Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > VEJA vs. ISTOÉ

Frederico Vasconcelos

24/08/2004 na edição 291

‘A cassação do deputado Ibsen Pinheiro, em 1994, não foi provocada por distorções em informações publicadas pela imprensa. Quem admite isso é o próprio parlamentar cassado e o relator da CPI do Orçamento, Roberto Magalhães (PTB-PE).

Ibsen Pinheiro foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal. As informações divulgadas de que o parlamentar movimentara recursos superiores a US$ 1,1 milhão, entre 1989 e 1993, antecipavam dados do relatório final da CPI.

‘Não acho que possa ser atribuído a nenhum fato isolado a cassação do meu mandato. A nenhuma revista, a nenhum jornal. Quem cassou o mandato foi a Câmara dos Deputados. E nem na Câmara dos Deputados eu jogo a culpa, porque, num clima como aquele, a Câmara também foi soterrada por uma avalanche. Acho que ela foi tão vítima como eu’, afirmou Ibsen Pinheiro à Folha.

Na edição de 13 de novembro de 1993, a Folha publicou que a CPI do Orçamento havia identificado depósitos em contas de Ibsen Pinheiro que superavam US$ 1 milhão. Essa informação é confirmada no relatório final da CPI. A ‘Veja’ que circulou naquele final de semana também publicou que a CPI descobrira que o parlamentar havia movimentado US$ 1 milhão no mesmo período.

Segundo o relatório final da CPI, haviam sido movimentados recursos de US$ 1,1 milhão nas contas correntes de Ibsen, entre 1989 e 1993. Esse valor já incluía correção de equívoco apontado anteriormente pela Subcomissão de Bancos, que havia identificado, numa primeira análise, movimentação de US$ 2,4 milhões. Com o expurgo de US$ 1,3 milhão, referente a transferências entre agências, somadas ao valor de fazenda vendida pelo então parlamentar, chegou-se à cifra de US$ 1,1 milhão publicada.

Dados contestados

Essa constatação esvazia a versão -levantada pela revista ‘IstoÉ’, da semana passada- de que o afastamento de Ibsen Pinheiro foi precipitado por um erro admitido, 11 anos depois, pelo jornalista Luís Costa Pinto, que trabalhava na ‘Veja’ em 1993: ‘Como o mau jornalismo transformou US$ 1.000 em US$ 1 milhão e levou à cassação de um forte candidato a presidente do Brasil’, afirmou a ‘IstoÉ’, na capa.

A reportagem da Folha teve acesso, naquela ocasião, aos mesmos documentos fornecidos à ‘Veja’ por Waldomiro Diniz, então assessor da CPI do Orçamento. O jornal submeteu os papéis a Ibsen Pinheiro, que contestou os valores convertidos, e não foram publicadas as informações. Consultado na sexta-feira, Ibsen disse que, 11 anos depois, não tem condições de se lembrar desse fato.

‘Posso dizer que a imprensa não influiu para a cassação de ninguém’, disse à Folha o relator Roberto Magalhães.

‘Nenhum parecer se fez a partir de noticiário de jornal. Os pareceres foram baseados em números oficiais, revisados por procuradores, por auditores do Tribunal de Contas. Não deve haver revistas apensadas nas provas. O que a imprensa fez foi a cobertura ampla’, disse Magalhães.

Segundo o relatório final, não ficou demonstrado que Ibsen Pinheiro tivesse vinculação com fraudes do Orçamento da União. Mas a comissão decidiu recomendar à Mesa da Câmara dos Deputados a instauração de processo de perda de mandato, alegando que ‘comprovou-se a prática de atos possíveis de caracterizar incompatibilidade com o decoro parlamentar, notadamente o enriquecimento sem causa e a prática de infração fiscal’.

Ibsen Pinheiro conseguiu derrubar essas acusações na Justiça. Em dezembro de 1999, o STF, por unanimidade, trancou ação penal contra o ex-parlamentar, declarando ‘extinção da pretensão punitiva’, pois Ibsen havia feito o pagamento de débito fiscal.’

***

‘Ibsen diz não querer rediscutir o caso’, copyright Folha de S. Paulo, 22/08/08

‘O ex-deputado Ibsen Pinheiro, ex-presidente da Câmara Federal, diz que não tem interesse em rediscutir os motivos de sua cassação em 1994. ‘Eu não me interesso na discussão dessa matéria, uma vez que já houve deliberação do Ministério Público, da Receita Federal e do STF (Supremo Tribunal Federal). Não há nenhuma imputação [responsabilização]’, afirmou sexta-feira à noite, por telefone, em meio a campanha eleitoral. Ele é candidato a vereador em Porto Alegre.

Ibsen se recusou a comentar a polêmica criada com a reportagem da revista ‘IstoÉ’: ‘Para mim, isso não tem importância.’

‘A investigação parlamentar se encerrou. Quem quiser achar que a causa da cassação foi A, B ou C fique à vontade. Nessa matéria, o único tribunal é o da opinião pública’, afirmou.

‘A natureza do processo político não permite muito espaço para verificação. É da natureza desse processo que não haja muito tempo para prudência. As distorções, os esquecimentos e até os erros de boa-fé acabam sendo da natureza desse processo’, disse Ibsen.

‘Depois que a imagem da vítima está comprometida, até mesmo a imputação de fatos verdadeiros e normais tem efeito negativo’, diz Ibsen. O ex-deputado diz que demorou para entender informação divulgada sobre ‘depósitos periódicos’ em sua conta corrente. ‘Levei tempo para atinar que aqueles depósitos eram o desbloqueio da poupança confiscada no governo Collor’, disse.

‘Os processos são feitos pelas melhores razões de interesse público, da moralidade pública. Mas as pessoas, os agentes desses processos, se consideram missionários. E os missionários às vezes acham que é uma questão secundária a auto-estima de uma pessoa, ou até sua honra’, disse.

Relatório da CPI

‘O que está escrito em meu parecer está fundamentado em números e não foram tirados de nenhuma revista. Eu nunca me baseei em notícia de imprensa’, diz o deputado federal Roberto Magalhães (PTB-PE). Ele falou à Folha sexta-feira à noite, por telefone. ‘Fui um relator discreto. Ninguém conhecia o parecer’, disse.

‘Meu parecer está todo fundamentado na Subcomissão de Bancos, que estimou em mais de US$ 2,4 milhões os ganhos do deputado, porque levou em consideração transferências de um banco para outro e a venda de um terreno. Por isso, a subcomissão expurgou US$ 1,3 milhão’.

‘Como só participei da CPI, não participei do julgamento. Eu não posso falar nada sobre o processo todo. Eu era da Comissão de Justiça e me afastei. Tendo sido relator da CPI, achei que não devia julgar’, disse Magalhães.

‘Meu parecer revela os pontos da Subcomissão de Bancos que levaram o relator à idéia de que havia uma suposta irregularidade. A CPI não julga. A CPI investiga’, disse.’



Rubens Valente

‘Assessor da Câmara atua para empresa’, copyright Folha de S. Paulo, 18/08/08

‘O jornalista Luis Costa Pinto, que exerce desde o início de 2003 a função de consultor do presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT), foi contratado pela Coca-Coca no final do ano passado para atuar em defesa da empresa no Congresso.

Entre outras tarefas, Costa Pinto propõe, segundo documento obtido pela Folha, que sua empresa de consultoria, a Idéias, Fatos e Texto, converse com parlamentares para defender a Coca Cola de ‘falsas denúncias’ de que estaria sendo alvo no Congresso e, além disso, monitore os trabalhos da Comissão Permanente de Defesa dos Direitos do Consumidor para atender as demandas da empresa.

Costa Pinto recebeu da Recofarma, nome jurídico da Coca-Coca no Brasil, R$ 60 mil nos meses de novembro e dezembro de 2003, segundo ele próprio afirmou em entrevista à Folha, ontem.

Embora não seja funcionário contratado da Câmara e receba por uma microempresa, Costa Pinto é o principal assessor de imprensa de João Paulo. Mantém contatos diários com colunistas, diretores das sucursais de jornais e revistas e repórteres que atuam no Congresso.

‘Acompanhamento do caso junto aos repórteres que cobrem a rotina da Secretaria de Direito Econômico. Panorama da circulação das falsas denúncias no Congresso’, diz o texto que traz assinatura atribuída a Costa Pinto e enviado a Jack Corrêa, funcionário da Coca-Cola. O jornalista colocou ontem em dúvida a totalidade do documento em que discute a sua contratação.

Costa Pinto disse que trocou mensagens com Corrêa. Primeiro afirmou que ‘não reconhecia’ trechos do documento lido ontem pela Folha. Depois, que não se lembrava de todo o conteúdo.

Pinto aceitou como ‘correto’ o seguinte trecho: ‘O objetivo [da contratação] é manter uma fina sintonia com os formadores de opinião da mídia sobre as falsas denúncias que estão a chegar nas redações de São Paulo e Rio de Janeiro e que envolvem o nome da Coca-Cola e de empresas a ela ligadas. Além disso, estreitar o relacionamento desses formadores de opinião da mídia com a direção da empresa’.

O documento obtido pela Folha é o mesmo que foi entregue pela Dolly Refrigerantes ao Ministério Público do Distrito federal, que o anexou ao procedimento administrativo que apura suposta concorrência desleal da Coca-Cola. As duas empresas travam uma acirrada disputa comercial.

Na época da contratação do jornalista pela Coca-Cola, a Câmara discutia um convite ao presidente da empresa no Brasil, Brian Smith, para depoimento na Comissão Permanente de Defesa do Consumidor. O executivo participou de audiência pública na Câmara em junho último.’

***

‘Jornalista diz não reconhecer um ‘conflito ético’’, copyright Folha de S. Paulo, 18/08/08

‘O jornalista Luís Costa Pinto afirmou ontem que não vê incompatibilidade entre seu trabalho para a Coca-Cola e sua atuação como consultor do presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP).

‘Não vejo nenhum conflito ético. Meu trabalho é extremamente técnico, [versa] sobre o que deve ser dito, como deve ser a postura’, disse Pinto.

O jornalista negou ter procurado parlamentares para falar a respeito da Coca-Cola. ‘Nunca procurei, nunca falei, e fiz um trabalho restrito à imagem e à mídia [da empresa]’, disse Pinto, acrescentando conhecer Jack Corrêa, executivo da Coca-Cola, ‘há quase 20 anos’.

‘Se eu estivesse fazendo reportagem sobre isso, eu também falaria do como e do porquê documentos de uma empresa, em concorrência com outra, vazam’, disse Pinto.

Ele não é ‘servidor’ da Câmara dos Deputados, para a qual presta serviços por meio da empresa IFT (Idéias, Fatos e Texto).

A Coca-Cola foi procurada no final da tarde de ontem. A assessoria informou que havia problemas de localização de pessoas aptas a falar sobre o assunto.’



Guilherme Fiuza

‘Uma babá para a opinião pública’, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 18/08/08

‘O Brasil está escandalizado com a barbaridade cometida contra o deputado Ibsen Pinheiro. Por causa de um erro grosseiro da imprensa, pouco mais de dez anos atrás, ele foi cassado e sua reputação foi por água abaixo. Fica, no entanto, a pergunta: a revista ‘Veja’ confunde mil dólares com um milhão de dólares e um eminente parlamentar da República é sumariamente enxotado da vida pública? Há algo estranho aí.

Em primeiro lugar, se um erro primário desses – que, segundo as testemunhas da época, foi decisivo para a cassação do deputado – demora dez anos para ser revisto, o pecado da imprensa é uma gota no oceano da perdição. Nesse caso, o país inteiro, com o Congresso, o Judiciário e a opinião pública abraçados, devem se jogar juntos num divã e admitir: está tudo errado, apaga, vamos começar de novo.

Um erro grosseiro da ‘Veja’ poderia liquidar sumariamente um figurão da República se a revista fosse o ‘Pravda’, e tivesse por trás de si o tacão do Kremlin e o exército stalinista armado até os dentes. Numa suposta democracia, com todas as liberdades em plena vigência, isto é piada de mau gosto. Num ambiente de instituições minimamente operantes, o erro viria à tona e a revista cairia no ridículo. Além das punições judiciais, sofreria a punição da credibilidade – o maior capital de qualquer veículo de comunicação.

Jornais, revistas e emissoras de TV erram, e vão errar sempre. Quem erra muito, ou gravemente, paga de imediato o alto preço do descrédito. Todos assistiram ao tombo dos índices de audiência de Gugu Liberato depois que seu programa forjou uma entrevista com falsos membros de uma facção criminosa. E há os exemplos mais corriqueiros: qualquer atendente de telemarketing pode testemunhar que quando um veículo mergulha numa linha ‘chapa branca’ ou claramente favorável a determinado grupo político, o movimento é percebido e geralmente resulta em fuga de assinantes.

Ninguém agüenta mais ouvir o bordão de que o Brasil precisa é de educação. Mas na hora de se discutir as falhas institucionais, ninguém tem paciência para o tal caminho da educação. Se uma instituição não funciona direito, aparece logo a idéia de se criar outra instituição para fazê-la funcionar. Como se mais burocracia fosse antídoto para ineficiência. Enquanto discute se deve ou não deve criar conselhos superiores e mordaças, o país foge à responsabilidade de se aprimorar como sociedade.

As CPIs, o Ministério Público e a imprensa cansaram de fazer triangulações levianas. Um procurador de vinte e poucos anos põe a mão no extrato bancário de um funcionário público que já falou por telefone com o juiz Nicolau. Ele acha que a movimentação da conta é alta e pede o indiciamento do sujeito. Ato contínuo, avisa a um deputado da CPI do Judiciário que fulaninho ‘vai ser investigado’. O deputado, que está com um repórter faminto na outra linha, já passa a notícia adiante. No dia seguinte, o nome do fulano já está impresso no jornal no hall dos suspeitos, ‘segundo a CPI’.

Esse tipo de irresponsabilidade não aconteceu poucas vezes nos últimos anos, para desespero dos departamentos jurídicos dos órgãos de imprensa – que, ao contrário do que se diz, andaram trabalhando muito, nem sempre com sucesso.

O problema é que as CPIs, o Ministério Público e a imprensa também escreveram juntos algumas das páginas mais importantes da história brasileira recente. O mesmo repórter Luís Costa Pinto, que errou feio com Ibsen, fez a reportagem decisiva para o impeachment de Collor (as bombásticas denúncias de seu irmão Pedro). Ou seja: em cada caso desses de abuso, um instante de atenção e responsabilidade do Congresso, da Justiça, das Procuradorias, da imprensa, da própria opinião pública – ou de pelo menos uma destas instituições – é o suficiente para cortar o mal pela raiz.

Se deputados usam CPIs para extorquir empresários, onde está o Ministério Público que não faz uma denúncia competente desta prática? Se o Ministério Público joga nomes levianamente no ventilador e pede prisões precipitadas, onde está o Judiciário para impedir os excessos e enquadrar esses procuradores? Se a imprensa publica denúncias mal fundamentadas, onde está (entre outros poderes) a opinião pública para desconfiar dela?

O caso dos fiscais do propinoduto é emblemático: havia 30 milhões de dólares na Suíça e forte presunção de culpa, mas o caminho do dinheiro até lá jamais foi devidamente provado. Mesmo assim, o juiz condenou sumariamente os 22 réus. Serão todos eles realmente corruptos? Não se sabe, mas a imprensa não questionou, e a opinião pública também não quis saber, como ficou claro na euforia geral e incondicional que se viu em torno do histriônico magistrado Lafredo Lisboa. Se houver algum Ibsen Pinheiro nesse meio, talvez saibamos no futuro, mergulhados em remorso. Por enquanto, porém, não foi feita nem a justiça, nem a injustiça: conforme alertado aqui neste mesmo espaço, por falta de provas suficientes, os condenados – inclusive Silveirinha – estão todos soltos.

Será muito mais difícil ocorrerem novos casos Ibsen Pinheiro (ele mesmo contrário à criação do tal Conselho Federal de Jornalismo) quando o Brasil descobrir que precisa de instituições fortes, e não de conselhos, mordaças e babás para tomar conta de instituições frágeis.’

Todos os comentários

PRIMEIRAS EDIçõES > TV CULTURA EM CRISE?

Frederico Vasconcelos

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

QUALIDADE NA TV

TV CULTURA EM CRISE?

"TV Cultura tem superávit, mas patrimônio é negativo", copyright Folha de S. Paulo, 31/01/01

"A Fundação Padre Anchieta chegou ao final de 2000 com superávit de R$ 12,8 milhões, ou seja, com saldo positivo entre receitas e despesas. Está comemorando o primeiro ano com as finanças no azul, depois de vários períodos em que operou no vermelho.

Apesar desses resultados operacionais positivos, a fundação tem usado artifícios contábeis que ajudam a melhorar os seus balanços, evitando tornar público que está com patrimônio líquido negativo (ou seja, deve mais do que tem).

Esse recurso foi identificado pelo professor Ariovaldo dos Santos, pesquisador da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras), da USP. Seu diagnóstico é endossado por outro especialista em auditoria contábil.

Responsável técnico da revista ‘Melhores e Maiores’, que publica o ‘ranking’ anual dos balanços das empresas brasileiras, Santos examinou, a pedido da Folha, as demonstrações contábeis e os balancetes de 1998, 1999 e 2000 da Fundação Padre Anchieta.

‘Do ponto de vista operacional, houve realmente grande melhoria: uma recuperação dos resultados, crescimento respeitável das receitas próprias e das subvenções do Estado’, diz ele.

‘Mas o balanço foi ‘melhorado’, está com a ‘cara mais bonita’, graças a um artifício contábil. Em dificuldades financeiras, certamente eles estão’, diz o professor.

Segundo Santos, a fundação ‘não seguiu as normas contábeis geralmente aceitas’, ao escriturar, de forma inadequada, R$ 29 milhões de eventuais perdas com processos trabalhistas.

Com isso, a fundação deixou de reconhecer que está com passivo a descoberto (R$ 6,4 milhões, em 2000). Os seus ativos são insuficientes para cobrir o passivo.

Traduzindo a linguagem contábil: a dívida da Fundação Padre Anchieta, hoje, é maior do que a capacidade da instituição para liquidá-la com a totalidade de seus bens (recursos em bancos, créditos, imóveis, equipamentos etc.).

Isso não significa que a fundação quebrou ou que tenha sido decretada a sua falência. Ao contrário: as dotações do Estado pularam de R$ 57,1 milhões, em 1998, para R$ 71,7 milhões, no ano passado. No período, as receitas próprias cresceram de R$ 13,4 milhões para R$ 28 milhões.

‘A fundação está mostrando que tem caminhos de recuperação e que, no passado, se viu apertada, tendo criado um mecanismo para se livrar disso no balanço’, entende o professor da USP.

‘A TV Cultura saneou suas contas a ponto de poder ampliar a sua programação. E, mais importante, sem sacrificar a qualidade’, afirmou o presidente da fundação, Jorge Cunha Lima, em artigo na Folha.

No período analisado por Santos, as contas da fundação foram julgadas regulares pelo Tribunal de Contas do Estado.

No jargão técnico, ocorreu o seguinte: a fundação classificou como ‘reserva de contingência’ o que deveria ser uma ‘provisão’. Jogou R$ 29 milhões, como ‘reserva’, no ‘patrimônio líquido’, quando deveria ter feito uma ‘provisão’ no ‘passivo circulante’ (obrigações a serem pagas no exercício seguinte) ou no ‘exigível a longo prazo’ (dívidas que vencem em prazo maior).

Essas contingências correspondem a dívidas incertas que deverão ser honradas ao longo do tempo ou poderão ser derrubadas por recursos judiciais. A fundação optou por reconhecer as despesas somente na ocasião do desembolso.

Essa alternativa teve a concordância indireta dos auditores independentes da fundação (Arthur Andersen), por meio de outro artifício contábil percebido pelo ‘expert’ da Fipecafi.

Quando os balanços têm distorções, ou as empresas atravessam situação difícil, os auditores fazem ressalvas, espécie de alertas, em seu parecer. Quando não há ressalvas, a praxe é atestar que as demonstrações contábeis estão ‘de acordo com os princípios fundamentais da contabilidade’.

No balanço da fundação, o auditor substituiu esse bordão, afirmando que as demonstrações estão ‘de acordo com as práticas contábeis descritas na Nota 2’ (nota explicativa do balanço, redigida pela fundação).

Ou seja, a declaração do auditor significa apenas que as contas estão de acordo com os critérios que o seu cliente preferiu adotar."

"TV seguiu orientação de auditor", copyright Folha de S. Paulo, 31/01/01

"O diretor superintendente da Fundação Padre Anchieta, Manoel Luiz Luciano Vieira, nega que tenha havido artifício contábil para melhorar o balanço da TV Cultura.

‘A finalidade não foi essa’, diz. ‘Fizemos a reserva para atender a orientação do auditor. Foi a própria Arthur Andersen quem sugeriu que o registro contábil dessa provisão fosse feito contra o patrimônio líquido. A Arthur Andersen é uma empresa acima de qualquer suspeita e jamais daria essa orientação para uma empresa privada.’ Ele diz que a recomendação foi feita por ocasião da troca de empresas de auditoria (até 97, a fundação era auditada pela Price).

Vieira é bacharel em ciências contábeis, com especialização em contabilidade, auditoria e perícia. É sócio-diretor da Contadata Ltda., empresa de consultoria e assessoria de contabilidade fundada em 1985.

‘Esse passivo trabalhista, além de ainda estar em julgamento, não tem data para desembolso’, diz Vieira. Segundo ele, em 1997 foi firmado um acordo com o governo estadual prevendo que, na ocasião de cada desembolso, os recursos seriam assegurados com verba da Secretaria da Fazenda. Dos R$ 71,7 milhões das subvenções do Estado em 2000, R$ 12 milhões foram destinados a processos trabalhistas.

O diretor diz que a atual administração herdou um passivo muito grande. ‘Em 1995, o Jorge (Cunha Lima) pediu que a provisão contemplasse todos os contingenciamentos (incertezas).’

Por meio de negociações, a fundação eliminou as contingências previdenciárias, cíveis e fiscais. ‘No ano passado, obtivemos sucesso em 50% das nossas defesas nas ações trabalhistas’, diz. A maioria das reclamações, segundo Vieira, refere-se a diferenças de valores por mudanças nos planos econômicos.

‘Estamos fechando 2000 com superávit global, pela primeira vez. Estamos felicíssimos, porque houve uma resposta do mercado’, afirma Vieira.

Procurada pela Folha, a Arthur Andersen não se manifestou."

"Cultura perde audiência entre 95 e 2000", copyright Folha de S. Paulo, 30/01/01

"A Folha obteve acesso a relatórios mensais do Ibope na Grande São Paulo, de 1995 a 2000, que mostram que a audiência da TV Cultura apresentou queda.

A medição é dividida em três períodos: matutino (das 7h às 11h59), vespertino (das 12h às 17h59) e noturno (das 18h às 23h59). Para cada período, o Ibope mede o Índice de Audiência e o Share de Audiência (veja quadro ao lado).

Índice de Audiência é o percentual de domicílios sintonizados no canal, no universo de residências pesquisadas.

Share é o percentual de domicílios sintonizados no canal, no universo de residências com televisores ligados.

Em novembro de 95 (de 6 de novembro a 3 de dezembro), a Cultura teve 1 ponto de Índice de Audiência no período matutino, 2 no vespertino e 3 no noturno. Em novembro de 2000, os três períodos apresentaram 1 ponto de Índice de Audiência.

Em novembro de 95, a emissora teve 5 de Share no período matutino, 4 no vespertino e 5 no noturno. Em novembro de 2000, o Share foi de 3 no período matutino e de 1 no vespertino e no noturno.

Outro lado

A Cultura atribui a queda de audiência dos últimos cinco anos ao esgotamento do ‘ciclo virtuoso de ‘Castelo Rá-Tim-Bum’‘, à crise financeira que afetou a emissora até meados de 2000 e à concorrência de outros canais e meios, como TV paga e Internet.

A emissora diz que, entre 95 e 98, teve sucesso de audiência com a programação infantil, ancorada pela série ‘Castelo Rá-Tim-Bum’, e que isso gerou uma ‘enganosa média de audiência’ no horário noturno.

Em relatório enviado à Folha, Carlos Alberto Marques Novaes, coordenador da área de pesquisas da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da Cultura, dá um exemplo: em 4 de agosto de 1995, ‘Castelo Rá-Tim-Bum’ entrou no ar às 19h e oscilou de 9 a 11 pontos de Índice de Audiência. Em seguida, vieram os infantis ‘O Mundo de Beakman’ (de 10 a 8) e ‘Doug’ (de 8 a 9).

Na sequência, naquele mesmo dia, a Cultura colocou no ar o bloco ‘adulto’. O primeiro programa do bloco, ‘Opinião Nacional’, começou com 2 pontos e logo caiu para 1, o que se manteve até o final da faixa adulta.

A audiência média do período noturno variava de 3 a 5 pontos por causa da programação infantil. Por isso, é considerada pela emissora ‘enganosa’ ou ‘desbalanceada’, pois não refletia o conjunto dos programas.

Novaes afirma que esses números não eram sustentáveis, porque a Cultura não sobreviveria escorada em sua programação voltada ao público infantil.

Sem recursos para investir em produtos como ‘Castelo Rá-Tim-Bum’, reprisado a partir de 94, logo o ciclo da série se esgotaria, com audiências cada vez menores.

Por outro lado, diz Novaes, o sucesso da programação infantil da Cultura despertou o interesse das emissoras comerciais, que passaram a investir no segmento.

O SBT, por exemplo, criou em 97, no horário noturno, o ‘Disney Club’, com profissionais revelados pela Cultura, como o diretor Cao Hamburger, criador do programa ‘Castelo Rá-Tim-Bum’."

Volta ao índice

Qualidade na TV – próximo texto

Qualidade na TV – texto anterior

Mande-nos seu comentário

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem