Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 17 E 18/7

Folha de S. Paulo

20/07/2010 na edição 599

JORNAL EM CRISE
Eliane Cantanhêde

Réquiem para o JB e a Gazeta

O fim melancólico da versão impressa do ‘Jornal do Brasil’ dói no coração de gerações de leitores e de jornalistas brasileiros, como já havia ocorrido quando do último suspiro, ou da última edição, da ‘Gazeta Mercantil’. Foram ambas mortes lentas e anunciadas, deixando exposta a má administração de excelentes produtos.

Pelo JB, fundado em 1891, passaram desde Rui Barbosa até dezenas de repórteres, fotógrafos e colunistas que estão na ativa e viveram grandes momentos e grandes histórias num jornal que tinha vida e energia. Mas não tinha gestão.

Na ‘Gazeta Mercantil’, que começou a circular em 1920 e atravessou décadas como leitura obrigatória dos três Poderes, dos bancos, das empresas e de diferentes áreas das universidades, foram formados alguns dos mais importantes jornalistas de economia do país, como Celso Pinto, que deslanchou o ‘Valor Econômico’. Mas, como o JB, a Gazeta tinha talentos jornalísticos, não tinha competência gerencial.

Nos dois casos, repetindo o que se viu na Varig, as empresas sangraram ano após ano, vendo esvair seu principal capital: a força da marca, a credibilidade, a excelência de seus profissionais. Seus donos tentaram vender as dívidas e manter o controle editorial. A aritmética e a esperteza não fecharam.

Ouve-se daqui e dali que o fim da Gazeta e agora do JB impresso prenuncia a decadência inevitável e um rápido fim dos jornais. Há controvérsias. Os dois geraram suas próprias crises, que não tiveram nada a ver com a agressiva entrada da TV no jornalismo, o fortalecimento do noticiário 24 horas no rádio e muito menos com o vigor e a ascensão da internet. Foram crises particulares, não do setor.

Eles se foram, mas seus jornalistas estão por aí, em toda parte, aprendendo sempre e a cada dia numa profissão que é um aprendizado ininterrupto. A eles, meus queridos colegas tanto do JB quanto da Gazeta, um abraço de saudade e de reconhecimento.

 

PROJETO EDITORIAL
Folha reafirma princípios editoriais

Em 1984, ao lançar seu primeiro Projeto Editorial, a Folha cristalizou no ‘Manual da Redação’ a opção por um jornalismo crítico, pluralista, apartidário e moderno, que deveria ser feito com ‘intransigência técnica’.

A última versão do projeto, divulgada em 17 de agosto de 1997, está reproduzida na atual edição do manual e reafirma o compromisso da Folha com aqueles quatro princípios editoriais.

O texto do ‘Manual da Redação’ afirma: ‘Tais valores adquiriram a característica doutrinária que está impregnada na personalidade do jornal e que ajudou a moldar o estilo brasileiro da imprensa nas últimas décadas’.

A cobertura eleitoral deste ano, assim, não poderia fugir desse script.

Diferentemente do que ocorre em jornais de outros países -como nos Estados Unidos, onde o ‘New York Times’ publicou o editorial ‘Barack Obama para presidente’-, a Folha não apoia nenhuma candidatura.

Em um ambiente político polarizado, princípios editoriais bem definidos tornam-se balizas que ajudam o jornal a manter-se equidistante das campanhas, fazendo uma cobertura isenta sem perder o tom crítico.

A atual versão do Projeto Editorial atualizou aqueles princípios à luz das transformações ocorridas durante a década de 90 ‘na política, na economia, nas ideias’.

Assim, a disposição crítica do jornal deveria tornar-se mais refinada e aguda, num cenário em que ‘o debate técnico substituiu, em boa medida, o debate ideológico’.

Do ponto de vista da política, o ‘Manual da Redação’ determina um jornalismo ‘crítico em relação a todos os partidos políticos, governos, grupos, tendências ideológicas e acontecimentos’.

O pluralismo, por sua vez, não poderia resumir-se na busca formal pelo ‘outro lado’. Deveria, mais que isso, ‘renovar-se na busca de uma compreensão mais autêntica das várias facetas implicadas no episódio jornalístico’.

O verbete ‘pluralismo’ do manual estabelece que ‘todas as tendências ideológicas expressivas da sociedade devem estar representadas no jornal’.

E a atitude apartidária, que ‘obriga a um tratamento distanciado em relação às correntes de interesse’, não poderia ser ‘álibi para uma neutralidade acomodada’.

Segundo Suzana Singer, ombudsman da Folha, a existência desses parâmetros bem estabelecidos é fundamental para guiar a cobertura eleitoral.

De acordo com ela, o jornal até agora tem seguido esses princípios. Ainda assim, Singer afirma que recebe reclamações dos leitores.

‘A maioria das reclamações políticas que recebo é sobre uma suposta proteção ao candidato do PSDB. Mas tem muita gente que acha o contrário, que a Folha é petista’, diz ela.

 

VENEZUELA
Flávia Marreiro

Chávez exibe esqueleto de Simón Bolívar na TV

Às 23h de anteontem, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, pediu: tirem as crianças da sala que a cena que vamos exibir será forte.

Em cadeia nacional de TV, Chávez exibiu as imagens da ossada do prócer nacional, Simón Bolívar -ou ao menos os restos mortais guardados no Panteão Nacional.

A cena era resultado do processo de exumação da ossada de Bolívar ordenada pelo presidente e levada a cabo na madrugada anterior.

Uma equipe de 50 pessoas, entre militares, ministros e cientistas, colheu fios de cabelo e material dental dos restos mortais, contou Chávez.

O venezuelano já havia anunciado a exumação, mas a operação de 19 horas que começou na manhã de quinta-feira não foi divulgada até sua conclusão.

Historiadores criticaram a ação do governo pela falta de acompanhamento independente do processo. Também apontam a intenção de Chávez, que se diz inspirado nas ideias de Bolívar, de se apropriar da figura do herói nacional e forçar uma interpretação única da história. Os analistas políticos também veem a exumação como manobra diversionista de Chávez, no momento em que o país atravessa recessão.

Chávez montou um grande espetáculo emotivo para a apresentação. Na sua conta no Twitter e na TV, disse haver sentido uma ‘chama’ que o fez crer que os restos são de Bolívar. Leu o poema de Pablo Neruda ‘Un Canto para Bolívar’.

Em 2007, Chávez pediu uma investigação sobre as causas da morte de Bolívar, sustentando que foi envenenamento. Mas a historiografia oficial afirma que Bolívar morreu de tuberculose.

Neste ano, o Ministério Público abriu uma unidade investigativa para o caso.

GLOBOVISIÓN

Chávez pediu anteontem que o presidente dos EUA, Barack Obama, extradite o empresário Nelson Mezerhane, que teve a prisão decretada pela Justiça venezuelana no começo do mês.

Mezerhane é dono do Banco Federal e acionista da TV Globovisión, a única emissora abertamente anti-Chávez ainda no ar.

O banco está sob intervenção federal desde 14 de junho passado. Naquele dia, Mezerhane declarou à Globovisión que estava em Miami fazendo exames médicos.

 

INTERNET
Santa Sé pede que Google corrija busca

Solicitação foi feita após usuários do serviço relatarem que, ao fazer uma busca por ‘Vaticano’, tinham como primeiro resultado o site pedofilo.com. A firma, sediada nos EUA, desculpou-se pelo ocorrido e informou que trabalha para corrigir o erro. A Santa Sé afirmou não ter a intenção de abrir um processo contra a companhia.

 

CUBA
Luisa Belchior

Rotina de preso incluía novela brasileira

Três vezes por semana, durante uma hora, os presos políticos de Cuba se esquecem das condições precárias dos presídios, da perseguição política e da distância das famílias. Nesses momentos, aglomeram-se em frente às televisões e, em silêncio, acompanham atentamente os capítulos das novelas brasileiras transmitidas na ilha.

Foi o que contaram à Folha 7 dos 11 dissidentes cubanos que foram enviados à Espanha nesta semana. Embora contentes de haver deixado a prisão, eles -e suas mulheres- lamentaram ter que deixar de acompanhar a trama de ‘A Favorita’, novela de 2008 que está sendo reproduzida em Cuba.

‘Me deu uma pena de não poder mais acompanhar. Estou curioso para saber o final’, disse o dissidente Omar Ruiz sobre a trama, que estreou em Cuba em janeiro e é transmitida todas as terças, quintas e sábados, às 21h15, pela emissora Cubavisión.

Ruiz contou que, no presídio onde passou os últimos sete anos, em Espírito Santo, no centro de Cuba, os funcionários respeitavam a hora da novela e deixavam que os presos entrassem no refeitório, onde ficava a televisão e no qual só se permitia acesso nas refeições. ‘Éramos 132 presos, e nos aglomerávamos em frente a uma TV muito pequena’, conta Ruiz.

Os dissidentes Pablo Pacheco e Julio Cesar Rodriguez disseram que o mesmo acontecia nos presídios em que foram mantidos.

‘Nós temos poucas opções lá, são quatro canais, e só dois passam novelas, um de cubanas e outro de brasileiras. Mas preferimos as brasileiras. É só ver o sucesso dos paladares’, diz Pacheco.

Paladares é como são chamados pequenos restaurantes que funcionam em residências da ilha e que herdaram o nome da empresa da personagem de Regina Duarte na novela ‘Vale Tudo’, de 1988. No voo, eles chegaram a mencionar que perderiam o último capítulo.

As Damas de Branco (grupo de mulheres familiares dos dissidentes) que foram à Espanha acompanhando os maridos também se lamentaram por não poder mais acompanhar a trama.

‘Estava arrumando as malas e, de repente, me dei conta de que iria perder a novela’, disse Bárbara Ruiz, mulher de Omar Ruiz.

 

TELEVISÃO
Audrey Furlaneto

‘Um dia vou apresentar o ‘Domingão’ sem camisa’

Ele não tem figurinista. Nem (pensa que) precisa. Vai às compras em Miami e na Itália, escolhe sozinho as camisas, jaquetas, t-shirts e afins que fazem de seu figurino algo bem distante da trivial calça/camisa dos apresentadores da TV aberta.

Aos 50 anos, Faustão expandiu a passarela de seu ‘fashion sunday’ para todos os dias da semana. Desde o início da Copa, além de desfilar a própria tendência no ‘Domingão do Faustão’, surge em chamadas diárias do ‘Torpedão’, em toda programação da Globo.

Só nos últimos três meses, foram 90 novas peças (camisas e camisetas) -Faustão nunca repetiu uma camisa nos programas, diz um amigo do apresentador, que pede para não ser identificado.

E longe da personalidade de um fashionista, ele não gosta de falar do guarda-roupa que inventou para si mesmo. ‘Um dia vou apresentar sem camisa!’, disse ao amigo, brincando com o alvoroço sobre seu figurino.

Ele contou que, ‘quando era gordo, era mais difícil’. ‘Pesava mais de 140 quilos, e as camisas pareciam lonas.’ Com 35 quilos a menos, o cardápio aumentou.

Nos últimos meses, foi da camiseta hippie de estampa psicodélica (que o levou aos trending topics do Twitter no dia da Parada Gay de São Paulo) às estampas florais estilo Havaí. Chegou até às jaquetas de couro e jeans skinny, numa onda rocker.

Para atender à demanda do eclético repertório, o apresentador acaba por comprar mais de seis peças de uma só vez. E não há nisso muitos indícios de consumismo: em vez de acumular, Faustão distribui as camisas de presente -para a alegria ou desespero dos amigos.

Sem coragem O diretor do ‘Pânico’ Alan Rapp foi orientado pela Rede TV! a não comentar o caso da ‘Mulher Arroto’. Trata-se da personagem que, diante de uma celebridade, estende o microfone, não diz nada e, enfim, faz jus ao nome que tem.

Sem palavras A personagem foi alvo de ira na última semana ao tentar fazer a ‘performance’ com Laura Cardoso. ‘Não há o que se comentar sobre falta de educação e respeito’, disse a atriz à coluna.

 

Jeremy Egner, do New York Times

Aniversário do 11/9 marca fim de série

‘Rescue Me’, drama cômico sombrio sobre bombeiros, termina no ano que vem, pouco antes do décimo aniversário do 11 de Setembro, acontecimento que o inspirou e é sempre revisitado.

No Brasil, o programa vai ser reprisado desde a primeira temporada no canal pago Liv a partir de 26/7 (de seg. a sex., às 21h; 12 anos).

Em entrevista, o astro e cocriador da série, Denis Leary, fala sobre o fim, seu personagem (o bombeiro sarcástico e alcoólatra Tommy Gavin) e as anedotas dos roteiros. Seguem trechos da conversa.

Pergunta – Vocês já rodaram os episódios finais?

Denis Leary – Sim. Foi interessante, porque fizemos um ano antes e temos bombeiros reais no set, então assistimos às reações deles. Na cena final, usamos um barco cujo nome foi feito com aço do World Trade Center. Assistir à chegada dele, que o departamento de bombeiros teve a gentileza de nos ceder, foi bastante emocionante para muitos dos bombeiros reais.

Por que o 11/9 continuou a ser um tema tão central?

Porque o seriado é sobre bombeiros. Ele tem sido a história do ego masculino heroico, da ideia de lidar com a vida e a morte todos os dias e a dificuldade de encaixar isso na realidade. Para eles, o acontecimento é como o Vietnã ou a Segunda Guerra -nunca vai desaparecer.

Como vocês desenvolveram o personagem de Tommy?

Ele foi baseado em dois sujeitos, um que tinha enormes problemas pessoais e outro ótimo bombeiro. A equipe que criamos foi uma versão de uma equipe real. Adorava a unidade e o jeito como seus integrantes se relacionavam. Os bombeiros no programa tendem até a se parecer com os da vida real.

Os personagens continuam a ser inspirados na vida real?

Quase todos os diálogos cômicos vieram das coisas que ouvimos dos bombeiros que trabalham no seriado, de casos em que eles nos deram uma ideia geral ou de quando nos contaram alguma história. Muito do que se vê é reportagem pura e simples.

O bombeiro que inspirou Tommy fez alguma queixa?

O casamento de um deles se desfez, mas ele e a ex-mulher tinham consciência de que estávamos roubando suas vidas. Acho que o outro não. Eles estavam mais preocupados em que a vida dos bombeiros transparecesse a realidade emocional e técnica dos incêndios.

As histórias estão começando a se fechar?

A pergunta é se eles vão conseguir continuar assim. Tommy tem idade para saltar fora. Ele já fez o trabalho e ainda está vivo. Não há vergonha nenhuma nisso. Ele vai continuar a ler sobre sua atividade nos jornais, mas vai perder o ambiente de clube fechado e a adrenalina.

Tradução de CLARA ALLAIN.

 

Vanessa Barbara

Gordinhos no Pantanal

DOS 18 últimos temas abordados pelo programa ‘Globo Repórter’ (Globo, sex., às 22h), 38% pertenciam ao escopo da saúde, práticas alternativas e hipertensão. Outros 33% se referiam à vida selvagem. Há também a categoria ‘países exóticos’ (16%), ‘psicologia materna’, ‘Doutores da Alegria’ e ‘Chico Xavier’ (os 13% restantes).

No ‘Câmera Record’ (Record, sex., às 23h), programa de documentários concorrente, o Pantanal surgiu duas vezes nos oito últimos episódios. Substanciais 37% foram devotados à saúde e à alimentação.

Porém, no dia 9, ocorreu na emissora um feito digno de alarde: um especial que unia a vida selvagem às dicas de bem-estar. O título: ‘O Pantanal que Salva Vidas’. Assistir aos dois de uma vez, um após o outro, é um exercício de resistência.

Naquela ocasião, na Globo, o assunto era a Amazônia. Logo de início, a câmera focalizou o repórter camuflado em meio à folhagem. Como era de esperar, ele caminhou até chegar a um ponto, onde mostrou ao espectador uma dicotiledônea com propriedades miraculosas e/ ou cicatrizantes. ‘Por essas bandas é assim’, disse a narração criativa.

Por exemplo: os índios são chamados de ‘guardiões de toda a sabedoria’, a floresta é ‘cheia de mistérios’ e a chuva ‘chega sem avisar’. Depois de um intervalo comercial, também sem avisar, o foco passou para a Nova Zelândia, do que se conclui que deve ter havido um saudável aproveitamento de material.

Nesse tipo de programa, a figura do repórter só serve para fazer gracinhas, apontar e mostrar zebras na paisagem e ter experiências antropologicamente desastrosas.

Enquanto isso, na Record, o tom era parecido, mas menos previsível. Um sujeito decidiu comer uma aranha e disse que tinha ‘gosto de caju’. Um pantaneiro descalço aceitou usar sapatos. Há um close ousado num tatu fedido.

Com vistas a contribuir para a fertilidade da imaginação dos produtores, aí vai uma lista de temas para os programas: aftas. O mecanismo das roldanas. Aqualoucos. Pelota basca. Tartarugas brutais. Gota. Extraterrestres. Metafísica aplicada. Código Morse. Ou partam logo para um especial sobre gordinhos hipertensos no Pantanal lendo Chico Xavier e domando zebus.

 

Mônica Bergamo

Alegria na guerra

‘Vedeta há anos’, Miguel Falabella fala de um certo marasmo sexual, do cansaço do Brasil e diz que os jornalistas que o criticam deveriam ‘fazer faxina para viver melhor e ganhar mais’

Trabalhando em duas peças, uma novela e duas séries, Falabella diz que nem todos compreendem os textos de ‘A Vida Alheia’: ‘Às vezes dá vontade de ir embora’

Quem ouve Miguel Falabella, 53, falando de si mesmo, pensa que o autor, ator e diretor já está com um pé na cova. ‘Nem isso, meu filho’, diz ele ao repórter James Cimino, sobre o fato de namorar bem pouco ultimamente. ‘Eu tô pensando até em tomar umas coisas pra ver se me animo.’

Falabella desconfia que está ‘na andropausa’. ‘Tive uma ‘vibe’ sexual nos 40. Mas agora tô começando a achar estranho. Eu meio que desliguei. Dá uma caída de vez em quando. A gente vai baixando o facho. Senão, chega uma hora em que fica patético. Não sei se é uma crise de idade, de autoestima… Você já não se acha atraente o bastante. Tenho que tocar isso na terapia.’

Fala com displicência que logo vai morrer -’é charme, né?’- e se recusa a tirar fotos na varanda de sua cobertura em Ipanema no lindo dia de sol que fazia quando recebeu convidados para um almoço. ‘Tenho fotofobia. Faço tanta careta no sol que minha cara vai ficar parecendo um pergaminho do mar Morto.’

O sobrinho Cassiano chega e pergunta se pode almoçar. Entre paternal e irônico, Falabella responde: ‘Mas é claro! Ou você acha que vai almoçar acorrentado no quarto dos fundos pro repórter não te ver?’ A cozinheira serve arroz integral, salada, frango, quiche de queijo e, de sobremesa, bolo de chocolate light, tudo com Coca-Cola, também light. Enquanto almoça e conversa efusivamente, a casa, assim como ele, continua em movimento.

Uma equipe de decoração começa a trabalhar na construção de um telhado de vidro na varanda do apartamento que separa a sala de jantar do escritório onde Falabella escreve seus trabalhos. No momento, ele se dedica especialmente aos textos de ‘A Vida Alheia’, que vai ao ar nas noites de quinta-feira, na TV Globo. A série satiriza publicações que se dedicam às celebridades.

Marília Pêra interpreta Catarina, a dona de uma revista editada por Alberta Peçanha (Claudia Jimenez). As duas agem de forma pouco ética -simples suspeitas sobre famosos já viram escândalos nas páginas da publicação.

Recentemente, um crítico definiu o programa como ‘a comédia do rancor’ em que Falabella se vingaria dos que o perseguem nas revistas de fofoca. ‘Me vingar de quê? Sou ‘vedeta’ há anos!’, diz ele, às gargalhadas. ‘Publicaram que eu estava com Aids em 1987. Foi horrível. Fiquei em pânico. Passou.’

‘Manda esse povo [jornalistas que o criticam] arrumar uma faxina pra fazer que vão viver melhor! E até ganhar melhor, na maioria dos casos.’ Certa vez, Falabella foi abordado por uma repórter. ‘Ela ficava: ‘Ai, a Grazi [Massafera] é péssima atriz, né? Nossa, é um horror’.’ E ele: ‘Minha filha, a Grazi está neste momento namorando o Cauã Reymond. E você tá aí, com essa sandalinha e com esse bloquinho na mão.

Quem tá melhor na fita?’.

O ator diz acreditar que as críticas feitas a ‘Vida Alheia’ ocorrem porque a atração ironiza profissionais de imprensa. ‘Que corporativismo é esse? Então os jornalistas são intocáveis, carmelitas descalças, aquelas clarissas em silêncio? Que coisa ginasiana!’ Falabella aconselha: ‘Vai ler, vai estudar, vai viajar, acorda pra Jesus!’.

Falabella admite que transfere eventualmente para a série situações que já ocorreram com ele. Certa vez, recebeu o telefonema de um jornalista avisando que uma determinada reportagem sairia ‘de qualquer jeito, por isso seria bom você falar’. ‘Quando eu coloco a Alberta Peçanha na série dizendo a um entrevistado: ‘A capa vai sair de qualquer jeito, mas como eu sou muito ética, quero saber a sua versão’, é uma ironia’, diz o autor.

Ele jura que não lê publicações brasileiras. Só um jornal. ‘Leio ‘New Yorker’, vou pra internet, vejo telejornal e leio livros. Me inspiro mais nos escândalos internacionais. São mais carnudos. Lá fora é mais feroz.’

Ouviu rumores de que a Globo estaria insatisfeita com o Ibope da série, de 17 pontos, e que a ideia de que ela continuasse no ar por mais tempo, em segunda temporada, seria abortada.

‘Nunca pensei que fosse dar 60 pontos!’ Segundo ele, as pessoas não entendem o texto do programa. ‘A mídia dos 140 caracteres [o Twitter] te tira da concentração de uma leitura mais aprofundada.

Essa geração é dificílima. É diferente.’ Cansado ‘da sistemática perda de massa encefálica’ das pessoas, ele diz que às vezes tem vontade de ir embora do país. ‘Devia ter feito isso quando jovem, porque daria tempo de aprender outra língua para escrever.

Mas não fiz. Agora é tarde. Já tô velho. Inês é morta, vou ficar por aqui mesmo até a hora de tomar meu rumo.

Falabella está em cartaz no Rio com a peça ‘A Gaiola das Loucas’. Escreve comédia sobre uma funerária no Irajá, a ‘Pé na Cova’. ‘Vou ser o marido de uma maquiadora do Senai que aplica gordura de porco na cara dos mortos e eles ficam lindos!’ E acabou de entregar a sinopse de uma novela das sete, sobre uma loja, a ‘Comprai’, inspirada na Daslu. Ela será investigada pela polícia e tentará ampliar suas instalações para o espaço de ‘uma comunidade de nega que tem ao lado.’ ‘Porque é das nega que a gente gosta!’, diz Falabella. Duas costureiras fornecem vestidos falsificados para a butique. ‘O nome da grife delas é ‘Chinel’.’

Quando não está nas atividades, fica no Twitter. ‘Entrei porque todo mundo me encheu o saco para entrar. E gostei.’ Responde a perguntas, bloqueia chatos, cria alteregos e conta histórias como a da prostituta que ele ajudou a negociar um programa com um estrangeiro. ‘Ela me deu R$ 50 e disse: ‘Tá todo mundo na batalha!’ Não gastei. Me dá sorte.’ Tem 121 mil seguidores. ‘Você encontra gente interessante, mas a grande maioria é ‘me segue’, ‘me dá um beijo’. Outro dia escrevi: ‘Isso aqui não é ONG, ninguém vai arrumar emprego’. Porque é impressionante. Todo mundo é ator. Eu vejo muito esse desespero da fuga do anonimato.’

‘Escolhi ser um artista popular’, diz Falabella. ‘Podem falar, mas isso ninguém me tira. Eu ando em Ipanema e todos olham para mim com um sorriso.’

Em algumas outras partes do mundo também. ‘Eu descendo a avenida da Liberdade, no Porto, em Portugal, para me encontrar com a Claudia Raia [eles estavam em cartaz na cidade com ‘Batalha de Arroz num Ringue para Dois’], à meia-noite. De repente, tinha uns negões.

Um bem grandão veio em minha direção e disse, com forte sotaque português: ‘És o Miguel Falabella?’. Eu disse: ‘Sou!’. Menino, esse homem me deu um abraço de urso e disse: ‘Sou de Angola. Nos deste tanta alegria durante a guerra!’. Fiquei emocionado.

Porque aquele foi um abraço de amor. De repente, tudo se justifica. O ‘Sai de Baixo’ [programa dominical da Globo], aquela maluquice, todas as críticas que recebi.’

 

TECNOLOGIA
Julio Wiziack

Teles se armam contra Google e Apple

As principais teles do mundo estão armando uma ofensiva contra Apple, Google e outras companhias que vêm provocando a explosão do tráfego internacional de internet com o lançamento de seus produtos e serviços.

Para as operadoras, as companhias de internet estariam faturando às suas custas e obrigando as teles a investirem ainda mais em infraestrutura para suportar a crescente demanda por vídeos, games, filmes e outros serviços que as ‘pontocom’ colocam no mercado.

Telefónica, Vodafone, América Móvil, NTT Docomo, Verizon, AT&T, entre outras, estudam negociar com essas empresas um novo modelo de negócio, em que elas também participarão dos investimentos nas redes que suportam seus serviços.

A Folha teve acesso a um relatório reservado de uma dessas operadoras sobre os riscos que o crescimento da Apple e do Google representam à saúde financeira dos grupos de telecomunicações.

Segundo o relatório, somente na Europa as teles investiram quase 10% de sua receita anual em rede. No mesmo período, as empresas de internet, como o Google, investiram 0,25% do faturamento. Entre as companhias de tecnologia, como a Apple, esse índice foi de 0,86%.

Google e Apple já faturam mais que algumas operadoras. Em sete anos, o faturamento do Google saiu de US$ 439,5 milhões para US$ 23,7 bilhões. Boa parte devido ao sucesso do YouTube, que permite o acesso a vídeos postados por usuários. A Apple teve movimento semelhante após lançar o iPhone e o iTunes, loja virtual de aplicativos, vídeos, filmes e músicas.

O problema é que, desde o ano passado, o tráfego de internet passou a crescer em um ritmo considerado insustentável pelas operadoras. Segundo elas, para dar conta, seria preciso investir ainda mais. E, como suas receitas não acompanham esse ritmo de avanço, as teles dizem que podem ter suas contas afetadas, comprometendo os serviços básicos de telefonia, que são prioritários.

Uma forma de melhorar a capacidade de suas redes seria trocar as atuais (construídas basicamente por fios de cobre, que não suportam tráfego pesado de dados) por fibras ópticas. No Brasil, esse tipo de investimento não é viável se a receita por cliente de uma operadora for inferior a R$ 100. Esse limite permitiria amortizar o investimento em no mínimo uma década, na previsão mais otimista.

Por isso, as teles querem compartilhar investimentos com as companhias de tecnologia e de internet.

OUTRO LADO

A Apple não quis comentar o assunto. Alexandre Hohagen, diretor-geral do Google para a América Latina, discorda do argumento das operadoras. ‘O Google ou qualquer provedor de plataformas de conteúdo já paga às operadoras um valor expressivo pelo uso das redes.’

‘O produto [conteúdos e aplicativos] que oferecemos alavanca as operações das teles com os consumidores, já que oferecemos motivos convincentes para que eles consumam mais planos de dados’, diz Hohagen.

Para ele, hoje qualquer empreendedor pode viabilizar sua ideia e pagará proporcionalmente ao sucesso que tiver com seu produto ou serviço. ‘Às teles caberá decidir como investir em suas infraestruturas e garantir um nível de qualidade de serviço que faça com que os clientes se mantenham fiéis a elas,’ diz Hohagen.

 

ENTREVISTA
Sobre a entrevista

RESUMO

Entre os muitos textos que o escritor Mark Twain (1835-1910) deixou inéditos, figura uma autobiografia que será lançada nos EUA, em novembro, e este pequeno ensaio de 1889-90, divulgado pela primeira vez na semana passada, pela Universidade da Califórnia, sobre um gênero nascente e já polêmico: a entrevista de jornal.

MARK TWAIN

tradução CLÁUDIO A. MARCONDES

NINGUÉM GOSTA DE SER ENTREVISTADO, mas ninguém gosta de dizer não, pois os entrevistadores são corteses e gentis, mesmo quando têm o propósito de destruir. Não me entendam mal: não estou dizendo que sempre chegam com a intenção deliberada de destruir, ou que só depois percebam ter destruído; não, acho que a atitude deles tem mais a ver com a de um ciclone, que chega com o propósito ameno de refrescar um vilarejo sufocante e depois não se dá conta de que fez tudo ao vilarejo, menos um favor.

O entrevistador espalha você para todos os lados, mas não passa pela cabeça dele que você possa considerar isso uma desvantagem. Quem culpa um ciclone só faz isso por não atinar que massas compactas não são exatamente a ideia que um ciclone faz da simetria. Aqueles que se queixam de um entrevistador fazem isso por não ponderar que, afinal de contas, ele não passa de um ciclone, ainda que disfarçado de Deus, como o restante de nós; ele não tem consciência da devastação, nem mesmo quando varre o continente com os nossos despojos e acredita que está tornando nossa vida mais agradável; e que, portanto, espera ser julgado por suas intenções, e não por suas realizações.

TEMOR entrevista não foi uma invenção feliz. Talvez seja a maneira mais precária de alcançar o âmago de um homem. Em primeiro lugar, o entrevistador não tem nada de estimulante, pois inspira temor. Você sabe pela experiência que não tem escolha diante do desastre. Não importa o que ele ponha na entrevista, você logo vê que teria sido melhor se tivesse posto outra coisa: não que aquilo fosse melhor do que isto, apenas não seria isto; e toda mudança deve ser, e seria, para melhor, ainda que, na realidade, você saiba muito bem que não é assim.

Talvez eu não tenha me expressado direito: nesse caso, então eu me expressei direito -algo que eu só conseguiria me expressando com pouca clareza, pois o que quero demonstrar é o que você sente nessa situação, e não o que pensa -pois você não pensa; não se trata de uma operação intelectual; você apenas anda em círculos, acéfalo.

Obtusamente, tudo o que você quer é não ter feito aquilo, mesmo que, na realidade, não saiba o que gostaria de ter deixado de fazer e, mais ainda, você não se importe: esse não é o ponto; você só queria não ter feito aquilo, seja lá o que for; uma vez feito, é uma questão sem importância e não vem mais ao caso. Dá para entender o que quero dizer? Você já passou por isso? Pois bem, é assim que alguém se sente ao ver sua entrevista publicada.

CONCHA Pois é, você teme o entrevistador e isso não é estimulante. Você se fecha na sua concha; monta a guarda; tenta parecer inócuo; procura ser engenhoso e, sem nada dizer, faz rodeios e contorna o assunto; quando lê o resultado impresso, fica enojado ao notar como você se saiu bem.

O tempo todo, diante de cada nova pergunta, você está alerta para enxergar aonde o entrevistador está lhe conduzindo, a fim de frustrá-lo. Sobretudo quando o pega buscando sub-repticiamente levá-lo a dizer uma coisa engraçada. E é isso mesmo o que ele tenta fazer.

Ele demonstra isso de modo tão óbvio, empenha-se com tal franqueza e atrevimento que, já na primeira investida, o reservatório se fecha, e, na seguinte, se torna perfeitamente estanque. Não creio que, desde a invenção dessa prática sinistra, algo verdadeiramente bem-humorado tenha sido dito a um entrevistador.

No entanto, como ele precisa de algo ‘característico’, só lhe resta contribuir, ele mesmo, com o humor, introduzindo-o aqui e ali durante a transcrição da entrevista. Esse humor é sempre esdrúxulo, muitas vezes palavroso e, em geral, formulado em ‘dialeto’ -mesmo assim, um dialeto inexistente e inviável. Tal método já acabou com mais de um humorista. Mas não há aí nenhum mérito do entrevistador, afinal esta jamais foi a intenção dele.

EQUÍVOCO São inúmeras as razões pelas quais a entrevista é um equívoco. Uma delas é que o entrevistador nunca parece refletir que, após ter aberto essa, aquela e mais outra torneira com sua profusão de perguntas, e ter descoberto qual delas jorra com mais abundância e interesse, o mais sensato seria restringir-se a ela e aproveitá-la ao máximo, deixando de lado as vacuidades já recolhidas.

Ele não pensa assim. Inevitavelmente interrompe a torrente, indagando sobre ainda outro assunto; e assim, de uma vez, desaparece, e para sempre, a sua única e débil oportunidade de conseguir algo que valha a pena levar para casa. Teria sido muito melhor ater-se ao assunto que despertou a loquacidade do entrevistado, mas é impossível convencê-lo disso.

Ele não consegue distinguir o momento em que você entrega o metal daquele em que o soterra com escória, entre o ouro e a borra; para ele, tudo se equivale, e ele inclui tudo o que você diz; depois, ao ver-se diante de tanta coisa imatura e imprestável, tenta remediar a situação incluindo algo de sua lavra que lhe pareça maduro, quando, na verdade, está podre. Sem dúvida, a intenção é boa, mas a do ciclone também.

Ora, as interrupções, o jeito de desviar você de um assunto para o outro, por fim têm um efeito muito grave: você está presente em cada tema, mas apenas em parte. Em geral, do que você pensa só consegue expor o suficiente para prejudicá-lo; jamais alcança aquele ponto em que pretendia explicar e justificar a sua posição.

‘Concerning the ‘Interview’, de Mark Twain. Copyright (c) 2001 da Mark Twain Foundation. Todos os direitos reservados. Reprodução cedida pela University of California Press.

 

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