Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Folha de S. Paulo

02/09/2008 na edição 501

PRÉ-SAL
Janio de Freitas

A realidade das ficções

‘O INESPERADO acontece: o governo Lula aparenta ser, em relação ao petróleo do pré-sal, o único sensato (ou menos insensato, porque o ministro Edson Lobão tem o dom da fala e, pior, usa-o).

Numerosos setores empresariais e financeiros atropelam-se em uma caça ao tesouro desnorteada, para situar-se em posição de influir no que nem sabem como é ou será ou se será, mas fiéis à idéia de que o melhor proveito deve ser do capital privado. A Associação das Empresas Produtoras de Petróleo é como um epicentro de terremoto cercado de erupções vulcânicas de interesses e ansiedades.

O noticiário, no mais delicado diagnóstico, pirou. Nos últimos tempos, acentua-se no jornalismo brasileiro a dificuldade de tratar mais de um tema relevante. O vício não é propriamente novo, e em muitos casos a concentração é mesma correta (episódio das diretas, CPI do governo Collor, por exemplo). É da tradição, no tratamento vasto e tumultuoso de um tema, o predomínio da complacência sobre a cobrança rigorosa de veracidade. As disputas descontroladas entre jornalistas levam muitos a exacerbar suas tendências de sobrepor a ficção ao factual. O novo petróleo, no entanto, trouxe novidade também no jornalismo.

O exagero de chutes (ou a escassez de notícias sérias) levou Lula a dois desmentidos inequívocos. ‘Não existe nova estatal’, disse ele em discurso no Ceará quando, semana passada, o tema de nova estatal estava no auge. No conselhão de Desenvolvimento Econômico e Social, quinta-feira, apesar de já haver dito que ‘a comissão só entregará as sugestões de modelo no fim de setembro’, Lula precisou mandar outra direta aos jornalistas: ‘O modelo não está definido’. No noticiário impresso que li, as falas de Lula não incluíram os dois desmentidos.

A norma da retificação, que exigiu muita persistência contra o hábito do jornalismo pelo facilitário, recebeu um aceno a propósito das notícias sobre desapropriação do pré-sal, nas áreas já conquistadas pela Petrobras e suas associadas estrangeiras. É que a procedência dessa alucinação pôde ser ligada em parte ao próprio ministro de Minas e Energia, Edson Lobão -não por acaso, ex-jornalista, embora fosco, do contingente ficcional da ditadura.

Não chega a compensar, mas a semana encerrou em definitivo uma ficção. Juca Ferreira tomou posse como ministro de um ministério de que já era o verdadeiro ministro. Gilberto Gil foi uma ficção, útil à sua bem aproveitada promoção no exterior, mas farsa da qual o seu talento não precisava e o conveniente caráter deveria recusar -se não por si mesmo, em consideração à cultura.

Outra ficção já está prometida: ‘Nós vamos dar segurança para a população’ (…) ‘votar em liberdade’, diz o ministro Nelson Jobim sobre a aprovada e ainda não efetivada presença do Exército no Rio. Mais realista, explica sobre a insegurança dos candidatos: ‘Não caberá às Forças [Armadas] ciceronear candidatos. O problema é deles’. É a eleição ficcional.’

 

 

ELEIÇÕES NOS EUA
Fernando Rodrigues

Obama se sai melhor na internet e colhe nela maioria das doações

‘Promessa há várias eleições, a internet tornou-se uma realidade nas disputas políticas dos EUA deste ano. O uso da web popularizou-se para quase tudo, de arrecadação de fundos a promoção de vídeos virais contra adversários, de ferramenta para organização da militância a divulgação de fatos importantes da campanha.

Apesar de o democrata Barack Obama vestir hoje o figurino de mais completo político do mundo virtual, coube a Hillary Clinton um ato ousado no início da corrida presidencial, em 2007. Quando ela decidiu anunciar oficialmente sua pré-candidatura, não chamou repórteres para uma entrevista nem elegeu um jornal ou TV para oferecer um furo: divulgou um vídeo no YouTube. Ao jogar a toalha, Hillary também dispensou a clássica entrevista coletiva e preferiu enviar um e-mail aos correligionários -que receberam o texto ao mesmo tempo que a mídia.

Obama, na sua última investida na web, pediu a seus militantes que se cadastrassem para receber um torpedo no celular ou um e-mail em primeira mão com o nome do candidato a vice-presidente. Não deu muito certo, pois a informação vazou, mas as mensagens foram enviadas na seqüência aos que estavam inscritos.

O candidato democrata bate recorde atrás de recorde de audiência na internet. Em janeiro, seus vídeos no YouTube já registravam 6,6 milhões de cliques. Na manhã de sexta-feira, dia seguinte ao seu discurso na convenção democrata, sua audiência estava em 57,4 milhões.

Obama, assim como muitos políticos, já tem um canal próprio no YouTube -no Brasil, isso seria impossível pelo fato de a Justiça Eleitoral ter proibido propaganda fora do site oficial dos candidatos. Nos EUA, um eleitor obamista pode entrar no YouTube para assistir notícias da campanha e já tem a opção de clicar no botão ‘contribute’ (contribua) para fazer uma doação com cartão de crédito ou de débito. A operação dura menos de um minuto e fica completamente registrada.

A arrecadação pela internet é a grande aliada dos políticos americanos. O eleitor fornece nome e alguns dados pessoais, o número do cartão de crédito ou débito e assinala a quantia que deseja doar. Clica em ‘OK’ e o dinheiro segue para a conta de campanha do candidato.

Numa campanha bilionária (os candidatos a presidente juntos já embolsaram US$ 1,2 bilhão), Obama está à frente. Sua arrecadação total até 31 de julho era de US$ 401,3 milhões, sendo que US$ 190,7 milhões foram doações individuais com valor abaixo de US$ 200. A maioria desse dinheiro foi oferecida pela internet.

Como Obama declara que as doações recebidas são em grande maioria abaixo de US$ 100, estima-se que ele tenha acumulado aproximadamente 1,9 milhão de doadores de pequenas quantias até julho. Sua campanha diz ter registrado mais de 2 milhões de doadores -é impossível saber o número exato, pois a lei exime os políticos nos EUA de divulgarem de maneira detalhada os doadores de valores até US$ 200.

Ninguém duvida, porém, da enxurrada de dinheiro miúdo desaguando na conta do democrata. Pelas estimativas mais conservadoras, 51% do dinheiro de Obama vem do eleitor comum, o simpatizante interessado em doar até US$ 200. Se ele for eleito, será a primeira vez na história moderna dos EUA que um presidente foi financiado majoritariamente pelos próprios eleitores -e não por grandes empresas.

Como comparação, em 2000, George W. Bush teve 16% de seu financiamento vindo de pequenos doadores individuais. Em 2004, melhorou a marca para 37%, mas ainda nada comparável à avalanche da ‘clicocracia’ obamista.

Atrás do tempo perdido

John McCain demorou para acordar para a rede mundial de computadores. Nos últimos 60 dias, parece ter percebido a necessidade de derrotar a hegemonia de Obama na web.

Vários vídeos de McCain passaram a ser apresentados no canal do republicano no YouTube. A audiência acumulada desde o início da campanha ainda não se compara à de Obama, mas houve um salto. Em maio, os vídeos do republicano registravam apenas 3,8 milhões de cliques. Na última sexta, o número havia pulado para 13,2 milhões, um aumento de 246% em três meses. No mesmo período, Obama cresceu 15%.

Mais expressiva é a disparada recente de McCain no YouTube, graças a vídeos com críticas ao rival. Do último dia 15 até anteontem, a audiência pulou de 9,6 milhões de cliques para os atuais 13,2 milhões -um salto de 37% em duas semanas.

Já quando o assunto é dinheiro pela internet, McCain ainda não esboçou a mesma reação. O republicano arrecadou até julho menos da metade dos US$ 401,3 milhões de Obama. Apenas 37% de suas doações vêm de pessoas que contribuíram com até US$ 200.’

 

 

ALEMANHA
Folha de S. Paulo

Revista põe em suspeita jogo da Copa-2006

‘A revista ‘Der Spiegel’ informou em seu site que, devido ao volume de apostas, existem suspeitas sobre duas partidas do Alemão, uma da primeira divisão (entre Hannover e Kaiserslauter, em 2005) e outra da segunda (entre Karlsruher e Siegen).

A revista ainda traz entrevista com o jornalista canadense Declan Hill, que diz que um sindicato de apostadores da Ásia investiu muito na partida Brasil 3×0 Gana, o que tornaria a partida suspeita.’

 

 

PÓS-PEQUIM
Folha de S. Paulo

Atleta vive dias de ator e apresentador

‘Depois da obrigação, o lazer. E, no caso de Michael Phelps, 23, que há duas semanas tornou-se o maior campeão olímpico da história, a diversão tem sido proporcional ao feito.

Desde que desembarcou nos EUA, na última quarta-feira, depois de uma semana de badalação e compromissos com patrocinadores em Pequim e Londres, o nadador não parou.

Virou figura fácil na TV, seu nome não sai dos tablóides e sua foto será exposta até janeiro na National Gallery, de Washington, ao lado de retratos de gente como Albert Einstein e Martin Luther King.

Todos -e todas- querem Phelps. Em menos de uma semana pós-China, já foi a um encontro com o golfista Tiger Woods, um de seus ídolos, deu aula de natação para crianças em Nova York, foi homenageado com uma parada na Disney World com direito a Mickey, Pateta e cia.

No meio tempo, o nadador, com seu jeitinho de nerd, ainda aproveita para trocar torpedos com celebridades. A atriz Lindsay Lohan e a cantora Carrie Underwood já estão na agenda de seu celular.

Mas, mesmo com tantos compromissos, uma das primeiras coisas que fez quando voltou foi matar as saudades dos amigos -e de seu lanche favorito. ‘Pedi um gigantesco e gorduroso cheeseburguer’, afirmou à apresentadora do ‘Today Show’, em sua primeira manhã nos EUA.

A entrevista, porém, era apenas a primeira de uma maratona programada pela rede NBC para Phelps.

Detentora dos direitos de transmissão da Olimpíada para os EUA, a emissora resolveu capitalizar com o nadador, especialmente após o desempenho aquém do esperado do país. E nada melhor que colocar Phelps o máximo de vezes possível no ar.

Além do ‘Today Show’, foi ao ‘Tonight Show’, com Jay Leno -que vai ao ar no dia 8-, e ainda apresentará a estréia da temporada do ‘Saturday Night Live’, no próximo dia 13.

‘Estou um pouco nervoso e ansioso com essa nova experiência, mas acho que será bem divertido’, falou, sobre apresentar o SNL ao vivo. ‘Meus amigos já estão me ironizando. Disseram que estarão na platéia e que, se eu fizer alguma coisa errada ou contar piada sem graça, eles serão os primeiros a aplaudir.’

Para homenagear o nadador, o rapper Lil Wayne será a atração musical. Era ao som de ‘I’m Me’ que o nadador se aquecia antes de competir em Pequim. ‘Com certeza não vou me arriscar a cantar com ele’, brincou Phelps.

Como se não bastasse, ainda irá ao ‘Late Show’, de David Letterman, e, apesar de não gostar muito da idéia de atuar, fará uma ponta na série ‘Entourage’, que mostra os bastidores da vida de celebridades de Hollywood.

E é lá que participará da entrega do VMA, prêmio da MTV, no dia 7. Sua parceira de palco deve ser Britney Spears, que tem feito lobby para aparecer ao lado do superatleta.’

 

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Zeca Camargo embarca em sua segunda volta ao mundo

‘Zeca Camargo, agora apresentador titular do ‘Fantástico’, inicia no próximo dia 12 sua segunda volta ao mundo. Desta vez, a viagem durará só 36 dias e servirá para mostrar dez patrimônios da humanidade, alguns deles ameaçados. Em 2004, Camargo fez uma viagem de quatro meses pelos cinco continentes, e o público escolhia as cidades que visitava.

Desta vez, os locais foram previamente escolhidos, mas nem por isso a correria será menor. Camargo ficará três dias em média em cada lugar.

‘Foram dois anos de negociações’, conta o jornalista, que teve de ir a Paris e Brasília discutir detalhes com a Unesco (que concede os títulos de patrimônios da humanidade). ‘Mas a Unesco não cuida desses locais. Quem cuida é uma ONG, geralmente. Cada lugar é uma negociação à parte e complexa. Faltando três semanas para o início da viagem, ainda há quatro pendências’, conta.

Uma dessas pendências era justamente o primeiro país a ser visitado, na África. O escolhido teve de ser descartado, por falta de segurança. ‘Outro lugar que a gente pretendia ir fica na Geórgia, mas agora [após o conflito do país com a Rússia], não dá’, revela.

Camargo organizou um roteiro que foge de lugares óbvios, como as pirâmides do Egito. Os dois primeiros países são africanos. Depois, o jornalista passará por Kosovo, seguirá para a Ásia (quatro países, incluindo Mongólia, onde documentará um patrimônio cultural, os povos nômades) e Canadá. Chile e Peru, na América Latina, já foram visitados.

A série se chamará ‘Isso Aqui É Seu’, deve estrear em novembro e renderá um livro.

O FINO DA BOSSA

Caberá ao brasiliense Mateus Solano (foto), 27, interpretar o compositor Ronaldo Bôscoli (1928/1994) na microssérie ‘Maysa’, que a Globo exibe no início de 2009. Bôscoli, um dos pais da bossa nova, namorou a cantora Maysa. Apesar de a relação ter sido muito rápida, Bôscoli terá destaque na microssérie, por causa de sua influência sobre a carreira de Maysa, que gravou várias músicas suas. Escolhido pela semelhança com o compositor, Solano já fez algumas pequenas participações em programas da Globo, mas nada relevante. Ele também está em ‘Linha de Passe’, novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas.

DIABO LOIRO

Tem um quê de Meryl Streep em ‘O Diabo Veste Prada’ (2006) e de Catherine Deneuve em ‘A Bela da Tarde’ (1967) o visual de Vera Holtz em ‘Três Irmãs’, na definição da própria atriz. Vera retorna às novelas na pele de outra vilã, Violeta, que cultua uma bela cabeleira prata. Após anos de tinturas, a atriz revela que ficou surpresa e feliz ao descobrir que a cor de seus cabelos é essa mesma. ‘A Violeta tem uma exuberância muito grande, é rica, não se esconde na idade, é primeira pessoa e acabou. Por isso, não pinta os cabelos’, conta.

PANELAS 1

A Globo quer faturar alto com ‘Super Chef’, novo reality do ‘Mais Você’, que estréia dia 8. Venderá pela internet a maior parte dos objetos de cena, como panelas, utensílios de cozinha, geladeiras, fogões, aventais, uniformes e até tamancos.

PANELAS 2

‘Super Chef’ será o ‘Big Brother’ dos cozinheiros. Reunirá 14 participantes, confinados em hotel. Durante 11 semanas, eles passarão por curso de gastronomia, maratonas de provas, degustações, administração de restaurante e paredões.

PASQUIM 1

O escritor, desenhista e jornalista Ziraldo vai virar apresentador de programa de auditório. Comandará na TV Brasil, a rede pública federal, uma atração que visa incentivar a leitura por jovens e crianças, que comporão a platéia.

PASQUIM 2

No programa, ainda sem nome e previsão de estréia, Ziraldo contará histórias e fará entrevistas. A TV Brasil também retomará, em 2009, a produção das (boas) séries infanto-juvenis ‘Um Menino Maluquinho’ e ‘Turma do Pererê’, de Ziraldo.

PERGUNTA INDISCRETA

FOLHA – Andam dizendo que você detestou a escalação de uma ex-big brother para protagonista de ‘Negócio da China’, sua próxima novela na Globo. Foi duro engolir a Grazi Massafera? MIGUEL FALABELLA – Não houve pressão para escalá-la. Ela não foi a minha primeira opção, mas preferi aguardar o teste. Mandei uma cena difícil, e ela deu conta do recado. O que lhe falta em técnica, sobra em sinceridade e carisma. E funciona muito bem com o Fábio [Assunção].’

 

 

Bia Abramo

Humor fora dos trilhos

‘SE HÁ alguma coisa interessante nas novelas da Globo atualmente no ar, atende pelo nome de Rakelli. A moça de roupas curtíssimas e não menos coloridas e voz ligeiramente esganiçada, vivida por Isis Valverde em ‘Beleza Pura’, é um daqueles raros casos de acerto de personagem e intérprete.

É raro haver papéis verdadeiramente cômicos para jovens mulheres, que fujam dos estereótipos -a moça sexy e burra, involuntariamente engraçada, ou da esquisita, feia, a quem não resta opção a não ser rir de si mesma. Na verdade, a Rakelli começou nos trilhos -manicure, suburbana, desbocada e destrambelhada. Mas aí entraram a ironia e o senso de comédia da atriz, praticamente uma estreante, e Rakelli tornou-se uma das principais atrações da novela.

É raro ver uma atriz tão jovem e inexperiente -Isis tem 21 anos e estreou na Globo em ‘Cabocla’- com tanta segurança e criatividade. Ela deu um tom todo pessoal à Rakelli e escapou com graça dos clichês.

A novela, de resto, chega quase ao final (acaba em duas semanas), marcando algumas diferenças. A primeira delas, acompanhando o sucesso da personagem Rakelli, foi experimentar um humor um tantinho fora do esquadro -e para isso contribuíram os talentos de atrizes como Maria Clara Gueiros e Zezé Polessa.

A segunda pode parecer um detalhe, mas não deixa de ser significativa: a trama se passa toda em Niterói, do outro lado da baía de Guanabara. É como se fosse um Rio do outro lado do espelho, tão perto e tão longe, e que nunca havia sido tematizado por uma novela global.

Agora, o que não fez diferença nesta novela que acaba, bem como não vem fazendo diferença em novela nenhuma, é a tal moldura ‘temática’ que aparentemente discute ‘problemas da atualidade’. ‘Beleza Pura’ tinha médicos e médicas dermatologistas e clínicas de saúde, e dizia-se que discutiria a obsessão contemporânea pela beleza. Discutiu coisa nenhuma.

Um diretor da Globo deixou escapar, em público, uma frase que é bastante eloqüente a respeito da atitude das emissoras diante das novas tecnologias. No 5º Fórum Internacional de TV Digital, que aconteceu semana passada no Rio, o diretor de engenharia soltou: ‘(…) Nós éramos felizes e não sabíamos. Isso há dez, 15 anos. A única forma de ver televisão era pelo ar’.

O tom nostálgico mascara a perplexidade: diante das novas formas de ver TV, o que fazer, além de se defender e lamentar? Eles, ao que parece, ainda não sabem.’

 

 

Sylvia Colombo

Atriz de ‘Tudors’ quer ‘honrar’ Bolena

‘‘Aquele era um tempo de instabilidade política global, em que paixões, religião, corrupção e intriga faziam parte das relações de poder em potências como a Inglaterra e acabavam determinado mudanças na história em geral’, diz à Folha a britânica Natalie Dormer, 26, que interpreta a mítica figura de Ana Bolena em ‘The Tudors’, cuja segunda temporada estreou na última quinta-feira, no People & Arts.

Apesar de retratar uma sociedade de cerca de 500 anos atrás, Dormer acha que, pelas razões apontadas acima, o programa mostra como os elementos essenciais da política são atemporais. ‘O envolvimento de paixões pessoais com o poder é algo que faz parte da natureza humana. E também, se olharmos para os conflitos que a religião causava naquele tempo e como hoje ela contamina as relações entre países, vemos que também nessa área pouca coisa mudou’, compara.

‘The Tudors’ é um retrato fictício do período em que a dinastia homônima reinou a Inglaterra, entre 1485 a 1603. O início da trama gira em torno dos arroubos de Henrique 8º (Jonathan Rhys Meyers), que possibilitaram que a Reforma religiosa, apoiada nas idéias do teólogo alemão Martinho Lutero (1483-1546), também se difundisse em território inglês.

Como é bem sabido, não foram razões de devoção que levaram Henrique 8º a romper com a autoridade papal. A recusa de Clemente 7º a conceder ao rei a permissão de divorciar-se de Catarina de Aragão, para que pudesse se casar com sua amante, Ana Bolena, detonou o rompimento entre a Inglaterra e a Igreja Católica, em Roma.

A primeira temporada de ‘The Tudors’ mostra o começo desse processo. Henrique 8º, descontente com o fato de que sua esposa não lhe havia dado um filho que garantisse a permanência da linhagem no trono, passa a desejar a separação. Ao mesmo tempo, surge a manipuladora e sedutora Ana Bolena, filha de um nobre de pouca influência, por quem Henrique 8º se apaixona.

‘Corajosa e apaixonada’

Dormer diz que, para viver o papel, leu biografias e visitou os lugares onde Bolena viveu. Aos poucos, esse personagem controverso, que quase rachou a Inglaterra por conta de sua ambição para se tornar rainha, foi se transformando aos olhos da atriz. ‘Meu respeito por ela cresceu muito. Há um estereótipo negativo com relação a Bolena. Mas aos poucos fui percebendo que, na verdade, tratou-se de uma mulher muito corajosa e apaixonada, que se impôs num ambiente no qual não lhe faltaram inimigos’, diz.

Quando o segundo ano da série começa, Henrique 8º está confrontando diretamente a Igreja. Decide tornar-se chefe supremo da instituição em seu país e líder espiritual de seu povo. O até então influente e corrupto cardeal Wolsey, contra a decisão, perde espaço para Thomas Cromwell, a favor das reformas. E a coroa passa a perseguir e a decapitar os que se opunham à nova ordem.

O casamento com Catarina de Aragão é, então, considerado nulo. A coroa de rainha passa para Bolena, em 1533. Mas sua vida de rainha duraria pouco. Em 1536, acusada de traição, num complô armado por Cromwell, é condenada à morte e termina decapitada.

‘O discurso dela antes de sua execução é praticamente o mesmo que eu declamo na série. Manter esse texto quase fiel ao original foi uma forma de honrar seu caráter. Me emocionei muito na gravação da cena.’

O seriado, escrito por Michael Hirst, também roteirista de ‘Elizabeth’ (com Cate Blanchet), adaptou e mudou vários eventos e personagens da história real. Fusão de algumas personalidades, alterações nas datas de batalhas e anacronismos foram cometidos em detrimento de tornar o show mais atraente. Henrique 8º, por exemplo, era um homem grande, glutão e bem mais velho do que Ana Bolena quando ambos se casam. Contudo, na série, ele é vivido pelo galã Jonathan Rhys Meyers (de ‘Match Point’, de Woody Allen) e retratado como um herói atlético e sexomaníaco.

Seis mulheres

Hirst defende sua opção dizendo que, apesar do estereótipo histórico, o rei em sua juventude havia sido um homem belo. Só o que ele fez foi mantê-lo jovem por mais tempo.

Mesmo com as adaptações, o essencial tem se mantido fiel aos fatos. A terceira temporada, em 2009, começará após a morte de Bolena. Henrique 8º casou-se com seis mulheres ao todo. E, em vez de garantir uma sucessão tranqüila, deixou como legado o conflito entre filhos legítimos e ilegítimos. Ou seja, ainda há muito pano para manga e temporadas futuras.

Dormer, porém, lamenta não poder continuar na série, mas garante: ‘Não haverá outra rainha Tudor como Ana Bolena’.’

 

 

***

Ficção não é ameaça à história real

‘Seriados históricos não são fáceis de executar. Os roteiristas precisam fazer malabarismos para manter a trama interessante e novelesca sem trair os pilares do drama real que contam.

As críticas geralmente acusam essas séries de anacronismo ou de romantizar demais passagens e relações pessoais.

Enfrentar o desafio contém ainda um outro risco, de investimento, pois programas de época costumam custar caro, já que é necessário reconstruir um universo como ele era há muito tempo atrás.

Casos em que a difícil equação é resolvida, porém, estão se tornando comuns, como ‘Roma’, ‘Deadwood’ e, agora, ‘The Tudors’.

A série, escrita por Michael Hirst, ganhou tratamento de filme hollywoodiano. Não só uma Inglaterra do século 16 foi montada entre monumentos históricos de Londres e paisagens do interior da Inglaterra e da Irlanda, como também as cortes de Lisboa e Paris, além da sede do papado, Roma.

A segunda temporada contém o que se passou de mais interessante na trajetória da dinastia inglesa. O rompimento com a Igreja, o caso de Henrique 8º com Ana Bolena e sua coroação como rainha seguida de sua queda fulminante.

A excelente atuação de alguns membros do elenco garantem o êxito da empreitada. Além de Jonathan Rhys Meyers, que opta por fazer de seu Henrique 8º um popstar de seu tempo, destacam-se Dormer como uma Bolena ambígüa e irresistível, e Jeremy Northam, que vive o difícil papel de Thomas More, o autor de ‘Utopia’.

Nesta temporada, ainda, surge Peter O’Toole, no papel do papa Paulo 3º.

Uma versão light, sem cenas de sexo, será exibida às quartas, às 21h, a partir de 3 de setembro. Essa é para deixar de lado.

THE TUDORS

Quando: quintas, às 22h

Onde: no People & Arts

Avaliação: ótimo’

 

 

PELÍCULA
Sérgio Rizzo

O filme esquecido de Santos Dumont

‘Em pé, um homem de cabelo dividido ao meio e bigode se dirige, com ar composto de professor, a um observador atento que permanece sentado e às vezes interage com ele.

O que restou desta cena, registrada em película há mais de cem anos, dura pouco menos de um minuto e teria valor apenas no domínio da arqueologia do cinema se o personagem em pé, então com 28 anos, não fosse o aviador Alberto Santos Dumont (1873-1932).

As imagens correspondem ao curta-metragem ‘Santos Dumont Explaining His Air Ship to the Hon. C.S. Rolls’ (Santos Dumont explicando seu balão dirigível ao Honorável C.S. Rolls), filmado provavelmente entre 22 e 28 de novembro de 1901, em Londres, pela filial britânica da produtora American Mutoscope & Biograph Company, e exibido pela primeira vez em 3 de dezembro de 1901, no Palace Theatre, também na capital britânica.

Não se conhecia mais nenhuma cópia do filme até que o cineasta Carlos Adriano, 41, resolveu pesquisar um artefato cinematográfico mantido no acervo da sala Santos Dumont do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, no Ipiranga.

De acordo com o termo de doação da família, era uma ‘roda cinematográfica’; segundo a catalogação do museu, que o incluiu na seção ‘outros’, tratava-se de um ‘cinetoscópio’.

Certo de que não era nem uma coisa nem outra, Adriano desconfiava de que fosse algo raríssimo, um mutoscópio (leia quadro ao lado), e de que os 1.322 cartões fotográficos guardados em seu carretel (658 com imagens e 664 brancos ou pretos) representassem um registro de Santos Dumont que merecia investigação detalhada.

Em 2004, decidiu transformá-la em matéria-prima de seu doutorado na Escola de Comunicações e Artes da USP.

No último dia 11 de agosto, a tese foi aprovada ‘com distinção e louvor’ pela banca, que avaliou o trabalho de um pesquisador-cineasta, ou cineasta-pesquisador, como o próprio Adriano se define.

Em dois volumes, que começa a preparar para publicação, ele fez um estudo do dispositivo e da produtora Mutoscope, da visualidade em Santos Dumont, dos processos de restauração e do uso de materiais de arquivo no cinema.

‘Santoscópio’

Além disso, a tese -que recebeu bolsa da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)- compreendeu também um curta-metragem experimental de 14 minutos e meio, ‘Santoscópio = Dumontagem’, realizado por ele a partir do material encontrado no mutoscópio (e que, na velocidade de restauração, tem 52 segundos e 16 quadros).

A Folha assistiu na última quinta-feira, no estúdio do editor de som Eduardo Santos Mendes, professor da ECA-USP, à versão quase finalizada do curta, que deverá ser concluído no próximo mês (leia texto à direita). A primeira exibição pública, no entanto, ainda vai demorar.

‘Espero lançá-lo em julho de 2009, mesmo mês em que Santos Dumont nasceu [no dia 20, em 1873, em Minas Gerais] e morreu [no dia 23, em 1932], junto do documentário sobre a descoberta que começarei a filmar em setembro, com patrocínio da Petrobras, por meio das leis de incentivo do Ministério da Cultura’, conta Carlos Adriano.

‘Pré-cineasta?’

O documentário tem o título provisório de ‘Santos Dumont Pré-Cineasta?’ e será uma espécie de desdobramento da ‘investigação histórica, conceitual e artística’ que Carlos Adriano empreendeu para a tese, orientada na USP pelo professor Ismail Xavier.

‘A cena que aparecia nos cartões do mutoscópio era muito enigmática’, lembra Adriano. ‘Só no final da pesquisa, por exemplo, consegui descobrir o título do filme’, completa.

Interessado pelos aspectos conceituais do cinema, Adriano viu também ali, na aula ministrada a Rolls (que viria a ser fundador da Rolls-Royce) por Santos Dumont, a ‘própria idéia do cinema se expressando como pensamento em ação’ e ‘um patrimônio esquecido do audiovisual brasileiro’.’

 

 

LINHA DE PASSE
Jurandir Freire Costa

A escolha do povão

‘Daniela Thomas e Walter Salles voltam às telas com ‘Linha de Passe’. A cultura brasileira, uma vez mais, é revista pelo talento cinematográfico dos dois [que juntos dirigiram ‘O Primeiro Dia’ e ‘Terra Estrangeira’, entre outros filmes] e o resultado é apaixonante dos pontos de vista artístico e humano.

A matéria-prima do filme é o cotidiano dos que carregam este país nas costas.

Cleuza -personagem vivido por Sandra Corveloni, ganhadora do prêmio de intérprete feminina no Festival de Cannes- e seus filhos nem transitam pelo bas-fond do poder nem em meio aos delinqüentes descamisados.

Seu universo é o das empregadas domésticas que vivem nos fundos de cozinhas; dos frentistas dos postos de gasolina; dos motobóis; dos jovens desempregados que aspiram à celebridade midiática; das ruas escuras; das calçadas esburacadas; dos ganidos melancólicos de cachorros vadios e, finalmente, da luz parca e intermitente do mundo televisivo, último sonho dos que vivem no pesadelo brasileiro.

Os diretores exibem tudo isso sem ares de falsa neutralidade. Em ‘Linha de Passe’, nada de fábulas edificantes ou do moralismo de estufa que costuma maquiar a miséria com cores de exotismo. Desde o início, nos sentimos concernidos pelo lado oculto da vida do ‘povão’.

Realidade hostil

Os mitos da ascensão econômica pelo futebol, do ideal do trabalho enobrecedor, da credulidade religiosa como ópio para a aspereza do dia-a-dia etc. são desmontados em suas engrenagens mentirosas.

Nessa realidade hostil, não há lugar para contos de fadas.

Quem está sujeito ao tacão do mais forte cedo aprende a conhecer o chão onde pisa.

Cada um, portanto, se vira como pode para enfrentar a brutalidade do dia-a-dia: preconceitos raciais e de classe social, pequenas corrupções e interesses mesquinhos nos locais de trabalho, consciência de que a lei é um faz-de-conta para os privilegiados e, por fim e o mais grave, apelos constantes para que todos se degradem moralmente, a fim de que os cínicos de plantão possam gozar com sua máxima de vida: ‘Somos todos porcos, comendo no mesmo cocho’.

Até aí, pode-se dizer, estamos em terreno conhecido. Daniela Thomas e Walter Salles, porém, vão adiante. Trazem à tona a vida interior dos personagens, duplicando a narrativa sobre o panorama social com uma reflexão sobre a delicadeza da condição humana.

Cleuza e sua família são pessoas que, como qualquer um de nós, devem agir de forma moral. Mas em circunstâncias extremas, o que muda tudo.

O filme mostra o que significa equilibrar-se nessa corda bamba, em que hesitar em agir ou agir sem hesitar são condutas igualmente arriscadas.

Decidir entre o bem e o mal, em regime de urgência e sobre assuntos que implicam a sobrevivência, é uma das formas mais duras que temos de por à prova nossa consciência moral.

Vivendo no limite

Dario e seus irmãos vivem sempre em estado de exceção, às voltas com dilemas em que é quase impossível saber se é mais justo obedecer à lei ou transgredi-la, se é mais compassivo guardar fidelidade a valores consagrados ou infringi-los em nome de um bem maior -o direito à vida e à dignidade.

Donde o inquietante tom agônico do filme. Os personagens vivem num exaustivo processo de luta consigo e com os outros, num movimento de tensão psicológico-moral no limite do insuportável. A qualquer instante, antevemos o desastre que está para acontecer.

Ainda assim, o espaço para a dúvida é um luxo ao qual nenhum dos personagens pode se dar. É preciso agir pronto para perder, é preciso defender desesperadamente o que resta, sem tempo para chorar as ilusões perdidas.

De vez em quando, todavia, a raiva e a tristeza contidas explodem e invadem a cena. Esse é um dos momentos mágicos do filme. Daniela Thomas e Walter Salles, numa imprevista virada ético-estética, mostram que, mesmo jogados ao fundo do poço moral, os personagens não sucumbem.

Ao contrário, reagem e desmentem as clássicas imagens da impotência dos mais frágeis. São eles, os desvalidos, que acabam por afirmar que ‘o pior cego é o que não quer ver’ e ‘o pior paralítico é o que não quer andar’.

Subvertendo de forma criativa a metáfora religiosa dos ‘milagres evangélicos’, os autores nos fazem ver que o mais extraordinário milagre é o da vontade humana para recomeçar, ali onde qualquer esperança parecia morrer.

Finda a projeção, continuamos com os imperativos martelando na cabeça: ‘Anda!’, ‘vê!’. Belo lembrete dos que sabem fazer cinema sabendo para que serve o cinema. Enfim, um filme com a marca registrada de Daniela Thomas e Walter Salles: inimitável e imperdível.

JURANDIR FREIRE COSTA é psicanalista e professor de medicina social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É autor de ‘História da Psiquiatria no Brasil’ (Garamond), entre outros.’

 

 

 

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