Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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Folha de S. Paulo

03/02/2009

DAVOS
Clóvis Rossi

Lula, a azia e Brown

‘DAVOS – Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sente azia ao ler os jornais, conforme disse a Mário Sérgio Conti, da revista ‘Piauí’, fico imaginando o estômago de Gordon Brown ao ter que enfrentar os jornalistas britânicos.

Ontem, Brown estava dando uma entrevista coletiva ao lado de Ban Ki-moon, o secretário-geral das Nações Unidas.

Termina a fala inicial, abre-se o espaço para perguntas e uma loirinha da ITV dispara: ‘O senhor fala em recuperar a confiança [no sistema financeiro global]. Mas o senhor não goza mais da confiança do público britânico’ -e por aí foi.

Brown deu uma de Paulo Maluf, que, ante perguntas desagradáveis, muda completamente de assunto.

Insistiu na necessidade de pôr ordem na economia global. A repórter continuou afirmando que o premiê não tinha mais a confiança de seu público, a ponto de forçar o mediador a interromper para dizer que, como britânico, adora discutir política interna, mas que o assunto ali era a crise global.

Esse comportamento de jornalistas é até certo ponto comum nos Estados Unidos e no Reino Unido, bem menos que no resto da Europa.

No Brasil, é impensável. Suspeito ser o segundo repórter mais velho em atividade como repórter no Brasil, atrás apenas desse estupendo companheiro chamado Paulo Totti, hoje no ‘Valor Econômico’.

Participo de entrevistas com presidentes desde Ernesto Geisel, há, portanto, mais de 30 anos e sete presidentes.

Nunca vi um desafio tão frontal e tão agressivo nem mesmo nos momentos em que o presidente de turno estava com o prestígio no solo e, portanto, era mais fácil ser valente ‘contra’ ele.

Fazer perguntas desagradáveis é uma coisa -obrigatória, alias. Emitir conceitos em vez de perguntar é outra coisa. Mas fico curioso em saber como Lula reagiria em uma situação como a de Brown.’

 

 

 

MÚSICA E NOVELA
Ruy Castro

Imortalidade garantida

‘RIO DE JANEIRO – Há alguns meses, flagrei minha funcionária cantarolando ‘Beija-me’, um de meus sambas prediletos -’Beija-me/ Deixa o teu rosto coladinho ao meu/ Beija-me/ Eu dou a vida pelo beijo teu…’. Como, às vezes, ponho-o para tocar por dias seguidos, com Ciro Monteiro, achei que fosse dali que ela o tivesse aprendido.

Que nada. ‘Beija-me’ ficara subitamente popular porque fora incluído na trilha da novela, cantado pelo Zeca Pagodinho. Como a última novela sobre a qual botei os olhos, mesmo assim a trabalho e por alguns episódios, foi ‘Pigmalião 70’, com Tonia Carrero, em 1969, sou muito desinformado sobre suas trilhas sonoras. Mas que bom que resolveram dar uma chance a este grande samba de Roberto Martins e Mario Rossi, de 1943.

Roberto Martins, que morreu em 1992, teria feito cem anos nesta quinta-feira. Quando se pensa em algumas de suas obras-primas -outro samba, ‘Meu Consolo é Você’ (com Nássara), a valsa ‘Aliança Partida’ (com Benedito Lacerda), os foxes ‘Renúncia’ (também com Mario Rossi) e ‘Dá-me tuas Mãos’ (com Mario Lago), as marchas ‘Favela’ (com Waldemar Silva), ‘Cordão dos Puxa-Sacos’ (com Frazão) e ‘Pedreiro Waldemar’ (com Wilson Batista) ou a batucada ‘Cai, Cai’-, é de se perguntar por que ele não está entre os dez maiores.

Pois é, por quê? Porque a concorrência, no Rio dos anos 30 e 40, era muito pesada. Em cada esquina, a cada instante, surgia um grande sambista. O Café Nice era um viveiro de gênios, e cantores como Carmen Miranda, Chico Alves, Orlando Silva, Sylvio Caldas e Aracy de Almeida não chegavam para absorver a produção.

Mas, se Roberto Martins, tantos séculos depois, ainda pode ser lembrado por nove ou dez criações, é porque garantiu sua imortalidade.’

 

 

 

CRISE
Folha de S. Paulo

Jornal Metro fecha operação na Espanha, 2ª maior do grupo

‘O jornal Metro, distribuído gratuitamente em cerca de 20 países, anunciou o fim da operação na Espanha. Segundo a assessoria da empresa no Reino Unido, essa é a segunda maior operação do grupo no mundo. O principal mercado é na Suécia, sede da companhia. A publicação deixará de circular em sete cidades espanholas.

Segundo comunicado, a competição no país e a queda no faturamento obtido com anúncios publicitários motivaram o fechamento na Espanha. ‘A piora da economia espanhola, que em 2009 causou um colapso nos anúncios, provocou perdas insustentáveis’, disse Per Mikael Jensen, presidente do grupo.

A empresa investiu 25,5 milhões desde o lançamento na Espanha, em 2001.

Por meio da assessoria britânica, o Metro afirma que não comentará se há planos de encerrar a circulação em outros países. Antonio Teles, presidente do Metro no Brasil, diz que a operação no país, iniciada em 2007, é sólida. O grupo sueco tem 30% de participação na versão brasileira, e o grupo Bandeirantes, os 70% restantes.’

 

 

 

HISTÓRIA
Oscar Pilagallo

Análise valoriza obra sobre jornal que tentou unir Brasil e vizinhos

‘A referência cultural da elite brasileira é oriunda da Europa, até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e, desde então, dos Estados Unidos. Os vizinhos latino-americanos sempre estiveram culturalmente distantes. Ou quase sempre. ‘América Aracnídea’, da historiadora Ana Luiza Beraba, é sobre esse ‘quase’. Durante sete anos, entre 1941 e 1948, o governo brasileiro investiu na aproximação não só com os latinos, mas com os americanos de um modo geral.

O principal instrumento dessa política foi o suplemento ‘Pensamento da América’, publicado no jornal ‘A Manhã’, órgão da ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas. A metáfora da aracnídea remete às teias culturais entre os países do continente, que o jornal ajudou a tecer, valendo-se do trabalho de intelectuais modernistas ligados à diplomacia do governo Vargas. Para um projeto patrocinado pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), o suplemento até que era bem arejado. Um dos poetas mais traduzidos em suas páginas era o americano Walt Whitman, que no século 19 louvava a democracia dos Estados Unidos. Outro assíduo frequentador era o chileno Pablo Neruda, cujo comunismo também não agradava ao Estado Novo.

Para Ana Luiza Beraba, ‘o Brasil entrou no jogo do pan-americanismo não por pressão norte-americana, mas sim porque era a chance de se afirmar como potência no continente’. Segundo ela, o Brasil conseguiu, com astúcia, inverter os interesses americanos em seu próprio favor. Não foi tarefa fácil. A iniciativa coincidiu com a americanização do Brasil, sobretudo a partir da adesão de Vargas aos Aliados, pondo fim às ambiguidades que por vezes o aproximavam do nazismo. Além disso, como nota a historiadora, dentro do próprio governo havia resistência entre os ideólogos mais nacionalistas.

O suplemento durou enquanto houve interesse político. Com a polarização ideológica entre capitalismo e comunismo a partir do final da década de 40, o pan-americanismo perdeu relevância. ‘Pensamento da América’ foi uma vítima da Guerra Fria. A amarração das análises valoriza o material importante que estava esquecido nos arquivos. A imbricação entre arte, política e diplomacia é explorada num texto em que o rigor acadêmico não prejudica a fluência, a ponto de a autora, sem resistir ao jogo de palavras, incomum em obras do gênero, afirmar que, sob Vargas, o Itamaraty estava literalmente nas mãos de um aracnídeo: Oswaldo Aranha. O livro tem ainda um valor extrínseco: a oportunidade. Ele surge num momento em que o governo brasileiro se esforça em estreitar laços com outros países do continente, também com o objetivo de exercer liderança regional. São iniciativas que, como o Mercosul, têm no ‘Pensamento da América’ um embrião remoto.

OSCAR PILAGALLO é jornalista e autor, entre outros livros, de ‘Folha Explica Roberto Carlos’ e ‘A História do Brasil no Século 20’ (em cinco volumes), todos pela Publifolha.

AMÉRICA ARACNÍDEA -TEIAS CULTURAIS INTERAMERICANAS

Autora: Ana Luiza Beraba

Editora: Civilização Brasileira

Quanto: R$ 39 (224 págs)

Avaliação: bom’

 

 

 

TECNOLOGIA
Folha de S. Paulo

Tom Clancy terá seus livros em formato digital

‘O escritor norte-americano Tom Clancy, autor dos best-sellers ‘A Caçada ao Outubro Vermelho’ e ‘Os Dentes do Tigre’, vai disponibilizar seu trabalho em plataforma eletrônica a partir da próxima terça-feira, dia 3/2.

O primeiro título em versão digital será ‘A Caçada…’, segundo anunciou, na última quinta, a Penguin, editora por trás da empreitada. Os livros estarão disponíveis em todos os formatos digitais.’

 

 

 

COLETÂNEA
Raquel Cozer

Entrevistas musicais do ‘Pasquim’ são reeditadas

‘Chico Buarque contou que roubava carros na adolescência. Moreira da Silva não assumiu nenhum furto, mas sim uma compra: a do samba ‘Na Subida de Morro’, que por ‘um conto e 300’ deixou de ser de Geraldo Pereira e passou a ter sua assinatura. Tom Jobim revelou que ‘Sabiá’, a música ‘nada popular’ que venceu o 3º Festival Internacional da Canção, foi inscrita só para ele se livrar do risco de virar jurado. O confessionário para declarações como essas era, em geral, uma mesa de bar, e os inquisidores, a patota de ‘O Pasquim’, o jornal ‘nanico’ que chegou a vender 250 mil exemplares por semana nos anos 70. Publicado originalmente em 1976 pela editora Codecri (Comando de Defesa do Crioléu), o livro ‘O Som do Pasquim’, com organização do crítico Tárik de Souza, reuniu as melhores entrevistas com músicos brasileiros feitas pelo semanário desde sua criação, em 1969. Agora, abrindo as comemorações dos 40 anos do jornal, a Desiderata reedita a série de bate-papos em que, instados pela atitude debochada e até agressiva de Henfil, Ivan Lessa, Jaguar, Ziraldo e cia., em conversas quase sempre regadas a álcool, nomes-chave da MPB abriam o jogo como não faziam em nenhum outro veículo. Mas, também, em nenhum outro veículo Chico, por exemplo, ouviria a pergunta: ‘Você não acha ‘A Banda’ insuportável?’. ‘Não havia ainda o politicamente correto’, diz Tárik, ex-colaborador do jornal, ‘então não era preciso pensar dez vezes antes de falar para não incorrer em infrações éticas’.

Sinais do tempo

De fato, a nova edição sentiu os sinais do tempo. Roberto Carlos, Maria Bethânia e Ângela Maria não autorizaram a republicação de suas entrevistas. Agnaldo Timóteo -que, como Waldick Soriano (1933-2008), se diz um ‘tremendo cantor’ e atira para todos os lados na conversa com o ‘Pasquim’- quis incluir uma retratação. Na entrevista, de 1972, à qual foi com um dicionário para ‘procurar essas palavras difíceis que vocês falam’, diz que Caetano Veloso ‘não sabe cantar’, que a ‘linha melódica do Chico é uma m.!’, assim como ‘Águas de Março’ (Tom), e que Milton Nascimento é ‘burro’. ‘[…] A história desses personagens está acima de uma análise ignorante e preconceituosa de décadas atrás’, escreve ao pé da entrevista Timóteo, hoje vereador de São Paulo. Mais modesto, Caetano, em 1971, já fazia ele próprio um ‘mea culpa’: ‘Eu não sou um bom músico. […] Tenho um ouvido mediano, consigo rememorar melodias, cantar coisas, toco violão, faço harmonia certa, se tiver errado eu sei pegar’. Lupicínio Rodrigues, Luiz Gonzaga, Raul Seixas e Martinho da Vila completam as entrevistas. Martinho, então um nome em ascensão, é quem faz a previsão mais furada, ao chutar: ‘O meio artístico pra mim é um troço que vai passar…’.

O SOM DO PASQUIM

Organização: Tárik de Souza

Editora: Desiderata

Quanto: R$ 39,90 (277 págs.)’

 

 

 

TELEVISÃO
Fernanda Ezabella

Reviravoltas marcam retorno de séries

‘Se acúmulo de prêmios fosse senha de sucesso, ‘30 Rock’ e ‘Mad Men’ seriam o que há de melhor na TV norte-americana. Mas quando ‘Mad Men’ somou mais um troféu à sua coleção nesta semana, o ator Jon Hamm agradeceu às ‘dezenas’ de fãs da série. E não era piada. O seriado sobre mercado publicitário de Nova York nos anos 60 teve média por episódio de 1,5 milhão de espectadores em 2008 nos EUA -muito pouco se comparado, por exemplo, ao musical ‘American Idol’, média de 30 milhões.

‘30 Rock’, criado pela comediante Tina Fey, vai um pouco melhor no quesito audiência (cerca de 7 milhões), mas ainda bem distante do esperado para uma das séries mais premiadas dos últimos anos (veja quadro).

A trama narra os bastidores de um programa de TV e, como ‘Mad Men’ (este sem o humor), talvez o clima de escritório nova-iorquino não agrade ao público em tempos de demissões em massa na vida real.

Seja como for, as duas séries premiadas estreiam suas novas temporadas na semana que vem no Brasil, ao lado de outras três com melhor popularidade, ‘Grey’s Anatomy’, ‘CSI’ e ‘Desperate Housewives’.

As três chegam com grandes reviravoltas em suas tramas. Com as mulheres desesperadas de Wisteria Lane, no entanto, a mudança é tanta que parece um novo seriado.

A ex-modelo Gabby (Eva Longoria) ganhou duas filhas, engordou e caiu fora da vida social; Bree (Marcia Cross), a dona-de-casa mais empenhada, virou empresária dedicada e se esqueceu do marido.

Como o seriado tem data para terminar, em 2011, pode ser que tanta novidade seja um ato desesperado para alavancar a audiência, o que não tem acontecido -os 18 milhões de telespectadores da estreia caíram para 13 milhões neste mês.

Médicos deprimidos

Na trama sobre os médicos do Seattle Grace Hospital, amor e bisturis continuam se cruzando pelos corredores e salas de operação. A diferença é que agora a instituição despencou para 12º lugar no ranking das escolas de medicina, deixando todos deprê em ‘Grey’s’. Um vislumbre de caso lésbico continua entre duas médicas, mas logo uma delas some do mapa e tudo volta ao ‘normal’.

Mas isso não é nada para os fãs de ‘CSI’, que chega à nona temporada e perde dois protagonistas de uma vez.

Logo no primeiro episódio, sai de cena o investigador bonitão Warrick Brown (Gary Dourdan) e, lá pelo décimo episódio, acontece a anunciada saída do protagonista Gil Grissom (William Petersen), substituído pelo dr. Langston (Laurence Fishburne).

Mesmo assim, ‘CSI’ segue liderando noites na TV americana, com 24 milhões de espectadores. Melhor aproveitar enquanto ninguém apaga a luz.’

 

 

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