Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 23 E 24/1

Folha de S. Paulo

26/01/2010 na edição 574

INTERNET
Elio Gaspari

O Big Brother diz que vem para o bem

‘Uma ideia para se rastrear a internet naufragou na Inglaterra, mudou de alma e chegou ao Brasil CHEGOU AO BRASIL a oferta de uma tecnologia de rastreamento de navegações pela internet capaz de mexer simultaneamente com a estrutura do mercado publicitário, com o alcance dos seus serviços e com a privacidade da clientela.

Atualmente, é comum o rastreamento dos endereços por onde navega uma pessoa. O Google rastreia as pesquisas que lhe são pedidas e com isso seleciona os anúncios que coloca em suas barras laterais. No ano passado, faturou mais de US$ 20 bilhões vendendo publicidade.

A publicidade direcionada é o sonho de receita de todas as empresas do universo da internet. Alguém quer anunciar uma pousada na Paraíba para casais com crianças pequenas, hábitos caros e gosto por windsurf? O rastreador coloca seus anúncios nas páginas de pessoas que navegam no mundo do luxo, dos esportes radicais e no comércio de brinquedos ou videogames. O anunciante, por sua vez, paga de acordo com o número de cliques que sua propaganda atraiu.

O novo Big Brother chega com quatro notícias. Uma ruim, três boas. Primeiro a ruim: a iniciativa é oferecida pela empresa Phorm, que em 2007 meteu-se numa tenebrosa transação na Inglaterra. Fez uma sociedade com a British Telecom e, sem aviso, rastreou o movimento dos internautas da operadora. Apanhados, desmancharam o negócio.

Agora, as boas notícias. As empresas de telefonia envolvidas na negociação garantem que a conversa parte de três clausulas pétreas. A saber:

1)O rastreador não guardará no seu banco os sítios frequentados pelo freguês, muito menos sua identidade pessoal. Ele traçará o perfil do cliente seguindo seu rastro, mas jogará fora as pegadas.

2)As operadoras de celulares que vendem serviços de internet não misturarão seus cadastros eletrônicos com os dados telefônicos da freguesia. Eles refinariam o perfil dos usuários, mas xeretariam a vida alheia.

3) Só será rastreado quem quiser, enquanto quiser. A Phorm e a BT tentaram enganar a clientela e ganharam um formidável adversário, Tim Barners-Lee, o cientista que, em 1989, teve a ideia de criar um troço chamado ‘world wide web’, o popular www.

Berners-Lee sustenta que o rastreamento deve ser uma escolha exclusiva do consumidor. Como o negócio é muito bom, as empresas podem oferecer incentivos para quem quiser ser rastreado. Criou-se no mercado a mistificação segundo a qual é dada ao freguês a opção de sair do serviço, obrigando-o a cumprir um breve calvário. Essa postura é arrogante. Não se oferece uma coisa a uma pessoa exigindo que ela se manifeste caso não a deseje. É justo o contrário, quem quer leva, quem não quer passa.’

 

Julio Wiziack

Internet móvel no país é cara e nos atrasa, diz Google

‘Alexandre Hohagen, 40, foi contratado em 2005 para turbinar a venda de anúncios para o Google no Brasil. Em 2009, passou a comandar a maior empresa de mídia do planeta na América Latina. Hoje, a companhia domina a internet no Brasil, as receitas cresceram 60% (a maior taxa do mundo) e, a partir de 2010, elas serão diversificadas com o Nexus, o primeiro celular com a marca da empresa. Com ele, o Google vai para cima da Apple, hoje líder de navegação pelo iPhone.

No Brasil, o preço dos pacotes de telefonia celular e o poder das operadoras entre os fabricantes de telefones podem atrapalhar os planos do Google. Hohagen diz que esses entraves atrasaram a chegada do Nexus ao país. O aparelho será lançado no Brasil no início do segundo semestre deste ano. Ainda segundo ele, a companhia pressiona as teles a baixar os preços dos pacotes de dados para massificar o uso da internet móvel. Isso seria importante para a próxima fase do Google, que prevê a oferta de aplicativos e outros serviços via celular que exigem conexão permanente e estável.

FOLHA – Com o iPhone, a Apple passou a liderar o uso da internet via celular. Foi por isso que o Google lançou o Nexus?

ALEXANDRE HOHAGEN – Cerca de 65% dos acessos à internet móvel ocorrem pelos smartphones [celulares que são pequenos computadores]. Dentro desse universo, a Apple detém 60% de participação com o iPhone. O Google nunca escondeu que a internet do futuro será via celular, com serviços personalizados. Essa internet identificará quem acessa, será capaz de localizá-lo, identificar seus gostos, ‘saber’ o que ele procura na internet. A plataforma móvel tem vantagens enormes sobre a fixa para esse tipo de funcionalidade. A ideia do Google sempre foi fazer a convergência da plataforma PC [internet fixa] para a móvel. O lançamento do Nexus tem a ver com o nosso interesse em oferecer essa experiência ao usuário sem nenhum tipo de interferência.

FOLHA – Que interferência?

HOHAGEN – Hoje as empresas de telecomunicações detêm o controle total do que vai nos celulares. Elas definem o sistema operacional, que aplicativos serão instalados, se vai acessar internet, em que rede o aparelho será usado. A estratégia do Nexus é deixar o cliente completamente livre, tanto em relação à operadora quanto ao conteúdo nele instalado.

FOLHA – Esse modelo encontra barreiras nas operadoras, cujo negócio está atrelado à venda de aparelhos subsidiados. Acredita que será possível quebrar as regras?

HOHAGEN – Por isso o modelo é híbrido. Vendemos o aparelho bloqueado -e, nesse caso, vinculado a um pacote de uma operadora- e desbloqueado, para o uso de qualquer chip.

FOLHA – Quando o Nexus chegará ao Brasil?

HOHAGEN – No início do segundo semestre. Em breve, devemos enviá-lo para a homologação na Anatel [Agência Nacional de Telecomunicações]. O aparelho está sendo apresentado para as matrizes das operadoras brasileiras.

FOLHA – Por que o Brasil não está entre os primeiros da lista?

HOHAGEN – Porque não chegou ao ponto de inflexão que países como a Índia atingiram. Aqui as operadoras não têm planos de dados com tarifas mais baixas. O Brasil está entre os países com mais celulares, mas o volume de buscas pelo Google via celular no país é baixíssimo.

FOLHA – As teles também reclamam que o tráfego de dados em sua rede é baixo.

HOHAGEN – No fundo, não faz parte da estratégia delas baixar o preço dos pacotes de dados nem vender planos sem limite de uso, que incentivariam a utilização da rede. Quanto custa um iPhone no Brasil? R$ 1.200, mais R$ 200 por mês por um pacote de dados? É um absurdo, estamos falando de quase US$ 150 em dados por mês. Em um ano, acaba custando mais que o aparelho. Na Índia, as operadoras vendem planos ilimitados por US$ 5 mensais. É isso o que chamo de inflexão e é o que o Google espera da América Latina. Infelizmente, a região ainda está muito atrasada.

FOLHA – As teles dizem que os planos são caros porque os investimentos da rede 3G ainda não foram amortizados.

HOHAGEN – Talvez seja por isso que ainda seja caro. Mas, sem planos acessíveis, não dá para trazer ao Brasil aparelhos com mais recursos nem serviços sofisticados. Temos uma série de novidades. Os serviços de tradução são extremamente importantes para a estratégia do Google, mas dependem de haver conexão estável com o usuário. Sem uma rede parruda, não dá para oferecê-los.

FOLHA – Pelo que se observa, a infraestrutura de telecomunicações do país ainda atrapalha a expansão do Google na internet móvel. Mas a crise fez muitas empresas apostaram na web. Isso não ajudou vocês?

HOHAGEN – Sem dúvida. Na crise, muitos passaram a pesquisar preços na internet, procurando ofertas, promoções. As empresas, principalmente as tradicionais, entenderam esse comportamento do consumidor e aumentaram os anúncios. O setor financeiro, incluindo bancos, seguradoras e financeiras, a indústria automobilística e até as empresas de bens de consumo aumentaram os investimentos no Google. O resultado é que crescemos cerca de 60% no Brasil. É a maior taxa do mundo para o Google e, além disso, o país também registrou a maior margem de lucro [cerca de 50%]. O mais importante é que conseguimos equilibrar nossa dependência das empresas ligadas à internet, a base de expansão do nosso negócio. Há cinco anos, 85% dos anunciantes eram empresas do ‘core business’ [empresas do mundo on-line]. Hoje, representam menos de 40%.

FOLHA – Ainda existe preconceito das empresas tradicionais em anunciar na internet?

HOHAGEN – Essa barreira existiu porque essas empresas, principalmente as de bens de consumo, são mais focadas na criação de marca [anunciando em outros canais de comunicação, como a TV e os veículos impressos]. Quebramos essa barreira. Hoje, o Google no Brasil já é o principal destino da Unilever. Em 2009, a GM dobrou seus investimentos, o Santander ampliou seus anúncios em 400%. Ambos não estavam entre os dez maiores anunciantes do Google em 2008. É um sinal de que o mercado brasileiro começa a amadurecer. Na Inglaterra, o volume de investimentos em internet já passou o da TV paga.

FOLHA – Como se comportaram as pequenas e médias empresas?

HOHAGEN – Elas foram um dos fatores que ajudaram a manter nosso crescimento. Grandes grupos não surgem da noite para o dia. Noventa e oito por cento das empresas brasileiras são de pequeno e médio porte e cerca de 25% delas estão conectadas à internet. É um volume brutal de negócios que podemos atingir. Há cinco anos, nenhuma delas anunciava. Hoje são centenas de milhares. Há um empreendedor em Guarulhos (SP) que vendia suplementos alimentares no fundo da casa de seus pais. Ele começou a anunciar no Google e hoje se transformou no maior vendedor de suplementos e equipamentos de ginástica do país.

FOLHA – O Google vai ceder e pagar pelo conteúdo das empresas de Rupert Murdoch [magnata dono de um grupo de mídia que controla o ‘Wall Street Journal’]?

HOHAGEN – Essa é uma discussão que põe em xeque a distribuição de conteúdo dos jornais impressos. O Google não quer se tornar uma empresa de criação de conteúdo e competir com eles. O que fazemos é simplesmente colocar nossos usuários em contato com o conteúdo dessas empresas no canal Google News. Seríamos como jornaleiros exibindo manchetes na banca. As empresas têm controle total da nossa indexação e da exposição de seus conteúdos em nosso site. Podem até dizer que não querem aparecer nesse canal, como alguns fazem [e como Murdoch quer fazer com seus jornais, como forma de pressionar o Google pelo pagamento]. Mas acho um desperdício, porque geramos 1 bilhão de cliques por mês para esses sites, que poderiam canalizar o tráfego para melhorar sua audiência e atrair anunciantes. Muitos que nos deixaram voltaram atrás porque entenderam que podemos ajudá-los como distribuidor de conteúdo.

FOLHA – Então por que a discussão?

HOHAGEN – Os produtores de conteúdo estão percebendo que a notícia virou commodity. O terremoto no Haiti é uma commodity, porque o internauta encontrará essa notícia em qualquer site jornalístico. Uma entrevista com o general brasileiro no Haiti ou uma análise do episódio passam a ser conteúdos exclusivos. A questão é: como cobrá-los? A internet já tem modelos de micropagamentos que poderiam ser usados para monetizá-los. O que não dá mais é proteger a notícia que todo mundo já tem. É esse modelo que o debate entre Murdoch e o Google deixa exposto. E o Google levará essa discussão até o final, se for o caso.’

 

97% da receita vem de links patrocinados

‘Criado em 1998 por Larry Page e Sergey Brin, o Google surgiu como uma ferramenta de buscas capaz de rastrear e organizar as páginas da internet. Desde o início, seus fundadores decidiram não cobrar pelo serviço. A empresa ganharia dinheiro com a venda de anúncios (ou links) patrocinados. Um internauta que procura, por exemplo, por roteiros de viagem encontra -no canto direito do resultado da sua busca- links com pequenos anúncios de agências de turismo. Caso o internauta clique em um desses links, é direcionado ao site do anunciante, e então o Google recebe por isso.

Esse modelo gera hoje 97% das receitas da companhia, que, no quarto trimestre de 2009, somaram US$ 6,7 bilhões, alta de 17% ante o mesmo período de 2008.’

 

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Marcelo Leite

Clima midiático

‘Aconteceu de novo: uma referência fajuta foi parar num documento sobre aquecimento global e gerou uma afirmação bombástica reproduzida por toda parte. Neste caso, foi o ‘Quarto Relatório de Avaliação’ (AR4) do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). A certa altura, o AR4 afirma que as geleiras do Himalaia estão retrocedendo e poderiam sumir até 2035. O governo indiano questionou o dado em novembro passado.

A previsão tinha aparecido pela primeira vez, mais de uma década atrás, numa entrevista de outro cientista indiano ao jornalista britânico Fred Pearce, mas nunca chegou a ser corroborada com dados em uma publicação científica. Apesar disso, a previsão acabou chegando ao AR4. Como fonte, o relatório do IPCC cita um documento da organização não-governamental WWF. Este, por sua vez, dá como referência reportagem de Pearce na revista de divulgação ‘New Scientist’ -de 1999…

Parece notável o paralelo com o caso brasileiro relatado aqui em 4 de março de 2007: um relatório do Ministério do Meio Ambiente (MMA), ‘Mudanças Climáticas Globais e seus Efeitos sobre a Biodiversidade’, afirmou que a elevação do mar pela mudança do clima punha em risco 42 milhões de pessoas no Brasil.

As fontes do número eram estranhas: Ministério da Educação e Greenpeace. Uma consulta ao documento da ONG revelou que a fonte primária era ‘O Mar no Espaço Geográfico Brasileiro’, volume do MEC e da Marinha para professores do ensino médio e fundamental. A reação dos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que coordenaram o relatório foi exemplar. Reconheceram o erro e o corrigiram de imediato. Em novembro, quando surgiu a crítica à previsão catastrófica sobre o Himalaia, o presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, outro indiano, reagiu com agressividade. Chamou o estudo de ‘ciência vodu’ e acusou-o de não ter passado por ‘peer review’ (revisão por pares, controle de qualidade por revisores especializados anônimos).

Com a revelação de suas ‘fontes’, o IPCC teve de admitir em comunicado, na quarta-feira, que os padrões científicos da organização não foram seguidos. Meio que se justifica dizendo que se trata de um (só) parágrafo ‘com estimativas mal corroboradas’ num documento de 938 páginas (tamanho da parte do AR4 em questão). O IPCC se encontra sob ataque, ninguém duvida, mas essa não é a melhor forma de tentar consertar uma gafe. Os ‘céticos’ (negacionistas) da mudança do clima aproveitarão a munição para lançar novas investidas, sem mencionar que a predição fajuta em nada altera a conclusão geral do AR4 de que o retrocesso de geleiras ameaça o fornecimento de água para centenas de milhões de pessoas na Ásia.

O ‘modus operandi’ dos negacionistas é conhecido: destacam todo deslize ou dado isolado que enfraqueça a interpretação de que o clima está mudando e omitem o crescente conjunto de evidências que a apoiam. Preocupante é ver que até jornalistas -melhor, alguns colunista conservadores- se prestam a esse jogo. Não se pejam em exibir a própria ignorância, desconhecem a diferença entre tempo e clima e estão vibrando com a onda de frio no hemisfério Norte. Todo o hemisfério Norte? Não, só partes das regiões mais habitadas. O Ártico propriamente dito está mais quente que o normal. Isso é de todo compatível com as previsões do IPCC sobre a mudança do clima. Mas quem se importa com a ciência?’

 

TELEVISÃO
Rodrigo Russo

Telefranquia

‘Se o negócio de televisão é inseguro (como provam as constantes alterações da grade que SBT e, agora, a Record promovem), que tal oferecer às emissoras perspectivas concretas de resultados, com base em índices de boa audiência e anúncios em outros países?

É dessa forma que empresas internacionais como Endemol, Eyeworks Cuatro Cabezas, Fremantle, Fox e Mark Burnett marcam forte presença no mercado brasileiro de programas de entretenimento, com os realities ‘Big Brother Brasil’, ‘A Fazenda’ e ‘Ídolos’, e game shows como ‘Um contra Cem’ e ‘O Preço Certo’.

Em 2010, devem acontecer pelo menos dez estreias de formatos importados (leia quadro ao lado), isso sem contar com novas temporadas de programas já exibidos (como a sétima edição de ‘O Aprendiz’) e com possíveis lançamentos de quadros em atrações da Globo.

‘O mercado brasileiro é muito bom para nós, especialmente neste momento, pois não foi abalado pela crise econômica global’, diz Scott Cru, diretor da área internacional da Mark Burnett Productions.

A empresa é responsável pela criação de formatos como ‘O Aprendiz’ (distribuído no Brasil pela Fremantle), exibido pela Record, e ‘No Tanque dos Tubarões’ (adaptação americana do japonês ‘Na Caverna dos Dragões’), que deve estrear em maio na RedeTV!, ambos realities focados em carreiras.

Carlos Gonzalez, presidente da FremantleMedia na América Latina, trocará, nos próximos meses, sua base, de Miami para São Paulo, por conta do crescimento da empresa no país: em 2008, tinha três formatos em exibição; em 2009, teve nove.

Vantagens

Para Daniela Busoli, diretora da Endemol Brasil, empresa criada em 2009 que opera no mercado (ao contrário da exclusiva Endemol Globo, responsável pelo ‘Big Brother’), os formatos diminuem os riscos das emissoras em dois quesitos: produção e audiência.

‘Nós temos experiência no modo de fazer cada produto, o que é uma vantagem competitiva. Além disso, mostramos às emissoras nosso histórico de audiência no exterior.’

Flávia da Matta, atualmente executiva encarregada do ‘Mega Senha’, formato de perguntas e respostas da Fremantle que deve entrar na RedeTV! em março, conta que, após efetivada a compra de um produto, a emissora recebe um manual de produção, conhecidos no mercado como ‘bíblias’, que contêm instruções detalhadas.

Além da bíblia, Cru conta que as empresas oferecem, como parte do pacote, o auxílio de um produtor itinerante, especialista no formato, que presta consultoria nos diferentes estágios de produção. ‘Eles são essenciais, especialmente na primeira temporada de um formato, e ajudam as redes a reduzir gastos.’

Para Busoli, oferecer produtos a vários clientes, sem pôr ‘todos os ovos na mesma cesta’, é o cenário ideal. A Endemol atualmente exibe ‘Um contra Cem’ (perguntas), no SBT, ‘Zero Bala’ (game), na Band, e deve estrear em março na RedeTV! com ‘O Último Passageiro’, game show focado no público jovem.

Da Matta concorda, e faz outra analogia: ‘Nós vendemos sapatos. Se não vendo para alguém, deixo de fazer dinheiro’.

Outro ponto importante é a forma de relacionamento com a emissora. Isso pode acontecer pela venda de uma licença ou por meio de uma coprodução, o que é mais lucrativo. Quanto mais episódios produzidos, mais atraente é o formato.’

 

Segurança é o atrativo para emissoras de TV

‘Não são apenas as empresas internacionais, vendedoras dos formatos, que estão satisfeitas com o resultado no Brasil. As próprias emissoras de TV, compradoras, celebram as parcerias: ‘Esses produtos, já amplamente testados, permitem que façamos uma equação, que também abrange o desenvolvimento de conteúdo mais autoral, mais criativo’, diz Mônica Pimentel, superintendente artística da RedeTV!.

A emissora promoverá a estreia de três formatos internacionais no primeiro semestre (‘O Último Passageiro’, ‘Mega Senha’ e ‘No Tanque dos Tubarões’), além de lançar o nacional ‘Operação de Risco’, reality policial da Medialand, no dia 1º de fevereiro.

Até mesmo a Globo, tradicional produtora de teledramaturgia, tem no ‘Big Brother Brasil’, formato da Endemol que já está na décima edição, um de seus maiores sucessos comerciais, por conta de patrocínios e de ações de merchandising.

Para Paulo Gregoraci, presidente da agência de publicidade W/, esse crescimento do segmento de formatos reflete uma tendência mundial, com caráter positivo e apoio do mercado. A única preocupação é quanto a um possível exagero, com volume muito grande e simultâneo desse gênero.

Gregoraci diz que os realities fazem sucesso entre os anunciantes por permitirem grande volume de ações de merchandising, com mais tempo de ação, liberdade, interação e agressividade. ‘Hoje, todo mundo sabe identificar o que é ação comercial, e em um reality isso fica menos deslocado de contexto do que em uma novela.’

Adaptação

Hélio Vargas, diretor artístico da Band, emissora que tem entre suas principais audiências os formatos ‘CQC’ e ‘E24’, destaca a necessidade de adaptações culturais nas atrações, para que façam sentido em contexto nacional.

Um bom exemplo é dado por Flávia da Matta, da Fremantle, que trabalhou na adaptação de ‘O Aprendiz’ para a Record: ‘Havia uma prova, na bíblia de produção, em que os concorrentes tinham de vender limonada na rua, o que é algo típico americano. Aqui, transformamos na venda de rosas em semáforos, mais comum’.

Daniela Busoli, da Endemol, vê adaptações como forma de evitar programas ‘enlatados’.

Scott Cru, diretor internacional da Mark Burnett, acredita que um formato é um modo de contar histórias, que devem ter apelo universal, e isso é o que determina o sucesso global de um programa: ‘O sonho de ter um ótimo emprego [prêmio final de ‘O Aprendiz’] vale tanto para um garoto americano do Iowa quanto para alguém de São Paulo’, exemplifica.’

 

Lúcia Valentim Rodrigues

Horário nobre vira filão de seriados

‘A TV aberta, de olho na audiência acima dos dez pontos, abriu espaço para os seriados norte-americanos.

O SBT consegue bons resultados desde setembro, quando colocou diariamente, no horário nobre, ‘Harper’s Island – O Mistério da Ilha’. Mas foi muito mais bem sucedido quando estreou a série de demônios ‘Sobrenatural’ -talvez alavancado pelo fenômeno de ‘Crepúsculo’ e ‘True Blood’.

Na próxima segunda, vai sentir a concorrência. Primeiro porque estreia um novo seriado. ‘Gossip Girl – A Garota do Blog’ tem um perfil adolescente, diferente da faixa entre os 18 e os 34 anos que assiste a saga dos irmãos Winchester.

O outro motivo é que a Record vai no embalo da estratégia da emissora de Silvio Santos e passa a reprisar, também diariamente, no horário das 22h, a decana ‘CSI Las Vegas’.

Como aconteceu no SBT com ‘Sobrenatural’, o seriado investigativo volta a partir de sua primeira temporada.

Atualmente no décimo ano, com vários protagonistas substituídos, tem um sabor agridoce (re)ver o chefe Grissom (William Petersen) magro e com sua surdez progressiva.

O canal também manterá a faixa da meia-noite para seus outros seriados -’CSI: NY’, ‘CSI: Miami’, ‘Mulher Biônica’, ‘House’ e ‘Monk’.

Mafran Dutra, presidente do comitê artístico da Record, diz que ‘CSI’ é ‘uma das séries mais assistidas no mundo’. ‘Com o final de ‘A Fazenda’, no dia 7, decidimos ocupar esse horário com séries. Estamos nos antecipando em duas semanas para o público se acostumar com o horário antes do término do reality show.’

Ele conta que houve uma pesquisa de mercado para embasar essa escolha. Se ‘CSI’ se mantiver sendo apresentada todos os dias, levaria sete meses para chegar aos episódios inéditos na TV aberta. Tempo demais para ter um enlatado ocupando a faixa normalmente reservada a novelas e produções nacionais no ar? Talvez. Dutra diz que ‘não está definida a quantidade de episódios que vamos exibir’. Resta saber se os fãs não serão frustrados se interromperem os episódios.

Na Globo, a faixa das séries ainda se mantém na madrugada, com resultados ligeiramente positivos. A quinta temporada de ‘Lost’ tem ficado com oito pontos de média até o último dia 20 -e a emissora confirma que vai comprar a última temporada para 2011. No próximo dia 1º, é a vez de ir ao ar a sétima temporada de ‘24 Horas’.

A Band também vai exibir seriados no horário nobre, mas não definiu qual programa vai estrear primeiro nem as datas.’

 

Documentário no GNT aborda trajetória de Maria Bethânia

‘Maria Bethânia é tema de mais um documentário, o inédito na TV brasileira ‘Maria Bethânia do Brasil’, que estreia amanhã às 21h no GNT (com reexibição no domingo, 31, às 2h30).

Dirigido em 2001 pelo franco-argentino Hugo Santiago, o filme recorre a imagens de arquivo (poucas) e depoimentos de Chico Buarque, Caetano Veloso, Dona Canô e da própria Bethânia para montar a cronologia artística da intérprete. Chico fala sobre as músicas que escreveu especialmente para Bethânia e lembra que foi com ‘Olhos nos Olhos’, uma dessas canções, que ela alcançou pela primeira vez as rádios AM e o público mais popular. Dona Canô relembra a infância da filha caçula, que era impedida de cantar no coral da escola porque os professores consideravam feia aquela voz tão grave.’

 

Laura Mattos e Clarice Cardoso

Mineira é contratada para ser ‘Hannah Montana’ brasileira

‘A Som Livre, gravadora da Globo, tentará criar a versão brasileira de Hannah Montana, personagem de série musical infantojuvenil da Disney que é fenômeno internacional de audiência e de licenciamento.

A escolhida é a estudante mineira Luciana Alone Pereira, 16, batizada artisticamente de Lu Alone, que lança seu primeiro CD. A garota, que já estudou em escola americana e morou dois anos nos EUA, canta em inglês, como Miley Cyrus, cantora que interpreta Hannah.

Moradora de Belo Horizonte, ela canta desde os 4 anos em coral, eventos da escola, casamentos e igrejas evangélicas.

Religiosa, contou à Folha ser ‘B.V.’, gíria adolescente para ‘boca virgem’ (nunca beijou na boca). Seu pai e empresário, Ian Alone Pereira, 41, acompanha a entrevista e enrubesce com a declaração. ‘A gente torce pelo sucesso dela, mas, ao mesmo tempo, se preocupa.’

Diretor de novos negócios da Som Livre, Marcelo Soares admite que a imagem de boa menina é positiva. ‘Não foi nada criado por nós. Ela é de família tradicional mineira e claro que isso é bom para o público dela.’

Lu compõe suas músicas e fala de ‘temas adolescentes’, como namoro e escola. ‘Minha música é comportada porque sou assim. Quero incentivar coisas boas’, diz a cantora.

Ela está fazendo shows para o canal Nickelodeon e continuará investindo em TV, segundo Soares. ‘Ela tem potencial para ter um programa. Estamos negociando com alguns canais. É natural que ela siga a linha de séries musicais teens.’

MÁFIA PICANTE

Nem o tiro de rifle tirou o fogo de Tony (Gabriel Braga Nunes) em ‘Poder Paralelo’ (Record): ele, que é casado e tem uma amante, cairá nos braços de Antônia (Francisca Queiroz); dia 28

O mistério das enfermeiras

Afinal, quem é a enfermeira de Luciana (Alinne Moraes)? A sinopse de ‘Viver a Vida’ indicava que a principal seria Laura, interpretada por Arieta Correa, famosa no teatro. O site da novela diz que ela iria ‘acompanhar Luciana durante todo o tratamento’. A previsão é que teria história própria. A também atriz teatral Cristina Flores, que nem tem foto no site, ficaria com Luciana só à noite. Laura foi apresentada à Luciana no hospital, mas sumiu da trama. Já Vitória aparece de dia e tem diálogos com Lilia Cabral. Arieta diz que continua a gravar ‘Viver a Vida’. Procurada, a TV Globo não comentou o ‘mistério das enfermeiras’.’

 

Alexandra Moraes

Repetições beneficiaram os reality shows

‘A longevidade do ‘Big Brother Brasil’ (Globo), que chegou à décima temporada, prova que a experiência fez bem aos reality shows. Ainda mais quando confrontado com os dois concorrentes, ‘A Fazenda 2’ (Record) e ‘Solitários’ (SBT). O elenco e os meandros do ‘BBB’ mostram que a repetição só beneficiou o formato.

O programa da Globo começou separando os confinados em tipos. ‘Sarados’, ‘belos’, ‘cabeças’, ‘coloridos’ e ‘ligados’ entregam logo de cara as compartimentações que fazem a festa de programas de humor.

Enquanto isso, em ‘A Fazenda 2’, fortões e gostosas se esforçam para mostrar qualidades éticas e sentimentais, sem muito sucesso.

O interno da ‘Fazenda’ Igor Cotrim é capaz de dar um show no Réveillon para protestar contra o que julga ser desperdício de comida.

Já no ‘BBB’, quando Sérgio, gay assumido, berra um ‘Quem é macho aqui!’ ao ganhar a liderança ou arma um jogo de beijo com Tessália, o que se vê é que a simplificação inicial acaba, paradoxalmente, dando espaço para que nuances cresçam.

Lá pelas tantas, Pedro Bial provavelmente vai ler alguma filosofice sobre frustração de expectativas. Quem sabe o sucesso do programa tenha a ver, talvez, bem talvez, com essa equação de tipos x surpresas.

Depois de dez anos, as jogadas ensaiadas dos realities estão claras. Deixar que os participantes dominem o cenário é receita certa para o tédio. Em ‘Solitários’, a conversa sem graça entre um suposto computador sádico e os supostos solitários soa tão forçada quanto a ideia de enjaular pessoas controladas por uma referência fraca ao HAL 9000 de ‘2001’: VAL.

VAL determina as missões de nove infelizes que concorrem a R$ 50 mil em troca do bom desempenho em uma espécie de show de talentos que faria Aracy de Almeida corar de vergonha alheia.

A TV está aberta ao show de horror dos participantes dos reality shows. Mas não custa nada respeitar proposições universais. A começar de um dito do poeta inglês John Donne (1572-1631) -batido suficiente para que qualquer recém-saído de reality show o conheça: ‘Nenhum homem é uma ilha’. E não vai ser a pobre VAL que vai mudar isso.’

 

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