Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

ENTRE ASPAS > GOVERNO BUSH

Frank Rich

22/02/2005 na edição 317

‘As preces das pessoas que desejavam que as notícias reais da televisão seguissem o exemplo de Jon Stewart [humorista americano que distorce o noticiário] foram atendidas em 9 de fevereiro de 2005. Um jornalista de verdade tomou de empréstimo uma técnica usada no falso noticiário para transmitir notícias reais sobre notícias falsas, no horário nobre. Permitam-me explicar.

No telejornal ‘Countdown’, da rede MSNBC, o âncora Keith Olbermann abriu com uma nota ao estilo típico do ‘Daily Show’ [programa humorístico de TV] de Jon Stewart: montagem rápida de vídeos editados com humor ilustrando a aparente estupidez daqueles que nos governam.

No caso, os oito trechos de vídeo traziam cenas gravadas entre fevereiro de 2004 e o final do mês passado e continham imagens de um repórter chamado ‘Jeff’. Na maioria deles, o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, dizia ‘pergunte, Jeff’, e ‘Jeff’ rebatia com uma pergunta capciosa cujo objetivo era não obter informação, mas elevar a estatura do presidente Bush e difamar seus adversários políticos.

No último trecho, ‘Jeff’ está entrevistando o presidente diretamente, na primeira coletiva após sua segunda posse. Mencionando Hillary Clinton [senadora por Nova York], ‘Jeff’ pergunta: ‘Como o senhor vai trabalhar com pessoas que parecem ter se divorciado da realidade?’.

Se não vivêssemos em uma era em que a cultura noticiosa mesma está divorciada da realidade, a história talvez parasse por ali. ‘Jeff’, poderíamos supor, era um repórter amestrado de uma organização legítima, ainda que direitista, como a Fox, e um vídeo com os melhores momentos de sua campanha para puxar o saco dos poderosos geraria boas risadas.

No entanto os vídeos transmitidos no jornal de Olbermann não eram falsos. ‘Jeff’ estava mesmo na Casa Branca, e participou dos diálogos registrados, com o verdadeiro McClellan e com o verdadeiro presidente Bush.

O nome verdadeiro de ‘Jeff Gannon’ é James D. Guckert. A empresa que o empregava é o site Talon News, cuja equipe é composta essencialmente por ativistas republicanos trabalhando sem remuneração. Suas ‘notícias’ muitas vezes não passam de comunicados reciclados da Casa Branca.

Mesmo assim, por quase dois anos a Casa Branca manteve a credencial de Gannon, um repórter de uma empresa de mídia falsa, sem leitores reais.

De que forma isso aconteceu é um mistério ainda não resolvido. ‘Jeff’ agora se demitiu da Talon News, não porque ele e a empresa tivessem sido expostos como farsa, mas devido a outras embaraçosas revelações, em blogs, que o vinculavam a sites como hotmili tarystud.com (um site erótico sobre soldados) e a uma promissora carreira como ‘acompanhante’ pornô cobrando US$ 200 por hora de trabalho.

Se Guckert, autor de matérias exclusivas para a Talon News como ‘Kerry pode se tornar o primeiro presidente gay’, é outro elo na rede infindável de republicanos gays que assumem posições públicas homofóbicas, o tema não deixa de ser interessante. Mas isso não deveria desviar nossa atenção da verdadeira notícia, que gira em torno da estranha posição desse falso repórter como membro da máquina de propaganda da Casa Branca, que se torna mais curiosa a cada dia.

Pelos meus cálculos, ‘Jeff Gannon’ já é pelo menos o sexto ‘jornalista’ (quatro dos quais desmascarados neste ano) a ser identificado como propagandista pago -quer pelo governo Bush, quer por um aliado muito próximo como o Talon News- que ao mesmo tempo trabalha para organizações de mídia que supostamente veiculam notícias reais.

Dos seis, dois eram colunistas publicados em diversos jornais dos EUA e tinham seus salários pagos pelo Departamento da Saúde, com o objetivo de promover as iniciativas do governo quanto a casamentos. Os outros quatro se faziam passar por jornalistas de verdade na TV, cujas ‘reportagens’, transmitidas em mais de 50 jornais de todo o país, agora foram classificadas como ‘propaganda encoberta’ e consideradas ilegais pelo governo.

O dinheiro usado para pagar três desses falsos repórteres foi canalizado por meio da mesma empresa de relações públicas, a Ketchum Communications, que recebeu US$ 97 milhões da verba total de US$ 250 milhões que o governo reserva às relações públicas. As trapaças envolvendo os repórteres desmascarados respondem por apenas uma fração do dinheiro. Temos ainda de descobrir onde foi parar o restante.

Mesmo agora, sabemos que as notícias falsas geradas pelos seis trapaceiros são apenas uma pequena parte do esforço geral de propaganda do governo. O presidente Bush não estava brincando quando classificou a notoriamente mansa entrevista coletiva que concedeu um dia antes da invasão do Iraque como ‘roteirizada’, enquanto o programa ainda estava no ar. Tudo é roteirizado.

Durante a campanha eleitoral do ano passado, as reuniões entre cidadãos e o presidente em pequenas cidades, durante as quais as pessoas supostamente podiam fazer perguntas a Bush (pergunta típica: ‘senhor presidente, enquanto criança, como posso ajudá-lo a conseguir votos?’), eram na verdade cuidadosamente produzidas para a televisão.

Um ‘Serviço de Influência Estratégica’, no Pentágono, com o objetivo de gerar itens noticiosos (alguns dos quais falsos) dirigidos à imprensa internacional, para fins de propaganda, foi fechado em 2002, quando se tornou uma fonte de embaraços políticos. Mas, de maneira muito mais discreta, outra divisão de propaganda do Departamento da Defesa, o Pentagon Channel, foi acrescentada recentemente como canal gratuito em uma rede de TV a cabo dos EUA. Quanto será que demorará até surgir o canal do seguro social?

É uma estratégia brilhante. Quando o governo Bush não está usando o dinheiro dos contribuintes para comprar notícias falsas, faz tudo o que pode para bloquear e restringir os repórteres reais, que poderiam contar aos americanos o que vem acontecendo dentro daquilo que, teoricamente, constitui o governo deles.

A incapacidade dos jornalistas reais para penetrar na Casa Branca atual não se deve totalmente à Casa Branca. Os erros das organizações noticiosas reais servem perfeitamente aos esforços do governo para confundir as fronteiras entre o falso e o real, e assim demolir a idéia de que poderia existir uma imprensa verdadeiramente objetiva e independente.

Os conservadores, que supostamente deploram o pós-modernismo, agora dão boas-vindas ao admirável mundo novo onde é um axioma que as notícias não podem conter realidade empírica, mas apenas aquela que as pessoas desejam ouvir (ou a que eles desejam que as pessoas ouçam). E a freqüente ineficácia do pessoal de imprensa em Washington não faz muito para penetrar essa cortina de fumaça do governo. Tradução de Paulo Migliacci’



Tribuna da Imprensa

‘Mais técnicas de Bush para manter a mídia sob controle’, copyright Tribuna da Imprensa, 21/02/05

‘Um acúmulo de dados contundentes comprova a obsessão do governo Bush pelo controle e manipulação da informação e da mídia. E não me refiro a indícios antigos evidenciados pela conduta pessoal do presidente George W. Bush, que já apontavam nessa direção, mas aos fatos concretos mais recentes, o último dos quais gerou um escândalo nos últimos dias, o caso de ‘Jeff Gannon’.

Jeff, estranho personagem, pintou certo dia na sala de imprensa da Casa Branca, dizendo-se jornalista de um website conservador sem qualquer expressão, quase desconhecido, chamado Talon News – propriedade de uma organização igualmente suspeita, uma tal GOP USA, sendo GOP iniciais do apelido do Partido Republicano (Great Old Party), e USA, claro, Estados Unidos da América.

Um raciocínio elementar já identificaria Jeff, o Talon News e o GOP USA como capas óbvias de uma picaretagem grossa. Mas a Casa Branca estranhamente deu ao cidadão que representava os dois grupos suspeitos (para dizer o mínimo) o privilégio de receber credencial para participar dos ‘briefings’ do porta-voz de Bush, lado a lado com o ‘New York Times’, ‘Washington Post’, ABC, CBS, NBC, etc.

Até o nome dele era falso

Pior do que isso: graças ao governo (no início Scott McClellan e seus porta-vozes subordinados da sala de imprensa, e depois também o próprio presidente, George W. Bush em pessoa), o tal Jeff virou estrela, embora fosse falso até o nome dele (o nome real é James D. Guckert). Isso porque o picareta não perguntava, como os jornalistas: só levantava a bola, com ataques à oposição, para McClellan (ou Bush) chutar em gol.

A rotina fraudulenta se repetiu ao longo de meses. E a farsa afinal escancarou-se na coletiva de Bush a 26 de janeiro. O presidente, já há algum tempo, passara a adotar procedimento novo nas entrevistas. Escolhia com extremo cuidado cada perguntador. A encenação parecia obedecer a um script. E excluía gente que faz perguntas difíceis, como a veterana Helen Thomas, decana dos correspondentes na Casa Branca.

No dia 26 um dos contemplados com a honra de perguntar foi o bom e velho Jeff, chamado com simpatia por Bush. O falso jornalista fez então sua pergunta, que era um editorial. Disse que o líder oposicionista Harry Reid falava em ‘fila da sopa’, como se o país estivesse na depressão, e Hillary Clinton descrevia uma economia ‘à beira do colapso’. E arrematou: ‘O senhor acha que ainda pode trabalhar com gente desse tipo?’

Só um completo idiota não percebeu a farsa. Até porque Reid e Hillary não tinham dito aquilo. Um extremista do conservadorismo bushista, o radialista de ‘talk show’ Rush Limbaugh, é que fabricara aquelas imagens para ridicularizar os dois. O próprio radialista, muito ‘honrado’, fez a correção em seu programa do dia seguinte, vangloriando-se das suas imagens fantasiosas e enchendo a bola de Jeff.

Recebendo vazamentos ilegais

Diante de tanta coisa concreta, toda a comunidade jornalística afinal ousou indagar quem era o falso jornalista e como era admitido ali, se não passava de picareta. O caso ganhou destaque e Jeff demitiu-se ante a revelação de que seus websites fajutos ainda eram ligados a outros, pornográficos. Ficou no ar a pergunta: quem deu credencial ao picareta, rejeitado antes ao tentar uma no Congresso?

Jeff também já fora escolhido antes como um dos privilegiados a receber vazamento ilegal da informação que identificou Valerie Palmer como agente da CIA. Esse caso, ainda sob investigação, ameaça comprometer autoridades como Karl Rove – marqueteiro e alto assessor de Bush. Pois o vazamento pode ter sido vingança contra o marido de Palmer, ex-embaixador Joseph Wilson.

O pecado desse ex-diplomata foi ter constatado na áfrica, a serviço da CIA, que não passava de fraude a suposta prova de que o Iraque tentara comprar urânio em Níger. Ele denunciou o presidente porque, mesmo depois de comprovada tal fraude, Bush ainda repetiu a versão mentirosa num pomposo discurso do Estado da União, perante sessão conjunta do Congresso.

A mesma obsessão do engodo

Daria para relevar o escândalo Gannon como apenas mais uma trapalhada da Casa Branca, não fosse a sucessão de casos que comprovam a obsessão de usar a mídia, com fraude, para enganar o país. Mais quatro antecedentes:

1. Dinheiro do contribuinte foi usado para pagar dois atores, Karen Ryan e Alberto Garcia. Vídeos gravados por eles, como se fossem repórteres, falando de decisões maravilhosas do governo e eram usados por centenas de emissoras de TV no país (o orçamento da ‘operação’ era de US$ 124 milhões). Ryan e Garcia tinham feito a mesma coisa antes, em comerciais da indústria farmacêutica;

2. Armstrong Williams, outro suposto jornalista (habituado a participar de debates em ‘talk shows’, defendendo Bush e sua gente), recebia dinheiro de órgão oficial (ao todo, US$ 240 mil), o Departamento de Educação, para defender como magníficas e revolucionárias as controvertidas iniciativas educacionais do governo Bush;

3. Mike McManus foi pilhado em flagrante levando grana (do Departamento de Saúde) para falar bem do governo na TV e no rádio. Como especialista em ‘ética e religião’, nome de sua coluna na mídia, proclamava as maravilhas do programa Bush de ‘defesa do casamento’;

4. Maggie Gallagher, próspera profissional do império Murdoch de desinformação (‘New York Post’ e rede Fox, e mais veículos pelo mundo afora), chegou a ser atraída em 1998 por uma editora de extrema direita, a Regnery, para fazer o livro de Paula Jones (descrevendo, por exemplo, as características peculiares do pênis do presidente Clinton). O governo Bush também pagou a ela, mas para exaltar o ‘programa casamenteiro’. Até que faz sentido: se entende de pênis, deve ser boa em casamento.’



ENTREVISTA / JUDITH MILLER
Paulo Sotero

‘O sigilo que pode dar cadeia’, copyright O Estado de S. Paulo, 20/02/05

‘Em quase três décadas como repórter do New York Times e autora de best-sellers sobre terrorismo e Oriente Médio, a jornalista Judith Miller, de 57 anos, ganhou prêmios, colecionou críticos mordazes e demonstrou incomparável talento para manter-se em evidência. Hoje, ela é personagem central de um enredo que não escreveu, mas que poderá levá-la à cadeia e adicionar uma dimensão heróica – a de mártir na defesa da liberdade de imprensa – à sua controvertida reputação.

‘Isso a reabilitou um pouco’ entre seus colegas, disse na semana passada Lucy Dalglish, a diretora do Comitê de Repórteres para a Liberdade de Imprensa.

Ela se referia a uma decisão que uma comissão de três juízes do Tribunal Federal de Apelações de Washington anunciou na terça-feira, rejeitando recurso apresentado por Miller e Matthew Cooper, vice-chefe da sucursal da revista Time em Washington, contra ordem de prisão por até 18 meses que receberam de um juiz federal, em outubro, por ignorar intimação para revelar suas fontes a um grande júri que investiga o vazamento à imprensa da identidade de uma agente da CIA, Valerie Plame, por altos funcionários da Casa Branca.

Os juízes determinaram que a Primeira Emenda da Constituição, que garante a liberdade de expressão, não protege os acordos de confidencialidade entre jornalistas e suas fontes, em investigações criminais. Os advogados de Miller e Cooper entraram com novo recurso e o caso deve chegar à Suprema Corte.

O vazamento de nomes de agentes dos serviços de inteligência americanos é, potencialmente, crime federal nos EUA, embora haja controvérsia também a esse respeito. O caso que pode levar Miller e Cooper à cadeia começou em julho de 2003 com a publicação do nome da espiã pelo colunista ultraconservador Robert Novak, no Washington Post e dezenas de outros jornais. O vazamento foi uma clara vendeta política contra o marido de Plame, o ex-embaixador Joseph Wilson, um democrata que um mês antes causara enorme embaraço à administração. Num artigo publicado no New York Times, em junho, Wilson revelara que havia realizado uma missão especial para a CIA no Níger e constatado serem falsas as afirmações feitas pelo presidente George W. Bush num discurso ao Congresso, no início daquele ano, sobre a compra de minério de urânio no país africano pelo ditador Saddam Hussein.

Em vez de ir direto às fontes do vazamento, ou pressionar Novak a revelar quem lhe disse que Plame trabalhava na CIA, o promotor especial nomeado para investigar o caso investiu contra os jornalistas que apuraram o caso. Alguns foram liberados do compromisso de confidencialidade por suas fontes e compareceram perante o grande júri – um grupo de 21 cidadãos que determina se houve ou não crime. O próprio Cooper chegou a depor uma vez.

O fato de Miller ter se tornado alvo das investigações é especialmente intrigante, por várias razões. Embora tenha feito algumas entrevistas, ela nada escreveu a respeito. Além disso, Miller é vista como uma jornalista politicamente próxima dos neoconservadores que mandam na administração americana. As matérias que produziu sobre o programa de armas químicas do Iraque, antes da invasão do país, e um livro que publicou sobre o tema ajudaram Bush a vender a noção de que Saddam possuía armas de destruição em massa e representava um perigo iminente à segurança dos EUA.

Não foi a primeira vez que a jornalista ajudou a acirrar os ânimos em relação ao Oriente Médio. No livro Covering Islam (Cobrindo o Islã), o intelectual americano-palestino Edward W. Said, já falecido, descreveu um dos best seller de Miller – God Has Ninety Nine Names (Deus tem Noventa e Nove Nomes), de 1996, sobre a militância radical no Oriente Médio – como ‘um manual das impropriedades e distorções da cobertura do Islã’ nos meios de comunicação nos EUA.

Miller é figura polêmica dentro da própria redação do New York Times. Em maio, Howard Kurtz, que cobre imprensa para o Washington Post, revelou uma troca de mensagens de e-mail entre ela e o chefe do escritório do Times em Bagdá, John Burns, nas quais este a admoestou por ter entrevistado e publicado matéria com político iraquiano Ahmed Chalabi sem seu conhecimento. Chalabi, hoje em desgraça em Washington, era então próximo dos neoconservadores da administração e grande fornecedor das informações falsas sobre o arsenal de armas de Saddam.

Este mês, o ombudsman do próprio New York Times, Daniel Okrent, criticou Miller por afirmações que ela fez no programa Hardball, da MSNBC. Citando fontes anônimas, Miller disse que a administração Bush estava se reaproximando de Chalabi – uma informação que ainda não havia publicado no Times.

Christopher Simpson, professor da Escola de Comunicação da American University, em Washington, e estudioso das leis que regem a imprensa nos EUA, vê na ameaça de prisão de Miller e Cooper ‘uma estratégia do governo para intimidar os meios de comunicação’, que, segundo ele, aumentou com a ascensão das forças conservadoras na política americana.

‘Há, contudo, uma deliciosa ironia nesse caso’, observou ele ao Estado. ‘Judith Miller causou mais intimidação e mágoa entre jornalistas profissionais do que qualquer outro repórter e fez uma carreira de sua associação com a ala neoconservadora do Partido Republicano.’ Segundo o professor, ‘nos últimos 20 anos, Miller promoveu em suas matérias uma linha de alarme extremo sobre o que ela define como terrorismo e que vai muito além da realidade’.

Esta é uma das raras entrevistas exclusivas que a jornalista deu sobre o caso.

Como você descreveria sua situação se tivesse que escrever a respeito.

Não quero descrevê-la… É uma situação absurda, na qual estou sendo acusada de desacato à Justiça por me recusar a prestar depoimento sobre algo que pode nem ter sido um crime e a respeito do que nunca escrevi. É uma coisa meio orwelliana.

O que está em discussão?

A questão subjacente é se jornalistas devem ou não ser considerados como advogados, membros do clero, esposos, médicos e terapeutas, que estão legalmente dispensados de comparecer perante grandes júris para depor sobre fatos de que tomaram conhecimento no exercício de suas atividades profissionais ou na privacidade do lar. Em 1972, a Suprema Corte decidiu que esse privilégio não se estende aos jornalistas. Mas desde então 49 Estados e o Distrito de Columbia, por meio de leis e decisões judiciais concluíram que essa proteção aos jornalistas existe ou deveria existir. A ironia é que se o caso estivesse num tribunal estadual em Nova York, onde eu trabalho, na corte municipal do Distrito de Colúmbia, onde eu trabalho, e não na Justiça federal, eu não teria de comparecer ao grande júri.

Mas os juízes rejeitaram o argumento apresentado por seu advogado, segundo qual a Primeira Emenda da Constituição protege os jornalistas contra intimações para depor em investigações criminais federais….

Nossa posição é que muita coisa aconteceu desde que a Suprema Corte tomou tal decisão em 1972 e esperamos que os juízes, quando começarem a pensar a respeito, compreenderão que as situações evoluem, as leis mudam, a lei comum mudou e as atitudes quanto à natureza vital, essencial da imprensa também mudaram. Tivemos, desde então, Watergate, guerras e crises, e em todos os casos a imprensa desempenhou papel central.

Você está pronta para ir para a cadeia se a Justiça rejeitar seus argumentos de forma definitiva?

Estou. Tenho de estar, para proteger a confidencialidade das fontes, que é vital para nossa profissão. Somos apenas tão bons como jornalistas quanto forem as nossas fontes. Se as pessoas não confiarem em que as protegemos quando elas nos dão informações que podem ser ilegais ou impróprias, ou revelar atividades ilegais ou impróprias, elas deixarão de nos procurar. E o governo está tornando cada vez mais difícil para as pessoas falar sobre atos ilegais ou impróprios.

Isso é mais acentuado na atual administração ou vem de antes?

Nos EUA, isso tem acontecido com governos republicanos e democratas, mas aumentou, especialmente, desde o 11 de Setembro. A tendência ao sigilo não é republicana ou democrata.

Em seus artigos no ‘New York Times’ você sempre procurou assinalar que um dos problemas do Oriente Médio é a falta de democracia. Como se sente, como jornalista e cidadã do país que consagrou a liberdade de imprensa e diz exportar liberdade, agora que é alvo de uma ordem de prisão por exercer o jornalismo.

É por isso que sou otimista que, no final, o tribunal chegará à conclusão apropriada. Eu acredito em nossa democracia. Acredito que temos mais liberdade aqui do que em qualquer outra parte do mundo, para dizer o que pensamos e praticar nosso ofício. Eu sei qual é a diferença, por experiência própria, entre a cobertura jornalística aqui e em outros países. Seria, de fato, uma triste mensagem se os EUA, ao mesmo tempo em que dizem estar promovendo a democracia ao redor do mundo, começassem a reprimir a imprensa em casa, que é um dos garantes da nossa democracia.

Você foi criticada por outros jornalistas no passado e mais recentemente por ter escrito matérias que ajudaram a montar o argumento sobre a existência de armas químicas no Iraque e justificar a invasão do país. Isso tem afetado o nível de solidariedade que você está recebendo, agora, de seus colegas?

Nós todos cometemos erros, baseados em nossas fontes. A informação (sobre armas químicas no Iraque) estava errada. Hoje sabemos isso. Quando (o então diretor da CIA) disse que a existência de armas de destruição em massa no Iraque era evidente, ele não estava falando isso somente para mim, ele estava falando para o presidente dos EUA. A polarização provocada pela guerra fez com as pessoas buscassem bodes expiratórios, e eu era um bode expiatório natural.’



EUA / CASO MILLER
Los Angeles Times

‘Mandar esses dois jornalistas para a prisão seria extremamente injusto’, Editorial copyright Los Angeles Times in O Estado de S. Paulo, 20/02/05

‘Você não vai ler isso com freqüência numa página de editorial, mas os jornalistas não estão acima da lei. Essa verdade desconfortável foi confirmada por três juízes federais na terça-feira. Eles mantiveram a decisão de um tribunal de instância inferior que determinou que dois jornalistas – Judith Miller, do New York Times, e Matt Cooper, da revista Time – terão de ir para a cadeia se não revelarem suas fontes a Patrick J. Fitzgerald, o promotor público especial que está investigando vazamentos na Casa Branca.

Os vazamentos expuseram uma agente do serviço de informações porque o governo Bush implicava com o marido dela. Isso parece um crime. Mas se os jornalistas estão isentos do dever normal dos cidadãos de testemunhar sobre o conhecimento de um crime e o autor do vazamento também está isento com a justificativa de não se incriminar, talvez não haja nenhuma forma de esse crime ser punido.

Não surpreendentemente, acreditamos que o trabalho dos jornalistas é socialmente valioso. E às vezes são necessárias fontes anônimas para fazer esse trabalho. É por isso que somos a favor do privilégio do jornalista de honrar sua promessa de sigilo, mas compreendemos que dois avisos podem ser socialmente valiosos, também. Primeiro, esse privilégio não pode ser absoluto. Precisa ser analisado em relação a outras considerações tais como a aplicação da lei. Segundo, abalar esse equilíbrio não pode ficar somente a critério dos jornalistas individualmente. Essa avaliação precisa ser feita por tribunais ou, preferencialmente, pelo Congresso, com um lei nacional de proteção.

Há mais de três décadas que o privilégio concedido aos jornalistas tem sido uma confusão, diferentemente, por exemplo, do privilégio de advogados e cônjuges de não testemunhar contra alguém. Os jornalistas têm precisado prometer o anonimato sem saber se isso pode levá-los para a cadeia. Se a extensão do privilégio fosse mais definida, a maioria dos jornalistas não prometeria o que não poderia cumprir.

O problema no caso de Miller e Cooper é que eles já prometeram manter o anonimato e se sentem obrigados a cumprir essa promessa, independentemente do que decidirem os tribunais.

Miller e Cooper nem mesmo foram aqueles que publicaram o nome do espião da CIA. Isso foi feito pelo colunista Robert Novak, e o mistério porque ele não está fazendo as malas para ir para a prisão continua sem solução.

Cooper chegou a testemunhar a uma determinada altura, quando um suspeito da investigação sobre o vazamento lhe pediu para confirmar que o promotor público estava visando o alvo errado. Cooper fez isso e imediatamente foi citado novamente por outra evidência.

Nesse ponto está difícil de acreditar que Fitzgerald tenha qualquer dúvida sobre a identidade do culpado ou que tenha muito a ganhar atormentando Cooper e Miller.

Fitzgerald provou que, se os jornalistas não devem ter total critério para resolver sobre a extensão do seu privilégio, também não devem ter os promotores. E é por isso que necessitamos de uma lei clara.

Nesse ínterim, enviar para a cadeia esses dois dedicados jornalistas – que nem mesmo estiveram envolvidos no vazamento da CIA – seria extremamente injusto e absurdo.’

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PRIMEIRAS EDIçõES >   ECOS DA GUERRA

Frank Rich

Por lgarcia em 28/10/2003 na edição 248

BUSH vs. IMPRENSA

“Nova guerra da Casa Branca: contra a mídia”, copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 26/10/03

“Em sua agora legendária entrevista, realizada no mês passado por Brit Hume, da Fox News, George W. Bush explicou que não recebe suas informações da mídia noticiosa, nem mesmo da Fox. ?A melhor maneira de receber a notícia é de fontes objetivas?, disse o presidente. ?E as fontes mais objetivas são as pessoas de minha equipe que me dizem o que está acontecendo no mundo?, acrescentou o presidente.

E quais são essas fontes? Condoleezza Rice e Andrew Card. Hume, não muito fiel ao slogan da Fox News – We Report (Nós Informamos) -, não formulou a pergunta óbvia que deveria vir depois: ?E, quanto a nós, pobres almas penadas, que não temos esses maravilhosos informantes ao nosso inteiro dispor?? Mas, seja como for, a resposta veio mais rápido do que se esperava.

A Casa Branca fez com que A Hora da Notícia de Condoleezza Rice ficasse à disposição de todos os americanos, enviando-a ao programa de Oprah Winfrey.

?Nenhuma equipe de televisão jamais obteve esse acesso tão grande a esta assessora de Segurança Nacional? disse Oprah ao seu público, ao receber e saudar sua convidada. Estava prestes a acontecer um grande ?furo?. ?A respeito do presidente, você pode dizer-nos se existe alguma coisa que nos cause surpresa??, perguntou Oprah. ?Sim?, disse Rice, ?Bush é um homem que come muito depressa; ele já estará comendo a sobremesa enquanto a gente ainda está comendo a salada?. E a conversa continuou nesse tom neste 17 de outubro.

Muito bem, este é o jornalismo objetivo, de acordo com o gosto deste governo: informações que a gente não pode usar. Até recentemente, a administração Bush sempre teve o que queria, especialmente na TV, e não só nos talk shows vespertinos. Do 11 de setembro até a queda de Saddam Hussein, a subserviência era tão densa que até Terry Moran, correspondente da ABC News na Casa Branca, disse que seus colegas ?pareciam zumbis?, ou mortos-vivos, nas entrevistas à imprensa de Bush – notoriamente a famosa de 6 de março de 2003.

Esta foi a única entrevista que o próprio Bush chamou de ?scripted? (realizada de acordo com um script). Esse script incluiu oito momentos diferentes nos quais Bush insinuou que Saddam tinha algo a ver com os atentados de 11 de setembro. Em nenhum desses momentos as dezenas de repórteres ali presentes fizeram alguma indagação sobre essas insinuações.

Seis meses mais tarde, o público está ficando inquieto. A missão não está cumprida. A lista de baixas no Iraque não pode ser censurada. A Casa Branca foi surpreendida soltando muitos brados de alegria, cuja elucidação se tornou agora uma grande preocupação em toda a imprensa… A revista Vanity Fair, que em certa ocasião publicou fotos triunfalistas do governo, feitas por Annie Leibovitz, olha agora para esta Casa Branca e vê o Teapot Dome (escândalo da presidência de Warren Harding, que em 1924 arrendou poços de petróleo estatais para empresas privadas).

O jornal The Washington Post, que passou uma semana inteira publicando uma história em quadrinhos fazendo troça de Rice, de forma leve e jocosa, alguns dias antes de sua aparição do programa de Oprah, mudou depois de atitude e, em sua Página dos Leitores, no último fim de semana, publicou também os protestos. Mas a letra impressa é uma coisa. A TV é outra.

Queiram ou não, a notícia não se inscreve em nossa cultura se não ?acontecer? na TV. Foi somente na data relativamente tardia de 9 de março de 1954 que o jovem senador Edward R. Murrow chamou a atenção do público, quando atacou Joseph McCarthy num programa da CBS. As sessões televisionadas sobre Watergate, de Sam Erwin, atingiram uma vasta audiência que até então não pudera identificar as denúncias feitas antes por Robert Redford-DustinHoffman/Bob Woodward-Carl Bernstein. Os eleitores não se levantaram contra a nossa aventura no Vietnã a não ser quando ela se transformou na ?Guerra da Sala de Estar?, segundo a frase imortal de Michael Arlen.

Por mais espúria que possa ser qualquer analogia entre as duas guerras, a gente poderia dizer que o próprio governo teme agora que o Iraque se esteja transformando num Vietnã pela forma como ele começou a temer o noticiário da TV. Quando um repórter da ABC News, Jeffrey Kofman, fez a mais pungente das principais reportagens da rede sobre o descontentamento entre as tropas americanas, Matt Drudge anunciou em seu site na Web que Kofman era gay e – o que é ainda mais escandaloso – um canadense (informação que ele disse ter recebido da Casa Branca).

Neste mês, enquanto proliferavam as más notícias vindas do Iraque, Bush recorreu à velha acrobacia de Nixon tentando ?passar por sobre as cabeças, prescindir do filtro e falar diretamente ao povo? a respeito da luz no fim do túnel. Neste caso, ?o povo? ou as pessoas, eram os âncoras e apresentadores de emissoras regionais de TV, como a Tribune Broadcasting, a Belo e a Hearst-Argyle.

No domingo, depois dessas entrevistas regionais de oito minutos cada concedidas por Bush, Dana Milbank, repórter do Washington Post na Casa Branca, disse no programa Reliable Sources (Fontes Confiáveis) da CNN, que os âncoras locais ?fizeram perguntas mais duras do que nós fazemos?. Quero acreditar que Milbank estava sendo apenas cortês porque, se ela estiver certa, o padrão para a cobertura desta Casa Branca caiu abaixo do nível do mar.

Em suas perguntas, os âncoras locais produziram menos informações do que Oprah. ?Será que alguns países, como França, Rússia e Alemanha fornecerão tropas para o Iraque??, perguntou um deles a Bush. ?Você precisa perguntar isso a eles? – foi a resposta do presidente.

Quando um governo está se escondendo num bunker para enterrar a informação, como se pode encontrar a notícia? Estamos começando a aprender que o primeiro lugar para onde devemos olhar é qualquer show noticioso de TV no qual Rice, Card, Dick Cheney, Colin Powell e Donald Rumsfeld ?não?estejam presentes. Se eles estiverem diante de uma câmera, vocês podem supor que a Casa Branca considerou esse show ou esse programa um lugar seguro, uma zona aprovada. Eles poderão ofuscar e dissimular à vontade, quer estejam falando à apresentadora Oprah, ou aos âncoras de redes locais ou a um apresentador de programa dominical de bate-papo informal.

Ao contrário, um programa noticioso de TV que o governo despreza e evita inteiramente tem a chance de fornecer informações exatas, frescas e atuais.

Neste mês, houve pelo menos dois exemplos clássicos importantes. Rice, Powell e Rumsfeld – todos eles – se recusaram a ser entrevistados para um documentário sobre os motivos da guerra no Iraque, no programa Frontline da PBS (a tevê pública), no dia 9.

Apesar disso, mesmo sem a participação deles, Frontline apontou Ahmad Chalabi (integrante do Conselho de Governo iraquiano) como a fonte da desinformação do governo americano nos dados fornecidos antes da guerra a respeito das armas de destruição em massa e da suposta ligação entre a Al-Qaeda e Saddam. O documentário salientou também que o governo havia ignorado em grande parte o previdente projeto Futuro do Iraque preparado pelo Departamento de Estado – uma decisão que contribuiu para a nossa catastrófica falta de preparo para enfrentar o caos no Iraque pós-Saddam.

Frontline também não precisou recorrer a vazamentos para fazer estas revelações: suas fontes foram entrevistas dadas perante pelo general Jay Garner, nosso primeiro líder interino no Iraque, e pelo próprio Chalabi.

Os funcionários do governo que se recusaram a falar para o programa Frontline habitualmente fazem o mesmo em relação ao Nightline da ABC. Ted Koppel explica o porquê disso em uma discussão de mesa-redonda, publicada em um novo livro cujo título é The Media and the War on Terrorism (A Mídia e a Guerra contra o Terrorismo): ?Eles prefeririam aparecer em um programa no qual provavelmente não vão ser submetidos a um rigoroso exame, a uma espécie de fogo cruzado.?

No dia 15, uma semana depois da apresentação de Frontline, a Casa Branca prontificou-se a fornecer um ?convidado? para um programa do Nightline, que pretendia analisar a nova campanha ?antimídia? do presidente . Mas, um pouco mais tarde, no mesmo dia, o governo decidiu enviar um nome que não tem a marca da administração, Dan Bartlett, seu diretor de comunicações.

Koppel, praticando a arte cada vez mais perdida do interrogatório implacável, deixou seu convidado quase gaguejando ao interpelá-lo insistentemente sobre incessantes meias-verdades da atual administração.

Bartlett se esforçou, mas logo fracassou em sua tentativa de defender uma ladainha de afirmações e insinuações do governo antes da guerra, de que a contribuição americana total para a reconstrução do Iraque seria de apenas US$ 1,7 bilhão; de que a renda do petróleo iraquiano pagaria a maior parte da reconstrução; e de que a guerra seria uma tarefa fácil, quase um passeio, que acabaria muito depressa.

É em tempos como este que nós devemos ser gratos porque a Disney não conseguiu acabar com o programa Nightline, trocando-o pelo de David Letterman. (O governo se sente simplesmente feliz em enviar seus mais bravos representantes a Letterman, quando não os envia ao programa da Oprah, como aconteceu, mais recentemente, com Colin Powell).

Se o Nightline do dia 15 não foi um ponto de virada de Edward R. Murrow na cobertura da guerra contra o terrorismo, é o que nós vimos de mais parecido com este ponto decisivo desde o 11 de setembro. Haverá outros porque este governo não entende que a tentativa de controlar a informação é sempre uma empresa perdida.

A maior parte da imprensa demorou em desafiar Joe McCarthy, o Pentágono de Robert McNamara e o governo de Nixon, como foi lenta em desafiar a Casa Branca de Bush no tempo da guerra. Mas, pelo menos nos EUA, a história sempre acerta o passo e desmascara os que tentam falsificá-la. Esta é a lição que Lyndon B. Johnson e Nixon aprenderam da maneira mais dura.

No momento em que o presidente Bush estava usando um âncora regional para ?dizer diretamente às pessoas? que algumas delegações do Congresso estavam visitando o Iraque e logo voltariam trazendo notícias felizes a respeito do progresso, a Fox News e a Newsweek estavam nos dizendo que essas delegações estavam passando suas noites na tranqüila segurança do Kuwait e não no Iraque.

No mesmo instante em que certas cartas otimistas de soldados americanos apareciam misteriosamente nos jornais em todo o país, o Star and Stripes, jornal do Pentágono, financiado pelas Forças Armadas, informava que 50% dos soldados entrevistados estavam com o moral baixo. Alguns chegaram até a dizer que receberam ordens para não conversar com os vips, com os congressistas, porque os líderes ?tinham receio do que eles poderiam dizer?, observou Jon Anderson, do Star and Stripes, numa entrevista ao estilo Koppel com o comandante, o general Ricardo Sanchez.

Na semana passada, Milbank do Post, informou que o governo está impedindo a divulgação de imagens de soldados americanos mortos e colocando em vigor uma proibição de ?cobertura noticiosa e fotográfica? de seus caixões cobertos com a bandeira ao voltarem para as bases militares americanas.

Repórteres vendidos já são notícia velha. É apenas uma questão de tempo até que as tropas descontentes falem com um repórter com uma câmera – e no noticiário televisivo o tempo é mais rápido agora, com os telefones via satélite, do que quando era necessário esperar pelo processamento do filme e envio da fita. Na jovem idade de seis meses, a guerra no Iraque ainda está longe de ser um Vietnã. Mas pelo jeito com que a administração tenta controlar as notícias, indo contra os fatos – até na realidade irrevogável dos caixões cobertos por bandeiras – você pode apenas se perguntar se conseguirá convencer os telespectadores de que não estamos atolados em outra Guerra no Vietnã.”

 

ECOS DA GUERRA

“Povo americano cuidadosamente desinformado”, copyright Resistir (http://resistir.info), 27/10/03

“Estava eu no norte da Itália, na Academia da Paz em Rovereto, quando o jornal da noite na rádio nacional relatou a principal notícia do dia:

?Sede da CIA em Bagdad atacada por dois bombistas suicidas?.

Quando voltei ao hotel liguei imediatamente na CNN. Não havia nem uma palavra acerca do facto de ser ?a sede da CIA?.

Um carro de bombistas suicidas, mirando um hotel em Bagdad que se acredita abrigar responsáveis americanos, matou seis iraquianos. Um responsável militar americano disse que dois carros estavam a correr em direcção ao hotel quando os guardas abriram fogo. Ambos os carros explodiram próximo ao edifício numa avenida comercial. Jane Arraf da CNN agora ligou-se connosco a partir da capital iraquiana com mais pormenores – Jane.

JANE ARRAF, CORRESPONDENTE CNN: Renay, como nos contou um responsável americano, entre aqueles seis iraquianos mortos estavam dois dos guardas de segurança iraquianos que dispararam sobre um dos carros bombistas, essencialmente travando-o antes que pudesse atingir o Hotel Bagdad. (Domingo 16:00)

Um relato subsequente da ABC News omitiu a presença do Conselho Governante Iraquiano, embora reconhecendo também a presença de responsáveis americanos.

Este é o sétimo carro bombista em Bagdad desde o princípio de Agosto. Vários membros do Conselho Governante Iraquiano, apoiado pelos americanos, estão hospedados no Hotel Bagdad, bem como responsáveis do Departamento de Estado. Paul Bremer, o administrador americano do Iraque, declarou: ?Trabalharemos com a polícia iraquiana a fim de encontrar os responsáveis e trazê-los perante a justiça?. Americanos bem informados contaram-nos que haviam sido informados de um possível ataque de carro bomba há dois dias. Eles planeavam fortificar o muro de segurança externo, mas não tiveram tempo de acabá-lo. Neal Karlinsky, ABC New, Bagdad

Quanto os jornais americanos chegaram às bancas na manhã de segunda-feira, a estória já havia mudado. As referências à presença de responsáveis americanos haviam sido abafadas ou removidas.

A estória oficial era que o hotel estava a ser usado pelo Conselho Governante Iraquiano. Alex Berenson, escrevendo no NYT, descreve o ataque como mais ataque suicida déjà vu:

?Carro bomba atacou domingo um hotel usado por membros do Conselho Iraquiano. ?

Um título quase idêntico foi adoptado pelo Washington Post num artigo publicado também na manhã de segunda-feira, 12 de Outubro:

?Bombista suicida mata 7 em Bagdad; Explosão foi próxima ao hotel que alojava responsáveis iraquianos?.

Um bombista suicida detonou no domingo explosivos armazenados num carro fora de um hotel de Bagdad que alojava responsáveis do governo iraquiano e empreiteiros americanos, lançando uma onda de destroços que se espalhou no caminho congestionado do hotel e numa ocupada rua comercial.

Pelo menos sete pessoas e o bombista foram mortos, e mais de 40 outras foram feridas na explosão ao meio dia no Hotel Bagdad, incluindo um membro do Conselho Governante Iraquiano e três americanos, segundo responsáveis militares americanos e hospitais que trataram os feridos. Seis dos mortos eram guardas iraquianos de segurança, disse um responsável militar.

Numa peça de desinformação cuidadosamente fraseada, o artigo de The Washington Post (12/Out) faz analogias entre o bombardeamento do hotel em Bagdad e o bombardeamento de Bali, na Indonésia, sugerindo o envolvimento de bin Laden:

Embora responsáveis americanos não tenham identificado um grupo responsável pelos bombardeamentos, as suspeitas recaem sobre lealistas a Hussein e extremistas muçulmanos que inundaram o Iraque durante o verão. O ataque de segunda-feira ocorreu no primeiro aniversário das explosões no nightclub em Bali e no terceiro aniversário do bombardeamento do USS Cole na costa yemenita – ambos atribuídos à organização terrorista al Qaeda.

OS MEDIA NÃO-AMERICANOS RECONHECEM QUE O HOTEL ERA SEDE DA CIA

Enquanto os media dos EUA foram instruídos no sentido de não mencionar a expressão ?Sede da CIA?, o ataque à CIA fazia a primeira página de notícias na maior parte dos media europeus.

A principal notícia no Independent de Londres foi:

Resistência iraquiana aponta para a CIA, matando seis em bomba suicida

Uma fase mortal na guerra de resistência à ocupação americana do Iraque começou ontem quando um par de carros bombistas suicidas apontou o hotel central de Bagdad onde se considera que altos responsáveis americanos e agentes da CIA estejam alojados. Pelo menos seis pessoas foram mortas e 32 feridas.

Todos os mortos e a maior dos feridos eram iraquianos. Mas a audaciosa explosão destinada a um hotel cheio de responsáveis americanos mostrou a efectividade da resistência na sua campanha cada vez mais bem organizada para desestabilizar a presença americana.

O hotel fortemente guardado de Bagdad era utilizado por responsáveis americanos, agentes de segurança, membros do Conselho Governante Iraquiano e empreiteiros americanos de construção civil. Acredita-se também que abrigasse operacionais da CIA e é amplamente comentado em Bagdad ser o alojamento de membros da Mossad, o serviço de inteligência israelense.

O relato da Agence France Presse (AFP) diz o que se segue:

Acredita-se que o Hotel Bagdad sirva como sede para a US Central Intelligence Agency em Bagdad.

Um responsável americano no local confirmou que pessoal de segurança americano e empreiteiros vivem no edifício, bem como membros do conselho apoiado pelos EUA.

O Irish Times (Segunda-feira, 12) relatou que

Comentava-se amplamente que o Hotel Bagdad, onde seis iraquianos morreram num duplo bombardeamento suicida no domingo, era a sede da CIA, da Mossad e dos seus ajudantes que falam árabe da antiga milícia Exército Libanês do Sul. Estava fortemente barricado e poucos tinham o crachá especial de passagem exigido para a entrada. Posteriormente ao bombardeamento, a Coalition Provisional Authority (CPA) negou relatos da presença da CIA, dizendo que o Hotel Bagdad abrigava membros do Conselho Governante e empreiteiros americanos.

DESINFORMAÇÃO

A opinião pública americana foi deliberadamente e conscientemente enganada. A cobertura americana da notícia levanta não só a questão da desinformação e do encobrimento, ela também indica a evidente incompetência da CIA (com os seus mais 30 mil milhões de dólares de orçamento anual) cujas instalações fortemente guardadas em Bagdad foram atacadas numa tranquila tarde de domingo em plena luz do dia.

O hotel estava fortemente barricados com segurança apertada. Guardas de segurança de uma companhia mercenária privada, a Dyncorp contratada pelo Pentágono, estavam nos telhados próximos ao hotel. (Liberation, Paris, 13 Outubro). Como foi amplamente confirmado pelo relatos da imprensa europeia, ?o objectivo real era a CIA. (la vraie cible n?etait rien moins que la CIA?).

O ataque revela a fraqueza da Coligação e da CIA. Ele indica uma resistência armada crescente e dirigida à estrutura de comando da CPA.”

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