Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ENTRE ASPAS >

Folha de S. Paulo

24/03/2009 na edição 530

CRISE
Tim Arango, ‘New York Times’

TV aberta luta para se manter viável nos EUA

‘A rede de TV CBS, que exibe sucessos como ‘60 Minutes’, os seriados ‘CSI’ e ‘Two and a Half Men’ e o novo sucesso ‘The Mentalist’, está tendo um ano melhor do que qualquer outra rede, no horário nobre.

No entanto, como nas rivais, os lucros da CBS caíram muito.

Por décadas, as três -hoje quatro- grandes redes de TV operavam com o mesmo plano: investir milhões a fim de desenvolver e produzir programas roteirizados e dirigidos a uma audiência de massa e anunciantes de alcance nacional, com prazo de validade de anos ou até décadas em reprises e redistribuição.

Mas aquele modelo, que se baseava em atrair verbas publicitárias suficientes para cobrir os custos de seriados como ‘Lost’ e ‘ER’, já não parece viável. Os programas dramáticos das redes de TV agora custam US$ 3 milhões por hora.

O futuro das redes, ao que parece, envolve mais reality shows de baixo custo, notícias e programas de entrevista e esforços mais intensos para identificar novas fontes de receita, seja por taxas pagas por assinantes -como nas TVs a cabo- ou pela transformação dos canais abertos em pagos, ideia que vem ganhando impulso.

O último baluarte das redes são eventos como o Super Bowl e outros grandes espetáculos, como a entrega do Oscar. O problema é que esse tipo de programa sempre foi visto como veículo para promover as demais atrações da rede e raramente gera dinheiro por si só.

Os índices de audiências das redes de TV aberta continuam a cair, o que torna mais difícil a elas justificar o custo elevado de seu tempo publicitário. Os canais de cabo estão investindo mais em programas originais, que atraem novos telespectadores e atenuam o apetite desses pela aquisição de reprises de programas de TV aberta.

Para as redes, a crise é dupla: cultural e financeira. O que isso representa para os telespectadores é um número maior de reality shows, programas de entrevista, esportes e telejornais de baixo custo, da parte de instituições que no passado responderam por séries de sucesso, ‘Cheers’.

A decisão da rede NBC de transferir o apresentador Jay Leno para o horário das 22h, de segunda a sexta, elimina a possibilidade de que a empresa venha a desenvolver um novo ‘ER’ para aquele horário, mas representará dezenas de milhões de dólares em economia.

Financeiramente, as redes de TV estão em território instável, em parte porque dependem quase inteiramente de publicidade. No quarto trimestre de 2008, enquanto a recessão se aprofundava, a receita operacional de seu segmento TV da CBS caiu 40%, ainda que ela fosse de longe a rede mais assistida. Na segunda semana de fevereiro, a CBS tinha 12 dos 20 programas de maior audiência.

A News Corp., que controla a Fox, reportou receita operacional de US$ 18 milhões em sua divisão de TV aberta, ante US$ 245 milhões em 2007. E as operações de TV aberta da Disney registraram queda de 60% em sua receita operacional.

As grandes redes de TV passaram anos aumentando os preços da publicidade, a despeito da queda na audiência, porque ainda ofereciam aos anunciantes audiências maiores que as de outros veículos.

‘Há mais dólares em busca de menos espectadores’, disse Gary Carr, diretor de serviços de TV da TargetCast, empresa de mídia e marketing.

Nos últimos meses, o setor de TV se viu forçado a cortar os preços dos anúncios exibidos no horário nobre das redes abertas. No quarto trimestre, o custo médio de um comercial de 30 segundos no horário nobre caiu 15%, para US$ 122 mil.

Dentro do setor, a crise de identidade fica evidente no debate entre os executivos de rede quanto ao futuro do negócio.

Jeff Zucker, que comanda a NBC Universal, vem sendo um dos mais pessimistas e afirma que ‘a TV aberta está em um momento de séria transição e, se não tentarmos mudar o modelo agora, estaremos em perigo de nos transformarmos na indústria automobilística’.

Mas interpretação dissidente é oferecida por Leslie Moonves, presidente da CBS, que defendeu as redes de TV aberta em uma conferência. ‘Estou aqui para lhes afirmam que o modelo não deixou de funcionar.’

A ABC conseguiu se recuperar um pouco com séries como ‘Desperate Housewives’ e ‘Lost’, mas suas audiências recuaram ao patamar anterior. No caso de ‘Lost’, é duvidoso que a rede aprovasse sua produção, hoje, devido ao custo -o piloto, com dois episódios, aparentemente custou mais de US$ 10 milhões- e ao formato de história sequencial, que se sai pior em reprises do que programas em que cada episódio conta uma história fechada.

A TV aberta, por décadas uma oligarquia formada por ABC, CBS e NBC, no passado serviu de ponto focal para os momentos culturais compartilhados do país -quase 83% dos domicílios dos EUA assistiram à apresentação de Elvis Presley no ‘Ed Sullivan Show’, em 1956, a maior audiência de televisão de todos os tempos em termos proporcionais. Em termos de número bruto de telespectadores, o episódio final do seriado ‘MASH’, em 1983, estabeleceu o recorde, com 106 milhões de telespectadores.

Nos três meses finais de 2008, as redes de TV aberta perderam 3 milhões de telespectadores, ou 7% de sua audiência total. Em termos gerais, o número de telespectadores cresceu, porém, e algumas redes de cabo de grande porte, como a USA e a TNT, estão atraindo novos telespectadores.

As redes de TV aberta ainda conquistam as maiores audiências, mas agora estão enfrentando uma profunda recessão publicitária que prejudica tanto as redes quanto as estações locais. As redes de cabo também foram afetadas pela queda na publicidade, mas elas contam com a base oferecida pelas taxas de assinatura.

‘É por isso que a arquitetura precisa mudar’, disse Michael Nathanson, analista da Sanford C. Bernstein & Company.

Tradução de PAULO MIGLIACCI’

 

LEMBRANÇA
Ruy Castro

Entrevista com Clodovil

‘RIO DE JANEIRO – O telefone tocou no ateliê da av. Cidade Jardim, em São Paulo, interrompendo minha entrevista com Clodovil para ‘Playboy’. O ano, 1980. Uma senhora queria saber o preço-base de um ‘vestido de Clodovil’.

‘Não posso dizer o preço-base, minha senhora’, ele vituperou. ‘Isso aqui não é quitanda para ficar perguntando o preço da cenoura. Quer fazer o vestido, vem e faz, mas não fica perguntando o preço por telefone. E não tem essa de comparação, porque uma etiqueta Clodovil não é uma etiqueta João das Couves. Passe bem!’.

Retomamos a entrevista. Entra uma modelo usando um vestido de tule. Desfila para Clodovil e diz que está achatando seu busto. Ele não perdoa: ‘O vestido está per-fei-to, meu bem. O seu busto é que está caído. Vá procurar um cirurgião plástico, entendeu? Eu é que não vou para o analista por sua causa!’.

Perguntei-lhe sobre a acusação de que fazia apologia do homossexualismo na televisão. Foi enfático:

‘Nunca fiz apologia de homossexualismo e nunca farei, porque acho um horror levantar bandeira de qualquer coisa. É uma besteira esse negócio de homossexual querer direitos e não sei o quê. O que é preciso é cada macaco no seu galho, no sentido de colocar-se diante da vida: sou homossexual e quero ser dentista, então vou ser dentista com dignidade; sou homossexual e quero ser político, então vou ser político com dignidade. Porque homossexual é filho de um homem com uma mulher, não é filho de gay. O que esses grupinhos da apologia fazem é ficar falando de sexo o tempo todo, o que acaba numa masturbação a dois’.

Ele era assim, duro, direto. Respondeu a dezenas de irritantes perguntas sobre homossexualismo e, exceto por um momento, em que ameaçou me expulsar, foi um dos melhores entrevistados que já tive.’

 

TELEVISÃO
Painel do Leitor

Record

‘‘Em nota publicada na coluna ‘Outro Canal’ (Ilustrada) de 13/3, o jornalista Daniel Castro afirma que a Record News, em fevereiro de 2009, teve audiência inferior à Globo News nos mercados de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis e Campinas. A informação é desmentida pelos números do próprio Ibope.

Segundo a pesquisa do instituto, em fevereiro, nos mercados citados, nas 24 horas do dia, a Record News teve 27.340 telespectadores por minuto, enquanto a Globo News, que também é citada como um canal com recepção possível por sinal aberto, além do canal pago, soma no total 16.010 telespectadores por minuto. Ou seja, a Record News, com apenas um ano e meio no ar, tem 11.330 telespectadores a mais do que a concorrente, uma diferença de 70,76% a favor da nossa emissora.

Quando o Ibope considera apenas a TV paga, a Record News, mesmo sendo oferecida para menos de 20% do universo de assinantes das distribuidoras, conquistou 2.430 telespectadores por minuto, e a Globo News teve 10.820 telespectadores por minuto. As informações podem ser comprovadas pelos relatórios do Ibope Mídia, por isso torna-se essencial a correção.’

ALEXANDRE RAPOSO, presidente da Record (São Paulo, SP)

Resposta do colunista Daniel Castro – A coluna compara as audiências da Globo News e da Record News na TV paga, sem somar com a aberta, como faz o missivista. O único erro foi confundir números de oito regiões metropolitanas com projeção para o país. Sobre isso, leia abaixo a seção ‘Erramos’.’

 

Audrey Furlaneto

‘Mandioca News’ global celebra 1.500 programas

‘Em 1979, quando Humberto Pereira, hoje com 70 anos, iniciou a implantação do ‘Globo Rural’, era comum ouvir nos corredores da Globo comentários sobre o tal ‘Mandioca News’, apelido que o jornalístico ganhou por ter um tema, segundo o editor-chefe, considerado ‘menor’ naquela época.

A emissora, no entanto, havia feito uma pesquisa e descoberto que, na área rural, existiam 4 milhões de televisores -e nenhuma programação específica para aquele público. Além disso, o presidente João Figueiredo (1979-1985) incentivava a agricultura com o slogan ‘Plante que o João garante!’. Pereira, então, pôde convocar os que considerava os ‘jornalistas de vanguarda’ da época, como Paulo Patarra, um dos fundadores da revista ‘Realidade’. Quase 30 anos depois e com o mesmo editor à frente, o ex-’Mandioca News’ completa 1.500 edições amanhã, com uma grande reportagem sobre o buriti, que, como muitas outras do programa, levou mais de três meses para ser finalizada, passou por Minas Gerais, Bahia e Goiás, terá citações de Guimarães Rosa e texto rimado do repórter Nelson Araújo -na equipe há quase 20 anos.

‘Vereda anuncia o cerrado/ Mas nomeou um encarregado/ Pra ter propaganda de si/ É o vistoso monumento/ Que com respeito eu apresento/ Sua excelência, o buriti’, escreveu o repórter para a introdução da matéria especial que será exibida amanhã.

Biotelevisão

Essa linguagem, de ritmo ‘um pouco mais calmo’, segundo o editor, é a tentativa de fazer uma ‘biotelevisão’. ‘Tudo de que falamos no ‘Globo Rural’ tem vida. É uma planta, ou uma árvore, ou uma bactéria. O ritmo que a gente dá é o ritmo da vida, é o ritmo biológico. Daí o plano-sequência longo. A gente filma a coisa no tempo que ela precisa ter para acontecer. Não compactamos nem esticamos o tempo. É quase uma biotelevisão’, diz Pereira. Com uma hora de duração, o dominical, que ganhou versão diária (mais curta, às 6h10) no ano 2000, mantém média de 12 pontos no Ibope. Seu horário, 8h, que pode soar um tanto ingrato para os telespectadores ‘urbanos’, é considerado uma de suas virtudes. ‘É um horário para quem quer escolher o que ver na televisão. O horário noturno, oito da noite, é hora de ver televisão, ou seja, todo mundo liga. No nosso caso, não. É para quem quer, procura, precisa do programa’, diz.

GLOBO RURAL

PROGRAMA 1.500

Quando: amanhã, às 8h

Onde: na Globo

Classificação: livre’

 

Folha de S. Paulo

Autor de ‘Sopranos’ filma Hollywood

‘David Chase, criador do seriado de maior sucesso da HBO, ‘The Sopranos’, fechou contrato com o canal para escrever e produzir a ambiciosa minissérie ‘Ribbon of Dreams’, sobre a história de Hollywood, desde o começo do século 20 até os dias de hoje. Personagens como John Wayne, Bette Davis e Billy Wilder devem aparecer nas histórias. A HBO não deu detalhes de quando a minissérie deve começar a ser produzida.’

 

CENSURA
Raul Juste Lores

China prende militar crítico a massacre na Paz Celestial

‘O ex-militar chinês Zhang Shijun, 40, foi preso ontem por divulgar uma carta que enviou ao presidente Hu Jintao pedindo investigações sobre o massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial em 1989.

Zhang estava em um dos batalhões que marchou rumo à principal praça de Pequim na madrugada de 4 de junho. Estimativas conservadoras citam 400 estudantes desarmados mortos pelo Exército.

Na terça, ele dissera em entrevista à agência Associated Press que a carta buscava relembrar o movimento e ‘limpar a consciência daqueles eventos trágicos’. ‘Sinto que meu espírito está preso naquela noite’, declarou. Na quarta, a polícia o interrogou, pedindo que não falasse com jornalistas estrangeiros. Na madrugada de ontem, segundo a organização Observatório de Direitos Civis, ele foi detido em sua casa em Tengzhou, na Província de Shandong, norte, onde vive com a mulher e a filha.

Pouco depois do massacre, Zhang pedira para deixar as Forças Armadas, pois ‘não estava preparado para lutar contra civis’. Em 1992, após entrar em um grupo de discussão sobre abertura política, foi preso e condenado a três anos de trabalhos forçados em um campo.

Na entrevista antes da prisão, ele revela que em abril de 1989 sua divisão de infantaria partiu para Pequim, onde os estudantes já acampavam na praça. Os militares ficaram de prontidão em um subúrbio, até que, no dia 3 de junho, chegou a ordem de ‘desocupar a praça’.

Zhang servia como médico e estava desarmado, diz. Mas ele se nega a dar detalhes ‘muito sensíveis’ do que viu. Há relatos do fuzilamento de estudantes acampados, mas os arquivos oficiais do evento nunca foram abertos pelas autoridades.

Sob o recrudescimento da repressão no país ante a aproximação do 20º aniversário do massacre, o dissidente afirmou desejar que seu exemplo inspire a outros ex-soldados. Ele disse ainda buscar compensação pelo tempo preso e querer mais abertura política. ‘Naquela época, sentíamos que o que aconteceu seria discutido logo. Mas a democracia parece cada vez mais longe’, declarou à AP.’

 

ACORDO ORTOGRÁFICO
Luisa Alcantara e Silva

Linguistas criticam publicação de vocabulário

‘Lançada anteontem, a nova edição do Volp (‘Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa’) não deveria ser publicada agora, sem que os outros países tivessem sido consultados, dizem linguistas. A publicação já traz a grafia nova de palavras alteradas pelo Acordo Ortográfico, que entrou em vigor no início deste ano.

De nove dos 17 membros da Colip (Comissão para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa, ligada ao Ministério da Educação) ouvidos pela Folha, seis criticaram a posição da ABL (Academia Brasileira de Letras) de publicar a obra sem discutir lacunas do Acordo com as outras nações lusófonas.

Na opinião desses especialistas, Portugal pode questionar a escolha da grafia de algumas palavras pela ABL. O hífen, por exemplo, gerou muitas dúvidas, uma vez que o Acordo não era claro sobre a sua utilização, ou seja, a ABL decidiu internamente a grafia de muitas palavras e expressões, como ‘coerdeiro’, sem hífen e sem a letra ‘h’, embora o texto oficial indicasse o uso de ‘co-herdeiro’.

‘Não entendo como um acordo internacional tenha sido interpretado como sendo de execução de um só país’, diz Gilvan Müller de Oliveira, professor de linguística da UFSC e diretor do Ipol (Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística).

José Luiz Fiorin, professor da USP e autor de livros sobre linguística, tem opinião semelhante: ‘O fato de o Brasil publicar um vocabulário ortográfico dá a impressão de que ele está querendo governar a implantação do Acordo’.

Para Fiorin, a publicação do Volp pode gerar um mal-estar com os outros países. ‘O Brasil deveria estar atento para isso, não levantando mais suscetibilidade nenhuma’, diz, lembrando o fato de alguns portugueses terem reclamado das mudanças provocadas pelo Acordo -enquanto apenas 0,5% do vocabulário brasileiro foi modificado, em Portugal a mudança chegou a 1,5%.

O professor diz que ‘não é possível que alguém ache que se trata de um vocabulário definitivo, uma vez que o Acordo é explícito’ em relação à criação de um ‘vocabulário ortográfico comum’.

Segundo Godofredo de Oliveira, presidente da Colip, ‘o entendimento é que este vocabulário é a contribuição brasileira para o Volp, o que implica dizer também que, se lá na frente houver alguma pequena adequação, a academia deve estar pronta para fazê-la’.

Evanildo Bechara, coordenador da Comissão de Lexicografia e Lexicologia da ABL e coordenador da elaboração do Volp, argumenta que, ‘se os portugueses seguirem o Acordo que eles assinaram, o vocabulário será igual’.

Sobre a escolha de ‘coerdeiro’, sem hífen e sem ‘h’, e de palavras cuja grafia o texto do Acordo não esclarece, ele diz que a tradição foi levada em conta. Segundo Bechara, ‘nenhum ponto de vista adotado pela academia é aleatório’ e, caso Portugal questione a posição da ABL, a academia irá ‘defender o ponto de vista dela’.

Sobre uma reunião que a Colip quer fazer com os outros países, Bechara diz não entender ‘como é que vão fazer reuniões para modificar aquilo que está de acordo com o que ficou decidido num acordo’. ‘Olha, acontece o seguinte: se partíssemos do pressuposto de que não deveríamos fazer o vocabulário agora, porque dentro de algum tempo haveria alterações, o homem estaria ainda no tempo das cavernas.’

Paulo Coimbra Guedes, da Colip e professor da UFRGS, concorda com Bechara. Ele diz que a ABL fez certo ao tomar a dianteira e lançar o Volp. ‘Não é culpa nossa se a gente tem muito mais habitantes que eles e se a gente é economicamente muito mais importante’, diz.

O Volp custa R$ 120. A ABL ainda não sabe quando ele estará disponível para consulta na internet.’

 

Thais Nicoleti de Camargo

Critério movediço embasa Volp

‘Finalmente, chega às livrarias a nova edição do Volp (‘Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa’), aguardada como a palavra final sobre as questões suscitadas pelo texto oficial do Acordo, sabidamente lacunar, sujeito a interpretações.

Compreende-se que a tarefa exigisse escolhas, mas a expectativa era que os pontos explicitados no texto oficial não sofressem modificações. Do mesmo modo, o que não foi mencionado, por pressuposto, permaneceria como estava, afinal, trata-se de reformar, não de demolir. Com base nisso, acertadamente, a equipe não hesitou diante da falta de referência ao prefixo ‘re-’ no texto oficial. Como, no sistema anterior, esse prefixo não se separava por hífen em nenhuma situação, era mesmo desnecessário interferir em grafias consolidadas, fato que, além de desafiar a tradição ortográfica da língua, seria um acinte ao princípio da simplificação, apregoado por toda e qualquer reforma ortográfica. Pelo menos em tese, ninguém faz reforma para complicar.

Já o prefixo ‘co-’ requeria, de fato, sistematização. Na convenção anterior, encontrávamos ‘corresponder’ e ‘co-responsável’, ‘co-edição’ e ‘coexistência’, ‘co-herdeiro’ e ‘coabitar’ etc. No texto oficial, o prefixo ‘co-’ aparece entre aqueles que requerem o hífen diante de termos iniciados por ‘h’ -e lá está ‘co-herdeiro’, mantida a grafia antiga, segundo o critério novo. Causa surpresa, portanto, o registro da grafia ‘coerdeiro’, numa aglutinação que não só contraria o texto oficial como não encontra eco na tradição.

Enquanto o ‘h’ de ‘coerdeiro’ desaparece em nome da simplificação, o de ‘sub-humano’ ressuscita em grafia que passa a coexistir com ‘subumano’, embora esta apareça seguida de dois intrigantes pontos de interrogação. Brandida como justificativa para a manutenção de diversas grafias duplas (‘carbo-hidrato’e ‘carboidrato’, ‘ab-rupto’ e ‘abrupto’ etc.), a tradição parece ter sido um critério movediço.

O acento diferencial de ‘côa’ permanece na edição nova do Volp, muito embora, segundo o texto oficial, devam permanecer apenas os das formas ‘pôr’ e ‘pôde’. Mais inusitado do que isso talvez seja o resgate da forma ‘bem-querença’, que havia muito já não frequentava nossos dicionários. Entenda-se: o Acordo propôs a aglutinação das formas ‘benfeito’ e ‘benquerer’ com base na propalada perda da percepção dos elementos constitutivos das palavras -e a prova disso estava nos cognatos aglutinados, como ‘benfeitor’ e ‘benquerença’.

‘Bem-querer’ ganhou dupla grafia, mas ‘benfeito’ ficou, de fato, aglutinado. O verbo ‘sotopor’ assume a forma ‘soto-pôr’, seguindo à risca a letra do Acordo e passando ao largo dos ditames da tradição. Na conjugação do verbo, porém, o hífen desaparece (‘sotoposto’). Muda a grafia só do infinitivo: nem simplificação nem respeito à tradição. Bem ou mal, está assim consolidada a ortografia do português do Brasil.

THAIS NICOLETI DE CAMARGO é consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL’

 

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