Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Folha de S. Paulo

28/07/2009 na edição 548

BIOGRAFIA
Clóvis Rossi

Moralidade, Hitler e paisagens

‘SÃO PAULO – Há momentos em que gostaria de ser de fato amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como ele me classificou em entrevista à revista ‘Piauí’. Não, presidente, não é para pedir emprego que estou velho demais para mudar de lado no balcão da vida.

É que amigo, ao menos do meu ponto de vista, é quem diz as verdades, as agradáveis e as desagradáveis. Desconfio que, no entorno de Lula, ou falta coragem para dizer verdades desagradáveis ou o presidente não as ouve. Só assim se explica a catarata de bobagens em que se especializou.

A mais recente delas é esta: ‘Uma coisa é você matar, outra coisa é você roubar, outra coisa é você pedir um emprego, outra coisa é relação de influências, outra coisa é o lobby’. Pior: dito assim como se fosse a mais fantástica descoberta da mente humana desde que Moisés exibiu as tábuas da lei.

Perdão, presidente, mas é ridículo, muito ridículo. Até minha netinha Alice, de quatro meses, é capaz de produzir uma frase com obviedades menos galopantes.

Está na hora de Lula entender que está saindo do palanque para entrar na história. Por enquanto, a catarata de bobagens passa incólume porque a popularidade continua elevada e a maior parte dos que conferem a Lula os índices de aprovação conhecidos não liga a mínima para frases tolas.

Mas os livros de história podem não ser tão condescendentes. Aliás, nem todos os que gostam do governo Lula o são, a julgar pelo que escreve Raphael Portella, professor aposentado de universidades públicas: ‘No geral, aprecio o governo Lula, mas no aspecto moral, de defesa da honestidade, dos princípios republicanos, fico do outro lado’.

Acrescenta uma frase mortal: ‘A biografia de Hitler não é melhor porque ele pintava paisagens’. Cuidado, pois, amigo Lula, com as paisagens que pinta.’

 

Ruy Castro

Tiro nos biógrafos

‘RIO DE JANEIRO – Nesta semana, o presidente Lula disparou um projétil endereçado ao Ministério Público, à imprensa e a quem coubesse a carapuça, advertindo que, numa investigação, se pensasse ‘não apenas na biografia de quem está fazendo a investigação, mas, da mesma forma, na biografia de quem está sendo investigado’.

Sob a frase, dita em português do planeta Bizarro, esconde-se uma ameaça aos investigadores e/ou biógrafos: cuidado com o tratamento aos ex-presidentes. Nominalmente, José Sarney -mas Lula poderia estar se referindo também a seu novo aliado Fernando Collor ou a seu subitamente cordial adversário FHC. Ou a si próprio, quando se despir dos paramentos daqui a um ano e meio.

Ele tem razão para se preocupar. Acertou ao comparar uma biografia a uma investigação. Há quem a chame, com impropriedade, de ‘pesquisa’ -o que se aplica mais à fase do mergulho em documentos, recortes e material já impresso. Mas, se uma biografia fosse só isso, o biógrafo seria apenas um enviado especial ao arquivo.

A palavra correta é mesmo investigação -a localização de fontes vivas e primárias, as centenas de entrevistas e o escarafunchar pessoal dos cenários, inclusive o dos crimes. Um biógrafo digno do nome gasta a sola do sapato que nem um detetive. E, em certas biografias, o criminoso pode não ser o mordomo, mas o próprio biografado.

De Getúlio e JK para cá, nossos ex-presidentes têm sido poupados em biografias. A maioria só mereceu obras gerais sobre seus períodos de governo, algumas excepcionais, mas não biografias que os esmiuçassem como homens privados e públicos. Quem sabe como era, digamos, o homem Garrastazu Médici por trás do frio ditador? E quando saberemos quem foi o verdadeiro presidente Lula por trás do pitoresco e folclórico cidadão?’

 

POLÍTICA CULTURAL
Ana Paula Sousa

Lula critica mau uso da Lei Rouanet

‘Tudo indicava que a noite seria de tapinhas nas costas, propaganda política e show. De fato, foi. Mas o lançamento do Vale-Cultura, anteontem, na sede da Fecomercio (Federação do Comércio), em São Paulo, teve também seu momento de sorrisos amarelos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou contra certos usos da Lei Rouanet e deixou constrangidos alguns dos presentes.

‘As pessoas veem o Itaú [Cultural] e nem sabem que aquilo não é deles. Aquilo não tem um tostão do Itaú’, afirmou. Minutos antes, a mestre de cerimônias, Zezé Mota, havia agradecido a presença de Milu Vilela, herdeira do banco, na plateia. Sobrou também para as empresas que produzem ‘livro de fotografia enorme, pesado que é uma disgrama [sic], e que ninguém vê’.

Integrante do projeto de reformulação do financiamento à cultura, o Vale-Cultura traz, em si, a discussão sobre a falta de acesso ao que se produz. Não por acaso, seu lançamento serviu para reiterar a intenção do governo de mexer na Lei Rouanet, o principal mecanismo de incentivo cultural do país. O superintendente do Itaú Cultural observa que, apesar da verdade do dado -as empresas não aplicam dinheiro próprio em suas ações-, a crítica de Lula errou o alvo. ‘Dos R$ 37 milhões operados pelo Itaú anualmente, cerca de R$ 18 milhões são de recursos próprios’.

Mas, se houve farpas, houve também afagos. O governo, antes de lançar o projeto, articulou-se com empresários -tanto que o grupo VR já anunciou seu Vale-Cultura. ‘Vamos ter que trabalhar com os empresários. Meus companheiros sindicalistas vão ter que negociar isso nos acordos. Se o trabalhador não souber que tem, não vai usar’, disse Lula.

Ideia herdada do intelectual Sergio Paulo Rouanet, autor da lei, o Vale-Cultura era, desde o início do governo Lula, uma promessa. Juca Ferreira, ministro da Cultura, num discurso emocionado, disse que os cidadãos devem ter ‘algo além das necessidades mínimas’. Lula partiu dessa ideia para defender a abertura de salas de cinema e a melhoria na distribuição de filmes. ‘Não é mais possível o Brasil continuar produzindo coisas de ótima qualidade e ter uma distribuição de péssima qualidade.’

Os artistas, por sua vez, disseram estar apreensivos quanto ao futuro do vale. ‘Ainda é um PL. Vai depender da vontade coletiva, da ‘equação Brasil’, que não é simples’, diz o músico Antonio Nóbrega. ‘Mais difícil do que aprovar é conscientizar a tropa de elite de que isso deve ser transferido para quem precisa’, disse o cineasta Hector Babenco.

O cantor Chico César, estrela do show que levou os quatro cantos do Brasil ao palco, observou que o Vale-Cultura é, sobretudo, uma mudança de rota. ‘Em qualquer área, as políticas públicas são feitas para a sociedade. Na cultura, são para o artista. O vale muda isso.’

Em meio a tantas falas, uma voz chamou a atenção pelo silêncio. O professor Antonio Candido, 90 anos, passou o evento todo sentado e, no fim, ao ser abordado pela reportagem da Folha, disse apenas: ‘Já passei vergonha o bastante por hoje’, referindo-se a brincadeiras e elogios feitos a ele pelo presidente. Segundo Lula, Candido inspirou a noite.

Para definir o Vale-Cultura, o MinC fez correr por um telão um texto em que Candido defende que ‘a fruição da arte e da literatura em todos os níveis é um direito inalienável’.’

 

***

Ministério da Cultura adere ao marketing

‘Comumente chamado de ‘esquerda do governo Lula’ e lugar mais de ideias que de ações, o Ministério da Cultura teve seu momento de reconhecimento governamental. Desde o projeto de criação da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), em 2003, trazido a público pelo MinC e engavetado pelo governo, o que sai da pasta tende a ser recebido com certa desconfiança -como se nada garantisse que aquilo que o MinC diz seja política de governo.

O tom do evento do Vale-Cultura indica que, ao contrário do que imaginam alguns, as falas do ministro Juca Ferreira não estão descoladas do Planalto. A pompa da noite, por outro lado, mostra que, depois de alguns ‘pitos’ públicos, o MinC entendeu que, para fazer valer suas ideias, é preciso embalá-las para consumo. Para quem acompanhou as trapalhadas à época da Ancinav -que rendeu ao MinC acusações de stalinismo-, a cerimônia de anteontem na Fecomercio soou a megaevento.

Ficou também a sensação de que o discurso presidencial foi pensado como recado: a Lei Rouanet será, sim, modificada, e o empresariado terá de meter a mão no bolso.’

 

Mônica Bergamo

Gota no mar

‘Lançado anteontem como um possível salvador da cultura nacional, o Vale-Cultura -que, caso seja aprovado pelo Congresso, dará R$ 50 para os trabalhadores gastarem em peças de teatro, cinemas e exposições- já é considerado insuficiente por artistas renomados. ‘O valor deveria ser triplicado. O projeto é importante, mas é apenas uma gota no mar’, diz a artista plástica Maria Bonomi.

CARTEIRINHA

Para o cineasta Hector Babenco, o valor é suficiente para um casal ir ao cinema uma vez por mês. Já para teatro e shows com artistas consagrados, cujos ingressos quase sempre são bem mais caros do que R$ 50, o diretor diz: ‘Deveriam dar carteirinha de estudante para os trabalhadores’.

UM POR MÊS

Já a cantora Tetê Espíndola acredita que R$ 50 é melhor do que nada. ‘A pessoa pode escolher: em um mês vai ao teatro, no outro, a um show.’

PREÇO DO SUCESSO

A cerimônia de lançamento do benefício foi realizada no teatro Raul Cortez, em SP, que abriga a peça ‘As Centenárias’, com Marieta Severo e Andréa Beltrão. O ingresso mais barato do espetáculo custa R$ 80.’

 

TELEVISÃO
Lucas Neves

Chico Anysio faz dupla jornada no horário nobre

‘Depois de aparições bissextas na televisão nos últimos anos, Chico Anysio, 78, volta ao horário nobre em jornada dupla. Hoje, reencarna o pomposo apresentador Alberto Roberto, no especial de dez anos de ‘Zorra Total’. E desde ontem, interpreta Namit, diretor de Bollywood que se finge marajá para aplicar um golpe na família de Manu (Osmar Prado), em ‘Caminho das Índias’.

Ironicamente, o personagem da novela diz muito sobre os rumos que a carreira do humorista tomou recentemente. Afastado da TV, ele passou a ser assediado por cineastas: de um ano para cá, rodou participações no infantil ‘Uma Professora Muito Maluquinha’, na cinebiografia do forrozeiro Frank Aguiar, ‘Sonhos de um Sonhador’, e no remake de ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’, entre outros.

‘O cinema me descobriu. Se pudesse, só fazia filmes’, afirma, antes de entregar uma ponta de mágoa. ‘Fiquei chateado por não ter entrado no do [Arnaldo] Jabor [‘A Suprema Felicidade’]. Não me convidaram.’

Entre um set de filmagens e outro, Anysio pouco tem visto TV. O que não o impede de ter uma ou duas impressões sobre as atrações cômicas no ar atualmente. ‘O ‘CQC’ não é um programa de humor, mas de jornalismo irreverente […] E o ‘Toma Lá, Dá Cá’, não posso falar… [pausa] não há como falar sem fazer críticas. Ouço elogios, muitos, à ‘Grande Família’.’

Regina Casé

Contratado da Globo até 2012, ele lamenta que o humor televisivo tenha perdido ‘uma de suas maiores estrelas’, Regina Casé. ‘Ela deixou de ser uma grande atriz cômica para ser uma repórter que traz coisas de pobres para a gente ver. Para ver pobre, não preciso dela. Moro em São Conrado [zona oeste do Rio]. Abro a janela e vejo [a favela da Rocinha].’

Quanto à possibilidade de voltar a estrelar um programa de humor, Anysio é taxativo. ‘Devagar sobre o impossível!’ Mas, para não ser pego desprevenido no caso de mudança de sorte, tem na manga o projeto de ‘Tudo Eu’, programa de esquetes ao vivo em que, garante, pularia de um tipo a outro em um minuto e 20 segundos.

Na gaveta também está a série ‘Inimiga Pública nº 1’, versão de uma peça sobre uma senhora que, depois de saber dos planos do filho de despachá-la para um asilo, entra para a máfia e chega a assaltar a bilheteria do estádio do Morumbi. Para apresentar formalmente o projeto, no entanto, ele espera ‘a direção da Globo ficar mais simpática’ à sua pessoa.

Enquanto isso, sobe todo domingo (até 16/8) ao palco do Bar Brahma-Aeroclube, em São Paulo, para desfiar, ao lado do filho André Lucas, um repertório de piadas batidas sobre sexo, política, gays e nordestinos.’

 

Folha de S. Paulo

Shaquille O’Neal vai estrelar série

‘O astro do basquete Shaquille O’Neal vai protagonizar um seriado em que disputará provas esportivas com campeões de outras modalidades.

‘Shaq Vs.’ vai colocar o ex-atleta da NBA para nadar contra Michael Phelps, disputar futebol americano contra o quarterback Ben Roethlisberger, jogar tênis contra Serena Williams e lutar boxe com Oscar de la Hoya, entre outros nomes já confirmados na escalação.

O programa estreia na ABC norte-americana no dia 18 de agosto.

‘Esses atletas podem estar no topo de seus esportes, mas eu topo o desafio. Vou treinar muito e vencer a prova’, disse ele, durante a divulgação do reality show esportivo na semana passada.’

 

***

Jorja Fox fecha contrato para voltar para ‘CSI’

‘A atriz Jorja Fox, que vive a detetive Sara Sidle em ‘CSI’, vai voltar a participar do seriado na estreia da décima temporada, a ser exibida em 24 de setembro nos Estados Unidos (a data no Brasil ainda não foi definida).

Ela saiu no oitavo ano do programa de investigação policial, que se passa em Las Vegas, após sua personagem voltar a se envolver com bebida. Depois, teve uma reaparição rápida na temporada passada para se reunir com Gil Grissom (William Petersen), que também saiu do seriado.

De acordo com a produtora-executiva Carol Mendelsohn, a estreia vai mostrar ‘onde a vida levou Sara e o que a traz de volta para a equipe’. O contrato estipula participação em vários episódios.’

 

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