Terça-feira, 17 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº995
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 5 E 6/7

Folha de S. Paulo

08/07/2008 na edição 493

ECONOMIST
Clóvis Rossi

A cúpula dos impotentes

‘TÓQUIO – A capa da revista ‘The Economist’ desta semana aproveita a cúpula do G8 a iniciar-se amanhã no Japão para discutir ‘quem dirige o mundo’. Com a habitual competência, decreta que o G8 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e Rússia) ‘parece velho e impotente’ (a melhor tradução para ‘old’ seria antiquado, não velho, que não é defeito, pelo menos não aos olhos de quem o é, claro).

Acrescenta que não é o único grupo com essas desagradáveis características. Passa em seguida a perguntar se seria melhor reduzir o G8 a um G4, abrigando as superpotências econômicas (EUA, União Européia, China e Japão). Outra hipótese, inversa, seria ampliá-lo para 12, com a incorporação da indefectível China mais Índia, Brasil e Espanha.

Nada contra a constatação de que todos os sete donos do mundo se tornaram impotentes (a Rússia está no G8 menos por sua força real e mais como prêmio por ter trocado o comunismo por um desvairado capitalismo). Mas falta dizer que impotentes estão quase todos os governos do planeta, sobrepujados pela avassaladora força dos mercados, em especial os financeiros.

As evidências são muitas, mas fico apenas no âmbito do G8: na cúpula anterior, na Alemanha, a chanceler Angela Merkel queria extrair de seus pares algum tipo de regulação dos mercados financeiros para tentar controlar o cassino. Não conseguiu. Foi antes da crise das hipotecas ‘subprime’, que revelou um formidável déficit de regulação. E antes da disparada mais aguda dos preços do petróleo e dos alimentos, para a qual contribui uma boa dose de especulação nos mercados futuros.

Nem assim a proposta alemã de 2007 voltou à mesa em 2008. Do que se conclui que os países do G8 são impotentes não em relação a outros países, mas em relação a um ente interno a cada um deles, mas de atuação global, os tais mercados.’

 

 

GOVERNO
Kennedy Alencar

Lula enquadra ‘midiáticos’ Temporão e Minc

‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que melhore o atendimento aos prefeitos. E determinou que o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) avise os governadores com antecedência quando realizar alguma operação de grande repercussão pública em seus Estados.

As determinações de Lula foram transmitidas por um emissário que conversou recentemente com os dois a fim de enquadrá-los em assuntos específicos, mas também para tranquilizá-los em relação ao desempenho deles em geral.

Temporão e Minc são considerados no Palácio do Planalto os ministros ‘mais midiáticos’ devido ao efeito público de ações de suas pastas e de brigas políticas que compram.

O ministro da Saúde, por exemplo, recebeu mensagem para não se importar com o processo de fritura estimulado pelo partido ao qual pertence, o PMDB. O Planalto avalia que congressistas peemedebistas querem derrubar Temporão porque ele se recusou a dar as áreas financeiras de hospitais federais, sobretudo no Rio, à cúpula do partido.

Ou seja: para Lula, Temporão é fritado pelo PMDB pelas suas qualidades. O presidente tem considerado exagerado o apetite peemedebista por cargos e verbas. Lula disse a auxiliares que pretende encerrar o segundo mandato com Temporão no posto. O Planalto identificou o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) como o articulador da fritura de Temporão.

Reservadamente, Cunha tem dito à cúpula do PMDB que vai conseguir derrubar Temporão até o final do ano. Lula duvida. Até mesmo as brigas políticas que Temporão compra e que incomodam a Igreja Católica e setores conservadores, como a defesa do aborto e uso de camisinhas, agradam ao Planalto.

Numa administração vista como conservadora na economia e na política, Temporão traz um selo progressista e de esquerda que ajuda Lula e o PT a defender o governo perante um público tradicional do partido. Para Lula, Temporão está certo ao atuar politicamente. Quando exagera aos olhos do Planalto, como na visita do papa Bento 16 em 2007, quando o ministro manteve acesa a polêmica sobre o aborto, o presidente intervém e ponto.

Em relação aos prefeitos, Lula deseja que Temporão avalie se as verbas e os projetos federais têm chegado com eficiência às cidades, pois ouviu reclamações em viagens pelo país.

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), levou ao Planalto na terça uma queixa contra Minc, que anunciara naquele dia multa de R$ 120 milhões a usineiros do Estado. Minc julgou ‘imoral’ acordo entre o Estado e usineiros assinado por Campos.

Um emissário de Lula telefonou para Minc. O presidente determinou que o ministro passe a avisar os governadores quando fizer alguma operação de peso -uso da Polícia Federal e do Ibama, por exemplo.

Lula avalia que Minc poderia se desgastar sem necessidade. Apesar da queixa de Campos e da ordem presidencial, Minc ouviu que o governo está satisfeito em geral. Nas palavras de um ministro, o colega tem ação ‘proativa’, e não ‘defensiva’.’

 

 

CHINA
Associated Press

Governo da China admite que imagem de tigre raro na mata foi montagem

‘Em tempos de máquinas fotográficas digitais e programas sofisticados de retoque de imagens, tudo é possível. Uma fotografia do tigre-da-China, divulgada em outubro passado pelo governo chinês como prova de que a espécie não se extinguira, era uma farsa. Não passava de um pôster de papelão colocado no meio das árvores das florestas do sul do país.

A confirmação da falsificação ocorreu nesta semana. O governo da China prendeu o fazendeiro Zhou Zhenglong, 54, que divulgou as imagens na época -e que até havia ganho um prêmio de quase US$ 3.000 no ano passado. Outras 12 pessoas do governo local estão envolvidas.

Desde outubro, muitas denúncias haviam sido feitas dizendo que a imagem era falsa. O intuito da operação, segundo a pressão popular feita pela internet, era aumentar o turismo na região.’

 

 

APAGÃO
Denyse Godoy e Julio Wiziack

Telefônica promete ressarcir os clientes; falhas persistem

‘A Telefônica afirmou que pretende ressarcir os assinantes do Speedy pelo apagão da internet e de sistemas de transmissão de dados ocorrido no Estado de São Paulo na quinta-feira. Embora a companhia tenha dito que a pane havia sido completamente solucionada por volta das 23h de quinta, usuários ainda sofriam com o problema ontem.

Segundo a Abranet (Associação Brasileira de Provedores de Internet), boa parte do serviço tinha retornado até o fechamento desta edição, mas muitos provedores ainda enfrentavam dificuldades, deixando empresas e clientes residenciais do Speedy sem acesso. ‘À tarde, aumentaram as reclamações sobre lentidão no sistema, no interior e na cidade de São Paulo’, disse Eduardo Parajo, presidente da Abranet. O governo estadual informou que seu sistema estava normalizado desde o início do expediente.

‘A gente não pode e não vai cobrar um serviço que não foi prestado, mesmo que por ação involuntária. Indenizaremos todos os clientes Speedy. Ainda estudamos com o Procon [Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor] a forma de ressarcimento’, disse Antônio Carlos Valente, presidente da Telefônica.

Valente levou uma proposta de reparação para representantes de órgãos de defesa do consumidor, com quem se reuniu na tarde de ontem. Ofereceu, para os assinantes do Speedy, um reembolso um pouco maior que o valor pago pelo período em que o serviço ficou fora do ar, o qual não foi aceito por seus interlocutores. ‘Os prejuízos sofridos pelos clientes foram muito superiores à impossibilidade de usar a internet no período. Temos esperança de que haverá desconto de um valor significativo nas mensalidades’, diz Karina Grou, advogada do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor). Esse valor pode ser o correspondente a 72 horas de serviço.

As entidades também querem a abertura de um canal especial de atendimento para os assinantes que tiverem documentos comprovando perdas maiores.

Já quem não é cliente da Telefônica, mas também sofreu com a paralisação de bancos e órgãos públicos, terá as suas reclamações ouvidas pela operadora, segundo o Procon. Além disso, a empresa pode fazer um depósito a título de indenização coletiva a um fundo de interesses difusos, cujos recursos, administrados pelo poder público, vão para projetos de interesse da sociedade.

As negociações continuam na segunda-feira. Se o consumidor não ficar satisfeito com a proposta final da Telefônica, ainda poderá entrar na Justiça.

No dia 7, a companhia também começa a conversar com seus 900 maiores clientes corporativos, com quem ela mantém contratos prevendo multas em caso de falhas e interrupção do serviço.’

 

 

***

Pelo menos 3.500 grandes empresas ficaram fora do ar

‘Uma falha em um dos roteadores da rede de dados da Telefônica na cidade de Sorocaba, a 100 km da capital paulista, provocou o apagão da rede de dados da operadora, que responde por 68% dos acessos à internet em todo o Estado.

O equipamento é responsável pela conexão dos computadores e outros dispositivos existentes em residências e empresas às centrais de acesso da operadora. O presidente da Telefônica, Antonio Carlos Valente, negou-se a revelar o nome do fabricante do roteador.

A americana Cisco, que responde por cerca de 80% dos equipamentos da rede da operadora, adiantou-se em afirmar, por meio de comunicado, que seus equipamentos não provocaram a pane.

Wladimir Barbieri, vice-presidente de Empresas da Telefônica, informa que a falha ocorreu por volta das 11h de quarta-feira. O roteador teria ‘entendido’ que ‘acessos fantasmas’ à rede eram ‘reais’. ‘Seu software de segurança deveria ter detectado a falha’, diz Barbieri. Ainda segundo ele, essa informação ‘errada’ foi repassada pelo roteador para os demais elos da rede. ‘A segurança de todos os equipamentos da rede falhou e não sabemos por quê.’

Como a rede da Telefônica utiliza roteadores de diversos fabricantes, estuda-se a possibilidade de uma rara incompatibilidade entre eles, algo que teria provocado a queda da comunicação. Também pode ter havido um erro na leitura dos códigos de programação do software desses aparelhos na hora da atualização dos dados, um procedimento que ocorre ininterruptamente.

Segundo Valente, toda vez que um dado (uma transação bancária ou um pedido de acesso a uma página da internet) é solicitado pelo cliente, essa informação é quebrada em pedaços pelos roteadores e direcionada ao endereço final. Só na ponta final ela é remontada.

Com a pane, essas informações não se juntaram na ponta. Por isso, a maior parte dos clientes ficou desconectada. Segundo Barbieri, pelo menos 3.500 grandes empresas, de um universo de 7.000 no Estado, estiveram nesse grupo até as 23h da quinta-feira, quando o problema foi resolvido, de acordo com a Telefônica.

Autoridades municipais, estaduais e federais foram comunicadas pessoalmente pelo presidente da Telefônica.

‘Só não falei com o presidente Lula, mas estabeleci contato com a Presidência [da República]’, disse Valente.

Grandes empresas, com quem a Telefônica mantém contratos que prevêem multas caso o serviço seja interrompido, também foram avisadas.

Até o fechamento desta edição, empresas de pequeno e médio portes, além de assinantes residenciais do Speedy, ainda reclamavam da rede.

Pelos danos causados, Valente decidiu indenizar todos os 2,4 milhões de assinantes do Speedy, ainda que as investigações para apurar de quem é a responsabilidade pelo apagão estejam em curso. A proposta foi protocolada durante reunião do Procon-SP.

Roteador do apagão

O equipamento responsável pela pane da Telefônica está lacrado e isolado no CPQD, um centro de pesquisa em telecomunicações credenciado pela Anatel para fazer, por exemplo, a homologação de aparelhos celulares. ‘Eles estão fazendo uma perícia’, afirmou Valente.

Os técnicos do instituto terão, no máximo, dez dias para concluir a auditoria. Só depois a Anatel poderá decidir o valor da multa à Telefônica. Existe a chance de que o fabricante do roteador também seja responsabilizado. Valente afirmou que a multa não chegará ao máximo de R$ 50 milhões.

O que chama a atenção dos especialistas em telecomunicações é o fato de que a rede de segurança da Telefônica, apelidada de ‘redundante’, não funcionou. De acordo com eles, o caso é único na história. Outras operadoras tiveram panes similares, mas nunca nessa proporção.

‘Várias podem ser as causas, mas não acredito em sabotagem do sistema’, diz Cláudio Assunção, diretor da MultiRede, empresa que, há uma década, foi contratada pelo governo para solucionar o primeiro apagão da internet no país.’

 

 

***

Pane prejudicou os negócios, dizem pequenos empresários

‘A pane de internet causada pela falha na rede da Telefônica atingiu especialmente as redes públicas e de grandes empresas, segundo informações da operadora. Entretanto, pequenos empresários também reclamam de prejuízos causados pela falta de conexão à internet.

Leandro Böcskei, de São Paulo, afirma que perdeu uma venda de R$ 120 mil por não poder entrar na internet. Ele negociava a venda de máquinas operatrizes para um cliente do Rio Grande do Sul, mas não pôde enviar fotos e outras informações sobre o produto para fechar o negócio.

‘Como não tive como passar por e-mail mais fotos e outros detalhes exigidos pelo cliente, ele cancelou o pedido, que já estava em minhas mãos’, diz, em relato enviado à Folha Online.

Já Fernando Martins, da Mathel Representações, de Campinas, teve o contato com seus clientes prejudicado pelas falhas na conexão, entre a noite de quarta-feira e a manhã de ontem. ‘Isso gerou atraso no envio de e-mails importantíssimos para clientes e cadastramento de pedidos urgentes que só consigo fazer via internet.’

Comerciantes afirmam que o problema prejudica a imagem de suas empresas perante os clientes. ‘Os internautas fora da área do apagão nos enviavam e-mails reclamando da não atualização do status do pedido [se estava pago ou não] no site’, conta Marcio Waldman, que tem uma empresa de venda on-line de produtos para animais. Ele diz que o problema durou toda a quinta-feira, impedindo que os pedidos fossem atualizados.

Na Jet Clothes Aviation Wear, loja virtual de produtos relacionados à aviação, as atividades também ficaram paralisados na quinta-feira.

‘Ficamos em nossa empresa sem o menor acesso à internet. Nossos servidores ficam em outro provedor, mas não tivemos o menor acesso por todo o dia’, conta Sergio Luiz de Souza Junior.

Sem entregas

A empresa Chuang Cogumelo, da região de Mogi das Cruzes, que distribui cogumelo e shitake, também diz que perdeu entregas para grandes supermercados, como Carrefour e Wal-Mart, por não conseguir receber os pedidos. As operações foram suspensas.

Segundo o Procon, o consumidor que se sentiu lesado com a interrupção dos serviços oferecidos pela Telefônica tem direito a ser reembolsado.

Se o cliente considerar que sofreu danos pode procurar o Poder Judiciário e instaurar um processo. Se o valor reivindicado estiver abaixo de 40 salários mínimos, o processo deve ser encaminhado a um tribunal de pequenas causas.’

 

 

HOSPITAL
João Carlos Magalhães

Sobe para 30 o nº de bebês mortos em Santa Casa do PA

‘Outros seis bebês morreram, nesta semana, na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) da Santa Casa de Belém (PA). Com isso, o total de mortes desde o dia 20 de junho sobe para 30.

‘Foram recém-nascidos, não houve nenhum natimorto nesta semana’, afirmou Silvia Cumaru, presidente interina da instituição. ‘Mas está dentro da nossa média mensal, cerca de um por dia ou um a cada dois dias.’ Ela não soube precisar em quais dias da semana cada uma das crianças morreu.

No hospital estadual, morreram ao menos 24 bebês entre os dias 20 e 27 de junho. Segundo o governo, médicos que trabalham na maternidade e o Ministério Público, a superlotação foi uma das causas dos óbitos ocorridos nas última semanas.

Reunião com prefeitos

Prefeitos de dez municípios da região metropolitana de Belém se reuniram ontem com integrantes da Secretaria Estadual da Saúde para discutir maneiras de reduzir o número de gestantes que o local recebe.

A idéia discutida com os prefeitos foi a de como fazer com que as grávidas que chegam do interior do Estado tenham um atendimento inicial em alguma unidade de saúde dos municípios de onde vêm.

Assim, seriam evitados casos que podem ser tratados em seus locais de origem, evitando envio automático à Santa Casa. Em situações mais graves, seria feito um pré-atendimento.

Como a Santa Casa tem o maior setor de neonatologia do Estado, boa parte de suas pacientes vem de fora de Belém.

Após a reunião, ficou acertada a compra de duas ambulâncias, que ficariam na capital do Estado mas circulariam nas cidades próximas para poder buscar pacientes.

Foi também discutida a criação de cursos para o aperfeiçoamento de profissionais de saúde, como enfermeiros, que seriam treinados para dar assistência básica a recém-nascidos mesmo sem serem médicos neonatologistas, uma vez que falta mão-de-obra especializada no Pará. O dinheiro deve vir de uma parceria do governo com o Ministério da Saúde.’

 

 

***

Reportagem é retirada à força de dentro de hospital

‘A reportagem da Folha foi imobilizada e retirada à força ontem da sala de espera da maternidade da Santa Casa de Belém, quando entrevistava a cunhada de uma mulher cujo filho recém-nascido está na UTI.

Não há regra na Santa Casa que impeça a entrada da imprensa, mas sim uma recomendação, criada depois das mortes de bebês no local, para que os jornalistas busquem a assessoria antes de entrar. Isso não foi passado aos jornalistas.

Em nenhum momento foi pedida nenhuma identificação à reportagem, que entrou na maternidade como já havia feito duas vezes antes, na semana passada.

Ontem, quando o repórter conversava com a mulher, um segurança de empresa privada que faz a guarda do hospital disse que ele deveria ir embora.

Diante da negativa do repórter, o segurança chamou dois colegas. Um deles aplicou uma chave de braço no repórter, outro o segurou pelo braço e o terceiro o empurrou pelas costas.

Imobilizado, o repórter foi arrastado até o portão da Santa Casa. Os três esconderam seus crachás para não serem identificados. O governo estadual, por meio da assessoria, pediu desculpas e qualificou o episódio de ‘absurdo’.’

 

 

LITERATURA
Marcos Strecker

Ler ou não ler?

‘A idéia é provocativa e francamente irritante para muitos, especialmente em um evento como a Festa Literária Internacional de Paraty. Mas é justamente propondo a ‘dessacralização’ da leitura no bem-humorado antimanual ‘Como Falar de Livros que Não Lemos?’

(Objetiva) que o psicanalista francês Pierre Bayard se apresenta amanhã, quando debate com o colunista da Folha Marcelo Coelho na mesa ‘Os Livros que Não Lemos’.

Em entrevista, o professor de literatura francesa na Universidade de Paris-8 diz que seu livro foi muito bem recebido nos EUA, mas não no Reino Unido.

‘O problema é que lá as pessoas levaram ao pé da letra.’ Afirma que procurou fazer uma obra divertida sobre a consciência pesada dos não-leitores e que houve muitos mal-entendidos quando o livro foi lançado.

‘Mas eles acabaram levando ao seu sucesso’, diz, sorrindo.

FOLHA – As pessoas devem ter vergonha de não ler alguns livros?

PIERRE BAYARD – Eu tento mostrar que as pessoas não devem ter vergonha. Tento ‘desculpabilizar’ o leitor, mostrando que freqüentemente os intelectuais, em especial os professores, tentam transmitir a imagem do livro como um objeto sagrado. Os grandes leitores sabem que há muitos livros bons que nunca leram. E, mesmo alguns livros que são importantes, o que significa não ter lido?

Sempre dividimos as obras nas categorias lidas e não-lidas. Para os intelectuais, sobretudo, há um espaço intermediário, o dos livros com os quais vivemos. Às vezes nós apenas folheamos, outras vezes apenas começamos, outras vezes somente ouvimos falar ou lemos críticas sobre eles. Podemos até ter lido da primeira à última linha, mas há muito tempo, e já os esquecemos. Mostro como substituímos as obras por livros imaginários.

FOLHA – Não é necessário ler todo o livro para compreendê-lo?

BAYARD – Tento tirar do discurso sobre os livros tudo o que significa ‘é necessário’ ou ‘se deve’. Acho que há muitos itinerários possíveis. Claro que há o mais habitual, de ler da primeira à última linha. Mas há outras formas. Podemos apenas folhear ou ler até uma certa altura. Pode não ser o bom momento para lê-los. Assim como há várias maneiras de conhecer uma pessoa.

FOLHA – Os seus argumentos são de um professor ou de um psicanalista?

BAYARD – Naturalmente, há uma dimensão psicanalítica, já que a questão inicial da psicanálise é a de liberar o paciente da culpa. Mas também é um livro de professor. Percebi, na prática, que os alunos tendiam a considerar o livro como um objeto religioso. Tendiam a ler da primeira à última linha sem se dar a liberdade de percorrer a obra. Meu livro é sobretudo para os grandes leitores. Houve uma certa confusão, porque alguns jornalistas consideraram que eu queria dissuadir as pessoas da leitura. Mas sou um grande leitor, precisei ler muitas obras para poder escrever meu livro. O grande leitor é uma pessoa livre em relação aos livros.

FOLHA – Já que estamos em uma festa literária e o sr. diz que é um grande leitor, o sr. leu os livros dos outros autores?

BAYARD – Há alguns autores de quem eu realmente li os livros. Da psicanalista Elisabeth Roudinesco, por exemplo, eu já li muito. Há autores cujas obras me interessam, mas que não comecei realmente a ler. De Alessandro Baricco, por exemplo, eu comecei a refletir sobre os seus livros.

FOLHA – O sr. leu Baricco?

BAYARD – Sim… Bem, não… É complicado [risos].

FOLHA – O sr. está no Brasil, país com baixo índice de leitura. Uma obra como a sua, quando diz que não é necessário ler um livro, não pode ser considerada antipedagógica?

BAYARD – Mas eu acho que é necessário ler! Apenas acho que não conseguimos atrair as pessoas para a leitura se as fazemos ter medo de ler. Precisamos ensinar o prazer da leitura, que consiste em escolher os livros que são bons para você mesmo. Isso é muito difícil. E não eleger alguns livros que as pessoas sejam obrigadas a ler.

No meu livro, por exemplo, eu digo que nunca acabei de ler ‘Ulisses’, de James Joyce. Isso é um escândalo para um intelectual. Não é que não seja um livro bom para mim. Talvez não o seja neste momento.

FOLHA – A internet é um bom meio de formar leitores ou é o contrário?

BAYARD – É um instrumento formidável. Mas há um risco de apenas se ‘passar os olhos’ em tudo. Por outro lado, vejo muitos alunos que entram na biblioteca, selecionam alguns livros e tratam de lê-los da primeira à última linha.

Quantos livros vão acabar lendo em suas vidas?’

 

 

TELEVISÃO
Lúcia Valentim Rodrigues

‘NCIS’ sobrevive à base de vingança e dúvidas morais

‘Como um náufrago voluntário que decide se isolar para rever seus pecados do passado, o agente especial Jethro Gibbs (Mark Harmon) pede aposentadoria no último episódio da terceira temporada de ‘NCIS’.

Ninguém tem dúvidas de que ele volta -afinal, disso depende a continuidade da série. Só seus parceiros da agência de inteligência, responsável por investigar crimes envolvendo militares, crêem no afastamento dele. Mas o que mais ele poderia fazer? Viver como um fantasma, como seu antigo parceiro?

A princípio, ele reluta e volta ao antigo posto. Mas, como um vício, assim que assume um caso, a força do hábito o engole para uma missão atrás da outra.

Barbudo e com cabelo desgrenhado na estréia, no segundo episódio aparece só de bigode. Para logo em seguida, raspar tudo e voltar a seu humor irascível habitual. É um detalhe, mas que significa muito na vida do circunspecto chefe. Um rápido resumo: na primeira temporada, o detetive foi retratado como um bon vivant, envolvido com uma mulher misteriosa, embora linha-dura com seus funcionários.

Essa figura foi sendo acinzentada e entristecida no ano seguinte, quando sua principal agente é assassinada por um terrorista. A vingança passa a ser seu principal objetivo, e o herói é posto à prova na terceira (e melhor) temporada.

No quarto ano, que sai agora em DVD, Gibbs se esquece totalmente de sua parceira morta, para sofrer somente por sua família, também aniquilada em um passado mais distante. O foco, agora, são as questões éticas, que já tinham aparecido em anos anteriores com menos vigor. Um dos membros da equipe protege sua irmã em um crime; outra é acusada de conspiração e assassinato; o possível substituto de Gibbs começa a trabalhar num caso secreto para a diretora do NCIS.

As investigações dos crimes importam menos e passam a ser menos elaboradas -às vezes, até mal-ajambradas-, porque o combate ao terrorismo vai se intensificar. Guantánamo e 11 de Setembro são mencionados em quase todos os episódio. É uma pena, porque o patriotismo não deveria ser em detrimento da qualidade.

NCIS – 4ª TEMPORADA

Distribuidora: Paramount

Quanto: R$ 99,90, em média

Avaliação: regular’

 

 

Pedro Butcher

‘Person’ faz registro pessoal e poético

‘O cineasta Luiz Sérgio Person morreu precocemente, aos 40 anos, em um acidente de automóvel. Deixou duas filhas lindas e uma obra curta, mas de força e consistência muito raras no panorama do cinema brasileiro. Em ‘Person’, Marina, filha mais velha do cineasta, presta uma bela homenagem ao pai, com um filme pessoal e poético.

‘Person’ poderia ser um belo extra de DVD, mas é bem mais que um apêndice à obra do cineasta. A diretora -que, além de atriz e cineasta, trabalha na MTV- apresenta e contextualiza com propriedade os filmes do pai (entre eles as obras-primas ‘São Paulo S/A’, de 1965, e ‘O Caso dos Irmãos Naves’, de 1967), mas não tem medo de entrar em um terreno pessoal e investigativo.

Antes de tudo, seu filme é a história de uma filha que quer recolher e organizar memórias distantes e dispersas. Imagens de uma festa de aniversário, captadas em super-8, abrem o filme.

Há os indispensáveis depoimentos de amigos e pessoas que trabalharam com Person, mas é a presença de Marina, sua irmã Domingas e a mãe delas, Regina Jehá, que produz a diferença e confere a ‘Person’ uma emoção ímpar.

PERSON

Quando: estréia hoje, às 21h02

Onde: Canal Brasil; livre’

 

 

 

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