Quarta-feira, 18 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 5 E 6/4

Folha de S. Paulo

08/04/2008 na edição 480

DOSSIÊ
Eliane Cantanhêde

Pandemônio

‘BRASÍLIA – Imagine o pandemônio na Casa Civil com o dossiê que o governo apelida de ‘banco de dados’, mas foi iniciado no meio do escândalo da tapioca, sobre o período específico do segundo mandato de FHC, destacando as contas -sigilosas, diga-se de passagem- do ex-presidente e de sua mulher e, finalmente, seguindo uma lógica nada convencional para relatórios oficiais e burocráticos.

O pandemônio não é porque ‘aloprados’ fizeram o dossiê dentro da Presidência da República, mas porque um ‘clandestino’, como disse Lula, vazou o seu conteúdo para a imprensa. A ira não é contra quem errou, mas contra quem condenou e divulgou esse erro.

Dá para imaginar a ministra Dilma Rousseff, com seu decantado mau humor e sua mania de gritar com subordinados e até com ministros e presidentes de estatais, olhando para um, para outro, para um terceiro, cheia de suspeitas, ou de rancor? E um apontando o outro na mesa ao lado?

Mas, para a sociedade brasileira, o que interessa é o contrário: quem divulgou é o de menos, o que se quer saber é quem deu a ordem para reabrir arquivos mortos do governo com o intuito de chantagear adversários? Quem usou a máquina do Estado numa disputa político-partidária? Aliás, quem, como, onde, quando e por quê?

O novo dossiê não envolve dinheirama de origem incerta, como o dos aloprados na eleição, mas balançou Dilma. Ela surgiu diante das câmeras de TV, na sexta-feira, nervosa, gaguejando, confusa, e não deu uma só informação convincente. Não havia vestígio daquela Dilma bem composta, elegante e com todas as respostas na ponta da língua que se apresentou na sabatina da Folha, apenas seis meses atrás.

A ministra pode até ficar, mas a candidata acabou, desmoronou. Sem passar dos 3% nas pesquisas… Agora, qual será o próximo ‘candidato’ que Lula vai tentar inventar? Ou melhor: a próxima vítima?’

 

Marta Salomon

‘Manipulação’ surge como nova versão para o dossiê

‘Passados os dez primeiros dias da crise do dossiê, a Casa Civil lançou, na noite de quarta-feira, a versão de que teria havido manipulação de informações na base de dados criada com despesas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A hipótese de manipulação ganhou força na entrevista de sexta-feira da ministra Dilma Rousseff. ‘Tem uma parte que é verdade, tem uma parte que saiu do nosso banco [de dados]. Nós estamos querendo ver o que do nosso banco foi manipulado e o que não foi. Nós não afastamos hipótese nenhuma, hoje’, afirmou Dilma. ‘Nós estamos cruzando item a item.’

Os mais de 40 minutos de fala da chefe da Casa Civil não afastaram, porém, as contradições do caso do dossiê, que já obrigaram o Planalto a recuar de versões apresentadas antes.

A entrevista foi uma resposta à manchete da Folha de sexta-feira com detalhes do dossiê sobre gastos do ex-presidente, sua mulher, Ruth Cardoso, de ministros tucanos e até da chef de cozinha Roberta Sudbrack, que prestava serviços a FHC.

Cópia de arquivo Excel da base de dados da Casa Civil, a que a Folha teve acesso, mostra que os relatórios do governo tucano foram criados na tarde de 11 de fevereiro, exatamente às 15h28. O arquivo também registra a data em que foi feita a cópia, extraída diretamente dos computadores da Presidência: 18 de fevereiro.

As informações lançadas no período de uma semana em três das pastas do arquivo conferem na íntegra com as 13 páginas de trechos do dossiê que já circulavam no Congresso. Ou seja, o dossiê saiu pronto do Planalto. As suspeitas de montagem lançadas pela Casa Civil se dirigem a uma coluna onde está escrito ‘observações’. São anotações de viés político registradas nas planilhas.

Na sexta-feira, Dilma afirmou categoricamente que a base de dados do Planalto não contém a coluna ‘observações’, abrigo de boa parte das notas de viés político do trabalho. A existência dessa coluna já havia sido registrada com destaque na edição de 22 de março da revista ‘Veja’.

Em duas notas enviadas à Folha nos dias seguintes, a Casa Civil não contestou a existência dessa coluna. Tampouco uma das anotações contidas nela, ao lado do registro da compra de 180 garrafas de champanhe, em 1998. Nesse caso, lê-se na coluna observações que parte do valor de R$ 2.250 havia sido pago pela campanha eleitoral da reeleição.

‘Cabe ressaltar que a revista publicou fragmentos de relatórios impressos de processos referentes a contas tipo B’, escreveu a assessoria de imprensa da Casa Civil. No dia seguinte, repetiu: ‘Como informado ontem a esse jornal, a revista ‘Veja’ utilizou em sua reportagem fragmentos de relatórios impressos de processos referentes a contas tipo B’. Como a revista estampou apenas quatro fragmentos do dossiê, todos eles com a coluna ‘observações’, é difícil acreditar que a Casa Civil tenha se enganado num ponto tão relevante.

Na sexta-feira, a Folha perguntou à ministra se ela considerava a forma de organização da base de dados do Planalto, assim como o viés político de algumas anotações, ‘compatíveis com uma atividade meramente administrativa de organização de dados’ do governo tucano. A resposta da ministra: ‘Eu já te adianto que eu não acho, não. E é essa coluna [observações] que nós achamos muito estranha’. Na seqüência, a ministra disse que essa coluna inexiste na base do Planalto.

Para sustentar a versão de que os documentos do Planalto a que a Folha teve acesso teriam sido manipulados, Dilma alegou que ‘em uma planilha Excel, monta-se o que se quer’.

A ministra não considerou a hipótese de que as planilhas registram data e horário de alterações e que a base de dados pode ser objeto de uma perícia. Insistiu que a auditoria nos cinco computadores usados na base de dados será feita pelo ITI (Instituto Nacional de Tecnologia da Informação), vinculado à Casa Civil.

Mal iniciada a investigação, a Casa Civil já mudou a versão de que o levantamento partira de determinação do Tribunal de Contas da União. Mais de uma semana após a Folha apontar contradição nessa versão, a Casa Civil escreveu, na quarta: ‘Nunca foi dito que o sistema foi criado por recomendação explícita do TCU’.’

 

LIBERDADE E JUSTIÇA
Carlos Heitor Cony

Expressão da liberdade

‘RIO DE JANEIRO – Assunto recorrente, a liberdade de expressão continua provocando polêmica entre os interessados. Como qualquer liberdade, ela exige responsabilidade. Não é nem deve ser um valor absoluto, acima de qualquer outro, pairando além da condição humana. Tal como o direito de ir e de vir: podemos ir às ilhas Papuas ou vir da Patagônia, mas não podemos entrar na casa do vizinho a não ser expressamente convidados, autorizados pela Justiça ou para prestar socorro.

Volta e meia pretende-se atualizar a Lei de Imprensa para pressionar jornalistas e empresas do ramo da comunicação social. Em sua parte punitiva, ela é um pleonasmo jurídico: os códigos Civil e Penal já estabelecem casos e penas para os crimes de injúria, de calúnia e de difamação.

Está se tornando comum a reação de alguns jornalistas que se consideram injuriados pelo fato de serem processados ou ameaçados de processo. É o preço que se paga pela liberdade de opinião. No meu caso pessoal, fui processado várias vezes, condenado em alguns casos, absolvido em outros. Piores do que os processos foram as prisões. Algumas nem foram prisões, foram seqüestros.

Como no caso de certos maridos que batem nas mulheres, eles nem sempre sabem por que estão batendo, mas elas sabem por que estão apanhando (a piada é abominavelmente incorreta). Eu sabia por que estava apanhando. Havia feito por onde. Se tivesse ficado calado ou se tivesse tomado o partido do mais forte, nada me teria acontecido.

O mundo não vem abaixo pelo fato de um jornalista ser processado. É um direito da parte contrária, tão importante como o direito de qualquer um dizer o que pensa. Chico Buarque foi sacaneado pelos militares, mas teve o prazer de sacanear os donos do poder.’

 

CULTURA
Folha de S. Paulo

Aperfeiçoar a Lei Rouanet

‘ARTISTAS , diretores, produtores teatrais e representantes do Ministério da Cultura se digladiam em torno de propostas rivais para ampliar o apoio estatal ao teatro. Há motivos para cautela. Da última vez em que artistas se engalfinharam numa disputa com esportistas por fundos públicos, o contribuinte saiu derrotado.

De um lado estão o Ministério da Cultura e alguns grupos teatrais. Eles apontam uma série de problemas e distorções provocados pelo modelo de financiamento calcado principalmente na Lei Rouanet e defendem a constituição de fundos específicos para a categoria, que seriam geridos pelo poder público.

Pretendem com isso evitar que recursos oficiais acabem financiando espetáculos que já têm viabilidade comercial, o que ocorre com freqüência. Argumentam que as verbas chegariam mais facilmente a pequenos grupos e atividades de formação.

Do outro estão produtores e artistas de visibilidade, os quais advogam pela criação de uma estrutura para o teatro semelhante à que já existe para o cinema, incluindo uma lei de incentivos fiscais específica para a categoria.

Não é o caso de ampliar a fatia de verbas públicas destinada às artes. O setor já recebe anualmente cerca de R$ 1 bilhão em renúncia fiscal. É o mesmo que o Orçamento federal de 2007 reservou para a habitação; executou apenas 60% disso.

O modelo de financiamento baseado na Lei Rouanet tem alguns defeitos e uma grande virtude, que é a de conter o aparelhamento político da cultura, inevitável no modelo estatal defendido pelo ministério.

É o caso, assim, de tentar aperfeiçoar a legislação para desbastá-la dos defeitos. Uma proposta interessante para evitar que os empresários apenas escolham quais artistas vão receber recursos públicos é baixar um pouco o limite de 100% de abatimento. Isso forçaria a empresa que patrocina eventos culturais a colocar também algum dinheiro do próprio bolso.

É preciso também desenvolver mecanismos para evitar que espetáculos comercialmente viáveis se beneficiem de verbas públicas. Seria um erro abrir mão de um modelo que, apesar das falhas, funciona.’

 

ORQUESTRA
John Neschling

Hora de relançar

‘A ABERTURA de uma temporada é uma oportunidade especial. Para uma orquestra, é o momento para o relançamento de seu espírito e projeto artístico.

O primeiro programa que executamos no ano foi a segunda sinfonia de Mahler -a sinfonia da ‘Ressurreição’. Em 1999, com a apresentação dessa obra, inauguramos a nossa sede, a Sala São Paulo. Foi quando lançamos as bases para a atual encarnação da orquestra: vigorosa artisticamente, saudável financeiramente, bem instalada como as melhores orquestras do mundo e gerenciada como nenhuma outra no Brasil.

Ressurreição, naquele momento, significava o renascimento da Osesp para uma fase de grande esplendor.

Apresentamos a transformação do antigo e alquebrado conjunto sinfônico do Estado de São Paulo no que acreditávamos ser a melhor orquestra do país, sediada na melhor e mais moderna sala de concertos do continente. Ninguém há de negar que essa etapa do projeto é um sucesso e foi cumprida.

A orquestra fez turnês nas principais casas de concertos da Europa e dos EUA e foi convidada a voltar. CDs receberam prêmios internacionais, como o Diapason d’Or, o Grammy Latino e outros, de publicações como ‘Gramophone’, ‘Klassik Heute’ e outras. A temporada deste ano vendeu 11.800 assinaturas em São Paulo e 400 no Rio de Janeiro.

O que pode significar hoje a ‘Ressurreição’? Mahler compôs sua segunda sinfonia focado na idéia da esperança e da negação da angústia.

Ninguém desconhece os momentos difíceis que atravessei nos últimos meses, pela forma dura com que meu nome foi exposto algumas vezes de maneira inesperada para mim.

Como criador e criatura, tudo aquilo que me atingiu acabou por golpear também a orquestra, fruto de um projeto que apresentei ao governo do Estado de São Paulo em 1997, hoje tão bem-sucedido que orgulha os cidadãos paulistas e brasileiros.

Com esse início de temporada, o que desejo é lançar uma nova etapa, em que a Osesp volte a ser notícia apenas pela beleza de seu projeto e qualidade de sua música. Proponho um desarmamento de espíritos. Nas ocasiões em que me vi exposto recentemente, senti sempre o mesmo desalento.

Sei que, muitas vezes, por causa das dificuldades intrínsecas que a implantação de um novo paradigma de orquestra no Brasil apresenta, tomei atitudes aguerridas que me expuseram e deram margem a uma visão a meu respeito distante das intenções que me motivaram.

Por vezes deparei com a surpresa da incompreensão. Tenho a certeza íntima, porém, de ter agido sempre movido por intenções íntegras.

Como líder na construção de uma orquestra que nem sequer tinha uma sede e hoje tem uma reputação internacional, capaz de atrair alguns dos maiores regentes do mundo, sei que a mídia é capaz de amplificar o alcance de um trabalho.

É grande o poder da mídia, tanto para construir quanto para destruir. Sua força decorre do exercício cotidiano de seu duplo papel perante a sociedade. Cabe à mídia criticar e fiscalizar os atores públicos, como cabe a ela também dar visibilidade à construção de instituições e bens culturais que promovam o interesse comum.

Em sua tarefa de refletir a pluralidade dos movimentos na sociedade, há ocasiões em que a mídia pode se inclinar a ouvir algumas vozes mais do que outras.

Pela soma de ocasiões em que me vi exposto recentemente, acabei por ver minha voz virtualmente apagada, mesmo em questões que me diziam respeito e que me colocavam em situação publicamente desconfortável.

Eu não estava preparado para lidar com esse lado de minha exposição pública. Meu cotidiano foi mais devassado que o de qualquer outro líder de instituição pública voltada à cultura.

A posição de um maestro diante da orquestra comporta um paradoxo.

Obriga o regente à busca constante da conciliação entre a autoridade indispensável do comando e a solidariedade na execução das obras. É nessa busca por um equilíbrio delicado que foco meus esforços na ‘Ressurreição’.

A Osesp vale pela transformação que introduziu no meio musical brasileiro, criando condições dignas e estáveis para o músico trabalhar, e vale pela grandeza de seu projeto artístico.

É apenas por essas qualidades indiscutíveis e por seu esforço constante em aprimorar-se que a orquestra deveria ser lembrada.

JOHN NESCHLING , 60, é maestro, diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Foi diretor dos teatros municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro e dos teatros São Carlos (Lisboa), St. Gallen (Suíça), Massimo (Palermo) e da Ópera de Bordeaux.’

 

EMPREGOS
Folha de S. Paulo

Folha chega a sua 1.000ª seleção aberta ao público

‘A Folha publica hoje no caderno Empregos anúncio que marca o milésimo concurso público para preenchimento de vagas em sua Redação.

A norma de contratar por meio de concursos públicos foi estabelecida em 1984 como parte do Projeto Folha, que tinha entre seus objetivos estabelecer o mérito como critério principal de seleção.

Nesses 24 anos, foram realizados, em média, mais de três concursos por mês.’

 

DIA DA MENTIRA
Marcelo Leite

Boimate e boimano

‘Poderia ser o nome de uma dupla sertaneja pós-moderna, mas são apenas dois híbridos improváveis separados por 25 anos de progresso tecnobiológico. O primeiro foi uma fraude. O segundo é realidade, embora também tenha vindo à luz num 1º de abril.

‘Boimate’ virou gíria jornalística no Brasil por obra da revista ‘Veja’.

Em 27 de abril de 1983, noticiou: ‘Num ousado avanço da biologia molecular, dois biólogos de Hamburgo, na Alemanha, fundiram pela primeira vez células animais com células vegetais -as de um tomateiro com as de um boi. Deu certo.’ Seus editores haviam caído no 1º de abril da revista britânica ‘New Scientist’.

‘Boimano’ é invenção da coluna -o nome, vale dizer. Porque o híbrido de boi com humano de fato existe. Ou melhor: existiu (as células morreram três dias depois). Para ser preciso, era um híbrido de vaca com gente.

Como a notícia foi divulgada pela BBC na terça-feira, 1º de abril, muitos jornalistas devem ter desconfiado.

Em reportagem de Fergus Walsh, a BBC anunciava que pesquisadores da Universidade de Newcastle haviam fabricado um embrião-quimera, parte vacum, parte humano.

Era verdade, mas faltava um elemento crucial da notícia científica: a validação, em geral dada por um periódico acadêmico que submeta estudos recebidos à avaliação crítica de especialistas (‘peer-review’). O trabalho de Lyle Armstrong não tinha ainda gerado artigo algum.

A confirmação partiu da própria universidade: Armstrong havia apresentado dados preliminares sobre os híbridos numa palestra no Knesset, o Parlamento de Israel, em 27 de março.

Logo na segunda frase do comunicado, a universidade avisava: ‘Tais dados precisam ser verificados e o Dr. Armstrong e a Universidade de Newcastle seguirão o sistema de ‘peer review’ [literalmente, revisão por pares], como é procedimento normal.’

O texto citava John Burn, diretor do Instituto de Genética Humana de Newcastle: ‘Se a equipe puder produzir células que sobrevivam em cultura, isso abrirá a porta para uma compreensão melhor de processos patológicos sem ter de empregar óvulos humanos preciosos’.

‘Células cultivadas usando óvulos animais não podem ser usadas para tratar pacientes, por razões de segurança, mas ajudarão a aproximar o dia em que novas terapias com células-tronco estarão disponíveis’, afirmou ainda Burn.

Ouvido pela agência Reuters, o conhecido bioeticista americano Arthur Caplan considerou que alguns poucos estudos desse tipo seriam ‘moralmente justificáveis’. Já a Igreja Católica britânica qualificou o experimento como ‘monstruoso’.

O que Armstrong fez foi retirar o núcleo (parte da célula onde ficam os cromossomos, ou seja, DNA e genes) de um óvulo de vaca, fundindo em seguida a célula desnucleada com outra humana, obtida de embrião -cujo uso em pesquisa é legal no Reino Unido.

Uma descarga elétrica ‘desperta’ a construção celular, que começa a se dividir como um embrião, produzindo proteínas humanas características (pois só estão disponíveis cromossomos e genes desta espécie).

Trata-se sem dúvida de uma quimera, ou quase-quimera. A vaca é uma acionista minoritária, que entra só com 0,1% do capital genético, todo ele aportado nas mitocôndrias (organelas celulares indispensáveis para a vida, mas sem papel na produção das características do organismo).

Uma curiosidade, enfim. Só um pouquinho melhor que um 1º de abril.

MARCELO LEITE é autor de ‘Promessas do Genoma’ (Editora da Unesp, 2007) e de ‘Brasil, Paisagens Naturais Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros’ (Editora Ática, 2007).

Blog: Ciência em Dia (www.cienciaemdia.zip.net).

E-mail: cienciaemdia@uol.com.br’

 

TV DIGITAL
Daniel Castro

TV digital falha em 33% de São Paulo, diz estudo

‘Quatro meses após pomposo lançamento na Grande São Paulo, a TV digital ainda é capenga. O sistema continua sem interatividade, caro e atraindo poucos interessados. E um estudo da Philips, a ser lançado nesta semana, mostra que o sinal digital das TVs abertas falha em 33% dos 103 pontos medidos pela empresa. A cobertura só é satisfatória em 2 milhões dos 5,5 milhões dos domicílios da região metropolitana.

O levantamento revela que a cobertura digital das principais redes já é semelhante à analógica (veja mapa à pág. B18). Isso quer dizer que, se a TV analógica ‘pega’ mal onde você mora, são grandes as chances de a TV digital também falhar. Diferentemente da TV analógica, a digital não tem fantasmas e chuviscos. A imagem é nítida. Mas, se o sinal é fraco, ou a imagem ‘congela’ na tela do televisor ou não ‘pega’ nada.

Um dos argumentos centrais para a adoção pelo Brasil do sistema de TV digital japonês era o de que se tratava de tecnologia robusta, a melhor para uma cidade como São Paulo, repleta de barreiras (edifícios) ao sinal das TVs. Com o padrão japonês, seria possível ver TV em minitelevisores e em celulares. Dessa forma, televisores móveis e fixos não precisariam mais de antenas externas, no topo de casas e prédios, mas apenas de discretas antenas internas.

O trabalho da Philips mostra que não é bem assim. Dependendo da localização do televisor e do material usado no imóvel (paredes muito grossas, por exemplo), pode haver necessidade de antena externa a poucos quilômetros das torres das TVs. Em condomínios sem antenas externas, o telespectador, para ter bom sinal, continua ‘dependente’ da TV paga.

Zona de sombra

Em trechos de bairros como Alphaville (Barueri, oeste da Grande São Paulo), Morumbi (zona sul), Chácara Santo Antônio (zona sul) e quase toda a região do ABC, a antena externa é obrigatória para a recepção de determinadas emissoras.

Na zona leste, há grande zona de sombra, sem sinal das TVs, no vale da avenida Jacu-Pêssego. Na zona norte, o sinal ‘morre’ na serra da Cantareira. O Rodoanel (a oeste), a Cantareira e a Jacu-Pêssego funcionam como divisa: a partir dessas vias, a TV digital é temerária.

O encarregado de compras Luiz Nunes, 61, mora em Itaquera, no centro da zona de sombra da Jacu-Pêssego. Desde o lançamento da TV digital, ele tenta comprar um receptor da tecnologia. ‘Fui ao Extra e às Casas Bahia, mas nem tinham o aparelho, porque sabem que aqui ‘pega’ mal. Nas Casas Pernambucanas, tem, mas só pega a Globo, e ainda com falhas.’

Há dez emissoras com sinais digitais no ar na Grande SP. Três delas -Cultura, RIT e Mix TV- ainda estão em fase experimental. Das outras sete, o sinal da Globo é o mais regular.

A medição não encontrou o sinal da Band e o da Record, por exemplo, a poucos metros da sede da Globo, no Brooklin (zona sul). O sinal da Record estava intermitente (com interrupções) no Sumaré (zona oeste) e ausente no Campo Belo, nas redondezas do aeroporto de Congonhas (zona sul). O da Cultura não foi localizado nas proximidades da ponte do Piqueri (zona oeste), a apenas 400 metros da sede da emissora. Os sinais do SBT e da Rede TV! estavam ausentes na Saúde (zona sul).

O levantamento da Philips foi realizado no final de março. Foram usados um monitor de TV e um set-top box (receptor) da empresa e uma antena interna, a um metro e meio do chão. Os rastreamentos foram feitos dentro de carros parados.

Dos 103 pontos medidos, 16 não detectaram nenhum sinal e 18 só sintonizaram até três emissoras -a soma dá 33% do total. Em 40 locais, foram detectados no mínimo sete emissoras; em 29, de quatro a seis.

Responsável pelos testes, Ricardo Teixeira, gerente de laboratório da Philips, enfatiza que o estudo simula uma situação real, mas serve apenas para orientação. Além de antenas externas e antenas amplificadas, o usuário pode obter um bom sinal com um simples deslocamento de dois metros.

É a terceira vez, desde dezembro, que a Philips divulga suas medições -o resultado estará amanhã no site www.simplificandotvdigital.com.br. A empresa, que defendeu a adoção do padrão de TV digital europeu, diz que seu único objetivo, com o mapa, é orientar o consumidor de seus produtos.

‘Treinamos distribuidores para orientarem o consumidor. Seria um desastre o consumidor devolver suas caixas [conversoras]’, diz Walter Duran, diretor de tecnologia da Philips. Apesar dos problemas e da baixa penetração (estima-se em apenas 20 mil os conversores vendidos), o que levou emissoras e fabricantes a planejarem um ‘relançamento’ da TV digital para maio, Duran elogia a introdução da tecnologia no Brasil.

‘Ouso dizer que foi a melhor do mundo do ponto de vista do consumidor.’

Duran diz que os transmissores das emissoras já estão na potência máxima. Para melhorar a cobertura, na periferia, serão necessários repetidores de sinais. ‘A TV digital melhorou muito, mas pode ser 100%.’’

 

Tatiana Resende

Clientes podem pedir de volta dinheiro pago pelo conversor

‘Os órgãos de defesa do consumidor afirmam que o cliente pode pedir a devolução do dinheiro pago pelo conversor ou a TV com o aparelho já embutido que não funcionar na sua casa por estar em uma área de sombra de recepção do sinal.

Luiz Moncau, advogado do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), diz que o varejista tem a responsabilidade de, na hora da venda, informar ao consumidor todos os problemas que podem ocorrer, pois ele ‘não tem obrigação de saber’. ‘O direito à informação está previsto na lei.’

No entanto, se o cliente estiver ciente dos empecilhos à recepção e ainda assim comprar o aparelho, o ressarcimento deixa de ser obrigatório. Por isso, a recomendação é que o consumidor só adquira o equipamento se a loja se comprometer a devolver o dinheiro. ‘Não vale a pena correr o risco.’

Maria Inês Dolci, da Pro Teste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor), concorda que o varejista deve dar as informações necessárias, mas ressalta que o fabricante também deve colocá-las no manual do produto.

Mesmo que varejistas e fabricantes não sejam os ‘culpados’ pela falta de recepção do sinal, Eduardo Zuliani, diretor da Fundação Procon-SP, argumenta que o prejuízo não pode ficar com o consumidor ‘porque o produto é inadequado ao fim a que se destina’.

Segundo os grandes varejistas procurados pela reportagem -Grupo Pão de Açúcar, Wal-Mart, Carrefour, Casas Bahia, Ponto Frio e Fnac-, ainda não houve pedidos de ressarcimento.’

 

Emissoras contestam mapa de TV digital

‘As emissoras de TV contestam o estudo da Philips que aponta problemas na recepção de sinal digital na Grande SP.

‘O trabalho não tem metodologia científica e não pode ser considerado resultado da cobertura das emissoras. A Universidade Mackenzie mediu nossa cobertura e concluiu que o sinal está excelente. A Philips faz teste com índice alto para não se comprometer com o aparelho dela. O mapa é para arrumar menos encrenca possível na central de atendimento ao consumidor’, diz Khalled Adib, superintendente de operações da Rede TV!.

‘O objetivo do levantamento não é avaliar a eficiência da propagação do sinal das emissoras. Nosso propósito é informar o consumidor para que ele tome a decisão de compra de forma consciente’, diz Walter Duran, diretor da Philips.

A Band e a Record afirmaram desconhecer a medição e a metodologia empregada. ‘A Band assegura a boa qualidade do seu sinal’, afirmou a emissora em nota. ‘Estamos realizando a nossa pesquisa, com instrumentação profissional e adequada para isso, e o que podemos afirmar é que o sinal está presente em todos os pontos, exceto aqueles localizados em áreas de sombra ou obstruídas’, diz José Marcelo Amaral, diretor da Record.

Antena

Diretora de telecomunicações da Globo e suplente do conselho deliberativo do Fórum SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital, entidade que reúne emissoras e fabricantes), Liliana Nakonechnyj afirma que ‘nunca foi dito que a TV digital não precisaria de antena externa’ para ‘pegar’.

‘O sinal, para chegar às casas, precisa passar por paredes. Quando não passa, a antena externa é necessária’, diz. ‘Nosso sistema é o melhor para antena interna. O que não quer dizer que 100% dos casos funcionem com antena interna’, diz.

Nesta semana, o fórum lança em seu site um mapa de cobertura de TV digital na Grande São Paulo, feito a partir de simulações teóricas. O mapa é mais conservador do que o da Philips. Prevê o uso de antena externa mesmo nas proximidades das torres de TV e calcula em 13 km o raio de cobertura plena da TV digital, a partir da avenida Paulista. Nas medições da Philips, o raio é de 20 km.

‘Num raio de 12 km a 13 km da avenida Paulista, há um sinal forte o bastante para, em muitos casos, ser captado com antena interna’, diz Liliana. ‘Mas, se você mora em Embu ou em Santana do Parnaíba, a cobertura é ruim’, afirma.

A engenheira diz que, ‘no futuro’, poderão ser instalados repetidores de sinais para cobrir áreas de sombra e regiões da Grande São Paulo atualmente com sinal fraco. Mas, segundo ela, isso ainda depende de regulamentação e de testes do governo federal.

Procurada, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) não se manifestou. O Ministério das Comunicações informou, via assessoria de imprensa, que considera o desempenho da TV digital em São Paulo ‘extremamente positivo’ e que os preços dos conversores ‘já estão caindo’.’

 

Venda de conversor está abaixo das expectativas

‘A Positivo Informática foi o primeiro fabricante a admitir que as vendas de conversores para TV digital estão abaixo do esperado. A empresa interrompeu a produção dos equipamentos porque diz já ter estoque suficiente para atender a demanda até o final deste ano.

‘Fomos a empresa que mais vendeu set-top box no mercado e posso afirmar que não existem mais de 20 mil casas paulistanas assistindo à TV digital neste momento’, afirmou Hélio Rotenberg, presidente da Positivo, à Reuters, na quinta-feira. Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da empresa não confirmou as declarações dadas à agência.

Os outros fabricantes não quiseram contabilizar as vendas. Gradiente e CCE, que anunciaram conversores na época do lançamento da TV digital, nem chegaram a colocar o produto no varejo. A Eletros (associação do setor) afirmou, em nota, que esse é ‘um mercado ainda restrito, mas que está crescendo de forma gradual’.

Entre os pesquisados, o aparelho da Positivo continua sendo o mais barato, apesar de ter o mesmo preço sugerido ao varejo desde dezembro: R$ 499 (para TVs de 480 linhas) e R$ 699 (1.080 linhas).

Na Philips, que afirmou apenas que as vendas estão dentro do esperado, o preço caiu de R$ 1.099 para R$ 899 (1.080 linhas), e o da TV de alta definição de 52’ (polegadas) com o aparelho embutido foi de R$ 12.999 para R$ 10.999.

A Samsung também reduziu os valores das TVs de 40’ -R$ 7.999 para R$ 6.999- e de 52’, de R$ 14.999 para R$ 11.999. As da LG, anunciadas em dezembro, só chegaram ao comércio em março. Os preços dos conversores da Semp Toshiba e da Sony foram mantidos, assim como o da TV de 42’ da Philips.

Os varejistas também não revelam as vendas, alegando que são dados estratégicos. Só o diretor de áudio e vídeo da Ponto Frio, Roberto Rangel, deu uma pista: ‘Não estão tão aquecidas quanto se imaginava’.

Na opinião de Eduardo Tude, presidente da Teleco, consultoria especializada em telecomunicações, o cronograma esparso para a implementação do sinal acabou não criando ‘massa crítica’ para os produtos.

Para Guido Lemos, um dos coordenadores de desenvolvimento do Ginga, software que viabiliza a interatividade plena (envio de dados às emissoras), o recurso ‘se tornou uma possibilidade de destravar o mercado’. A nova ferramenta, diz, seria uma boa razão para os telespectadores ainda reticentes decidirem comprar os conversores. O outro lado da moeda é que muitos podem não ter o equipamento por estarem à espera da versão mais moderna.

A TQTVD lança, em julho, o aplicativo que usa as especificações do Ginga e será inserido nos conversores para permitir a interatividade. Para David Britto, diretor da empresa, é possível que o produto chegue ao varejo ainda neste ano. ‘Vai depender do apetite de cada fabricante em acelerar o processo.’ É preciso fazer testes para que as tecnologias ‘se entendam’ e a TV não ‘trave’.

Já Luiz Eduardo Leite, diretor-executivo da Mopa, concorrente da TQTVD, afirma que ‘talvez mais de um fabricante’ tenha o conversor com o aplicativo ainda neste semestre. ‘Do ponto de vista técnico, alguns já teriam condições de lançar, mas é o fabricante que decide o melhor momento.’’

 

AQUISIÇÕES
Folha de S. Paulo

Microsoft faz pressão ao Yahoo

‘O Yahoo tem três semanas para aceitar a oferta da Microsoft de US$ 31 por ação ou a empresa preparará uma batalha para ganhar o apoio dos investidores para a aquisição, anunciou ontem a Microsoft.’

 

PAPARAZZI
Daniel Bergamasco

Fotógrafos brasileiros fazem fortuna na cola de Britney Spears

‘Às 9h do último domingo, o gaúcho Luiz Betat, 36, já despachava no endereço onde dá expediente há mais de três anos: a esquina da casa da cantora Britney Spears, em Hollywood, na Grande Los Angeles (EUA).

A jornada de Luiz -de 12 a 14 horas diárias, seis dias por semana- começa ali, ao lado de cinco colegas de trabalho, todos brasileiros, que formam com ele o grupo de paparazzi MBF.

Nesse dia, a caçada promete. Britney é aguardada para um torneio de golfe. O portão da casa se abre. Sai um carro e metade do grupo segue em disparada. Alarme falso. Era só o pai de Britney, cuja foto não vale quase nada. Já um clique da cantora vale ouro. O mais valioso deles, com ela raspando os cabelos, feito por Luiz, rendeu quase US$ 500 mil (cerca de R$ 860 mil pela cotação da última quinta-feira) para sua agência.

São 16h, 17h e 18h. Nada de Britney. Às 20h, abre-se o portão. É ela, finalmente. Três dos paparazzi a seguem por Los Angeles. Ela dirige o próprio carro, um Mercedes, por mais de uma hora. Desce e vai ao banheiro em uma lanchonete. E, assim, consegue-se uma foto de corpo inteiro de Britney. ‘Não foi nenhum ‘scoop’ [furo], mas foi bom para termos uma foto atualizada. Fazia alguns dias que não tínhamos uma foto dela de corpo inteiro’, conta Luiz.

O fato é que o ‘Big Brother’ privado no qual se transformou a vida de Britney Spears fala português fluentemente. São cerca de dez brasileiros, de diferentes agências, que dedicam seus dias inteiros somente a ela, que, não por acaso, chamam de ‘patroa’. Só na X-17, a maior das agências, à qual o MBF é associado, são 30 brasileiros espalhados por Los Angeles, a Serra Pelada do garimpo de estrelas do showbiz.

Quase nenhum dos paparazzi tinha experiência com fotografia quando entrou no ramo. No Brasil, Luiz era bancário. Nos EUA, trabalhava em estacionamento. Felix Filho, também um dos líderes da MBF, se formou em jornalismo. Ao imigrar, virou manobrista.

Concorrente da dupla, o carioca Filipe Teixeira se esquiva de detalhes. ‘Se for para contar como consegui, prefiro nem dar entrevista, não quero incentivar mais brasileiros a virem trabalhar de paparazzi aqui’, diz. O salário de um paparazzo pode girar em torno de US$ 3.000 para profissionais dedicados, ou passar dos US$ 10 mil para quem atinge o status de Luiz ou de Felix.

O segredo está no esquema bem organizado para não levar ‘furo’ da concorrência. ‘Nos organizamos de forma sistemática, que foi o que gerou esse sucesso que temos’, diz Felix.

Amigo da princesinha pop

Entrar no ramo é tarefa complicada, caso não se tenha a bênção dos ‘chefões’ do pedaço. E Filipe diz ter outro trunfo para cobrir Britney Spears. ‘Eu sou amigo dela’, conta. ‘Sempre me pede para dirigir o carro dela [um Mercedes].’ A conversa travada nessas situações, diz ele, são sigilosas. A lealdade é retribuída. ‘Aí, quando ela vai para algum lugar, às vezes, me liga: ‘Tal hora eu vou sair’, conta, numa prova do quão surreal é a relação entre a pop star e seus ‘perseguidores’.

Apesar da dedicação integral à Britney, os paparazzi brasileiros sabem que a fonte já não jorra como antigamente. ‘Teve uma fase em que ela ficou com depressão, perdeu a guarda de filho, começou a beber. Tínhamos que cobrir 24 horas por dia’, conta Luiz, que afirma torcer por ela. ‘Eu quero que ela se dê bem, claro. Mas os tablóides querem é que ela faça merda.’ Uma lógica que fez do fotógrafo gaúcho um milionário, às custas dos desequilíbrios de uma pop star que vive o inferno do outro lado da fama.’

 

Maeli Prado

Galisteu, Cicarelli e Assunção lideram os flashes em SP

‘A apresentadora do SBT Adriane Galisteu desce do carro, acena para as suas ‘sombras’ do alto da escada do salão de cabeleireiros MG Hair Design, nos Jardins. São 17h40 da última quarta-feira.

Marcelo Liso, 33, que fotografa celebridades há dez anos e trabalha para a revista ‘Isto É Gente’, acompanha a apresentadora desde as 14h15.

Marcelo Palhais, 29, clica famosos há quatro anos para a revista ‘Quem’ e se juntou ao amigo em um prédio na avenida Nove de Julho, onde Adriane faz a primeira parada do dia. Ao sair, cumprimenta os dois: ‘E aí, tudo bem?’.

A apresentadora forma, com a colega Daniella Cicarelli, da Band, e o ator Fábio Assunção, da TV Globo, o trio de celebridades mais fotografadas pelos paparazzi na cidade.

Adriane é considerada a mais simpática. A lista dos antipáticos é encabeçada por Fábio Assunção. ‘Ele xinga, chama a polícia e perde a linha’, diz Liso.

As melhores fontes dos paparazzi, que podem pagar de R$ 50 a R$ 500 por uma boa informação, são manobristas de consultórios médicos, caixas de restaurantes e bares e porteiros. Uma foto de celebridade conhecida mundialmente pode valer até US$ 3.000 (cerca de R$ 5.160, pela cotação da última quinta-feira) para publicações internacionais.’

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Luciana Gimenez adere ao YouTube e lança auto-reality

‘Luciana Gimenez acaba de se tornar a primeira apresentadora brasileira a apostar no site de vídeos YouTube, apontado como a ‘televisão do futuro’.

Desde a última quarta-feira, a própria Luciana está postando vídeos pessoais e trechos do ‘Superpop’ (Rede TV!).

Luciana começou abrindo making ofs de seus ensaios para revistas. Mas promete fazer na internet uma espécie de auto-reality show. ‘Quero fazer um canal no YouTube, mostrar os melhores momentos do ‘Superpop’ e até uma coisa reality do meu dia-a-dia’, diz.

O primeiro vídeo feito por Luciana a entrar no YouTube será uma visita dela e Ronaldo Ésper a um cemitério.

A apresentadora conta que tem tudo para explorar o site: câmeras e dez (‘Isso mesmo!’) computadores em sua casa, quatro deles em seu quarto.

‘Sempre penso muito antes de dormir. Outro dia, tive essa idéia. Uso a internet para tudo: compras, ler jornais’, afirma.

Luciana só lamenta não ter ido ao restaurante Waverly Inn, em NY, com uma câmera. Recentemente, quando lá jantava, uma barata pousou em sua cabeça. O restaurante negou. ‘Se tivesse filmado, eles não teriam como negar’, diz.

Para ver os vídeos postados por Luciana, basta fazer busca por ‘oficialsuperpop’. Só os vídeos do usuário ‘oficialsuperpop’ foram postados por ela.

O GAY VIROU GALÃ

Intérprete de Tiago, homossexual que tinha um casamento inabalável com Rodrigo (Carlos Casagrande) em ‘Paraíso Tropical’, o ator Sérgio Abreu, 33, está dando vida a seu primeiro protagonista. Em ‘Revelação’, próxima novela do SBT, escrita por Íris Abravanel, ele será o mocinho Luca. ‘Estou adorando a novela. O texto me surpreendeu. Não é uma novela mexicana. É uma história brasileira que fala de MST, movimentos sociais, política, tráfico’, diz. Abreu conta que interpretar um gay não atrapalhou sua carreira. Pelo contrário: ‘Trouxe respeito’.

ELE VAI AO CINEMA

Autor de ‘Caminhos do Coração’, a novela dos mutantes, Tiago Santiago (foto), vai fazer cinema. Ele negocia com o produtor Diler Trindade, responsável por várias das maiores bilheterias nacionais, o roteiro de um filme, a ser rodado em 2009 e exibido em 2010. Santiago seria o roteirista e Alexandre Avancini, o diretor. ‘A idéia é fazer um filme realista, contemporâneo, mostrando os problemas da juventude. Fala de um grupo de adolescentes no Rio de Janeiro, envolvidos na guerra de drogas e na descoberta do amor e do sexo’, adianta. Santiago promete muita aventura, suspense e corrupção policial. Não esconde a inspiração em ‘Cidade de Deus’, ‘Tropa de Elite’, ‘Meu Nome Não É Johnny’ e ‘Bicho de Sete Cabeças’. ‘É um filme nessa linha.’

ÉTICA NA RECORD

Na última quinta, a Record assinou no Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária) termo de conciliação em que se comprometeu a fazer propagandas de ‘acordo com as normas éticas’. Para executivos da Globo, isso significa que a Record admitiu que foi anti-ética ao fazer anúncio dizendo ser ‘a nova líder de audiência’. A emissora já voltou a usar o slogan ‘A caminho da liderança’, mas diz que continuará fazendo barulho com suas eventuais vitórias no Ibope. No entendimento da Globo, isso viola o compromisso com o Conar. É que as normas do Ibope vedam a comemoração de lideranças circunstanciais e momentâneas, porque são enganosas.

FÉRIAS FORÇADAS

Gilberto Barros ficará no ar na Band até a primeira semana de agosto. Mas já gravou todas as edições de ‘A Grande Chance’. O apresentador negocia programa na Rede TV!, nas tardes de sábado. O horário seria comprado por ‘investidores’.

ON-LINE

A Globo estreou ontem (7h15) o ‘Globo Universidade’, programa para divulgar pesquisas. Trata-se, é claro, de ferramenta de conquista de prestígio na academia. Para quem perdeu, uma boa notícia: o ‘Globo Universidade’ é o primeiro programa da Globo a ser exibido na íntegra na internet, em www.globouniversidade.com.br.

Pergunta indiscreta

FOLHA – É verdade que você assinou contrato com uma gravadora para lançar três CDs? Não tem medo de ser demitido?

ROBERTO JUSTUS (publicitário, apresentador e, agora, cantor) – Gravei um CD para dar aos amigos, a Sony gostou e me perguntou se eu não queria lançar. É um CD com músicas dos Beatles, Elvis Presley, Elton John. Sai antes do Dia das Mães. Mas não tenho pretensão de fazer carreira. Canto por hobby, é um prazer. Se o CD ficar bom, se o público e a crítica gostarem, vou fazer show em uma ou outra cidade.’

 

Laura Mattos

Novo estilo aproxima televisão da internet

‘Imite o José Wilker cantando a ‘Dança do Créu’, pediu um espectador do ‘15 Minutos’. Solicitação atendida por Marcelo Adnet, 26, apresentador do programa, que entrou no ar na MTV há um mês e virou queridinho dos telespectadores do canal. Ele também uniu dois pedidos de internautas para criar seu maior hit até agora: um queria que imitasse Silvio Santos, e o outro, que cantasse ‘Sweet Child O’ Mine’. Sim, o dono do baú mandou ver o clássico do Guns N’ Roses…

Formado em jornalismo, Adnet passou à carreira artística porque vivia fazendo graça e foi chamado por um amigo a atuar no espetáculo de humor ‘Z.É, Zenas Emprovisadas’, no qual atores criam piadas na hora.

O show está há cinco anos em cartaz no Rio e circula em vídeos da internet. ‘Esse tipo de humor que ganha espaço na TV tem a ver com a internet, porque traz um conteúdo inesperado’, diz o ator carioca, que grava em um estúdio que imita o seu quarto, o que dá um ar de produção caseira, comum na internet.

Pastor protestante

Para Gentili, do ‘CQC’, ‘a TV estava precisando de um humor mais crítico, político’. ‘A gente aproveita que a pessoa abre a boca para dar risada e empurra algumas coisas lá para dentro’, diz ele, que é fundador do show ‘Comédia ao Vivo’, integra o Clube da Comédia Stand-Up, ambos sucessos da noite paulistana, e já passou pelo carioca ‘Comédia em Pé’.

Gentili diz preferir o humor da TV norte-americana ao da brasileira.

‘O católico, como a maioria dos brasileiros, quando peca, conta escondido ao padre. Nos EUA, o protestante admite seus erros diante da comunidade. Está mais acostumado a falar dos próprios defeitos. No Brasil, zoamos a loira, o português, sempre o outro’, analisa.

O humorista, de formação católica, virou protestante na adolescência, passou a pregar em cultos e quase se tornou pastor. ‘Fazia comédia stand-up até nos cultos.’

‘Veterano’ em comparação a colegas do ‘CQC’, Evandro Santo, 33, se tornou sucesso em 2007 ao estrear no ‘Pânico’ com o personagem Christian Pior, que satiriza o mundo da moda e, especialmente, a pobreza. Ele fala com conhecimento de causa: já chegou a pedir comida e roubar. A comédia o salvou.

‘Tenho uma formação vira-lata’, brinca. Ele defende seu programa de críticas. ‘A celebridade passa, a câmera liga e não temos tempo para pensar se vamos ser sutis ou agressivos’, afirma Santo, que define seu humor como ‘agridoce’.’

 

Sérgio Salvia Coelho

Stand-up é gênero cômico que amplia limites do riso

‘Como no ‘one man show’, gênero que marcou as carreiras de José Vasconcelos, Chico Anysio e Jô Soares, a stand-up comedy supõe um ator com um microfone em punho dirigindo-se diretamente à platéia, munido de piadas, frases de efeito, imitações e, a rigor, um mínimo de adereços para se multiplicar em cena.

Mas o humorista de stand-up tem orgulho de se arriscar muito mais. Seu ‘material’, mais do que um mero improviso, consiste em textos do próprio punho no qual ele se expõe como personagem principal, assumindo suas inadequações físicas e inabilidade diante do mundo.

O jogo consiste em ganhar a empatia do público comentando pequenos incidentes do cotidiano. É tão específico que não raro cada performance deve ser adaptada de acordo com o endereço do show ou de um acontecimento marcante da véspera. Por isso, seu grande parceiro é o ‘heckler’, o chato da platéia que quer ser mais engraçado e se presta a uma queda de braço de insultos.

Como nos Estados Unidos, onde nasceu o gênero, rastrear a história da stand-up comedy no Brasil é fazer uma lista de pioneiros. Tudo começa com o número de cortina do vaudeville, no qual um ator tem que entreter a platéia na boca de cena, enquanto por trás o cenário é trocado. Basta reler ‘O Mambembe’, de Arthur de Azevedo, para checar como o caipira se dirige diretamente à platéia, comparando-a às mulas tropeiras, em uma provocação típica do gênero. Na era do rádio, Noel Rosa era mais humorista do que cantor, sendo a crônica provocadora dos costumes a essência de seus sambas -e a televisão se adapta perfeitamente a esses esquetes curtos.

A internet volta a consagrar esses camicases do humor, como Rafinha Bastos, que tinha seu site já em 1999. No teatro de São Paulo, proliferam grandes comediantes, como Grace Gianoukas, Marcelo Mansfield, Danilo Gentili e Danny Calabresa.

Em Curitiba, o ‘Risorama’, criado há cinco anos por Diogo Portugal como um apêndice do Festival de Curitiba, consagrou-se neste ano como atração principal. E o Janeiro Brasileiro da Comédia, festival específico realizado em São José do Rio Preto, instituiu a partir deste ano um ‘open mic’ para descobrir talentos locais.

Democrática e insolente, a stand-up é garantia de renovação ou, pelo menos, de boas risadas, desde que os performers sobrevivam à dura prova de fogo de se expor ao ridículo de cara limpa.’

 

Laura Mattos

Quem ri por último

‘Existe alguma diferença entre um soco do ator Victor Fasano e uma ‘revistada’ do cineasta Hector Babenco?

A resposta pode ser útil para entender uma geração do humor televisivo que acaba de sair do forno e tenta se diferenciar do estilo criado pelo ‘Pânico’.

Os comediantes, cujos vídeos são sucesso na internet, foram lançados na TV no mês passado por dois novos programas: ‘Custe o Que Custar’ (‘CQC’), da Band, comandado por Marcelo Tas, e ‘15 Minutos’ (MTV), de Marcelo Adnet.

São nomes ligados à comédia stand-up, em que humoristas, de pé no palco, emendam uma piada à outra (como Jerry Seinfeld), ou ao teatro de improviso, no qual atores são desafiados a fazer graça a partir de idéias do público. Na TV, eles estão buscando um humor mais elaborado e indireto, a fim de não cair no escracho cru do ‘Pânico’.

Um deles é Oscar Filho, 29, que faz sucesso no Clube da Comédia Stand-Up, grupo de destaque no gênero, e integra o ‘CQC’. Foi ele o agredido por Babenco com uma revista na cabeça. O cineasta foi questionado sobre uma entrevista em que teria dito que ‘não tem nenhum ator brasileiro à altura do [mexicano] Gael [García Bernal], de 28 anos’.

A agressão veio quando Oscar lhe perguntou o que ele sentiria se alguém dissesse não haver ‘nenhum cineasta argentino naturalizado brasileiro à altura de Fernando Meirelles’.

Objetivo é jogar

‘No ‘CQC’, buscamos uma piada mais indireta, ligada a fatos, e fazemos perguntas a celebridades e políticos que outros repórteres não teriam coragem de fazer. A intenção não é sacanear a pessoa por ser careca ou argentina’, afirma Oscar. ‘E o objetivo não é irritar a celebridade, mas fazer com que entre no jogo. Espero que Babenco tenha sido o último [a reagir com agressividade]’, garante ele, que diz não achar o ‘CQC’ ‘nada parecido’ com o ‘Pânico’, no qual o Repórter Vesgo foi esmurrado por Fasano ao dizer ‘faz anos que não te vejo’.

Também do ‘CQC’, Danilo Gentili, 28, caiu nas graças do público no papel de um repórter abestalhado. O personagem faz parte do formato original do programa, criado na Argentina. Já foram vítimas padre Marcelo, Gretchen e Márcia Goldschmidt, cujas entrevistas entraram nos três programas exibidos até agora -que tiveram dois, três e 3,2 pontos de audiência, respectivamente-, além de mãe Dinah e Agnaldo Timóteo, ainda inéditos.

Gentili costuma marcar a entrevista dizendo ser de uma TV do interior e, na gravação, finge ter todo tipo de dificuldade. É a desculpa para, por exemplo, ‘ingenuamente’ pedir a Gretchen que autografe uma revista com a foto dela na capa e todas as páginas grudadas.

Segundo o humorista, foram gravadas 12 entrevistas antes de o ‘CQC’ estrear, já que ele se tornaria conhecido depois. ‘Mas não vai mudar muito, porque eu sou de verdade um repórter inexperiente’, diz Gentili, formado em publicidade e ator de comédia stand-up.’

 

Bia Abramo

Humorístico é a melhor estréia de 2008

‘O NOME é incômodo -soa ao mesmo tempo como CPC, CCC e c.q.d, siglas para coisas tão díspares quanto os centros populares de cultura, o Comando de Caça aos Comunistas e o ‘como queríamos demonstrar’ da matemática-, mas o ‘CQC’ é, por enquanto, a melhor estréia da TV neste ano.

O formato é importado e, na verdade, bastante simples. Numa espécie de telejornal do absurdo, três âncoras apresentam entrevistas com perguntas embaraçosas, reportagens ao estilo de Michael Moore e Borat -repórteres interessados no avesso da notícia ou investidos de missões esdrúxulas etc.

A equipe combina Marcelo Tas, espécie de pioneiro do jornalismo saia-justa com seu repórter Ernesto Varela, com nomes mais recentes do humor, como Rafinha Bastos, Marcelo Luque e Rodrigo Gentili, conhecidos dos circuitos de comédia stand-up e do teatro, além de repórteres com queda para o humor.

O programa vem sendo comparado ao ‘Pânico na TV’, mas guarda diferenças. Embora a irreverência diante de autoridades e celebridades se mantenha em quadros como as excelentes entrevistas do repórter inexperiente Danilo Gentili, o ‘CQC’ leva adiante a verve política.

Mais do que a esculhambação indiscriminada, o programa trabalha com a ironia, sobretudo em relação à própria TV. Que, aliás, sempre foi um dos melhores materiais para se fazer humor em TV: veja-se o ‘Flying Circus’ do Monty Python, o quadro ‘Weekend Update’ do ‘Saturday Night Live’, a ‘TV Pirata’ etc.

O ‘CQC’, por ora, esquivou-se da armadilha fácil daquilo que se chama de baixaria e que, em graus diferentes, assola o humor da TV brasileira. Do ‘Casseta e Planeta’ ao ‘Toma Lá, Dá Cá’, do ‘Programa do Tom’ à ‘Praça É Nossa’, parece que não há possibilidade de fazer graça sem certa humilhação. No ‘CQC’, há mais sutileza e agilidade verbal, além de uma preocupação genuína, ao que parece, em fazer um tipo de jornalismo de denúncia engraçado.

O diabo é, de fato, prosseguir incólume aos apelos do apelativo. Mas a rede já aderiu com entusiasmo ao ‘CQC’, espalhando trechos dos três episódios apresentados até agora pelo YouTube e pela blogosfera. Se a emissora (e os anunciantes) conseguirem ouvir, pode funcionar.

O ‘Flying Circus’ foi o programa do Monty Python na BBC (1969-1974), antes que eles se lançassem no cinema. O humor genial do grupo britânico não envelheceu e está sendo lançado em DVD aqui. É boa chance para entender de onde vêm as melhores idéias de comédia em TV.’

 

Bruna Bittencourt

Quarto ano de ‘L Word’ estréia, e fim da série é anunciado nos EUA

‘Elas voltaram, mas não por muito tempo. A quarta temporada de ‘The L Word’, a primeira série sobre lésbicas a ocupar o horário nobre da TV americana, estréia amanhã no Brasil acompanhada da notícia do fim do programa.

O canal Showtime, que também produz a ousada ‘Californication’, anunciou que a sexta temporada de ‘L Word’, prevista para o início de 2009, será também a última – o quinto ano da série acaba de ser exibido nos EUA. Com ares novelescos, a trama de ‘L Word’ gira em torno de um grupo de amigas lésbicas de Los Angeles, longe dos estereótipos relacionados ao tema.

Da feminina curadora de arte que foi por anos casada à andrógina cabeleireira que foi por anos libertina, o retrato homossexual é diversificado.

Sem pudores ou economias nas cenas de sexo, a série também toca em temas indigestos como a transição para o sexo masculino de Moira (que agora é Max) ou o câncer de mama que matou Dana.

A quarta temporada começa com Shane mais perdida do que nunca depois de ter abandonado Carmen à beira do altar; Tina e Bette ensaiando uma trégua pela custódia da filha; Kit grávida e Jenny separada de Max. Mas as surpresas são outras: uma antiga amiga do grupo volta à cena, enquanto a família de Shane bate à sua porta.

Se Rosanna Arquette já faz participações especiais eventuais, agora é a vez de Cybill Shepherd (‘A Gata e o Rato’) -como Phyllis. Chefe de Bette, casada com um homem e mãe de dois filhos, ela se envolverá com Alice. Mas um novo personagem chega à vida de Alice, aumentando o literal mapa sobre relações homossexuais que ela persiste em traçar.

THE L WORD – 4ª TEMPORADA

Quando: estréia amanhã, às 22h

Onde: na Warner’

 

MAMET
David Mamet

Civilidade política

‘John Maynard Keynes foi ironizado por mudar de idéia. Ele respondeu: ‘Quando os fatos mudam, eu mudo minha opinião. E o senhor, o que faz?’. Meu exemplo favorito de mudança de opinião aconteceu com [o escritor] Norman Mailer no ‘Village Voice’.

Norman assumiu o papel de crítico de teatro e deu sua opinião sobre a estréia nova-iorquina de ‘Esperando Godot’. A maior peça do século 20. Sem dar-se ao trabalho de ir vê-la, Mailer a qualificou de lixo.

Quando, mais tarde, ele assistiu à peça, deu-se conta do erro que cometera. Mas não era mais colunista do ‘Voice’, então comprou uma página no jornal e publicou um artigo em que se retratou, saudando a peça como a obra-prima que ela é.

O sonho de todo dramaturgo. Certa vez, venci uma das ‘Competitions’ de Mary Ann Madden, na revista ‘New York’. A tarefa proposta era nomear ou criar um ‘10’ de qualquer coisa, e a minha foi a ‘Resenha Teatral Mais Perfeita do Mundo’.

Ela dizia o seguinte: ‘Nunca entendi o teatro até a noite de ontem. Por favor, perdoe tudo o que já escrevi. Quando o sr. ler isto, eu já estarei morto’. Essa, é claro, é a única resenha que alguém que trabalha com teatro deseja receber.

Meu prêmio -uma ironia espantosa- foi uma assinatura de um ano da ‘New York’, pasquim que (com a exceção da ‘Competition’, de Mary Ann) considero uma ferida purulenta no corpo das letras mundiais -isso devido à presença em suas páginas de John Simon, cujo amálgama estarrecedor de arrogância e selvageria, ao longo dos anos, foi apreciado pela parcela dos leitores que vive em busca de um endosso da mediocridade pró-ativa.

Mas estou divagando.

Escrevi uma peça sobre política (‘November’, em cartaz no teatro Barrymore, na Broadway; alguns lugares ainda disponíveis). E, como parte do ‘processo de criação’ -creio que é assim que é descrito-, comecei a refletir sobre política. Esse comentário não é realmente tão inepto quanto pode parecer.

‘Porgy and Bess’ é uma coletânea de ótimas canções, mas não tem nada a ver com relações raciais, a bandeira de conveniência sob a qual navegou.

Pontos de vista opostos

Mas minha peça, conforme ficou claro, era de fato sobre política, ou seja, sobre a polêmica entre pessoas que defendem pontos de vista opostos. O argumento de minha peça se dá entre um presidente que defende interesses próprios, é corrupto, aliciado e realista, e a redatora de seus discursos, esquerdista, lésbica e socialista utópica.

Ao mesmo tempo em que garante uma gargalhada por minuto, a peça é uma disputa entre a razão e a fé ou, possivelmente, entre a visão conservadora (e trágica) e a esquerdista (ou perfeccionista).

O presidente conservador, na peça, defende que as pessoas querem sobretudo ganhar a vida individualmente e que a melhor maneira de o governo facilitar o trabalho delas é ficar fora de seu caminho, já que os inevitáveis abusos e deficiências desse sistema (o da economia de livre mercado) são menores que os que decorrem da intervenção governamental.

Durante muitas décadas eu aderi à visão esquerdista, mas creio que mudei de idéia. Como filho dos anos 1960, aceitei como artigo de fé que o governo é corrupto, que as grandes empresas nos exploram e que a maioria das pessoas, no fundo, tem coração bom.

Com o passar dos anos, esses preceitos tão valorizados foram se entranhando em mim como preconceitos cada vez mais impraticáveis. Por que digo ‘impraticáveis’? Porque, embora eu ainda aderisse a essas idéias, já não as aplicava em minha vida. Como sei disso? Minha mulher me informou do fato. Estávamos andando de carro, ouvindo a NPR [Rádio Pública Nacional, rede provedora de conteúdo para emissoras não comerciais].

Senti meus músculos faciais enrijecendo, e as palavras ‘cale a boca!’ se formando em minha mente. ‘?’, ela me espicaçou.

E, como sempre, seu resumo enxuto e elegante me despertou para uma verdade mais profunda: eu vinha ouvindo a NPR e lendo diversos órgãos de opinião nacional havia anos, maravilhamento e raiva disputando espaço a tapas em minha cabeça. E mais: constatei que vinha me referindo a mim mesmo, havia anos -de maneira bastante charmosa, pensava- como ‘esquerdista tapado’ e, à NPR, como ‘Rádio Nacional Palestina’.

Isso, para mim, sintetiza a visão de mundo com a qual me descobri desencantado: a idéia de que tudo está sempre errado. Em minha própria vida, contudo, como revelou uma breve revisão, nem tudo estava sempre errado, e nem tudo estava errado sempre, tampouco, na comunidade em que vivo ou em meu país.

Ademais, tudo não tinha estado sempre errado nas comunidades em que eu vivera anteriormente e entre as diversas e móveis classes das quais, em momentos distintos, fui parte.

E me perguntei como eu pude ter passado décadas achando que eu pensava que tudo estava sempre errado, ao mesmo tempo em que achava que eu pensava que as pessoas eram basicamente boas.

A Constituição

Qual era a resposta? Comecei a questionar o que eu realmente pensava e descobri que não penso que as pessoas sejam fundamentalmente boas; de fato, essa visão da natureza humana tanto motivou quanto esteve na base de meus escritos nos últimos 40 anos.

Acho que, em circunstâncias de tensão, as pessoas podem comportar-se como porcos, e que esse, de fato, não apenas é um tema apropriado para obras de teatro, mas, de fato, é o único apropriado.

Eu observara que a luxúria, a cobiça, a inveja, o ócio e seus colegas vêm dando muito trabalho ao mundo, mas que, não obstante, as pessoas, de um modo geral, parecem conseguir levar suas vidas adiante; e que nós, nos EUA, levamos nossas vidas adiante sob condições bastante privilegiadas e ótimas -que não somos e nunca fomos os vilões que parte do mundo e alguns de nossos cidadãos querem nos fazer parecer, mas que somos um misto de cidadãos normais (cobiçosos, desejosos, enganosos, corruptos, inspirados -em suma, humanos) que vivem sob um acordo espetacularmente eficaz chamado Constituição e que temos sorte de contar com ele.

Pois a Constituição, em lugar de sugerir que nos comportemos todos de maneira semelhante à dos deuses, reconhece que, pelo contrário, as pessoas são porcos e aproveitarão qualquer oportunidade que lhes aparecer para subverter qualquer pacto, visando a defender o que consideram ser seus interesses próprios.

Com essa finalidade em vista, a Constituição divide o poder do Estado naqueles três ramos que são, para a maioria de nós (eu me incluo nela), a única coisa da qual nos recordamos de 12 anos de ensino fundamental e médio.

Redigida por homens dotados de alguma experiência prática de governo, a Constituição parte da premissa de que o chefe do Executivo trabalhará para tornar-se rei, que o Parlamento vai conspirar para vender a prataria da casa e que o Judiciário vai considerar-se olímpico e fazer tudo o que puder para melhorar em muito (destruir) o trabalho dos dois outros ramos.

Por essa razão, a Constituição os opõe uns aos outros, não numa tentativa de alcançar a estase, mas de possibilitar as correções constantes necessárias para impedir que um ramo conquiste poder demais por tempo excessivo.

Muito brilhante. Pois, abstratamente, podemos idealizar uma perfeição olímpica de seres perfeitos em Washington trabalhando pelo bem de seus empregadores, o povo, mas qualquer um de nós que já esteve presente a uma reunião de discussão sobre zoneamento em que nosso imóvel estivesse em questão tem consciência do desejo premente de passar por cima de toda a baboseira e partir diretamente para as armas de fogo.

Constatei não apenas que não confio no governo atual (isso não foi surpresa para mim), mas que uma revisão imparcial revelava que as falhas deste presidente -a quem eu, bom esquerdista, via como monstro- diferiam em pouco daquelas de um presidente a quem eu reverenciava.

[George W.] Bush nos mergulhou no Iraque; JFK, no Vietnã. Bush roubou a eleição na Flórida; Kennedy roubou a dele em Chicago. Bush divulgou a identidade de uma agente da CIA; Kennedy deixou centenas deles morrerem na praia da baía dos Porcos [em Cuba]. Bush mentiu sobre seu serviço militar; Kennedy aceitou um Prêmio Pulitzer por um livro escrito por Ted Sorensen. Bush dividiu uma cama com os sauditas; Kennedy, com a máfia.

Oh!

E comecei a questionar o ódio que eu nutria pelas ‘grandes corporações’ -ódio esse que, descobri, não passava do revés da fome que eu sentia pelos bens e serviços que elas fornecem e sem os quais não conseguimos viver.

E comecei a questionar a desconfiança que eu nutria pelos ‘militares malignos’ de minha juventude, que, percebi, estava no passado, sendo que as Forças Armadas hoje são compostas por homens e mulheres que arriscam suas vidas para proteger o resto de nós de um mundo muito hostil.

As Forças Armadas sempre estão com a razão? Não. Tampouco o estão o governo ou as grandes empresas -eles são apenas sinais distintos do particular amálgama de nosso país em grupos de trabalho distintos, por assim dizer. Esses grupos são infalíveis, livres da possibilidade de serem mal administrados, corrompidos ou criminalizados?

Não -e tampouco você ou eu somos. Assim, adotando a perspectiva trágica, a pergunta não será ‘será que tudo é perfeito?’, mas ‘como as coisas poderiam ser melhores, a que custo e segundo a definição de quem?’.

Apresentadas dessa forma, as coisas me pareciam estar se desenrolando bastante bem.

Será que falo como membro da ‘classe privilegiada’? É possível -mas as classes, nos EUA, são móveis, e não estáticas, como reza a visão marxista. Ou seja: os imigrantes vinham e continuam a vir para cá sem um centavo no bolso e podem enriquecer (e enriquecem); o ‘nerd’ ganha US$ 1 trilhão; a mãe solteira, pobre e sem falar inglês, consegue que seus dois filhos cursem a faculdade (foi o caso de minha avó).

Por outro lado, os ricos e seus filhos podem perder tudo; a hegemonia das ferrovias dá lugar à das companhias aéreas, a das redes de TV dá lugar à da internet, e o indivíduo pode, e provavelmente irá, mudar de situação mais de uma vez no decorrer de sua vida.

O que dizer sobre o papel do governo? Bem, falando em termos abstratos, a partir de meu tempo e meu passado, achei que fosse uma coisa bastante boa, mas, contabilizando as coisas que me afetam e as que observo, sinto dificuldade em identificar uma instância em que a intervenção do governo tenha levado a muita coisa senão sofrimento.

Mas, se o governo não deve intervir, como é que nós, meros humanos, vamos encontrar as soluções? Eu me questionei, li, e me ocorreu que eu sabia a resposta.

É esta: parece que simplesmente encontramos jeitos. Como sei disso? Pela experiência. Pensei em minha própria experiência. Tire o diretor da peça encenada, e o que resulta?

Normalmente, em uma redução nos conflitos, ensaios feitos em menos tempo e uma produção melhor. O diretor geralmente não causa conflitos, ele próprio, mas sua presença leva os atores a dirigir (e inventar) reivindicações que visam a apelar para a ‘autoridade’ -em outras palavras, deixar de lado o objetivo original (encenar uma peça para a platéia) e fazer política, cujo objetivo pode ser ganhar status e influência fora do objetivo ostensível do empreendimento todo.

Sistema de júri

Deixe passageiros que não se conhecem sozinhos num ônibus no meio da noite, sem a possibilidade de sair dele, e o que você terá? Muito drama de baixa qualidade e uma versão rudimentar do Acordo do Mayflower [entre colonos que chegavam à América do Norte, considerado o primeiro contrato social dos EUA, em 1620].

Cada passageiro vai imediatamente acrescentar o que puder à solução do problema. Por quê? Porque cada um quer (na realidade, necessita) contribuir -jogar no caldeirão os presentes que tem em mãos para ajudar o grupo a alcançar a meta comum, sem falar em conquistar status na comunidade recém-formada. E, assim, eles encontram uma solução.

Veja também o caso dessa mais magnífica das escolas, o sistema de júri, no qual, novamente, cada participante não traz nada para a mesa salvo seus próprios preconceitos, e, ao fio das deliberações, o grupo chega não a uma solução perfeita, mas a uma solução aceitável para a comunidade -uma solução com a qual a comunidade consegue conviver.

Antes das eleições parlamentares, meu rabino estava sendo alvo de muitas críticas. A congregação é exclusivamente esquerdista, ele se descreve como independente (leia-se ‘conservador’) e estava deixando o rebanho maluco. Por quê? Porque a) ele nunca falava de política e b) ensinava que a qualidade do discurso político precisa ser tratada primeiro -que as leis judaicas ensinam que cabe a cada pessoa ouvir tudo o que a outra tem a dizer.

Então eu, assim como uma parte tão grande da congregação esquerdista, comecei -com os dentes rangendo- a tentar fazê-lo. E, ao fazê-lo, reconheci que eu tinha duas visões dos EUA (política, governo, grandes empresas, o setor militar).

Uma delas era a de um Estado em que tudo estava magicamente errado e deveria ser corrigido imediatamente, a qualquer custo; e a outra -a do mundo na qual eu de fato vivia cotidianamente- era feita de pessoas, a maioria das quais procurava, de maneira razoável, maximizar seu próprio conforto, convivendo pacificamente com as outras (no trabalho, no mercado, na sala do júri, na rodovia, até mesmo nas reuniões dos conselhos escolares).

E compreendi que era chegado o momento de eu declarar minha participação nos EUA em que eu optava por viver e que o país não era uma sala de aula ensinando valores, mas um mercado.

Será que falo como membro da ‘classe privilegiada’? É possível, mas as classes são móveis, e não estáticas

‘Ahá!’, você dirá, e com razão. Comecei a ler não apenas os tratados econômicos de Thomas Sowell (nosso maior filósofo contemporâneo), mas também Milton Friedman, Paul Johnson e Shelby Steele, além de uma gama de escritores conservadores, e descobri que eu concordava com eles: uma visão de mundo pautada pelo livre mercado condiz mais perfeitamente com minha experiência do que a visão idealista à qual chamo de visão esquerdista.

Ao mesmo tempo, eu estava escrevendo minha peça sobre um presidente corrupto, astuto e vingativo (como presumo que sejam todos os presidentes) e dois perus.

E dei a esse presidente fictício uma redatora de discursos que, na opinião dele, é uma ‘esquerdista tapada’, muito semelhante a meu eu anterior. No decorrer da peça, eles são obrigados a encontrar uma saída. De fato, acabam chegando a uma compreensão humana do processo político. Coisa que creio que eu mesmo estou tentando fazer e na qual acredito que possa ter êxito. Tentarei resumi-la nas palavras de William Allen White [1868-1944].

Progredir e conviver

White foi durante 40 anos editor da ‘Emporia Gazette’, da zona rural do Arkansas, e comentarista político poderoso e destacado. Foi grande amigo de Theodore Roosevelt e escreveu o melhor livro que já li sobre a Presidência. O livro se intitula ‘Masks in a Pageant’ (Máscaras em uma Encenação Histórica). Traça o perfil de presidentes americanos de McKinley a Wilson, e eu o recomendo sem reservas.

White era um sujeito muito lúcido e já testemunhara a natureza humana de maneira que poucas pessoas têm a oportunidade de fazer (como escreveu Mark Twain, se você quiser compreender os homens, dirija um jornal rural).

Sabia que as pessoas precisam tanto progredir quanto conviver umas com as outras, que estão sempre trabalhando para um ou outro desses objetivos, e que o governo, na maior parte do tempo, provavelmente fará melhor em ficar fora de seu caminho e deixar que elas sigam seu próprio rumo. Mas, acrescentou, existe algo chamado liberalismo -a postura esquerdista-, e ela pode ser reduzida a essa mais triste das frases: ‘… E, no entanto…’.

A direita faz pregações tediosas sobre a fé, a esquerda faz pregações tediosas sobre mudanças, e muitos ficam indignados com os tolos que vêem do outro lado. Em última análise, porém, esses tolos são as mesmas pessoas com as quais vamos nos encontrar na cantina da empresa.

Feliz temporada eleitoral!

Este texto foi publicado no ‘Village Voice’. Tradução de Clara Allain .’

 

Folha de S. Paulo

Várias acepções de ‘liberal’ convivem nos Estados Unidos

‘As diferentes conotações do adjetivo ‘liberal’ (‘de direita’, no Brasil, e ‘de esquerda’, no mundo anglófono) têm como origem uma controvérsia que permeia a história do pensamento político: a definição de liberdade.

Nos EUA convivem, de um lado, o conceito de liberdade romano, retomado por Maquiavel, em que liberdade é ‘ausência de grilhões’ ou o oposto da escravidão; e, de outro, o dos filósofos dos séculos 17 e 18, que associavam liberdade a direito de circulação, de propriedade e de costumes.

O primeiro sentido é invocado pela direita (nos EUA, o Partido Republicano), quando defende a guerra ‘em nome da liberdade’. O segundo, o iluminista, desenvolveu-se em várias teorias, inclusive adotadas pelas direitas em geral, quando defendem o livre comércio.

Para as correntes entendidas hoje como liberais (como o Partido Democrata dos EUA), a liberalidade excessiva ao mercado ou à propriedade privada pode gerar desigualdades sociais que, na prática, restringiriam a liberdade dos mais pobres (que não poderiam pagar por serviços e trabalhariam em condições quase servis).

A direita dos EUA critica os liberais por titubearem quanto ao princípio de liberdade de empreendedorismo e circulação do capital, querendo regulá-lo com interferência do Estado. Em alguns casos, ‘liberal’ adquire conotação moral, pois liberdades como o casamento entre homossexuais e o aborto são bandeiras da esquerda.

Assim, é na acepção de ‘esquerdista’ que se deve entender o título que o artigo de Mamet recebeu no jornal ‘Village Voice’, onde foi publicado originalmente em março passado: ‘Por Que Não Sou Mais um Liberal Tapado’.

Já no Brasil as acepções política e moral são distintas: a esquerda, mais associada às escolas marxistas, critica os liberais por manterem a liberdade do capital como fundamento.’

 

Maria Silvia Betti

O devorador de sonhos

‘David Mamet é relativamente pouco conhecido no Brasil, e é provável que o seja mais pelos roteiros que escreveu para o cinema do que por sua extensa produção dramatúrgica.

Certamente filmes como ‘The Postman Always Rings Twice’ (O Destino Bate à Porta, 1981), ‘The Verdict’ (O Veredito, 1982), ‘House of Games’ (Jogo de Emoções, 1987), ‘The Untouchables’ (Os Intocáveis, 1987), ‘Homicide’ (Homicídio, 1991) e ‘Glengarry Glen Ross’ (Sucesso a Qualquer Preço, 1992) são mais familiares ao público brasileiro do que as peças de sua autoria encenadas no Brasil: ‘Sexual Perversity in Chicago’ (Perversidade Sexual em Chicago), ‘A Life in Theater’ (Avesso) e ‘Edmond’.

Nascido em Chicago em 1947, Mamet pertence a uma geração que atingiu a maturidade na década de 1970, quando os sonhos libertários da década anterior já se encontravam solapados pela indústria do consumo.

Em suas peças, a representação do individualismo cínico e do vale-tudo competitivo do capitalismo financeiro ganham forma sincopada e compacta em diálogos irônicos, de frases elípticas e entrecortadas, repletas de palavrões e de coloquialismos urbanos.

Pinter e Beckett

Muitas de suas personagens pertencem a camadas sociais excluídas de qualquer possibilidade de atingir o sucesso financeiro alardeado pelo sistema dominante. Outras ligam-se precisamente a setores cruciais desse sistema, como a indústria cinematográfica, o mercado imobiliário, o mundo dos negócios e a universidade.

Mamet foi sempre um admirador confesso de Harold Pinter e de Samuel Beckett, e o vigor crítico de sua dramaturgia decorre, em grande parte, do uso substantivo da palavra e da urdidura dos diálogos: mais do que ‘falar sobre’ este ou aquele tema ou idéia, as falas em suas peças efetivamente ‘são’ algo, já que é em seu próprio funcionamento e mecanismos que se materializam as estratégias de pensamento e os jogos de poder postos em foco.

Mudança radical

Em 1975, o sucesso de ‘American Buffalo’ na Broadway fez de Mamet uma personalidade em ascensão. Ao longo da década seguinte, ele viria a consolidar uma carreira múltipla como dramaturgo e contista. É romancista, roteirista, diretor cinematográfico e ensaísta, além de ministrar concorridas oficinas de dramaturgia dirigidas a jovens criadores em formação.

O artigo de Mamet que o Mais! publica nesta edição causou impacto nos meios teatrais e jornalísticos e perplexidade generalizada: auto-assumido filho dos anos 60, autor de algumas das mais inequívocas e contundentes obras de expressão crítica à ideologia dominante norte-americana, ele vem ali a público declarar que mudou radicalmente de opinião e comentar a guinada que acaba de dar rumo a um pensamento de direita.

Partindo de uma analogia entre seu próprio caso com a mudança drástica de opinião por parte de John Maynard Keynes e de Norman Mailer, Mamet passa a tecer observações de um cinismo tão rascante que o efeito produzido chega a ficar paradoxalmente próximo ao do efeito de estranhamento.

Trata-se, sem dúvida, de algo digno de nota para um dramaturgo que se caracterizou sempre por lançar mão do recurso contrário, ou seja, de um aparente, ilusório e muitas vezes mal compreendido (hiper) naturalismo.

Todos os que conhecem a contundência crítica de ‘Sucesso a Qualquer Preço’ [leia trecho abaixo], para ficar apenas na referência mais familiar ao público brasileiro, acharão desconcertantes as declarações do artigo não apenas pelo teor, mas também pela forma abrupta e pública com que Mamet fez questão de torná-las inequivocamente oficiais em plena época de campanha para a sucessão presidencial.

Diante desse contexto, o paralelo entre Bush e John Kennedy ou entre a esquerda e a direita norte-americanas corre o risco de soar mais como insolência autoral do que como estratégia argumentativa ou provocação crítica. O raciocínio se coloca perigosamente sobre uma fina lâmina que separa de forma propositalmente precária os termos equiparados.

Para aqueles que têm alguma familiaridade com as opiniões que Mamet defendeu em grande parte de sua carreira, as idéias defendidas no artigo tornam irreconhecíveis as opiniões de outros momentos.

De 1988, por exemplo, em plena efervescência capitalista da América de Ronald Reagan: ‘A América se encontra em um estado deplorável. Estamos num período muito difícil. Nossa cultura acabou de desmoronar e vai se extinguir antes que alguma outra coisa ocupe o seu lugar.

Portanto, quer se diga teatro norte-americano ou produção de carros ou padrão de vida norte-americano, tudo isso está no mesmo barco. O teatro não é um aspecto separado de nossa civilização. Ele é parte da nação’.

Se é verdade que a grande circulação de Mamet nos meios midiáticos fez dele alguém com grande visibilidade pública, também é verdade que essa visibilidade não se sobrepõe aos próprios trabalhos do autor e à materialidade de sua substância artística.

O poder expressivo da criação artística não se limita às intenções ou determinações autorais, pois conta com expedientes mais eficazes de representação e pensamento que os inerentes ao campo da crítica.

Se o conteúdo do artigo nos coloca em alerta diante do rumo a ser tomado pelos próximos trabalhos de Mamet, ele não deixa de nos fazer lembrar também que, no estágio atual de uma sociedade como a norte-americana, colocar os pingos nos is pode ser uma corajosa opção, com todas as armadilhas que eventualmente envolva: o país, seus valores e sua cultura não são ‘uma sala de aula’, mas um ‘mercado’.

Frieza cínica

O ‘e, no entanto’ perturbador estigmatiza grande parte dos percursos de luta e resistência apoiados na estratégia pura e simples do confronto.

Estará Mamet fazendo uso do mesmo recurso que emprega em suas peças, e expondo, na frieza cínica de seu artigo, as operações de pensamento praticadas no campo da ideologia dominante?

Responder a essa pergunta é certamente menos importante do que constatar, com todo o justificável mal-estar que causam suas formulações, que muito temos a refletir e a aprender, política e dramaturgicamente, com a leitura e a encenação de seus trabalhos.

MARIA SILVIA BETTI é professora de literatura inglesa na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.’

 

Ernane Guimarães Neto

Dois em um

‘Artistas extraordinários não precisam ser julgados por suas opiniões. Essa é uma conclusão do ator Paulo Betti, revelando-se surpreso com o texto em que David Mamet declara sua guinada política à direita, nesta entrevista ao Mais!.

Betti, que em 1989 atuou em ‘Perversidade Sexual em Chicago’, escrita por Mamet, elogia esse e outros textos do norte-americano. Para o diretor de ‘Cafundó’ (com Clovis Bueno, DVD Paris Filmes), Mamet ‘entende de trabalho de ator’.

FOLHA – Como vê a oposição política entre direita e esquerda na obra de Mamet?

PAULO BETTI – Não acho que a obra seja sempre a expressão do que o autor pensa. Ele nem sempre consegue controlar o que quer dizer em sua obra. Nesse sentido, Nelson Rodrigues é para mim o maior enigma: escreveu uma obra revolucionária tendo opiniões políticas reacionárias. Nem sempre a gente pode levar muito a sério esse tipo de atitude.

A obra de Mamet já é muito significativa. Talvez agora ele esteja apenas expressando um desencanto político.

FOLHA – Como classifica o trabalho de Mamet?

BETTI – Um grande dramaturgo americano contemporâneo, um diretor atilado. Ele tem diversos interesses: fez ‘Uma Vida no Teatro’, uma peça sobre atores, ‘Perversidade Sexual em Chicago’, ‘Oleanna’, sobre assédio sexual. Toca em questões controvertidas, tem opinião. É um escritor especial, domina muito bem as técnicas de dramaturgia.

Entende de trabalho de ator, tem livros sobre o tema, como ‘Três Usos da Faca’. Por exemplo, o ator que vai abrir uma porta, com a câmera apontando para sua mão. Ele contesta o método Stanislávski, pelo qual o ator deveria sentir a mão no momento e se expressar.

FOLHA – Que peças seriam bons exemplos de seu trabalho? Tem uma favorita?

BETTI – ‘Edmond’, ‘Uma Vida no Teatro’, que foi representada aqui por Umberto Magnani, ‘Oleanna’, ‘Sucesso a Qualquer Preço’. ‘Uma Vida no Teatro’ é ótima: a peça se passa no camarim, e o público vê os atores voltando de cena. Os atores chegam com roupas de época e comentam assuntos triviais, sobre o público. Um cara vestido como alguém da corte francesa, mas falando banalidades.

‘Perversidade Sexual em Chicago’, para falar a verdade, não entendi muito bem -mas não é um dramaturgo difícil.

FOLHA – Acha que sua dramaturgia não combina com o gosto do público brasileiro?

BETTI – Em ‘Perversidade Sexual em Chicago’ fizemos sucesso, viajamos o Brasil todo. Mas eu não apostaria em montar textos dele por aqui. Acho que fez sucesso por causa da novela ‘Tieta’, as pessoas iam pensando em nossos personagens, Timóteo [Betti] e Osnar [José Mayer]. Osnar era conhecido por ser bem-dotado. Fico imaginando que zebra deve ter dado na cabeça das pessoas.

É um autor norte-americano… Vi ‘Oleanna’ em Nova York. Oleanna acha que o professor a está ‘cantando’, ele faz algo que por aqui seria quase nada, mas quase perde o emprego. Ouvi alguém gritar: ‘Dá logo uma porrada nela!’. Lá é popular.

Também vi nos EUA ‘Ricky Jay and His 52 Assistants’ [Ricky Jay e Suas 52 Assistentes] -as assistentes são as cartas do baralho. Era um show de mágica dirigido por Mamet.

Havia fila de espera, só consegui um ingresso depois de três meses. Quando cheguei, o lugar estava cheio daquela gente chique, de gravata-borboleta. Grande David Mamet!’

 

Autor foi indicado ao Oscar e Tony

‘O norte-americano David Mamet, 60, começou a ser reconhecido em seu país como dramaturgo nos anos 1970, com peças como ‘American Buffalo’ ou ‘Perversidade Sexual em Chicago’, que depois seriam adaptadas para o cinema (esta última recebeu o título ‘Sobre Ontem à Noite’).

Seu estilo coloquial, com poucas personagens e cenários restritos, foi recompensado com duas indicações ao Prêmio Tony, por ‘O Sucesso a Qualquer Preço’ (1984) e ‘Speed-the-Plow’ (1988).

A fama internacional viria, paralelamente, pelos roteiros de filmes como ‘O Veredito’, de 1982, e ‘Os Intocáveis’, de 1987. No mesmo ano, Mamet estreou como diretor com ‘O Jogo de Emoções’.

Apesar de haver sido o responsável pela adaptação ao cinema de algumas de suas peças (dirigiu ‘American Buffalo’ e ‘Oleanna’, fez o roteiro de ‘O Sucesso a Qualquer Preço’), foi indicado ao Oscar apenas por roteiros que tiveram como base obras de outros autores: ‘O Veredito’ e ‘Mera Coincidência’ (de 1997).

No Brasil, foram lançados seu romance ‘A Aldeia’ (ed. Record) e as coletâneas de ensaios ‘Três Usos da Faca – Sobre a Natureza e a Finalidade do Cinema’ e ‘Sobre Direção de Cinema’ (ed. Civilização Brasileira).’

 

 

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