Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 24 E 25/1

Folha de S. Paulo

27/01/2009 na edição 522

TELEVISÃO
Daniel Castro

Após queda, consumo de TV por crianças volta a crescer

‘Depois de um recuo inédito em 2007, o consumo de televisão por crianças e adolescentes voltou a crescer em 2008.

Relatório do Ibope, obtido com exclusividade pela Folha, mostra que crianças de 4 a 11 anos ligaram a TV durante 4 horas e 54 minutos por dia, quase quatro minutos a mais do que no ano anterior.

Os dados são da medição nacional do Ibope para TV aberta, que representa 55,8 milhões de telespectadores. Incluem os tempos dedicados a canais pagos, DVDs e videogames, que vêm crescendo. O relatório não detalha o consumo por mídia, mas a TV aberta, apesar de ligeira queda, tem domínio esmagador (próximo de 90%).

Uma informação alentadora: o tempo divulgado pelo Ibope não é exatamente o tempo que as pessoas prestam atenção à programação, mas o quanto elas deixam o televisor ligado. Ou seja, uma pessoa pode deixar a TV ligada durante seis horas, mas só assisti-la de fato durante três horas.

Na média geral, o brasileiro consumiu 5h08min52s de TV por dia, 2 minutos e 33 segundos a mais do que em 2007. Mulheres ficaram à frente da tela durante 5h24min04s, 33 minutos a mais que os homens.

O consumo cresceu em todas as classes e em quase todas as idades -exceto entre 18 e 24 e entre 25 e 34 anos. Os ‘campeões de audiência’ têm mais de 50 (veja quadro abaixo). A classe AB dedicou 4h43min à televisão, contra 5h18min da C e 5h29min da DE.

De acordo com o Ibope, o crescimento de novas mídias não reduz o consumo de TV porque as pessoas estão cada vez mais multimídias e fazem várias coisas simultaneamente.

ENTRE A ÉTICA E O AMOR

Ligia Brandão, personagem de Miriam Freeland, atravessará a próxima novela da Record (ainda sem título) sob um dilema. Ela se apaixonará pelo mafioso Tony (Gabriel Braga Nunes). O problema aumenta porque Ligia é jornalista e terá que fazer reportagens justamente sobre Tony. ‘Ela fica entre a ética profissional e o amor. Gosta de Tony, mas sabe que ele é um canalha, matador, traficante’, conta a atriz. A protagonista da trama de Lauro César Muniz também se envolverá com o delegado Téo (Tuca Andrade).

A COR DE HELENA 1

Manoel Carlos, escalado pela Globo para escrever a novela que substituirá ‘Caminho das Índias’, diz que ainda tem muitas dúvidas sobre sua próxima protagonista, que, mantendo tradição, se chamará Helena. Por enquanto, só tem certeza de que Helena será ‘jovem, muito bonita e com sede de viver’. ‘Ela é fotógrafa de moda e já foi modelo. Parou de desfilar por conta do casamento com um homem mais velho’, adianta.

A COR DE HELENA 2

A grande dúvida de Manoel Carlos está na cor da pele de Helena. O autor já deu declarações que levaram jornalistas a interpretar que o papel seria de Taís Araújo, mas afirma que ainda não a convidou e que não decidiu se quer mesmo uma protagonista negra. Revela que dividirá a decisão com Manoel Martins, diretor da área de entretenimento da Globo, e com Jayme Monjardim, diretor da novela, em reunião no próximo dia 9. Ah, a novela se chamará ‘Viver a Vida’.

COMÉDIA

Adriane Galisteu voltará a atuar como atriz na TV. Terá que interpretar em vários quadros de seu novo programa na Band, a estrear em março, nas noites de sextas. ‘Estamos desenhando um programa com muitos quadros e formatos fortes. Vamos aproveitar o lado show-woman de Adriane, explorar seu potencial de atriz de comédia’, adianta Elisabetta Zenatti, diretora artística da Band. Adriane também fará viagens ao exterior.’

 

 

Painel do Leitor

BBB

‘‘Andam dizendo que a Rede Globo de Televisão (a antiga eterna líder de audiência) está sofrendo ataques fulminantes da concorrência. Espanta-me a demora por isso acontecer; não conheço uma pessoa que goste e assista ao ‘Domingão do Faustão’, que não passa de um enorme chato televisivo. Agora, para coroar, a Globo nos presenteia com o ‘Big Brother’, uma eloquência e riqueza em matéria de idiotices e inutilidades. Assiste quem quiser e for o dono do aparelho de TV, mas isso continua sendo o ‘padrão Globo de televisão’? Seria esse o nível de telespectador pretendido pela Globo para afastar a concorrência?’

MAURICIO VILLELA (São Paulo, SP)’

 

 

Mônica Bergamo

‘Um passeio pelas araras do guarda-roupa que deve virar moda no país pelas mãos de lojistas que apostam alto na influência da novela e já começam a formar estoques para oferecer à clientela

O indiano Sarabjeep Singh Bedi acaba de embarcar para Nova Déli para comprar 40 caixas de bijuterias. Os acessórios são a grande aposta de sua importadora de artigos orientais, a Goa Internacional, loja de atacado na rua 25 de Março. ‘Vai ser igual na época do ‘Clone’ [novela de 2001-02, ambientada no Marrocos]. Vira febre, mas depois da novela, passa’, diz Felipe Augusto Franco, gerente da loja de Bedi.

Ele diz que, com a estreia de ‘Caminho das Índias’, na última segunda, espera ter um aumento de 60% no movimento de ‘fregueses da moda’. ‘São os lojistas que agora buscam lenços, batas e muita bijuteria, embalados pela TV.’ A loja é uma das fornecedoras da figurinista Emília Duncan, 50, que cuida das roupas da novela.

‘No começo, o excesso de cores que os indianos usam choca até nós, brasileiros’, diz Emília. ‘O choque da miséria é muito atenuado pela cor. Você vê a mulher pobre, f…, vestindo rosa-choque. Vê uma criança remelenta cheia de [acessórios] dourados nos braços. É incrível. Acho que quem inventou o psicodelismo tomou um ácido e viu aquelas cores todas da Índia’, afirma ela, enquanto almoça, às 15h, um salgado de frango e um copo de chá gelado, num camarim no Projac (complexo de estúdios da TV Globo no Rio de Janeiro).

Formada em história, filosofia e moda, Emília diz que a concepção do figurino levou quase nove meses de pesquisas em viagens para o Oriente e consultas bibliográficas, que viraram um glossário. O livrinho, que explica com fotos o nome e um pouco da história das peças e acessórios, foi distribuído ao elenco da nova novela, a camareiras e a costureiras. Todos tiveram que decorar o que é, por exemplo, o ‘choli’, uma espécie de miniblusa como a que a atriz Juliana Paes usa na foto. Ou o ‘petticoat’, tipo de anágua usada por baixo do sari.

‘É claro que as brasileiras não vão começar a usar sari pelas ruas, mas a moda é adaptável’, diz Emília. ‘Tradicionalmente, os ombros e as pernas são áreas de muito pudor para as indianas’, explica. ‘Já a barriga pode ser mostrada sem constrangimentos. Ao contrário do Brasil.’ As brasileiras, acredita a figurinista, devem ser arrebatadas pelas calças, batas, acessórios e lenços.

Mesmo a novela sendo gravada em alta definição, técnica que capta melhor as cores, não houve restrições na palheta de tons. ‘No começo as pessoas vão estranhar. Até porque estamos vindo de uma novela mais ‘dark’ [‘A Favorita’]’, diz, enquanto caminha pela ‘gaiola das loucas’, um pavilhão do Projac onde são produzidas e guardadas as roupas da novela. ‘É muito louco participar desse universo, é muito aprendizado’, diz a costureira Lu Fernandes, 41, enquanto ajeita o sari no manequim que está perto de sua máquina de costura.

Há fotos de indianos pregadas em todas as paredes, por onde passam costureiras e fashionistas apressados. Eles têm de abastecer as dezenas de araras abarrotadas. Em cada uma, há um papel sulfite com o nome do ator e do personagem. Juliana Paes, a protagonista, é a campeã de looks: 80 antes da estreia da trama. Há também saletas onde são estocados aviamentos e cortes de panos importados do Oriente, que vão ganhando contornos muitas vezes pré-montados, como os ‘saris automáticos’ dobrados e presos com colchetes, para ajudar a vida das atrizes.

Reportagem DÉBORA BERGAMASCO’

 

 

Silvana Arantes

Tony Ramos vibra em silêncio com o sucesso

‘Nesta altura de sua carreira, iniciada aos 14 anos de idade, o ator Tony Ramos, 60, está seguro de que o público ouve até o que ele diz só para si mesmo. Um exemplo está no longa-metragem ‘Se Eu Fosse Você 2’, de Daniel Filho, um sucesso que está nos números de bilheteria (aproxima-se dos 4 milhões de espectadores) e nas rodas de conversa pelo país.

Outro dia, a caminho de um restaurante, no Rio de Janeiro, onde vive, Ramos ouviu ‘do frentista do posto, do guardador de carros, do porteiro e do maître’ comentários elogiosos à cena em que seu personagem, Cláudio, discute os termos do divórcio da mulher (Glória Pires) diante de um advogado. O que se ouve no filme é Cláudio repetindo, em tom sussurrado, a lista dos bens que o advogado sugere ficar com a ex. Os espectadores, contudo, captaram a revolta colérica que toma conta dele. O truque, diz Ramos, está em seu ‘texto interior’, em ter imaginado ‘um grande palavrão, sem dizê-lo’, no fato de que ‘por dentro, a cabeça era quase um vulcão’. Como os adeptos da tese de que ‘menos é mais’, Ramos diz que ‘a representação está em não complicar’, o que significa que, ‘além de entender, compreender e decorar, é preciso saber que você não é aquele personagem e brincar com ele’.

Viver o personagem, não!

Ramos é, portanto, um tipo de ator avesso ao trânsito aparentemente esquizofrênico dos que ‘entram’ e ‘saem’ constantemente de seus personagens. ‘Não consigo viver o personagem. Não há a menor possibilidade de eu levar um personagem para a minha casa!’ O que fez Tony Ramos, ou melhor, Antônio Carvalho Barbosa Ramos querer ser ator foram os ídolos que ele via nas matinês de cinema, quando garoto. ‘Eu queria ser Oscarito [1906-70] e Totò [1898-1967].’

Nascido na Espanha, Oscarito chegou ao Brasil aos dois anos de idade e fez história no cinema nacional, como astro da Atlântida. É considerado por muitos críticos o maior comediante que o país já teve. O italiano Totò é, na opinião do crítico da Folha Inácio Araujo, ‘o grande comediante do pós-guerra; ele fazia na chave da comédia o que o neo-realismo fazia como drama’. Porém, não é exatamente à comédia que a carreira de Ramos é mais comumente associada pelo público, mas sim ao estereótipo do galã de novela.

Até aqui, são 72 personagens desempenhados na TV, numa trajetória iniciada em 1964, quando Ramos despontou no programa de Ribeiro Filho ‘Novos em Foco’ (Tupi) e ali chamou a atenção do diretor Cassiano Gabus Mendes. Na recém-estreada novela das oito da TV Globo, ‘Caminho das Índias’, Ramos interpreta o sisudo Opash, um conservador patriarca indiano, que procura manter a família fiel às tradições mais ortodoxas.

Respeito ao folhetim

O ator estava na Alemanha, em julho passado, quando a autora Glória Perez lhe telefonou, com o convite para participar da novela. Mesmo de férias, após as filmagens de ‘Se Eu Fosse Você 2’, ele se dispôs a ouvi-la, porque considera ‘Glória Perez uma autora que respeita o folhetim’. E Tony Ramos é alguém que há muito tempo aprendeu a respeitar quem respeita o folhetim. ‘Quando a gente dizia: ‘Isso só acontece em novela!’, dona Janete respondia: ‘Cuidado, que a novela busca [suas tramas] na vida’, conta ele. Papisa da escrita melodramática para a TV, Janete Clair (1925-1983) e Ramos tinham uma relação amistosa o bastante para que ele a tratasse sem a formalidade do ‘dona’.

Mas ele prefere manter a forma mais respeitosa. ‘Às vezes tenho esse tom com ela e com dona Ivani Ribeiro [1916-1995].

É uma questão de homenageá-las. São grandes autoras. São clássicas. São inesquecíveis.’

Nu na TV

Foi numa novela de ‘dona Janete’, ‘O Astro’, que Ramos fez seu primeiro nu na teledramaturgia, que ele calcula ter sido também o primeiro nu masculino da TV brasileira.

‘Era 1977. Havia censura. Mas dona Janete conseguiu convencê-los de que era importante’, recorda. A cena mostrava o rompimento de um filho, Márcio Hayala (Ramos), com o pai, Salomão Hayala (Dionísio Azevedo). ‘Eu dizia: ‘De você, nem o dinheiro que comprou essa roupa eu quero mais’. Tirava a roupa e saía’, conta o ator. Quem o dirigiu? Daniel Filho.

Desde então, só fez crescer a confiança do ator no diretor.

Ramos diz que faz ‘qualquer projeto proposto pelo Daniel’, cujo talento ele julga insuficientemente reconhecido no Brasil. ‘Lá fora, as pessoas veem esse filme e comentam: ‘What a timing!’. O tempo de comédia do Daniel é genial.’ De estrangeiros e de compatriotas, Ramos ouve ‘desde os anos 70’ previsões sobre ‘o colapso da novela’. Mas ele é categórico na avaliação contrária: ‘A novela continuará’.

Para Ramos, ‘a discussão sempre é sobre como fazer para manter o espectador interessado’. E a resposta, para ele, não muda nem falha: ‘texto, texto e texto’ e a obediência ao tripé ‘amor, paixão e suspense’.

Um recurso que pode se tornar mais comum, avalia o ator, é o da inversão de expectativas do público, como foi a escalação de Patricia Pillar no papel de vilã e de Cláudia Raia como a sofredora na trama de ‘A Favorita’ (João Emanuel Carneiro), que antecedeu o folhetim ‘Caminho das Índias’.

‘Esse tal do sucesso’

Convidado a responder se também concordaria em ‘desconstruir’ sua imagem de ‘mocinho’ na TV, Ramos responde: ‘Já fiz isso muitas vezes!’.

Sem pausar a fala, ele cita cinco personagens (confira quadro à dir.) nos quais explorou facetas mais complexas e/ ou sombrias da alma humana e acrescenta o Cláudio, de ‘Se Eu Fosse Você 2’, que passa pela experiência de ser uma mulher no corpo de um homem.

Mocinho ou vilão, Ramos habituou-se a ter uma carreira que se mantém em evidência há décadas. ‘A vida já me deu muita coisa. Eu me sinto muito recompensado por esse tal do sucesso’, afirma.

Desse ‘tal do sucesso’, assim como de ‘dona Janete’, ele mantém distância respeitosa. ‘O que o sucesso dá é mais conforto para escolher novos projetos. É muito bom a gente comemorá-lo, silenciosamente. É uma característica minha. Sou muito feliz com o hexa do meu São Paulo, mas não saio por aí gritando, ‘Que venha o hepta!’.

Colaborou LAURA MATTOS, da Reportagem Local’

 

 

Juliana Lugão

Vilã de ‘Malhação’ vira santa em novela

‘Débora Falabella fez em 1998 e estourou em ‘O Clone’ (2002). Priscila Fantin, em 1999, e logo conquistou destaque. Thiago Lacerda participou e se tornou o mocinho de ‘Terra Nostra’ (1999).

Em 2008, foi Nathalia Dill, 22, quem fez sucesso em ‘Malhação’ e agora se prepara para ser uma das protagonistas de uma novela. A atriz é mais um exemplo de como a novelinha adolescente funciona como catapulta para atores e atrizes que estão começando na Rede Globo.

Assim, Nathalia parte da vilã carioca Débora, sucesso entre os fãs, para a mocinha do interior Maria Rita, a Santinha, em um remake de ‘Paraíso’, sucesso de 1982 assinado por Benedito Ruy Barbosa.

Será a próxima novela das seis, substituindo ‘Negócio da China’, de Miguel Falabella, que teve a pior audiência nessa faixa de horário desde 2000.

Com estreia prevista para a primeira quinzena de março, Nathalia ainda não começou a gravar e está aproveitando para descansar. Com a equipe já em Mato Grosso, ela não tem mais como preparar seu novo personagem -o que fez em dezembro, assim que se despediu da vilã Débora.

‘A Débora é mais próxima de mim: é carioca, parecida. A outra [Maria Rita] é religiosa, uma mocinha; e as mocinhas são cada vez mais raras nos dias de hoje… Então o personagem fica mais distante’, afirma a atriz, que está focando o estudo da nova personagem na descoberta da religião e em amenizar o sotaque carioca -carregado- para viver a menina do interior.

Teatro e cinema

Contratada da emissora até 2012, Nathalia trancou a matrícula no curso de direção teatral na Universidade Federal do Rio de Janeiro para se dedicar ao trabalho na televisão.

‘A minha preferência era poder fazer tudo sempre, né? Eu fiquei um tempo fazendo TV e senti necessidade do teatro [ficou um mês em cartaz com ‘Boca de Cowboy’, com direção de Michel Bercovitch], mas enlouqueci’, conta ela, que fez participações em ‘Tropa de Elite’, de José Padilha, ‘Feliz Natal’, de Selton Mello, e ‘Apenas o Fim’, do jovem Matheus Souza.

A experiência da carioca é grande para quem tem apenas 22 anos. Nascida e criada na zona sul do Rio, já no jardim de infância fazia aulinhas de atuação. E nunca mais parou. Durante a adolescência, procurou cursos livres e a escolha pela faculdade não foi uma dúvida -ainda que os pais não façam parte do meio (‘eles consomem arte e cultura, sabe?’).

Certa apenas de que gosta de atuar, Nathalia ainda está descobrindo o que quer.

‘É engraçado: eu não tenho o meu ‘projeto de vida’: a peça que eu sonho em montar [ou interpretar] ainda não descobri, e acho que é porque ela ainda nem está escrita.’’

 

 

Rafael Cariello

‘Exotismo’ de novela encontra limites sociais

‘Além de falarem a mesma língua (o português), há outra impressionante identidade entre Brasil e Índia na nova novela das oito, ‘Caminho das Índias’: o tamanho dos ‘palácios’ das famílias ricas de ambos os países, com seus pés-direitos monumentais, suas muitas salas e antessalas, seus serviçais e familiares agregados.

Têm realmente uma escala ‘oriental’ -reparem nas portas, na altura dos tetos- as residências da elite carioca, ali. É, no entanto, em torno das diferenças culturais que gira a dança de quadrilha dos conflitos amorosos da trama. O ‘tempero exótico’, além da cafonice, é uma das marcas de sua autora, Glória Perez.

Dessa vez, há o jovem indiano que faz negócios no Brasil e ameaça desrespeitar um dos preceitos de sua cultura -o casamento arranjado- para poder se unir à amada brasileira. Isso porque, claro, ele ainda não conhece Juliana Paes, moça de grupo social superior e operadora de telemarketing que já se apaixonou por um integrante de casta ‘intocável’ com doutorado nos Estados Unidos (Márcio Garcia).

Abundam os clichês de uma Índia ao mesmo tempo ‘globalizada’ e tradicional, em que se ressaltam suas características rígidas e hierárquicas. Serve para que o Brasil apareça como representante da modernidade ocidental, antiga aspiração da ex-colônia periférica magicamente realizada por Perez.

Mas as oposições entre os dois países criam relações curiosas, talvez não propositais. Apresentados ambos como objeto de preconceito e ignorância, um certo paralelo surge entre os ‘intocáveis’, na Índia, e os loucos -ou ‘usuários de saúde mental’- no Brasil. Não à toa, o principal personagem nesse último grupo é negro e pobre. A ‘naturalização’ das diferenças, criticada na prática das castas, parece ressurgir, parcialmente, no ‘ocidente’.

Quanto aos ‘palácios’ da gente rica de toda parte, é verdade que eles são um fetiche constante do mundo das novelas. Mas, numa trama que procura dar tanta importância às diferenças, é curioso que seja justo nessa dimensão -digamos, socioeconômica- que apareçam as maiores semelhanças -e nada ‘ocidentais’- entre os dois países.

Creio que Márcio Garcia tinha em mente diferenças, e não semelhanças, quando comentou sobre a condição social de seu personagem: ‘Na Índia, direitos iguais não existem’.

CAMINHOS DAS ÍNDIAS

Quando: seg. a sáb., às 21h10, na Rede Globo

Classificação: não indicada a menores de 12 anos’

 

 

Inácio Araujo

Camurati faz filme afetivo sobre o Rio

‘Começou com a introdução de um ou dois programas entre os filmes que o Canal Brasil exibia. Hoje, são um ou dois filmes nacionais entre os inúmeros programas que o canal produz.

De maneira que hoje, para celebrar o aniversário de São Paulo, será possível ver ‘Copacabana’ (18h30, livre), um painel muito mais afetivo do que efetivo de Carla Camurati sobre a praia mais representativa do modo de vida carioca.

Antes disso, temos ‘Como Nascem os Anjos’ (16h, não indicado a menores de 14 anos), de Murilo Salles, e por aí ficamos em matéria de horários aceitáveis. De madrugada, os filmes ressurgem. Para a de hoje temos o mais obscuro de Anselmo Duarte, ‘Os Trombadinhas’ (0h30, não indicado a menores de 14 anos).

Mais tarde, entram o notável ‘A Ilha dos Prazeres Proibidos’ (2h30, não indicado a menores de 18 anos), de Carlos Reichenbach, e ‘Dois Perdidos numa Noite Suja’ (4h10, não indicado a menores de 18 anos), de José Joffily.

Em horários mais palatáveis, o espectador tem a oportunidade de conferir alguns clássicos incontestáveis: a comédia dramática ‘Bonequinha de Luxo’ (TC Cult, 16h30, livre), de Blake Edwards, o noir ‘A Marca da Maldade’ (TC Cult, 22h, não indicado a menores de 12 anos), ponto alto da obra de Orson Welles, ou ainda o filme de guerra ‘Iwo Jima, Portal da Glória’ (TCM, 22h, não indicado a menores de 12 anos), de Allan Dwan.’

 

 

DIRETAS-JÁ / 25 ANOS DEPOIS
Folha de S. Paulo

Apenas 35% sabem dizer o que foram as Diretas-Já

‘A maior parte da população (57%) diz ter ouvido falar das Diretas-Já. Mas, mesmo dentro desse grupo de brasileiros, apenas 35% sabem dizer exatamente o que foi o movimento, ao declararem que foi a luta pelo voto direto, pelo direito de votar ou de escolher o presidente/governante.

Outras respostas também se aproximaram do tema. Para 5% dos entrevistados, foi um ‘movimento pela democracia e contra a ditadura’. A resposta ‘campanha para acabar com o governo militar’ atingiu 2%. Por outro lado, ainda dentro do universo dos que declararam já ter ouvido falar das Diretas, 39% não souberam responder o que foi, e 5% disseram que foi o movimento pelo impeachment do presidente Collor.

‘O interessante é que o maior desconhecimento está entre os mais jovens, que hoje, poderíamos dizer, são beneficiários das conquistas das Diretas, justamente o direito ao voto’, diz Mauro Paulino, diretor do Datafolha. Mas os mais jovens também estão entre os que têm maior apreço pela democracia. ‘Não ter ouvido falar do movimento não significa alienação dos mais jovens’, diz Paulino.

Entre os entrevistados de 16 a 24 anos, 60% disseram nunca ter ouvido falar das Diretas, enquanto que entre os que têm entre 25 e 34 anos a resposta atingiu 44%. Por outro lado, 70% dos entrevistados na faixa dos 35 e 44 anos disseram ter ouvido falar do movimento. ‘É a geração que viveu as Diretas’, diz Paulino. Entre aqueles que têm entre 45 e 59 anos, 65% disseram ter ouvido falar.

A emenda que propunha eleições diretas para presidente da República foi apresentada em março de 1983 pelo deputado Dante de Oliveira. Lançada nacionalmente em janeiro do ano seguinte, a campanha Diretas-Já ganhou impulso com o comício da praça da Sé, há exatos 25 anos.

Comandado pelo locutor Osmar Santos, o evento reuniu políticos que tomariam caminhos distintos a partir dali. Estiveram no palanque nomes como o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso (senador à época), Ulysses Guimarães (deputado), Franco Montoro (governador de SP) e Leonel Brizola (governador do Rio).’

 

 

CIÊNCIA
Rafael Garcia

Jornalista faz ataque à Monsanto em livro

‘‘A biotecnologia em si não é boa nem ruim. Ela é uma ferramenta.’ Eis um bom argumento usado com frequência por cientistas defensores do uso de plantas transgênicas. Quem não enxerga, por exemplo, o mérito de distribuir para países pobres um arroz geneticamente modificado para conter mais vitaminas? Certamente ajudaria a combater a desnutrição. A declaração acima, porém, não é de um biólogo molecular, e sim de Robert Shapiro, ex-presidente da Monsanto -a empresa detentora de 90% do mercado global de transgênicos.

A fala está em um dos raros discursos públicos do executivo, que aparece no documentário ‘Le Monde Selon Monsanto’ (‘O Mundo Segundo a Monsanto’), lançado no início de 2008 na França e ainda sem previsão de estreia no Brasil.

Um livro homônimo que acompanha o filme, porém, acaba de sair em português (Radical Livros, 372 págs., R$ 54,00).

As duas obras são assinadas pela jornalista Marie-Monique Robin, aclamada pela esquerda francesa por suas reportagens sobre direitos humanos. O livro é um libelo contra os OGMs (organismos geneticamente modificados). E o seu foco não é nenhum vegetal candidato a salvar o mundo, mas a soja que a Monsanto criou para ampliar a venda de seu produto líder, o herbicida Roundup.

Robin não menciona em nenhum momento pesquisas como a que produziu o arroz supervitaminado. Mas isso também não faz muita falta, do ponto de vista dos negócios. Segundo seu livro, 70% das sementes transgênicas vendidas no mundo são de vegetais resistentes ao Roundup, que pode agora ser borrifado indiscriminadamente sobre as plantações, matando só as ervas daninhas. Um gene inserido na soja torna-a imune ao veneno, que já era popular na agricultura.

Os outros 30% dos transgênicos são quase todos plantas de uma variedade chamada Bt, que exala inseticida de suas folhas e caules. Em tese, isso livra o agricultor da necessidade de mais veneno contra insetos.

‘É uma façanha tecnológica admirável’, reconhece Robin, antes de dizer ao espectador a que veio: mostrar por que a Monsanto ganhou o apelido de ‘Monsatã’ de ambientalistas.

Equivalência

Sua principal crítica é que os alimentos derivados dessas plantas não passaram pelos testes adequados. Seu documentário conta como o processo de discussão legislativa sobre os transgênicos nos EUA na década de 1990 acabou legando ao país uma espécie de liberalismo sanitário. A opção da FDA (agência de vigilância sanitária dos EUA) foi a de não criar uma regulamentação específica para os OGMs.

Plantas ‘Roundup Ready’ ou Bt passaram então a ser vistas pela lei como vegetais comuns. Um gene a mais ou a menos não altera a ‘equivalência em substância’ entre as plantas transgênicas e variedades comuns, diz uma portaria da FDA de 1992. E daí veio a controvérsia.

‘Estas são plantas-pesticidas e deveriam ser testadas como pesticidas’, diz Robin. ‘Testar a segurança sanitária de um pesticida leva dois anos. Os OGMs que estão sendo plantados agora foram checados por no máximo três meses, e os problemas que surgem da intoxicação crônica não aparecem.’

Como evidência do potencial tóxico do glifosato, princípio ativo do Roundup, Robin apresenta um estudo de Robert Bellé, do Instituto Pierre e Marie Curie. Em um teste em ouriços-do-mar, um animal modelo da biologia experimental, o herbicida afetou sua divisão celular, ‘a primeira etapa que conduz ao câncer’, diz.

O trabalho de Bellé não é o único a apontar problemas, e na França o Roundup já perdeu o direito de exibir em seu rótulo a inscrição ‘biodegradável’, já que a substância é mais persistente do que se achava.

O peculiar na história dos transgênicos nos EUA é que o personagem-chave por trás do conceito da ‘equivalência em substância’ não é um químico, conforme mostra Robin, mas o advogado Michael Taylor.

Tendo trabalhado para a Monsanto até 1990, largou seu escritório quando convidado pela gestão Clinton para ocupar um novo cargo na FDA, onde ajudou a definir a política de governo para os OGMs. Depois de alguns anos, deixou a posição e voltou à empresa para ocupar a vice-presidência.

O livro referencia diversos documentos históricos mostrando como a empresa criou uma cultura particularmente eficaz para omitir efeitos nocivos de seus produtos.

O PCB, por exemplo, fluido usado em aparelhos elétricos por meio século, foi banido na década de 1970. Bem antes disso, a empresa já sabia dos malefícios da substância, indicam documentos internos.

Robin aponta que omissões similares ocorreram com o agente laranja (desfolhante usado na Guerra do Vietnã), o hormônio de crescimento usado em vacas e um herbicida à base de dioxina. Todos produtos Monsanto.

Por fim, ela fala da estratégia da empresa para esgotar a oferta de sementes de soja não-transgênica nos EUA, comprando empresas pequenas e processando agricultores por royalties. Sojicultores que tiveram suas plantações ‘invadidas’ pela soja da Monsanto via polinização natural são acusados pela empresa de usar sementes ‘piratas’, diz o livro.

Capitalismo globalista

‘Tudo isso, claro, é uma coisa paradigmática do capitalismo da era da globalização, mas a Monsanto tem mesmo uma história muito especial nos EUA’, disse Robin à Folha. No mês passado, a jornalista esteve no Brasil para lançar seu livro e negociar direitos de distribuição do documentário. Uma TV brasileira, diz, estava interessada, mas seu representante não fechou negócio. ‘Obtivemos a informação de que eles queriam comprar o filme para engavetá-lo depois.’’

 

 

CINEMA
Leonardo Cruz

O homem do tempo

‘O norte-americano David Fincher vive o momento de maior reconhecimento de seu trabalho. Seu sétimo longa, ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’, recebeu ótimas críticas na imprensa, faz sucesso de público e, na quinta, obteve 13 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e diretor, a primeira desse cineasta de 46 anos.

No filme, em cartaz no Brasil, Brad Pitt interpreta o homem de relógio biológico invertido, que nasce velho e vai remoçando. Em sua trajetória está Daisy (Cate Blanchett), a mulher que ama. Entre os dois está o tempo, que os separa e os une ao longo de cerca de 80 anos.

A passagem do tempo é um tema caro a Fincher, já explorado em seu filme anterior, o ótimo ‘Zodíaco’, longa narrativa policial sobre um homem obcecado que dedica anos a perseguir um serial killer. Em ‘Button’, como o próprio diretor diz, o que está em questão é a passagem da vida, o que experimentamos e o que perdemos. Na última terça-feira, dois dias antes do anúncio dos indicados ao Oscar, Fincher conversou com a Folha por telefone, de Berlim, onde estava para divulgar ‘Benjamin Button’.

FOLHA – Posso definir seu filme como uma história de amor assombrada pela morte?

DAVID FINCHER – Sim, sem dúvida. O filme não foge da linha das grandes histórias de amor de Hollywood. A diferença é que em ‘Benjamin Button’ o vilão que manterá o casal separado é o tempo. E com o tempo vem a iminência da morte.

FOLHA – E isso o atraiu ao projeto?

FINCHER – Adoro a ideia de uma história de amor que rompe com a tradição do amor juvenil impossível. Eric [Roth, o roteirista] desenvolveu uma noção muito mais madura de romance, sobre essas duas pessoas que não conseguiriam viver separadas, mas que passam grande parte de suas vidas afastadas. Sobre um casal que optou por estar junto, e não era a escolha mais fácil. E a decisão de Daisy de estar lá, com ele e para ele, em seus momentos finais, é uma imagem belíssima, que resume essa relação.

FOLHA – A questão do tempo já era central em ‘Zodíaco’. Como você relaciona os dois filmes?

FINCHER – São estilos diferentes, mas ‘Zodíaco’ já tinha elementos do que exploramos em ‘Button’. Naquele filme, há um jogo com a plateia, com as noções preconcebidas do que é uma investigação policial. A história vai se abrindo aos poucos, o tempo da investigação vai passando, se esgotando, e você percebe que não é um daqueles thrillers convencionais. Nesse sentido, este novo filme é parecido, e esse relógio que nunca para é, em ‘Benjamin Button’, a passagem da vida.

FOLHA – Ambos têm certa tristeza.

FINCHER – Não acho que ‘Benjamin Button’ seja um filme triste. É um filme sobre as relações que experimentamos ao longo da vida, confrontadas com a perda dessas relações. Sobre as marcas que deixamos uns nos outros quando nos encontramos pelo caminho. Sobre dor, alegria, amor e remorso.

FOLHA – No filme, Button nasce fisicamente velho, mas mentalmente criança. Esse contraste reforça a solidão do personagem?

FINCHER – O filme apresenta para a plateia o que, a princípio, é o melhor dos mundos: amadurecer mentalmente e ganhar vigor físico ao mesmo tempo. Mas, conforme o filme avança, fica claro que o que parecia o melhor dos mundos é uma vida quase tão complicada quanto a de uma pessoa comum. Enquanto muitos filmes mostram um homem comum vivendo histórias extraordinárias, este é sobre um homem extraordinário vivendo histórias comuns.

FOLHA – Este foi seu terceiro filme com Brad Pitt. Recentemente, você o comparou a Paul Newman. Pitt é subavaliado como ator, há um interesse maior por sua vida privada?

FINCHER – Acredito que, apesar das muitas capas de tabloide sobre sua vida pessoal, Brad consegue fazer um bom trabalho. Há essa histeria sobre tudo o que envolve ele e a Angelina [Jolie]. Mas isso não interfere no fato de que ele é um bom ator e um grande colaborador. E muitos diretores partilham dessa visão, de que Brad consegue dar ao personagem aquilo que você planejou. Espero que, quando a histeria passar, mais pessoas percebam isso.

FOLHA – Seu filme usa muitos efeitos especiais, especialmente para fazer o rejuvenescimento de Button, mas sempre de forma sutil, para reforçar o realismo. Isso contrasta com os investimentos atuais de Hollywood em cinema 3D, com efeitos espetaculosos. Qual sua opinião sobre essa tecnologia?

FINCHER – Hollywood está buscando alternativas para continuar a atrair plateias para o cinema e, mais do que isso, para defender seus direitos autorais. A partir do momento em que, como no 3D, são necessários dois projetores de cinema para conseguir assistir a um filme, isso deixa de ser algo que alguém possa baixar na internet. Numa época em que há ofertas de filmes até para celulares (e não sou David Lynch para achar isso bom), o 3D é uma tentativa de preservar esse ritual pagão coletivo de ver um filme em uma sala de cinema, para que nos lembremos que não vivemos sozinhos. Mas não acho que todo filme tenha de ser em 3D nem colorido nem em som estéreo. Tudo depende da ferramenta necessária para contar cada história.

FOLHA – Já que você citou Lynch, quais são seus diretores favoritos?

FINCHER – Não tenho tido tempo para ver todos os filmes que gostaria, então estou sempre curioso para ver os filmes dos amigos. Estou ansioso pelo ‘Avatar’, de James Cameron.

FOLHA – E quais os filmes que despertaram seu interesse por cinema? FINCHER – Eu era muito influenciado pelo meu pai, que era cinéfilo. Cresci vendo com ele os clássicos americanos. Numa semana, víamos ‘Cantando na Chuva’. Na outra, ‘Janela Indiscreta’. Na outra, ‘2001, uma Odisseia no Espaço’. Sempre no cinema, numa época pré-vídeo-cassete. E depois essa formação se completou na universidade, em cineclubes.

FOLHA – As indicações ao Oscar saem na próxima quinta e…

FINCHER – Na quinta?! Você está mais informado do que eu.

FOLHA – Mas seu filme deve ter indicações. Qual sua expectativa?

FINCHER – Nenhuma. Só quero continuar a fazer cinema.

FOLHA – Mas prêmios como o Oscar não são importantes a um filme?

FINCHER – Esses prêmios são importantes para pessoas que gostam de medir e comparar coisas. Para mim é muito difícil levar a sério a ideia de comparar quais os méritos de cada filme, de gêneros e propostas totalmente diferentes. É possível comparar uma pintura realista com uma impressionista?

FOLHA – Quais são seus próximos planos? Filmes futuros?

FINCHER – Estou cansado. ‘Button’ e ‘Zodíaco’ me tomaram quase sete anos. Quero dormir nos próximos quatro meses.’

 

 

LULA E A LEITURA
Renato Mezan

Não lê por quê?

‘Uma frase dita pelo presidente Lula em sua entrevista à revista ‘Piauí’ deste mês vem dando o que falar: não é por falta de tempo que não lê blogs, sites, jornais ou revistas, mas porque tem ‘problema de azia’.

A observação provocou reações de jornalistas e colunistas, e é provável que tenha causado mal-estar na comunidade acadêmica, assim como entre os brasileiros com maior nível cultural.

Nenhuma ideia pode ser examinada sem referência ao seu contexto. O presidente não estava falando das virtudes ou malefícios da leitura em geral, mas apenas do efeito que tem sobre ele o noticiário, em especial o político; assim, seria descabido inferir do que disse uma suposta opinião negativa da sua parte sobre o ato ou o costume de ler.

Contudo, nos parágrafos seguintes à declaração -que também delimitam o contexto dela-, fala do seu lazer: ora, se deste fazem parte ‘pescar, jogar cartas, conversar’, brilha pela ausência qualquer menção à leitura de livros e, igualmente, a qualquer outra atividade cultural.

Dirá o leitor que isso se deve à sua origem humilde? Além de ser uma generalização indevida, tal explicação deixa de lado o fato de que muitas pessoas nada abonadas frequentam shows, veem filmes de apelo popular, visitam exposições divulgadas pela mídia ou vão ouvir música erudita, quando essas coisas são oferecidas a preços que cabem no seu bolso ou mesmo gratuitamente.

Horas na fila Que o diga quem esperou horas para entrar na exposição de Rodin, espremeu-se nas filas de ‘Dois Filhos de Francisco’ e ‘Tropa de Elite’ ou se dispõe a enfrentar a multidão que acorre ao parque Ibirapuera para ouvir as orquestras estrangeiras que de vez em quando se apresentam no parque.

Atenhamo-nos, porém, ao capítulo livros. É certo que alguém pode se informar pela televisão ou por resumos preparados por assessores sobre assuntos de interesse dos seus chefes -metade da matéria da revista é dedicada a Clara Ant, que faz esse trabalho para o presidente. Mas nem briefings nem meios eletrônicos podem substituir o livro, e isso por ao menos duas razões. A primeira é que ver imagens ou ouvir alguém falando põe em jogo capacidades psíquicas diferentes das requeridas para lidar com um texto longo.

Além de concentração muito maior, a extensão de um livro comum torna impossível apreender seu conteúdo de uma única vez.

O hábito de ler favorece portanto a retenção de dados e treina a memória para reconhecer e acessar, entre seus inúmeros arquivos, aqueles que permitem estabelecer continuidade entre o que se leu antes e o que se está lendo agora. A segunda é que, como contém num volume reduzido um enorme número de informações, o livro possibilita, no trato dos seus temas, uma abrangência que nenhum artigo ou vídeo pode igualar.

É o espaço do debate entre ideias complexas, do relato minucioso, da descrição precisa do que o autor julga importante comunicar.

Isso permite o trânsito entre níveis diferentes de abstração, entre o detalhe e o quadro do qual faz parte, entre os elementos isolados e a síntese que lhes dá sentido.

Um mau modelo Mas não é por essas qualidades dos livros que lamento a ausência deles no cotidiano de Lula. É porque, com a influência que têm suas palavras e atitudes, o fato de não demonstrar o menor interesse pela palavra impressa transmite uma mensagem nefasta a quem nele confia e nele se espelha. Todos sabem que é um excelente comunicador: se insistisse na importância dos livros, se utilizasse em suas falas exemplos e referências tirados do que leu, podemos estar certos de que isso teria efeito benéfico sobre os milhões de brasileiros que passam anos, ou a vida inteira, sem jamais segurar nas mãos um volume, quanto mais abri-lo e se inteirar do que ele contém.

O presidente já disse muitas vezes que não ter estudado não o impediu de chegar aonde chegou. Eis outra frase infeliz: não é porque teve parca instrução formal, mas apesar dessa falta, que obteve seus sucessos. Ao mencioná-la como se fosse algo positivo, contribui -mesmo que não seja essa a sua intenção- para desprestigiar ainda mais tudo o que está ligado à educação. A situação calamitosa do ensino no Brasil em nada melhora quando o modelo identificatório que o presidente Lula representa para tanta gente sugere nas entrelinhas que estudar não é necessário.

Essa atitude blasée, ao contrário, me parece particularmente perniciosa para os jovens, muitos dos quais, por razões que não cabe aqui explicitar, têm atualmente pela leitura uma aversão que beira a fobia. O que está em jogo aqui não é a visão utilitária segundo a qual o estudo é o caminho da ascensão social, mas a importância dele (e da leitura) para criar cidadãos menos permeáveis à manipulação pelos órgãos de informação, da qual o próprio presidente se queixa na entrevista.

Diz Lula que é admirador de Barack Obama e crítico contundente de George W. Bush. No entanto o descaso com os livros e com o que eles significam o aproxima deste, e não daquele. Uma das pérolas proferidas pelo texano foi endereçada aos estudantes da universidade em que se formou (Yale) e na qual teve desempenho medíocre: ‘Vocês, alunos que tiram C, também podem pretender ser presidentes dos EUA’.

Em contraste, Obama -que em seus tempos de Harvard dirigiu a revista da Faculdade de Direito- tem o maior respeito pelos livros, graças aos quais pôde adquirir uma sólida base intelectual para suas convicções progressistas.

Só carisma não resolve Sem a frequentação deles, não teria podido citar em seu discurso de posse a Bíblia e palavras de George Washington, não saberia se servir das alusões e metáforas que abrilhantaram sua fala nem demonstraria o seguro conhecimento da história do seu país, assim como da situação de povos estrangeiros, que evidentemente possui. É certo que sem seu carisma e sem a habilidade retórica que soube desenvolver nada disso teria produzido o entusiasmo que se viu, mas também seria tolo negar que a qualidade literária e a construção caprichada do discurso têm algo a ver com o efeito que teve mundo afora. E não se objete que foi redigido por assessores: no dia seguinte, os jornais davam conta de que foi o próprio Obama quem estabeleceu o roteiro básico e deu ao texto a última demão de tinta. Lula não é o tabaréu que alguns pretendem (o jornalista Mario Sergio Conti, a quem ele concedeu a entrevista, diz que o site da revista ‘Veja’ na internet o mima frequentemente com o epíteto de apedeuta, que significa ignorante).

Mas é certo que, se tivesse um pouco mais de apreço pela letra de forma, evitaria meter-se em algumas situações constrangedoras e faria um grande bem ao povo ‘deste país’.

RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção ‘Autores’, do Mais! .’

 

 

ALBERTO MORAVIA
Adriana Marcolini

Um viajante incansável

‘A visita de Alberto Moravia ao Brasil, em 1960, faz parte de uma longa série de viagens do autor como enviado especial da imprensa italiana.

Em agosto de 1930, um convite para trabalhar no jornal ‘La Stampa’, na época sob a direção do escritor Curzio Malaparte, introduz o jovem escritor no mundo do jornalismo. Para driblar o regime fascista, que o perseguia, Alberto Pincherle, que tinha então apenas 23 anos, resolveu adotar o pseudônimo com o qual ficou mundialmente conhecido.

Com uma nova identidade e cansado de respirar a atmosfera pesada do fascismo, Moravia foi enviado naquele mesmo ano para a Inglaterra, de onde escreveu seus primeiros relatos de viagem, publicados entre 1930 e 1932.

Tem início, assim, uma larga trajetória que o leva a visitar países geograficamente próximos à Itália, como a Grécia e a antiga Tchecoslováquia, ou com alguma afinidade cultural como a Espanha e a França, mas também distantes como os Estados Unidos e a China.

Ele percorre exaustivamente o Oriente Médio, a Ásia, a África e a América Latina. Moravia dizia-se fascinado pelo Terceiro Mundo e nutria uma particular atração pela África, continente por ele definido como ‘a coisa mais bela que existe no mundo’.

Durante nada menos que 60 anos dedicou-se à literatura de viagem. Seus últimos textos são sobre a Irlanda, onde esteve em julho e agosto de 1990, pouco antes de morrer, em setembro daquele ano.

Os artigos que o Mais! publica nesta edição são excertos dos relatos sobre o Brasil reunidos no livro ‘Opere – Viaggi, Articoli, 1930-1990’ [Obras -Viagens, Artigos, ed. Bompiani, 33,57, R$ 101].

Foram publicados no jornal ‘Corriere della Sera’, de Milão, com o qual o escritor estabeleceu uma profícua colaboração, que se prolongou por 42 anos.

Provavelmente, o principal motivo que trouxe o autor ao Brasil tenha sido a inauguração de Brasília, em abril de 1960. Passados somente 15 anos do fim da Segunda Guerra, a nova capital carregava um forte simbolismo, com sua aura de modernidade e futuro, atraindo a atenção dos europeus sedentos de esperança.

A leitura dos artigos revela um sentido arguto de observação e o predomínio de textos límpidos e diretos -que era, aliás, o estilo de Moravia. O autor conheceu o sucesso em 1929, quando conquistou a crítica e os leitores com o romance ‘Os Indiferentes’, cuja publicação foi custeada pelo próprio autor, graças a um empréstimo de seu pai. O mais pessimista e amargo de seus romances mostra a dissolução moral, a frieza e a indiferença no seio de uma família da burguesia italiana durante os primeiros anos do fascismo, apontando para o cinismo como a única regra no interior da sociedade.

Foram cinco edições em poucos meses, um êxito comercial para a época. A obra é um marco na literatura do ‘novecento’, ampliando os horizontes da narrativa italiana. O escritor aprofunda sua linguagem e estilo neste livro, utilizando uma construção sintática objetiva e um vocabulário seco e sem rodeios, que seriam a tônica de sua obra.

Moravia também publicou muitos romances, como ‘A Desobediência’, ‘A Romana’, ‘O Conformista’ e ‘1934’, entre outros. Escreveu ainda livros de contos, ensaios e peças teatrais. Várias de suas obras foram adaptadas para o cinema. Era admirador do estilo teatral de Dostoiévski, de quem foi leitor assíduo na adolescência, e dizia que seu ideal literário era fundir a técnica teatral com a da narrativa.

Foi agraciado em 1952 com o prêmio literário Strega, um dos mais prestigiosos da Itália.

ADRIANA MARCOLINI é autora da dissertação de mestrado em literatura italiana na USP ‘O Brasil nos Relatos de Jornalistas Italianos’.’

 

 

FOTOGRAFIA
Tuca Vieira

Paulista, avenida por Cristiano Mascaro

‘Quem se dispusesse a percorrer o centro de São Paulo nos anos 1980 correria o risco de encontrar uma solitária figura de barba cheia, tripé nos ombros, mochila nas costas, olhando as sombras alongadas da primeira hora da manhã.

Em cima do tripé provavelmente estaria uma câmera sueca da marca Hasselblad parecida com a que foi à Lua. E dentro da mochila encontraríamos rolos de película fotossensível, dessas que passam por banhos de bórax e sulfito de sódio.

Cristiano Mascaro se lembra de quando ‘saía de casa antes do amanhecer, com os faróis do carro ainda ligados’, como se tivesse um encontro marcado com a luz no centro de São Paulo. São dessa época algumas das mais importantes imagens da fotografia brasileira.

Quem se dispusesse a percorrer a Avenida Paulista, na tarde da última segunda-feira, encontraria essa mesma figura com a barba já branca, o mesmo tripé nos ombros e a mochila que deixava marcas de suor na camisa.

Mascaro aceitou o convite da Folha para fotografar a Paulista, asfaltada há cem anos: ‘Nunca vi comemorar asfaltamento de rua, mas tudo bem’. É seu primeiro ensaio fotográfico com câmera digital.

Do centro velho para a Paulista, muita coisa mudou. Em cima do tripé, ‘um trambolho de 22 botõezinhos e 21,5 megapixels’; dentro da mochila, um ‘estojo de maquiagem’ onde guarda os cartões de memória.

Mascaro foi motivo de polêmica depois que publicou um artigo no Mais!(de 21/12) em homenagem a Cartier-Bresson, em que lamentava o desuso das técnicas tradicionais.

O artigo circulou pela internet, e Mascaro foi chamado de mestre por uns e antiquado por outros. ‘Eu só quis fazer uma homenagem a uma época da fotografia que não pode ser apagada. Quero ter o direito de sentir saudade.’

Entre curiosidade e ceticismo, Mascaro vai se entregando à novidade mais por necessidade do que por paixão. ‘É como tirar um pé de uma canoa para colocar noutra’, define.

A fotografia é sobretudo uma aventura humana: ‘A fotografia te levava a conhecer as pessoas. O trabalho de campo passou a ser trabalho de gabinete. Tenho saudades de bater na porta do laboratório. Como vou fazer agora sem tomar café com a Rosangela, que revelou meus filmes por 20 anos?’.

Mudam os tempos, muda a cidade, mas o olhar do fotógrafo permanece. Mascaro veio ‘tratar’ as imagens (como se diz a respeito da pós-produção digital) e não havia nada para ser tratado. Suas fotos digitais, como numa prancha de contatos, precisam de ajustes mínimos de contraste e só.

Aos 64 anos, ele se renova: ‘Instalei um Photoshop CS4 e comprei um livro passo-a-passo, agora ninguém me segura!’. Parece surgir um novo fotógrafo, 30 anos à nossa frente.’

 

 

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