Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 1 E 2/12

Folha de S. Paulo

04/12/2007 na edição 462


TV DIGITAL
Folha de S. Paulo


Ilusões digitais


‘A SENSAÇÃO de quem passa em revista o discurso das autoridades federais
sobre a TV digital no Brasil é a de que a montanha pariu um rato. Da
grandiloqüência inicial restou muito pouco no modelo que debuta amanhã, na
Grande São Paulo, para poucas testemunhas.


No auge das promessas edênicas, o governo Lula propagandeou que, na barganha
pela escolha do padrão japonês para a TV digital, o Brasil ganharia uma
indústria de semicondutores, segmento de altíssima tecnologia. A fábrica
desapareceu nas ondas de rádio, mas o padrão japonês foi escolhido, como era do
interesse das emissoras de TV.


Em 2003, o decreto que instituiu o Sistema Brasileiro de Televisão Digital já
não fazia questão de economizar nas promessas. Entre as suas diretrizes constava
promover a inclusão digital e social, democratizar o acesso à informação e
universalizar o ensino a distância. Quatro anos depois, é difícil vislumbrar o
nexo entre tamanha pretensão e o formato de negócios que começa a ser
implantado.


Por ora, a TV digital será apenas o ‘aggiornamento’ da TV comercial
existente. A proposta é dar ao telespectador acesso a imagem e som de maior
qualidade, o que será um avanço nos padrões de consumo do país. Mas questões
como o formato da interatividade e da intersecção com outras mídias ainda estão
completamente indefinidas.


As grandes redes encaram a TV digital como uma cidadela num mundo em que
protocolos e plataformas de comunicação convergem rapidamente. O alastramento da
internet de banda larga, as promessas da IPTV (a televisão transmitida pela rede
mundial de computadores) e a entrada agressiva de grupos de telefonia no setor
de TV a cabo são algumas das ameaças ao modo tradicional de organizar os
negócios das emissoras abertas.


O problema foi o governo ter cedido tanto e tão depressa, com o mínimo de
debates políticos e técnicos, ao interesse das emissoras. Essa escolha já
redundou em diminuição do leque de opções que a nova tecnologia digital pode
oferecer à sociedade. É fácil prever que as redes resistirão a todo
desenvolvimento futuro da TV digital que facilite a entrada de seus competidores
estratégicos, mesmo que venha a atender ao interesse público.


Não é preciso, contudo, exercitar-se em futurologia para enxergar conflitos
em torno da TV digital. Um deles bate à porta, na forma das pressões do ministro
das Comunicações, Hélio Costa, para que o governo subsidie a produção de
conversores para o formato digital. A promessa de que haveria aparelhos baratos,
a R$ 200, à disposição do público caiu na vala comum das falácias ditas a
pretexto de vender a ‘revolução’ da TV digital.


Por que o contribuinte deveria ser forçado a custear um projeto cada vez mais
identificado com o interesse comercial das TVs abertas -e cada vez mais distante
do palavrório sobre ‘inclusão digital’ e quejandos? A questão do preço do
conversor deveria ser resolvida exclusivamente pelos mecanismos de mercado.’


 


TV PÚBLICA
Elvira Lobato


Presidente da TVE se afasta após criação da TV pública


‘Descontente com os rumos tomados na criação da TV Brasil, a jornalista Beth
Carmona deixou a presidência da Associação de Comunicação Educativa Roquette
Pinto (Acerp), que administra a TVE. A diretora-geral, Rosa Crescente, também
deixou a emissora.


O conselho de administração da Acerp aceitou o pedido de afastamento de
Carmona e nomeou o jornalista Arnaldo Cesar Jacob, que integra a equipe da
implantação da nova TV, para sucedê-la. Jacob foi editor-executivo do jornal ‘O
Dia’.


À Folha Carmona criticou a fusão da Radiobras com a TVE na formação da nova
TV pública. ‘Como a Radiobrás e a Acerp têm, cada uma, cerca de 1.200
funcionários, acharam que juntar as duas estruturas resultará em uma instituição
com o dobro de força. Mas não é assim. A Radiobrás não tem tradição de
televisão.’


Ela disse que um dos motivos que a levaram a se afastar é a incerteza em
relação aos funcionários. O contrato entre a Acerp e a União, para gestão da TVE
e da Rádio MEC, termina neste mês. A medida provisória que criou a TV Brasil
prevê que a empresa absorverá as funções (contratos e obrigações) da Acerp, que
desapareceria em três anos. Carmona diz que lhe foi assegurado que não haverá
demissão em massa.’


 


Kennedy Alencar e Leandro Beguoci


TV pública de Lula estréia amanhã com improvisos


‘A TV Brasil, nova emissora pública do governo federal e um dos principais
projetos do segundo governo Lula, estréia amanhã com orçamento de R$ 350 milhões
garantidos pelo Palácio do Planalto para 2008 e cerca de 2.000 funcionários. Por
enquanto, de improviso.


A rede nasce da fusão entre a TVE do Rio e a Radiobrás, estatal federal. Ela
vai mesclar em um único canal o conteúdo que já é exibido separadamente por cada
uma dessas empresas. Da TVE, permanecem atrações como ‘Observatório da
Imprensa’, ‘Sem Censura’, ‘Conexão Roberto Dávila’ e ‘Um Menino Muito
Maluquinho’. A Radiobrás contribuirá com ‘Ver TV’ e ‘Diálogo Brasil’.


Só em março deve ir ao ar a primeira leva de programação própria e o logotipo
‘TV Brasil’. Por enquanto, telespectadores de Rio, Brasília e Maranhão, únicos
locais onde será possível assisti-la por algum tempo, verão os símbolos da
Radiobrás e da TVE na tela.


Ainda não há data para chegar aos outros Estados. As emissoras locais ainda
não definiram se e como vão transmitir o conteúdo federal. O sinal será
analógico, à exceção de São Paulo, o único lugar que terá TV digital a partir de
amanhã. Mas ainda não há data para a TV Brasil chegar aos paulistas.


Nem tudo será velho. Amanhã vai ao ar uma programação especial, a partir das
14h, com foco na área cultural e em entrevistas. Falará sobre TV. Às 20h,
transmite o evento de lançamento da TV digital, em SP. Na segunda-feira e
durante essa fase inicial do projeto, a TV pública terá um telejornal diário, o
‘Repórter Brasil’. Começará às 21h e terá três âncoras. Luiz Lobo, ex-SBT,
ficará baseado em Brasília, onde o telejornal será editado. Apresentadora da
TVE, Luciana Barreto será a âncora do Rio. Em São Paulo, ficará Florestan
Fernandes Jr., atualmente na Radiobrás. Nenhum deles será o âncora principal.


Críticas


O governo, porém, não quer trabalhar com o termo ‘estréia’. Teme receber
críticas ao não apresentar uma programação original desde o início. De acordo
com a presidente da TV Brasil, Teresa Cruvinel, ‘estréia significa ter
identidade visual, com logomarca definida e uma programação nova. Domingo é
apenas o ponto inicial de uma estréia que deve acontecer em março’, disse.


Até lá, enquanto fica no ar essa grade provisória, serão entrevistados
telespectadores comuns das cinco regiões do país para que digam o que gostariam
de assistir na rede pública. Haverá ênfase na interatividade. A Folha apurou que
a vinheta-slogan da TV Brasil será: ‘TV Brasil, você escolhe, você programa,
você assiste’.


Lula não será entrevistado no primeiro dia da TV Brasil. A intenção é
entrevistar futuramente tanto o petista como o tucano Fernando Henrique Cardoso,
para sugerir equilíbrio editorial. Até o final deste ano, serão conhecidos os
temas dos editais de licitação para produção de programas independentes.


Empresas privadas e estatais poderão patrocinar ainda programas da TV Brasil.
A preocupação com índices de audiência não será a prioridade nessa fase inicial,
mas sim em médio e longo prazos.


MP no Congresso


Tereza Cruvinel tem se dedicado a negociar com os deputados federais as
emendas da MP (medida provisória) que criou a EBC (Empresa Brasil de
Comunicação). No Planalto, avalia-se que a MP será aprovada por acordo na Câmara
e terá mais dificuldade no Senado. A TV Brasil começará sua transmissão sem que
a MP esteja aprovada. No caso de rejeição, hipótese que o Palácio do Planalto
avalia como remota, seria encontrado outro formato jurídico para manter a rede
no ar. Um dos motivos para a emissora não entrar com uma grade inteiramente nova
é o temor de melindrar o Congresso.


Neste ano, a TV Brasil executará o que restou do orçamento de R$ 220 milhões
dos extintos canais estatais. Há expectativa que, além dos R$ 350 milhões já
garantidos, um fundo do Ministério da Cultura para produção audiovisual possa
dar mais R$ 80 milhões.


Existe ainda a meta da direção da rede de obter R$ 60 milhões por ano com
dois instrumentos: publicidade institucional de estatais e empresas privadas e
patrocínio a projetos que possam se beneficiar das leis de incentivo à cultura.
A data do dia 2 de dezembro foi escolhida pelos gestores da TV pública numa
tentativa de vincular a estréia da nova rede com o início das transmissões da TV
digital em São Paulo.


Mas o transmissor digital que servirá para gerar, de forma digital, a
programação da TV pública no Estado foi importado dos Estados Unidos e não
conseguirá chegar a tempo ao Brasil, por problemas na alfândega.


Colaboraram LETÍCIA SANDER e FELIPE SELIGMAN, da Sucursal de Brasília’


 


Leandro Beguoci


Proposta inicial desagrada a TV Cultura


‘A relação entre a TV Brasil, criada pelo governo federal, e a TV Cultura,
financiada pelo governo de São Paulo, do PSDB, precisa ser muito discutida para
não acabar em confusão.


O principal problema é saber quantas horas de programação da TV Brasil
passarão na TV Cultura, que não é obrigada, assim como nenhuma outra emissora
estadual, a virar uma retransmissora da rede federal.


Nesta semana, representantes das 19 emissoras estaduais filiadas à Abepec
(Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais) se
reuniram em Maceió (AL) com Mario Borgneth, diretor de rede da TV Brasil, para
discutir como participarão da emissora lançada pelo governo Lula.


Segundo Jorge da Cunha Lima, presidente do conselho curador da Cultura, a
proposta de que todas as TVs veiculem uma programação comum de oito horas não
agradou aos paulistas. ‘Eles pretendem criar um pólo com todo mundo, inclusive a
gente’, afirma Cunha Lima. ‘Mas, por enquanto, não dá. Ainda estamos
consolidando a grade nova da Cultura, que está nascendo agora com o presidente
Paulo Markun.’


Hoje, a TV Cultura é a principal fornecedora de conteúdo às emissoras
mantidas pelos governos estaduais. Ela disponibiliza seus programas
gratuitamente (como previsto em lei). A própria TVE do Rio, que se uniu à
Radiobrás para formar a TV Brasil, usa sete produções da sua equivalente
paulista, como o jornalístico ‘Roda Viva’ e o musical ‘Viola Minha Viola’. A
Cultura usa quatro da TVE, como o infantil ‘Um Menino Muito Maluquinho’.


Esse quadro tem grandes chances de mudar. A TV Brasil nasce com um orçamento
federal de R$ 350 milhões, fora patrocínios que podem somar mais R$ 60 milhões à
nova emissora. A TV Cultura teve, neste ano, R$ 169 milhões: R$ 93,1 milhões do
governo do Estado de São Paulo e R$ 75,9 milhões captados no mercado.


‘Se eles atraírem as TVs com programação de alta qualidade, ótimo para o
Brasil. Para conquistar São Paulo, precisa ver como vai ser. Se reproduzirem
apenas o padrão da TVE do Rio, não vamos nos interessar. A Radiobrás e a TVE,
juntas, não vão dar uma TV melhor do que a nossa. A Cultura poderia fazer
maravilhas se tivesse R$ 350 milhões’, diz Cunha Lima.


A presidente da TV Brasil, Tereza Cruvinel, adota um discurso mais
diplomático. ‘A TV Cultura será uma parceira importante. Ela tem produtos muito
bons, alguns serão mantidos na grade e esperamos, no futuro, que adote um
programa da TV Brasil, quando tivermos uma produção mais intensa.’


Em tese, a TV Brasil não precisa da TV Cultura. Ela terá um canal digital na
cidade, ainda sem data para estrear. Na prática, como poucas pessoas têm TV
digital, a emissora só entrará na maior cidade do país se chegar a um acordo com
sua equivalente paulista, que tem mais um trunfo: os retransmissores analógicos
e digitais da TV Brasil, em SP, ficam na antena da Cultura. No passado, a
Cultura e a Radiobrás assinaram um acordo de cooperação.’


 


TV de Lula tem Estado demais, diz professor


‘Celso Schröder, 54, é professor do curso de jornalismo da PUC-RS e
coordenador-geral do FNDC (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação),
movimento nascido em 1991 para reivindicar o controle social da mídia e mudar a
legislação sobre os meios de comunicação no país. O fórum foi fundado por
sindicatos, pela UNE e por siglas como o PT. Schröder afirma que a TV Brasil,
tal como está hoje, é ‘uma TV estatal com algum caráter público’ e está sujeita
a muitas interferências da Presidência da República. Primo de Carlos Henrique
Schroder, diretor da Central Globo de Jornalismo, o professor critica ainda a
opção do governo por nomear personalidades, como o economista Luiz Gonzaga
Belluzzo, para o conselho da TV. ‘Eu prefiro que fique na mão das corporações,
pelo menos elas representam muito mais pessoas do que simplesmente a consciência
dos indivíduos.’ Confira abaixo os principais trechos da entrevista.


FOLHA – O Brasil precisa de uma TV pública?


CELSO SCHRÖDER – Precisa. Todos os países, de alguma maneira, possuem alguma
coisa nesse sentido. A TV pública não é um capricho. Informação precisa ser
tratada como bem universal, como luz e educação. O Brasil precisa mais da TV
pública do que outros países porque temos uma hipertrofia do sistema comercial
televisivo no país.


FOLHA – Por quê?


SCHRÖDER – Entramos em um curto-circuito de forma e conteúdo. Isso causa um
problema para o próprio sistema, para as redes hegemônicas, que acabam se
pautando por elas mesmas. Isso cria, obviamente, um esgotamento de modelo.


FOLHA – Como falar em esgotamento do modelo se ele mantém as TVs lucrativas?


SCHRÖDER – O grande problema que exige uma televisão pública é o esgotamento
das linguagens. O modelo comercial, pelas próprias características de consumo
que o público exige e que as empresas precisam disponibilizar para garantir e
maximizar os lucros, não permite a elas grandes investimentos, grandes ousadias
de criatividade, de linguagem, as fórmulas prontas são as que acabam sendo
reforçadas. As audiências das televisões vêm caindo, até da Globo.


FOLHA – O sr. fala de inovação de conteúdo. As pessoas que o governo trouxe
para fazer a TV pública são provenientes da grande mídia que o sr. critica, como
Tereza Cruvinel e Franklin Martins, ambos da Globo. Isso não é contraditório?


SCHRÖDER – É uma TV pública que sai pautada pelos seus paradoxos. Não temos
ninguém de Marte para trazer. Nós todos faríamos isso e todos estamos pautados
por essa televisão. Sou um crítico do modelo da Globo, mas não saberia fazer
outra televisão a não ser que começássemos a experimentar.


FOLHA – O governo elegeu a BBC como seu modelo. A TV inglesa tem orçamento de
2,8 bilhões de libras. O orçamento da TV pública para o próximo ano é de R$ 350
milhões. Como cumprir esse objetivo com esse orçamento?


SCHRÖDER – Esse é um dos elementos criticáveis do projeto. Nesse momento, os
recursos são escassos. Por isso me parece que em vez de ser uma televisão
pública, uma rede pública, como chegou a ser anunciado, o que foi feito até
agora foi simplesmente a fusão de duas empresas, criou-se uma TV estatal com
algum caráter público.


FOLHA – Por quê?


SCHRÖDER – O conselho da TV não retira o Estado, ao contrário, o Estado está
fortemente presente na estrutura de gestão. Por enquanto, o modelo brasileiro é
absolutamente igual ao das TVs comerciais brasileiras. Nesse desenho que o
governo faz, há um conselho técnico e abaixo há a direção técnica. Acima dele
está a Presidência da República.


O argumento do ministro Franklin tem sido um tanto ingênuo, que não coincide
com a capacidade e a inteligência dele. Ele diz que isso se justifica porque o
presidente Lula tem 60 milhões de votos e que isso daria a ele autoridade
democrática para escolher a direção técnica.


Bem, óbvio, 60 milhões de votos, com esse argumento, podemos fechar
Congresso, fazer o que quiser, não há mediação democrática.


FOLHA – Mas há o Conselho Curador, que terá economistas, esportistas,
professores…


SCHRÖDER – Nós achamos mais democrático conselhos em que a sociedade civil
fosse representada não pelos seus expoentes individuais, mas pelas suas
instituições. Levamos esse argumento ao ministro, mas ele tem refutado dizendo
que prefere a representação difusa, de personalidades, porque isso evitaria que
o conselho ficasse na mão das corporações. Eu prefiro que fique na mão das
corporações, pelo menos as corporações representam muito mais pessoas do que
simplesmente a consciência dos indivíduos.


FOLHA – Muitas das corporações são ligadas ao PT.


SCHRÖDER – Não pode ser o conselho do PT, ou de um setor. Se fizer isso, leva
a TV ao fracasso. Se o Estado fez um lugar para mandar, começou do lugar
errado.’


 


José Alberto Bombig


FHC ataca a idéia e diz que nunca pensou em TV quando presidente


‘Antecessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto,
Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse não apoiar a iniciativa da nova televisão
pública.


Para ele, a estrutura de comunicação já existente sob controle do governo
federal, e que o tucano conheceu bem, já é suficiente para a tentativa de
assegurar os objetivos que Lula e os petistas dizem querer alcançar com a
iniciativa.


‘O governo já possui a TVE, São Paulo tem uma TV educacional, outros lugares
também. Eu não vejo razão, não vejo necessidade de uma nova rede’, afirmou à
Folha. O ex-presidente disse ainda que em seus oito anos de Planalto nem sequer
chegou a cogitar a possibilidade. ‘Não passou pela minha cabeça criar algo assim
enquanto fui presidente.’


Controle e propaganda


Geraldo Alckmin, também tucano e governador de São Paulo por cinco anos, é
mais direto: ‘É um objetivo claramente de controle dos meios de comunicação’,
disse.


Segundo ele, derrotado por Lula na disputa presidencial em 2006, a criação da
TV pública será um desperdício de dinheiro. ‘Não há nenhuma razão em criar outra
televisão. Aliás, esse governo é o campeão em gastar com publicidade, é uma
coisa totalmente desnecessária’, disse.


Para o vice-governador de São Paulo, Alberto Goldman (PSDB), um dos homens de
confiança de José Serra, o Planalto poderia ter articulado uma rede que unisse
com mais eficiência todos os canais públicos e educativos já existentes. ‘Para
nós, isso pressupõe a tentativa de organizar um instrumento de propaganda. Não
há a menor necessidade.’


Os tucanos estudam a criação de uma comissão suprapartidária que acompanhe a
programação da nova TV.


Nos bastidores, o temor é que ela se transforme na ‘TV Lula’ e sirva como um
instrumento de campanha dos petistas e de seus aliados na eleição de 2010,
especialmente nos grotões do país.’


 


Pedro Dias Leite


Referência no mundo, BBC mudou para manter sua independência


‘Depois de 85 anos, a BBC (British Broadcasting Corporation) -TV pública
britânica que é referência em todo o mundo pela alta qualidade da programação-
sofreu uma grande reestruturação há alguns meses na busca por manter sua
independência em relação governo.


As alterações surgiram na esteira de uma das maiores crises da história da
BBC, em 2004, quando um enfrentamento com o governo Tony Blair em torno de uma
matéria levou à saída da cúpula da emissora, assim como do repórter que levou a
história ao ar.


Um inquérito judicial contestado por boa parte da mídia britânica concluiu
que a emissora falhou ao levar ao ar uma reportagem em que acusava o governo de
‘apimentar’ um dossiê sobre armas de destruição em massa no Iraque. O cientista
que passou anonimamente a história para o repórter suicidou-se depois que sua
identidade foi revelada.


Dois anos depois da crise, a emissora criou um novo órgão para supervisionar
suas atividades, o BBC Trust. ‘O Trust foi criado para assegurar uma maior
independência, mais transparência e também uma seleção mais criteriosa dos temas
da BBC’, disse à Folha uma porta-voz do órgão, que começou a operar em
janeiro.


Formado por 12 integrantes, o Trust decide as linhas gerais para o trabalho
da emissora e presta grande atenção às opiniões dos
telespectadores/ouvintes/leitores da BBC, mas não tem nenhuma conexão com o
dia-a-dia das redações.


Os membros do Trust são escolhidos por um sistema público e independente de
seleção, mas a última palavra cabe ao governo, que pode acolher ou vetar a
indicação. ‘Se uma indicação é negada, o governo tem de explicar os motivos,
então é muito raro que isso aconteça’, argumentou a porta-voz.


Quem toca as operações da BBC é uma entidade totalmente separada, o conselho
executivo, formado por 15 integrantes, escolhidos por um processo misto, com
influências de dentro e de fora do governo.


A cada dez anos, a licença da BBC é renovada pela rainha -a última ocorreu em
2006, e a criação do Trust faz parte das mudanças arquitetadas para a próxima
década.


A corporação é formada por quatro canais de TV aberta, alguns na TV a cabo,
rádio e internet. O orçamento, em torno de 4 bilhões de libras (cerca de R$ 15
bilhões), é quase todo financiado por uma taxa de 135,5 libras que tem de ser
paga por todos que tiverem TV em casa.


Imparcialidade


Com esse Orçamento independente e uma longa história de independência, a rede
é sinônimo de imparcialidade e uma paixão dos britânicos, mas mesmo assim está
sujeita a pressões.


O ex-diretor-geral que perdeu o cargo na crise de 2004, Greg Dyke, escreveu
um livro acusando o governo de tentar interferir na cobertura que a emissora fez
da Guerra do Iraque. ‘Todos os governos tentarão fazer isso. Os governantes são
políticos. O trabalho das redes de televisão é ignorá-los nessas circunstâncias,
como nós ignoramos Blair’, disse Greg Dyke à Folha, em 2005.


A Guerra do Iraque, que ruiu com a credibilidade de quase a totalidade da
mídia norte-americana, foi um dos maiores testes da BBC nos últimos anos. A rede
foi acusada tanto pela direita quanto pela esquerda, o que é sinal de
imparcialidade. Um membro do Parlamento chegou a defini-la como ‘Bush and Blair
Corporation’, mas a rede manteve uma linha crítica em relação ao governo.’


 


Leandro Beguoci, Fernando Barros de Mello, Luiz Fernando Vianna e Italo
Nogueira


‘Não entendo nada de TV’, diz indicado ao conselho


‘Os conselheiros da TV Brasil terão duas missões. Zelar pela independência da
nova emissora diante do governo federal e fiscalizar a qualidade da programação
oferecida. Sabem que nenhuma delas será fácil, pelos mais variados motivos.


‘Não entendo nada de TV’, admite José Antonio Fernandes Martins,
vice-presidente do Conselho de Administração da Marcopolo e uma das 20 pessoas
nomeadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para compor, durante quatro
anos, o conselho curador da nova emissora pública -e talvez até por mais tempo,
já que ainda não foi definido como estes nomes serão substituídos.


Ele disse ter aceitado o convite, feito pela ministra da Casa Civil, Dilma
Rousseff, porque ‘o Brasil é muito fraco de programas culturais, educativos,
como aqueles ‘faça você mesmo’ da TV americana. Temos que mostrar para o povão
que televisão não é só filme com tiroteio e novela em que a mulher trai o
marido’.


Cada conselheiro receberá R$ 2 mil por mês, mais despesas de viagem e
estadia.


O advogado José Paulo Cavalcanti Filho, presidente do Conselho de Comunicação
Social do Congresso e ministro (interino) da Justiça no governo José Sarney,
afirma que há cinco anos quase não lê jornal ou vê televisão porque está
escrevendo uma biografia de Fernando Pessoa. Ele destaca que a nova TV não pode
ser um ‘instrumento de proselitismo’ e que, se for assim, é melhor usar o
dinheiro em escolas.


O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos diz que só o tempo
mostrará qual o caráter da emissora, se apoiará ou não o presidente Lula. ‘Uma
iniciativa governamental pode ser vista por ângulos não muito favoráveis. Acho
que a execução esclarecerá.’ Em 2005, ele acusou a oposição de usar o mensalão
para aplicar um ‘golpe branco’ contra o governo.


Já Cláudio Lembo, ex-governador de São Paulo e autor da expressão ‘elite
branca’, vê riscos de a TV pública se transformar em um órgão chapa-branca, de
apoio ao Palácio do Planalto. ‘Não sou ingênuo, esse é um risco grande’, afirma
o membro do DEM. ‘Vou ser muito presente para que se preserve identidade e
coerência.’


Os conselheiros podem afastar membros da diretoria executiva da TV, até mesmo
a presidente da emissora, Tereza Cruvinel, caso identifiquem problemas graves na
programação. Se isso acontecer, a maioria dos conselheiros deve emitir dois
votos de desconfiança, em um prazo de 12 meses, com intervalo de 30 dias.
Problema: quatro membros do conselho são representantes de ministérios, mais
sujeitos a pressões do governo federal.


‘Ninguém no conselho vai tolerar qualquer interferência’, assegura o
economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que está cotado para presidir o conselho
-eleitor de Lula em 2002, ele disse que votaria em José Serra se o tucano fosse
candidato à Presidência da República em 2006. ‘Se alguém tentar fazer alguma
coisa em contrário, peço demissão. Acho a manipulação uma das coisas mais
ridículas, mais grotescas dos meios de comunicação.’


Lembo, que diz se informar principalmente pela internet e pelos programas da
TV Câmara e TV Senado, defende uma programação voltada à história do país, para
divulgar as tradições brasileiras. Belluzzo gostaria de ver um programa de
entrevistas como o ‘Hard Talk’, da BBC inglesa, emissora que aprecia muito -’ o
entrevistador é implacável com todo mundo’ .


Audiência


José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que já foi o homem mais poderoso
da TV Globo e hoje é dono da TV Vanguarda, diz que não será sua função se
envolver com a programação do canal público. Mas, por e-mail, ele mostra que tem
idéias claras sobre o papel educativo da emissora:


‘Considero um bom projeto se não houver interferência do Estado. Vejo como
coisa de longo prazo e uma boa oportunidade para fazer algumas múmias da rede
educativa começarem a se modernizar.’


A cenógrafa e carnavalesca Rosa Magalhães imagina uma emissora pública com
programação variada e ‘de preferência, com audiência’.


‘Se põe títulos como ‘programa educativo’, já fica cacete. E não tem esse
negócio de que criança não pode ver TV. Pode ver sim, faz muito bem. Sempre fiz
dever do colégio com TV ligada e nunca me atrapalhou.’’


 


Leandro Beguoci


‘Se enveredar pelo partidarismo, rede será desastre moral’


‘‘Se ela [TV Brasil] enveredar pelo partidarismo e pelo governismo, ainda que
veladamente, viveremos um desastre moral.’ A avaliação é de Eugênio Bucci, 49,
presidente da Radiobrás no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. Ele ajudou a formatar a emissora que o governo leva ao ar.


Professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP, Bucci defendeu,
em entrevistas por e-mail à Folha, o modelo da TV Cultura, da qual é
conselheiro. Segundo ele, ser fundação e não uma estatal aumenta a
independência.


FOLHA – Por que o Brasil precisa de uma TV pública?


EUGÊNIO BUCCI – O Brasil não precisa apenas de TV pública. Precisa de um
sistema público não governamental de comunicação, um sistema não comercial que
articule rádio, TV e internet. A TV deve ser vista como parte, mas ela não é o
todo. A comunicação comercial sozinha, com suas regras próprias, não consegue
suprir as demandas estruturais do espaço público democrático.


FOLHA – Quais as principais diferenças e semelhanças entre a TV Cultura e a
TV Brasil?


BUCCI – A TV Cultura é uma fundação, não é uma empresa. O seu conselho não é
todo nomeado pelo governo. Há membros eleitos pelo próprio conselho. Sou
conselheiro e fui escolhido por votação. Tendo em vista o papel que deve caber a
uma emissora pública, o formato de fundação parece, para mim, bem mais adequado
do que o formato de empresa pública, que acabou prevalecendo no caso da TV
Brasil. A fundação, nos moldes da TV Cultura, está mais vocacionada para a
independência. É justamente a margem maior de independência que explica a
tradição positiva da TV Cultura.


Entre todas as emissoras públicas do Brasil, são dela os melhores programas.
Se há ilhas de qualidade na TV pública do nosso país, quase todas estão na TV
Cultura. Aí, a qualidade não vem meramente do dinheiro investido. Vem das
garantias formais e institucionais de independência frente aos governos. Nesse
ponto, embora ainda seja vulnerável às pressões do governo, a TV Cultura é a
melhor instituição do Brasil.


FOLHA – A presidência da República tem forte presença na estrutura da nova
emissora. Como garantir que não sofrerá ingerência nem será instrumento de
propaganda?


BUCCI – A ingerência do governo não é um risco novo, mas um mal antigo, uma
deformação tradicional. O debate que agora vem se alastrando é muito bom e pode
ajudar o país a superar o mal antigo. Existe risco de a TV Brasil virar mais uma
ferramenta de marketing político na mão dos sucessivos governos? É claro que
existe. Mas, agora, a sociedade despertou para o problema. A fiscalização será
intensa. E isso é o que fará com que o caráter público prevaleça sobre o caráter
governamental.


FOLHA – Não teria sido melhor para o país que a TV pública e o novo marco
regulatório viessem no mesmo pacote, por lei votada e aprovada no Congresso em
vez de uma MP?


BUCCI – Não tenho dúvidas: a adoção de novos marcos regulatórios tende a
redefinir os espaços tanto das emissoras públicas quanto das emissoras
comerciais. Mas não vejo um golpe de esperteza na iniciativa do governo. Não sei
se já deixei isso claro, mas insisto no ponto: o simples fato de a Radiobrás e a
TVE se dissolverem numa nova instituição, que seja mais moderna, mais
transparente e portanto mais controlável pela sociedade já constitui um avanço.


Agora, a sociedade precisa estar atenta para que a gestão e a proposta
editorial da nova empresa sejam subordinadas a critérios profissionais e
públicos. Se ela enveredar pelo partidarismo e pelo governismo, ainda que
veladamente, viveremos um desastre moral.


FOLHA – No Brasil, as TVs públicas também sofrem com a crise de audiência.
Como superá-la?


BUCCI – É evidente que gerar boa audiência é dever de qualquer emissora,
inclusive as públicas. Mas, por não ser comercial, a TV pública pode se permitir
correr riscos estéticos.


É o preço que paga pela inovação, e às vezes esse risco pode acarretar perda
de audiência.


Isso não tem nada a ver com fazer TV de segunda linha, para conquistar um
traço como pico de audiência e depois pôr a culpa no telespectador, que é o que
acontece com freqüência no Brasil. A programação das televisões públicas
brasileiras, infelizmente, ainda é, na média, de péssima qualidade, o que nos
leva a uma triste inversão, pela qual as pessoas acreditam que a emissora
pública deve ter aversão a altos índices de audiência. Não.


Ter boa audiência pode ser a regra, mas não segundo a cartilha das emissoras
comerciais. Para estas, quanto mais público melhor, porque o público é a
mercadoria que elas vendem para o anunciante. Do ponto de vista da emissora
pública, o telespectador pode ser tratado como algo distinto, inteiramente
distinto. É daí que ela deve tirar seu diferencial.’


 


‘TV não terá audiência e é dispensável’


‘Para Afonso Antunes da Motta, 56, o Brasil não precisa de uma nova TV
pública. Ele afirma que a boa intenção do governo federal, de produzir conteúdo
de qualidade, diferente das redes comerciais, vai esbarrar em dois problemas:
falta de dinheiro e de audiência. ‘A audiência está com a televisão comercial.
Vai poder mostrar para meia dúzia de pessoas, com todo o respeito.’ Motta é
vice-presidente da RBS TV, do Canal Rural e da Agert (Associação Gaúcha de
Emissoras de Rádio e Televisão). Ele aponta ainda o risco de a TV Brasil virar
um instrumento do governo. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.


FOLHA – O sr. é contra a TV pública?


MOTTA – A TV Pública é dispensável. Até porque todas as experiências que
temos ai são experiências comprovadas, malfadadas. Claro que não se chega ao
radicalismo de dizer ‘fecha tudo’. É um instrumento, tudo bem, mas não tem
significado dentro do contexto da comunicação.


O ativismo da TV pública tem colocado que a preocupação das redes é perder
verba pública. Ora, os grandes veículos de comunicação tem apenas de 3% a 5%
dessa verba de governo, não tem esse significado todo que o ativismo deseja
colocar. Não é por aí.


FOLHA – Um dos principais argumentos dos defensores da TV pública é que ela
vai dar espaço ao que a TV comercial não mostra e tem importância cultural. Eles
têm razão?


MOTTA – Não adianta, pode ter a boa intenção de mostrar, mas não vai ter
audiência. Quem é que vai assistir? A audiência está com a televisão comercial.
Vai poder mostrar para meia dúzia de pessoas, com todo o respeito, sem
desmerecer.


FOLHA – O sr. acha que ela vai virar instrumento do governo?


MOTTA – Será que essa televisão pública, mesmo com essas limitações, vai ser
pública efetivamente, não vai estar vinculada ao governo, não vai servir de
instrumento? Há que se duvidar. Essa televisão pode ser utilizada para fins de
valorizar ações de governo.


FOLHA – Setores do PT dizem que o orçamento é insuficiente para os desafios
que a TV se coloca.


MOTTA – Tem um orçamento de R$ 350 milhões iniciais. A gente sabe que para
produzir conteúdo para atingir minimamente os objetivos que estão se propondo é
muito pouco. Apesar de ser bastante dinheiro, olhando em números absolutos, é
insuficiente para o investimento necessário de equipamento, de tecnologia, da
própria produção de conteúdo, que a gente sabe que isso é uma coisa muito cara.


FOLHA – O sr. não espera nada positivo da TV pública?


MOTTA – Acho que a TV pública poderia contribuir para a transparência dos
atos públicos. Hoje há consenso em uma parte da sociedade de que uma das razões
pelas quais a corrupção continua grassando é o fato de que não há transparência
nesse país. E acho que a TV pública poderia ser utilizada, ao menos parte de seu
conteúdo, para dar transparência à atividade pública. Essa é uma excelente idéia
para conteúdo. Apesar de tudo isso, é pouco provável que a audiência saia do
traço. Esse é o grande desafio.’


 


Denyse Godoy


Aos 40 anos, rede americana PBS tem audiência em queda e orçamento
menor


‘A rede americana PBS (Public Broadcasting System), fundada em 1969 por uma
agência ligada ao governo federal dos Estados Unidos, se aproxima dos 40 anos
com a audiência em queda, o orçamento menor a cada ano e a sua programação
questionada. Ela não é conhecida por defender o interesse público, por
exemplo.


Muitos dos problemas estão ligados à sua estrutura. Criada com o objetivo de
exibir conteúdo educativo e promover a cidadania, a PBS é uma empresa privada
sem fins lucrativos, cujo controle está nas mãos das 355 emissoras que formam a
rede -os diretores são eleitos entre os executivos delas. Controladas por ONGs,
órgãos dos governos municipal e estadual ou entidades educacionais como escolas
públicas e universidades, cada uma das emissoras tem autonomia sobre a sua
programação, ou seja, não existe obrigatoriedade de transmissão simultânea de
conteúdo.


Também não há uma central de produção conjunta. Com isso, apesar do maior
espaço para a veiculação de quadros regionais, prejudica a criação de uma
identidade e deixa a rede vulnerável às pressões políticas, o que é uma crítica
constante tanto de liberais quanto de conservadores à sua programação.


Para sanar os problemas de financiamento, a PBS aumentou o tempo das
inserções de propaganda e passou a aceitar merchandisings. Consultores do setor
sugerem a criação de um fundo independente para financiá-la.’


 


Rodrigo Rötzsch


Canal 7 suspende programas para exibir Kirchner, mas sua audiência é pequena


‘Na Argentina, a TV pública nasceu com a chegada da televisão ao país, em
1951. A data inaugural foi uma exigência da então primeira-dama Eva Perón. Desde
então, a Argentina tem uma TV pública, hoje chamada Canal 7. É o único a
alcançar todo o país.


A programação, pouco diferente das TVs abertas, tem um certo viés cultural ou
nacionalista e um caráter governista nada dissimulado: é interrompida para
discursos ao vivo do presidente Néstor Kirchner.


O modelo beneficiou a primeira-dama e candidata do governo, Cristina
Fernández de Kirchner. Um levantamento da ONG Poder Cidadão mostra que, nos 45
dias que antecederam a eleição, Cristina teve transmitidos ao vivo 301 minutos
de atos oficiais seus. Os 13 candidatos da oposição não tiveram nenhum ato
transmitido ao vivo e na íntegra.


O chefe-de-gabinete de Kirchner, Alberto Fernández, diz que, se o Canal 7 não
transmitia atos de campanha da oposição, era por incompetência da oposição para
organizá-los.


Os efeitos da propaganda gratuita do governo, porém, são limitados, a julgar
pela audiência: segundo o Ibope Argentina, o Canal 7 é o menos visto entre os
cinco da TV aberta. Em outubro, teve média de audiência de 0,9 ponto -pouco mais
de 87 mil espectadores por minuto na Grande Buenos Aires. Ficou bem atrás do
segundo canal menos assistido, o privado Canal 9, com média de 4,8 pontos (464,5
mil espectadores).’


 


TV DIGITAL
Tatiana Resende


TV por assinatura vai ter conversor digital por R$ 800


‘Os assinantes de TV paga terão que desembolsar R$ 799 para ter acesso à TV
digital aberta, que começa a ser transmitida amanhã apenas na Grande São Paulo.
Esse é o valor do único decodificador híbrido (ou seja, com o conversor para TV
digital aberta já embutido) anunciado até agora, da Net Serviços.


A TVA vai anunciar seu novo decodificador até março, que será cedido sem
custo para os assinantes que compraram por R$ 899 o aparelho lançado em junho do
ano passado -já apto a receber o sinal digital e em alta definição da TV paga
(disponível em apenas um canal), mas não da TV aberta. Para os outros
assinantes, o gasto vai variar com o pacote e o tempo em que é cliente da
empresa, mas o preço não foi informado. A Sky afirmou que vai lançar o novo
equipamento ao longo de 2008.


Com 46% do mercado de TV por assinatura, a Net aposta na fidelização do
cliente com o lançamento do novo decodificador. O preço se refere ao valor de
adesão, pois o aparelho será cedido em comodato -logo, terá que ser devolvido se
o assinante cancelar a TV paga.


Segundo Márcio Carvalho, diretor de produtos e serviços da empresa, o
aparelho já tem um software que dispensa a troca quando a interatividade plena
(envio de dados do telespectador para a emissora) estiver disponível.


O programa foi desenvolvido fora do Brasil e é equivalente ao nacional Ginga,
que vai permitir essa interatividade na TV aberta, mas que ainda não está sendo
produzido comercialmente. Por isso, os conversores que estão chegando ao varejo
terão que ser trocados porque não será possível adaptá-los.


O conversor mais barato, para a TV digital aberta, disponível no mercado para
TVs de LCD e plasma de alta definição (1.080 linhas) custa R$ 700, ou seja, R$
100 a menos do que o novo decodificador da Net.


Questionado sobre o subsídio da empresa ao aparelho, Carvalho disse apenas
que ‘a Net também está fazendo um investimento’, assim como o cliente, mas não
revelou o valor, que deve ser bem alto para tornar o assinante fiel.


O produto foi fabricado pela Cisco Systems no México e entregue nos Estados
Unidos, cabendo à TV por assinatura a importação, de acordo com Carvalho, o que
livraria os decodificadores das suspeitas de importação irregular na
investigação da Polícia Federal .


Atualmente, a Net, assim como outras TVs por assinatura, já têm transmissão
digital, mas não em alta definição, o que só será possível com o novo
decodificador. Vale lembrar, no entanto, que há pouco conteúdo sendo produzido
em alta definição nas emissoras de TV aberta e por assinatura no Brasil, logo
não haverá diferença na maior parte do tempo.


A aquisição do aparelho não é recomendada para quem TVs de tubo (480 linhas)
porque a imagem exibida já é a melhor possível com essa televisão. Para quem
possui TVs de plasma ou LCD, é preciso ter pacotes a partir de R$ 119,90, nos
quais o assinante já tem a chamada Net Digital e, agora, vai poder ter também a
alta definição.


O cronograma da troca seguirá o da transmissão da TV digital aberta, com
previsão de chegada ao Rio de Janeiro em abril ou maio e, em todas as cidades
brasileiras, até 2013.


O aparelho pode ser solicitado a partir de hoje na Grande São Paulo, mas a
instalação só começa em duas semanas, assim como a transmissão do canal da
Globosat com toda a programação em alta definição, que será uma miscelânea de
programas de outros canais transmitidos ainda em definição padrão.’


 


Humberto Medina


Ministro pede ‘boa vontade’ com início das transmissões


‘As transmissões de TV digital começam amanhã em São Paulo, e o ministro das
Comunicações, Hélio Costa, pede ‘boa vontade’ com o novo sistema, ainda sem
interatividade e inacessível à grande parte da população por conta do alto preço
dos aparelhos conversores. ‘Tem que ter um pouquinho de boa vontade com o
processo. O importante é começar’, disse o ministro. Só receberá os sinais
digitais quem tiver antena UHF e adquirir um conversor.


Na avaliação de Costa, o preço do conversor deve começar a diminuir a partir
de março do ano que vem, quando Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília também
começam a receber as transmissões digitais. ‘Aí o mercado potencial sai de
aproximadamente 10 milhões de consumidores para algo como 30 milhões e a
indústria passa a ter escala’, disse Costa.


Além do aumento da escala de produção, outros fatores podem influenciar no
preço do conversor e, conseqüentemente, no sucesso da implantação da TV digital
no Brasil. O governo deverá lançar um programa de incentivos fiscais para a
indústria, para tentar reduzir o preço (que hoje está entre R$ 499 e R$ 1.099)
para valores médios próximos a R$ 250.


A idéia do governo é replicar para o conversor da TV digital os incentivos
dados à produção de computadores pessoais populares (programa ‘Computador para
Todos’, do governo federal). Para produzir computadores populares (que custam
até R$ 1.800), a indústria tem isenção de PIS/Cofins e as redes varejistas
contam com crédito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social) para fazer financiamentos ao consumidor.


‘Alguma coisa tem que ser feita para reduzir o preço do conversor. Há boa
vontade do governo’, disse Costa. Segundo o ministro, a decisão de lançar um
programa de incentivos fiscais para a indústria e financiamento para o varejo
depende de decisão do presidente.


O ministro rebateu as críticas sobre a falta de interatividade. ‘O conversor
mais barato, de R$ 499, já sai com o Ginga [software que permite
interatividade]’, disse. De acordo com Costa, caberá agora ao mercado prover as
ferramentas para tornar a interatividade possível. ‘Não é função do governo. O
governo deu os caminhos’, afirmou ele.


Transmissões


Amanhã, a maior parte dos programas será exibida em SD (‘standard
definition’, que significa definição padrão, melhor que a atual, mas inferior à
alta definição (HD, ‘high definition’ ou ‘full HD’). O formato HD é melhor que o
de DVD, e é possível perceber bastante diferença em relação ao formato analógico
até em TVs de tubo. O full HD só poderá ser assistido em TVs de alta resolução,
que custam mais de R$ 3.000.’


 


AMÉRICA LATINA
Clóvis Rossi


Stálin não morreu


‘SÃO PAULO – Nada contra (nem a favor) do socialismo do século 21, do
presidente Hugo Chávez, até porque ninguém sabe direito do que se trata.


Mas, como o socialismo do século 20 foi um enorme fracasso e, na Venezuela, o
capitalismo do mesmo século também fracassou, é justo que os venezuelanos
queiram tentar algum outro modelo. Com o tempo, penarão ou gozarão com ele.


É assim que funciona a democracia, o modelo menos ruim até hoje inventado
pelo homem.


O diabo é que Chávez revive, no percurso para o socialismo do século 21 e em
pedaços de sua nova oferta constitucional, o pior do socialismo do século 20.
Ou, mais exatamente, o estalinismo. Veja o que disse ao jornal espanhol ‘El
País’ Javier Biardeau, professor de sociologia da Universidade Central da
Venezuela, eleitor de Chávez em todas as votações anteriores à de domingo: ‘O
problema é que qualquer desacordo aqui se trata como traição.


Está se tornando natural uma cultura estalinista. Esse grande debate que se
daria na Venezuela sobre o socialismo do século 21 se está convertendo em uma
opção entre lealdade ou traição em relação ao presidente. E, nesse terreno, não
se pode debater nenhuma idéia’.


Perfeito. Vale para setores do PT e da intelectualidade para os quais
qualquer crítica a Lula é ‘conspiração’ ou ‘elitismo.


No caso de Chávez, o estalinismo se dá também nas relações exteriores. Chávez
já xingou (o termo desgraçadamente é esse) os presidentes do México (à época
Vicente Fox), do Peru, dos Estados Unidos, agora da Colômbia, da Espanha, o
secretário-geral da OEA, o Congresso brasileiro e por aí vai. Até seus amigos
Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia já foram destratados publicamente. Não
tolera o menor desacordo. Como o ‘guia genial dos povos’, título de Stálin, a
que parece aspirar Chávez.’


 


Fabiano Maisonnave


Cobertura de referendo está mais imparcial, revela estudo


‘Um levantamento sobre o comportamento das TVs e rádios venezuelanas mostra
que os eleitores do país continuam sendo mal informados para aprovarem ou não
mudanças em 69 dos 350 artigos da atual Constituição, em referendo no próximo
domingo. Mas o estudo aponta duas novidades em relação a campanhas passadas: a
cobertura mais equilibrada dos meios privados com maior audiência e o aumento do
alcance da imprensa estatal.


As conclusões são do Grupo de Monitoramento dos Meios 2007 (GMM), um projeto
das universidades de Gotemburgo (Suécia) e Católica Andrés Bello, de Caracas
(Ucab), com financiamento dos governos sueco e norueguês. O objetivo é monitorar
a cobertura do referendo durante três semanas.


‘A polarização dos meios não é algo novo, mas houve algumas mudanças. Uma
delas é que desapareceu o sinal da RCTV’, disse à Folha Andrés Cañizález, do
Centro de Investigação de Comunicação da Ucab. De forte oposição ao governo a
emissora não teve a concessão renovada por Hugo Chávez, sob a justificativa de
que apoiou o golpe frustrado contra seu governo em abril de 2002.


No lugar, opera a estatal Tves (2% da audiência do país), que tem cobertura
nacional graças ao confisco da RCTV, hoje transmitindo apenas por cabo.


A emissora foi a mais parcial no levantamento, antecipado à Folha e que será
formalmente apresentado amanhã: todas as 100 notícias veiculadas na Tves foram
favoráveis ao governo. Foi o único dos 11 meios monitorados pelo GMM a mostrar
apenas uma posição.


Mais equilíbrio


A boa notícia do GMM fica por conta do maior equilíbrio informativo de quatro
meios privados, entre os quais o canal Venevisión, líder de audiência (35% na
última semana), do magnata Gustavo Cisneros.


‘Há uma tentativa dos canais Venevisión e Televen (15% da audiência) de
buscar mais equilíbrio. Nas eleições presidenciais de dezembro, essas duas
estavam muito mais favoráveis ao governo’, diz Cañizález, elogiando também o
recém-criado canal I e a Unión Radio.


Assim como a Globovisión e a RCTV, a Venevisión e a Televen também
participaram do golpe de 2002, que afastou Chávez por dois dias do poder.


Para Cañizález, a RCTV (3% da audiência) e a Globovisión (4%), continuam
extremamente parcializados.


Empate técnico


Uma pesquisa divulgada ontem pelo instituto Datanálisis revela que, pela
primeira vez, Chávez perderia o referendo do próximo domingo. Segundo o
levantamento, 49% dos eleitores rejeitam a reforma, contra 39% que votam pelo
‘sim’.


Para o diretor do Datanálisis Luis Vicente León, isso não significa que a
derrota de Chávez seja iminente, dada sua maior capacidade de mobilização.
Durante quase nove anos de governo, o presidente venezuelano ganhou nove
eleições.’


 


Juiz defende voto e ataca mídia pública


‘Único alto funcionário do Estado a se manifestar oficialmente contra a
reforma, o juiz eleitoral Vicente Díaz afirma que o uso da máquina estatal é o
maior problema das campanhas eleitorais venezuelanas, mas diz que o sistema
eletrônico de votação é mais confiável do que o brasileiro.


‘Na Venezuela, esse desequilíbrio gigantesco no uso dos recursos e dos meios
de comunicação do Estado em favor de uma candidatura é a mancha cinzenta mais
importante no sistema de votação’, disse Díaz, 47, à Folha, em entrevista
anteontem no CNE, em Caracas.


Díaz se notabilizou pelas reiteradas críticas tanto contra o uso da máquina
na campanha quanto em relação à reforma -ele entrou com um recurso no Supremo
Tribunal de Justiça (STJ) alegando inconstitucionalidade, mas em vão.


Nas votações, costuma ser o único a divergir. Nesta semana, opôs-se sozinho à
decisão do CNE de investigar a Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) por pedir
votos contra a reforma sem ser do Bloco do Não. Para Díaz, o CNE não coíbe o uso
da máquina por dois motivos: a falta de mecanismos legais previstos na Lei do
Sufrágio e a ‘falta de vontade política de parte de meus colegas’.


O juiz eleitoral explica que a punição máxima que o CNE pode aplicar é uma
sanção administrativa de até 500 unidades tributárias (US$ 16 mil). Já a
investigação de desvio de recursos públicos, por ser tema de corrupção
administrativa, é competência da Controladoria Geral e da Procuradoria Geral da
República. Mas Díaz afirma que não foi aberta nenhuma investigação contra Chávez
em dois anos.


Por outro lado, ele assegura que a votação é à prova de fraudes: ‘Diferente
do Brasil, o sistema venezuelano emite um comprovante físico de voto que permite
fazer uma auditoria posterior’. Há duas semanas, a reportagem da Folha vem
solicitando uma entrevista com a presidente do CNE, Tibisay Lucena, mas não
obteve resposta.’


 


ARTE
Nelson Aguilar


Perda irreparável


‘O CANCELAMENTO da mostra internacional da 28ª Bienal de São Paulo e sua
conversão em palco de debates configura uma perda irreparável não só à cidade e
à arte brasileira e latino-americana mas também ao circuito internacional.


Uma edição da Bienal paulistana, boa ou má, reúne artistas, críticos,
galeristas, estudantes, visitantes de todas as partes do mundo há mais de 50
anos. No lugar disso, propõe-se uma série de conferências. A montanha pariu um
rato e almeja-se que essa natividade seja celebrada, se não como megaevento, ao
menos como ‘um gesto radical’.


O papel do presidente da Fundação Bienal de São Paulo é seguir os estatutos e
realizar aquilo para o que é nomeado, a saber, a exposição de artes plásticas
bianual. É respaldado por um conselho de notáveis, no qual têm assento o
ministro das Relações Exteriores e o da Cultura, o secretário da Cultura do
Estado e o do município. O que terá sucedido a essa rede capilar que liga o
evento às mais importantes instituições nacionais?


A Fundação Bienal vive do aluguel do pavilhão onde acontece a mostra e da
capacidade de persuasão da diretoria nos segmentos públicos e privados da
sociedade para a consecução de sua finalidade. Um presidente sem essa
interlocução sobra no comando de uma entidade sem fins lucrativos que pretende
servir à comunidade.


Escapa à compreensão do cidadão por que a fundação cede espaço e promove a
Bienal Internacional de Arquitetura, ora em andamento, sem que para isso exista
qualquer exigência regimental, gastando energia e dinheiro, enquanto envia às
urtigas a razão de ser de sua existência.


A Bienal anterior, embora tivesse por tema ‘Como viver juntos’,
notabilizou-se pela convivência insuportável entre diretoria e curadoria, numa
competição de desacertos que desembocou num resultado medíocre no que diz
respeito à divulgação do evento, a começar pela ausência de catálogo.


Não obstante a pálida gestão, o presidente foi reconduzido e prosseguiu a
seqüência de atos falhos por meio da idéia de um concurso entre curadores para a
edição seguinte cujas regras foram reformuladas no último minuto.


Propôs-se uma solução de compromisso, firmada entre dois participantes do
certame, Ivo Mesquita e Marcio Doctors, de discutir publicamente o evento em
2008 e efetivá-lo em 2010. Era a tentativa de fazer falsas janelas para simular
simetria. Houve mesmo o expediente de emendar o estrago por meio do tema: o
vazio na arte.


Em 2008, para gáudio de palestrantes indiferentes ao arredor, aconteceria
apenas a mesa redonda, visto não existir, segundo o parecer dos dirigentes,
tempo hábil para executar o evento (despendido nas dificuldades que a diretoria
teve para convencer os conselheiros a aprovar as contas da 27ª Bienal).


Como o presidente não é vitalício, ainda que o atual seja o de maior duração
no posto, à exceção de Ciccillo Matarazzo, o fundador, e não podendo garantir o
que acontecerá em 2010, a estratégia não funcionou a contento. Marcio Doctors,
ciente de que não haveria sentido em transformar o mundo artístico num
palavrório, desiste do pleito.


Ivo Mesquita, agora sozinho, aceita a incumbência de transformar a mostra em
sucedâneo, algo virtual, uma ‘second life’, substituindo formas por discursos e
atualizando de maneira macabra o debate sobre a morte da arte. Promete
performances, apresentação de vídeos, 40 dias de conferências, mostra de arquivo
e um andar vazio.


Isso substitui a experiência estética, a visita de críticos de arte, de
artistas dos países participantes, dos respectivos curadores, o posicionamento
dos brasileiros diante da cena internacional, a freqüentação de galerias,
ateliês, museus, coleções particulares exercida pelos que vêm conhecer ou
restabelecer contato com a segunda Bienal mais conhecida do circuito?


O presidente da Bienal de 2010 terá que arcar com a quebra da periodicidade
do evento, o que significa perda de verbas dos países visitantes, com o recomeço
difícil. Mas 2010 está tão longe das artes quanto 2014 está próximo do futebol.


NELSON AGUILAR, 62, é professor de história da arte da Unicamp (Universidade
Estadual de Campinas). Foi curador-geral da 22ª (1994) e da 23ª (1996) Bienal de
São Paulo e da quarta Bienal do Mercosul (2003).’


 


Ivo Mesquita


Temos que enfrentar o horror ao vazio


‘Estragon: We are numbed’ (S. Beckett, ‘Waiting for Godot’, 1955)*


O PROJETO proposto para a 28ª Bienal de São Paulo, diferentemente do que
parece ter sido a compreensão geral da mídia, não tem como tema o vazio nem quer
fazer dele objeto de um espetáculo curatorial arrogante, narcisista e frívolo. O
que ele põe em questão, problematizando, não é a arte ou a produção artística
diretamente, mas, sim, o sistema e a economia das bienais, que se nutrem delas,
e toma a Bienal de São Paulo como caso para observação e análise.


Assim, a 28ª BSP se articulará a partir de quatro componentes: biblioteca,
arquivo e website sobre as bienais no circuito artístico contemporâneo,
organizados a partir de documentos no arquivo Wanda Svevo da Fundação Bienal de
São Paulo (seu único patrimônio, a memória), provendo suporte ao ciclo de
conferências; uma praça, passagem livre com a cidade, lugar para acontecimentos
e construção do social, marcando uma abertura da instituição às energias que vêm
do seu entorno; entre eles, o segundo andar do pavilhão, totalmente aberto,
materializando o gesto de suspensão da mostra e a busca por novos conteúdos e
configurações; e, por fim, publicações que sistematizarão idéias e trabalhos
desenvolvidos.


Com exceção do segundo andar, todos os demais espaços terão trabalhos e
intervenções de artistas convidados. Portanto, haverá bastante para ver e
pensar, só que não no formato tradicional de uma exposição. Aprendemos com a
arte que tudo pode ser diferente. Questão de experimentar.


É importante que também seja percebido que a divisão dos espaços conforme
proposto pelo projeto, um intervalo entre dois campos de energia (a praça -a
intuição e os sentidos; a biblioteca -a razão organizadora), é um gesto
simbólico, radical, mas necessário ao exercício da criatividade e da imaginação.
Esse gesto toma o espaço em sua estrutura como o lugar onde as coisas são em
potência, um devir pleno e ativo, ao contrário de algo niilista, onde as coisas
deixam de ser e perdem o sentido.


É ali, no território do suposto vazio, que a intuição e a razão encontram
solo propício para fazer emergir as potências da invenção, abrindo múltiplas
possibilidades para ser cruzado. Faz um corte, suspendendo o processo voraz de
produção e consumo de representações, para problematizar o possível esgotamento
dos diversos discursos no território da instituição. O corte aqui quer aguçar a
crise da organização, do modelo, do sistema, e não recalcá-los com mais uma
exposição.


A proposta para a 28ª BSP é suspender a mecânica das sucessivas bienais desde
1951 para considerar o descompasso entre o modelo atual da mostra e a realidade
em que ela se inscreve, seja local, seja internacionalmente. Um processo de
análise da sua condição presente poderá apontar perspectivas para uma nova etapa
do seu programa diante dos desafios do século 21. O objetivo é colocar a Bienal
de São Paulo novamente ‘em vivo contato’ com a sua história, a sua cidade, os
seus pares e o seu tempo. O meu compromisso, e o do projeto, é com a instituição
e o valioso serviço que ela tem prestado à cidade, ao país e à arte
contemporânea.


Na Bienal, aprendi a história dessa arte e os princípios da minha profissão.
É por acreditar que ela, ante uma crise vocacional quase endêmica (sem espaço
aqui para explicar como e por que) e que, por ter lastro de trabalho feito e
história construída, merece o investimento na busca de novas possibilidades para
a instituição.


Afinal, se hoje temos um circuito artístico mais profissional e qualificado
que em 1951, a Bienal de São Paulo muito contribuiu para que chegássemos aqui.
Portanto, se quisermos que nossas instituições artísticas e culturais atendam
aos serviços que, acreditamos, elas devem oferecer, é nossa responsabilidade
brigar por isso.


A polêmica inicial revelou a capacidade de mobilização em torno da Bienal e o
lugar que ela ocupa no imaginário da cidade. Começamos bem.


Mas devemos abandonar, temporariamente, nossas origens intelectuais no
barroco e seu ‘horror vacuii’ e encarar o fato de que há, sim, um vazio, mas ele
não está apenas na Bienal de São Paulo.


IVO MESQUITA, curador-chefe da Pinacoteca do Estado, está curador da 28ª
Bienal de São Paulo.


* ‘Estamos entorpecidos’ (‘Esperando Godot’)’


 


SUDÃO
Folha de S. Paulo


Professora é escondida para evitar violência


‘A professora britânica Gillian Gibbons, 54 foi transferida ontem a um local
não revelado para evitar represálias da multidão que cercou aos gritos e munida
de pedras e paus a penitenciária feminina de Omdurman, em Cartum.


Ela foi condenada a 15 dias de prisão por insulto ao islã. A professora
permitiu que seus alunos de sete anos, matriculados numa escola privada
sudanesa, chamassem de Maomé um ursinho de pelúcia.


A multidão em Cartum exigia para Gibbons pena capital. Presa no domingo, ela
corria o risco de ser condenada a seis meses e a mais 40 chibatadas. Londres
quer sua imediata soltura e repatriamento.’


 


RÚSSIA
Igor Gielow


Jornais russos criticam, mas Putin mira TV


‘A hora do ‘rush’ no excelente metrô de Moscou costuma encerrar um quadro com
duas cenas. Uma pequena multidão silenciosa, com ares atarefados, seguindo de
forma ordenada para seu destino. Essa mesma horda esbarra em policiais bem ou
mau encarados com seus cães, e vendedores de jornais.


De certa forma, a imagem ajuda a entender a questão da liberdade do indivíduo
na era Putin, geralmente um tema de crítica ácida por meio de órgãos de imprensa
e entidades que monitoram direitos humanos mundo afora.


A começar pelo comportamento da multidão. ‘Não existe uma sociedade civil na
Rússia ainda. Existem espasmos, aqui e ali, mas o que temos é isso: um monte de
gente indo de um lugar para o outro’, disse o editor de reportagens
investigativas da ‘Novaya Gazeta’, Roman Schleinov, 32.


O jornal, com circulação de aproximadamente 540 mil exemplares duas vezes por
semana, é um dos mais críticos ao governo Putin. Foi criado em 1993, e há um ano
tem 49% de seu controle na mão do ex-líder soviético Mikhail Gorbatchov, embora
supostamente não haja interferência editorial.


Lá começou a trabalhar em 1999 a jornalista crítica do Kremlin Anna
Politkovskaia, cujo assassinato no ano passado virou um marco na denúncia das
condições de trabalho da imprensa na Rússia.


O Comitê de Proteção aos Jornalistas cita 42 mortes desde 1992, o terceiro
país no ranking de periculosidade para a profissão da entidade -atrás de Iraque
e Argélia. A Freedom House, entidade norte-americana especializada em medir
democracias (ao estilo ocidental) mundo afora, considera a Rússia um país ‘não
livre’ nos quesitos liberdade civil e de imprensa e direitos políticos.


Processo histórico


E o que pensa o editor do mais duro jornal de oposição? ‘Existe sim liberdade
de imprensa na Rússia. Há dificuldades fora de Moscou e São Petersburgo, nas
regiões afastadas. O problema real é outro, é que ninguém dá importância às
críticas. Se 10%, 15% da população dos grandes centros se preocupa, é muito.
Sinceramente, nenhum jornalista russo ficou chocado com a morte de Anna. Não foi
a primeira.’


Ele nega que isso seja motivo de frustração profissional: ‘Eu acredito em
processo histórico. Em um dado momento, a sociedade civil começará a aparecer.
Eu vejo isso nos pequenos e médios empresários, donos de comércios, uma hora
eles exigirão o fim da corrupção para permanecerem abertos. E aí aparecerão
políticos que os representem.’


Schleinov tem esperança em gente como Kamal, dono de um restaurante libanês
na zona sul de Moscou. ‘É muito difícil sobreviver. Antes, no tempo do Ieltsin,
eu separava mais ou menos 5% de propinas para a máfia. Agora, são 15% para
diversas agências governamentais que mantêm meu negócio aberto. Se não pago,
inventam uma inspeção sanitária, qualquer coisa, e me fecham’, diz o druso,
batizado em homenagem a Kamal Jumblatt, líder histórico desse grupo
politicamente poderoso no Líbano.


É disso que se trata a analogia dos policiais e seus cães. Se por um lado
eles são necessários num país sob ameaça de terrorismo, por outro eles lembram a
institucionalização da polícia, do Exército, dos serviços secretos como parte da
vida. ‘A era dos gângsteres efetivamente acabou’, diz Schleinov. É para o
governo que agora Kamal paga suas propinas.


TV e Exército


‘Há um mito sobre a falta de liberdade no país. A imprensa é livre, pode
criticar o quanto quiser. O que importa é que o governo tenha as maiores TVs sob
controle, porque elas são instrumentos de propaganda, e é o que interessa’,
disse à Folha, sem maiores rodeios, o analista Sergei Markov, conselheiro
informal de Putin.


Segundo ele, a tomada da rede NTV foi essencial para consolidar a estratégia
do governo para a comunicação. A NTV pertencia a um oligarca [empresário que
enriqueceu com privatizações suspeitas do Estado soviético], Vladimir Gusinsky,
e era famosa por seu programa ‘Kukly’ (‘Bonecos’), em que políticos eram
satirizados por marionetes. Até que foi a vez de Putin. Após algumas acusações
judiciais, a NTV acabou tendo seu controle comprado pela gigante estatal do gás
Gazprom em 2001.


‘Há centenas de canais, cada um vê o que quer. Mas os canais principais, e
isso acontece tanto nas redes nacionais quanto nas regionais, têm que ser do
governo. Na Rússia, a TV é mais importante do que o Exército. É um bem
estratégico’, diz Markov.


Antes, a NTV tinha uma linha editorial considerada mais independente. ‘Mas
mesmo isso é preciso ser colocado em perspectiva. Nos anos 90, as TVs tinham
antagonismos, mas serviam a interesses dos oligarcas’, lembra Schleinov.


A NTV é a terceira mais vista do país, depois dos dois canais oficiais, a ORT
e a RTR.


Mas a brutalização do cotidiano não se resume à mídia. Além de jornalistas,
foram assassinados recentemente políticos, um dos chefes do setor de regulação
bancária e houve um ataque frontal às ONGs.


No ano passado, foi passada uma lei instalando diversos mecanismos para
regular a atividade das ONGs. Como sempre no setor, havia picaretagens a serem
coibidas. Mas mesmo instituições respeitáveis como o Centro Carnegie de Moscou
passaram a ter auditores fiscais fisicamente em seus prédios, ‘lembrando’ os
seus diretores que sempre pode haver problemas com o governo.


ONGs extintas


Não há balanço, mas estima-se que as ONGs menores, que recebiam dinheiro
externo, foram extintas. Uma exceção foi o Instituto de Direitos Humanos.
‘Acontece que agora sou praticamente só eu e uns jovens esforçados que não
cobram para trabalhar’, disse seu diretor, Valentin Gefter.


Há suspeitas sobre o sistema judicial. Como disse o advogado Anton Drel, a
reportagem poderia enviar perguntas ao empresário Mikhail Khodorkovsi. ‘Mas elas
nunca chegarão a ele na cadeia na Sibéria’, disse. Homem mais rico do mundo e
com pretensões políticas, Khodorkovski ganhou a pecha de oligarca dos aliados de
Putin e teve sua empresa petrolífera, a Yukos, absorvida pelo governo. Acusado
de evasão fiscal, foi condenado a oito anos de prisão em 2005.


Não se pode dizer que o russo não goste de notícia, contudo. Como o terceiro
elemento do quadro do metrô indica, há farta oferta de informação -ainda que de
qualidade duvidosa. Uma pesquisa feita em agosto pela Fundação de Opinião
Pública com 1.500 pessoas em 44 das 85 regiões russas mostrou que 92% das
pessoas se interessam por notícia, e 43% delas pelo noticiário político (com 51%
lideram as histórias sobre tragédias e crimes).


Jornais e revistam somam 400 títulos. O maior deles é a revista mensal
‘Argumenty i Fakti’, que já teve 33 milhões de exemplares circulando nos anos
90, e hoje tem ainda respeitáveis 2,6 milhões de unidades rodadas a cada número.
Não há nada parecido com isso no Brasil. A internet ainda engatinha: embora
tenha 25% da população sob sua cobertura, o noticiário online só é acompanhado
por 8% das pessoas.


Mas a mesma pesquisa mostrou que os jornais nacionais, que com raras exceções
também saíram das mãos dos oligarcas e caíram no colo de aliados de Putin, são a
fonte de informação preferida de 30% do público. As TVs nacionais registram 90%
de preferência. ‘Elas são imbecilizantes’, sentencia Schleinov, confirmando o
pragmatismo midiático de Markov. A hora do ‘rush’, como o telejornal da noite,
ocorre todo dia útil.’


 


Filho de Politkovskaia crê que Kremlin quer resolver o caso


‘Aos 29 anos, o relações-públicas Ilia Politkovski se viu lançado do
anonimato a uma desconfortável notoriedade: ele é o filho de Anna Politkovskaia,
a jornalista investigativa que foi assassinada ao chegar em casa em outubro do
ano passado, levantando suspeitas sobre o eventual envolvimento de membros do
Exército ou do governo no caso.


Trabalhando parte do tempo em casa, parte numa empresa de marketing em
Moscou, Politkovskoi é bem menos assertivo sobre as suspeitas acerca de quem
matou sua mãe do que seria correto supor.


‘Não tenho a menor idéia de quem fez isso, quem mandou’, disse à Folha.
Contudo, ele acredita que o esclarecimento do assassinato tornou-se um ponto de
honra do governo Putin, que estaria ansioso com a repercussão internacional do
incidente.


Indagado por um repórter na Alemanha sobre a importância do assassinato,
Putin apenas disse que Politkovskaia não tinha representatividade política. Isso
gerou uma onda de críticas. ‘Para mim é bem pouco usual o fato de que não estou
recebendo pressão nenhuma. Isso pode mudar amanhã ou depois, mas é
significativo’, disse Politkovskoi por telefone.


Ele afirma que o processo, até aqui, está sendo conduzido de uma forma
correta, apesar de uma afirmação desastrada do procurador-geral da Rússia, Iuri
Tchaika, que, ao anunciar a prisão de dez suspeitos pelo crime neste ano,
sugeriu que os mandantes eram conhecidos: oligarcas como Boris Berezovksi, que
mora em Londres.


‘Não tenho indicações de que haja problemas, não até aqui’, afirmou.


Nada melhorou


A jornalista Anna Politkovskaia trabalhava no jornal ‘Novaya Gazeta’ e tinha
por especialidade contar histórias humanas de pessoas oprimidas pelo sistema
legal russo, além de ter feito uma cobertura crítica da guerra na
Tchetchênia.


‘Mamãe sabia de muitas coisas. E, de sua morte para cá, nada melhorou no
país’, afirma o filho, que também tem uma irmã, Vera.


Além das reportagens e textos, alguns explicitamente panfletários,
Politkovskaia irritou as autoridades ao agir como mediadora no ataque de
rebeldes tchetchenos a um teatro em 2003, que acabou com a morte de 129 reféns,
e foi envenenada quando se dirigia para tentar assumir o mesmo papel na tomada
da escola de Beslan (Ossétia do Norte), em 2004.


E Putin?


Ilia Politkovskoi repete o argumento que sua mãe escrevera no livro ‘A Rússia
de Putin’, uma coletânea de histórias sobre pessoas em dificuldade e sem amparo
do Estado: ‘Ele não tem estatura, a Rússia é muito grande para ele. Ele era um
apanhador de espiões, não tem visão’, afirma.


No livro, de 2004, a jornalista escrevia em sua introdução: ‘Por que é
difícil sustentar o ponto de vista róseo quando você encara a realidade da
Rússia? Porque Putin, um produto do mais tenebroso serviço de inteligência,
falhou em transcender suas origens e parar de se comportar como um
tenente-coronel da KGB soviética. Ele ainda está ocupado perseguindo seus
compatriotas amantes da liberdade.’


Paradoxalmente, será nos comunistas tão criticados por sua mãe que Ilia irá
votar no domingo. ‘Eu odeio o Partido Comunista, mas é o único modo de expressar
meu protesto contra o Rússia Unida [partido de Putin]. Então, mesmo não gostando
deles, do [líder comunista] Gennadi Ziuganov, eu vou votar’, disse Politkovski.’


 


AVIAÇÃO


Folha de S. Paulo


TAM leva a assessoria de imprensa da Gol


‘A TAM, que recém-empossou como seu novo presidente David Barioni, que até
setembro era um dos principais executivos da Gol, também desfalcou a concorrente
de sua assessoria de comunicação.


A MVL, empresa que prestava o serviço à Gol, assume a partir da semana que
vem a assessoria de imprensa da companhia aérea.


A empresa estava com a Gol desde julho de 2000, antes do início das operações
da companhia aérea, em 2001.


Ontem, Barioni, que na Gol era vice-presidente técnico, passou o dia reunido
com pilotos e comissários e usou várias vezes o termo ‘choque de gestão’ para
definir qual será a sua atuação na TAM a partir de agora. O executivo pediu o
cancelamento do contrato de consultorias que prestavam serviço à companhia
aérea.’


 


MÍDIA E VIOLÊNCIA
Carlos Eduardo Lins da Silva


Compilação discute como o jornalismo diário trata a violência


‘Poucos temas na literatura científica a respeito dos meios de comunicação de
massa foram tão explorados como o da sua relação com a violência.


Nos países ricos, onde a pesquisa sobre esses temas é mais avançada, a
motivação principal sempre foi tentar comprovar vínculos entre a mídia e o
comportamento agressivo de boa parte de sua sociedade.


Infelizmente, para os que gostariam de utilizar a TV, o cinema, o rádio, as
revistas e os jornais como conveniente bode expiatório de males muito mais
complexos, nunca se conseguiu demonstrar causalidade entre conteúdo violento nos
veículos de comunicação e atos de violência praticados por indivíduos que o
consumissem.


Em nações da periferia do capitalismo, como o Brasil, também é comum tentar
atribuir à mídia algum tipo de responsabilidade pelos seus próprios problemas
com a violência, tais como altos índices de criminalidade urbana e sentimento
generalizado de insegurança pública.


Ora imputa-se aos meios de comunicação de massa o vício de exagerar os fatos
com uma cobertura sensacionalista, ora de tratar do tema superficialmente sem
perseguir as verdadeiras raízes dos males; às vezes eles são acusados de
glamourizar o crime e, assim, torná-lo mais atraente, às vezes de defender
soluções cruéis e desumanas para combatê-lo.


Infelizmente, como nestes países os recursos para a pesquisa científica são
escassos, em geral essas presunções generalizam-se entre vastas audiências de
acordo com suas preferências ideológicas sem que sejam corroboradas por
evidências empíricas.


Análise e entrevistas


Neste sentido, é bem-vinda a edição de ‘Mídia e Violência’, compilação de um
trabalho de análise de conteúdo de jornais diários e de dezenas de entrevistas
com jornalistas e especialistas em segurança pública feito pelo Centro de
Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes.


Não chega a ser um projeto de grande fôlego acadêmico. Limita-se ao universo
do jornalismo diário, não se aprofunda em explorar eventuais relações de causa e
efeito, não faz pesquisa de campo.


Mas é um raro esforço de ao menos sistematizar o conhecimento acumulado sobre
o assunto, analisar com um pouco de calma a produção jornalística do passado
recente e do presente, propor sugestões para que ela melhore de qualidade.


Parece haver um consenso de que a cobertura dos temas associados à violência,
criminalidade e segurança pública na imprensa brasileira tem melhorado ao longo
das últimas décadas. É muito provável que sim.


Mas para essa afirmação poder ser feita com mais segurança, é necessário
tentar estabelecer parâmetros minimamente objetivos e embasados em critérios de
alguma forma validados com rigor científico. ‘Mídia e Violência’ não chega a
tanto. Afirma que a maioria dos jornais e emissoras de TV vem se valendo menos
de ‘recursos sensacionalistas e noções apelativas’, sem, no entanto, constatar
esse fenômeno de modo definitivo (com alguma comparação história quantitativa,
por exemplo).


A própria correlação entre sensacionalismo e má qualidade é discutível.
Alguns jornais tablóides britânicos, por exemplo, são sensacionalistas e
excelentes em termos de técnica jornalística. Pode-se achar que eles são de mau
gosto, mas gosto não se discute.


O livro considera o fechamento do jornal ‘Notícias Populares’ um ‘fator
emblemático dessa tendência’ [de melhor qualidade], embora seja muito mais
provável que o ‘NP’ (ele próprio em algumas épocas um bom jornal do seu gênero)
tenha fechado porque fatores socioeconômicos reduziram muito a demanda pública
por esse tipo de imprensa.


Independentemente de eventuais discordâncias pontuais, há em ‘Mídia e
Violência’ material rico para debates muito úteis sobre jornalismo e
criminalidade no Brasil e seu maior mérito é estimular tal discussão.


CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA é livre-docente e doutor em jornalismo pela USP
e mestre em comunicação pela Universidade do Estado de Michigan (EUA). É autor,
entre outros livros, de ‘Mil Dias – Seis Mil Dias Depois’ (Publifolha).


MÍDIA E VIOLÊNCIA – NOVAS TENDÊNCIAS NA COBERTURA DE CRIMINALIDADE E
SEGURANÇA NO BRASIL


Autoras: Silvia Ramos e Anabela Paiva


Edição: Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC)


Informações: O livro é distribuído gratuitamente para pesquisadores e
instituições ligadas ao tema.


Informações podem ser obtidas pelo tel. 0/xx/21/ 2531-2033 ou através do site
www.ucamsesec.com.br


Avaliação: bom’


 


LITERATURA
Sylvia Colombo


Festa de Paraty tem novo diretor


‘A Festa Literária Internacional de Paraty terá um novo diretor de
programação para sua sexta edição, em 2008 (ainda sem as datas definidas).


Trata-se do jornalista Flávio Moura, em substituição a Cassiano Elek Machado,
que organizou a Flip deste ano. Moura é editor da revista do Cebrap (Centro
Brasileiro de Análise e Planejamento) e fez parte da equipe de editorialistas da
Folha entre 2005 e 2006.


Ele será o quarto diretor da festa. As duas primeiras foram organizadas pelo
jornalista Flávio Pinheiro, as duas seguintes pela editora Ruth Lanna e a mais
recente, por Machado.


‘Achei bacana o convite e quero manter o alto nível das Flips dos anos
anteriores’, diz Moura. Um dos objetivos para o próximo ano, adianta, será o de
abrir o leque de convidados de outros países, uma vez que, tradicionalmente, há
uma predominância de escritores britânicos e norte-americanos.


Na edição passada, essa tendência já havia se revelado, com a participação de
vários latino-americanos, como os mexicanos Ignacio Padilla e Guillermo Arriaga
e os argentinos Alan Pauls e Rodrigo Fresán.


O desafio de Moura não será pequeno, uma vez que a lista de grandes nomes
internacionais que ainda não participaram da festa está diminuindo. Em 2003, os
destaques foram Eric Hobsbawm e Don DeLillo. Em 2004, Ian McEwan e Martin Amis;
2005 teve Salman Rushdie e Orhan Pamuk; 2006, Christopher Hitchens e Lillian
Ross, enquanto 2007 trouxe o badalado Nobel J.M. Coetzee.


Entre os que são sempre cogitados, mas ainda não vieram, estão o americano
Philip Roth e o italiano Umberto Eco.


Organizada pela Associação Casa Azul, a Flip tem orçamento anual médio de R$
3 milhões. Ainda assim, na edição deste ano, foi anunciado que o evento terminou
no vermelho, devendo entre R$ 60 mil e R$ 70 mil.’


 


Leandro Beguoci


Obra sobre papa peca por exageros


‘A editora Planeta lança no Brasil ‘O Poder e a Glória’, espécie de biografia
não-autorizada do pontificado de João Paulo 2º, e reacende a discussão sobre o
lado obscuro do Vaticano. Como dizia Antônio Vieira em 1655, no ‘Sermão da
Sexagésima’: ‘Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são
necessárias obras. A nossa alma rende-se muito mais pelos olhos do que pelos
ouvidos’.


É dessa fórmula que o autor, o jornalista inglês (e católico) David Yallop,
70, tenta se valer -basta que se troque ‘obras’ por ‘informações’. Ele pesquisou
durante 17 anos arquivos da CIA, do Vaticano e do governo dos EUA para mostrar
como a Igreja Católica protegeu pedófilos e deu apoio a ditadores durante os 27
anos do pontificado de João Paulo 2º – aclamado santo após a morte.


As 597 páginas do livro relatam o empenho do papa polonês, junto com o
presidente dos EUA, Ronald Reagan, para isolar e enfraquecer a União Soviética.
Questiona a falta de apoio aos religiosos de esquerda, como o arcebispo de San
Salvador, d. Oscar Romero – referência na defesa dos direitos humanos, foi
assassinado por milícias de extrema-direita durante a missa.


Levanta os principais casos de pedofilia que atingiram padres e bispos da
igreja nos anos 90 e como o Vaticano deu respostas insatisfatórias e vagas às
vítimas e, ao mesmo tempo, não puniu os agressores.


‘Estou convencido de que o papa foi corrupto’, diz o autor.


‘Por omissão, por aliança com o poder secular não em nome de Cristo, mas de
seus interesses políticos, por não punir os agressores de crianças e os
violadores dos direitos humanos, os violadores das crianças.’


Yallop acumula polêmicas com a igreja. Os católicos se organizam para buscar
inconsistências em sua obra desde 1984, quando lançou o livro ‘Em nome de Deus’
-mais de 6 milhões de cópias vendidas-, onde defende a tese de que João Paulo 1º
foi assassinado porque deu sinais de que iria investigar o Banco do Vaticano.


A teoria conspiratória aparece no filme ‘O Poderoso Chefão 3’, de 1990. O
Vaticano diz que o ‘papa sorriso’ sofreu um infarto. Todo caso, nos anos 80,
João Paulo 2º fez uma revisão completa nas finanças da igreja -em 1988, foi
publicado pela primeira vez o balanço financeiro da Santa Sé.


Lançado da Europa em 2006, ‘O Poder e a Glória’ é um libelo de acusação
contra o pontificado. Em alguns momentos, avança tanto nas hipóteses, como no
caso da morte de João Paulo 1º, que lembra ficções como ‘O Código Da Vinci’.


Também falta informação. O capítulo sobre a teologia da libertação é
raquítico diante das polêmicas que essa corrente produziu. O Brasil, onde ela
ganhou força ao defender o ativismo da igreja contra as mazelas sociais, é
resumido às desavenças de Leonardo Boff com o Vaticano. Não explora como essa
corrente foi usada pelo PT, e a vitimiza, nem aborda como a ascensão de seus
expoentes foi congelada pelo Vaticano: d. Ivo Lorscheiter não foi arcebispo. Seu
principal papel é abrir o ‘saco de maldades’ da igreja.


Mas não é a biografia definitiva de um papa que reconheceu, por exemplo, as
falhas da igreja na colonização da América e defendeu os judeus. Falta um livro
que não seja nem a biografia de um santo nem o texto de um promotor de justiça.


O PODER E A GLÓRIA


Autor: David Yallop


Editora: Planeta


Quanto: R$ 54,90 (597 págs.)


Avaliação: regular’


 


Manuel da Costa Pinto


Ensaios ficcionais sobre a cegueira


‘TENDO COMO personagens três grandes escritores do século 20 -James Joyce,
Jorge Luis Borges e João Cabral de Melo Neto-, ‘Histórias de Literatura e
Cegueira’, de Julián Fuks, lança mão de um procedimento consagrado pelo romance
pós-moderno: as contaminações entre fato e ficção, biografia e invenção. O
resultado, porém, está bem distante de um tipo de prosa experimental que, nos
anos 60 e 70, pretendia sepultar o romance de corte mais realista, regido por
princípios de causalidade e verossimilhança.


Não é mera coincidência que o texto de orelha seja assinado por Silviano
Santiago, que nos livros ‘Em Liberdade’ e ‘Viagem ao México’ se apropriou,
respectivamente, das biografias de Graciliano Ramos e Antonin Artaud para criar
labirintos metalingüísticos.


No caso dos ficcionistas pós-modernos (dentre os quais Santiago), a narrativa
é uma espécie de ‘trompe l’oeil’: como nas pinturas que simulavam portas ou
janelas sobre as paredes dos palácios barrocos, o dado real se confunde com
eventos fictícios, num triunfo da ilusão.


Com Fuks, não há esse cancelamento de fronteiras. Em sua opção temática -a
vida de três autores marcados pela cegueira-, a tópica do olhar aparece não como
metáfora relativista, mas como ponto de inflexão das trajetórias criativas.
Tanto é assim que as fontes das referências biográficas e citações vêm
relacionadas no final, como a sugerir que o autor nada acrescentou àquilo que já
se conhecia de Joyce, Borges e Cabral, que não pretende turvar a vista do leitor
ou criar armadilhas.


Vem daí a força desse livro que opera por condensações e deslocamentos: sua
suposta fidelidade aos fatos se impõe à estrutura do romance, explicitando a
intencionalidade de quem os seleciona. Ao fazê-lo, Fuks desliza do ensaio para a
ficção, mostrando que o modo de articular acontecimentos é algo tão fundamental
para a prosa literária quanto a imaginação ou o trabalho com a linguagem.


Borges sonhando nos corredores da Biblioteca Nacional (‘magnífica ironia’ de
um Deus que lhe deu ‘a um só tempo os livros e a noite’); João Cabral recluso no
silêncio e no sono, incapaz de escrever após a perda da visão (ou fazendo, ao
final da vida, essa profissão de fé: ‘poema é coisa de ver/ é coisa sobre um
espaço’); Joyce compondo epifanias para revelar a essência das coisas triviais
que seus olhos podres mal percebem.


Dispostos nessa ordem, os três capítulos fazem da cegueira o epicentro de
mitologias pessoais que vão sendo recolhidas em sutis paráfrases estilísticas.
Poderiam ser lidos como contos independentes, mas os vestígios que uma narrativa
deixa na outra mostram como todo escritor elege um ponto de fuga de onde
contempla as coisas. Nesse caso, por ‘magnífica ironia’, uma visão da literatura
proporcionada pela cegueira.


HISTÓRIAS DE LITERATURA E CEGUEIRA


Autor: Julián Fuks


Editora: Record


Quanto: R$ 30 (162 págs.)


Avaliação: ótimo’


 


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