Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 17 E 18/11

Folha de S. Paulo

20/11/2007 na edição 460

ARTE
Folha de S. Paulo

O Grande Vazio

‘NUMA PROPOSTA que nem a filosofia desconstrucionista ousou fazer, o curador da 28ª Bienal de São Paulo, Ivo Mesquita, chamado às pressas para administrar a massa falida, sugere um modelo não-tradicional para o evento: uma exposição de arte sem obras de arte. Mesquita só não esclareceu se pretende cobrar ingressos para que os visitantes possam apreciar o Grande Vazio.

Sem recursos e tempo hábil para organizar a versão 2008 da segunda mais antiga Bienal do mundo, pretende deixar totalmente vazio um dos andares do pavilhão projetado por Oscar Niemeyer. A idéia é ´convidar a um debate` sobre a instituição. Um dos pisos será dedicado à memória de eventos passados, e o térreo estará aberto a performances e exibições de vídeo.

Mesquita, cujas credenciais técnicas para ocupar o cargo são inquestionáveis, não é o maior nem o único culpado pelo desastre que se avizinha, mas faria melhor se não tentasse travestir o fracasso de modernidade.

A esta altura, o melhor e mais honesto seria suspender o evento do próximo ano e tomar as medidas necessárias para profissionalizar a administração da Fundação Bienal, a fim de que o malogro não se repita.

Não há muita dúvida de que o problema é de gestão. Num país com generosas leis de renúncia fiscal e estatais ávidas por patrocinar tudo o que se pareça com arte, soa estranho falar em falta de recursos para um evento com o porte e o prestígio da Bienal de São Paulo. Parece muito mais razoável acreditar que a organização não foi capaz de angariá-los.

É lamentável que o fiasco ocorra num momento em que o grande público se acostumava a visitar a Bienal e em que a produção de arte e o mercado brasileiro se fortalecem e ganham reconhecimento internacional.’

 

EUA 2008
Sérgio Dávila

Todos contra Hillary

‘´HILLARY CLINTON` aparece fantasiada de noiva, na festa que ela e ´Bill` dão para os outros pré-candidatos democratas à sucessão de George W. Bush. Conforme os convidados vão chegando, todos elogiam sua fantasia de ´bruxa` -inclusive o marido. Até que aparece alguém de ´Barack Obama´. Quando tira a máscara, é o próprio senador, que diz que não gosta de esconder quem ele é de verdade.

Foi o quadro de abertura do programa humorístico ´Saturday Night Live` há duas semanas e é um dos clipes políticos mais vistos no YouTube ainda hoje. Resume o espírito da oposição norte-americana atual, refletido nos dois últimos debates democratas: todos contra a ex-primeira-dama.

Esse espírito dominou o debate de anteontem, em Las Vegas, o que levou a pré-candidata a dizer que o tailleur que virou sua marca registrada era feito de amianto e a citar o ex-presidente Harry Truman: ´Se você não agüenta o calor, que saia da cozinha´. Pois me sinto muito confortável na cozinha´.

Não se deve subestimar a capacidade dos democratas de estragar tudo na última hora, vide a última eleição presidencial, aquela em que, sob acusações falsas de que tinha traído o país no conflito do Vietnã, o herói de guerra John Kerry foi batido pelo mesmo Bush que nunca pisou num front na vida.

Hillary ainda é a pré-candidata mais bem colocada nas pesquisas de ambos os partidos, bate o ex-prefeito republicano Rudolph Giuliani quando posta frente a frente e tem uma máquina arrecadadora imbatível, já com US$ 100 milhões. Mas começa a perder força.

A clara vantagem que exibia nos últimos meses está sendo corroída tanto por uma definição maior de quem será seu oponente como pelos ataques mais diretos que passou a sofrer no próprio partido. Esses são liderados pelo ´bom moço` Obama, seguido pelo sulista John Edwards. Também há duas semanas, o senador negro deu entrevista em que sutilmente declarava guerra a sua colega.

O time de Hillary tentou usar a carta do gênero a seu favor, convocando até Bill Clinton para dizer que os homens haviam se reunido para atacar uma única mulher. A estratégia foi logo abandonada, pois pegou mal com as eleitoras, que viram uma indesejada demonstração de fragilidade.

Enquanto isso, o outro lado começa a tapar o nariz e a se unir em torno do ´neoconservador` Giuliani, que até ontem era a favor da união homossexual e do direito da mulher de decidir sobre o aborto. O bolo na cereja foi o apoio recebido pelo televangelista ultraconservador Pat Robertson.

Não se deve, também, subestimar a capacidade dos republicanos de não largar o poder.’

 

HISTÓRIA
Folha de S. Paulo

Exposição no Rio mostra acervo de Santos Dumont doado por sobrinha-neta

‘Alberto Santos Dumont morreu em 1932, aos 59 anos, mas seu baú ainda começa a ser aberto. Do acervo que sua sobrinha-neta Sophia Helena doou à Aeronáutica em 2004, parte está na exposição ´Passo a Passo, Salto a Salto, Vôo a Vôo: o Cientista Santos Dumont´, em cartaz no Museu de Astronomia e Ciências Afins.

E há materiais ainda em poder da família, como um livro inédito, de mais de 300 páginas, escrito por Santos Dumont em 1902.

Ele traz estudos sobre as possibilidades de o homem voar e analisa experiências, inclusive as suas com balões.

´São manuscritos em francês, e, às vezes, é difícil entender a letra dele. A família pensa em publicar, mas será necessário um trabalho cuidadoso de edição´, conta o físico Henrique Lins de Barros, autor de ´Santos Dumont e a Invenção do Vôo` (2003) e que teve acesso ao livro inédito.

Barros também viu os cinco álbuns de Sophia Helena antes da doação. São cerca de 10 mil recortes de jornal, além de documentos e fotografias.

O museu fez um trabalho de higienização e restauração. ´Nas fotografias aparece um Santos Dumont um pouco menos entronizado como gênio. É uma pessoa de carne e osso, em atividades de lazer´, diz o coordenador de museologia da instituição, Marcus Granato.

Barros assina a curadoria da mostra, que tem objetivos didáticos: crianças poderão fazer experiências para entender como um objeto voa.

Uma das curiosidades da exposição é uma pequena réplica do primeiro Demoiselle (´libélula` em francês), aeronave com que o aviador decolou há cem anos, em 16 de novembro de 1907, e deu origem a uma série. Ela era mais leve do que o 14-Bis, com o qual Santos Dumont mostrou em Paris, em 23 de outubro de 1906, um veículo levantando vôo por seus próprios meios pela primeira vez. A exposição deve passar por outras cidades.

EXPOSIÇÃO – rua General Bruce, 586, São Cristóvão, tel. 0/xx/21/ 2580-7010′

 

Marcos Strecker

Diários detalham viagem da família real

‘Até recentemente, pouco se conhecia dos detalhes da viagem da família real ao Brasil, uma aventura que começou em novembro de 1807 e acabou em março de 1808. O relato mais minucioso do episódio tinha partido de Thomas O´Neil, oficial britânico que participou da parte inicial da aventura e publicou em 1810 um livro baseado em testemunhas (o relato de O´Neil era inédito e acaba de ser editado pela José Olympio).

Agora, a história ganhou mais detalhes a partir de fontes primárias. Quem começou a dar contornos mais nítidos ao traslado foi Kenneth Light, 69, executivo de formação e pesquisador por vocação. Ex-diretor da Souza Cruz, nascido no Brasil e educado na Inglaterra, Light é o mecenas dos sonhos de qualquer museu brasileiro. Dedicou sua aposentadoria a auxiliar o Museu Imperial de Petrópolis e a pesquisar a aventura marítima da família real.

Light começou a pesquisa no início dos anos 90. Primeiro, investigou em arquivos brasileiros e europeus os diários de bordo dos navios portugueses. A tentativa foi frustrada. ´Demorei um ano e meio para descobrir o óbvio. Esses registros nunca existiram´, diz.

Livros de quarto

Depois, passou a investigar ´livros de quarto` (jargão para os diários de bordo) de navios ingleses do período. Encontrou no começo dos anos 90, em arquivos ingleses, esses registros praticamente intocados (´alguns ainda estavam com sal´). Daí, traduziu os registros da força naval britânica, com linguagem técnica e em inglês do século 19. Produziu um livro detalhado com todos os diários dos 16 navios ingleses que registraram o traslado.

Esse trabalho transformou o pesquisador na maior autoridade da viagem marítima da família real. Como aprendeu todos os termos técnicos usados pela Marinha Real na época, passou a ser requisitado por pesquisadores portugueses interessados na ligação histórica entre as forças navais dos dois países.

Essa história vai ser contada em detalhes no livro ´Transferência da Capital e Corte Portuguesa para o Brasil – 1807-1821´, que será lançado em Portugal neste mês, pela editora Tribuna da História. A edição ilustrada traz a iconografia dos navios, mapas da viagem e os tratados que precipitaram a partida da família antes da chegada das tropas napoleônicas.

Também traz textos de pesquisadores portugueses (Mendo Castro Henriques, Manuel Amaral, Pedro de Avillez e António José Telo) e brasileiros (Lilia Schwarcz, Luiz Moniz Bandeira, Lúcia Cruz Garcia) falando sobre a mudança da corte -cujo significado é muito diferente nos dois países. Uma edição brasileira do livro, simplificada e com a maioria dos textos, será lançada em março de 2008 pela editora Zahar.

O estudo de Light dá um tempero romanesco e aventureiro para um momento histórico cujos detalhes são pouco conhecidos. Sua contribuição é a visão do que aconteceu no mar. Demonstra que os portugueses mantinham sua expertise naval, mostraram domínio da viagem e, logo no começo da jornada, descartaram o risco da retaliação franco-espanhola.

Apenas quatro navios ingleses, e de porte modesto para a maior frota naval do século 19, acompanharam os portugueses. E só um vaso inglês acompanhou d. João até a Bahia.

O estudo prova que a decisão de passar pela Bahia não teve nada de imprevisto. Não há nenhuma justificativa técnica para a parada, como provam os diários. No início da jornada, os navios chegaram a apontar para o Canadá, para evitar ventos desfavoráveis. E os registros -precisos, como exigia o rigor naval- apontam 56 navios na saída de Lisboa, em 29 de novembro de 1807.

´Nosso conhecimento dos navios que empreenderam esta viagem era quase nulo. Antes, a versão era a das pessoas que estavam em terra. Agora, é das pessoas que estavam no mar´, diz Light. Ele publicou 40 exemplares dos diários transcritos, que doou para a Biblioteca Nacional, no Rio, para a Biblioteca do Congresso, em Washington, e para a Biblioteca Britânica, além de museus europeus e brasileiros.

Recentemente, descobriu, indignado, que um dos exemplares havia sido colocado à venda na livraria virtual amazon.com.

Pintura da chegada

Não satisfeito com o registro escrito, Light mandou pintar um quadro para marcar o momento exato da chegada da família real ao Rio, às 15h de 7 de março de 1808.

Para ter certeza do registro, Light alugou um barco e percorreu a baía de Guanabara com um aparelho de navegação GPS. A posição exata dos navios (Marlborough, Príncipe Real, Afonso de Albuquerque, Medusa e Bedford), as pequenas embarcações que chegavam para o beija-mão, a posição das velas de acordo com a direção do vento, tudo foi feito seguindo a pesquisa. A pintura foi feita em 1999 na Inglaterra por Geoffrey William Hunt (da Royal Society of Marine Artists), por um valor que Light não revela.’

 

LITERATURA
Eduardo Simões

Ruy Castro une real ao fictício

‘D. Pedro 1º e uma decadente cortesã de nome Bárbara dos Prazeres são dois personagens reais da história brasileira, verificáveis em livros sobre o período pós-chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808. Que o primeiro quase perdeu a virgindade com a tal prostituta, no beco do Telles, isso o leitor só encontrará registrado em ´Era no Tempo do Rei´, segunda investida do escritor Ruy Castro, colunista da Folha, na fusão entre real e imaginário. Biógrafo de Nelson Rodrigues e Carmen Miranda, entre outros, Castro estreou na ficção com ´Bilac Vê Estrelas´, de 2000.

O real está literalmente personificado na figura do príncipe d. Pedro 1º, púbere de seus 12 anos, em 1810. O imaginário é Leonardo, menino de idade próxima à de Pedro, personagem extraído por Castro das páginas de ´Memórias de um Sargento de Milícias´, romance de Manuel Antônio de Almeida, publicado em 1854.

Castro defende que, concebido como ficção, com o tempo o romance se tornou referência obrigatória na história do Rio e do Brasil daquele período. O autor tomou emprestado a primeira frase do livro de Almeida para o título de seu romance, assim como a ´temperatura de investigação e testemunho de época´. Foi o lado picaresco e malandro das aventuras de Leonardo, no entanto, que guiou a ficção de Castro – uma sucessão de farras adolescentes tendo como pano de fundo Carnaval, política, erotismo etc.

O escritor, que leu ´Memórias de um Sargento de Milícias` aos dez anos, por volta de 1958, disse que ao reler o livro pela décima vez e comparar certas características de d. Pedro 1º, viu que o príncipe e Leonardo eram muito parecidos. ´A mãe do Leonardo o abandonou e seu pai também logo sumiu. No caso do d. Pedro 1º, não se esperava que o rei ou a rainha ficassem verificando se o filho estava estudando, conferindo notas. Isso era deixado para os tutores. Então é um tipo de criação parecida entre eles, tanto que se entenderam imediatamente, na ficção. E acho que interiormente eles tinha muitas coisas em comum, como a coragem, o senso de aventura, a curiosidade.`

Personagens

O único livro de ficção que Castro usou para criar sua história foi ´Memórias…´. Dono de uma biblioteca com quase 4.000 livros sobre o Rio, o autor afirma que fez questão de construir uma base documental sólida sobre a qual assentaria a ficção -a bibliografia incluiu quase 50 títulos. Na mescla de real e imaginário, salvo aos iniciados, pode-se restar a dúvida de que personagens são verdadeiros, quais são fictícios.

´Mas de tal modo que, se o leitor souber que personagens como Bárbara dos Prazeres ou o padre Perereca existiram na vida real, vai achar mais interessante pois reconhece o trabalho de pesquisa. Se não souber, eles funcionam perfeitamente bem como tipos imaginários. O leitor não perde nada se souber ou não se existiram.`

Afora Pedro e Leonardo, o Rio de 1810 é o grande protagonista de ´Era no Tempo do Rei´. A transferência da capital do império para cidade foi uma experiência ´fabulosa` para a cidade. ´Não foi só uma mudança de endereço. A família real trouxe todo o arcabouço cultural deles. Imediatamente cresceu a quantidade de serviços de banquetes, de peruqueiros, restauração de roupas, de sapatos de alto luxo etc. Foi uma revolução cultural de um dia para o outro´, diz o autor.

Ruy Castro, que confessa ter um particular prazer em descobrir histórias violentas do Rio, também fez questão de ressaltar a tendência primordial da cidade para o perigo. Ele lembra que em seu livro ´Carnaval no Fogo` já mostrava que o Rio era voltado para a festa, sendo que o carioca brincava sobre ´uma fogueira permanente´.

´Essa atmosfera inflamada sempre existiu no Rio. Eu soube, através de um livro de história, que a cidade em 1710 era mais violenta do que em 2000. Era um breu depois de 7h da noite. Você tinha os bandidos normais, escravos fugidos que iam te assaltar, capoeiras para te esfaquear, os vagabundos, toda espécie de ameaça física te rondando e mais as ameaças externas, que eram as invasões.

Você podia morrer de bala perdida de canhão na época!` As coisas não mudariam muito cem anos depois, em 1810, quando o autor situa seu romance. Ele diz que evitou o ano exato da vinda da família real, em 1808, apenas porque precisava que a corte já estivesse estabelecida, assentada, no Rio de Janeiro.

´E por causa da idade do d. Pedro 1º. Com 10 anos não se podia esperar que um garoto saísse de lá para cá. Mas com 12, seria perfeitamente possível ele se aventurar fora do palácio. Poder, ao menos, estar com a libido um pouco mais acesa.`

ERA NO TEMPO DO REI

Autor: Ruy Castro

Editora: Alfaguara/Objetiva

Quanto: R$ 36,90 (248 págs.)’

 

TELEVISÃO
Marco Aurélio Canônico

Site humorístico Onion ataca com TV on-line

‘Espécie de ´O Planeta Diário` que chegou (e bem) à era da internet, o jornal e site humorístico norte-americano ´The Onion` (www.theonion.com) abriu nova frente com sua própria TV on-line, a ONN -Onion News Network.

O deboche para cima da CNN não está apenas no nome, mas no próprio formato dos programas jornalísticos fictícios que a trupe do site coloca em www.theonion.com/content/video.

A tela tem uma barra em sua parte inferior em que passam manchetes, enquanto o apresentador, sempre sério, conduz os programas, ouvindo especialistas, chamando repórteres e apresentando temas do próximo bloco, como ´Estudo da UCLA mostra que 70% dos e-mails de avós são escritos com a tecla caps lock apertada´.

Os alvos favoritos do Onion são os políticos -há uma matéria hilária atualmente, sobre as eleições presidenciais de 2008 nos EUA- e as celebridades: o mais recente programa de debates traz três convidados discutindo como fazer a população de Darfur notar o quanto os artistas americanos como George Clooney e Matt Damon (que levantam a bandeira de ´Save Darfur´) têm feito para ajudá-los. ´Temos que jogar de aviões panfletos que mostrem os comícios e as petições on-line que temos feito, com tantas assinaturas´, sugere um deles.

Fundados em 1988, então só em papel, na cidade de Madison (Wisconsin), o jornal e o site estão atualmente baseados em Nova York.

O site é quase hors-concours na disputa do Webby Awards (o Oscar da internet), de tantas vezes que venceu a categoria ´humor` -a última delas neste ano, tanto na escolha do júri popular como na da Academia Internacional de Ciências e Artes (criadora do prêmio).’

 

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O Estado de S. Paulo – 1

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