Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 16 E 17/1

Folha de S. Paulo

19/01/2010 na edição 573

TELEVISÃO
Laura Mattos e Clarice Cardoso

Tetraplégica, Luciana ficará grávida e sentirá o bebê chutar

‘Autor de ‘Viver a Vida’, Manoel Carlos já decidiu: Luciana(Alinne Moraes), que está tetraplégica, vai ter um filho com Miguel (Mateus Solano) e vai sentir o bebê mexer na barriga.

‘Só aindanão decidi se ela terá gêmeos.Como o Miguel é gêmeo do Jorge, isso pode se repetir naturalmente’, afirmou o autor da novela à Folha.

Ele diz se inspirar especialmente na história da jornalista Flávia Cintra, que teve gêmeos ‘após ouvir de um ginecologista que talvez não fosse indicado seguir com a gravidez’.

‘Entramos em contato com mulheres tetraplégicas que se casaram e tiveram filhos. A Flávia está sempre próxima de mim e da Alinne Moraes. O interessante das entrevistas que fazemos com cadeirantes que foram ou desejam ser mães é perceber como essas mulheres precisaram redescobrir a vida sexual após sofrer um acidente’, conta Manoel Carlos.

O autor diz ter percebido, como trabalho de seus pesquisadores, que ‘a dúvida em relação à vida sexual é comum a todas as mulheres que se tornam cadeirantes’. ‘O corpo da mulher continua a funcionar da mesma maneira, mas nem elas sabem se conseguirão se relacionar sexualmente com alguém.’ Quando descobrem que é possível ter e dar prazer ao parceiro, começam a ver a vida de outramaneira’, afirma.

O autor ressalta que ‘as mulheres continuam a menstruar como antes, precisam ir ao ginecologista e podem engravidar como qualquermulher’.

Para Manoel Carlos, o filho de Luciana e Miguel é importante para a mensagem que pretende passar com a novela, ‘de que é possível superar as dificuldades e ser feliz’.

Leifert, 77 pedidos de casamento

Em 2009, Tiago Leifert, 29, apresentador do ‘Globo Esporte’ paulista, assistiu a 267 jogos de futebol. Mas foipor causa de um outro número que, aí sim, ele foi surpreendido novamente: recebeu 77 pedidos de casamento pela internet.

As pretendentes não fazem rodeios. ‘Vão direto ao ponto. Não têm aquele romantismo’, brinca o apresentador, que acaba de completar um ano à frente da atração esportiva.

Descontraído em frente à câmera -não lê as notícias em uma tela, mas improvisa ao vivo no ar-, diz sentir-se próximo da audiência.

‘O público me vê como alguém que poderia estar ali do lado. Já sabe que minhas piadas são ruins, que minhas previsões nunca dão certo[ele nunca acerta um palpitede resultado de jogo] e que, a qualquer momento, eu voucantar o ‘Funk do Val Baiano’, diz, referindo-se àmelô que compôs em homenagem ao jogador, e que virou hit no YouTube.

Computadores são ‘controle remoto de gente’ na TV

Na semana passada, duas estreias trouxeram à TV computadores que pensam e falam e, com traços bem humanos, controlam, cada um a seu modo, a vida de um grupo de pessoas.

Em ‘Tempos Modernos’ (Globo), Frank sabe de tudo, dá conselhos a Antonio Fagundes e comanda o edifício Titã.

Já no reality ‘Solitários’(SBT), nove participantes isolados em celas têm cada minuto do dia controlado por Val.Leia trechos das conversas de cada um deles com a Folha.

FOLHA -Controlar o Titã é como ter um ‘BigBrother’ só para você?

FRANK – Ter o meu ‘Big Brother’ pessoal corta o gasto da assinatura da TV. O pouco que vi do programa me deixou revoltado com a falta de controle sobre os humanos do computador. Tenho pensado em fazer uma reclamação ao conselho de ética dos computadores. Aquilo depõe contra a classe!

FOLHA – Faz desfragmentação de disco para manter a forma?

FRANK – Não falo de assuntos íntimos para a imprensa.

FOLHA -Você já assistiu à sua colega que controla seres humanos?

FRANK – Intriga da oposição. Não vejo televisão.’

 

Ana Paula Sousa

Globo de Ouro tenta antecipar Oscar

‘Philip Berk, presidente da organização chamada The Hollywood Foreign Press Association (HFPA), concluiu a entrevista concedida à Folha com a seguinte observação: ‘Estranhas as perguntas que você me fez’. Berk espantou-se com o fato de, às vésperas do prêmio, não ter sido instado a falar sobre os favoritos da noite de hoje. ‘Todas as grandes estrelas confirmaram presença’, fez questão de contar.

Em sua 67ª edição –cuja cerimônia de entrega acontece hoje–, o Globo de Ouro, como faz todos os anos, posiciona-se como prévia ou termômetro do Oscar. Será mesmo? E qual a ligação entre seus votantes e os integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood?

Para responder a essas duas questões, basta pincelar as listas de premiados e, no site do Globo de Ouro, recolher os nomes dos 83 membros da HFPA –sigla que pode ser traduzida como Associação da Imprensa Estrangeira.

Há diferenças de categorias entre os dois prêmios, mas, ainda assim, é simples o cruzamento. O Globo de Ouro separa drama e comédia ou musical. O Oscar, não. Há, no entanto, os prêmios que se repetem, como melhor filme, ator e atriz coadjuvante, trilha sonora e diretor. Contados um a um, os resultados de 2005 a 2009 revelam um índice de acerto de 50%. ‘Muitos resultados são iguais ou próximos’, diz Berk. ‘O cinema não é exato.’

Os votantes, por sua vez, são escolhidos a partir de um critério exato: devem fazer parte da imprensa estrangeira, mas trabalhar em Los Angeles. Difícil é, na lista, encontrar nomes que estejam, também, no expediente dos principais veículos do países que representam.

‘Muitos não são nem jornalistas nem estrangeiros’, escreveu Roger Friedman, na Fox News. ‘A maioria dos votantes é idoso, aposentado ou, simplesmente, não faz parte do mundo do cinema.’

Questionado sobre a legitimidade dos votantes, Berk diz considerá-los o que há de ‘melhor’ na cobertura de cinema. Mas pondera: ‘Alguns deles estão na associação há muitos anos e, como você bem sabe, a imprensa vive uma crise, e as pessoas estão perdendo os empregos’. O presidente da HFPA observa que, além disso, alguns dos jornalistas que trabalham para grandes veículos preferem não se associar para ter mais ‘autonomia.’

Berk garante, porém, que a ideia de que os integrantes da associação têm ligações excessivas com os divulgadores que trabalham para os estúdios é absolutamente infundada.

‘Eles são todos independentes e têm uma rotina que inclui mais de 300 coletivas de imprensa num ano’, diz o presidente da instituição.

Registrada como uma organização sem fins lucrativos, o que garante abatimento nos impostos, a HFPA doou, em 2009, US$ 1,2 milhão para atividades ‘beneficentes ligadas ao entretenimento’. ‘Doamos dinheiro para universidades e para a preservação de filmes’, diz Berk. ‘Mas nosso forte é a grande festa que organizamos.’

Um contrato milionário assinado com a rede NBC garante a transmissão ao vivo do prêmio.’

 

Prêmios estão cada vez mais cobiçados

‘Na era da superprodução de filmes, nada é mais difícil do que se fazer visível em meio ao mar de títulos que, semanalmente, entre e sai das salas. Apenas em 2009, estrearam, no circuito comercial brasileiro, 318 longas-metragens. E isso não é nada quando se sabe que, anualmente, são produzidos no mundo cerca de 5.000 filmes.

Pois é nesse cenário marcado pelo gigantismo e pelo desejo de ‘acontecer’ que os prêmios ganham relevância. O nome de um prêmio prestigioso num cartaz equivale a uma medalhinha na farda de um militar. Sinal de distinção. Portas abertas.

Entre os filmes independentes, sair de Cannes, Veneza e Berlim com um troféu traduz-se em chances de conseguir distribuição internacional. Mas nenhum prêmio vale tanto dinheiro quanto o Oscar.

Festa do cinema hollywoodiano, o Oscar alimenta uma série de micro-prêmios assumidos como ‘prévia’ -sendo o Globo de Ouro o mais festivo- que aquecem os cinemas. Mas a verdadeira corrida por espaço terá início em 2 de fevereiro, quando saem os indicados. Essa é a hora de aproveitar a expectativa do público, até porque, após os resultados (neste ano, a cerimônia será em 6 de março), quem não ganha não se mantém em cartaz.

Já os vencedores veem os cifrões se multiplicarem. ‘Quem Quer Ser um Milionário’, que recebeu oito estatuetas em 2009, cresceu 11% nas bilheterias nos dias seguintes à premiação.’

 

Guilherme Werneck

Novela se inspira no pior da ficção científica

‘Tarefa difícil acompanhar um capítulo inteiro de ‘Tempos Modernos’. A novela das sete de Bosco Brasil, que estreou na segunda na Globo, não consegue entrar nem naquela categoria espúria que abriga as coisas que, de tão ruins, chegam a ser boas. Ou pelo menos divertidas.

A trama é bastante primária, uma tradição em se tratando de novela das sete. Um magnata da construção civil, interpretado por Antonio Fagundes, quer lançar seu segundo prédio inteligente no centro de São Paulo, o Titã 2. Para isso, terá de desapropriar e demolir uma galeria de roqueiros, filmada na decadente Galeria do Rock (SP).

Contudo a ideia por trás dessa trama não é de todo ruim. O Titã é um misto dos prédios inteligentes de hoje com a visão de microcidade vertical colocada em prática por Oscar Niemeyer no edifício Copan. Fruto da utopia humanista dos anos 1950, o conceito do Copan de integrar comércio e apartamentos residenciais, acessível a pessoas de diferentes extratos sociais, é ainda atual. Ainda mais quando sobreposta à ideia de prédio inteligente.

O difícil é engolir a inteligência do Titã. Começando pelo supercomputador que controla todo o prédio. A julgar pelos primeiros capítulos, Frank -uma franca cópia do HAL 9000 de ‘2001, uma Odisseia no Espaço’- talvez entre para a história como o mais burro dos computadores inteligentes.

É capaz de avisar para Fagundes que sua filha irá ligar, mas não de monitorar a segurança, que faz corpo mole durante um resgate, nem de mostrar assassinato travestido de suicídio.

Frank parece mais preocupado em dar opiniões inúteis e servir como um espião de luxo para o magnata. E a interação entre os dois gera os momentos mais constrangedores dentro de um festival de diálogos infames. Esse talvez seja o principal problema da novela. A tentativa de emular o humor rápido das sitcoms naufraga por conta do texto duro, que faz com que mesmo bons atores percam o tempo da comédia.

Também muito difícil de ouvir é a língua falada pelos roqueiros da galeria. Uma mistura bisonha de todas as gírias paulistanas, totalmente fora de contexto, tá ligado, truta? Se era para copiar clássicos da ficção científica, o autor podia se inspirar nos inovadores, dos livros de Jules Verne a ‘Star Trek’. Em vez disso, recicla velhos conceitos e tenta encaixar um rei Lear capenga no pior da ficção dos anos 80.’

 

CENTENÁRIO
José Murilo de Carvalho

Quincas, o belo

‘A natureza é reconhecidamente injusta na distribuição de seus dons. Uns os recebem em abundância, outros escassamente. Joaquim Nabuco estava entre os primeiros. Tinha um físico invejável (Quincas, o belo, o chamavam), aguda inteligência, facilidade para aprender línguas e reconhecidos dotes oratórios. A sociedade juntou-se à natureza proporcionando-lhe, pelo lado materno, um berço de açúcar em Pernambuco e, pelo paterno, uma longa tradição familiar de participação na política nacional. Sua vida teve quatro fases bem distintas.

Nascido em 1849, viveu os primeiros 30 anos sem se distinguir muito de outros jovens talentosos da elite do Segundo Reinado [1840-89]. Formou-se em direito em São Paulo e Recife, abandonou cedo a advocacia, tentou o jornalismo, a literatura, a diplomacia. Dessa fase, ficaram-lhe a grande admiração pelo pai, o senador Nabuco de Araújo (1813-78), e um amontoado de leituras desordenadas.

Em 1878, morreu o senador deixando preparada a eleição do filho a deputado geral por Pernambuco. Eleito sem dificuldade, deu início à fase mais brilhante de sua vida, que vai até a queda do Império. Embora já preocupado antes com o problema da escravidão, em boa parte graças ao exemplo do pai na luta pela aprovação da Lei do Ventre Livre [1871], só então decidiu abraçar a causa da abolição e o fez com total dedicação e em várias frentes.

Uma dessas frentes foi Londres, onde se autoexilou após uma derrota eleitoral na corte. Lá escreveu e publicou, pela Abraham Kingdon, em 1883, ‘O Abolicionismo’. Ganha gloriosamente a batalha em 1888, sobreveio no ano seguinte a grande derrota que foi a queda da Monarquia. Os próximos dez anos foram de isolamento, recolhimento, reflexão. Voltou à prática religiosa e, sobretudo, dedicou-se à escrita da biografia do pai, que foi publicada em três volumes, entre 1897 e 1899, pela Garnier, com o título de ‘Um Estadista do Império’.

Ao mesmo tempo, foi redigindo aos poucos os capítulos de ‘Minha Formação’, que saiu pela Garnier em 1900.

Guiana Inglesa

Em 1899, decidiu sair do isolamento e aceitou convite do governo republicano para defender a causa do Brasil na disputa com a Inglaterra pelos limites da Guiana Inglesa [leia na pág. 7 trecho de carta de Nabuco sobre a questão]. Perdida a causa, o barão do Rio Branco o nomeou primeiro embaixador brasileiro em Washington, cargo em que morreu em 1910. Dessa fase, não restaram escritos de maior relevância. ‘O Abolicionismo’, ‘Um Estadista do Império’ e ‘Minha Formação’, no entanto, escritos em tempos de amargura, formam uma trilogia de clássicos. O primeiro aparece em qualquer lista de dez livros mais importantes na área que se convencionou chamar de interpretações do Brasil.

O segundo entra fácil na lista das cinco melhores biografias. O terceiro faz o mesmo na das cinco melhores autobiografias. Autor de três clássicos, é talvez caso único no Brasil. Gilberto Freyre pode emplacar dois, ‘Casa-Grande e Senzala’ e ‘Sobrados e Mocambos’, mas não ‘Ordem e Progresso’.

Problema nacional

‘O Abolicionismo’ é, ao mesmo tempo, um programa de luta e um ensaio de sociologia política dos mais lúcidos já produzidos entre nós. O programa definia a escravidão como um problema nacional, acima dos partidos políticos, que devia ser resolvido pelos mecanismos do sistema representativo, sob a pressão da opinião pública. A sociologia desvendava um país marcado pela instituição escravista na economia, na política, na sociedade, nos valores. A escravidão, segundo Nabuco, perpassava a vida do país, invadia todas as atividades, todas as classes, todas as mentes.

Suas consequências, afirmava, estariam conosco por mais de um século, uma das previsões de longo prazo mais corretas já feitas entre nós.

‘Um Estadista do Império’ teve como subtítulo ‘Nabuco de Araújo, Sua Vida, Suas Opiniões, Sua Época’. Tratava-se, sem dúvida, de homenagem filial e, como tal, o papel do senador é ressaltado. Mas foi muito mais do que isso. A última palavra do subtítulo, sua época, é o ponto alto do livro. O senador foi um homem público em tempo integral, mesmo quando tinha que advogar para complementar o orçamento.

O filho via tudo sob o prisma do nacional e do universal. ‘Um Estadista’ é até hoje uma leitura indispensável para entender o funcionamento do sistema político do Segundo Reinado.

O autor consegue um equilíbrio raro entre a análise dos atores, de que desenhava magníficos perfis, e o movimento amplo da política, com ênfase no avanço das ideias liberais. Nesse exercício, não foi até hoje superado.

‘Minha Formação’ é um retrato precioso da formação intelectual dos filhos da elite política do Segundo Reinado, antes da avalanche dos filosofismos das últimas décadas do século, uma elite encharcada de leituras de literatos franceses e tratadistas ingleses. Livrou-o da pura afetação a aproximação que fez entre o engenho de Massangana e a rua Grosvenor Gardens de Londres, graças à qual definiu a incompatibilidade entre a escravidão brasileira e os valores da civilização ocidental.

Nabuco utilizou plenamente em benefício do país os dons e privilégios que recebeu da natureza e da sociedade.

JOSÉ MURILO DE CARVALHO é historiador, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Letras.’

 

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