Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Folha de S. Paulo

12/10/2009 na edição 559

ARGENTINA
Silvana Arantes

Congresso aprova lei de mídia de Cristina

‘O Senado argentino aprovou na madrugada de ontem, por 44 votos a favor e 24 contra, o projeto de Lei de Serviços Audiovisuais da presidente Cristina Kirchner, que obrigará grupos de mídia do país a uma redução forçada de seus negócios.

Antes de viajar ontem para a Índia, Cristina assinou o decreto que promulga a lei e publicou-o no Diário Oficial. ‘A presidente havia se autoimposto não viajar até assinar a promulgação da lei’, afirmou seu chefe de gabinete, Aníbal Fernández.

O projeto estabelece limites à propriedade de emissoras de rádio e TV; impede que o mesmo concessionário tenha canais de televisão aberta e a cabo; fixa teto de assinantes para os operadores de cabo e impõe cotas de programação nacional.

A nova lei também determina um limite de 33% do total de concessões para empresas com fins lucrativos. Os outros dois terços serão destinados ao Estado e a ONGs, como sindicatos, universidades, igreja.

O governo diz que a intenção da lei é ‘desmonopolizar’ o setor e permitir acesso plural à propriedade dos meios de comunicação. Cristina reiterou em seus discursos sobre o projeto que ele substitui ‘a velha lei da ditadura’ sobre o tema. A atual Lei de Radiodifusão argentina foi promulgada em 1980 pelo general Jorge Videla.

Críticos da lei, porém, a acusam de ter o propósito de ferir o Grupo Clarín, o mais afetado pelas novas regras. Maior conglomerado de mídia argentino, o Clarín está em choque com o governo desde o ano passado.

Com a entrada em vigor da nova lei, o Clarín terá que abrir mão da presença na TV aberta, se quiser seguir na TV a cabo, onde também deverá reduzir o alcance de seus canais e de seu provedor de sinal, líder no mercado. O grupo possui hoje 47% dos assinantes. A nova lei determina que um único operador pode ter, no máximo, 35% do total de assinantes.

A oposição tentou, sem sucesso, modificar o artigo que estabelece prazo de um ano para as empresas se adaptarem e também o que define a composição da ‘autoridade de aplicação’ da lei, responsável pela distribuição das licenças. Agora, prevê uma enxurrada de contestações na Justiça.

Os críticos do projeto suspeitam de intenções escusas do governo nos artigos. O prazo de apenas um ano teria objetivo de facilitar que empresários próximos do governo adquiram meios de comunicação a serem favoráveis ao kirchnerismo nas eleições presidenciais de 2011.

No artigo que define a ‘autoridade de aplicação’ da lei, o governo garantiu ‘maioria automática’, apontam os críticos, ao determinar que, dos sete membros da comissão, dois sejam indicados pelo Executivo e dois pelo Conselho Federal de Comunicação Social, cujos integrantes são designados pelo governo. Os outros três membros da ‘autoridade’ deverão ser apontados pelo Legislativo.

No debate no Senado, o presidente da União Cívica Radical, Gerardo Morales, opositor do governo, pediu à Comissão de Assuntos Institucionais que denuncie na Justiça a senadora de seu partido María Dora Sánchez, que insinuou ter trocado o voto por promessas de recursos federais para sua Província.

Morales lembrou que, em setembro, Sánchez se disse contra a lei, dizendo que ‘ameaçava a imprensa independente e que os Kirchner conseguiriam aprová-lo, porque manipulam governadores com a carteira’.

Dois dias antes da sessão no Senado, Sánchez anunciou que votaria a favor. ‘Não há outra explicação senão o desejo do melhor para a minha Província.’ A senadora é de Corrientes, onde houve eleições para governador neste mês, sob escândalo que envolve suspeita de assassinato vinculado ao pleito e desvio de verbas.

A votação do texto geral da lei ocorreu às 2h30, após 16 horas de debate. Partidários do projeto em torno do Congresso explodiram em comemoração. Os militantes passaram a tarde e a noite ali, embalados por shows.

Após a votação geral, os senadores levaram mais três horas para fazer a votação detalhada do texto, capítulo por capítulo. A oposição não conseguiu alterar nenhum dos 166 artigos, e a lei foi aprovada na íntegra.’

 

MST
Maurício Simionato

Mídia influenciou em reintegração, afirma sem-terra

‘Integrante da coordenação nacional do MST, Jaime Amorim afirmou que a decisão judicial de reintegração de posse da fazenda da Cutrale ‘foi influenciada pelo show midiático’, em uma referência às imagens exibidas pela TV que mostraram um trator passando por cima de milhares de pés de laranja na propriedade, em Iaras (SP).

‘Por causa da pressão gerada pelo show midiático, com a exibição das cenas de destruição dos pés de laranja, a Justiça da região chamou para si a responsabilidade, mas a competência jurídica não é estadual porque a área é federal’, disse Amorim.

Durante a invasão, membros do movimento destruíram pés de laranja com trator da fazenda. Segundo o MST, foram cerca de 3.000 pés. A empresa diz que foram derrubados de 7.000 a dez mil. A fazenda tem cerca de 1 milhão de pés de laranja.

Para o líder dos sem-terra, o MST tentou demonstrar que é ‘contra a monocultura’. ‘Transformaram suco de laranja em seres humanos, como se nós tivéssemos destruído uma geração. O que o MST quis fazer é demonstrar que somos contra a monocultura’, disse.

E emendou: ‘O que eles [integrantes do MST] fizeram foi demonstrar para o país um sentimento patriótico. Alguém tem que defender este país contra latifúndio e monocultura’.

Ao ser questionado sobre as acusações de depredações e furtos por parte do MST, Amorim disse que podem ter ocorrido ‘excessos’, mas que foram causados por pressão da mídia.

‘Não sabemos se é verdade. É claro que, na luta do dia a dia, há os excessos e a gente não pode ficar controlando todos. A verdade é que os companheiros ficaram muito indignados e pressionados com o show midiático que fizeram em cima de alguns pés de laranja’, disse.

Na sexta-feira, o MST divulgou nota na qual afirma que ‘repudia a versão construída para responsabilizar o MST pela depredação da fazenda’.’

 

TURQUIA
Fernando Canzian

Jornal turco desafia tabus e enfrenta governo local

‘Há pouco mais de uma semana, na região sudeste da Turquia, um artefato explosivo atingiu em cheio o tronco de uma menina curda de 12 anos. Ceylan pastoreava as ovelhas da família e morreu na hora.

Seus braços, pernas e cabeça ficaram intactos, o que eliminou a hipótese de ela ter pisado em uma mina terrestre. O mais provável é que a bomba tenha vindo do céu. Há um quartel do Exército da Turquia a alguns quilômetros dali.

Um único jornal turco registrou o incidente, em manchete de primeira página. O diário ‘Taraf’ foi avisado diretamente pela família de Ceylan, que já havia tomado conhecimento de sua fama de independente, corajoso e polêmico.

Nos dias seguintes, silêncio em toda a mídia turca. Com exceção novamente do ‘Taraf’, que passou a apontar o dedo para os militares como responsáveis pela morte.

Em um par de dias, a história se tornou assunto nacional, e redes de TV e outros diários sucumbiram. Atrasados, passaram a dar grande repercussão ao caso revelado pelo ‘Taraf’ na semana passada.

Não foi a primeira vez que o ‘Taraf’, com tiragem de 55 mil exemplares, saiu na frente e pautou os outros cerca de 25 jornais nacionais e redes de TV da Turquia.

Há dois meses, o jornal revelou a história de um comandante que resolveu punir um soldado que dormira fazendo sentinela obrigando-o a ficar acordado segurando na mão uma granada ativada.

A granada acabou explodindo, matando quatro soldados. O Exército acobertou a história, dizendo que eles morreram em um treinamento militar.

Relatos precisos sobre o caso da granada acabaram chegando à Redação do ‘Taraf’. Os militares assumiram a verdade, e o comandante acaba de ser indiciado por assassinato.

‘Temos muitas fontes de informação espontâneas entre os militares, no governo e no meio empresarial. Muitas de nossas grandes histórias chegam pelo telefone, quando alguém nos procura’, afirma Yasemin Congar, 42, editora-chefe do ‘Taraf’. O lema do diário: ‘Pensar é tomar partido’.

O ‘Taraf’ tem 75 jornalistas e começou a circular em 15 de novembro de 2007 a partir de uma Redação no último andar de uma livraria.

A livraria é apenas uma da rede do publisher do ‘Taraf’ e escritor, Ahmet Altan. Ele decidiu lançar o jornal em resposta a uma mídia turca vista como comprometida por interesses comerciais e políticos com o governo e os militares.

Além disso, os grandes grupos de comunicação no país pertencem a empresários de outras áreas, como gás, petróleo, construção civil e indústrias de bens de consumo. Os diários acabam como alavanca para outros interesses.

A Turquia é um país atrasado nesse ponto. Até sites como YouTube e MySpace foram banidos do país. O partido no poder, o AK, é considerado por muitos como radical islamista, que gostaria de ver o país e seu Estado laico mais parecido com o Irã do que com a Europa.

Contrário a tabus

Há alguns dias, o próprio ‘Taraf’ revelou que um grande grupo de mídia, o Dogan Yayin, estava em conversações secretas com os militares para escapar de uma multa bilionária do governo que pode levá-lo à falência. O Dogan Yayin é tido como partidário da oposição.

‘Encontramos um nicho, o de quem quer a verdade e um país moderno. Questionamos todos os grandes tabus: a guerra suja de quase 25 anos contra a minoria curda, a Constituição, escrita pelos militares em 1980, os grandes conglomerados’, afirma Congar.

Na semana passada, enquanto o publisher Altan viajava para a Alemanha a fim de receber um prêmio por conta do jornal, Congar olhava para o calendário e lembrava que 7 é dia de pagar salários . ‘Ainda não sei se vamos ter o suficiente para pagar tudo neste mês.’

Por conta dos custos de lançamento, o ‘Taraf’ ainda tem dívidas elevadas, mas vem, com alguns apertos, conseguindo ‘se pagar’ mês a mês.’

 

TELEVISÃO
Rodrigo Russo

‘Não concordo em dar besteira ao público’, diz Eva Wilma

‘‘Estou precisando brincar de novo’. É assim que Eva Wilma, 75, fala sobre o momento atual da extensa carreira. Interpretando Dona Helou, a sogra de Denise Fraga na série ‘Norma’, novo programa da Globo para as noites de domingo, Eva diz preferir trabalhar com humor. E inteligente. ‘Acho que hoje não há mais muita preocupação como nível do que oferecemos.

As pessoas falam muito em besteirol, mas eu nunca concordei em dar besteira ao público.’ Como trabalho em ‘Norma’, Eva lembra o passado e pensa no futuro. Como a série oferece a chance de interatividade por meio da internet, a atriz – uma ‘principiante que não vai desistir’ da informática – participa das mudanças nos formatos televisivos em um projeto que define como ousado e que obteve média de apenas 13 pontos na noite de estreia.

O passado volta ao contracenar com Cássio Gabus Mendes (ex-marido de Norma na série), filho de Cassiano Gabus Mendes- o diretor que a levou para a TV Tupi, onde atuou no humorístico ‘Alô, Doçura’, um de seus trabalhos prediletos em mais de 50 anos de carreira. ‘Tem uma coisa sentimental, gostosa, dos tempos da Tupi.

Quando voltava para casa, sempre passava em frente à famosa casa amarela do Assis Chateaubriand [dono da Tupi], e ficava admirando aquele lugar bonito, cheio de passarinhos no jardim. Até hoje eu fico com saudades’, relembra a atriz. Dos tempos em que a TV estava ainda começando, Eva diz que sente presente o mesmo espírito de equipe, mas também nota que hoje vende-se mais facilmente a dupla sexo explícito e dramalhão. ‘Gosto desses termos porque acho que estamos chegando lá.’

A atriz, que diz não assistir a muita TV, confessa que sente saudade da teledramaturgia e tem como desejo voltar a fazer teleteatro em uma só tomada. ‘E nem precisa ser ao vivo como era nos anos 50, 60.’ Com tanto tempo na TV, Eva descarta ser uma profissional desse meio: ‘Sou só atriz. Preciso sempre voltar ao exercício no espaço cênico livre’.

Com Lula, RedeTV! inaugura sede

Em cerimônia para 1.200 convidados no dia 13 de novembro, com presença esperada do presidente Lula, a RedeTV! vai inaugurar sua nova sede, o CTD (Centro de Televisão Digital), complexo de 50 mil m2, anunciando um pacote de novidades para 2010. Para o ano em que o canal completará uma década, o vice-presidente Marcelo de Carvalho promete dez novos programas nas linhas de esportes, shows e jornalismo. Entre as novidades está ‘Tanque dos Tubarões’, formato similar ao ‘O Aprendiz’.

Antes disso, na semana que vem, a atriz Vida Alves visitará o espaço dedicado à instalação do Museu da Televisão, projeto que está atualmente instalado em um anexo de sua residência.

BOA NOITE

William Bonner, apresentador do ‘Jornal Nacional’, vai gravar nesta quarta-feira participação no ‘Marília Gabriela Entrevista’, que deve ir ao ar no próximo domingo pelo GNT.

Os posts ‘interativos’do jornalista em seu perfil no Twitter (seguido por cerca de 80 mil pessoas) poderiam servir de mote à apresentadora.

SANGUE NOVO

A equipe do humorístico ‘Casseta & Planeta’ tem dois novos colaboradores. Allan Sieber, cartunista e quadrinista da Folha, e Arnaldo Branco, também cartunista, entram no time para auxiliar na criação de piadas e roteiros.

CINQUENTINHA

Depois do desfalque de Marília Pêra, a série escrita por Aguinaldo Silva ganha a presença da atriz Selma Egrei, 60, no papel de ‘Flávia’. Selma participou neste ano de ‘Som & Fúria’, de Fernando Meirelles, e atuou na novela ‘A Favorita’ em 2008.

MUDA CENÁRIO…

O jornalístico ‘Em Cima da Hora’, da Globo News, estreia no dia 19, na edição das 10 h, seu novo cenário, em comemoração dos 13 anos da emissora.

… E FORMATO TAMBÉM

O telejornal, no mesmo dia, estica a edição das 18 h para uma hora de duração. O canal promete mais entradas ao vivo e matérias de serviço.

VOCÊ SE LEMBRA?

Roberto Cabrini estreia no SBT no dia 26 de outubro, com ‘Conexão Repórter’- nome rarecido com o ‘Profissão Repórter’ de Caco Barcellos, na Globo. Entra no lugar de ‘Você se Lembra?’, que não terá terceira temporada no canal.’

 

Ana Paula Sousa

Troféu abacaxi

‘‘Alô, Alô, Terezinha’ leva à catarse. E ao ódio. Nas duas exibições do filme, nos festivais de cinema de Recife e do Rio, a plateia foi abaixo.

Cantou com os músicos que lançaram hits no ‘Cassino do Chacrinha’; gargalhou ao ver um parapente cair sobre Biáfra e interromper o seu ‘Voar, voar, subir, subir’; divertiu-se com a desafinação dos calouros.

Mas o documentário de Nelson Hoineff desperta também a ira de parte da crítica e do público. ‘É absurdo expor e ridicularizar os calouros e chacretes desse jeito’, disse, à saída do CineOdeon, Anderson Martins, estudante de audiovisual.

‘Tem intelectual que não consegue rir. Esse filme é coisa de povão, faz o que o Chacrinha fazia’, emendou Paulo Girão, professor de música que, quando jovem, esteve no programa do velho e debochado palhaço Abelardo Barbosa (1917-1988).

O filme, em cartaz a partir do dia 30, mais do que compor uma biografia, pretende reviver um tempo e uma TV. O tempo da incorreção política e a TV anárquica. ‘Quis reproduzir o espírito do Chacrinha. Busco a diversão coletiva do programa de auditório’, diz Hoineff. ‘O reverencial e o politicamente correto me enjoam.’

Hoineff é acusado, porém, de flertar com o grotesco. ‘O nível de certas cenas não me agradou. Algumas declarações eram desnecessárias’, disse, ao fim do filme, a ex-chacrete cabocla Jurema. Para outra dançarina, Lúcia Apache, ‘o filme explora a decadência’.

Há quem discorde. ‘O filme é maravilhoso. Expõe um pouco a gente. Mas quem foi chacrete sempre se expôs, não?’, perguntou Gracinha Copacabana. ‘Eu era doida pra ser filmada. Achei lindo demais o filme’, empolgou-se Beth Boné.

Tomar contato com chacretes e calouros de um dos programas de maior sucesso da TV brasileira é aproximar-se do exército de anônimos que a indústria do entretenimento cria para, em seguida, descartar. ‘Fiquei esquecido, mas tenho alma de artista’, crê Manuel de Jesus, buzinado dezenas de vezes. No filme, ele entoa ‘Quando o inverno chegar…’ e, à chegada da nota mais aguda, buzina para si: ‘Fon-fon’.

Há, ainda, os gagos que, aos tropeços, relembram os dias de troféu abacaxi e o homem que, após receber uma buzinada, ganhou o apelido de Almir Fon-fon. ‘Nem saía mais de casa. Só chorava’, diz, chorando de novo, enquanto a plateia ri. São muitas as figuras recolocadas no picadeiro das câmeras por Hoineff.

‘Meu limite foi o limite do Chacrinha. Não ridicularizo ninguém’, garante. ‘Mas tem gente que só acha bons os documentários do Discovery ou aqueles sobre miséria.’

Para Hoineff, o filme causa desconforto porque, ao vê-lo, o espectador é confrontado com o Brasil. ‘O Chacrinha é a antítese do que se faz agora. Hoje, ele não passaria da porta da TV.’ Quase em defesa própria, o diretor mantém, no filme, uma definição de Gilberto Gil: ‘O Chacrinha era um humorista. O humor é cáustico, é cruel’.

Soa a crueldade, por exemplo, a exposição de Índia Potira, seminua, dançando em frente a uma fonte. Ela diz, porém, que o filme realizou, em parte, seu sonho de posar nua. Ao ser convidada para tirar uma foto para a Folha, perguntou: ‘Você quer como? Normal?’. Ao ver-se incompreendida, explicou: ‘É pra eu ir vestida, né?’.

Todas as ex-chacretes empolgam-se ante qualquer luzinha que remeta aos holofotes que um dia conheceram. ‘Você me viu no filme? Gostou?’, pergunta Regina Pintinha. ‘Acho que esse filme recupera nossa história, mostra como a nossa vida continuou.’ Fátima Boa Viagem foi outra a sentir-se recompensada. ‘A gente estava no programa um dia e, no outro, sumiu’, diz lembrando a morte do apresentador. ‘Foi muito difícil. Agora alguém lembrou da gente.’

O que mais incomoda as chacretes no filme são as referências à vida sexual de cada uma delas. ‘É chato, mas cada uma fala por si. Para mim, nenhuma carapuça serviu’, diz Regina Polivalente. ‘A gente estava lá para alegrar o programa.’

Como diz Alceu Valença, Chacrinha era o velho libidinoso, e as chacretes, suas pastoras: ‘Ele levou o pastoril do Nordeste para a televisão. Sua raiz era a cultura popular’. Talvez por isso fosse um barato um cassino do Chacrinha.

A jornalista ANA PAULA SOUSA viajou a convite do Festival do Rio’

 

Marcus Preto

Chacrinha mudou a música dos 60, 70 e 80

‘Não foi só para a formatação conceitual da tropicália -como Caetano Veloso e Gilberto Gil assumiam já nos primórdios do movimento- que, em terreno musical, a algazarra dos programas de Chacrinha foi de grande utilidade.

Ela também serviu como vitrine fundamental para que tanto os artistas da chamada música ‘cafona’ dos anos 70 quanto a geração do rock dos 80 atingissem o público.

‘Muitas bandas da primeira geração dos 80 -como a Blitz e os Titãs- eram muito visuais. E, por isso, se fortaleceram bastante com o Chacrinha’, afirma Ricardo Alexandre, autor do livro ‘Dias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80’.

O efeito, diz Alexandre, era visto nos shows, no formato de público. ‘Segundo as contas do Evandro Mesquita, uma única aparição no programa costumava render um mês de agenda cheia para as bandas.’

Não era muito diferente no começo da década anterior, quando artistas como Odair José e Chico Buarque eram tratados sem grandes diferenciações pelo apresentador.

‘Os programas do Chacrinha foram o espaço mais includente e democrático da música brasileira’, diz Paulo César de Araújo, autor de ‘Eu Não Sou Cachorro, Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar’.

Araújo aponta essa liberdade como a principal causa da saída de Chacrinha da TV Globo, em 1972 (ele retornaria à emissora nos anos 80). ‘O projeto da Globo -e da ditadura- era tirar do vídeo aquela imagem e aquele som ligados à pobreza.’

Quando o programa saiu do ar e o apresentador passou a perambular por outros canais de TV, os ‘bregas’ perderam sua principal porta de entrada nas casas da classe média.

Dali em diante, e por toda aquela década, sobrou a esses cantores o radinho de pilha da empregada e o racha entre ‘MPB de elite’ e ‘música cafona’ se fortaleceu. Com Chacrinha por perto, o apartheid na música era bem menor.’

 

Hugo Possolo

Chacrinha ainda buzinaria a moça e comandaria a massa?

‘Quem ousaria dizer que Roberto Carlos é um bosta? Sob o impacto dessa declaração começa ‘Alô, Alô, Teresinha’, documentário de Nelson Hoineff, que entra em cartaz dia 30. É o ex-calouro Manoel de Jesus quem enche a boca para mostrar que é melhor que o Rei. Mas o pobre canta tão mal que desabamos na gargalhada sem dó. Chacrinha não o exporia a tanto ridículo e apertaria sua buzina antes que ele respirasse para cantar.

O filme deixa o velho guerreiro Abelardo Barbosa e se concentra mais nos que viveram à sua volta: ex-calouros, cantores cuja carreira impulsionou e a vida atual das ex-sensuais e para sempre chacretes. Eram as gostosas in natura, sem silicone, que hoje são simpáticas senhoras, sem o glamour que tinham. Rita Cadillac, dizem, se deu ‘melhor’ em pornôs.

Talvez por falta de imagens de arquivo, trechos em preto e branco do período da TV colorida dão a sensação de incompreensão. Fica no ranço dos perdedores, dos agradecimentos canastrões de antigos ídolos e do envelhecimento das musas do pastoril eletrônico. Coitadas, não foram para o trono e ganharam o troféu abacaxi.

Nu e cru, o filme quebra um pouco a expectativa de quem queria reviver a explosão comunicativa do velho palhaço.

Chacrinha é do tempo em que favela era favela. Não tinha esse eufemismo tolo de dizer comunidade. Não disfarçava o brega, que se assumia em sua plenitude. Apostava na mistura. Elymar Santos usava o mesmo microfone que Caetano Veloso. Raul Seixas ocupava o mesmo picadeiro que Wanderlei Cardoso. Aquilo era a diversidade e não a separação mercadológica da audiência. E não era intenção maquiada de bom mocismo, era a esculhambação pelo prazer da diversão.

O possível herdeiro da pança que balança, Faustão, não se perdeu na noite e fincou o pé nos domingos tornando-os piores que uma enfadonha segunda. Mauricinho de camiseta polo, colocou terno no pagode e casaco de couro no sertanejo. Chacrinha era feira livre e Faustão é shopping center.

Chacrinha promoveu a desmistificação da telinha, revelando e dialogando com os câmeras, fez a balbúrdia permanente sem deixar que organizassem a festa. É nesse contexto que o filme ganha sentido. Um dos pontos altos são as variadas versões para saber quem é a tal Teresinha do bordão. Nenhum filósofo acharia a solução sobre o que é a verdade sob os trópicos.

Gilberto Gil traz a declaração mais contundente ao falar da crueldade do humor. Mas para o doentio apelo do politicamente correto, deboche e esculhambação, hoje, são deméritos. Qual seria, agora, o espaço para as loucuras desse bardo? Jogar farinha nas macacas de auditório, apertar o nariz de um calouro, não deixar ele cantar, iriam para o ar?

Será que o deboche livre de culpa e o descaramento sacana do velho guerreiro caberiam no mundo careta de hoje? Os CEOs das grandes indústrias de comunicação têm capacidade de compreender aquela anarquia? Aceitariam o velho palhaço? Ou a ousadia deve, cada vez mais, chegar enlatada e pronta para fácil consumo? Quem iria querer bacalhau?

HUGO POSSOLO, 47, é palhaço, dramaturgo e diretor dos Parlapatões e do Circo Roda Brasil.’

 

Bia Abramo

Mulheres negras

‘DAS TRÊS novelas da Rede Globo em exibição, duas têm protagonistas negras. De qualquer lado que se escolha, não deixa de ser notável. Salvo engano, é mais um daqueles momentos ‘nunca antes na história deste país’.

É claro que as carreiras de ambas as atrizes, Taís Araújo e Camila Pitanga, têm função fundamental para que elas sejam escaladas nos papéis principais na televisão.

Taís já foi a estrela de ‘Da Cor do Pecado’, novela exibida em 2004 que tinha como um dos temas a relação interracial (e a oposição ferrenha do pai do moço branco e rico por quem a personagem de Taís se apaixonava). A última aparição de Camila na TV foi como a fulgurante Bebel, personagem que roubou as atenções em ‘Paraíso Tropical’.

Também não se pode descartar o efeito coincidência. Com tudo isso, a representação de heroínas não brancas numa vitrine tão grande como a das novelas da Globo parece sugerir uma outra coisa: a constatação de que a televisão, hoje, como fala para uma gente cada vez mais diversa, em todos os sentidos, tem de se abrir para essa diversidade. Dados da última Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados mês passado, apontam que os televisores estão presentes em nada menos que 95% dos domicílios brasileiros.

Ok, ainda é um gesto relativamente tímido escalar atrizes negras como protagonistas. E, evidentemente, não é suficiente para demonstrar a velha tese da democracia racial tampouco é uma prova da não existência de racismo no país, embora talvez haja uma intenção de se dirigir a esses temas que andam rondando a mídia.

Mas ter de responder na teledramaturgia às evidências demográficas, mesmo que a resposta possa ter sido estimulada por um cálculo puramente marqueteiro, não deixa de ser uma espécie de avanço. De certa forma, foi isso que fez Janete Clair em ‘Pecado Capital’, mais de 30 anos atrás, quando criou um protagonista mais popular, o taxista Carlão. E isso foi um dos passos decisivos para mudar a história da telenovela na década de 1970.

Os tempos são, evidentemente, outros e os desafios teledramatúrgicos não serão assim tão simples de resolver. Entretanto, prestar uma atenção inteligente e sensível à diversidade pode ser uma maneira de dar algumas dentro.’

 

ITÁLIA
Folha de S. Paulo

Revés para Berlusconi

‘A DECISÃO do Tribunal Constitucional italiano de anular a lei que dispensava o premiê, Silvio Berlusconi, de responder à Justiça por acusações de fraude fiscal e corrupção foi bem recebida pela opinião pública europeia e americana.

Já na Itália, cujo eleitorado, em sua maioria, tem sustentado as extravagâncias do premiê, a decisão apenas reforçou a polarização no campo político.

Berlusconi representa uma figura forte, bem-sucedida e autêntica aos olhos da parte da sociedade italiana que busca refúgio no conservadorismo e na xenofobia para enfrentar fragilidades e espantar fantasmas. Com o carisma e o desassombro que caracterizam os líderes providenciais, o premiê tem sido hábil em se aproveitar das crônicas deficiências do sistema político italiano para apontar os imigrantes e a esquerda como responsáveis pelos problemas nacionais.

Ao mesmo tempo em que reflete o conservadorismo de uma vasta classe média ameaçada pela letargia econômica, o premiê reforça os traços racistas e provincianos de um país que, ironicamente, foi generosa fonte de migração para as Américas. Uma nação, ademais, que soube fixar no mundo a imagem de sofisticação, criatividade e simpatia.

A anulação da lei não mudará, no curto prazo, o panorama político da Itália -que em pleitos recentes se inclinou pelas forças que sustentam Berlusconi. Mais do que uma péssima notícia para o premiê, a decisão da corte é uma demonstração convincente e alvissareira de que a democracia italiana sabe se defender.’

 

LITERATURA
Euclides Santos Mendes

Língua pátria

‘Anunciada na última quinta-feira como ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura deste ano, a alemã Herta Müller integra uma vertente que, segundo o professor de teoria literária da USP Marcus Mazzari, é marcante na ficção da Alemanha: a de escritores que imigraram para o país.

Nascida na Romênia em 1953, Müller retrata em seus livros ‘a paisagem dos abandonados’ -como definiu a Academia Sueca, que confere o prêmio desde 1901. No Brasil, o único livro publicado da autora é ‘O Compromisso’ (ed. Globo, tradução de Lya Luft). Leia abaixo a entrevista que Mazzari concedeu à Folha, por telefone.

FOLHA – Como o sr. classifica a obra de Herta Müller?

MARCUS MAZZARI – É algo muito específico. Herta Müller faz parte de uma vertente forte da literatura alemã, que é a literatura de imigrantes. Ela elabora nos romances a experiência de vida que teve como membro de uma comunidade alemã na Romênia (com raízes, língua e costumes alemães) durante o governo de Nicolau Ceausescu [1965-89], quando essa comunidade sofreu uma repressão ainda mais dura do que a população romena. Com o enfraquecimento dos regimes comunistas [no Leste Europeu], começou a haver muitas levas de imigrantes de língua alemã.

Na literatura alemã, há um grupo de escritores que vieram da Romênia, e Herta Müller se insere aí. Em 1987, ela foi para a Alemanha com o marido [Richard Wagner], que é poeta lírico. Ambos moram em Berlim. A Romênia teve uma certa projeção [na literatura de imigrantes na Alemanha] porque de lá também veio um dos maiores poetas líricos de língua alemã do século 20, Paul Celan [1920-70]. A situação dele era semelhante à de Herta Müller: veio da Romênia e literariamente usava o alemão.

FOLHA – Livros dela foram censurados na Romênia. Como é a recepção da sua obra na Alemanha?

MAZZARI – Herta Müller não é das escritoras de maior projeção. Seu primeiro livro [‘Niederungen’, Terras Baixas, publicado na Romênia em 1982] causou interesse na Alemanha [onde foi publicado em 1984] por tematizar uma experiência de vida completamente diferente e, até certo ponto, exótica para os leitores da então Alemanha Ocidental.

FOLHA – Ela foi definida, durante o anúncio do Prêmio Nobel, como ‘alguém que, com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, retrata a paisagem dos abandonados’.

MAZZARI – Esse segundo aspecto está ligado diretamente ao favorecimento dessa minoria alemã na Romênia. É o tema do romance ‘Der Fuchs war damals schon der Jäger’ [A Raposa Já Era o Caçador], sobre os problemas de uma professora perseguida pelo serviço secreto. Tematiza as dificuldades com o serviço secreto da Romênia e o espaço dos dissidentes, algo muito comum também na própria literatura alemã.

FOLHA – O sr. acredita que o Prêmio Nobel tende a privilegiar autores fora do grande mercado editorial?

MAZZARI – Neste caso, eu vejo [a premiação] como uma decisão de favorecer e chamar a atenção para uma vertente bastante significativa da literatura europeia, em particular da literatura alemã, que é uma literatura de minorias.

No século 20, esse conceito foi muito forte, tanto durante o nazismo -quando a literatura alemã de qualidade foi escrita fora da Alemanha- quanto nos últimos tempos -com o fim do Muro de Berlim e do comunismo-, quando a Alemanha começou a acolher também contingentes de minorias que viviam na Rússia, na Romênia…

O próprio Günter Grass [autor de língua alemã premiado com o Nobel de Literatura em 1999] tem circunstâncias semelhantes às de Herta Müller.

Ele vem da Polônia, de uma comunidade minoritária que falava alemão. Ele, de certo modo, também pertence a essa vertente de imigrantes [escritores]. O próprio Kafka pertence a uma comunidade que falava o alemão, mas cresceu num ambiente multicultural, falava o tcheco, o alemão.

Um Prêmio Nobel como Elias Canetti [laureado em 1981] veio da Bulgária e escrevia em alemão. Então, de certo modo, há circunstâncias parecidas com as de Herta Müller.’

 

Adriano Schwartz

Consenso de crítica, Roth é preterido mais uma vez

‘Quem já leu o novo romance de Philip Roth, ‘The Humbling’, diz que a história do grande ator que chega à velhice e de repente se sente perdido e inseguro é magnífica. Reação parecida aconteceu quando ‘Indignação’ foi publicado e, antes, com ‘Homem Comum’. Ao que tudo indica, os críticos que acompanham o romance contemporâneo parecem discordar muito pouco em relação ao lugar decisivo do criador de Nathan Zuckerman na literatura das últimas décadas. E Roth, mais uma vez, não ganhou o Nobel.

A longa lista de autores importantes que morreram sem o prêmio (sempre tão exaustivamente repetida) cria a tentação de achar que tanto faz, que é melhor assim ou algo do gênero. Talvez seja. Nós nos acostumamos tanto a relativizar as escolhas, qualquer escolha, que terminamos por diminuir o que não precisaria ser diminuído.

Não conheço a obra de Herta Müller. Não tenho como julgar se houve ou não merecimento, mas tenho a impressão de que Roth está, desde quinta-feira, um pouco mais triste. E, de modo ingênuo e sentimental, fico com pena…

ADRIANO SCHWARTZ é professor de literatura na USP.’

 

A ONDA
Renato Mezan

Perigos da obediência

‘Teria o mês de setembro alguma afinidade secreta com a violência? Diante do número de matanças que ocorreram ou começaram nele, poderíamos brincar com a ideia: em 2001, os atentados de Nova York; em 1939, o início da Segunda Guerra; em 1970, o massacre dos palestinos na Jordânia (o ‘Setembro Negro’); em 1792, grassa o Terror em Paris, que deu origem aos termos ‘septembriser’ e ‘septembrisade’, significando ‘massacre de opositores’ -e haveria outras a lembrar.

Nesse setembro de 2009, um filme -’A Onda’ [em cartaz em SP]- e um livro -’LTI – A Linguagem do Terceiro Reich’ [de Victor Klemperer, trad. Miriam Bettina Paulina Oelsner, ed. Contraponto] nos convidam a refletir sobre a facilidade e a rapidez com que a violência se alastra, fazendo com que pessoas comuns se convertam em sádicos ferozes.

O primeiro transpõe para a Alemanha atual um fato que teve lugar em 1967, na cidade de Palo Alto [EUA]. Querendo mostrar a seus alunos como o fascismo se apoderou das massas nos anos 1930, um professor põe em prática um ‘experimento pedagógico’: durante uma semana, organiza com eles o núcleo de um movimento ao qual dão o nome de ‘Terceira Onda’.

Sem lhes contar que ele só ‘existe’ na escola, vai treinando-os com as técnicas consagradas pelo totalitarismo: exercícios de ordem unida, uniformes, adoção de um símbolo e de uma saudação etc. Os efeitos dessas coisas aparentemente inocentes não tardam a surgir: como num passe de mágica, o grupo adquire extraordinária coesão, que dá a cada integrante a sensação de ser parte de algo ‘grande’ ou, pelo menos, maior que sua própria insignificância.

Aparecem também aspectos menos simpáticos: intolerância contra os que se recusam a participar, desprezo, ódio e logo agressões a supostos opositores (os alunos de outra classe, que estão estudando o anarquismo, passam a ser vistos como anarquistas, e portanto inimigos). Escolhido como chefe pela garotada, o professor se identifica com o papel; rapidamente, o ‘experimento’ foge ao controle -dele e dos próprios integrantes- e termina em tragédia: na vida real, um rapaz perde a mão tentando fabricar uma bomba caseira -o que custou a Jones sua licença para lecionar- e, no filme… bem, não vou contar o desfecho.

Em ‘Psicologia das Massas e Análise do Ego’, Freud desvendou os mecanismos psicológicos que nas ‘massas artificiais’ criam a disciplina e o devotamento ao líder: instituindo-o no lugar do superego, os indivíduos que delas participam passam a obedecê-lo mais ou menos cegamente e, imaginando-se igualmente amados por ele, identificam-se uns com os outros, pois de certo modo são todos filhos do grande Pai.

Instrumentos Nesse processo, abdicam de sua capacidade de pensar por si mesmos; compartilhando a crença na doutrina proposta pelo chefe, que geralmente divide o mundo em bons (os adeptos da ‘causa’) e maus (todos os demais), eles a transformam em instrumento de uma dominação capaz de os arrastar a atos que, se não fizessem parte do grupo, jamais teriam coragem de praticar.

Muito bem dirigido e interpretado, o filme mostra como a euforia de ser membro de algo supostamente tão ‘poderoso’, e o desejo de agradar ao líder, vão dando margem a ações cada vez mais próximas da delinquência. Tudo se justifica em nome da ‘causa’, que no caso é nenhuma: a ‘Onda’ não tem conteúdo, a não ser ela mesma e uma vaga solidariedade entre seus membros, que se incentivam e protegem mutuamente.

Forças destrutivas

À medida que transcorre a semana, no íntimo dos adolescentes dão-se modificações de vulto. Por um lado, eles transferem seu entusiasmo juvenil para o movimento, que desperta neles qualidades até então adormecidas: mostram-se criativos, capazes de levar a cabo projetos que exigem organização e trabalho conjunto (como, por exemplo, a montagem de uma peça de teatro).

Por outro, a vibração dessa intensa energia como que dissolve os freios sociais e morais e libera forças destrutivas das quais não tinham consciência: ameaçam colegas, intimidam crianças, um rapaz esbofeteia a namorada que se recusa a participar do grupo, outro adquire um revólver, um terceiro tenta afogar um adversário no polo aquático…

Nas primeiras décadas do século 20, e em escala muitíssimo maior, os mesmos fenômenos ocorreram em várias sociedades europeias. Os mais graves tiveram lugar na Alemanha, cujo führer arrastou o mundo para uma guerra que deixou dezenas de milhões de mortos e refugiados. Muito se escreveu sobre por que os alemães aceitaram seguir um demagogo enlouquecido e por 12 anos aplaudiram suas iniciativas e seus discursos delirantes, que Victor Klemperer -o autor de ‘LTI’- compara aos ‘desvarios de um criado bêbado’.

Entre os motivos que os levaram a isso, o analisado por ele se destaca como dos mais importantes: a manipulação da linguagem. O estudo da LTI -sigla de ‘Lingua Tertii Imperii’, ou do Terceiro Reich- é uma das mais originais contribuições à compreensão do fenômeno totalitário. Examinando cartazes, livros, jornais, revistas, conversas ouvidas e discursos de dignitários do regime, Klemperer (irmão do regente Otto) mostra como uma ideologia absurda e cruel se entranhou ‘na carne e no sangue das massas’.

Impostas pela repetição e pelo controle absoluto dos meios de comunicação, as frases e expressões nazistas foram ‘aceitas mecânica e inconscientemente’ pelo povo alemão, passando a moldar sua autoimagem e a justificar a barbárie, pelo método simples e eficaz de a fazer parecer natural.

Não é possível, neste espaço, mais do que uma breve referência aos recursos de que se valeram Goebbels [o ministro da Propaganda no regime nazista] e sua corja para obter tão fantástico resultado. Numa prosa límpida, que a tradutora Miriam Oelsner restitui com fluidez e precisão, o autor vai desmontando os ardis que inventaram.

Seu livro revela como a criação de novas palavras, o uso desmesurado de abreviações e de superlativos, a mescla de tecnicismo ‘moderno’ e apelo ao ‘orgânico’, o emprego de estrangeirismos bem-soantes, mas intimidadores, a ênfase declamatória, o exagero, a mentira, a calúnia e, ao mesmo tempo, a pobreza monótona de um discurso calculado para abolir toda nuança e toda reflexão se combinam para produzir alienação.

Até as vítimas do regime empregam, sem se dar conta, termos e expressões da ‘língua dos vencedores’! No filme, temos vários exemplos do poder ao mesmo tempo mobilizador e mistificador da linguagem. Um deles é a explicação dada pelo professor para o exercício de marchar no lugar: ‘melhorar a circulação’.

Ritmo acelerado

O bater dos pés em uníssono cria um efeito de homogeneidade: a energia posta na pisada se espraia por entre os alunos, fazendo-os sentir-se parte de um só corpo e capazes de grandes feitos. O ritmo se acelera, uma expressão beatífica aparece no rosto de alguns, os olhos brilham -alguma coisa está de fato circulando, uma exaltação crescente- e, sem se darem conta, rendem-se à manipulação de que estão sendo objeto.

(Em ‘O Triunfo da Vontade’, Leni Riefenstahl utiliza a aceleração das respostas dos recrutas à pergunta ‘de onde você vem?’ para sugerir que o movimento hitlerista está se expandindo irresistivelmente.) O que ambos -filme e livro- revelam sobre a capacidade do ser humano para obedecer sem questionar é confirmado por diversos experimentos científicos; para concluir essas observações, mencionemos o mais famoso deles.

Em 1961, por ocasião do processo Eichmann, Hannah Arendt falava da ‘banalidade do mal’: o carrasco nazista não era um monstro, mas um homenzinho insosso como tantos que existem em toda parte.

O psicólogo Stanley Milgram decidiu por à prova a ideia de que, sob certas condições, qualquer pessoa pode agir como Eichmann: na Universidade Yale (EUA), convocou voluntários para o que ficou conhecido como Experimento de Milgram (‘google it’, caro leitor, e veja por si mesmo os detalhes do teste).

Em resumo, pedia aos ‘instrutores’ que acionassem um aparelho de dar choques a cada vez que os ‘sujeitos’ errassem na repetição de certas palavras. A voltagem iria num crescendo, atingindo rapidamente patamares que, era-lhes dito, poderiam causar danos irreversíveis ao cérebro. A máquina, é claro, estava desligada; do outro lado da parede, o ator que representava a pessoa sendo testada permanecia incólume, apenas gritando como se estivesse de fato sendo eletrocutado.

O objetivo do experimento não era avaliar a memória dele, mas até onde seriam capazes de ir os ‘instrutores’. Para surpresa de Milgram, dois terços deles superaram o limiar além do qual o choque levaria a prejuízos irreparáveis.

Ao chegar ao nível perigoso, muitos se mostravam aflitos, mas cediam aos pedidos do psicólogo para prosseguir; mesmo cientes das consequências para o outro, a garantia de que nada lhes aconteceria bastava para continuarem a apertar os botões. O artigo em que Milgram discute sua experiência -cujo título tomo emprestado para estas notas- tornou-se um clássico da psicologia.

Ela foi reproduzida em outros lugares, com outros sujeitos, por outros cientistas -sempre com resultados próximos aos da primeira vez. A conclusão do psicólogo americano merece ser citada: ‘A obediência consiste em que a pessoa passa a se ver como instrumento para realizar os desejos de outra e, portanto, não mais se considera responsável por seus atos. Uma vez ocorrida essa mudança essencial de ponto de vista, seguem-se todas as consequências da obediência’.

Outros experimentos, como o Experimento Prisional de Stanford, de 1971, confirmam os achados de Milgram e, a meu ver, também a análise de Freud sobre a submissão ao líder.

Nestes tempos em que, sob os mais variados pretextos, volta-se a solicitar nossa adesão a ideais de rebanho, impõe-se meditar sobre o que em nós se curva tão facilmente à vontade de outrem.

A ‘servidão voluntária’ de que falava La Boétie nos idos de 1500 espreita nas nossas entranhas; já o sabia Wilhelm Reich, cujo alerta é hoje tão atual quanto em 1930: ‘O fascista está em nós’.

RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção ‘Autores’, do Mais!.’

 

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