Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 13 E 14/3

Folha de S. Paulo

16/03/2010 na edição 581

FOLHA
Folha lança ‘Manual da Redação’ 2010

‘A Folha lançou neste mês a versão 2010 de seu ‘Manual da Redação’, inteiramente adaptada às normas do Acordo Ortográfico que começou a vigorar no Brasil em 2009, com período de transição até 2012.

Embora as 392 páginas da obra tenham sido revisadas, as principais modificações estão no anexo gramatical, cujas tabelas de acentuação e uso do hífen visam responder rapidamente a dúvidas frequentes suscitadas pelas novas regras.

Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa do grupo Folha-UOL e uma das pessoas responsáveis pelo anexo gramatical, diz que as mudanças tornaram o manual ‘mais didático e de compreensão imediata’. ‘A tabela de hifens foi a mais trabalhosa.’

Outras mudanças de conteúdo estão no anexo jurídico, revisto pelos advogados Luís Francisco Carvalho Filho e Taís Gasparian. Nele, foram alterados os verbetes referentes à Lei de Imprensa, revogada pelo Supremo em 2009, e à obrigatoriedade do diploma em jornalismo para exercer a profissão, também derrubada pelo STF no ano passado.

Referência

A versão 2010 do ‘Manual da Redação’ atualiza a que foi lançada em 2001, a quarta desde o início do projeto editorial da Folha (as anteriores datam de 1984, 1987 e 1992). Segundo a Publifolha, que edita a obra, foram 52 mil exemplares vendidos de 2001 até abril de 2009.

Ana Busch, diretora-executiva da Publifolha, diz que grande parte do público do manual é formada por estudantes e profissionais de comunicação. ‘Mas também há forte interesse de qualquer um que precise lidar com texto no dia a dia.’ A média anual de venda do livro, afirma Busch, varia muito pouco, o que demonstra seu status de obra de referência na área.

Para Sérgio Dávila, que assume amanhã o cargo de editor-executivo da Folha, as vendas ‘impressionam num país em que um livro é best-seller a partir de 5.000 cópias e mostram o interesse que o manual continua a despertar para além da comunidade jornalística’.

Segundo Dávila, embora com foco na reforma, a atualização reflete o desejo do jornal de fazer do manual ‘não uma tábua de leis imutável e dogmática, mas um organismo vivo e atento às mudanças no jornalismo’.’

 

Folha recebe prêmio de infografia internacional

‘A Folha recebeu uma medalha de prata e duas de bronze no 18º Prêmio Internacional de Infografia Malofiej, a mais importante condecoração internacional na categoria. Pela segunda vez neste ano, o jornal foi a publicação brasileira com mais distinções em um prêmio de infografia.

O quadro ‘Difícil viagem ao centro da Terra’ (Dinheiro), sobre a exploração do pré-sal, ganhou medalha de prata de infografia de reportagem. Já a arte do texto ‘Obra usou material barato, aponta TCU’, acerca do acidente na obra do Rodoanel, e a intitulada ‘Voo 447 desaparece sobre o Atlântico’, sobre a queda do avião que saiu do Rio com destino a Paris, ambas publicados em Cotidiano, receberam bronze na categoria últimas notícias.

‘A representação visual ajuda o leitor na compreensão da informação. Por isso valorizamos cada vez mais o didatismo e a precisão na linguagem dos infográficos publicados pelo jornal’, disse o editor de Arte da Folha, Fábio Marra.

O Malofiej é uma iniciativa da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra (Espanha) e da SNDE, seção espanhola da SND (Society for News Design). O nome do prêmio é uma homenagem ao infografista argentino Alejandro Malofiej (1938-1987).

No ano passado, a Folha recebeu uma medalha de prata no Malofiej por uma infografia publicada no caderno Cotidiano em 2008.

Os outros veículos brasileiros premiados foram ‘Revista Placar’, ‘Mundo Estranho’, ‘Época Online’ e iG.

O prêmio máximo do Malofiej foi para a edição on-line do jornal sueco ‘Svenska Dagbladet’. A ‘National Geographic’ recebeu o maior número de medalhas, 22. Foram inscritos 1.439 trabalhos de 152 meios de comunicação de 30 países.

Em fevereiro, a Folha foi a publicação do Brasil mais premiada na 31ª edição do Best of Newspaper Design, da SND, por trabalhos produzidos em 2009 -foram 15 prêmios.’

 

Novo editor-executivo começa amanhã

‘O jornalista Sérgio Dávila, 44, assume a partir de amanhã o cargo de editor-executivo da Folha, subordinado ao diretor de Redação, Otavio Frias Filho. Dávila substitui a jornalista Eleonora de Lucena, que exerceu a função durante dez anos -de janeiro de 2000 até o final de janeiro deste ano.

Eleonora de Lucena marcou a sua gestão pela ênfase na interpelação dos Poderes, zelando pela aplicação dos princípios do projeto editorial da Folha -apartidarismo, pluralidade e espírito crítico. Colunistas renomados, como Danuza Leão, o economista Albert Fishlow, a senadora Marina Silva e o ensaísta Nelson Ascher, entre outros, passaram a escrever ou escreveram na Folha.

O jornal venceu uma crise financeira que afetou o setor no início da década, cobriu duas eleições presidenciais, duas Copas do Mundo e a sagração do atual papa. Preparou-se a reformulação editorial que será implantada em maio.

Sob sua coordenação, a Folha fez edições marcantes, como a do ataque terrorista em Nova York e Washington, em 11 de setembro de 2001, e deu furos históricos, como a revelação do mensalão -o maior escândalo dos governos Lula- em reportagem de Renata Lo Prete de junho de 2005.

Eleonora está em período sabático até o final do ano, convidada a ser correspondente do jornal em Washington. O posto de correspondente da Folha na capital dos EUA foi ocupado durante a maior parte da última década por Sérgio Dávila.

O novo editor-executivo cobriu como repórter o 11 de Setembro, além das eleições de George W. Bush e Barack Obama. Foi, também, o único repórter brasileiro em Bagdá durante a Guerra do Iraque, o que resultou no livro ‘Diário de Bagdá’ (2003).

Dávila foi editor da Ilustrada (1996 a 2000) e repórter especial (2003 a 2004 e 2005 a 2006). Em 2004, estudou na universidade Stanford, na Califórnia (EUA). Está na Folha desde 1993. Segundo o novo editor-executivo, cabe ao jornal ‘continuar a ser o principal produtor de informação de mais qualidade e de maior impacto na agenda política, econômica e cultural’.

Na nova função, ele pretende ‘consolidar a reformulação editorial em curso, baseada em informações e enfoques exclusivos e em textos sintéticos e analíticos, e fazer os meios papel e on-line conversarem mais entre si’.

Outras mudanças

A Folha promoveu outras mudanças no comando da Redação. Os jornalistas Vinicius Mota, 36, e Rogério Gentile, 36, exercem desde 1º de fevereiro as funções de secretários de Redação das áreas de Produção e Edição, respectivamente. Coordenam as editorias, as sucursais e os repórteres especiais.

Ex-editor das seções Mundo e Opinião, Mota substituiu o jornalista Vaguinaldo Marinheiro, que assumirá o posto de correspondente da Folha em Londres a partir de julho.

Ex-editor da coluna Painel e do caderno Cotidiano, Gentile assumiu as funções que eram da jornalista Suzana Singer. Ela será ombudsman da Folha a partir de 24 de abril, no lugar de Carlos Eduardo Lins da Silva, que prepara um livro sobre jornalismo a ser publicado pela Publifolha.’

 

CRÍTICA
Para Lula, ‘falsos democratas’ fazem editoriais

‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou um discurso na noite de quinta-feira para criticar editoriais feitos por quem ele chamou de ‘falsos democratas’.

‘De vez em quando é bom ler [editoriais] para a gente ver o comportamento de alguns falsos democratas, que dizem que são democratas, mas que agem querendo que o editorial fosse a única voz pensante no mundo’, disse, na 2ª Conferência Nacional de Comunicação.

Na quinta a Folha publicou o editorial ‘Passou do Limite’ que considerou ‘escandalosa’ a declaração de Lula que equiparou presos políticos a comuns ao comentar a greve de fome de um ativista cubano. O ‘Estado de S. Paulo’ publicou no mesmo dia o editorial ‘A ditadura justificada’ sobre o assunto.

Lula citou editoriais da década de 50: ‘Peguem alguns editoriais de 1953, quando se pensou em criar a Petrobras. O que eles falavam? Que o Brasil não precisava fazer prospecção de petróleo, que aqui não tinha petróleo.’

No mesmo discurso, afirmou que o governo resolveu cortar gastos com publicidade nas TVs e que isso despertou ‘curiosidade’. Segundo o presidente, recursos pagaram ‘apenas a mídia técnica, ou seja, ‘você vai ganhar pelo que você vale e não pelo que você pensa que vale’.

E concluiu: ‘Neste país, eles não estavam acostumados a ter um presidente que não precisa almoçar com eles, jantar com eles para governar.’’

 

HISTÓRIA
Codinome Machado

‘Doutora em letras pela Universidade de São Paulo, a pesquisadora Heloisa Helena Paiva de Luca defende um achado sobre Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908): ele seria o autor das crônicas escritas sob o pseudônimo Mercutio, na ‘Gazeta de Notícias’, em 1883.

Mercutio assinou a primeira e cinco outras crônicas da seção ‘Balas de Estalo’, de textos provocativos sobre o cotidiano. Tradicionalmente, a autoria é atribuída ao historiador Capistrano de Abreu (1853-1927). Paiva de Luca diz que não incluiu os textos na edição que organizou das ‘Balas de Estalo de Machado de Assis’ (ed. Annablume), em 2008, porque ‘ainda precisava de dados’ para defender essa hipótese.

Machado, afirma ela, escreveu como Mercutio e depois como Lélio, cabendo a Capistrano o pseudônimo Blick.

FOLHA – Mercutio é um pseudônimo de Machado de Assis?

HELOISA HELENA PAIVA DE LUCA – Desde o mestrado isso estava dançando em minha cabeça. Durante a pesquisa, ficou muito evidente que Mercutio era Machado. Como meu doutorado era ligado ao curso de francês, para defender a tese, haveria que defender alguma ligação entre França e Brasil. Estudei Molière e deixei [Mercutio] para depois do doutorado -quando aluguei o aparelho para ler microfilmes e cheguei a essa conclusão.

FOLHA – Que argumentos fundamentam sua tese?

PAIVA DE LUCA – São de duas vertentes. Primeira, as crônicas dos outros contribuidores das ‘Balas de Estalo’. Algumas frases trazem essa verdade à tona. Um dos jornalistas, Dermeval da Fonseca, usava o pseudônimo Décio. Ele escreveu que ‘este Mercutio e este Blick eram aquele mesmo e único professor de história’.

Depois disso, ninguém foi procurar ver se Mercutio e Blick eram o mesmo autor. Mas Valentim Magalhães, o José do Egito, fala que, ‘quanto ao Mercutio, (…) ficou tão envergonhado -coitadinho!- que tratou logo de mudar de nome’.

Mercutio escreveu seis crônicas. Na última, critica o sobe e desce dos ministérios. O imperador aceitaria o sobe e desce, e por isso o país não ia para a frente. A alfinetada no imperador foi grande. Machado… não, Mercutio… também alfineta o positivismo, especialmente a prática de grupos fechados, a maçonaria. Não dá para dizer com certeza quem foi o mais atingido e quem lhe deu uma podada, mas ele ficou um mês sem escrever e voltou como Lélio. Minha tendência é pensar que foi o imperador.

FOLHA – Houve censura?

PAIVA DE LUCA – Sim. Além disso, são completamente diferentes os modos de escrita de Machado e Capistrano. Este é um historiador, não um cronista ou ficcionista. Em todas as seis crônicas de Mercutio, a temática é muito ligada à temática de Machado.

FOLHA – E está sendo fácil convencer os colegas de sua descoberta?

PAIVA DE LUCA – Até agora só conversei com meu orientador [Gilberto Pinheiro Passos], grande especialista no autor. Ele concorda: não existe 100% de certeza, mas ali há 99% de Machado.

FOLHA – Os pseudônimos eram meios de proteger a identidade dos autores ou eram ‘heterônimos’, personagens?

PAIVA DE LUCA – O dono da ‘Gazeta de Notícias’ [Ferreira de Araújo] queria fazer uma matéria muito inovadora -e realmente isso não tinha ainda acontecido no jornalismo brasileiro. No começo queria ‘balas de artilharia’, com crônicas mais agressivas. Então o pseudônimo era um escudo. Depois o tom muda, alguma coisa séria deve ter acontecido para os textos ficarem menos picantes.

FOLHA – O nome ‘Balas de Estalo’ dá uma ideia de festim…

PAIVA DE LUCA – Realmente, as crônicas deveriam ser de pouco efeito. É como hoje, quando alguém alfineta o jeito de falar do presidente, sem se atrever a falar mal dele.

FOLHA – Mercutio, em ‘Romeu e Julieta’, é um amigo falastrão, conselheiro a quem não dão ouvidos. Que devemos tirar dessa alusão?

PAIVA DE LUCA – Machado gostava muito de Shakespeare. Antes de Mercutio, já tinha escolhido Malvolio, ironia com o Benvolio do Shakespeare. Ele sai da tragédia inglesa para a comédia de Molière, pois Lélio é personagem da peça ‘L’Étourdi’ [O Aturdido], também um tipo alegre, amigo, generoso -há um grande ponto em comum entre os dois, personagens de mesma estrutura de composição, de alma. Nada a ver com Blick, que em alemão significa ‘olhar’, ‘mirada’.

FOLHA – A sra. estudou a influência francesa em Machado, especialmente Molière. Como o humor explícito desse autor se transforma na ironia machadiana?

PAIVA DE LUCA – Machado é um disfarçador. Quando queria fazer o leitor rir, trazia de Molière uma frase, uma expressão, às vezes um versinho.

FOLHA – O humor da crônica é diferente da dos romance ou contos?

PAIVA DE LUCA – Não sou especialista no romance de Machado, mas diria que não há muita diferença.

FOLHA – Quanto Machado muda de estilo entre a ‘Gazeta de Notícias’ e ‘A Semana’ , por exemplo?

PAIVA DE LUCA – Quando começou a escrever ‘Balas de Estalo’, ele já tinha mais de 20 anos de jornalismo. Antes, parece que tinha sido uma procura, suas crônicas eram mais simples, com tracinhos gráficos separando um tema do outro. Ainda não era o Machado por inteiro. ‘Balas de Estalo’ foram a transição de uma fase experimental para uma fase madura. ‘A Semana’ é o ‘filé mignon’.

FOLHA – O que o leitor comum pode aprender com essas crônicas?

PAIVA DE LUCA – A escrita em alto estilo. A crônica tem de ter aquele elo de pensamento, um parágrafo conectado ao outro por algum ponto.

FOLHA – São possíveis textos como esses nos jornais de hoje?

PAIVA DE LUCA – Sim, vocês têm um exemplo na Folha: Carlos Heitor Cony pega fatos e desenvolve de maneira muito bonita, gostosa de ler.’

 

Leia crônica que seria de Machado de Assis, publicada na ‘Gazeta de Notícias’ em 25/4/1883

‘Carta a R.J. Kinsman Benjamin

MERCUTIO

Sou um dos maiores admiradores do Club a que ligou o seu nome, caro maestro. Dos 25 concertos que tem dado, tenho estado presente a 24.

Se não posso, como um meu amigo, gabar-me de ter vindo expressamente de São Paulo, para não interromper a série, ao menos não vou, como ele, trocar as nossas reuniões quinzenais, tão íntimas e tão singelas, pelos concertos, provavelmente mais ‘fashionable’, mas com certeza menos acabados, do célebre Pasdeloup.

Julgo-me, portanto, autorizado, como administrador seu, como entusiasta do Club Beethoven, a dizer as inquietações que nos últimos tempos me têm atribulado.

A mudança do Club, da rua do Catete para a rua da Glória, à primeira vista acha-se ao abrigo de qualquer reproche. Mas pense bem e verá que ‘latet anguis’.

Na rua do Catete havia como que um santuário, uma cripta venerável, a que iam em peregrinação os romeiros da arte.

Na rua da Glória temos um templo magnífico: a sala de leitura é tão ‘coquette’, tão ‘cheerful’, que atrai; a sala de concertos é mais grave, porém a gravidade só é percebida por um ato refletido.

A consequência será que os concorrentes não hão de ir mais aos concertos por simples amor à arte; mas por vaidade, por desejo de mostrar-se, como se vai a uma missa de meio-dia.

Talvez o mal não pareça grande; mas com certeza não é para desprezar. Em breve o Club estará na moda; entrarão nele primeiro os ‘gommeux’, depois os medalhões.

Ora, um medalhão quer dizer um presidente.

Assim, dentro de um espaço mais ou menos longo, teremos para presidente o sr. Visconde de S. ou o sr. Barão de C. ou o sr. Comendador Z.

Teoria dos medalhões

O sr. Visconde, ou barão ou comendador, não é, porém, homem que sinta grande entusiasmo pela música. Não que ela o desgoste: ao contrário, tem assistido a 50 representações da Mascotte, é um dos maiores apreciadores do Boccacio, até sabe de cor porção de trechos dos ‘Sinos de Corneville’ e de ‘Maria Angu’.

Mas para ele a música é apenas um condimento; um condimento com que no teatro são servidas pernas, decotes e frases apimentadas; um condimento com que nos salões servem-se quadrilhas, valsas, recitativos e namoros.

O primeiro ato do medalhão, presidente, será portanto fazer inserir no programa as peças de música que lhe sabem ao paladar: valsas, polcas, habaneras etc. Depois começará uma propaganda ferrenha: tocar polcas e não dançar é um suplício de Tântalo; um salão sem mulheres é um jardim sem flores, um céu sem estrelas, um oceano sem águas; e mais outras chapas. Venham portanto as flores do jardim de nossa existência; as estrelas do céu de nossas fantasias; as ondas azuis do oceano de nossos devaneios -mais outras chapas.

Julga que isso não há de se dar?

Há de.

No concerto de sábado, estive junto a um medalhão; olhei indiscretamente para a sua algibeira e vi quatro conferências a saírem e uma presidência a bracejar.

A coisa é, portanto, séria, meu caro maestro, e é urgente dar-lhe remédio enquanto é sanável.

O remédio é fácil e eu aqui lho ofereço com todo desinteresse.

1º) Os medalhões serão sujeitos a provas especiais e muito rigorosas.

2º) Pagarão o décuplo da joia e víntuplo da mensalidade.

3º) Todos os anos a assembleia geral decidirá se poderão continuar.

4º) O único emprego que poderão ocupar é o de caixeiro ou cobrador (prestando conta dobrada).

5º) A atual diretoria é inamovível.

6º) Desde o dia em que se decidir a entrada das senhoras, o nome do Club Beethoven será mudado no de Club Polca.

Espero, caro maestro, que atenda às minhas considerações, faça-as passar e assegure assim o futuro de uma instituição que, nascida de ontem, já arquiva um tão belo passado.’

 

LITERATURA
Peter Burke

O colecionador

‘José Mindlin (1914-2010) foi o mais recente e, esperemos, não o último integrante de um grupo de colecionadores de livros, possuidores de interesses acadêmicos, que se mostram generosos para com outros estudiosos.

Várias grandes bibliotecas públicas foram, em sua origem, bibliotecas particulares. A Biblioteca Britânica, por exemplo, começou como Biblioteca Real, a coleção particular do rei Jorge 3º, enquanto a Biblioteca Nacional da França foi, até a Revolução Francesa, a Biblioteca Real francesa.

A Biblioteca Morgan, em Nova York, foi anteriormente a coleção particular do banqueiro John Pierpont Morgan (1837-1913), transformada em instituição pública pelo filho dele, em 1924.

Contudo, esses exemplos ilustram como livros, assim como obras de arte, com frequência são colecionados com finalidades exibicionistas -em outras palavras, mais para impressionar outras pessoas que para uso ou desfrute próprios de seus donos.

O rei francês Luís 14, por exemplo, não se interessava especialmente pela leitura, mas seus assessores políticos sugeriram que montar a biblioteca real seria uma maneira de fomentar sua reputação fora do país, de associar seu nome e o da França ao conhecimento e à civilização.

Jorge 3º, da Inglaterra, tampouco foi um intelectual, embora se interessasse por livros sobre agricultura. Sua biblioteca também foi montada mais para ser mostrada que para seu próprio uso.

Contrastando com isso, porém, algumas grandes bibliotecas particulares foram formadas porque um indivíduo determinado não apenas tinha paixão por livros, especialmente livros sobre determinados assuntos, como era dotado dos meios econômicos para acumular uma bela coleção. A seguir, eu gostaria de comparar a biblioteca de Mindlin com quatro coleções que já foram particulares, embora todas tenham se tornado públicas ou sido incorporadas a bibliotecas abertas ao público.

Livros não lidos

Duas dessas coleções foram formadas na Europa e duas no Novo Mundo. Pertenceram no passado a lorde Acton, Aby Warburg, John Carter Brown e Manoel de Oliveira Lima.

Lorde Acton (1834-1902), que lecionou história na Universidade de Cambridge, foi um inglês incomumente cosmopolita (de ascendência parcialmente alemã) cuja riqueza herdada lhe permitiu comprar tantos livros quanto quis, sobretudo livros de história. Um estudioso que o visitou em Cambridge ficou impressionado com os livros que enchiam a sala em que Acton o recebeu, observando que muitos deles tinham pedaços de papel marcando uma página em especial, fato que sugeria que os livros teriam sido usados.

Mas ele também havia recordado que os pedaços de papel normalmente estavam nas primeiras páginas de cada livro, como se Acton não tivesse tido tempo de lê-los até o final. Já usei em vários momentos livros da coleção de Acton, que hoje faz parte da Biblioteca Universitária de Cambridge e, por várias vezes, tive que cortar as folhas de um livro cujo dono evidentemente nunca o lera.

Como todos os grandes colecionadores, Acton possuía mais livros do que poderia ter lido na vida. Afinal, se lermos um livro por dia durante 40 anos, o total chegará a 14.600 livros, sendo que uma grande coleção particular pode conter até 40 mil ou 50 mil volumes.

Mesmo assim, a biblioteca de Acton foi formada para pesquisas, mais que para exibição, fato condizente com o interesse de seu dono pela história da Europa, especialmente a partir do final da Idade Média.

O filho do banqueiro

Aby Warburg (1866-1929) foi o filho mais velho de um banqueiro alemão. A expectativa era que seguisse o caminho de seu pai, trabalhando na empresa familiar, mas ele queria ser acadêmico.

Então, entregou o banco a seu irmão, sob uma condição -que ele pagasse por todos os livros que Aby quisesse, pelo resto de sua vida.

O irmão não deve ter imaginado quantos livros Aby iria querer ou precisar -tudo o que pudesse encontrar sobre a história da tradição clássica e, de modo mais geral, que fizesse parte da ‘ciência da cultura’ (‘Kulturwissenschaft’).

Warburg tinha prazer em receber outros estudiosos em sua biblioteca, que se tornou semipública em 1914 e então foi convertida em um instituto, transferido de Hamburgo para Londres após a chegada de Hitler ao poder, em 1933, para evitar o confisco (já que a família Warburg era judia). Hoje a biblioteca faz parte da Universidade de Londres. Warburg se interessava profundamente pela organização dos livros nas estantes.

A biblioteca era -e, felizmente, ainda é- uma biblioteca de acesso aberto, com isso permitindo que funcione o que Warburg chamava de ‘a lei do bom vizinho’. (Segundo essa lei, o livro de que um leitor realmente precisa não é aquele do qual ele já tem conhecimento e que identificou no catálogo, mas o livro ao lado, em um sistema de classificação cuidadosa e precisa por temas.)

Coleções na América

Duas importantes bibliotecas particulares no Novo Mundo, além da de José Mindlin, focalizam a América -a do Norte e a do Sul. A ambição de John Carter Brown (1797-1874), um homem rico que passou sua vida colecionando, era reunir todos os livros, manuscritos e mapas que pudesse encontrar que dissessem respeito à história das Américas.

Seu filho John Nicholas Brown continuou a colecionar, mas, em seu testamento, deixou a biblioteca à Universidade Brown (que assumiu seu nome em agradecimento às beneficências recebidas da família Brown). Hoje, com cerca de 45 mil volumes, ela faz parte de um instituto independente de pesquisas no interior da universidade e abriga exposições, palestras e conferências.

Outra grande biblioteca particular que foi posteriormente incorporada a uma universidade foi montada pelo diplomata e estudioso brasileiro Manoel de Oliveira Lima (1867-1928), que, entre outras coisas, foi mentor de Gilberto Freyre na juventude deste.

Como seu proprietário, a biblioteca se concentrava sobre a história do Brasil, de Portugal e do império português na Ásia e na África. Em 1916 Oliveira Lima doou a biblioteca, que hoje contém 50 mil livros, à Universidade Católica da América, em Washington. Ele se nomeou o primeiro bibliotecário dela.

Tradição grandiosa

Resumindo: a biblioteca de 40 mil volumes de José Mindlin, que agora será doada à USP, faz parte de uma tradição grandiosa. ‘Nunca me considerei o dono desta biblioteca’, observou Mindlin certa vez, apenas seu guardião para a posteridade.

Esperemos que Mindlin não seja o derradeiro dos grandes colecionadores cujas bibliotecas refletem seu entusiasmo pessoal pelo conhecimento, mas que têm a generosidade de compartilhar com outros aquilo que adquiriram.

PETER BURKE é historiador inglês, autor de ‘A Tradução Cultural’ (ed. Unesp) e ‘O Historiador como Colunista’ (ed. Civilização Brasileira). Escreve regularmente no Mais!.

Tradução de Clara Allain.’

 

TELEVISÃO
Andréa Michael

Boxe, estreias e namorado novo

‘Reforma radical na vida de Cristiana Arcangeli, 45, para 2010. Adepta do boxe, criou uma nova marca de produtos de beleza, a Beauty In, vai estrear duas atrações na Record e está namorando com o tambémem presário Álvaro Garnero -que ‘conhecia há muito tempo’.

Já gravou quatro programas do ‘Aprendiz Universitário’. Diz que os conselheiros, como ela, serão mais atuantes nesta nova temporada do que quando comandados por Roberto Justus.

No primeiro dos 13 episódios do ‘Extreme Makeover Social’, lançará a polêmica: ‘O que é felicidade para você? Porque ser rico não significa ser feliz’.

Coproduzido com Endemol Brasil e Amora(de Garnero), o ‘Extreme’ reformará creches em São Paulo e no Rio.

O ‘CQC’ QUE SABE TUDO

Amanhã , no ‘CQC’ (Band), Marco Luque ganha quadro próprio: ‘Luque Responde’. No espírito da atração e à convite da Folha, ele ncomenta notícias de destaque na mídia.

FOLHA – Qual mulher se dará melhor na Indy hoje?

MARCO LUQUE – A que Tony Kanaan levar pra jantar depois da corrida… (risos)

FOLHA – Entre Serra e Dilma, como determinar as chances de cada um na eleição?

LUQUE -O mais eficiente pra saber a real chance de cada um seria uma eleição ‘fake’.

com CLARICE CARDOSO

‘Web não é só chamariz para TV’

É claro o alerta de Joe Michaels, vice-presidente sênior do MSN e responsável por todas as parcerias de vídeo do portal: ‘As emissoras brasileiras devem pensar já em uma forma criativa de fazer a internet dar lucro, ou será tarde’.

Um dos criadores do projeto MSN Video, ele falou à coluna dos EUA antes de viajar ao Brasil, onde participará de um congresso sobre TV 2.0, em São Paulo. Na ocasião, falará de sua experiência em construir com as emissoras norte-americanas uma forma rentável de explorar sua produção na rede.

‘No começo, fui malsucedido. As TVs só queriam usar a web como chamariz para fazer as pessoas verem televisão. Depois do que aconteceu com a indústria da música, acordaram.’

Não deu certo, segundo Michaels, primeiro disponibilizar todo o conteúdo de graça para depois tentar cobrar a fatura. ‘Ensinaram as pessoas a consumir gratuitamente e, agora, quer em convencê-las a pagar.’

Existe uma pergunta ainda sem resposta definitiva: como fazer dos vídeos on-line algo tão lucrativo quanto é a TV?

Há um duplo desafio. Os executivos tentam descobrir como monetizar e vender anúncios que não sejam invasivos para o usuário -a questão mais urgente para o especialista.

Já os criativos têm de tirar o internauta de milhares de distrações e fixá-lo em uma janela.

‘Nem tudo o que se faz na TV funciona on-line. A televisão tradicional é muito lucrativa. A questão é como gerar dinheiro suficiente para criar uma programação com o mesmo nível de qualidade para a rede.’

A tendência nos EUA são conteúdos que remetam a diferentes plataformas. O usuário poderia consumir o produto na TV e interagir com ele na web, no celular ou no vídeo game.

‘É por conta dessa demanda que a televisão tradicional não funciona tão bem na internet. Hoje, as pessoas querem o poder de decidir o que e quando ver. Mas as emissoras se baseiam num modelo tradicional, de escassez, que não oferece tantas opções’, avalia.

CONGRESSO TV 2.0

Quando: 19/3, das 8h30 às17h30

Onde: Centro de Convenções Frei Caneca(r. Frei Caneca, 569, tel.0800-77-15-028; R$1.300)’

 

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