século 19 após uma marcha desde o Atlântico, subjugando sociedades africanas pelo caminho. A saga dos ‘voortrekers’, algo como ‘pioneiros’, tem lugar cativo na mitologia branca.

Bloemfontein, capital de Free State, cidade de árvores frondosas e um dos menores índices de violência do país, tem brancos em grande número nas ruas, enquanto nacionalmente são 10%. Com 25 mil alunos, a Universidade de Free State (UFS) domina a rotina do lugar. Foi na mais tradicional das repúblicas de estudantes brancos, Reitz, fundada há 60 anos, que o trote ocorreu.

Não se sabe ao certo como o vídeo caiu nas mãos de organizações civis de negros. Mas tão logo caiu na internet, o governo foi obrigado a reconhecer, em declaração oficial, que ‘o racismo ainda permanece um dos maiores desafios de nossa jovem democracia’ e ordenou uma investigação completa da situação nas universidades.

A mídia agora ironiza a ‘nação arco-íris’, slogan marqueteado pelo governo. Reitores de 23 universidade públicas discutem conjuntamente um plano para evitar a repetição do episódio. Protestos têm ocorrido com freqüência no campus.

Já os brancos se sentem acuados, mesmo os que condenam o vídeo. Poucos quiseram falar com a Folha, no campus, na última terça-feira. Insatisfações latentes dos brancos com as políticas oficiais que dão aos negros facilidades para ascender a postos de comando em empresas e obter contratos do governo têm vindo à tona.

O que mais incomodou o governo foi o fato de o trote ter sido uma reação a uma recém-implementada diretriz de integração das residências estudantis, hoje segregadas.

Por meio de ações afirmativas, 50% dos estudantes da UFS são negros e 40%, brancos (o restante é basicamente de asiáticos). Mas as comunidades não se misturam. Ignoram-se, ainda que não haja hostilidade explícita.

Aulas bilíngües

Na entrada para as aulas, pela manhã, grupos barulhentos de estudantes brancos andam separados de grupos iguais de negros. No refeitório, no pátio, no café, na biblioteca há rodinhas de negros e rodinhas de brancos. As aulas são bilíngües: geralmente, de manhã são dadas em africâner, para os brancos; à tarde, em inglês, para negros -que reclamam que a qualidade das suas palestras, principalmente se o professor é branco, é inferior.

Em oito horas que passou no campus da UFS, a reportagem da Folha viu centenas de estudantes, mas apenas duas vezes observou um branco conversando com um negro.

‘Esta é a universidade do apartheid’, diz Sylvester, 23, estudante negro de física que não quis dar o sobrenome. ‘O vídeo não me surpreendeu.’

O vice-reitor de assuntos estudantis da UFS, Ezekiel Moraka, rejeita o risco de um retorno ao passado, mas admite que o vídeo não é um caso isolado. ‘A universidade reflete alguns padrões de comportamento da sociedade’, afirma.

Duas interpretações

Conversando com estudantes das duas raças, a impressão é que há dois vídeos diferentes. Os negros avaliam que é um exemplo de racismo e de saudosismo do apartheid. Brancos vêem apenas um trote que fugiu de controle.

‘Para mim, os estudantes não estavam sendo racistas, estavam se divertindo à custa dos empregados, o que nós também condenamos’, afirma Ben Schoonwinkel, 23, presidente do diretório dos estudantes. Branco, ruivo, de olhos castanhos, ele vê a falta de integração como uma ‘coisa cultural’. ‘Não há racismo. Você tem o direito de escolher quem são seus amigos.’

Ao ser questionado se tem amigos negros, ele responde que, no diretório que preside, há três membros negros. Mas os brancos são 15.

O vídeo veio à tona agora, mas é na verdade de setembro do ano passado. Dois dos estudantes já se formaram. Os outros dois foram expulsos. Os empregados, que trabalhavam na residência de Reitz e aparentemente participaram voluntariamente do vídeo, foram realocados.

A universidade promete manter a política de integrar as residências, forçando casas brancas a aceitarem estudantes negros, e vice-versa. ‘Nosso erro foi ter achado que o legado do apartheid desapareceria só pelo fato de os negros terem chegado ao poder neste país’, afirma Moraka.’

 

***

Filme levou prêmio de ‘noite cultural’ em dormitório

‘É numa vila de casinhas pintadas de amarelo e telhado vermelho, a dez minutos do campus da Universidade de Free State, que o vídeo foi feito. A residência Reitz completa 60 anos em 2008 e abrigou os pais e avós de muitos dos atuais 120 moradores.

Por décadas, a língua falada sempre foi o africâner. O esporte, o rúgbi. O som, rock sul-africano pesado. Mas, desde o ano passado, pela primeira vez, a residência se viu forçada pela reitoria a abrigar oito negros -que falam inglês, preferem futebol e ouvem reggae, r&b e músicas tradicionais.

‘Nós somos uma minoria e nos sentimos ameaçados. Estão lentamente tirando tudo de nós’, diz Pieter Odendaal, 23, o ‘presidente’ da república, estudante de engenharia.

Reitz tem má fama em Bloemfontein, mesmo entre os brancos. A reportagem da Folha ouviu recomendações reiteradas para não visitar o lugar, mas foi bem tratada. Os oito moradores negros não foram encontrados, no entanto. O vídeo seria parte de uma ‘noite cultural’ da residência, em que cada chalé inventa uma atividade. Seus criadores levaram o prêmio da noite.

Em Reitz, são famosas as histórias de moradores brancos, bêbados, jogando gelo em mulheres negras que passam em frente à residência. Odendaal diz que não é racismo, mas ‘brincadeiras de mau gosto que ocorrem em qualquer residência estudantil’. Entre os estudantes brancos, o discurso predominante é de que não haverá retorno ao apartheid.

Mas há insegurança explícita com a estratégia do governo de dar aos negros maior controle sobre a economia. Em vigor desde o fim do apartheid, a política de ‘fortalecimento econômico dos negros’ obriga empresas a colocar negros em postos de comando e dá a eles vantagens na hora de conseguir empregos. Uma classe de negros milionários surgiu em decorrência, muitos com conexões com o governo.

‘Eu, quando me formar, não sei se conseguirei um emprego, porque está tudo reservado para os negros. Milhares de brancos sul-africanos estão deixando o país’, diz Odendaal.

A Universidade de Free State tem 23 residências estudantis, sendo 13 brancas e dez negras. A segregação acontece em praticamente todas.

A cem metros de Reitz, Villa Bravado é um prédio de cinco andares que abriga 150 estudantes negros e três ‘coloured’, como são classificados os raros mestiços. Enquanto Reitz tem chalés aconchegantes, Villa Bravado tem o formato tradicional de quartos apertados.

O ‘presidente’ da residência negra, Renaldo Dupreez, 21, afirma que está aberto a receber brancos, mas não pode forçá-los a se mudar. ‘Reitz tem mais dinheiro. Os pais dos estudantes que estudaram lá no passado dão a eles TVs de plasma e internet de alta velocidade. Claro que eles preferem ir para lá’, afirma.

Dupreez conta que, no ano passado, dois estudantes brancos chegaram a se registrar na residência negra. Mudaram de idéia após uma semana.

A reitoria da universidade, a partir de agora, promete ser mais incisiva na hora de misturar as residências. ‘Em algum momento, vamos ter de forçar a integração. Não se pode deixar a integração racial ao acaso’, diz o vice-reitor da universidade para assuntos estudantis, Ezekiel Moraka. ‘Estamos num processo de construção dessa nação. É na universidade que isso precisa começar.’’

 

ESCÂNDALO
Kleber Tomaz

Cafetina diz sentir por prostituta que saía com Spitzer

‘A cafetina e prostituta brasileira Andreia Schwartz, 33, chegou na manhã de ontem ao aeroporto de Cumbica, em São Paulo, deportada. Schwartz é apontada como testemunha da investigação do escândalo de prostituição que provocou a renúncia do governador do Estado de Nova York Eliot Spitzer, na semana retrasada.

‘Vou esclarecer toda a verdade’, disse Andreia no saguão do aeroporto. ‘Lá fora todo mundo é corrupto’, completou. Assediada pela imprensa, a cafetina disse: ‘Eu amo todos vocês’, sem dar entrevista. Segundo a Polícia Federal, ela preencheu um formulário sobre sua deportação e foi liberada.

De acordo com o tablóide nova-iorquino ‘Daily News’, que a acompanhou no vôo até São Paulo -vôo esse em que também estava Pelé-, Andreia disse sentir pena de Ashley Alexandra Dupre, a prostituta de 22 anos que tinha encontros com Spitzer. Autoridades americanas descobriram as relações entre o político e a prostituta e ainda que Dupre era ligada a uma rede de prostituição para a qual Spitzer repassou cerca de US$ 80 mil de origem não esclarecida. O escândalo levou o governador a renunciar.

Presa há um ano e meio nos EUA por porte de drogas e outros crimes, Andreia Schwartz foi apontada pelo tablóide ‘New York Post’ como informante na investigação que provocou a queda de Eliot Spitzer. Andreia disse, segundo o ‘Daily News’, que, embora tenha trabalhado na mesma agência que Dupre, só a conhecia de vista.

Segundo disse à Folha Jeffrey Lichtman, advogado de Andreia, ela nunca testemunhou no caso que culminou na queda de Spitzer. Ela chegou à noite ao Espírito Santo, onde mora sua família.’

 

ARTHUR CLARKE
Edward Rothstein

A fé de Arthur C. Clarke

‘DO ‘NEW YORK TIMES’ – A bsolutamente nenhum rito religioso de qualquer tipo deve ser associado com meu funeral’, foram as instruções deixadas por Arthur C. Clarke, que morreu na última quarta-feira, aos 90 anos. Isso pode não surpreender a ninguém que soubesse que esse escritor de ficção científica via a religião como um sintoma da ‘infância’ da humanidade, algo a ser superado com o crescimento.

Mas esse fervor ainda destoa, porque, quando se trata das escrituras da ficção científica moderna, e da espantosa geração de inovadores proféticos que foram seus contemporâneos -Isaac Asimov, Robert Heinlein e Ray Bradbury-, os textos de Clarke foram os mais bíblicos, os mais preparados para amplificar a razão com a convicção mística, os mais religiosos no sentido mais amplo de religião: especular sobre o princípio e os fim, e como passamos de um ao outro.

O filme que Stanley Kubrick fez a partir de ‘2001: Uma Odisséia no Espaço’, de Clarke -em parceria com o autor- assombra não pelo seu imaginário de inteligência artificial e engenharia de estações espaciais, mas por sua evocação das origens da humanidade e sua visão de um futuro transcendente, incorporada em um feto humano solto no espaço.

Até mesmo os títulos de algumas histórias de Clarke invocam a linguagem escritural. ‘If I Forget Thee, Oh Earth’ (‘Se Eu Esquecer a Ti, Ó, Terra’) fala de um menino em uma colônia lunar que é levado por seu pai para ver seu planeta-mãe, tornado inabitável pela guerra nuclear, uma experiência que inspira um sonho de retorno futuro a ser passado de geração em geração. Em ‘The Nine Billion Names of God’ (‘Os Nove Bilhões de Nomes de Deus’), monges de um convento de ares tibetanos acreditam que o grande desígnio da humanidade é escrever os 9 bilhões de permutações de letras que formam o nome secreto de Deus, um projeto assistido por representantes de uma empresa do tipo IBM, que fornecem o equipamento para que o projeto possa chegar a seu aguardado termo.

O simbolismo religioso nem sempre é benevolente, claro. Naquele que talvez seja o romance mais e perturbador de Clarke, ‘O Fim da Infância’, uma raça alienígena de Senhores Supremos, com aparente generosidade, estabelece uma utopia na Terra, eliminando as guerras e proporcionando uma era de bonança. Mas não é por acaso que, quando os Senhores Supremos são finalmente descritos, eles têm a aparência de criaturas satânicas, com asas, chifres e cauda pontiaguda.

Qualquer que seja a atitude -e quase sempre ela é ambígua-, a religião percola o reino de Clarke. Ele solicita a tela do Gênese e, sobre ela, encena seus experimentos mentais. Toda ficção científica faz isso até certo ponto, tentando imaginar universos alternativos: e se o carbono não fosse o elemento fundamental dos seres vivos? E se existisse uma sociedade que nunca tivesse visto uma noite?

A obra de Clarke, no entanto, toca as bordas dessa moldura: tenta examinar os momentos em que as coisas começam e quando elas terminam. No conto ‘Rescue Party’ (‘Equipe de Resgate’), alienígenas chegam para salvar a Terra de uma explosão solar iminente.

Eles descobrem que os humanos, uma espécie primitiva que descobrira como usar sinais de rádio meros 200 anos atrás, já salvaram a si próprios, lançando uma frota de espaçonaves rumo às estrelas, sabendo que sua jornada levaria centenas de anos. Os salvadores ficam chocados com a ousadia. ‘Esta é a civilização mais jovem do Universo’, um deles observa. ‘Quatrocentos mil anos atrás ela nem existia. Como será daqui a 1 milhão de anos?’

O conto profetiza o domínio dessa espécie -um domínio que, como Clarke nos faz sentir, nem sempre é bem-vindo.

Tal apocalipse é o feijão-com-arroz da ficção científica, mas às vezes, com Clarke, é também a comunhão, o momento de transcendência no qual algum destino se cumpre, alguma possibilidade se abre. Daí o feto em ‘2001’.

Esse lado do trabalho de Clarke talvez seja o mais sinistro, especialmente porque suas especulações místicas vêm acompanhadas de uma capacidade ímpar de imaginar mundos eminentemente plausíveis. Mas atos de racionalidade e especulação científica são apenas o começo de suas visões. A razão pura é insuficiente. Algo mais é necessário. Para qualquer um que tenha lido Clarke nos anos 1970 e 1980, quando a exploração espacial e a pesquisa científica tinham um apelo extraordinário, sua ficção científica tornou aquela empresa ainda mais emocionante, ao colocá-la em sua maior perspectiva, na qual os feitos de um punhado de décadas se encaixam numa visão de proporções épicas, estendendo-se milênios no futuro. Não é à toa que duas gerações de cientistas foram afetadas por seu trabalho.

Apesar de sua celebrada capacidade de fazer previsões, é incerto que Clarke soubesse precisamente o que via naquele futuro. Há algo de frio em suas visões, especialmente quando ele imagina a transformação evolutiva da humanidade. Ele deixa para trás tudo aquilo que nós reconhecemos e conhecemos e não dá muitas balizas para vivermos no mundo que reconhecemos e conhecemos. Nesse sentido, seu trabalho tem pouco a ver com religião.

Mas, no quadro maior, a religião é inevitável. Clarke ficou famoso por dizer que ‘qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistingüível de magia’. Talvez qualquer ficção científica suficientemente sofisticada, ao menos em seu caso, seja quase indistingüível de religião.’

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Warner estréia série baseada em ‘Exterminador do Futuro’

‘Lembra de ‘O Exterminador do Futuro’, filme de 1984 que lançou para o estrelato o hoje governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger? Pois é, ‘The Terminator’ gerou outros dois longas e acaba de ganhar uma versão seriado de TV.

O programa estreou nos Estados Unidos em janeiro e chega ao Brasil em 6 de maio, às 22h. É uma das maiores apostas do Warner Channel para 2008. O canal manterá o nome original: ‘Terminator: The Sarah Connor Chronicles’.

‘A série traz a mesma história dos filmes. A protagonista Sarah [Lena Headey] é a mãe que protege seu filho, John [Thomas Dekker], da morte, porque sabe que no futuro ele será o salvador da humanidade. Sarah conta com a ajuda de robôs e seres de outros planetas. Os efeitos especiais são impressionantes’, conta Wilma Maciel, diretora de programação do Warner Channel para a América Latina e Brasil.

No seriado, John tem 15 anos. No lugar de Schwarzenegger, recebe do futuro um robô que é uma garota de sua idade, a personagem Cameron (Summer Glau). Feita de metal, Cameron se desintegra totalmente e se transforma em humano com perfeição.

Exibido pela Fox americana, ‘Terminator’ foi visto por 18,4 milhões de pessoas em sua estréia nos EUA, liderando o ranking dos seriados na semana de 13 de janeiro. A audiência foi impulsionada pelo futebol americano e caiu nas semanas seguintes. Mas a série continua entre os 20 programas mais assistidos por adultos.

LUISA, MUSA DOS BICHOS

Há cinco anos apresentadora do ‘Late Show’, na Rede TV!, a doce Luisa Mell (foto acima), 29, virou musa de cães e gatos. Ela já chorou pelos bichos e cobrou medidas contra circos e rodeios. Há um ano, aderiu a uma campanha mundial que reivindica melhores condições de transporte de gado, regras para esportes com animais e a proibição do extermínio de cães em câmaras de gás. Recentemente, Luisa foi até a Costa Rica colher a assinatura do presidente daquele país para a campanha. Também atriz, ela está em cartaz no teatro, em ‘Mãos ao Alto, SP!’.

RENASCIMENTO

Ao se apresentar no ‘BBB’, dia 15, o ex-RPM Paulo Ricardo anunciou o download grátis de músicas em seu site. Em quatro dias, o www.pauloricardo.com recebeu 2,2 milhões de encomendas de downloads.

BACALHAU

O apresentador Chacrinha será o homenageado de ‘Por Toda a Minha Vida’, da Globo, em junho. Antes, o programa reconstituirá as trajetórias da banda Mamonas Assassinas (abril) e da cantora Dolores Duran (maio).

MÚSICA COM EMOÇÃO

‘Cantando Sete’ é o nome do mais novo quadro do ‘Caldeirão do Huck’, no ar em abril. A atração será uma mistura de música com game. Nele, o calouro terá que completar a letra de sete músicas, escolhidas aleatoriamente por um computador. O trecho a ser completado poderá variar de uma palavra a uma estrofe inteira, e o participante terá ajuda de terceiros em três ocasiões. ‘Para participar, só é preciso gostar muito de MPB’, diz o apresentador Luciano Huck.

Pergunta indiscreta

FOLHA – Quem escolhe as roupas que você usa na Globo? É a filha do técnico Dunga?

FAUSTO SILVA (apresentador)

– Sou eu. O bom ou mau gosto é meu mesmo. Nunca tive personal stylist nem figurinista. Também nunca usei ponto. Se falo besteira, a responsabilidade é minha. Agora que emagreci um pouco, estou usando mais camisetas, de grifes de rappers americanos porque o extra-grande delas fica confortável.’

 

Marco Aurélio Canônico

Rapper vira chef em programa on-line

‘Apresentadores de programas culinários já vieram em vários formatos -da velha mama tipo Ofélia aos jovens moderninhos à la Jamie Oliver, passando pelo ‘food porn’ de Nigella-, mas faltava botar um rapper gangsta na cozinha.

Ou não faltava, mas botaram mesmo assim: o figuraça Coolio, que o mundo conheceu em 1995 graças ao hit ‘Gangsta’s Paradise’ (em cujo clipe contracenava com Michelle Pfeiffer) e esqueceu imediatamente após, ganhou seu próprio programa de culinária, no site www.mydamnchannel.com.

É uma mistura obviamente inusitada, e é daí que deriva sua graça. No gangsta rap, o mais misógino dos gêneros musicais, o rapper só entra na cozinha se for para xingar a ‘cachorra’ porque a comida está demorando. Ver um de seus representantes se virando entre ingredientes, talheres e panelas é tão inusitado quanto divertido.

Não que Coolio perca a pose, é claro. Com a indumentária típica dos seus (óculos escuros, correntes, brinco, roupas folgadas), o rapper se define como um ‘gourmet do gueto’.

Apesar de sua intimidade com a cozinha ser visivelmente nula, ele despeja trejeitos, gírias e palavrões como se estivesse num clipe, enquanto ensina a preparar comida (que, nos seis episódios já disponíveis, vão de salada caprese a tilápia, passando por peru).

Ao seu lado, duas assistentes do tipo gostosonas, que só servem de enfeite mesmo, e seu parceiro Jarez (um saxofonista, apesar do visual), que é quem mais mete a mão na massa.

Num toque de deboche -remetendo à vida ‘gangsta’-, todos os temperos vêm em saquinhos, como se fossem drogas (e os ‘especiais’ vêm direto dos seios das assistentes).

Comida comédia

Os nomes de cada prato já vêm com uma gracinha -de ‘Espinafre que até seus filhos vão comer’ a ‘Cool-a-cado’, uma mistura do nome do rapper com avocado (abacate).

Durante a preparação, Coolio vai disparando piadas (em inglês e com gírias) e grosserias a torto e a direito. ‘Ficou bonito como um grande traseiro, é disso que eu gosto’, fala, olhando a tilápia pronta.

Posto tudo isso (e julgando pelo visual final de alguns pratos), é improvável que alguém efetivamente se aventure a fazer qualquer prato com Coolio, mas para quem quiser tentar, o site coloca as receitas por escrito on-line.’

 

Josimar Melo

Chef charlatão abusa da maionese

‘Fiquei órfão do ‘Da Ali G Show’, que sumiu do canal Sony. Mas descobri, na internet, outro rapper, Coolio, que além de cantor tipo mano pobre da periferia ainda cozinha.

Ali G é falso rapper e falso mano. É personagem do ator Sacha Baron Cohen (o Borat), um branco judeu vestido de negro que, com suas perguntas absurdas, faz impagáveis entrevistas com pessoas seríssimas. Já Coolio é um rapper de verdade, que no programa… ensina a cozinhar.

Que tipo de cozinha? Há legendas que o definem como um chef charlatão. Ele age como quem cozinharia com pouco dinheiro e pouca sofisticação na periferia -manos também comem. Ou pouco ingrediente e muita maionese. E personagens como um seqüestrado atado como masoquista, um ajudante-rapper que repete tudo, fantasias de lagosta, fora os seios suculentos de duas ‘ajudantes’.

Tudo bem divertido. Embora o falso mano Ali G pareça ainda mais real do que Coolio, muitos rappers são imitações dos manos pobres dos guetos, e Cohen, para imitar, é inigualável.’

 

Rafael Sento Fé

‘Fantástico’ cria núcleo de humor e lança novos quadros

‘Depois da substituição da apresentadora Glória Maria por Patrícia Poeta, o ‘Fantástico’ mostra outras novidades a partir do próximo domingo. No ano em que completa 35 anos, o programa dominical passa a contar com uma ‘Redação de humor’, como está sendo chamada. A idéia é integrar mais jornalismo e dramaturgia.

‘O que a gente está virando de cabeça para baixo é a participação da CGP (Central Globo de Produção) no programa’, explica o diretor de núcleo Guel Arraes. ‘O Cláudio Paiva montou uma Redaçãozinha e a produção é dirigida pelo Maurício Farias. Eles participam da reunião de pauta.’

As mudanças são apresentadas num momento em que o ‘Fantástico’ briga para recuperar preciosos pontos no Ibope. O programa sofreu uma redução de 21% na Grande São Paulo, entre 2004 e 2007, caindo para 28 pontos na média anual. No mesmo período, o ‘Domingo Espetacular’, da Record, passou de 6,5 para 11 pontos.

Apesar dos números, o diretor Luiz Nascimento não se diz preocupado. ‘Se somar os índices da concorrência, não chega ao do ‘Fantástico’. Acho saudável passar por períodos de turbulência, porque faz pensar, mas o ‘Fantástico’ não é um programa inconseqüente. Tem uma preocupação com a qualidade’, afirma.

Uma das novidades está por conta de Fernanda Torres e Evandro Mesquita, que farão um quadro ‘jornalístico’, como Guel Arraes faz questão de ressaltar. Baseado em informações científicas, os dois vão discorrer sobre as diferenças entre o homem e a mulher e dramatizar situações do cotidiano em ‘Sexo Oposto’.

As outras estréias são ‘15 Segundos’, com Patrícia Poeta, e ‘Corpo em Movimento’, com o coreógrafo Ivaldo Bertazzo. A apresentadora instigará personalidades a fazerem um resumo de suas vidas num curto intervalo de tempo. Já Bertazzo dará dicas sobre exercícios.’

 

Vera Magalhães

Série é um adeus às ilusões da esquerda

‘A minissérie ‘Queridos Amigos’ entra na reta final com uma mensagem de ‘adeus às ilusões’ da esquerda que resistiu à ditadura e enfrentou, nos anos 80, a ressaca da derrota da emenda das Diretas, da queda do Muro de Berlim e da vitória de Fernando Collor sobre Lula.

A expectativa dos personagens centrais -intelectuais de esquerda que tiveram algum envolvimento com a resistência à ditadura nos anos 70- com a primeira eleição direta em 40 anos permeia toda a trama. Quando os amigos se reencontram depois de sete anos, o país está às voltas com a disputa que seria decidida, em segundo turno, entre Collor e Lula, em 17 de dezembro de 1989.

Embora a política não seja o tema central da série, ela é determinante na composição dos principais personagens, como o jornalista comunista Tito (Matheus Nachtergaele), que encarna o desencanto diante das mudanças do mundo e da prevalência, na sociedade da época, do individualismo. Numa das principais cenas, Tito chora diante das imagens da queda do Muro de Berlim.

À exceção do homossexual libertário Benny (Guilherme Weber), todos os ‘amigos’ que compõem o núcleo central da trama são de esquerda e eleitores de Lula. Apesar de a trama se passar no fim dos anos 80, a década de 70 tem um peso bem maior para determinar o gosto musical, o comportamento e as afinidades dos membros da ‘família’. O ‘fantasma’ da ditadura aparece nas várias menções ao período e na figura do ex-torturador que volta para assombrar Bia (Denise Fraga).

As Diretas-Já e o governo Sarney aparecem em leves pinceladas, como nas menções ao comício na Praça da Sé, em 1984, e às sucessivas crises econômicas, com personagens vivendo às voltas com desemprego e inflação em alta.

Num contraponto aos ‘engajados’ da turma, aparecem os ‘alienados’, como o yuppie Fernando (Tato Gabus Mendes). Numa cena bem-humorada, a ex-modelo Karina (Mayana Neiva) diz que votará em Collor ‘porque ele é bonito’.

Na reta final, ‘Queridos Amigos’ deve entrelaçar o destino individual dos protagonistas ao do momento político, com a vitória de Collor. Trata-se de um desfecho coerente com o sentimento de ‘o que foi feito de tudo que a gente sonhou’ de uma obra que teve a melancolia da ‘década perdida’ como marca.’

 

Lucas Neves

‘House’ inspira livro sobre medicina

‘O gênio ruim e a língua ferina do protagonista são os carros-chefes da série de TV ‘House’, não resta dúvida. Mas ninguém negará que a seleção de casos médicos bizarros apresentados episódio após episódio também atrai lá sua cota de hipocondríacos, sádicos e mesmo espectadores mais ortodoxos.

Algumas das ocorrências mais incomuns da ficção serviram de deixa para o jornalista norte-americano Andrew Holtz, 51, fazer um bê-á-bá da medicina ‘de verdade’ no livro ‘A Ciência Médica de House’, que acaba de ganhar uma edição nacional.

A partir de histórias que intrigam a equipe do hospital-cenário Princeton-Plainsboro -como a do homem que se mete a soltar frases sem sentido ou a da grávida que jura não ter tido relações sexuais nos 12 meses anteriores-, o autor detalha os fatores que influenciam diagnósticos reais, os ruídos de comunicação recorrentes na relação paciente-médico e os exames mais encomendados pela turma de jaleco branco.

Em entrevista por telefone à Folha, de Portland, Holtz conta que pensou originalmente no livro como um ‘serviço para os milhões de fãs da série nos EUA e no exterior’, grupo em que ele até então não se incluía.

‘Como cubro saúde há mais de 20 anos, às vezes acho difícil assistir a programas médicos de ficção, porque sei que diferem muito da realidade que vejo quando escrevo minhas matérias sobre hospitais’, afirma. ‘Ocorre que, em conversas com várias pessoas, ficou claro para mim que havia muitas indagações a respeito do quão realista a medicina mostrada em ‘House’ era.’

O ‘diagnóstico’, depois de seis meses de pesquisa (em que ouviu especialistas, consultou publicações e assistiu a uma penca de episódios da série), o surpreendeu.

‘Há sempre algum grau de realidade nas tramas. Mais até do que eu esperava. Quando [os personagens] falam de uma doença, aquilo existe, já foi registrado em algum lugar, ainda que seja raríssimo. [A sucessão de quadros clínicos incomuns] Certamente não reflete a rotina diária de um hospital, mas nem é essa a idéia.’

Sem exclusividade

Holtz diz que, a título de ‘reforço dramático’, o que os roteiristas de ‘House’ fazem é concentrar em um só personagem sintomas observados em vários pacientes ‘de verdade’.

Para o jornalista, o único aspecto em que a série de fato se descola da realidade é ‘na impressão de como um hospital funciona nos EUA’: ‘Você nunca acharia uma equipe de médicos como a da série, em que um grupo se dedica exclusivamente a uma pessoa por dias a fio. E alguém em estado grave, ao longo de sua internação, não é tratado por menos de 15, 20 pessoas diferentes. Mas, na televisão, o público se distrairia com facilidade se houvesse mais de uma dúzia de personagens’.

Mais do que liberdades poéticas aqui ou ali, o que incomoda alguns médicos entrevistados pelo jornalista é a ‘tolerância zero’ de House com seus pacientes. ‘Mas, no fundo, todos sabem que, no mundo real, ele não duraria muito: seria demitido do hospital e possivelmente enfrentaria processos judiciais por submeter pacientes a certos procedimentos sem autorização prévia’, contemporiza.

A CIÊNCIA MÉDICA DE HOUSE

Autor: Andrew Holtz

Editora: Best Seller

Quanto: R$ 29,90 (288 págs.)’

 

Cláudia Gazzo

Autor usa série como pretexto para pesquisas

‘Graças ao sucesso de ‘House’, o jornalista Andrew Holtz pôde divulgar pesquisas trabalhosas e complexas, usando o médico da série como ponto de partida atrativo para conseguir expor suas opiniões e seus conceitos sobre a área médica.

Mas o conteúdo do livro me parece desprovido de foco analítico. Pretende-se abordar a relação médico-paciente nas mais diversificadas condições de trabalho.

Holtz fala sobre médicos de família, unidades básicas de saúde, atendimentos ambulatoriais, hospitalares de terceiro nível, prontos-socorros e unidades de tratamento intensivo. Usa depoimentos de médicos e psicólogos e procura sustentar suas teorias usando referências de pesquisas publicadas.

Esbarra na ousadia de explicar-nos como interpretar determinados sinais e sintomas, além de indicar diagnósticos e tratamentos. Enfim, aprendo muito mais medicina ao ver House trabalhando, mesmo sob forte tensão psicológica -e ele ainda tem que suportar ser chamado de rabugento.

CLÁUDIA GAZZO é médica ginecologista formada pela USP de Ribeirão Preto e atua na área de cirurgias endoscópicas, restauração da fertilidade e reprodução humana’

 

Nova safra vai ao ar em abril

‘O Universal Channel retoma a exibição de episódios inéditos da quarta temporada de ‘House’ no dia 17 de abril, às 23h. Na trama de ‘It’s a Wonderful Lie’, uma mulher sofre uma paralisia súbita nas mãos e não consegue evitar a queda da filha de um paredão de escalada indoor. Na TV aberta, a Record exibe às quintas, à 0h, o segundo ano.

Nos EUA, as gravações da quarta temporada foram interrompidas em novembro por causa da greve dos roteiristas. Atualmente, estão sendo produzidos quatro episódios para completar o ano.’

 

GERO CAMILO
Mônica Bergamo

Quero ser galã

‘Gero Camilo já recusou convite para fazer novela por não ser dado a ele o papel de galã e a possibilidade de ‘subverter o estereótipo de beleza’. Também nega-se a fazer propaganda. ‘Entendo meu trabalho como resistência’, diz

Gero Camilo está de escumadeira na mão e avental de cozinha estampado com chaleiras, bules e panelinhas. Com a mão que está livre, abre o portão da casa, numa travessa da avenida Cerro Corá, em Perdizes. É quarta-feira e, depois de algumas tardes de chuva, lençóis, meias e cuecas coloridas secam ao sol no varal. Gero segura uma cebola e sorri: ‘Se o almoço não der certo, tem um restaurante por aqui’. Não, não é um personagem. É a vida do ator cearense que, como ele mesmo diz, nunca se rendeu ao Miojo -nem às novelas da TV.

Gero participou de longas como ‘Carandiru’ (ele formava o casal com Rodrigo Santoro, em quem deu o célebre beijo na boca) e ‘Bicho de Sete Cabeças’, teve sua peça, ‘Aldeotas’, que escreveu e estrelou por quatro anos, indicada a quatro prêmios Shell e estreou, na última sexta, ‘Navalha na Carne’, montagem do clássico de Plínio Marcos. Na televisão, participou só da minissérie ‘Hoje É Dia de Maria’.

‘Entendo meu trabalho como resistência. Não gosto quando meus colegas dizem que fazem TV pra ganhar dinheiro e depois fazer cinema ou teatro. Não que eu tenha preconceito com TV. Tenho amigos lá, respeito. Mas tem muita merda sendo feita.’

Começa, então, a picar a cebola para a receita do dia: estrogonofe -que, na sua versão, só leva frango, creme de leite e curry-, arroz e salada. ‘Já recebi muitos convites, é verdade’, diz. ‘Uma vez um diretor de novela da TV Globo ligou: queria me dar papel num casal romântico da periferia. Eu disse que aceitaria se pudesse subverter, se o casal fosse ‘o’ casal. Queria ser o galã da novela, para transgredir o estereótipo de galã. Ele ficou de ligar. Adivinha? Nunca mais.’

E completa: ‘Um desafio meu quando fiz cinema antes de TV era construir uma identidade de cinema. Quero ser referência pelo cinema. Acho que os diretores são medrosos, pra não dizer covardes, na escolha dos atores. Aproveitam a TV, e não criam uma identidade’.

A casa do ator fica de frente para uma praça e tem na entrada um jardim não muito arrumado -ou ‘selvagem, cabeleira de capim’, como diz uma das letras de seu CD, ‘Canções de Invento’. Solteiro aos 37 anos, mora lá com dois amigos dos tempos de EAD (Escola de Artes Dramáticas). A cozinha, aliás, lembra a de uma república universitária: fogão quatro bocas, geladeira velha, pratos e talheres de modelos diferentes.

‘Uma revista publicou que [‘Aldeotas’] era um espetáculo gay. Liguei lá e mandei tirar. Porque não é gay e ponto. E não é autobiográfica, embora todas as questões passem por mim, da sexualidade à arte. Na verdade, é uma biografia do sentimento, meu, seu, dele’, diz Gero, enquanto lava folhas de alface para a salada. Um amigo, Rubi, chega à casa. Violão debaixo do braço, puxa a música, com letra de Gero: ‘Meu companheiro ator/ caça uma quebra de texto’. Gero cuida do arroz e solta pequenos risos durante a apresentação: ‘Que lindo’. Rubi vai embora e o ator conta que vive um tipo de ‘comunismo com os amigos, os próximos’.

‘Sou um comunista convicto. Acredito numa revolução com os meus. Tive uma família muito grande e esse comunismo, de certa forma, tinha que existir. Minha família é da periferia do Ceará, minha mãe teve 19 irmãos e minha avó criou até uma criança deixada na porta. Era preciso dividir.’ Os ideais -’vesti camiseta do Che Guevara, isso tudo’- o levaram à Teologia da Libertação e à porta do seminário. ‘Ia ser padre, porque fazia parte da minha militância. Daí entrei na EAD.’

Veio a São Paulo pela primeira vez aos sete anos, no caminhão do pai. A viagem, do Ceará à capital, durou cinco dias. ‘Minha mãe queria ficar mais perto do meu pai, que viajava muito porque era caminhoneiro. Mas, chegando aqui, ele continuou viajando e acabamos voltando.’ Aos 23, voltou de vez: foi morar no Crusp, a moradia da USP, depois de passar no vestibular.

De lá para cá, mudou-se para Perdizes e deixou de ler as notícias de política ‘porque ficaram muito novelescas’.’Não sei se votaria no PT de novo, mas é difícil ter qualquer outra opção que não seja o nulo. Recebi um convite do governo para fazer a propaganda da transposição do rio São Francisco e não aceitei. Sou totalmente contra.’

‘O arroz está pronto’, diz. Serve-se de salada e suco de laranja. ‘Sabe o que eu me pergunto? Como é que uma peça [‘Aldeotas’, no teatro da PUC] fica quatro anos em cartaz, com casa cheia, e não dá dinheiro?’ Ele mesmo responde: ‘Cobramos R$ 50 de ingresso, mas 85% é meia-entrada. Tem uma cota para funcionários [da PUC] e assim vai… Da última temporada de dois meses, vou ganhar mais ou menos R$ 6.000. É muito pouco’.

Sem patrocínio, ele bancou a peça. ‘A burguesia do país é muito limitada. Trazer o Cirque du Soleil é um luxo. Agora, pegar palhaços daqui, como os do [grupo] ‘Jogando no Quintal’, não. As empresas não querem patrocinar. Querem isenção fiscal, um jeito de ganhar.’

Terminado o almoço, ele leva os pratos à pia. Está quase na hora do ensaio de ‘Navalha na Carne’. ‘Estamos a léguas de distância do teatro comercial’, diz, já fechando as janelas da casa, prevendo a chuva do fim da tarde -ele só voltará do ensaio depois das onze da noite. ‘Nosso teatro é espontâneo, nasce independente. Alguns podem se dar ao luxo de fazer teatro apenas quando há dinheiro. Outros não, porque, para esses outros, é coisa de vida.’

Reportagem AUDREY FURLANETO’

 

CINEMA
Roberta Salomone

Cláudio Torres filma Luana Piovani ‘invisível’

‘Sexy, loira, interessadíssima em futebol da terceira divisão e capaz de perdoar a traição de um namorado. Essa é Amanda, personagem de Luana Piovani em ‘A Mulher Invisível’, terceiro longa-metragem do diretor Cláudio Torres, que está sendo rodado no Rio e deve estrear no próximo ano.

‘Ela é a mulher do imaginário de qualquer brasileiro. Mas, de tão perfeita, não existe’, diz Torres, que criou o papel pensando em Luana antes de conhecê-la pessoalmente. ‘Não tinha como ser outra atriz.’

O encontro dos dois aconteceu por acaso num bar do Baixo Gávea, na zona sul do Rio. A atriz tinha visto há pouco tempo o filme de estréia de Torres, ‘Redentor’, e foi elogiá-lo. O diretor aproveitou para contar que estava escrevendo um roteiro para ela.

‘Levei um susto, mas é claro que fiquei lisonjeada’, recorda Luana. ‘Amanda é o protótipo de mulher com que todo homem sonha. Gosta de futebol e não liga se o namorado quer sair para beber com os amigos. Chega a ser engraçado. Posso ter algumas características dela, mas não sou tão moderna.’

A Folha acompanhou um dia de filmagem de ‘A Mulher Invisível’, no prédio do Detran, no centro do Rio. Em uma das cenas, Amanda aparece de calcinha, sutiã -escondidos sob um sobretudo de vinil preto sempre que o fotógrafo apontava a câmera- e saltos altíssimos em uma cerimônia no trabalho de Pedro (Selton Mello). Ele é o único que a enxerga.

‘Chega a ser triste isso. Se pudesse definir, diria que o filme é uma comédia sobre a solidão’, opina Selton.

Namoro

Nos bastidores, o clima é outro. Com conversas ao pé do ouvido e carinhos explícitos, o ator e Luana não escondem o namoro.

No filme, o controlador de tráfego Pedro é abandonado pela mulher (Marina, personagem de Maria Luisa Mendonça), entra em depressão e é consolado pelo solteiro convicto Carlos (Vladimir Brichta). Até aparecer Amanda, que bate em sua porta pedindo açúcar.

Através de um buraco na parede, a vizinha Vitória (Maria Manoella) bisbilhota tudo e, é claro, também não vê Amanda. Como os outros, pensa que Pedro está surtando.

‘Ela fica viúva e acaba se apaixonando perdidamente por ele’, conta Maria Manoella. Torres a conheceu durante a gravação de um episódio da série ‘Mandrake’.

Assim como em ‘Redentor’, o diretor recorre a elementos fantásticos para contar a história. Fã de ficção científica, ele já perdeu a conta de quantas vezes viu ‘2001: Uma Odisséia no Espaço’, de Stanley Kubrick. ‘Gosto do absurdo, de sair da realidade’, diz Torres, à frente de um orçamento de R$ 6 milhões.

No elenco, ainda estão Paulo Betti (Nogueira), Lucio Mauro (Governador), Danni Carlos (Bárbara), Karina Bacchi (Karla) e Fernanda Torres (Lúcia), irmã do diretor e prestes a dar à luz ao segundo filho.

As filmagens terminam na próxima quinta-feira depois de já terem passado por vários pontos do Rio, de uma livraria de Ipanema (zona sul) a um hospital da zona norte.

No segundo semestre, deve estrear o segundo longa de Torres, também com mulher no título: ‘A Mulher do Meu Amigo’ é baseado numa história de Domingos Oliveira e tem Mariana Ximenes e Marcos Palmeira nos papéis principais.’

 

Laura Mattos, Eduardo Arruda e Malu Toledo

Filme mostra futebol e SP dos anos 50

‘Poucos carros circulam pelas ruas de São Paulo, namorados passeiam de barco pelas águas cristalinas do Tietê e apreciam as margens floridas. O estádio do Pacaembu, em uma vizinhança de raros prédios, recebe damas com belos vestidos e cavalheiros de terno, enquanto jogadores lendários do Corinthians posam para uma foto em frente à concha acústica.

O retrato dessa cidade bucólica da década de 50 e de um futebol ainda romântico, quase amador, corre o risco de virar pó, literalmente, em um depósito da Cinemateca Brasileira do Estado de São Paulo.

Os negativos de ‘O Craque’, de 1953, o mais antigo longa-metragem nacional com o futebol como pano de fundo que não se perdeu com o tempo, estão em ‘estágio de deterioração muito avançada, provavelmente com partes irrecuperáveis’, segundo laudo expedido pela Cinemateca no final de 2007.

Não há nenhuma cópia em bom estado, só trechos em VHS, assistidos pela Folha. O material está com a publicitária Patrícia Civelli, 57, filha de Mário Civelli (1923-93), produtor de ‘O Craque’ e de outros filmes dos anos 1950 e 1960.

Desde a morte do pai, ela tenta restaurar sua obra. Com apoio da Petrobras, acaba de recuperar o documentário ‘O Gigante’ (1969), censurado na ditadura militar. A cópia restaurada será exibida em abril no festival É Tudo Verdade.

Ela busca patrocínio para ‘O Craque’, cuja restauração, calcula, levaria cerca de um ano e custaria R$ 1,8 milhão.

Corinthians x Uruguai

‘O Craque’ é protagonizado por Eva Wilma, Carlos Alberto (1925-2007) e Herval Rossano (1933-2007). Mostra um jogo real entre Corinthians e o Olímpia, do Paraguai, que na história é um temido time uruguaio. ‘O Corinthians encara nesta tarde, desportistas amigos, o Carrasco de Montevidéu, o campeão do Uruguai’, narra Blota Júnior (1920-1999).

O time que aparece no filme foi um dos mais importantes da história alvinegra ao conquistar o título do Quarto Centenário de São Paulo (1954). Era formado por craques como o goleiro Gilmar e os atacantes Baltazar, Cláudio e Carbone.

O longa acaba com a vitória corintiana de virada, uma revanche fictícia à amarga derrota da seleção brasileira na final da Copa de 50, no Maracanã.

O universo futebolístico, com cenas da partida, de treinos, vestiários e do Parque São Jorge, entre outras, serve como pano de fundo para o romance de Elisa (Eva Wilma) e Julinho ‘Joelho de Vidro’ (Carlos Alberto), que tinha o apelido em razão de uma queda sofrida na infância. Rico industrial, o pai da mocinha não aceita o namoro da filha com um jogador em busca do sucesso e a pressiona a ficar noiva do jovem médico Mário (Herval Rossano).

Em um final feliz, Julinho, com o joelho recuperado, se consagra ao substituir Carbone, no papel dele mesmo, fazer o gol da vitória corintiana e beijar a mocinha. ‘Ele ficou com todos os meus gols’, lembra Carbone, hoje com 80 anos, que no filme teve de deixar a partida em uma maca, com crise de apendicite.

Quase 60 anos após as filmagens, poucas testemunhas restam. Além de Carlos Alberto e Rossano, já morreram quase todos os jogadores do Corinthians, o diretor do filme, José Carlos Burle, o produtor Mário Civelli e dois dos roteiristas.

O terceiro é o jornalista Alberto Dines, 76, que guarda fotos das filmagens e originais do roteiro em amarelados papéis datilografados. ‘Lembro que chegamos a pensar em algo dramático, inspirado no cinema americano de beisebol e boxe, mas o Civelli queria uma comédia romântica comercial’, conta Dines, contratado aos 21 anos pelo produtor após fazer uma entrevista com ele para a revista ‘Visão’, na qual era repórter e crítico de cinema.

Eva Wilma, que hoje interpreta a vilã da novela das seis da Globo, ‘Desejo Proibido’, lamenta a situação do filme, um dos três de seu primeiro ano no cinema. ‘É triste, angustiante. É não só um registro da história do cinema, como dos costumes e de São Paulo. Eu me lembro da cena em que conversava com o Carlos Alberto na margem do Tietê.’

Latas

Os negativos originais de ‘O Craque’ foram entregues por Mário Civelli à Cinemateca em 1989, segundo Patricia de Filippi, diretora da instituição e coordenadora do laboratório de restauração. Ela afirma que um laudo de 1993 atestou que o material apresentava ‘evidentes sinais de deterioração’. ‘Os negativos devem ter sido armazenados em condições não ideais por 40 anos. Estamos em um país tropical, quente e úmido, exatamente o contrário do que exige a preservação’, diz.

E a Cinemateca só passou a ter câmaras climatizadas em 2000. Hoje, segundo ela, as oito latas com negativos de imagens do filme e outras oito com negativos do som ficam a 10º e 35% de umidade relativa do ar. Apesar disso, a obra corre o risco de desaparecer.’

 

CÉLULAS-TRONCO
José Arthur Giannotti

Liberdade vigiada

‘Também quero pôr o bedelho nessa discussão sobre as pesquisas com células-tronco. Aqueles que são contra invocam o caráter sagrado da vida que já estaria pulsando nessas células humanas. É muito estranho, entretanto, que muitos deles aceitem e até mesmo aplaudam a pena de morte, sendo que alguns chegam a se entusiasmar com o envio de tropas para combater o eixo do mal.

E a Igreja Católica, cujos manifestos sobre o pecado de instrumentalizar a vida são os mais calorosos, no fundo tem responsabilidade de vir a público para explicar como tem convivido com a pena de morte e com as guerras santas.

Do ponto de vista biológico, a vida se resolve em ciclos de nascimento e devoração. Todos achamos natural comermos carnes e ovos e, no caso de extrema necessidade, até mesmo a antropofagia tem sido justificada. No limite da sobrevivência, um ser humano fica liberado para comer os restos mortais de outrem. Biólogos hoje dizem que a vida começa na formação do zigoto, mas, como tudo em ciência, o dizem sob a forma de hipóteses, de proposições que, a despeito de serem afirmadas atualmente com certeza, podem ser reformuladas a partir de novos dados.

Exaltação da vida

São mais emaranhadas as opiniões dos filósofos a respeito da vida. Um dos maiores filósofos que a exaltaram foi sem dúvida Nietzsche. Para reafirmá-la, diz ele, cabe recusar as oposições esclerosadas do bem e do mal, apostar na vontade de criar um mundo melhor, onde cada um afirma fortemente os lados mais criativos de sua subjetividade. Nem por isso questiona seu lado corrosivo.

No aforismo 26 de ‘A Gaia Ciência’, escreve: ‘O que é viver? Viver?… É constantemente afastar de si o que quer morrer. Viver?… É ser cruel, é ser impiedoso contra tudo o que envelhece e se enfraquece em nós e alhures. Viver? … É pois não ter piedade pelos agonizantes, os velhos e os miseráveis? É assassinar sem descanso?… E, no entanto, o velho Moisés disse ‘Não matarás’.

Convém refletir sobre esse texto. Viver não é ter medo da morte, mas se afastar dela. O animal é impiedoso com sua presa, mas não o é porque ela ou ele mesmo envelhecem. A potência do viver vai além da luta cruel pela sobrevivência da espécie.

Não é por isso, contudo, que se deva ser impiedoso com todos aqueles que se enfraquecem ao cumprirem seu ciclo vital. Não se estaria assim contrariando a própria vida que já toma o indivíduo no eterno retorno do mesmo? Mas se a vida não se esgota no nível biológico, ela não se instala na crueldade da disputa, na afirmação guerreira de si, na imposição da vontade do mais forte?

No âmbito desse tipo de ação o vivente se instala no nível da religião e da moral e, desse modo, não pode se esquivar do mandamento do velho Moisés.

No entanto, o que ele não deve matar? O animal que come? O animal homem? A pergunta está defasada, pois fica proibido de liquidar o homem religioso e moral, aquele que vai além de si mesmo a partir do fato que ele é. Para respeitar essa transcendência, precisa ir além da religião e da moral instituída, recusar o mistério bem falante e as normas do pastoreio do bom comportamento.

Viver se mostra então a firme disposição, a vontade de desenvolver a si mesmo, o espírito da eterna renovação que se faz mesma porque ama o fato de ser além de si.

O que tem a ver a disputa sobre o uso de embriões com essas fabulações filosóficas? Não sou ingênuo a ponto de imaginar que uma decisão dessa espécie poderia ser tomada tendo por base tais especulações, por mais profundas que sejam. Mas essas servem para tirar o cisco do caminho.

Em resumo: tentei mostrar que a decisão não pode vir da argumentação científica. Se esta é um tecido de hipóteses, serve para o entendimento provisório do universo e para orientar como podemos instrumentalizar um pedaço do mundo, sem que possa discriminá-lo.

Muito menos da filosofia, mesmo daquelas que têm a vida como foco de inspiração. O homem além dele mesmo, um eterno experimentador, não saberá decidir o que fazer com os embriões congelados.

Direito positivo

Mas o direito sagrado da vida? Não é preciso saber onde ela começa para que ele possa ser respeitado? Mas, enquanto ‘direito’, a questão vem a ser transposta para o nível da liberdade. Desse ponto de vista, os embriões são propriedade de seus genitores.

E, até mesmo segundo o conceito liberal de propriedade, são eles quem têm o direito de determinar seu destino, seja para o congelamento até o fim dos séculos, seja para o uso científico, seja para o lixo.

Note-se que nem mesmo estou invocando a teoria moderna do uso social da propriedade. Desse ponto de vista, os genitores têm o direito sobre pedaços de seus corpos até que esses possam ter desenvolvimento autônomo, cortados os laços de quem os juntou. E não é nesse nível que a questão já está posta, porquanto será o Supremo Tribunal Federal que decidirá a disputa? Essa linha de raciocínio não terminaria defendendo o infanticídio? De novo a questão está mal posta. A liberdade de qualquer um de nós se exerce como liberdade regulada pelo direito positivo, que por sua vez se move nesta ou naquela direção conforme o tipo de sociedade que queremos ter.

É por isso que devemos indagar: qual é a sociedade que nós brasileiros queremos ter? Aquela que cuida da preservação de embriões congelados ou que cuida dos doentes que necessitam de novas terapias?

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI é professor emérito da Universidade de São Paulo e coordenador da área de filosofia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Escreve na seção ‘Autores’.’

 

STF julgará questão em abril

‘Marcada para o dia 5 passado, a decisão sobre o futuro das pesquisas com células-tronco no Brasil acabou sendo adiada por um pedido de vistas ao processo do ministro do STF Carlos Alberto Menezes Direito. Ele deve ocorrer apenas no início de abril.

Liberadas em março de 2005 pela Lei de Biossegurança, as pesquisas foram suspensas dois meses depois, por uma Ação Direta de Inconstitucionalidade ajuizada pelo então procurador-geral da República Cláudio Fonteles.

Direito pediu vistas durante o julgamento, quando a ação havia recebido dois votos contrários, do relator do processo, Carlos Ayres Britto, e da presidente do STF, Ellen Gracie.

As células-tronco embrionárias são consideradas esperança de cura para algumas das doenças mais mortais, incluindo tipos de câncer. Sua obtenção, porém, causa polêmica, já que a maioria das técnicas exige a destruição do embrião.

No Brasil, a Igreja Católica é a principal opositora da liberação, por entender que ser o início da vida humana. Defensores das pesquisas, como boa parte da comunidade científica, discordam desse ponto de vista.’

 

MIMESE
Leopoldo Waizbort

Imaginação sem poder

‘Por mais que o sentido da mimese se furte, em seus primórdios, a uma definição unívoca, é certo que Aristóteles e Platão buscaram sistematizar um problema antigo. Já então o juízo sobre a mimese sofrera uma série de deslocamentos, mudanças de ênfase e mesmo incompreensões, voluntárias ou não.

A ‘Trilogia do Controle’, de Luiz Costa Lima, propõe-se a investigar um desses deslocamentos, marcado por mecanismos profundos de dominação da e na cultura do Ocidente. Como talvez nenhuma outra, a ‘Trilogia’ revela uma inflexão decisiva na obra do autor, que demarca um complexo de investigações que perdura até seus livros mais recentes (‘Mímesis’ e ‘História, Ficção, Literatura’).

A trilogia, publicada seguidamente na segunda metade dos anos 1980, compõe-se de ‘O Controle do Imaginário’, ‘Sociedade e Discurso Ficcional’ e ‘O Fingidor e o Censor’. Os três livros aparecem agora reunidos em um único volume, cujas mais de 800 páginas exigem do leitor muita dedicação, assim como exigiram, a seu tempo, do autor.

Maratona

É obra de fôlego, e, refletindo sobre isso, ocorre-me que se trata não do fôlego de mergulhador, que permanece submerso à procura da pérola de sua vida, mas de fôlego de maratonista, que percorre incansavelmente todo o caminho que o seu desafio exige e que, mesmo ao final, sabe que tem pela frente uma nova corrida.

O problema de Costa Lima é a questão da mimese. Intriga-o como a passagem da mimese à semelhança implicou um veto ao ficcional, em favor de um certo regime de verdade (sempre reposto em variegadas figurações históricas). Diante disso, opera dois movimentos complementares: por um lado, busca acompanhar a história desse veto, entendido como um controle do imaginário (e, portanto, como um mecanismo de poder e de reprodução de poder).

Por outro lado, busca deitar raízes para a compreensão e fundamentação da mimese como produção da diferença (de onde a idéia de que a pluralidade discursiva -na qual o imaginário não estaria condenado- é a contraface necessária de uma sociedade mais livre).

Não me é possível elencar os tópicos principais da ‘Trilogia’, nem mesmo o fio de seu argumento, que vai se desdobrando em meandros vários, esperados e inesperados, compactos e extensos, literários e extraliterários, armando uma teia bastante complexa e, como reconhece o próprio autor, necessariamente incompleta.

Não obstante, a redução da mimese à ‘imitatio’ (esta, contínua à semelhança e ao verossímil) significou a criação de um mecanismo de controle da subjetividade, sobretudo desde o momento no qual esta se desvencilha de uma totalidade cósmica e absoluta (no curso da argumentação, desde a Baixa Idade Média). Posteriormente, a emergência da subjetividade expressiva resultará na falência da ‘imitatio’, sem que a mimese seja reconduzida à ‘poiesis’ -antes o contrário.

Surpreendente

Nessa direção, poder-se-ia afirmar que a trilogia tanto historia a disjunção de mimese e ‘poiesis’, quanto reivindica a mimese como ‘poiesis’, uma concepção na qual a dimensão de similitude permanece presente, mas se abre para o domínio do diferente, divergente e imaginário.

Em tal perspectiva, a análise do discurso histórico e crítico se torna móvel privilegiado, no qual seria possível expor os desencontros de razão e imaginação, história e ficção, documento e discurso, realidade e verdade, e que Costa Lima investiga em várias constelações históricas, na Europa, na América Latina e no Brasil.

Há na ‘Trilogia…’ muitas coisas surpreendentes. A que mais me assombra, em meio ao esforço de construção teórica, é o ajuste de contas com a cultura latino-americana (colonial e pós-colonial), tributo que o autor brasileiro não se furta de prestar e quitar.

Nesse quadro, a discussão de Jorge Luis Borges é das mais sugestivas e inusitada para este leitor comum. Se por um lado Borges é controlado, por outro aparece também como controlador. Em poucas palavras: a análise da recepção argentina da época mostra Borges controlado, recusado como escritor argentino, não comprometido com valores humanos.

O outro lado, o Borges controlador, exige um percurso complexo. Borges toma para si elementos da gnose, que converte em procedimento de fabulação. A gnose é o fundamento do mito em Borges, que por sua vez é o centro a partir do qual irradia, e para o qual converge, a sua narrativa.

Sua obra seria ‘uma narrativa conformada ao padrão do mito, mas que não se queria mito’. Seu caminho foi a estetização (seja da metafísica, seja do religioso), instituindo um privilégio do texto que acaba por bloquear a mencionada pluralidade discursiva. Assim, muito paradoxalmente, o autor das ‘Ficciones’ opera um veto do ficcional e, o que é assombroso, no fundo tolhe a imaginação.

LEOPOLDO WAIZBORT é professor de sociologia na Universidade de São Paulo e autor de ‘As Aventuras de Georg Simmel’ (editora 34).

TRILOGIA DO CONTROLE

Autor: Luiz Costa Lima

Editora: Topbooks (tel. 0/xx/21/ 2233-8718)

Quanto: R$ 79,90 (846 págs.)’

 

 

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