Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > O BRASIL ANTENADO

Gabriel Priolli

09/08/2005 na edição 341

‘Novela é novelo, alguém já observou, e a coincidência não é apenas léxica. A
novela é um emaranhado de personagens e suas histórias e é também uma complexa
tessitura de significações, construída coletivamente a partir de impressões
subjetivas dos autores, de contribuições de atores e diretores, de conceitos e
preconceitos presentes na mentalidade do telespectador, de fatos conjunturais
incorporados à narrativa e mesmo de injunções políticas e legais, além dos
interesses econômicos das emissoras.


Em geral, é das peripécias das personagens que se ocupa a crítica corriqueira
de televisão, no seu tradicional apego ao mundano e ao banal. Mas existem
algumas raras almas que tentam desenrolar o novelo para encontrar nele
explicações para o país, bem mais relevantes do que as paixões efêmeras de
fulanas e beltranos.


Esther Hamburger, colaboradora da Folha, pertence ao segundo grupo, e a sua
tentativa mais recente de puxar o fio da meada sai agora em livro, sob o título
de ‘O Brasil Antenado – A Sociedade da Novela’. Apresentado originalmente como
tese de doutoramento ao departamento de antropologia da Universidade de Chicago,
o texto traz uma rigorosa contribuição ao estudo do mais importante produto da
televisão brasileira, vazada em estilo que alia à perfeição a densidade do
pensamento acadêmico e a agilidade da boa escrita jornalística.


O objetivo do trabalho é ‘mapear o equacionamento da produção de significados
na história recente do Brasil’ e, para atingi-lo, indiscutivelmente a telenovela
é o veículo mais adequado. Trata-se, como aponta a autora, de ‘obra audiovisual
que resulta de um ‘multiálogo’ e faz a mediação entre produtores e receptores,
incorporando uma gama de significados possíveis nem sempre intencionais’. Obra
sempre cooperativa, portanto, e construída interativamente no cotidiano, que
resulta como o justo espelho -ao mesmo tempo preciso e distorcido- da realidade,
onde a ficção e os fatos convivem e interpenetram-se, como demonstra o célebre
assassinato da atriz Daniela Perez, esmiuçado na introdução.


O livro oferece um preciso painel histórico da TV brasileira e analisa os
mecanismos de produção de conteúdos pautados pela pesquisa de audiência, a
interação entre audiência e consumo e a influência mútua da novela com a
política, entre outros temas. Títulos marcantes como ‘Irmãos Coragem’, ‘O Rei do
Gado’, ‘Roque Santeiro’ e ‘Selva de Pedra’ são analisados em suas múltiplas
implicações, à luz de contribuições teóricas as mais diversas, sobretudo de
autores estrangeiros pouco difundidos no Brasil, que enriquecem o debate
televisivo com uma fecunda visão externa.


No Brasil ‘antenado’ de Hamburger, a esfera privada se conecta à pública de
forma indissociável através da TV e, em particular, da telenovela. Tanto faz que
as estrelas estejam em Miami, no Rio, em Boiadeiros -ou numa CPI.


Gabriel Priolli, jornalista e diretor de TV, é presidente da ABTU –
Associação Brasileira de Televisão Universitária’




PÂNICO NA TV
Folha de S. Paulo


‘Atriz Carolina Dieckmann obtém liminar contra ‘Pânico na TV’’, copyright
Folha de S. Paulo, 6/08/05


‘Depois da confusão que acabou com a prisão da dupla de humoristas Vesgo
(Rodrigo Scarpa) e Silvio Santos (Wellington Muniz) anteontem, após fazerem
filmagens do prédio da atriz Carolina Dieckmann para o programa ‘Pânico na TV’,
o advogado da atriz, Ricardo Brajterman, conseguiu no fim da tarde de ontem uma
liminar que proíbe a exibição das imagens gravadas pelo programa.


A dupla esteve no condomínio onde Dieckmann mora com seu filho, em São
Conrado (Rio), e usou megafone e um guindaste para chamar a atriz e fazê-la
calçar as sandálias da humildade.


No entanto, a turma do ‘Pânico’ só filmou o filho da atriz, Davi Dieckmann
Frota, de seis anos. As fitas da gravação foram apreendidas, mas as cenas com a
criança não foram encontradas.


Temendo um possível uso indevido da imagem do menor, o advogado da atriz
acionou a Justiça, que vetou a exibição.’



Rodrigo Haidar


"‘Pânico na TV’ dá, no ar, versão para ‘confusão’ com Carolina Dieckmann", copyright O Globo, 09/08/05


"Os humoristas do ‘Pânico na TV’, proibidos pela Justiça de mencionar o nome da atriz Carolina Dieckmann durante o programa ‘Pânico na TV’, exibido neste domingo na RedeTV, entraram no ar vestidos como presidiários e deram sua versão para o que chamaram de ‘confusão com a atriz’. Liminar concedida pela juíza Maria Angélica Guimarães Guerra Guedes, atendendo a pedido dos advogados Ricardo Brajterman e Luiz Fernando Carvalho determinou que, além de proibidos de exibir imagens do filho de Carolina e do prédio em que ela mora, os humoristas não poderiam falar o nome dela nem persegui-la, segundo informou um dos advogados ao jornal Extra.


A emissora deveria pagar uma multa de R$ 500 mil se houvesse o descumprimento da ordem.


– A liminar pede para que a Rede TV se abstenha de exibir imagens da Carolina Dieckmann, bem como fazer referência ao nome dela em toda a sua programação, em especial no programa ‘Pânico na TV’. E ainda proíbe os humoristas de perseguirem a atriz, que já chegou a entrar em eventos pela porta da cozinha. Agora, eles vão ter a humildade de respeitar a privacidade dela – disse o advogado Ricardo Brajterman, antes da exibição do programa.


A determinação da Justiça foi respeitada, embora houvesse clara referência ao episódio, amplamente divulgado pela imprensa, entre a atriz global e os humoristas. Foi exibida, apenas, uma imagem ‘antiga’, segundo informou o próprio programa, de uma tentativa de agressão do ator Victor Fasano a um dos repórteres do programa.


Há algum tempo tentando fazer com que Carolina Dieckmann calce as ‘sandálias da humildade’, os humoristas do ‘Pânico na TV’ vieram de São Paulo (onde fica a produção do programa) para o Rio, na semana passada. Rodrigo Scarpa e Wellington Muniz, que formam a dupla Repórter Vesgo e Silvio Santos, foram detidos no prédio de Carolina, em São Conrado, após tentarem fazer imagens do apartamento dela usando um guindaste.


De acordo com Emilio Surita, apresentador do ‘Pânico’, os humoristas foram detidos para ‘prestar esclarecimentos’. Surita admitiu que a proposta do programa é ‘invasiva’, e a comparou à dos fotógrafos que perseguem celebridades.


– O combustível da polêmica é a audiência – disse Surita, que trajava camisa de presidiário com o número 171, antes de chamar os repórtres-humoristas Rodrigo Scarpa e Wellington Muniz, que entraram em cena com roupas semelhantes, algemas e mordaças.


Na última quinta-feira, foi diferente. Ao deixarem a Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima, na Cidade Nova, no Rio, de onde foram liberados no mesmo dia, eles se divertiam com o episódio.


– Carolina procurou a Justiça para impedir que veiculassem as imagens feitas de Davi, seu filho de seis anos, e de seu prédio, para tentar preservar a sua privacidade e a dele. Ficamos indignados porque eles ainda debocharam do poder público, rindo dentro da delegacia – disse o promotor Márcio Monthé.


Neste domingo, a produção convocou uma reunião de caráter emergencial para mudar todo o roteiro do programa, que iria ao ar às 18h. De tarde, Frederico Martinez, da produção, fazia suspense quanto ao que iria acontecer no programa, pedindo para que os curiosos aguardassem surpresas. Já Sabrina Satto, criticava a atitude de Carolina.


– Ela não precisava fazer isso. É só uma brincadeira e, agora, tomou uma proporção grande. O mundo inteiro vai querer que ela calce as sandálias da humildade e isso só comprova que ela não tem humildade – declarou Sabrina.


No ar, o apresentador Emílio Surita, por sua vez, mostrou no ar uma decisão judicial que atestava que o filho da atriz não havia sido filmado. No lugar do quadro ‘Sandálias da Humildade’, o Pânico exibiu imagens de nado sincronizado, enquanto a legenda apresentava uma receita de bolo, menção à forma como a imprensa substituía textos censurados pela ditadura militar."




AMÉRICA
Suzana Velasco


‘Ailton cheio de Graça’, copyright O Globo, 6/08/05


‘Os dois principais papéis da carreira do ator Ailton Graça são opostos.
Feitosa, que vem fazendo sucesso na novela de Glória Perez ‘América’, da TV
Globo, é um batalhador honesto e fiel. Majestade, personagem do filme
‘Carandiru’ (2001), de Hector Babenco, é um traficante com duas mulheres e poder
no presídio. Mas com uma ginga e um sorriso no rosto que também acabaram
conquistando o público. Culpa de Graça. A carreira do ator paulista de 40 anos –
‘para trabalhos tenho 35’, brinca ele – começou a deslanchar há cinco,
justamente com ‘Carandiru’, mas é em ‘América’ que ele vê o que é prestígio. Nas
ruas, as pessoas se sentem como ele se fosse da família, talvez justamente por
interpretar um homem de família.


– Elas chegam com um grau de intimidade maravilhoso. Muitas senhoras dizem
que sou o filho que toda mãe gostaria de ter, mas me aconselham a ser mais duro
com a Diva – conta ele, que em novela só tinha feito uma ponta em ‘Rainha da
Sucata’.


Diva (Neusa Borges) é a mãe de Feitosa e desaprova o namoro do filho com
Islene (Paula Burlamaqui), por achar que a moça é, como define Graça, ‘de saia
curta’. Carinhoso com a filha de Islene, Flor (Bruna Marquezine), que é cega,
Feitosa é o filho e também o pai ideal.


– Uma menina de uns 7 anos, aos prantos, queria me dar um beijo e não me
soltava. A mãe dela disse que o pai tem ciúmes de mim – conta Graça, rindo. –
Outra menina, no shopping, disse: ‘Feitosa, você eu deixo ser meu pai, outro
não’. Fiquei todo atrapalhado, não sabia o que dizer.


Já o encanto com o Majestade, para Graça, relaciona-se mas não se resume a
três características que agradam ao brasileiro: ele é mulherengo, gosta de
carros e patrocina o futebol no Carandiru. Além de tudo isso, o personagem é
mesmo sedutor.


– Com o Majestade, queria criar uma empatia. O grande traficante tem esse
lado amável e sociável. Temos a visão equivocada do bandido com a carranca de
mau.


Ator já foi mestre-sala, camelô e palhaço


Graça não está acostumado a tanto assédio, ainda mais que sua carreira não
começou ontem. Contando sobre sua trajetória, percebe-se que ele é ator desde
sempre, sem data de início. A inquietude que se percebe em minutos de conversa
vem de criança, quando oferecia às primas pacotes de pipoca em troca de um
público para seus números de mágica. Se não houvesse platéia, o jeito era pintar
dois olhos nos travesseiros e deixá-los assistindo.


– Não parava quieto e minha mãe chegou a me levar para fazer exames de
cabeça. – diverte-se. – Um dia ela me disse que eu precisava de uma profissão
que juntasse todas as outras. Aquilo ficou na minha cabeça.


Foi nos anos 80 que ele começou a levar essa história a sério. Trabalhando
nas relações públicas de um hospital em São Paulo, Graça divertia os pacientes
como palhaço e contador de histórias, no grupo de teatro Refletores e Ribalta.
Ele criou ainda uma escola de samba dentro do hospital, a Bisturi de Ouro. E foi
através das pessoas envolvidas nessa atividades que teve contato com o diretor
de teatro Antunes Filho, com quem fez oficinas e atuou em ‘Xica da Silva’.


– Com o Antunes, comecei a entender questões cênicas básicas. Não tenho
conhecimento acadêmico e passei a viver atrás de oficinas – diz ele.


Sem conseguir sobreviver de teatro, Graça animou festas infantis como
palhaço, foi fiscal de vans e vendeu objetos trazidos do Paraguai, função que
ele chamava de comércio exterior. E quando parece que ele abandonou suas
aventuras artísticas, vem outra revelação. Nesse período ele se dedicou ao Balé
Folclórico, passando os sábados e domingos ensaiando danças populares. Mas só
voltou ao teatro há cinco anos, quando a mulher o inscreveu num teste para a
companhia Folias da Arte, fingindo para o marido que era uma simples oficina.


– Precisava de outros trabalhos para manter as oficinas e pagar o aluguel e a
pensão do meu filho ,hoje com 17 anos. Queria voltar mas tinha medo. Minha
mulher fez uma sacanagem maravilhosa comigo – conta ele, que conseguiu uma das
duas vagas e trabalhou com o grupo em ‘Babilônia’ e ‘Otelo’, do diretor Marco
Antônio Rodrigues.


O ator louva a iniciativa da novela de tratar dos problemas dos deficientes
visuais. Ele conta que seu avô ficou cego e aprendeu a tocar gaita e a cantar
depois disso e ele cresceu sem estranhamento com a deficiência. É desse avô,
garimpeiro e organizador de cordões de carnaval na Bahia, que veio a paixão do
ator pelo samba. Sua família criou um bloco que desfilava em São Paulo, no
bairro Jardim Miriam, tendo Graça como mestre-sala. Pronto. Mais um pretexto
para ele inventar algo novo para fazer. Começou a freqüentar com o tio escolas
de samba como a Vai Vai e a Tom Maior. E em 1995 foi mestre-sala da Gaviões da
Fiel, sua escola do coração ao lado da Mangueira.


– Sou mangueirense de tanto ouvir o Mussum falar nos Trapalhões, quando era
criança. Achava que a Mangueira era um morro todo verde e rosa e a Dona Zica,
uma rainha – lembra ele, que está sem desfilar desde 2001, ano das filmagens de
‘Carandiru’.


Depois do sucesso do filme, Graça esteve no premiado ‘Contra todos’, de
Roberto Moreira, em ‘Nina’, de Heitor Dhalia, e em ‘Meu tio matou um cara’, de
Jorge Furtado, além de atuar nos ainda inéditos ‘Veias e vinhos’, de João
Batista de Andrade, ‘Tapete vermelho’, de Luiz Alberto Pereira, e ‘Querô’, de
Carlos Cortez. Depois da novela, o ator quer voltar ao cinema, mas por trás das
câmeras, dirigindo o curta-metragem ‘Martelo’, escrito por ele. Segundo o ator,
o filme é uma fábula sobre um personagem negro que não percebe o quanto é
preconceituoso.


Polêmicas sobre racismo poderiam estar também em ‘América’. Mas ninguém vem
dando bola para o fato de o negro Feitosa se envolver com a loura Islene, e o
índice de aceitação do casal é altíssimo. Para Graça, o trunfo de Glória Perez
foi unir os dois sem tocar na questão racial. Eles vão se separar depois de
armações de Diva, mas, mesmo deixando notar uma torcida para que os dois voltem
a ficar juntos, ele acredita nas reviravoltas da novela.


– Todo papel tem que sofrer uma grande modificação – diz, revelando porque
gosta tanto de viver de personagens. – É a única profissão em que eu posso
conjugar o verbo morrer.’

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PRIMEIRAS EDIçõES >

Gabriel Priolli

Por lgarcia em 20/09/2000 na edição 98


QUALIDADE NA TV

TV BRASILEIRA, 50 ANOS

"A TV é a nossa face", copyright O Estado de S. Paulo, 17/09/00

"Valeu? Prestou? Serviu? Ajudou? No momento em que a TV faz 50 anos no Brasil, é oportuno que os telespectadores avaliem a influência do principal veículo do País, pesando prós e contras. Em geral, o que se tem são manifestações de natureza esquizofrênica, paranóica e masoquista. Sim, porque as pesquisas indicam que os brasileiros vêem de 3 a 4 horas diárias de TV e, assim mesmo, toda vez que a comentam, pintam um cenário aterrador de abusos sexuais, ultraviolência, imoralidade extrema, perversidade, corrupção, degradação, escapismo, alienação. Se é tão ruim e tão vista, algo deve estar errado – e não é só com ela.

É claro que a TV não é só defeitos, embora os tenha às pencas. A vocação para a vulgaridade, a hipocrisia de justificar os piores abusos como exercício da liberdade de expressão, a mania de interferir no jogo político-eleitoral, a desatenção para as suas responsabilidades com a educação, esses são alguns dos piores. Mas, em homenagem ao seu cinquentenário, em gratidão aos milhares de horas de entretenimento que ela proporcionou a nós, vamos reconhecer o que a TV trouxe de positivo ao País.

Não foi tão pouco.

Para começar, a TV ajudou a consolidar a nossa unidade federativa. O território nacional hoje está quase todo coberto por sinais de TV, com pequenas zonas de sombra na Amazônia. Nem a telefonia chegou a tanto, ou o sistema de transportes. Os brasileiros comungam identidade, ou fazem convergir as várias identidades numa idéia central de ‘brasilidade’, graças, em larga medida, às horas que dedicam à TV. É no vídeo que se trava o diálogo inter-regional, por estreito que seja. É nele que se vê os vários Brasis, a multiplicidade de nossos problemas, a diversidade de formas de expressão – ainda que, centrada no Rio e São Paulo, ela procure impor a perspectiva carioca ou paulista das coisas. A TV revigora a língua portuguesa, mesmo que promova distorções, como a mistura descabida da segunda e da terceira pessoas pronominais, comuns nas novelas (‘Tu vai ver’, ‘Tu não sabe’). Com isso, cumpre papel de interesse não só nacional, mas universal, às culturas lusófonas.

A TV permite também o acesso à informação (principal bem do homem moderno, não?) a milhões de excluídos, que não têm jornais, livros, Internet e escola de qualidade. É uma injustiça gritante a idéia de que a TV só emburrece. A maioria toma ciência do que ocorre no mundo e forma juízo sobre os fatos graças ao que vê na televisão.

Do ponto de vista ético, a TV difunde muito mais valores democráticos, condutas coletivas corretas, comportamentos adequados e úteis, do que o contrário. Para cada fascistóide que surge, pregando expurgos sociais (‘Morte a bandidos!’) ou políticos (‘Tem de acabar com o MST!’), há dezenas de tipos nas novelas, apresentadores ou jornalistas pregando o oposto: a tolerância com a diversidade, as virtudes da democracia, o respeito à lei, a proteção da vida, da saúde, da natureza. Alguém já viu a TV defendendo que leite em pó é melhor que o materno? Que não há problema em transar sem camisinha? Que cigarro faz bem?

A TV é a nossa face. É espelho de nossa realidade, contrastes, sonhos, temores. Poderia ser muito melhor – como o País. Mas essa melhoria, não há jeito, terá de ser construída simultaneamente. E por nós. (Gabriel Priolli é jornalista, professor universitário e diretor da TV PUC.)"

"TV chega aos 50 anos sem juízo", copyright O Estado de S. Paulo, 16/09/00

"A TV brasileira completa 50 anos de vida segunda-feira debaixo de polêmica. A questão que se coloca é se, mesmo cinqüentona, ela tem juízo suficiente para tocar a vida sem interferência?

Portaria baixada pelo Ministério da Justiça esta semana demonstra que, na opinião do governo federal, a TV não tem condições de prescindir de um certo controle. A portaria do ministro José Gregori determina que programas desaconselháveis para menores de 16 anos não podem ser exibidos antes das 22 horas e que antes de cada atração o canal deverá avisar claramente a sua classificação. Ou seja, a que faixa de idade o programa não é adequado.

Programas que induzem ao sexo – incluindo a propaganda de conversas quentes pelo telefone – só poderão ser exibidos entre meia-noite e 5 da manhã.

Essa discussão sobre os limites da TV tem sido recorrente no Brasil, sempre motivada por algum excesso apontado pela mídia. Foi o caso do sushi erótico do Domingão do Faustão, a exposição de deformidades físicas em crianças no show do Ratinho ou do Leão, os concursos de ‘boquinha da garrafa’ com meninas recém-saídas das fraldas no domingo de Gugu Liberato e, mais recentemente, o oferecimento de drogas para o cantor Rafael Ilha pelo Sérgio Mallandro.

Agora a causa da movimentação é outra. A providência do governo é o resultado de um processo de dois anos de tentativa de negociação com as emissoras.

José Gregori, secretário Nacional dos Direitos Humanos à época, entregou aos manda-chuvas das emissoras o artigo da Constituição que exige uma programação de bom nível cultural, que respeite a família e a cidadania, e pediu o que chamou de ‘manual de qualidade’ para cada uma. A lição de casa, ao que parece, não foi feita e a auto-regulamentação, que brotaria necessariamente da autocrítica do setor, não vingou.

Por mais bem-intencionadas que estejam as autoridades, baixar uma medida sem ter parâmetros para definir o que é adequado ou não para o telespectador é, no mínimo, capenga. Deslocar cenas de sexo e de violência, geralmente atribuídas vesgamente às novelas e aos filmes de ação, para mais tarde da noite é de um reducionismo pífio.

Mais útil seria a criação de mecanismos para analisar o conteúdo da programação e ajudar a corrigir o básico, em primeira instância. Por básico, entenda-se o atropelamento da língua pátria ou a humilhação de cidadãos brasileiros em shows que exploram a miséria humana a pretexto de resolver problemas e de fazer humor, como é o caso de certas pegadinhas.

A médio prazo, o correto seria comprometer – por força de lei, se necessário – as emissoras a agregarem a seus programas um conteúdo mais cidadão. Isso não quer dizer transformar a programação em uma espécie de telecurso. Há talentos dentro das redes de TV brasileira (concessões públicas) capazes de oferecer programas que levem em conta valores que possam contribuir de algum jeito com a formação, em especial, do público jovem."

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