Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ENTRE ASPAS > 30 ANOS SEM HERZOG

Frei Betto

27/10/2005 na edição 352

‘São 30 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog pela ditadura militar. A foto é nítida em minha memória: a cabeça pendente, o pescoço asfixiado, o corpo derramado rente à parede. E eles supunham que tinham todo o poder. Poder sobre a vida dele e sobre a nossa memória, essa obcecada ilusão que produz no poder uma cegueira onipotente, tão bem descrita por Primo Levi.


Herzog, convocado a prestar declarações em outubro de 1975 numa dependência militar de São Paulo qualificada por seus algozes de ‘sucursal do inferno’ (o mesmo centro de tortura no qual frei Tito de Alencar Lima entrou lúcido, em 1970, e saiu tomado pela loucura que o levou à morte quatro anos depois), não tinha as respostas que eles queriam.


Eis o que mais irrita o torturador, induzindo sua mente mórbida a produzir a adrenalina da crueldade: o interrogado não ter as respostas que ele espera escutar. Então a sevícia produz a dor, e a dor, a ruptura que torna o corpo inimigo do espírito. O réu é convocado a testemunhar o próprio opróbrio, o que Tomás de Aquino considera maior crime que o homicídio.


Herzog seria mais uma entre tantas vítimas suicidadas no calabouço da ditadura. Prova disso é que sua morte não inibiu os assassinos. Pouco depois, no mesmo centro de tortura da rua Tutóia, morreria Manoel Fiel Filho.


Todo poder detém o monopólio da violência. Mas, quando não há nenhum outro poder que lhe imponha limites, como ocorre nas ditaduras, a violência extravasa do corpo da lei para o capricho necrófilo do algoz. As regras do direito são subvertidas pela impunidade que protege a ação direta de quem age em nome do Estado.


Frente ao torturador, o silêncio da vítima é suprema provocação. A desinformação, menosprezo à sua suposta inteligência. Fera indomável, necessita de carne viva para saciar-lhe o apetite insano. Quer nomes, endereços, denúncias. Sua auto-estima se alimenta da degradação do preso. Sua vida se afirma na morte alheia. O silêncio definitivo. Depois, um pretexto (suicidou-se…), um atestado de óbito, um enterro discreto. Ou clandestino, como de tantos cujas famílias aguardam, ainda hoje, o paradeiro de seus entes queridos.


Pensavam que, com o tempo, tudo cairia no olvido. Com a anistia, o passado não retornaria como os fantasmas de Shakespeare. Ora, sentimentos não têm cronologia. Pergunte-se à mãe que perdeu o filho há 20 ou 30 anos. O que se ama eterniza-se.


O caso Herzog tornou-se emblemático, símbolo da luta contra o arbítrio e a injustiça. Morto, ele incomoda os vivos. Porque a nação ainda não acertou contas com esse passado recente, cujos protagonistas ocupam, ainda hoje, lugar de destaque na política nacional e posam de paladinos da democracia, tantos anos depois de terem decidido mandar às favas os escrúpulos.


Os crimes praticados pela ditadura militar são indenizados. Nunca apurados. Furaram os olhos da Justiça, mas não lhe ensurdeceram nem lhe apagaram a memória. 30 anos depois, Vladimir Herzog é um cadáver insepulto, subversivo, paradigmático. Tratado como verme numa dependência policial-militar, figura para sempre na galeria dos heróis e mártires brasileiros.


Recordar não é vingar. Rogo a Deus que jamais me permita fazer ou mesmo acontecer a meus torturadores o que fizeram a mim. Não há nisso nenhuma virtude. Apenas o cuidado de preservar minha humanidade. Por isso jamais entrei no Ministério da Justiça com pedido de indenização. Respeito os que o fizeram, mas me recuso a admitir que uma questão moral tenha tabela de preço.


Após quatro anos de cárcere, ainda hoje ouço a pergunta quanto aos meus sentimentos. Respondo ter aprendido a não odiar os meus algozes. Não por mérito, mas por descobrir, ali dentro, que o ódio destrói primeiro quem odeia, e não quem é odiado. Pelo lado paterno, tenho vários militares no álbum familiar. Meu pai, filho de militar, tinha um irmão general e também um primo.


Como descreve Érico Veríssimo em ‘Solo de Clarineta’, enquanto nossos mortos não merecerem um enterro digno, continuarão vivos em nossa indignação. Então é preciso que se saiba por que, como, onde e quando foram assassinados. Abra o governo os arquivos da ditadura. Quem teme a história cobre-se de vergonha. Aprenda a lição das vítimas do nazismo: 60 anos depois, o holocausto é ontem.


Em um mundo que gasta, por ano, cerca de US$ 1 trilhão em produtos bélicos e menos de 10% disso em cooperação internacional, Herzog interpela os nossos valores. Por que o cuidado da vida, dom maior de Deus, não supera o investimento na morte? Por que Bush, que preside o planeta, acredita que a paz será fruto da imposição das armas? Não teria Isaías maior razão ao afirmar, há 2.800 anos, que só haverá paz como fruto da justiça (32, 17)?


Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, escritor e assessor de movimentos sociais, é autor de ‘Típicos Tipos’ (A Girafa), prêmio Jabuti 2005, entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).’



Zuenir Ventura


‘De Vlado e de Tim’, copyright O Globo, 26/10/05


‘Ontem fez 30 anos de um dia tristemente histórico para o jornalismo e para o país. Naquele sábado de outubro de 1975, em pleno governo Geisel, que prometera distensão lenta, gradual e segura, o jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, era torturado e assassinado no Doi-Codi, uma dependência do II Exército em São Paulo. O crime foi anunciado como suicídio por meio de uma farsa segundo a qual o jornalista teria se enforcado com o cinto do macacão que vestia, que não tinha cinto.


Três anos depois, a Justiça rejeitava a versão oficial e condenava a União pela prisão, tortura e morte de Herzog. Para se ter idéia do clima de terror da época, o autor da corajosa sentença, o juiz Márcio José de Moraes, na época com 32 anos, revelou agora ao repórter Frederico Vasconcelos que temeu ser seqüestrado e torturado pelo mesmo esquema que assassinara o jornalista. Aquele era o 38 ‘suicídio’ ocorrido durante a ditadura militar e o 18 por enforcamento. Cerca de dois meses depois, o operário Manuel Fiel Filho tinha o mesmo fim no mesmo local.


Várias homenagens estão sendo realizadas em memória de Vlado. Muito justas. Pela reação que provocou, o Caso Herzog significou um marco na luta contra o arbítrio. Amordaçada, sem poder denunciar a farsa , tendo que aceitar como verdadeiro um laudo médico forjado para atestar o ‘suicídio’, a imprensa vivia em estado de medo e impotência. O culto ecumênico de silencioso protesto, organizado então pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, constituiu a primeira manifestação da classe contra o regime militar depois do AI-5, o ato institucional que em 1968 cancelou todas as liberdades constitucionais.


Nem a ‘Operação Gutemberg’ montada pela Secretaria de Segurança com 500 policiais e 385 barreiras, provocando um gigantesco engarrafamento, conseguiu impedir que milhares de pessoas (os cálculos variam entre três mil e oito mil) comparecessem ao culto oficiado pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns, por D. Helder Câmara, pelo rabino Henry Sobel e pelo reverendo James Wright. Apesar das ameaças do regime, do silêncio imposto, foi a partir daí que a imprensa começou a avançar até o horizonte do possível.


Não se pode falar de Vlado sem lembrar Tim Lopes. Tenho o triste orgulho de ter trabalhado com esses dois mártires da profissão: um em época de censura e outro em tempos de abertura. O primeiro, executado pela ditadura militar; o segundo, pela ditadura do tráfico.’



REFERENDO NA MÍDIA


Luís Nassif


‘Democracia direta e referendo ‘, copyright Folha de S. Paulo, 25/10/05


‘O referendo do desarmamento, se não desfaz, reduz as expectativas (pelo menos as minhas) em relação à chamada democracia direta. Nela, a população é chamada a votar sobre determinados temas, sem mediação dos partidos. No caso do referendo do armamento, o único componente partidário foi um sentimento anti-Lula difuso, em uma correlação irracional, já que o ‘sim’, assim como o ‘não’, era defendido por políticos de todos os partidos.


Sem a mediação dos partidos, a discussão foi um samba do crioulo doido. Como definiu bem Jânio de Freitas, ontem, o único vencedor do referendo foi o ‘grande medo’. Votou-se ‘sim’ em nome da insegurança; votou-se ‘não’ em nome da insegurança.


O tema era complexo, o referendo foi inoportuno, a questão, mal formulada. Mas a barafunda da discussão deixou clara a enorme dificuldade de nós, da mídia, e da opinião pública média em tratar temas complexos sem mediação -ainda que falha, interessada, distorcida, como é a dos partidos políticos.


De um lado, viam-se defensores do ‘não’, da direita à ultra-esquerda do PSTU, no mesmo camburão, invocando Gramsci para afirmar que a intenção do governo seria desarmar a população para implantar uma ditadura.


Invocaram a questão dos direitos individuais e da legítima defesa de forma distorcida -apesar dos artigos esclarecedores de Marcelo Coelho e Eliana Cardoso. Um explicou didaticamente que legítima defesa é um preceito inerente a situações objetivas de risco real de vida. Se me armo sem esse risco, não há legítima defesa. Se uso a arma para resolver um problema com o vizinho ou um uma briga de trânsito, na verdade a arma se constitui em ameaça ao vizinho, não um direito de defesa meu. Eliana mostrou, em seu artigo no ‘Valor’, que nos EUA a jurisprudência é que as armas se constituem em direito coletivo, não em direito individual.


De pouco valeram estudos e estatísticas sobre as mortes por acidente com arma. Nem mesmo a morte entre torcidas organizadas, as notícias sobre o novo fenômeno das gangues juvenis de classe média. Na democracia direta, vale a mensagem mais simples. ‘O governo quer tirar meu direito de me defender’ virou um clichê com mais força do que qualquer estudo técnico mais aprofundado.


Custo e benefício


Do advogado Roberto Militão:


1) Segundo o Ministério da Justiça, em 2004, foram vendidas apenas 1.229 armas legais no comercio regular. Se cada arma legal custa R$ 1.000, o total do interesse da ‘indústria da arma’ é de apenas R$ 1,229 milhão.


2) Se considerado que, das 1.229, um bom percentual seja de pessoas autorizadas, que as comprariam de qualquer jeito, conforme o Estatuto, o número é ainda menor, digamos uns 30% do total.


3) Se o custo do referendo foi R$ 540 milhões, seria certo dividi-lo por mil armas, o que significa um custo de R$ 540 mil por arma legal vendida e, ainda que divididos por dez anos, R$ 54 mil por ano de ‘proibição’.


A sociedade não teria muito maior benefício se esse dinheiro fosse utilizado diretamente em segurança pública?’



CASO AZEREDO


Folha de S. Paulo


‘O Caso Azeredo’, copyright Folha de S. Paulo, 26/10/05


‘As movimentações para orquestrar a saída do senador Eduardo Azeredo (MG) da presidência do PSDB vieram com clamoroso atraso. O nome do ex-governador de Minas freqüenta as listas de suspeitos de terem se beneficiado de ‘empréstimos’ de Marcos Valério pelo menos desde julho. Mas, sabe-se lá por obra de quais acordos, ele vinha sendo poupado de investigações mais minuciosas. Pior, havia logrado escapar das listas de parlamentares cassáveis por quebra de decoro.


A situação agravou-se com o depoimento à CPI dos Correios de Cláudio Mourão, tesoureiro de sua campanha à reeleição para o governo de Minas Gerais, em 1998, e com a publicação, por uma revista semanal, de reportagem que mostra a existência de um cheque de R$ 700 mil, datado de 18 de setembro de 2002, de Marcos Valério para Azeredo. As novas revelações tornaram muito mais difícil para o senador continuar sustentando que ignorava o uso de dinheiro de caixa dois em sua campanha.


É preciso que as investigações se aprofundem e que Azeredo seja julgado como os demais parlamentares que se beneficiaram de verbas do chamado ‘valerioduto’.


A argumentação de que o senador não pode ser punido por fatos anteriores a seu mandato não encontra respaldo na jurisprudência da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, cujo parecer número 89, de 1995, reza: ‘atos e fatos passados, sobretudo se recentes, a depender de sua natureza e circunstâncias, podem projetar-se no tempo e alcançar e perturbar o procedimento do parlamentar e atingir a instituição’.


No presente momento, não existe nada mais prejudicial para as instituições do país do que acordos, tácitos ou explícitos, que visem a bloquear o curso ou limitar o escopo das apurações. O PT, é claro, se encontra no centro da crise, mas isso não é razão para que não se investiguem todos os crimes que ainda não tenham prescrito, pouco importando a qual partido pertençam os envolvidos.’



TODA MÍDIA


Nelson de Sá


‘Gentilmente’, copyright Folha de S. Paulo, 26/10/05


‘Na manchete da Folha Online, à tarde, ‘Azeredo vai anunciar saída da presidência do PSDB’.


Na manchete do Globo Online, ‘Azeredo deixará a presidência do PSDB’.


Na Jovem Pan e CBN, a mesma coisa. Também nos canais de notícias. Até Fátima Bernardes, na Globo:


– Eduardo Azeredo deve renunciar ainda hoje ao cargo de presidente do PSDB.


E nada.


O Senado discutia então, ao vivo em seu canal, se o também senador João Capiberibe teria direito de defesa -e nada do discurso tucano.


Começaram os telejornais e nada. Na escalada do ‘SBT Brasil’, ‘Denúncia de caixa 2 deixa Azeredo insustentável’. Na do ‘Jornal Nacional’, ‘Azeredo diz que vai renunciar à presidência do PSDB’.


Ele só foi discursar e renunciar de fato quando o ‘JN’ já estava terminando.


Na Globo News, Cristiana Lôbo dizia que Azeredo havia decidido sair por conta própria, ‘para se defender’.


Já no blog de Josias de Souza, desde o início da tarde, sob o título ‘PSDB encosta Azeredo contra a parede’:


– Em encontro com a cúpula do tucanato, Azeredo foi gentilmente informado de que terá de desocupar a cadeira de presidente nacional do PSDB. Os interlocutores ficaram com a impressão de que ele entendeu. Esperam que exiba alguma rapidez de raciocínio.


E nada, até o fim do ‘JN’.


Tucanos e petistas, ontem no ‘JN’, encenaram ameaças de rompimento. Para registro, no Globo Online:


– Governo e oposição evitaram confronto na CPI dos Correios. Embora Azeredo vá anunciar seu afastamento, nenhum petista tocou no assunto ou defendeu sua convocação. Em contrapartida, a oposição também não brigou pela quebra dos sigilos de Adhemar Palocci, irmão do ministro.


MAGISTRADO


Rocha Mattos, Efraim Morais e Garibaldi Alves, ontem


Da Globo:


– A CPI dos Bingos vai pedir à Justiça cópias das escutas telefônicas sobre a morte de Celso Daniel. Em depoimento, o juiz João Carlos da Rocha Mattos, preso por venda de sentenças, disse que nas gravações o atual assessor do presidente, Gilberto Carvalho, orientou a viúva a demonstrar sofrimento em entrevistas.


Nas palavras de Mattos, segundo a Folha Online, era para ela se ‘comportar como uma viuvinha sofrida’ no programa de Hebe Camargo.


No caso sem fim, que já produziu insinuações sobre a lisura e até a sexualidade do ex-prefeito, Daniel era tratado ontem como ‘um morto muito pouco querido’, na ‘ironia’ de Mattos, na Jovem Pan.


Para a Folha Online, trata-se de ‘juiz afastado’ e ‘preso desde 2003’. Para o Globo Online, na home page, nem juiz, só ‘acusado de corrupção’. Já para o site do PSDB, na home, ‘Juiz confirma envolvimento de Carvalho no caso Daniel’. E no texto tucano:


– O magistrado confirmou participação de Carvalho nos acontecimentos que sucederam o assassinato.


Bateu no vice


A controvérsia com a jornalista Judith Miller não acabou, pelo contrário, mas o ‘New York Times’ se recupera e parte para o ataque, no caso que vem consumindo os EUA. Na manchete de ontem, no jornal e no site, ‘Cheney contou a assessor sobre funcionária da CIA’.


O vazamento do nome de agente secreto pode ser considerado crime no país. Ainda que venha do todo-poderoso vice Dick Cheney.


Outro lado


Quanto à jornalista, atacada no próprio ‘NYT’, ela passou a ser defendida, agora, por jornais alinhados ao governo George W. Bush.


Entre outros, deram editoriais em favor dela o ‘Washington Post’, ‘New York Sun’ e ‘New York Post’. O blogueiro de mídia Jim Romenesko fez até uma ‘sugestão para Judy: envie seu currículo para o ‘Post’’.


Versão ocidental


Bush deu entrevista ontem ao Al Arabiya, canal moderado criado para concorrer com a Al Jazira. Mas o Ocidente quer mais, pelo jeito.


Segundo o blog de Sérgio Dávila, a BBC -de onde saiu quase toda a equipe da Al Jazira- anunciou que vai lançar canal em língua árabe:


– A idéia é dar a ‘versão ocidental’ ao espectador de canais como Al Jazira.


Mais um


No Brasil, até a blogosfera é singular. Ricardo Noblat nunca mais foi o mesmo depois que o blog deixou de ser independente e fechou com o iG, então com Daniel Dantas.


Agora é Tiago Dória, um dos melhores blogueiros de mídia entre os independentes, que anuncia o convite para o mesmo portal. Começa hoje.’



***


‘Soltaram o monstro’, copyright Folha de S. Paulo, 25/10/05


‘Do ex-governador Luiz Fleury, o homem dos 111 do Carandiru, um dos líderes do ‘não’ ao lado de Jair Bolsonaro e do coronel Ubiratan, também dos 111, na Globo:


– O ‘não’ foi uma declaração de que o brasileiro não está satisfeito com a segurança pública que o Estado lhe oferece.


Foi a avaliação dele e de muitos mais, de Alexandre Garcia na Globo a Carlos Nascimento na Band e Fernando Abrucio na Jovem Pan.


O ‘não’ foi descrito como ‘uma declaração’ do eleitor, ‘um recado’, até ‘um urro de 60 milhões de bocas’.


Embora o governador Geraldo Alckmin surgisse para apontar o dedo contra Lula e embora o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, surgisse para fazer o mesmo com os governadores, aos poucos se estabeleceu que o alvo eram todos eles. Do blog de Fernando Rodrigues:


– Foi uma derrota para todos os presidenciáveis.


De um dos blogueiros do site tucano E-Agora:


– O resultado acachapante envia um sinal de alerta. É bom entendê-lo.


De um comentário no mesmo E-Agora, postado por um autodenominado ‘Right’:


– Lula, Serra, Alckmin, Garotinho. Congressistas e políticos que encamparam o ‘sim’. Vamos bater na mesma tecla ‘não’ para todos!


Da comentarista Lucia Hippolito, na CBN e no UOL:


– Foi um recado para o Estado, não este ou aquele governo, mas o poder público.


Por fim, de Marcos Sá Corrêa, no site Nomínimo:


– Como diria Juscelino Kubitschek, ‘soltaram o monstro’. O monstro era o eleitorado. Ele está solto e não voltará à jaula antes de ir às urnas daqui a um ano, quando estarão em jogo a Presidência da República, os governos dos Estados e o Congresso. Daqui para a frente, os políticos que se cuidem.


Do blog de Claudio Weber Abramo, chamando a democracia direta de ‘bobagem’:


– Baseia-se num contra-senso, o de que seria possível empreenderem-se debates na sociedade sem que partidários se organizassem em grupos e sem que os argumentos de tais grupos fossem formulados no âmbito de estruturas montadas para defender interesses.


Ou seja:


– A expressão popular é a expressão de grupos organizados ou não é expressão.


É, disseram outros, ‘urro’.


Para além das avaliações do ‘recado’ e das discussões sobre a ‘democracia direta’, uma possível e mais concreta vítima do referendo preocupa, da Globo ao site Carta Maior.


Para o segundo, ‘cresce a pressão para flexibilizar o Estatudo do Desarmamento’.


DOIS TUCANOS


As novas edições das duas revistas de negócios


No enunciado da revista ‘Exame’, sobre uma foto do governador e presidenciável tucano Geraldo Alckmin, em maiúsculas, ‘O candidato dos empresários’. Entre os textos também destacados na capa, ‘Alckmin revela: Estou pronto para ser presidente’. Internamente, mais 11 páginas, inclusive editorial, sobre Alckmin. Ao longo das páginas, uma restrição, na legenda de uma pequena foto, ‘rebelião na Febem: retrato das falhas do governo na política de segurança pública’.


Por outro lado, no enunciado da revista ‘IstoÉ Dinheiro’, sobre uma foto do prefeito e presidenciável tucano José Serra, em maiúsculas, a palavra ‘Serra!’. Entre os textos também destacados na capa, ‘o desempenho como administrador’ e ‘o esboço do plano econômico’. Internamente, mais quatro páginas. Ao longo delas, uma restrição, na legenda de uma foto, ‘no estilo centralizador, ele pode cair na tentação de virar o próprio ministro da Fazenda, um erro’.


Falta um ano para a eleição.


Em negociação 1


No blog de Jorge Moreno, que foi manchete do Globo Online, ‘Lula diz que Jorge Bornhausen comanda ataques a sua família’. Na descrição da conversa, ele até ‘enxuga os olhos’ ao lembrar do filho ‘arrastado na imprensa na base das insinuações’. O pefelista respondeu, ‘nunca fiz política atacando família de adversário’ -e mais não disse.


Em negociação 2


No blog de Josias de Souza, na Folha Online, ‘na guerra contra a CPI dos Bingos, o governo encontrou munição contra o senador Efraim Morais’. Em 2002, então vice da Câmara, o pefelista anulou a convocação de Ricardo Sérgio, do Banco do Brasil, pela CPI do Banespa.’



FSP CONTESTADA


Painel do Leitor, FSP


‘TV ‘, copyright Folha de S. Paulo, 26/10/05


‘‘É necessário corrigir duas informações da reportagem ‘Censura’ chega à TV paga e aperta TV aberta’ (Ilustrada, 23/10). Embora o texto contenha informações relevantes para a compreensão da classificação indicativa como um legítimo processo democrático, o colunista se equivoca gravemente ao confundir classificação com censura e ao afirmar que o tratamento dispensado aos programas jornalísticos ‘não vai mudar’. Tanto a Constituição Federal veda qualquer forma de censura como todo trabalho realizado pela Secretaria Nacional desde 2003 aprofunda o abismo que separa a atividade deste departamento das arbitrariedades da Censura Federal. Tanto é verdade que o texto não colheu um único depoimento, uma única menção que pudesse reforçar o equívoco perpetrado pelo jornalista. No que diz respeito aos programas jornalísticos, convém esclarecer que, por força da portaria 796/2000, qualquer programa ao vivo está sujeito à classificação posterior depois de verificada a existência de inadequações reiteradas. Essa portaria não distingue os telejornais ou programas jornalísticos. Por isso a nova regulamentação afastará a possibilidade de classificação dos jornalísticos, acolhendo, assim, a distinção que a própria Constituição estabelece -o que muda definitivamente o tratamento dessa reportagem. Mas isso não significa que ‘esses programas [jornalísticos] continuarão autorizados a ir ao ar em horário livre’, até porque o Ministério da Justiça não pode autorizar nem desautorizar a veiculação de programa nenhum (já que não se trata de censura). Diferentemente da atuação cidadã que caracteriza a história dessa Folha, as informações incorretas veiculadas por Daniel Castro não apenas desconsideram o trabalho realizado pelo departamento na reformulação da ‘classificação indicativa’ como prejudicam o esforço que inúmeras instituições estatais, emissoras públicas e privadas e entidades não-governamentais de defesa dos direitos humanos vêm realizando para promover democraticamente uma programação de TV adequada a crianças e a adolescentes.’ José Eduardo Elias Romão, diretor do Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação do Ministério da Justiça (Brasília, DF)


Resposta do jornalista Daniel Castro – A classificação indicativa também é conhecida por censura. Nas bilheterias, um filme impróprio para menores de 14 anos, por exemplo, é anunciado como ‘Censura: 14 anos’. Uma das definições de censura no ‘Aurélio’ é ‘exame crítico de obras literárias ou artísticas’ -justamente o que fazem os classificadores do Ministério da Justiça.


São Paulo


‘O texto sobre a decisão da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de pagar passagens solicitadas por famílias desalojadas de prédios invadidos para voltarem às suas cidades de origem (‘Serra pagará volta de sem-teto à cidade natal’, Cotidiano, 22/10) comete quatro omissões. Primeiro, não menciona que tais famílias foram retiradas pela PM, por força de decisão judicial, de prédios privados invadidos. Segundo, não registra que a prefeitura ofereceu a essas famílias uma bolsa-aluguel de R$ 300 por mês, além de pôr à disposição delas um alojamento provisório até que encontrem moradias para alugar. Terceiro, omite a filiação partidária da arquiteta Maria Lucia Refinetti, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, que, apresentada pela reportagem como sendo especialista em habitação, critica a decisão da prefeitura de pagar as passagens pedidas. Como é público, a referida arquiteta é militante do PT. Quarto, omite as preferências político-partidárias do dirigente da União Nacional por Moradia Popular, Benedito Barbosa, que declarou que seu movimento ‘não vai aceitar como política habitacional o retorno para a terra de origem’ apesar de não se tratar de iniciativa da prefeitura, mas, sim, desejo de algumas famílias.’ Floriano Pesaro, secretário de Assistência e Desenvolvimento Social (São Paulo, SP)


Resposta da jornalista Luísa Brito – O secretário não rebate os argumentos contrários à medida, apenas tenta deslegitimar a professora de urbanismo, indicada pela USP para o próprio conselho municipal de habitação. A reportagem também publicou opinião favorável à medida.’


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ENTRE ASPAS > 30 ANOS SEM HERZOG

Frei Betto

27/10/2005 na edição 352

‘São 30 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog pela ditadura militar. A foto é nítida em minha memória: a cabeça pendente, o pescoço asfixiado, o corpo derramado rente à parede. E eles supunham que tinham todo o poder. Poder sobre a vida dele e sobre a nossa memória, essa obcecada ilusão que produz no poder uma cegueira onipotente, tão bem descrita por Primo Levi.


Herzog, convocado a prestar declarações em outubro de 1975 numa dependência militar de São Paulo qualificada por seus algozes de ‘sucursal do inferno’ (o mesmo centro de tortura no qual frei Tito de Alencar Lima entrou lúcido, em 1970, e saiu tomado pela loucura que o levou à morte quatro anos depois), não tinha as respostas que eles queriam.


Eis o que mais irrita o torturador, induzindo sua mente mórbida a produzir a adrenalina da crueldade: o interrogado não ter as respostas que ele espera escutar. Então a sevícia produz a dor, e a dor, a ruptura que torna o corpo inimigo do espírito. O réu é convocado a testemunhar o próprio opróbrio, o que Tomás de Aquino considera maior crime que o homicídio.


Herzog seria mais uma entre tantas vítimas suicidadas no calabouço da ditadura. Prova disso é que sua morte não inibiu os assassinos. Pouco depois, no mesmo centro de tortura da rua Tutóia, morreria Manoel Fiel Filho.


Todo poder detém o monopólio da violência. Mas, quando não há nenhum outro poder que lhe imponha limites, como ocorre nas ditaduras, a violência extravasa do corpo da lei para o capricho necrófilo do algoz. As regras do direito são subvertidas pela impunidade que protege a ação direta de quem age em nome do Estado.


Frente ao torturador, o silêncio da vítima é suprema provocação. A desinformação, menosprezo à sua suposta inteligência. Fera indomável, necessita de carne viva para saciar-lhe o apetite insano. Quer nomes, endereços, denúncias. Sua auto-estima se alimenta da degradação do preso. Sua vida se afirma na morte alheia. O silêncio definitivo. Depois, um pretexto (suicidou-se…), um atestado de óbito, um enterro discreto. Ou clandestino, como de tantos cujas famílias aguardam, ainda hoje, o paradeiro de seus entes queridos.


Pensavam que, com o tempo, tudo cairia no olvido. Com a anistia, o passado não retornaria como os fantasmas de Shakespeare. Ora, sentimentos não têm cronologia. Pergunte-se à mãe que perdeu o filho há 20 ou 30 anos. O que se ama eterniza-se.


O caso Herzog tornou-se emblemático, símbolo da luta contra o arbítrio e a injustiça. Morto, ele incomoda os vivos. Porque a nação ainda não acertou contas com esse passado recente, cujos protagonistas ocupam, ainda hoje, lugar de destaque na política nacional e posam de paladinos da democracia, tantos anos depois de terem decidido mandar às favas os escrúpulos.


Os crimes praticados pela ditadura militar são indenizados. Nunca apurados. Furaram os olhos da Justiça, mas não lhe ensurdeceram nem lhe apagaram a memória. 30 anos depois, Vladimir Herzog é um cadáver insepulto, subversivo, paradigmático. Tratado como verme numa dependência policial-militar, figura para sempre na galeria dos heróis e mártires brasileiros.


Recordar não é vingar. Rogo a Deus que jamais me permita fazer ou mesmo acontecer a meus torturadores o que fizeram a mim. Não há nisso nenhuma virtude. Apenas o cuidado de preservar minha humanidade. Por isso jamais entrei no Ministério da Justiça com pedido de indenização. Respeito os que o fizeram, mas me recuso a admitir que uma questão moral tenha tabela de preço.


Após quatro anos de cárcere, ainda hoje ouço a pergunta quanto aos meus sentimentos. Respondo ter aprendido a não odiar os meus algozes. Não por mérito, mas por descobrir, ali dentro, que o ódio destrói primeiro quem odeia, e não quem é odiado. Pelo lado paterno, tenho vários militares no álbum familiar. Meu pai, filho de militar, tinha um irmão general e também um primo.


Como descreve Érico Veríssimo em ‘Solo de Clarineta’, enquanto nossos mortos não merecerem um enterro digno, continuarão vivos em nossa indignação. Então é preciso que se saiba por que, como, onde e quando foram assassinados. Abra o governo os arquivos da ditadura. Quem teme a história cobre-se de vergonha. Aprenda a lição das vítimas do nazismo: 60 anos depois, o holocausto é ontem.


Em um mundo que gasta, por ano, cerca de US$ 1 trilhão em produtos bélicos e menos de 10% disso em cooperação internacional, Herzog interpela os nossos valores. Por que o cuidado da vida, dom maior de Deus, não supera o investimento na morte? Por que Bush, que preside o planeta, acredita que a paz será fruto da imposição das armas? Não teria Isaías maior razão ao afirmar, há 2.800 anos, que só haverá paz como fruto da justiça (32, 17)?


Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, escritor e assessor de movimentos sociais, é autor de ‘Típicos Tipos’ (A Girafa), prêmio Jabuti 2005, entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).’



Zuenir Ventura


‘De Vlado e de Tim’, copyright O Globo, 26/10/05


‘Ontem fez 30 anos de um dia tristemente histórico para o jornalismo e para o país. Naquele sábado de outubro de 1975, em pleno governo Geisel, que prometera distensão lenta, gradual e segura, o jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, era torturado e assassinado no Doi-Codi, uma dependência do II Exército em São Paulo. O crime foi anunciado como suicídio por meio de uma farsa segundo a qual o jornalista teria se enforcado com o cinto do macacão que vestia, que não tinha cinto.


Três anos depois, a Justiça rejeitava a versão oficial e condenava a União pela prisão, tortura e morte de Herzog. Para se ter idéia do clima de terror da época, o autor da corajosa sentença, o juiz Márcio José de Moraes, na época com 32 anos, revelou agora ao repórter Frederico Vasconcelos que temeu ser seqüestrado e torturado pelo mesmo esquema que assassinara o jornalista. Aquele era o 38 ‘suicídio’ ocorrido durante a ditadura militar e o 18 por enforcamento. Cerca de dois meses depois, o operário Manuel Fiel Filho tinha o mesmo fim no mesmo local.


Várias homenagens estão sendo realizadas em memória de Vlado. Muito justas. Pela reação que provocou, o Caso Herzog significou um marco na luta contra o arbítrio. Amordaçada, sem poder denunciar a farsa , tendo que aceitar como verdadeiro um laudo médico forjado para atestar o ‘suicídio’, a imprensa vivia em estado de medo e impotência. O culto ecumênico de silencioso protesto, organizado então pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, constituiu a primeira manifestação da classe contra o regime militar depois do AI-5, o ato institucional que em 1968 cancelou todas as liberdades constitucionais.


Nem a ‘Operação Gutemberg’ montada pela Secretaria de Segurança com 500 policiais e 385 barreiras, provocando um gigantesco engarrafamento, conseguiu impedir que milhares de pessoas (os cálculos variam entre três mil e oito mil) comparecessem ao culto oficiado pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns, por D. Helder Câmara, pelo rabino Henry Sobel e pelo reverendo James Wright. Apesar das ameaças do regime, do silêncio imposto, foi a partir daí que a imprensa começou a avançar até o horizonte do possível.


Não se pode falar de Vlado sem lembrar Tim Lopes. Tenho o triste orgulho de ter trabalhado com esses dois mártires da profissão: um em época de censura e outro em tempos de abertura. O primeiro, executado pela ditadura militar; o segundo, pela ditadura do tráfico.’



REFERENDO NA MÍDIA


Luís Nassif


‘Democracia direta e referendo ‘, copyright Folha de S. Paulo, 25/10/05


‘O referendo do desarmamento, se não desfaz, reduz as expectativas (pelo menos as minhas) em relação à chamada democracia direta. Nela, a população é chamada a votar sobre determinados temas, sem mediação dos partidos. No caso do referendo do armamento, o único componente partidário foi um sentimento anti-Lula difuso, em uma correlação irracional, já que o ‘sim’, assim como o ‘não’, era defendido por políticos de todos os partidos.


Sem a mediação dos partidos, a discussão foi um samba do crioulo doido. Como definiu bem Jânio de Freitas, ontem, o único vencedor do referendo foi o ‘grande medo’. Votou-se ‘sim’ em nome da insegurança; votou-se ‘não’ em nome da insegurança.


O tema era complexo, o referendo foi inoportuno, a questão, mal formulada. Mas a barafunda da discussão deixou clara a enorme dificuldade de nós, da mídia, e da opinião pública média em tratar temas complexos sem mediação -ainda que falha, interessada, distorcida, como é a dos partidos políticos.


De um lado, viam-se defensores do ‘não’, da direita à ultra-esquerda do PSTU, no mesmo camburão, invocando Gramsci para afirmar que a intenção do governo seria desarmar a população para implantar uma ditadura.


Invocaram a questão dos direitos individuais e da legítima defesa de forma distorcida -apesar dos artigos esclarecedores de Marcelo Coelho e Eliana Cardoso. Um explicou didaticamente que legítima defesa é um preceito inerente a situações objetivas de risco real de vida. Se me armo sem esse risco, não há legítima defesa. Se uso a arma para resolver um problema com o vizinho ou um uma briga de trânsito, na verdade a arma se constitui em ameaça ao vizinho, não um direito de defesa meu. Eliana mostrou, em seu artigo no ‘Valor’, que nos EUA a jurisprudência é que as armas se constituem em direito coletivo, não em direito individual.


De pouco valeram estudos e estatísticas sobre as mortes por acidente com arma. Nem mesmo a morte entre torcidas organizadas, as notícias sobre o novo fenômeno das gangues juvenis de classe média. Na democracia direta, vale a mensagem mais simples. ‘O governo quer tirar meu direito de me defender’ virou um clichê com mais força do que qualquer estudo técnico mais aprofundado.


Custo e benefício


Do advogado Roberto Militão:


1) Segundo o Ministério da Justiça, em 2004, foram vendidas apenas 1.229 armas legais no comercio regular. Se cada arma legal custa R$ 1.000, o total do interesse da ‘indústria da arma’ é de apenas R$ 1,229 milhão.


2) Se considerado que, das 1.229, um bom percentual seja de pessoas autorizadas, que as comprariam de qualquer jeito, conforme o Estatuto, o número é ainda menor, digamos uns 30% do total.


3) Se o custo do referendo foi R$ 540 milhões, seria certo dividi-lo por mil armas, o que significa um custo de R$ 540 mil por arma legal vendida e, ainda que divididos por dez anos, R$ 54 mil por ano de ‘proibição’.


A sociedade não teria muito maior benefício se esse dinheiro fosse utilizado diretamente em segurança pública?’



CASO AZEREDO


Folha de S. Paulo


‘O Caso Azeredo’, copyright Folha de S. Paulo, 26/10/05


‘As movimentações para orquestrar a saída do senador Eduardo Azeredo (MG) da presidência do PSDB vieram com clamoroso atraso. O nome do ex-governador de Minas freqüenta as listas de suspeitos de terem se beneficiado de ‘empréstimos’ de Marcos Valério pelo menos desde julho. Mas, sabe-se lá por obra de quais acordos, ele vinha sendo poupado de investigações mais minuciosas. Pior, havia logrado escapar das listas de parlamentares cassáveis por quebra de decoro.


A situação agravou-se com o depoimento à CPI dos Correios de Cláudio Mourão, tesoureiro de sua campanha à reeleição para o governo de Minas Gerais, em 1998, e com a publicação, por uma revista semanal, de reportagem que mostra a existência de um cheque de R$ 700 mil, datado de 18 de setembro de 2002, de Marcos Valério para Azeredo. As novas revelações tornaram muito mais difícil para o senador continuar sustentando que ignorava o uso de dinheiro de caixa dois em sua campanha.


É preciso que as investigações se aprofundem e que Azeredo seja julgado como os demais parlamentares que se beneficiaram de verbas do chamado ‘valerioduto’.


A argumentação de que o senador não pode ser punido por fatos anteriores a seu mandato não encontra respaldo na jurisprudência da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, cujo parecer número 89, de 1995, reza: ‘atos e fatos passados, sobretudo se recentes, a depender de sua natureza e circunstâncias, podem projetar-se no tempo e alcançar e perturbar o procedimento do parlamentar e atingir a instituição’.


No presente momento, não existe nada mais prejudicial para as instituições do país do que acordos, tácitos ou explícitos, que visem a bloquear o curso ou limitar o escopo das apurações. O PT, é claro, se encontra no centro da crise, mas isso não é razão para que não se investiguem todos os crimes que ainda não tenham prescrito, pouco importando a qual partido pertençam os envolvidos.’



TODA MÍDIA


Nelson de Sá


‘Gentilmente’, copyright Folha de S. Paulo, 26/10/05


‘Na manchete da Folha Online, à tarde, ‘Azeredo vai anunciar saída da presidência do PSDB’.


Na manchete do Globo Online, ‘Azeredo deixará a presidência do PSDB’.


Na Jovem Pan e CBN, a mesma coisa. Também nos canais de notícias. Até Fátima Bernardes, na Globo:


– Eduardo Azeredo deve renunciar ainda hoje ao cargo de presidente do PSDB.


E nada.


O Senado discutia então, ao vivo em seu canal, se o também senador João Capiberibe teria direito de defesa -e nada do discurso tucano.


Começaram os telejornais e nada. Na escalada do ‘SBT Brasil’, ‘Denúncia de caixa 2 deixa Azeredo insustentável’. Na do ‘Jornal Nacional’, ‘Azeredo diz que vai renunciar à presidência do PSDB’.


Ele só foi discursar e renunciar de fato quando o ‘JN’ já estava terminando.


Na Globo News, Cristiana Lôbo dizia que Azeredo havia decidido sair por conta própria, ‘para se defender’.


Já no blog de Josias de Souza, desde o início da tarde, sob o título ‘PSDB encosta Azeredo contra a parede’:


– Em encontro com a cúpula do tucanato, Azeredo foi gentilmente informado de que terá de desocupar a cadeira de presidente nacional do PSDB. Os interlocutores ficaram com a impressão de que ele entendeu. Esperam que exiba alguma rapidez de raciocínio.


E nada, até o fim do ‘JN’.


Tucanos e petistas, ontem no ‘JN’, encenaram ameaças de rompimento. Para registro, no Globo Online:


– Governo e oposição evitaram confronto na CPI dos Correios. Embora Azeredo vá anunciar seu afastamento, nenhum petista tocou no assunto ou defendeu sua convocação. Em contrapartida, a oposição também não brigou pela quebra dos sigilos de Adhemar Palocci, irmão do ministro.


MAGISTRADO


Rocha Mattos, Efraim Morais e Garibaldi Alves, ontem


Da Globo:


– A CPI dos Bingos vai pedir à Justiça cópias das escutas telefônicas sobre a morte de Celso Daniel. Em depoimento, o juiz João Carlos da Rocha Mattos, preso por venda de sentenças, disse que nas gravações o atual assessor do presidente, Gilberto Carvalho, orientou a viúva a demonstrar sofrimento em entrevistas.


Nas palavras de Mattos, segundo a Folha Online, era para ela se ‘comportar como uma viuvinha sofrida’ no programa de Hebe Camargo.


No caso sem fim, que já produziu insinuações sobre a lisura e até a sexualidade do ex-prefeito, Daniel era tratado ontem como ‘um morto muito pouco querido’, na ‘ironia’ de Mattos, na Jovem Pan.


Para a Folha Online, trata-se de ‘juiz afastado’ e ‘preso desde 2003’. Para o Globo Online, na home page, nem juiz, só ‘acusado de corrupção’. Já para o site do PSDB, na home, ‘Juiz confirma envolvimento de Carvalho no caso Daniel’. E no texto tucano:


– O magistrado confirmou participação de Carvalho nos acontecimentos que sucederam o assassinato.


Bateu no vice


A controvérsia com a jornalista Judith Miller não acabou, pelo contrário, mas o ‘New York Times’ se recupera e parte para o ataque, no caso que vem consumindo os EUA. Na manchete de ontem, no jornal e no site, ‘Cheney contou a assessor sobre funcionária da CIA’.


O vazamento do nome de agente secreto pode ser considerado crime no país. Ainda que venha do todo-poderoso vice Dick Cheney.


Outro lado


Quanto à jornalista, atacada no próprio ‘NYT’, ela passou a ser defendida, agora, por jornais alinhados ao governo George W. Bush.


Entre outros, deram editoriais em favor dela o ‘Washington Post’, ‘New York Sun’ e ‘New York Post’. O blogueiro de mídia Jim Romenesko fez até uma ‘sugestão para Judy: envie seu currículo para o ‘Post’’.


Versão ocidental


Bush deu entrevista ontem ao Al Arabiya, canal moderado criado para concorrer com a Al Jazira. Mas o Ocidente quer mais, pelo jeito.


Segundo o blog de Sérgio Dávila, a BBC -de onde saiu quase toda a equipe da Al Jazira- anunciou que vai lançar canal em língua árabe:


– A idéia é dar a ‘versão ocidental’ ao espectador de canais como Al Jazira.


Mais um


No Brasil, até a blogosfera é singular. Ricardo Noblat nunca mais foi o mesmo depois que o blog deixou de ser independente e fechou com o iG, então com Daniel Dantas.


Agora é Tiago Dória, um dos melhores blogueiros de mídia entre os independentes, que anuncia o convite para o mesmo portal. Começa hoje.’



***


‘Soltaram o monstro’, copyright Folha de S. Paulo, 25/10/05


‘Do ex-governador Luiz Fleury, o homem dos 111 do Carandiru, um dos líderes do ‘não’ ao lado de Jair Bolsonaro e do coronel Ubiratan, também dos 111, na Globo:


– O ‘não’ foi uma declaração de que o brasileiro não está satisfeito com a segurança pública que o Estado lhe oferece.


Foi a avaliação dele e de muitos mais, de Alexandre Garcia na Globo a Carlos Nascimento na Band e Fernando Abrucio na Jovem Pan.


O ‘não’ foi descrito como ‘uma declaração’ do eleitor, ‘um recado’, até ‘um urro de 60 milhões de bocas’.


Embora o governador Geraldo Alckmin surgisse para apontar o dedo contra Lula e embora o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, surgisse para fazer o mesmo com os governadores, aos poucos se estabeleceu que o alvo eram todos eles. Do blog de Fernando Rodrigues:


– Foi uma derrota para todos os presidenciáveis.


De um dos blogueiros do site tucano E-Agora:


– O resultado acachapante envia um sinal de alerta. É bom entendê-lo.


De um comentário no mesmo E-Agora, postado por um autodenominado ‘Right’:


– Lula, Serra, Alckmin, Garotinho. Congressistas e políticos que encamparam o ‘sim’. Vamos bater na mesma tecla ‘não’ para todos!


Da comentarista Lucia Hippolito, na CBN e no UOL:


– Foi um recado para o Estado, não este ou aquele governo, mas o poder público.


Por fim, de Marcos Sá Corrêa, no site Nomínimo:


– Como diria Juscelino Kubitschek, ‘soltaram o monstro’. O monstro era o eleitorado. Ele está solto e não voltará à jaula antes de ir às urnas daqui a um ano, quando estarão em jogo a Presidência da República, os governos dos Estados e o Congresso. Daqui para a frente, os políticos que se cuidem.


Do blog de Claudio Weber Abramo, chamando a democracia direta de ‘bobagem’:


– Baseia-se num contra-senso, o de que seria possível empreenderem-se debates na sociedade sem que partidários se organizassem em grupos e sem que os argumentos de tais grupos fossem formulados no âmbito de estruturas montadas para defender interesses.


Ou seja:


– A expressão popular é a expressão de grupos organizados ou não é expressão.


É, disseram outros, ‘urro’.


Para além das avaliações do ‘recado’ e das discussões sobre a ‘democracia direta’, uma possível e mais concreta vítima do referendo preocupa, da Globo ao site Carta Maior.


Para o segundo, ‘cresce a pressão para flexibilizar o Estatudo do Desarmamento’.


DOIS TUCANOS


As novas edições das duas revistas de negócios


No enunciado da revista ‘Exame’, sobre uma foto do governador e presidenciável tucano Geraldo Alckmin, em maiúsculas, ‘O candidato dos empresários’. Entre os textos também destacados na capa, ‘Alckmin revela: Estou pronto para ser presidente’. Internamente, mais 11 páginas, inclusive editorial, sobre Alckmin. Ao longo das páginas, uma restrição, na legenda de uma pequena foto, ‘rebelião na Febem: retrato das falhas do governo na política de segurança pública’.


Por outro lado, no enunciado da revista ‘IstoÉ Dinheiro’, sobre uma foto do prefeito e presidenciável tucano José Serra, em maiúsculas, a palavra ‘Serra!’. Entre os textos também destacados na capa, ‘o desempenho como administrador’ e ‘o esboço do plano econômico’. Internamente, mais quatro páginas. Ao longo delas, uma restrição, na legenda de uma foto, ‘no estilo centralizador, ele pode cair na tentação de virar o próprio ministro da Fazenda, um erro’.


Falta um ano para a eleição.


Em negociação 1


No blog de Jorge Moreno, que foi manchete do Globo Online, ‘Lula diz que Jorge Bornhausen comanda ataques a sua família’. Na descrição da conversa, ele até ‘enxuga os olhos’ ao lembrar do filho ‘arrastado na imprensa na base das insinuações’. O pefelista respondeu, ‘nunca fiz política atacando família de adversário’ -e mais não disse.


Em negociação 2


No blog de Josias de Souza, na Folha Online, ‘na guerra contra a CPI dos Bingos, o governo encontrou munição contra o senador Efraim Morais’. Em 2002, então vice da Câmara, o pefelista anulou a convocação de Ricardo Sérgio, do Banco do Brasil, pela CPI do Banespa.’



FSP CONTESTADA


Painel do Leitor, FSP


‘TV ‘, copyright Folha de S. Paulo, 26/10/05


‘‘É necessário corrigir duas informações da reportagem ‘Censura’ chega à TV paga e aperta TV aberta’ (Ilustrada, 23/10). Embora o texto contenha informações relevantes para a compreensão da classificação indicativa como um legítimo processo democrático, o colunista se equivoca gravemente ao confundir classificação com censura e ao afirmar que o tratamento dispensado aos programas jornalísticos ‘não vai mudar’. Tanto a Constituição Federal veda qualquer forma de censura como todo trabalho realizado pela Secretaria Nacional desde 2003 aprofunda o abismo que separa a atividade deste departamento das arbitrariedades da Censura Federal. Tanto é verdade que o texto não colheu um único depoimento, uma única menção que pudesse reforçar o equívoco perpetrado pelo jornalista. No que diz respeito aos programas jornalísticos, convém esclarecer que, por força da portaria 796/2000, qualquer programa ao vivo está sujeito à classificação posterior depois de verificada a existência de inadequações reiteradas. Essa portaria não distingue os telejornais ou programas jornalísticos. Por isso a nova regulamentação afastará a possibilidade de classificação dos jornalísticos, acolhendo, assim, a distinção que a própria Constituição estabelece -o que muda definitivamente o tratamento dessa reportagem. Mas isso não significa que ‘esses programas [jornalísticos] continuarão autorizados a ir ao ar em horário livre’, até porque o Ministério da Justiça não pode autorizar nem desautorizar a veiculação de programa nenhum (já que não se trata de censura). Diferentemente da atuação cidadã que caracteriza a história dessa Folha, as informações incorretas veiculadas por Daniel Castro não apenas desconsideram o trabalho realizado pelo departamento na reformulação da ‘classificação indicativa’ como prejudicam o esforço que inúmeras instituições estatais, emissoras públicas e privadas e entidades não-governamentais de defesa dos direitos humanos vêm realizando para promover democraticamente uma programação de TV adequada a crianças e a adolescentes.’ José Eduardo Elias Romão, diretor do Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação do Ministério da Justiça (Brasília, DF)


Resposta do jornalista Daniel Castro – A classificação indicativa também é conhecida por censura. Nas bilheterias, um filme impróprio para menores de 14 anos, por exemplo, é anunciado como ‘Censura: 14 anos’. Uma das definições de censura no ‘Aurélio’ é ‘exame crítico de obras literárias ou artísticas’ -justamente o que fazem os classificadores do Ministério da Justiça.


São Paulo


‘O texto sobre a decisão da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de pagar passagens solicitadas por famílias desalojadas de prédios invadidos para voltarem às suas cidades de origem (‘Serra pagará volta de sem-teto à cidade natal’, Cotidiano, 22/10) comete quatro omissões. Primeiro, não menciona que tais famílias foram retiradas pela PM, por força de decisão judicial, de prédios privados invadidos. Segundo, não registra que a prefeitura ofereceu a essas famílias uma bolsa-aluguel de R$ 300 por mês, além de pôr à disposição delas um alojamento provisório até que encontrem moradias para alugar. Terceiro, omite a filiação partidária da arquiteta Maria Lucia Refinetti, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, que, apresentada pela reportagem como sendo especialista em habitação, critica a decisão da prefeitura de pagar as passagens pedidas. Como é público, a referida arquiteta é militante do PT. Quarto, omite as preferências político-partidárias do dirigente da União Nacional por Moradia Popular, Benedito Barbosa, que declarou que seu movimento ‘não vai aceitar como política habitacional o retorno para a terra de origem’ apesar de não se tratar de iniciativa da prefeitura, mas, sim, desejo de algumas famílias.’ Floriano Pesaro, secretário de Assistência e Desenvolvimento Social (São Paulo, SP)


Resposta da jornalista Luísa Brito – O secretário não rebate os argumentos contrários à medida, apenas tenta deslegitimar a professora de urbanismo, indicada pela USP para o próprio conselho municipal de habitação. A reportagem também publicou opinião favorável à medida.’


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PRIMEIRAS EDIçõES >

Frei Betto

Por lgarcia em 27/06/2001 na edição 127



"Quem escreve sabe como as palavras gostam de brincar de esconder. Quando mais se precisa delas, fogem da memória e ficam, impronunciáveis, na ponta da língua. O jeito é recorrer a um sinônimo que não exprime exatamente o que se queria dizer, mas quem não tem cão, caça com gatos.

Há dias vi-me indeciso quanto à grafia de chapéu gelô (ou gelo ou gelot?), tão freqüente em fotos e filmes antigos. Recorri ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, que reúne 350 mil vocábulos. Nada. Fui à coleção de dicionários de que disponho: Caldas Aulete (meu preferido), Michaelis, Aurélio, Celso Luft, Sacconi, Biderman e Simões da Fonseca. Em vão. Nenhum registra o termo que adjetiva o chapéu preto, arredondado, de copa saliente, que Freud usava.

Não é comum encontrar uma palavra de uso corrente nos últimos cem anos não-dicionarizada, exceto gírias e neologismos mais recentes. Perdido, recorri às minhas fontes vivas, que dominam com maestria o nosso idioma. Primeiro, a meu pai, Antônio Carlos Vieira Christo, lexicólogo, íntimo de todos os dicionários, meu mestre em letras. Vasculhou toda a sua biblioteca, sem resultado.

Parti para os amigos. Deonísio da Silva, autor de ?De onde vêm as palavras? (Siciliano), 30 mil exemplares vendidos, também nada encontrou em seus alfarrábios. Teimoso, buscou um velho usuário do chapéu, de quem obteve a informação de que o vocábulo deriva do nome da loja que o vendia em Paris: Gelot. Provavelmente um nome de família.

João Ubaldo Ribeiro respondeu-me com a seguinte mensagem: ?O vocabulário ortográfico da ABL não registra a palavra, em nenhuma das duas formas. O nome do chapéu é francês e vem do nome de seu criador. Só não sei se leva acento ou não, no ?e?. Mas, já que a palavra entrou na língua portuguesa há décadas, acho que você pode usar perfeitamente ?gelô?, em vez de um pernóstico ?gelot?, ainda mais sem saber, como eu não sei, se há o acento. Creio que não, porque o ?e? aí deve ser uma vogal átona, para não ser confundido com um ?j’ai l’eau?, ou qualquer coisa assim. Enfim, é o máximo que posso informar-lhe. Na minha opinião, você devia cometer esse ato de canibalismo lingüístico e escrever ?gelô?.

Aceito a sugestão, fico com chapéu gelô, mas só na ortografia, pois a cabeça, sob o sereno e o sol quente, prefiro cobri-la com boné de pala curta.

Hoje em dia é moda pesquisar a história de detalhes, da vida privada à vida da privada. Não sei se há por aí uma história do vestuário, como vi na coleção de trajes exposta num museu de Coimbra. Os arqueólogos da moda deveriam dedicar-se a estudos que nos expliquem por que o chapéu desapareceu da indumentária. Veja a foto de uma assembléia operária no início do século passado. Nenhuma cabeça descoberta.

No Brasil, começamos despidos, nas aldeias indígenas, e agora parece que estamos retornando ao ponto de partida. Em pouco mais de meio século de vida, vi desaparecer, além do chapéu (minha mãe tinha caixas deles empilhadas sobre o guarda-roupa, à espera do próximo casamento), as abotoaduras, o prendedor de gravata, a galocha (os sapatos de hoje resistem à chuva?), a combinação, a anágua, o baby-doll etc. Torço pelo fim da gravata.

Tudo muda, menos o guarda-chuva. [Frei Betto é escritor, autor do romance policial ?Hotel Brasil? (Ática), entre outros livros]

    
    
                     

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