Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 27 E 28/3

Folha de S. Paulo

30/03/2010 na edição 583

ISABELLA NARDONI
Nelson de Sá

Na cobertura, até Xuxa falou sobre Isabella

‘A televisão deu a largada uma semana antes, dias 15 e 16, com longas entrevistas do promotor e do advogado de defesa ao telejornal local da Globo, adiantando as ‘estratégias’.

Na segunda-feira, 22, sete helicópteros de cobertura seguiram o casal, da prisão ao fórum, abrindo o espetáculo.

Mas a histeria só foi se espalhar a partir de terça, segundo dia do julgamento, quando os telejornais nacionais destacaram que uma delegada afirmou ter ‘100% de certeza da culpa’ e o advogado ‘tentou desqualificar as provas técnicas’.

Foi o dia em que o promotor exibiu uma maquete e ‘fotos da menina’ e que o advogado ‘isolou a mãe da menina’, argumentando que o ‘casal é vítima’, na escalada das manchetes de televisão.

Foi quando se estabeleceu ‘o duelo’, o conflito de mocinho e bandido entre promotor e advogado, no roteiro da cobertura.

Na audiência seguinte, ao chegar ao fórum, o advogado foi agredido. Mais um dia e um pastor e um jovem que defendiam o casal também foram agredidos pelas pessoas levadas à porta do fórum.

Na cobertura sem fim, o programa ‘TV Fama’, da Rede TV, ouviu Xuxa citar ‘a Isabella’ como argumento na campanha ‘não bata, eduque’.

Chegou a noite de sexta-feira para sábado e, na espera ansiosa da sentença por rádios, canais de notícias e as próprias redes, a falta do que apresentar levou jornalista a entrevistar jornalista, com a aposta de condenação iminente do casal.

Até que entrou afinal o plantão do ‘Jornal da Globo’, com a extensa e anticlimática leitura da sentença pelo juiz, aliás citando a ‘mídia farta’ que acompanhou o julgamento, o ‘número tamanho de profissionais de imprensa que para cá acorreram’.

Por outras emissoras, assistiu-se então à inusitada queima de fogos de artifício, em festa popular pela condenação mostrada num telão instalado diante do fórum.

Embalada pelo ‘Tema da Vitória’, que a Globo encomendou ao Roupa Nova quase três décadas atrás, para as transmissões de Fórmula 1, a multidão cercou e chutou o carro que levou o casal de volta à cadeia, seguido por motos com câmeras. Eram crianças e adolescentes, na maioria.’

 

Alexandre Nobeschi

‘Pessoas também querem participar de punição a réus’

‘Os rojões e os gritos de ‘Nardoni na prisão’ em frente ao Fórum de Santana, na madrugada de ontem, quando saiu a condenação do casal, revelam um comportamento típico de torcida, avalia a pesquisadora Lúcia Santaella.

Ela coordenou um projeto conjunto entre Brasil e Alemanha sobre a palavra e a imagem das mídias e é autora de ‘Matrizes da Linguagem e do Pensamento’, ganhador do prêmio Jabuti.

Segundo ela, a comoção do caso, que envolve a morte de uma criança, inflamou ainda mais a população. ‘Todo mundo, inclusive a mídia, toma partido da vítima. Então as pessoas correm até lá [fórum] para participar da punição.’ Leia abaixo trechos da entrevista com ela.

FOLHA – Como se explica esse clima de final de Copa do Mundo com o resultado do júri?

LÚCIA SANTAELLA – A cultura brasileira é movida pela emoção, ainda mais em um caso como este. Outra coisa que comove, e nada comove mais que isso, é o fato de a vítima ter sido uma criança.

FOLHA – Mas o que leva as pessoas a irem até lá festejar?

SANTAELLA – As pessoas acreditam que, estando ali, elas farão parte da punição. O que aconteceu lá é um fenômeno de massa. E, quando a massa se junta, ela é incontrolável. A pessoa age como se estivesse em uma torcida.

FOLHA – Qual a influência da mídia nesse ponto?

SANTAELLA – As mídias estão tão onipresentes que a pessoa só sente que existe se apareceu nelas. E a história sempre foi inflada, desde o crime. Era esperada essa repercussão.

FOLHA – A exposição na mídia pode favorecer o advogado e o promotor?

SANTAELLA – Os dois ganharam muita publicidade. O advogado, embora não tenha ganhado o caso, fica mais conhecido. O promotor sai como o justiceiro.’

 

CRIME
Justiça condena quatro por morte de jornalista

‘Três policiais militares e um comerciante foram condenados na madrugada de ontem pela morte de Luiz Carlos Barbon em 2007. O comerciante Carlos Alberto da Costa e os policiais Edson Luiz Ronceiro e Adélcio Carlos Avelino receberam pena de 18 anos e quatro meses.

Já o policial militar Paulo César Ronceiro foi condenado a 16 anos e quatro meses de prisão. Barbon denunciara um esquema de aliciamento de menores por vereadores em Porto Ferreira (SP).

A mulher da vítima, Kátia Barbon, disse que o jornalista recebeu ameaças.’

 

POLÍTICA NA REDE
Alec Duarte e Catia Seabra

Serra recupera identidade roubada na web

‘Vítima de cybersquatting (‘grilagem’ de domínios de internet), o governador de São Paulo e pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, recuperou, por meio de liminar, os endereços joseserra.com.br e joseserra.org.br, que foram registrados em 2008 por uma associação de Minas Gerais que ministra cursos a distância, a maioria de cunho religioso. O PSDB tinha perdido os domínios em 2002, por deixar de pagar a manutenção de R$ 30 anuais por cada endereço.

O Núcleo de Informação e Coordenação Ponto BR (entidade que administra o registro de domínios no país) havia recusado uma demanda oficial do PSDB para retomar a posse dos endereços. O contrato que rege essa relação preserva alguns direitos da primeira pessoa a solicitar determinada URL, desde que ela consiga comprovar a legitimidade da demanda.

Frustrada a tentativa de reaver o domínio, a assessoria jurídica dos tucanos entrou, no dia 11, com ação na Justiça, alegando uso abusivo da imagem de Serra, além da reprodução ilícita dos símbolos do PSDB.

Na ação, que inclui pedido de indenização por danos morais, os advogados de Serra reproduzem documento em que os atuais proprietários do domínio se dizem dispostos a vendê-lo a um madeireiro no Pará, homônimo do governador.

Segundo o advogado Ricardo Penteado, a associação mineira sinalizou a hipótese de venda do domínio, o que por si só já justificaria a retomada da URL. Penteado chama de insólita a versão dos donos do domínio, já que o site exibia fotos de Serra, atribuindo ao governador a autoria de textos publicados.

Na última quinta-feira, o juiz João Omar Marçura determinou, liminarmente, o cancelamento do domínio e aplicação de multa diária de R$ 500 em caso de seu descumprimento.

Um dos responsáveis pela comunicação na campanha de Serra, Eduardo Graeff admite que a manutenção do registro nas mãos da associação causaria prejuízo à candidatura.

‘Para a comunicação de Serra, não chega a ser uma tragédia, mas é um ruído’, disse.

Os indícios de cybersquatting não sensibilizaram o órgão regulador, e a disputa entre o tucano e Magnus Carlo de Oliveira Costa, 26, ganhou outra versão: além do madeireiro, haveria outro homônimo.

‘O domínio não é meu, apenas uso em comodato’, afirmou à Folha Magnus, que até ontem ainda aparecia numa foto no endereço www.joseserra.com.br. Dizendo-se fã do governador, a quem chama de ‘futuro presidente do Brasil’, o empresário diz que o domínio foi cedido por José Marcelino de Mirando, ou o ‘pastor José Serra’ -sobre quem não há qualquer menção na web.

‘Como todo pastor, ele é amante das almas e sempre luta contra a criminalidade, prostituição infantil, drogas, alcoolismo e outros. Viajou demais por todo o Brasil fazendo trabalho missionário e está muito doente’, contou Magnus.

O empresário administra em Ituiutaba (MG) com seu pai, o advogado Omar Silva da Costa, uma empresa de cursos à distância que, entre outros temas, oferece formação específica em capelania e até um doutorado em Teologia da Divindade.

Ambos aparecem vinculados a uma dezena de entidades supostamente religiosas e que combateriam as drogas que registraram domínios com a extensão ‘.br’. Todas vendem palestras e cursos de, em média, 90 dias e que podem ser adquiridos diretamente na internet por cerca de R$ 300.

Entidades evangélicas acusam os empresários de plágio e grade curricular inadequada. A igreja católica também manifestou contrariedade porque a imagem do Papa Bento XVI foi usada num dos sites dos empresários para referenciá-lo. A página www.cursodepadre.com.br, cujo domínio estava em nome de Magnus e foi alterado para o de uma mantenedora de sites, saiu do ar e foi redirecionada para o Google.

Magnus se diz vítima de perseguição religiosa. ‘A religião é livre no Brasil, e cursos católicos de natureza estritamente religiosa, também. Entendo que há intolerância religiosa e tentativa de danos morais.’’

 

Tucano contrata especialista em Twitter

‘O governador José Serra (PSDB), que já é usuário habitual do Twitter como ferramenta de conversação, montou uma equipe para gerenciar as ferramentas virtuais de sua campanha ao Planalto. O núcleo contará com a jornalista e publicitária Ana Maria Pacheco, encarregada de abastecer e administrar o microblog do tucano, que deverá inclusive anunciar o lançamento oficial de sua candidatura.

Sua página, cuja autenticidade é certificada pelo provedor do serviço, alcançou a marca de 181 mil seguidores.

Antes do início formal da campanha, o mecanismo já produziu resultados que encorajaram a equipe de Serra. O termômetro foi uma mensagem postada pelo governador em que ele retrucava boatos espalhados em Manaus (AM) segundo os quais seria contrário à Zona Franca. ‘O boato sobre acabar com a Zona Franca de Manaus é molecagem antiga. Aparece sempre em ano eleitoral’, respondeu Serra ante o comentário de um internauta. O texto foi replicado exaustivamente em veículos de abrangência regional e, dizem os tucanos, minimizou o dano político da suposta boataria.

Segundo o tesoureiro da Executiva Nacional do PSDB, Eduardo Graeff, o partido já montou estrutura para maximizar dividendos eleitorais do ciberespaço e espera receber doações via internet, com cartões de débito e crédito.’

 

Maria Clara Cabral

Campanha de Dilma se aproxima de idealizador da Campus Party

‘O PT também se arma para disseminar nas redes sociais a candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Para isso, negocia com Marcelo Branco, ex-diretor e um dos idealizadores da Campus Party, maior evento de tecnologia do país, e um dos coordenadores do projeto Software Livre.

A intenção do partido é transformar o especialista em tecnologia da informação em uma espécie de guru para uso eleitoral das redes sociais, como Twitter, Orkut e Facebook.

‘As redes sociais se tornarão um novo palco de disputa política. Páginas de candidatos que apenas reproduzem notícias, como em eleições anteriores, são pré-históricas. O trabalho será interativo’, diz Branco, que foi filiado ao PT no anos 80.

Além dele, o partido já fechou negócio com a Pepper Comunicação, de Brasília. A Pepper fechou, com a ajuda do marqueteiro João Santana, parceria com a empresa americana de Ben Self, mentor das estratégias de campanha na internet que ajudaram a eleger Barack Obama. A agência também é responsável pela hospedagem de um site de apoio a Dilma (www.mulherescomdilma.com.br).

O PT não revela o montante que investirá na estratégia. O deputado federal André Vargas (PT-SP), secretário nacional de comunicação da sigla, diz que a ideia é lançar vários sites.

O primeiro passo é a realização de um censo para saber quantos militantes estão na web. Depois, devem municiar os simpatizantes com áudios, textos e vídeos sobre Dilma, para que o material se espalhe.

‘O PT quer oferecer para a Dilma a melhor estrutura possível. A prioridade é a internet. Não é mais só a juventude que está conectada’, disse Vargas.

Também devem ser criadas centenas de comitês virtuais, que ficariam com a missão de adaptar os discursos de Dilma às realidades de cada região.

Vargas diz que os filiados do partido (1,2 milhão) serão conclamados para participar ativamente da campanha na rede.

Por ser uma ferramenta nova, o PT ainda não sabe estimar o quanto pode arrecadar on-line durante a campanha.

Ontem, Dilma passou por exames de rotina em São Paulo, no hospital Sírio-Libanês.’

 

TELEVISÃO
Andréa Michael

Serginho celebra vinte anos de programas de auditório

‘A cabeça fervilha com ideias. Há muito de novo a preparar e nada pode dar errado na volta do seu ‘Altas Horas’, em abril. Afinal, chegou o momento de Serginho Groisman comemorar dez anos da atração na Globo e vinte no comando de programas de auditório.

‘Não quero que seja só uma retrospectiva’, diz o apresentador à coluna, em seu escritório na emissora, com a qual acaba de renovar por mais seis anos.

Do cenário -que encolheu para deixar convidados e plateia mais próximos- aos novos quadros (leia ao lado), o plano é ampliar o conceito que, diz ele, norteou todos os seus trabalhos: o de democratizar a televisão dando voz ao telespectador.

‘Desde a gravação no piscinão de Ramos [2009], quis sair com o programa para outros lugares, outros Estados, o que vamos conseguir este ano. Assim, daremos voz a jovens com outros modos de expressão, ideologia e posicionamento.’

Sobre a faixa etária à qual sempre se dedicou, Serginho acha que os jovens mudaram pouco. ‘Falam o que vem à cabeça, mas, infelizmente, não desenvolveram tanto sua capacidade crítica como eu gostaria. Acho que falta leitura.’

Assim, avalia que um desafio da nova temporada é o de, mais do que relembrar feitos, incentivar reflexões na audiência.

FALA, GAROTO!

Novidades e projetos do ‘Altas Horas’

O ‘Memória Altas Horas’ trará os melhores momentos

Personalidades como Marcelo Rubens Paiva falarão dos tempos de adolescência

A produção procurará pessoas que fizeram parte da plateia. Tiago Leifert, do ‘Globo Esporte’, é um deles

Quatro repórteres, como a cantora Leilah, farão matérias usando mídias como celulares

Há planos de um festival do cinema tosco, com vídeos enviados pela audiência

Pais, desespero e Supernanny

‘Vou chamar a Supernanny.’ Para os pais, a frase é um recurso para domar os pimpolhos. Para as crianças, um alerta… melhor ficar quieto! Para Cris Poli, sinal de que seu programa, que nesta semana completa quatro anos no ar, no SBT, dá audiência. A educadora tem sete temporadas da atração já gravadas. Quando chegar à oitava, vai cravar uma marca que desafia a paciência: cem famílias visitadas. ‘Todos os dias, ouço os felizes, que copiaram o método com sucesso, e os desesperados, que querem que eu resolva tudo ali, na rua.’

com Clarice Cardoso’

 

Lúcia Valentim Rodrigues e Laura Mattos

Que assim seja

‘Se os criadores de ‘Lost’, que termina em maio, tivessem pegado um avião da Oceanic Air e desaparecido em uma ilha do Pacífico, ainda assim os fãs saberiam que final haviam inventado para a trama mirabolante.

Seriam salvos pela bíblia. Esse é o nome do documento redigido pelas autores bem antes de ‘Lost’ se tornar fenômeno mundial. É um manual de instruções para roteiristas e produtores, com o conceito da história, descrição minuciosa dos personagens e cenários, além do provável desfecho para a trama principal. É vista também como garantia de investimento do canal por trazer previsão de gastos com a produção.

Bíblias não são novas nos EUA, mas a de ‘Lost’ é um marco, pela complexidade da história de sobreviventes de um acidente aéreo em uma ilha misteriosa do Pacífico. Tem, na verdade, ‘uma dezena de bíblias’, segundo a produtora Jean Higgins. ‘Coloquei os arquivos no iPod dos supervisores de roteiro, para que chequem sempre que as dúvidas aparecem’, contou à Folha, no Havaí, onde ‘Lost’ é filmada.

No Brasil, autores, especialmente na TV aberta, resistem à fórmula e chegam a acusá-la de ‘engessar a criatividade’. Mas um número cada vez maior de roteiristas está sendo obrigado a aderir por exigência de canais estrangeiros, que ampliam investimento em séries no país graças a incentivo fiscal.

‘Nem sabia o que tinha de ser posto na bíblia. Mas ela ajuda a planejar o que você vai filmar e faz parte da regra na TV’, diz Karim Aïnouz, que deixou o cinema após ‘O Céu de Suely’ para fazer ‘Alice’ para a HBO.

Criador e produtor da série policial ‘9 MM’, que acaba de encerrar as filmagens de sua segunda temporada para a Fox, Roberto D’Avila diz que ‘a bíblia se tornou padrão no Brasil quando passamos a vender programas para outros países’.

Editais de financiamento governamental para séries nacionais também passaram a exigir aos candidatos a entrega de bíblia, de olho na comercialização internacional das obras.

Michel Tikhomiroff, da produtora brasileira Mixer, de sucessos como ‘Mothern’ (GNT), disse pôr ‘80% do esforço na bíblia e no primeiro episódio’. ‘Se algum profissional precisar sair ou entrar, não cai o nível. É uma memória, um GPS para qualquer projeto.’

Fiel ou agnóstico?

Presidente da ARTV (associação brasileira dos roteiristas de TV) e autor da bem-sucedida série da Record ‘A Lei e o Crime’, Marcílio Moraes não se anima com a nova mania.

‘Para mim, seria impossível trabalhar assim. Não sei se é bom, necessário. Leio sobre teorias de dramaturgia, mas acho que escrever é intuitivo. O brasileiro é mais de improvisar, não gosta das coisas rígidas.’

Não é o que pensa Cao Hamburger (‘O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias’), autor de ‘Filhos do Carnaval’ (HBO). ‘Até para o ‘Castelo Rá-Tim-Bum’, há 20 anos, fiz bíblia. Não é nada engessador. Serve para organizar o projeto, mas evolui com o tempo. Sempre mudei o que estava escrito. Não sigo cegamente a bíblia, mantenho a sensibilidade aberta’, conta.

Mas ‘Castelo’, infantil de sucesso na Cultura, é uma exceção na TV aberta, na qual projetos são aprovados após análise de sinopse do autor. ‘No caso de ‘A Lei e o Crime’, nem sinopse apresentei. Contei minha ideia e aprovaram’, diz Moraes.

A diferença entre as emissoras abertas e as fechadas se reflete na produção da O2 de série. Paulo Morelli, sócio de Fernando Meirelles na produtora, conta que para ‘Filhos do Carnaval’ a HBO deu um adiantamento para Cao fazer a bíblia.

Já ‘Cidade dos Homens’, dirigida por Morelli, e ‘Som & Fúria’, de Meirelles, ambas feitas para a Globo, não precisaram do ‘santo documento’.

Principal autor de novelas da nova geração, João Emanuel Carneiro (‘A Favorita’) escreve para agosto sua primeira série, ‘A Cura’ (Globo), sobre um médico com poderes espíritas.

‘Na Globo, bíblias não são usadas porque até hoje, em todas as séries, os episódios são independentes, se fecham em si próprios. ‘A Cura’ será a primeira a ter um arco dramático que atravessa a trama, uma sequência entre os capítulos. Por isso, minha sinopse passa perto da bíblia, mas não sigo todos os mandamentos de Moisés. É bom conhecer as regras até para contrariá-las’, acredita.

Fernando Bonassi e Marçal Aquino, que estreiam na próxima terça a segunda temporada de ‘Força-Tarefa’, na Globo, não veem necessidade de uma bíblia. Aquino diz que eles trabalham ‘com liberdade’ e brinca: ‘Não nos prendemos a nada, só às características da série. Somos escritores ateus’.’

 

Final de ‘Lost’ foi pensado ‘desde 1ª bíblia’

‘Há quem diga que o título de ‘Lost’ (perdidos, em tradução livre) tem mais a ver com o estado que deixa os fãs após os episódios do que com a trama da série.

Mesmo envolvidos com o programa há seis anos, os produtores e supervisores de roteiro necessitam igualmente de orientação.

‘Temos bíblias para tudo. Uma para a linha do tempo, outra com os caminhos da história, mais uma para os flashbacks e flashforwards, além da que descreve os personagens’, enumera a produtora Jean Higgins à Folha.

‘Deu para perceber que são muitas, né? E, às vezes, percebemos que alguma coisa ainda ficou de fora’, completa ela, que já havia trabalhado com essa fórmula em ‘CSI: Miami’.

Higgins e o diretor criativo, Jack Bender, são os responsáveis por coordenar as filmagens no Havaí, enquanto os criadores fazem os roteiros bem longe da ilha, na Califórnia.

Ambos garantem que o final da série estava previsto já na bíblia inicial e que os roteiristas sabiam onde queriam chegar.

‘Se algum fã anotou todas as perguntas, vai haver uma ou duas que não serão respondidas direito. As soluções serão complexas, como a série foi sempre. Imitando a vida, algumas respostas terão mistérios’, filosofa Bender.

‘Lost’ foi uma revolução no mundo das séries. Trouxe personagens falando em coreano -legendas são um tabu para o público norte-americano-, saltos no tempo e uma obrigatoriedade inédita de acompanhar todos os capítulos do programa.

Atores não têm acesso à bíblia nem ao que vai acontecer com os seus personagens.

A coreana Yunjin Kim, que faz a Sun, diz que achava que seria dublada e que ‘se emocionou’ quando viu que tinham mantido o seu jeito de falar.

Ela também descreve o choque quando morreu o primeiro personagem do núcleo principal, Boone, na primeira temporada.

‘Foi um susto. Ninguém sabia que isso aconteceria. Discutíamos quem seria o próximo. Quando Sun ficou grávida, me salvei. Na TV dos EUA, não matam grávidas ou quem tem cachorro. Nem ‘Lost’ seria tão revolucionário’, brinca a atriz.’

 

Audrey Furlaneto

‘A Grande Família’ completa 10 anos

‘Dona Nenê achou um cigarrinho diferente em casa. ‘Sem começo nem fim’, definiu Seu Floriano, antes de acender e dar o primeiro trago. Agostinho sentiu o cheiro e encostou o sogro na parede: era maconha. Lineu comeu biscoitos estranhos, teve crise de riso e dançou durante o jantar. Mais maconha.

Seguem-se frases sobre ‘todo mundo ter seu viciozinho’, sobre a droga não causar ‘tanta onda’ quanto se diz. O espectador está diante de ‘A Grande Família’ -em sua exceção.

O roteiro passou por vários departamentos de análise da Globo, segundo o ator Marco Nanini, até virar o episódio ‘Um Tapinha Não Dói’ em 2002, segundo ano do programa, que estreia, no próximo dia 8, a décima temporada.

Série brasileira há mais tempo no ar, casa um elenco de grandes atores (Dona Nenê é interpretada por Marieta Severo, Lineu é Marco Nanini, Agostinho é Pedro Cardoso, entre outros) ao que o próprio elenco costuma classificar como ‘talento inegável’ dos autores, Bernardo Guilherme, 44, e Marcelo Gonçalves, 39.

Os dois começaram a carreira na equipe de Cláudio Paiva, supervisor de texto de ‘TV Pirata’ (1988 a 1992), que, na época, era redator final de ‘Sai de Baixo’ (1996 a 2002).

Quando deram início ao texto de ‘A Grande Família’, em 2001, tinham em mãos os originais de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha (1936-1974), para a primeira versão do programa, exibido de 1972 a 1975.

A ideia era adaptar 12 textos, mas a equipe produziu roteiros inéditos e ganhou espaço fixo na Globo.

Além da linguagem mais lenta do original, a nova versão perdeu um personagem político (Júnior, vivido por Osmar Prado).

Em comum, manteve a proposta de elenco de qualidade -Jorge Dória e Eloísa Machado eram Lineu e Dona Nenê nos anos 70- e das boas histórias. ‘O humor não deve ser finalidade, mas ferramenta. Não temos piadas, o que temos são situações engraçadas’, diz Bernardo Guilherme.

Segundo o diretor-geral, Maurício Farias, ‘há, na verdade, um grande controle de temas’. ‘Não tem humor preconceituoso, apelativo. Dificilmente se faz piada com ‘a’ gostosa ou ‘o’ pária. O humor passa pelo cotidiano da classe média baixa’, avalia Farias.

Tom ‘correto’

O tom ‘correto, mas não reacionário’, como define Marcelo Gonçalves, sustenta-se na ‘pretensão de falar para todo mundo’. O programa está entre as maiores audiências da Globo (no ano passado, teve média de 33 pontos).

Ao todo, sete roteiristas escrevem os episódios de ‘A Grande Família’. Os atores podem consultá-los, sugerir mudanças e até derrubar histórias.

Lúcio Mauro Filho, o Tuco, por exemplo, não se sentia à vontade para fazer graça sobre a confusão do jogador Ronaldo com um travesti -e a cena caiu. ‘Conseguimos fazer graça sem vulgarizar’, diz o ator.

Para Marco Nanini, ‘tudo o que não contribuir para contar a história, é dispensável’.

‘A moral é muito díspar. Você tem que seguir uma base que tenha coerência com uma família de subúrbio. E é preciso arranjar um jeito de introduzir temas mais ousados, como a maconha’, afirma.’

 

Sem Andréa Beltrão, série buscará novos personagens

‘Marilda viajou e, de longe, vai mandar uma carta para Dona Nenê, anunciando que conseguiu: enfim, casou-se. Com um milionário. E não volta mais para casa. A personagem, vivida por Andréa Beltrão na série desde 2002, some da ‘Grande Família’ em 2010.

‘Foi um pedido dela, para que faça as coisas que quer fazer, dentro da televisão e fora dela’, diz o diretor Maurício Farias, marido da atriz.

Dona Nenê vai ‘herdar’ de Marilda o salão de beleza do bairro, Cabelo’s Hair. Os roteiristas não definiram o futuro do ‘empreendimento’ -o salão não combina tanto com a personalidade de Nenê.

O que se sabe é que Nenê ficará sem a amiga que, para o diretor Maurício Farias, teve, entre outras, a função de tirar a protagonista da cozinha. ‘Certamente virão personagens para preencher o universo dela.’

As participações são uma espécie de laboratório para novos papéis. ‘Teremos a participação da Cláudia Raia, do Diogo [Vilela] e outros. Dentro de algumas participações, vamos tentar apostar em continuidade. É a estratégia de renovação e apoio ao grupo que está aí.’

Há ainda outra mudança, mais técnica: o diretor Guel Arraes passará o comando do núcleo que engloba a série para Maurício Farias. Na prática, nada muda: Farias segue aprovando textos e direção do programa (feita por Olívia Guimarães e Daniela Braga).’

 

Nina Lemos

Seriado questiona perfeição familiar

‘A tradicional família americana (a dos comerciais de margarina) não é mais a mesma. A teledramaturgia dos EUA cria ícones faz tempo, como ‘Os Waltons’ (da década de 70) e os Walsh (dos anos 90, de ‘Barrados no Baile’). Mas a série ‘Modern Family’, mania nos Estados Unidos desde que foi lançada, no ano passado, chegou para bagunçar os tradicionais almoços de domingo e mostrar que perfeição familiar não existe.

O patriarca da família Pritchett é Jay, casado com uma colombiana gostosa e décadas mais jovem. É obrigado a dar uma de padrasto de um menino que é minoria dupla e alvo de ‘bullying’. Além de ‘chicano’, Manny é, pecado dos pecados em tempos atuais, gordo.

Mitchell, filho gay de Jay, é casado há cinco anos com Cameron. Os dois, que protagonizam os melhores momentos da série, acabam de adotar uma bebê vietnamita (existe algo mais tendência?), depois de terem ‘declinado propostas de amigas lésbicas que queriam engravidar’. As tentativas de se enquadrarem no mundo dos pais ‘caretas’ são hilárias. Uma simples ida à creche vira uma discussão sobre com que roupa ir para ‘pegar bem’.

O núcleo formado pela filha de Jay, irmã de Mitchell, é o mais careta da trama. Claire e Phil têm três filhos, moram em uma daquelas casas enormes, são bonitos, loiros, e bem-sucedidos. Os toques de vida real (e moderna) ficam por conta de brigas do casal por razões mais que contemporâneas, como o Facebook. Sim, Phil tem muitas fãs no site, para desespero da mulher, e carrega um celular com todos os apetrechos tecnológicos. Sua desculpa é a de que é preciso estar o tempo todo em contato com os filhos, claro.

Outro drama presente na série é o conflito entre ser um pai descolado e um pai normal, que dá bronca. Os pais de antigamente eram durões e saíam pela porta de casa todos os dias com uma pasta de executivo, enquanto suas mulheres se despediam no jardim. Os de hoje não sabem muito bem o que fazer. Na hora de dar uma bronca no filho que bateu na irmã, o descolado Phil diz que aquela atitude ‘não é cool’. E para decorar o quarto da filha, o casal gay chega ao exagero de pintar na parede uma imagem dos dois, seminus, como anjos.

‘Modern Family’ ainda não é exibida no Brasil, mas os maníacos por séries baixam episódios freneticamente. O sucesso não é por acaso. Os diálogos são espertos e a série faz rir (e se emocionar). O ‘boa noite John-Boy’ e ‘boa noite Mary Ellen’, bordão dos Waltons, foi substituído por frases menos reconfortantes. Mas bem mais reais e, por isso mesmo, divertidas.’

 

ESQUERDA
Claudia Antunes

A velha senhora

‘Os que cultivam a credulidade não devem abrir esta revista.

O aviso caberia na capa da ‘New Left Review’, que completou 50 anos no início deste ano cada vez mais corrosiva em relação tanto a seu velho nêmesis -’a ordem capitalista e suas guerras’- quanto sobre mudanças positivas com a ascensão de novas potências, como a China.

Cética, mas não niilista.

Nascida como expressão de intelectuais e ativistas anti-imperialistas e anti-stalinistas, a NLR mantém a aposta num modelo de organização social ‘pluralista, igualitário e universalista’.

Nele, segundo sua editora, Susan Watkins, as necessidades do homem não são ‘reduzidas às do consumidor’.

Watkins afirma que a internet fez bem à NLR -com circulação bimensal de 8.500 exemplares, dos quais mil são assinaturas de universidades, a revista tem 50 mil leitores regulares de sua versão on-line.

Possui ainda uma editora, a Verso, que publica, entre outros, o historiador Perry Anderson, seu antigo editor, e o filósofo esloveno Slavoj Zizek.

Watkins frisa o pluralismo dos colaboradores -’o critério são ideias interessantes, críticas, pontos de vista não oficiais’. Leia abaixo trechos da entrevista que concedeu à Folha, feita por e-mail.

FOLHA – O que resta das bandeiras políticas da época da criação da NLR?

SUSAN WATKINS – O mundo dos anos 60 -com seus movimentos anticolonialistas dinâmicos, seu espectro de diferentes Estados dos trabalhadores, sua vibrante cultura estudantil e intelectual de esquerda- não existe mais.

Mas felizmente muitos pensadores daquela época estão conosco, produzindo críticas ricas da política, da economia e da cultura.

É um estímulo para jovens radicais nas universidades, sindicatos ou movimentos de protesto poderem debater com eles problemas de hoje.

FOLHA – Num editorial de 2000, Perry Anderson chamou a esquerda a compartilhar seu ‘registro lúcido da derrota histórica’. Seu último editorial mantém o ceticismo e descarta como catalisadores de mudanças os movimentos ‘altermundialistas’ surgidos nos anos 90. Em que erraram?

WATKINS – O movimento ‘altermundialista’ não desapareceu, mas não conseguiu dar origem a um movimento antiguerra vibrante, que fez muita falta nos últimos dez anos. Nesse aspecto, se mostrou estéril.

Mas, claro, os governantes mundiais caíram em silêncio sobre as maravilhas da globalização neoliberal desde 2008.

FOLHA – Ficou surpresa com o fato de a recessão causada pela crise financeira não ter provocado grandes protestos nos países afetados?

WATKINS – A ausência de protestos de massa até agora foi estranha, mas talvez não surpreendente. Por definição, os países mais afetados pela crise -aqueles em que a financeirização da economia e a dependência de serviços e bolhas imobiliárias foram mais extremas- não têm mais movimentos organizados de trabalhadores: Espanha, Irlanda, Grécia, Reino Unidos e os próprios EUA.

Mas é muito cedo para dizer que não haverá protestos, sob qualquer forma.

É o caso do voto contra o Partido Democrata em Massachusetts [em janeiro], que o governo Obama certamente entendeu como um protesto contra as políticas de Timothy Geithner na Secretaria do Tesouro.

Em segundo lugar, é muito cedo para dizer o que acontecerá nas economias que estão indo bem: China, Índia, Brasil.

Qual seria o efeito de uma crise de sobreprodução na China, se a recessão for combinada com inflação alta? Teremos que esperar para ver.

FOLHA – Em sua última entrevista, à NLR, o sociólogo Giovanni Arrighi [1937-2009] disse que preferiria não chamar de socialismo um novo sistema mundial com mais igualdade entre os homens e mais respeito pela natureza. Concorda com ele?

WATKINS – Os partidos que se intitulam socialistas talvez tenham feito mais do que os conservadores para apoiar a ordem capitalista e suas guerras, então não surpreende que as pessoas estejam enojadas. Um novo paradigma será construído por um processo coletivo, não na cabeça de alguém.

Mas, para ser efetivo, precisará ser pluralista, igualitário (claro) e universalista -abraçando o conceito de desenvolvimento humano universal, ao qual o capitalismo liberal, com sua redução das necessidades humanas às do consumidor, fez tão mal.

FOLHA – Alguns colaboradores da NLR veem a China como herdeira do pior do capitalismo, enquanto outros ainda veem traços de socialismo. Qual é a sua opinião?

WATKINS – Os mais incisivos críticos da China têm sido os chineses, escrevendo do ponto de vista dos trabalhadores e camponeses.

Com certeza as esperanças para uma China que era tanto mais igualitária quanto mais livre e aberta foram esmagadas na praça Tiananmen, em 1989.

Mas a questão sobre se o modelo econômico abraçado pela liderança do PC chinês desde 1992 o trancou de maneira irrevogável no papel de ‘governanta dos EUA’ ainda pode estar em aberto.

FOLHA – A NLR tem sido crítica do governo Lula. A senhora tem expectativas para o pós-Lula?

WATKINS – Lula parece ter levado o programa de modernização neoliberal de Fernando Henrique Cardoso a um conjunto estranho de compromissos, entre o governo central e os Estados, entre as grandes instituições financeiras e o trabalhador-consumidor.

Resta ver se esses compromissos constituem um novo sistema duradouro, que pode servir a quem quer que o suceda, ou se são dependentes de haver um líder trabalhista como Lula na direção.

Mas a outra grande questão é: o que vai acontecer à economia brasileira em 2011 ou 2012 -quão sustentável é o crescimento atual?’

 

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