Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > UM FILME POR DIA

Getulio Bittencourt

30/11/2004 na edição 305

‘O ensaio é um gênero a que se dedicam as pessoas que não têm talento para o romance ou a poesia, segundo o escritor inglês Anthony Burgess. Ele próprio tinha talento para o romance bizarro (A Laranja Mecânica, filmado por Stanley Kubrick) e para o ensaio histórico (A Literatura Inglesa), mas este seu comentário é tão infundado como o dos que acreditam que todo crítico de cinema é um cineasta frustrado.

Alguns não o são. Veja-se o caso do baiano Antonio Moniz Vianna, que aos 80 anos acaba de publicar um livro com suas imensas críticas de cinema no jornal carioca Correio da Manhã, lançado pela Companhia das Letras: Um Filme por Dia. Ele nunca quis ser cineasta, e disputa o título de maior crítico de cinema do mundo com uns poucos competidores.

Em quantidade, apenas o americano Bosley Crowther, do The New York Times, se apresenta com tamanho similar (ambos somam 28 anos de ofício cada). Em termos de qualidade, será preciso buscar nomes na França para encontrar, dispersos, predicados comuns em Moniz Vianna: André Bazin pela profundidade de análise, Georges Sadoul pelo conhecimento enciclopédico.

Já na elegância do texto, só se pode comparar Moniz Vianna com grandes escritores que se dedicaram ocasionalmente à crítica de cinema, como o argentino Jorge Luis Borges na revista Sur, o inglês Graham Greene no The Spectator de Londres, o americano James Agee na revista Time, o colombiano Gabriel García Márquez no El Espectador de Cartagena.

Moniz Vianna parou de escrever há tanto tempo – o último artigo, a propósito de seu cineasta favorito, John Ford, foi publicado em setembro de 1973 – que muitos de seus discípulos já se aposentaram. Talvez apenas Sérgio Augusto e Ruy Castro, que às vezes comparecem nas edições dominicais de O Estado de S. Paulo, ou Ely Azeredo, que às vezes escreve em O Globo, continuem na ativa. E no entanto seus artigos continuam tão admiráveis hoje como há trinta anos.

Não se sabe ao certo quantos textos ele escreveu, porque alguns não foram assinados – como o primeiro para o Correio da Manhã, em fevereiro de 1946, e vários para a revista Visão, dirigida por Jorge Leão Teixeira no início da década de 1960. Outros saíram na década de 1940 em revistas raríssimas, como A Cena Muda ou A Cigarra; e uns poucos no Jornal de Letras, Revista da Semana, O Cruzeiro. Paulo Perdigão, outro discípulo, e autor de um excelente perfil do crítico publicado na revista Filme Cultura, estimou a produção total dele em cerca de seis mil artigos.

Alguns admiradores de Moniz Vianna, como Valério Andrade e o próprio Perdigão, têm até 500 artigos dele recortados. O próprio crítico emprestou cerca de 400 artigos a Jean-Claude Bernadet, que faz uma análise francófona e injusta sobre ele no livro Cinema de Autor. A coleção que restou a Moniz Vianna soma cerca de 2.500 artigos, e a minha, iniciada quando office-boy com a idade de 14 anos, depois de revirar o que sobrou do jornal (fechado em 1974) no Arquivo Nacional, chega apenas a 3.767 artigos.

Ler e reler os artigos freqüentemente enormes do crítico do Correio da Manhã não só informava como formava expectadores. A riqueza da língua portuguesa tem nele uma expressão de ritmo e rigor difíceis de igualar. Algumas de suas críticas chegam a emular na construção das frases a própria toada dos filmes, e muitas são brilhantes mesmo quando tratam de filmes menores, como a de Becket, o Favorito do Rei, de Peter Glenville. A inspiração de Moniz Vianna povoou de críticos de cinema – todos discípulos seus – a imprensa brasileira. Perdigão e Sérgio Augusto foram críticos da revista Veja; Maurício Gomes Leite, da revista Manchete; Azeredo, do Jornal do Brasil. A maior parte deles só tinha uma divergência com o mestre: sua notória impaciência com o cinema brasileiro.

Alberto Dines, que dirigiu a redação do Jornal do Brasil e uma década antes foi crítico de cinema, só consegue lembrar-se hoje de dois filmes brasileiros elogiados por Moniz Vianna: Amei um Bicheiro, de Jorge Ileli, e O Cangaceiro, de Lima Barreto. Pressionado, lembra-se de elogios aos filmes de Flávio Tambellini. Mas embora sejam de fato raras, há críticas dele elogiando, entre outros, filmes de Glauber Rocha (Deus e o Diabo na Terra do Sol; O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro), Carlos Diegues (A Grande Cidade), Carlos Coimbra (A Morte Comanda o Cangaço), ou Walter Hugo Khouri (quase todos).

A seleção publicada em Um Filme por Dia inclui apenas 74 críticas, o que é uma pena, mas talvez seja a única solução possível para as editoras brasileiras contemporâneas. Algumas exclusões são penosas, como a crítica da obra-prima de Marcel Carné, O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis, de 1945), que foi escrita de uma vez só, mas ficou tão grande que teve de ser publicada em quatro edições do Correio da Manhã.

Esta série de conversas com Moniz Vianna acompanha o longo, difícil trabalho de persuasão de familiares e admiradores, que afinal levou à publicação do livro Um Filme por Dia.

I

10-Setembro-2002, 17h

Antonio Moniz Vianna: Eu estava para lhe telefonar, Getulio. Já li os dois livros.

DCI: O grandão (Searching for John Ford/Em busca de John Ford), do Joseph McBride, eu ainda não terminei.

Moniz Vianna: O livro de entrevistas é mais fácil…

DCI: O senhor gostou? Porque algumas das entrevistas, feitas por diretores como ele, são interessantes.

Moniz Vianna: É, mas John Ford não gostava de dar entrevistas. Existem contradições ali, ora um filme é o favorito, ora é outro…

DCI: Eu fiquei com a impressão que o filme favorito dele é The Sun Shines Bright(O Sol Brilha na Imensidade).

Moniz Vianna: Este é um deles. Tem uma das seqüências mais comoventes da história do cinema, que é a do enterro da prostituta. Mas outro é um filme raramente citado pelos críticos, The Fugitive (Domínio de Bárbaros).

DCI: Eu achei o começo do filme um pouco chato. Não pude terminar de vê-lo.

Moniz Vianna: Mas é um filme extraordinário. A cena inicial, que é praticamente uma missa, é admirável. A fotografia do (Gabriel) Figueroa é uma das melhores.

DCI: O começo é um pouco expressionista, não é? Com a Dolores Del Rio naquela igreja.

Moniz Vianna: E o Pedro Armendariz.

DCI: Sim. Mas acho que o senhor mesmo mencionou várias vezes o expressionismo em Ford, acho que inspirado no (cineasta alemão F. W.) Murnau, não é?

Moniz Vianna: É o seguinte, o Ford trabalhava para a Fox, e a Fox trouxe o Murnau da Alemanha. Ele fez Sunrise (Aurora), que é um dos filmes mais bonitos do cinema…

DCI: Na sua lista dos 20 melhores filmes do mundo, ele aparece em primeiro lugar.

Moniz Vianna: É um filme lindo. Depois ele saiu da Fox, fez Tabu, e morreu. O Howard Hawks também estava lá, mas não pegou nada do expressionismo. Não há expressionismo em Hawks. Mas o Ford, sim. Vários filmes dele são muito expressionistas, como O Delator e The Fugitive (que chamaram aqui de Domínio de Bárbaros). Outros diretores da Fox também pegaram o expressionismo, como Robert Siodmak; mas este veio da Alemanha, você pode dizer que já trouxe consigo. Uma das coisas que me irritam nos críticos modernos, como Lyndsay Anderson – que nem é tão moderno assim -, é que tendem a considerar The Fugitive um filme menor. Eu revi alguns filmes de Ford que perderam importância com o tempo, mas não é o caso de The Fugitive. O Delator é outro filme que cresce cada vez que o revejo.

DCI: Os filmes produzidos pelo Val Lewton, que o senhor gosta muito, também são expressionistas, não é? Lendo a suas críticas, é como se eu tivesse assistido, mas nunca vi os filmes dele. Acho que apenas Sangue de Pantera, que foi reapresentado quando eu era adolescente.

Moniz Vianna: Você sabe que os sete filmes de terror que ele fez foram reeditados em disc-laser? Os dois que não são de terror não foram incluídos, só os de terror. Eu ainda não comprei um DVD porque há poucos dos filmes que eu quero ver lançados.

DCI: A qualidade em DVD, porém, é muito melhor.

Moniz Vianna: Sim, mas o disc-laser também tem boa qualidade, como o DVD.

DCI: Mas o mercado do disc-laser é mais limitado.

Moniz Vianna: Sim, porque é caro, e talvez também porque o disco tem de ser virado, não é? O meu aparelho vira sozinho, mas de qualquer maneira é uma interrupção.

DCI: Eu tenho alguns filmes do Ford em vídeo.

Moniz Vianna: Eu tenho todos os filmes do Ford que você possa ter. Fora os 50 primeiros, que desapareceram, dos outros, tenho todos que foram lançados. Air Mail, por exemplo, ou Submarine Patrol, eu nunca pude encontrar.

DCI: Em DVD, o senhor sabe, há um ou outro filme que vale a pena. Cleópatra, do Joseph L. Makiewicz, um diretor que o senhor elogiava muito, embora o filme não seja bom.

Moniz Vianna: Cleópatra era para ser um filme do Rouben Mamoulian. Um dos meus filmes favoritos é do Mamoulian, você sabe, Love Me Tonight (Ama-me Esta Noite). É um musical no estilo do Ernst Lubitsch, mas ainda melhor que os musicais do Lubitsch. Diziam na época que havia influência do René Clair, mas não é René Clair, é puro Lubitsch.

DCI: Mas na época de Cleópatra o Mamoulian talvez estivesse muito velho.

Moniz Vianna: Não, ele era diretor da Broadway, e já começou com o cinema falado. A melhor versão de O médico e o monstro também é dele, você sabe.

DCI: Como outro diretor que o senhor elogiou, Jerry Lewis, que também fez uma versão interessante (O professor aloprado).

Moniz Vianna: Os filmes do Jerry Lewis eu nem consigo mais ver, você sabe. Mudei de opinião sobre alguns diretores. Eu gostava porque ele lembrava um pouco o estilo do Frank Tashlin.

DCI: Como o Blake Edwards.

Moniz Vianna: Pois é. Mas alguns diretores, como o Lewis e o Edwards, não me parecem mais tão bons como na época em que vi os filmes.

DCI: Agora, doutor Antônio, é muito difícil por aqui achar as suas críticas. A única coleção do Correio da Manhã está num bairro afastado que não tem xerox, e na tese de mestrado sobre o senhor, a autora diz que mesmo na Biblioteca Nacional não é fácil conseguir…

Moniz Vianna: Nem eu tenho, sabe. Tenho algumas, mas não todas. Foram mais de três mil artigos desde 1946.

DCI: Então, precisamos fazer uma coletânea. Eu li os seus artigos mais ou menos de 1966 até 1973. Comecei um pouco antes das filmografias começarem. E conheço um dos seus artigos da década de 1950, que a Filme Cultura reproduziu, junto com um artigo muito bom a seu respeito, do Paulo Perdigão.

Moniz Vianna: Um editor me pediu uma coletânea. Alguns amigos meus que você deve conhecer, como Sérgio Augusto, Paulo Perdigão, Valério Andrade, se reuniram com minha família, com uma das minhas filhas, para fazer a seleção. Mas é muito difícil fazer a escolha, porque algumas críticas, em geral as do começo, eu acho que são ruins. Com algumas eu não concordo mais, mudei de opinião. E sobre as outras, o livro ficaria muito grande. Uma seleção de apenas 80 críticas, por exemplo, daria um livro de 300 páginas, porque eu escrevia artigos longos.

DCI: Mas não se pode fazer uma escolha temática? Por exemplo, os westerns, os musicais, os dramas, as comédias.

Moniz Vianna: Eu justamente discordei das escolhas. Detesto, por exemplo, a expressão film noir, que até usei porque todo mundo usava.

DCI: Bom, mas pode-se editar vários volumes, como os das críticas do Paulo Emílio Salles Gomes no Suplemento Literário do Estadão.

Moniz Vianna: As críticas do Paulo Emílio de fato não eram curtas, mas ele escrevia semanalmente. Eu escrevia diariamente até o início da década de 1960.

DCI: Na época em que comecei a acompanhar o seu trabalho, geralmente o senhor escrevia às quartas e sextas, depois mais a filmografia aos domingos. E isso inclui os textos não assinados, porque como já lhe disse, eu conseguia identificar os seus textos pelo ritmo das frases, pela colocação dos travessões, pela escolha dos adjetivos, mesmo sem assinatura.

Moniz Vianna: Reconhecer estilo, você sabe, o estilo muda com o tempo. O meu foi se modificando. Há alguns artigos que me parecem bons ainda hoje. Meu artigo sobre Les Enfants du Paradis, de Marcel Carné, foi dividido em quatro edições do jornal. Escrevi de uma vez só, mas dividi em quatro partes porque ficou muito longo.

DCI: O artigo que a Filme Cultura reproduz, sobre The Searches (Rastros de Ódio), de John Ford, é longo e muito bom.

Moniz Vianna: Você sabe que quando The Searches foi lançado, os críticos franceses o ignoraram. O Cahiers du Cinéma nem publicou crítica, deu uma daquelas notinhas no final da revista. Hoje há quem o considere o melhor filme de Ford. Eu o considero um dos melhores, mas não o melhor.

DCI: Quais são os melhores? Ah, está na sua lista dos melhores do mundo.

Moniz Vianna: Eu posso lhe dizer quais são os melhores: O Delator, O Fugitivo, Stagecoach (No Tempo das Diligências), Vinhas da Ira, Como Era Verde o Meu Vale, The Sun Shines Bright, Depois do Vendaval, O Homem que Matou o Facínora, The Long Voyage Home (A Longa Viagem de Volta).

DCI: Há um grande filme dele do qual sinto falta nas suas listas, My Darling Clementine (Paixão dos Fortes).

Moniz Vianna: Grande filme. Mas acho que Stagecoach é superior, sabe? É mais importante.

DCI: My Darling Clementine tem inclusive uma moça que não é fordiana, mas merecia ser.

Moniz Vianna: Cathy Downs.

DCI: A cena da dança dela com Henry Fonda no tablado da igreja é maravilhosa.

Moniz Vianna: Ela fez poucos filmes. Atriz fordiana típica é a Maureen O´Hara. Fez cinco filmes com Ford. E The Quiet Man (Depois do Vendaval) é um filme lindo.

DCI: A Claire Trevor também fez bem a Dallas de Stagecoach.

Moniz Vianna: Sim, era uma atriz de talento que teve poucas oportunidades. Aqui ela aproveitou bem.

DCI: O McBride diz no livrão sobre Ford que Young Mr. Lincoln (A Mocidade de Lincoln) é a melhor biografia já feita pelo cinema. Eu vi o filme em vídeo nos EUA, e achei que é bom, mas a melhor biografia do cinema talvez seja um pouco exagerado.

Moniz Vianna: Não é uma biografia, é uma descrição da primeira parte da vida do Lincoln. Mas é um bom filme, sem dúvida. Muito bom. Outro filme que é menosprezado, mas que eu revi com prazer, é Drums Along the Mohawks (Ao Rufar dos Tambores), você conhece? Achei melhor na revisão do que na primeira vez que assisti.

DCI: Eu vi o filme no meio da década passada, e fiquei horrorizado com a Claudette Colbert. Ela é tão improvável, parece a mãe e não a mulher do Henry Fonda.

Moniz Vianna: É verdade, ela não faz parte da equipe de Ford. Mas o filme é bom.

DCI: Também menosprezado é Wagonmaster (Caravana de Bravos), ao qual o senhor atribuiu quatro estrelas.

Moniz Vianna: É excelente. E o uso que Ford faz das músicas neste filme é extraordinário. A composição é do Richard Hageman. Tem muita gente que não gosta do Richard Hageman, eu gosto muito.

DCI: É um filme que me lembra um pouco o Howard Hawks.

Moniz Vianna: Não há nada de Hawks em Wagonmaster. O filme é absolutamente fordiano.

DCI: Assim, mais no sentido de que os planos são mais distantes, meio brechtianos, e a preocupação é mais com o coletivo do que com heróis individuais, como me parece característico de Hawks.

Moniz Vianna: Mas essa temática é comum nos filmes de Ford. Veja os filmes sobre a cavalaria. Não há nada de Hawks aí.

DCI: Há outro filme de Ford que é criticado, mas eu gostei muito quando vi: Mogambo.

Moniz Vianna: É, mas o elenco não é fordiano, sabe.

DCI: Todas aquelas estrelas (Clark Gable, Ava Gardner, Grace Kelly).

Moniz Vianna: Acho que ele não ficou à vontade. De fato, a versão anterior do filme, Red Dust, do Victor Fleming, com o mesmo Clark Gable, é superior.

DCI: E o Victor Fleming é só um artesão, ainda que possa fazer sucesso como no caso de …E o Vento Levou.

Moniz Vianna: …E o Vento Levou teve muitos diretores. O Fleming foi o segundo, ficou doente, depois voltou. O Sam Wood foi outro. Quem unificou tudo foi o William Cameron Menzes, que é o que se convencionou chamar de diretor de arte, mas eu não gosto do termo, porque confunde com o diretor e não esclarece o que é feito. O Menzes desenhava todas as cenas, e depois mandava fotografar. Ele fazia isso muito bem, mas não era um diretor; ocasionalmente dirigiu um filme ou outro. Fez vários filmes com o Sam Wood.

DCI: Ainda sobre as coletâneas de Moniz Vianna, uma poderia ser sobre o cinema brasileiro.

Moniz Vianna: Eu fui muito duro com os cineastas brasileiros. É que os filmes não são apreciados num vácuo, mas no contexto, e portanto precisava compará-los com a produção dos Estados Unidos, da França, da Alemanha.

DCI: Mas um CD-ROM publicado pela Embrafilme, Em Memória, inclui alguns artigos seus sobre cineastas brasileiros. E li no Correio da Manhã o seu artigo sobre A Grande Cidade, de Carlos Diegues, ao qual o senhor deu três estrelas no Conselho de Cinema do jornal. Eu também acho que o filme é bom.

Moniz Vianna: É, algumas vezes eu tentei encorajar os que seguiam no caminho do bom cinema…

DCI: Também poderia haver uma coletânea das filmografias.

Moniz Vianna: Acho que não. Estão superadas. Acho que escrevi 86 delas. Na época eram informações difíceis de conseguir sobre os filmes. Hoje, pela Internet, ficou mais fácil.

DCI: E os comentários sobre os filmes são sumários.

Moniz Vianna: Sim. Acho que não vale a pena.

DCI: Outro dia li que o Carlos Heitor Cony é apaixonado pela sua crítica sobre Seven Women (Sete Mulheres), o último filme de Ford.

Moniz Vianna: É um bom filme, mas não é dos melhores do Ford, não. É um Ford menor.

DCI: Tem a Anne Bancroft, que não é uma atriz fordiana.

Moniz Vianna: Mas tem outros que são, como o Woody Strode.

II

9-Fevereiro-2004

DCI: Dr. Antônio, já temos progresso sobre o seu livro?

Moniz Vianna: Não tem progresso, não.

DCI: Ah, que pena. Outro dia escrevi um artigo aqui no jornal, reclamando que saiu outro livro sobre o Alex Vianny, mas não saiu nenhum sobre Moniz Vianna.

Moniz Vianna: (Ri)

DCI: : E aquela idéia que eu lhe dei, de colocar todas as críticas num DVD, e uma seleção no livro?

Moniz Vianna: Eu não ligo muito para computador, não.

DCI: Mas o senhor me disse que tem um neto que é craque no computador.

Moniz Vianna: Ele está agora classificando, catalogando as minhas críticas. Por que tem muitas que eu não guardei.

DCI: Saiu um outro livro sobre John Ford, o senhor já o tem?

Moniz Vianna: Não sei. Assim, sem saber o título, não sei.

DCI: Bem, vou verificar o título, e se o senhor não tiver, vou lhe enviar.

Moniz Vianna: Não faça isso, não.

DCI: E aqui em São Paulo fizeram outra tese de mestrado a seu respeito, o senhor conhece?

Moniz Vianna: Não. Quem é o autor?

DCI: Leandro Mendonça.

Moniz Vianna: Não. Isso eu gostaria de ver.

DCI: Pedi uma cópia. Assim que receber, vou lhe enviar.

Moniz Vianna: Muito obrigado.

DCI: Eu tenho uma pessoa que talvez possa pesquisar suas críticas na Biblioteca Nacional para mim. Eu me lembro que era mais fácil, ali por 1966 a 1970, achar artigos seus na quarta-feira, na quinta-feira, na sexta e no domingo, mas não nos outros dias. O senhor se lembra quando costumava escrever?

Moniz Vianna: No começo eu escrevia todos os dias. Mas às vezes tinha outra coisa para fazer, aí não escrevia.

DCI: Bom, eu vou pesquisar melhor e lhe telefono outra vez.

Moniz Vianna: É sempre um prazer falar com você, Getulio.

III

13 de fevereiro de 2004

Moniz Vianna: Recebi aqui a tese que você mandou. Muito obrigado por mais esta gentileza.

DCI: O senhor já leu? Eu achei que ele não escreve tão bem como a moça do Rio que fez a tese anterior, mas só pelo fato de escolher Moniz Vianna como tema já indica que ele é inteligente…

Moniz Vianna: Ele não escreve mal, não. Mas vai um pouco em todas as direções… É que ele usa o estilo acadêmico do qual a Ângela fugiu, um estilo em que os acadêmicos conversam com eles mesmos, naquele isolamento. (Tosse)

DCI: O senhor ainda fuma?

Moniz Vianna: Cachimbo.

DCI: Mas eu vi fotos suas em que o senhor tinha um cigarro nas mãos.

Moniz Vianna: Mas isso foi há mais de 30 anos.

DCI: Ah. Acho que a Filme Cultura traz uma foto sua portando cigarro, junto com o Gary Cooper. O Correio da Manhã também publicava fotos suas.

Moniz Vianna: Isso eu não me lembro.

DCI: É, no conselho de cinema, ou melhor, na página anual com as listas dos melhores filmes do ano.

Moniz Vianna: Ah, mas publicava de todos. E era só de vez em quando, raro.

DCI: Eu tentei escanear algumas das suas críticas, mas fica muito ruim.

Moniz Vianna: Escanear é possível, e fica muito bom. A xerox fica muito ruim, você sabe.

DCI: Pois é, mas eu escaneei a partir da xerox. O computador não consegue converter em texto. Tem uma crítica sua, sobre Sciusciá (Vítimas da Tormenta) do De Sica, em que há o nome de um diretor ilegível. Parece ser o russo Nikolai Ekk, do filme O Caminho da Vida.

Moniz Vianna: Pode ser. Existiu um diretor chamado Nikolai Ekk. Mas não me lembro. Mas como é que você faz? Porque aí em São Paulo você não tem a coleção do Correio, não é?

DCI: Não. Tem uma pessoa fazendo cópias para mim aí no Rio.

Moniz Vianna: Uma seleção das críticas está para sair a qualquer momento.

DCI: O senhor me disse que seu neto está organizando.

Moniz Vianna: É, porque não poderiam ser publicadas sem minha autorização.

DCI: Não, claro. Seria ilegal, além de uma indelicadeza. Mas eu estava pensando em colocar as críticas no computador, e enviar para o senhor.

Moniz Vianna: Eu não pensei diferente. Mas ele é neto, acha que tem prerrogativas…

DCI: Porque as suas filhas tentaram, mas o senhor não concordou com elas, não é?

Moniz Vianna: Desta vez, não estou vendo nada. Só vou ver quando ficar pronto.

DCI: Mas que ótima notícia! Agora, eu queria lhe perguntar se o senhor se lembra quando colaborou na Visão. O senhor me disse que foi a pedido do Jorge Leão Teixeira, que era seu amigo. Ele começou na revista em 1959.

Moniz Vianna: Mas na Visão os textos não tinham assinatura, por isso não são reconhecidos.

DCI: E os artigos de A Cigarra, o senhor se lembra quando saíram?

Moniz Vianna: Não. Escrevi entre outros um sobre Hitchcock, outro sobre o Nick (Nicholas) Ray.

DCI: Agora, doutor Antônio, quando o senhor começou a escrever críticas, em 1946, o senhor era um jovem médico, não é?

Moniz Vianna: Não, estudante.

DCI: Mas, naquela época, o que é que o sr. lia?

Moniz Vianna: (Ri) Eu lia muito. Fui criado numa casa com uma grande biblioteca. Com 8, 9, 10, 11 anos, li toda a coleção Terra, Mar e Ar. Você conhece?

DCI: Não, mas são livros de aventura, não é?

Moniz Vianna: Sim, mas tinha histórias do Tarzã, A ilha do tesouro, O último dos mohicanos. Depois li muitos livros policiais, eu tinha toda a famosa Coleção Amarela, com obras de Edgar Wallace, Agatha Christie. Li muita poesia: Bilac, Castro Alves, Álvares de Azevedo. É isso que a minha geração lia.

DCI: É interessante o senhor falar isso, porque as críticas suas que eu li, na década de 1960, tinham um ritmo da língua que lembram a poesia.

Moniz Vianna: Não sei, não. Depois li Anatole France, Dostoievsky. Sempre li muito.

DCI: Mesmos os seus textos da década de 1940, que li agora, são bons. Alguns incluem certas expressões datadas, que eram daquela época, mas são bons.

Moniz Vianna: Eu não gosto. O estilo muda, não é? Acho que é natural, prefiro os textos posteriores.

DCI: A moça da primeira tese disse que ouviu do senhor a preferência pelos textos da segunda metade dos anos 1950 em diante.

Moniz Vianna: É possível que ela tenha entendido isso. Mas há textos anteriores que eu gosto.

DCI: A crítica de Les Enfants du Paradis, que o senhor publicou em quatro partes, o sr. me disse que gosta, e é anterior, não é?

Moniz Vianna: De 1949. Mas saiu com erros, pularam linhas.

DCI: E o artigo sobre John Ford, o último que o senhor escreveu, o sr. gosta?

Moniz Vianna: É um artigo normal. Foi quando ele morreu, uma homenagem.

DCI: E hoje em dia, o senhor não gosta mesmo de nada?

Moniz Vianna: De vez em quando vou ao cinema, porque meu neto me leva. Mas não gosto de nada, não.

DCI: Nada mesmo?

Moniz Vianna: O Gladiador é interessante. Também gostei de O Pianista, acho que é um filme muito bom.

DCI: O Gladiador é uma refilmagem do filme de Anthony Mann, A Queda do Império Romano.

Moniz Vianna: É praticamente uma refilmagem, sim, inspirado nele.

DCI: E quando o senhor começou, o sr. lia outros críticos?

Moniz Vianna: Crítico sempre lê outros críticos.

DCI: Mas havia alguém que o senhor apreciava?

Moniz Vianna: No Brasil?

DCI: No exterior.

Moniz Vianna: É, no Brasil não havia revistas de cinema, só A Cena Muda já acabando. Depois surgiu uma revista espanhola, Cinelândia, que era uma bobagem. Não havia nada no que se inspirar. Os críticos americanos sempre foram ruins, e não era fácil ter acesso ao The New York Times naquela época. Os livros americanos que tratam da história do cinema ou de algum gênero são bons, ao contrário dos franceses, que vão em todas as direções. Os americanos são autores de livros, mas não são críticos.

DCI: As revistas foram surgir na década de 1950.

Moniz Vianna: Sim. As fichas técnicas que eu publicava nas críticas, por exemplo, eu anotava à mão vendo os filmes. Nos cartazes da entrada vinham os nomes dos principais atores, do produtor, do diretor, e às vezes do roteirista, que na época não chamávamos assim.

DCI: Era cenarista.

Moniz Vianna: Isso. O autor da música, por exemplo, raramente tinha. Depois, com o tempo, não precisava mais anotar, porque os estúdios tinham apenas alguns maestros, eu já sabia. O Alfred Newman, por exemplo, fazia quase todas as músicas de filmes da Fox.

DCI: A filmografia do Ford, por exemplo, o senhor nunca escreveu comentando os filmes.

Moniz Vianna: Mas hoje há várias filmografias de John Ford, muito bem feitas.

DCI: Mas não têm os comentários de Moniz Vianna.

Moniz Vianna: Não tem. Nas filmografias que escrevi, os comentários sobre os filmes eram muito sumários. Já sobre Ford, não poderiam ser tão sumários.

IV

6-Abril-2004

DCI: Dr. Antônio, preciso reclamar do estado das cópias de jornais da Biblioteca Nacional. Tem um dos dois artigos que o senhor escreveu sobre Gideon of the Scotland Yard (Um Crime Por Dia) que não dá para ler nem com a lupa. O seu livro precisa sair logo. O senhor já aprovou o projeto? Seu neto já lhe mostrou?

Moniz Vianna: Não estou acompanhando o trabalho. Nem tomo conhecimento. O meu neto, Eduardo Moniz Vianna, e o Ruy Castro é que estão organizando.

DCI: Será muito bom. Eu lhe mandei alguns artigos antigos do Bosley Crowther, do The New York Times, sobre filmes do John Ford, o senhor recebeu?

Moniz Vianna: Quando é que você mandou?

DCI: Há uns dez dias.

Moniz Vianna: Não recebi, não. Francamente, não gosto muito do Bosley Crowther, não.

DCI: Eu procurei para comparar a reação americana com os seus artigos. Comparado com Moniz Vianna, ele é irrelevante!

Moniz Vianna: Não, não.

DCI: Alguns dos artigos, no início da década de 1940, não são do Crowther, mas do Frank S. Nugent, que depois seria roteirista do Ford.

Moniz Vianna: Ele era o segundo crítico do jornal.

DCI: Mas de vez em quando ainda surge um bom filme?

Moniz Vianna: Você gosta?

DCI: Ah, de alguns filmes, sim. O Bravehart (Coração Valente) do Mel Gibson é interessante.

Moniz Vianna: É um filme razoável.

DCI: Fora dos Estados Unidos também surgem coisas interessantes. Hotel Terminus, do Marcel Ophüls, filho do velho Max, um documentário de quatro horas sobre o nazismo, é um bom filme.

Moniz Vianna: Quatro horas! Antigamente o cinema contava tudo em uma hora e quarenta minutos. Quando eu penso que o sujeito hoje precisa de quatro horas, nem sei o que dizer. Não vi esse filme

DCI: O Eric Rohmer tem alguns filmes interessantes.

Moniz Vianna: Eu não gosto do Eric Rohmer..

DCI: Eu vi também um filme daquele cineasta dinamarquês sobre os EUA, Dogville, que no começo é meio chato, meio teatro, mas depois vai crescendo.

Moniz Vianna: Lars von Trier. Também não vi o filme.

DCI: Pois é, ele começou com um grupo que só queria ouvir música nos filmes quando houvesse música realmente.

Moniz Vianna: O grupo Dogma.

DCI: O seu livro já tem uma editora?

Moniz Vianna: Sim, a Companhia das Letras. Mas eu não estou acompanhando isso, por mim nem sairia. É idéia do meu neto e de mais algumas pessoas.

DCI: Mas nem sobre outro assunto, o senhor não escreve? O senhor gosta de escrever, não gosta?

Moniz Vianna: Escrever, a gente gosta, e não gosta.’



ANIMAÇÃO & MÍDIA
Diego Assis

‘Incríveis milionários’, copyright Folha de S. Paulo, 28/11/04

‘Acabaram as apostas. A animação é um dos melhores negócios de Hollywood atualmente e não se fala mais nisso. Ou fala?

Pois sejamos claros: dos cinco filmes mais vistos na semana passada nos EUA, três eram animações. Juntos, ‘Os Incríveis’, da Pixar/Disney, ‘Bob Esponja’, da Nickelodeon/Paramount, e ‘O Expresso Polar’, da Warner, ocupavam no mesmo período mais de 10 mil telas de cinema do país.

O que isso mostra é que não se pode mais associar exclusivamente os filmes de animação com o mercado infantil.

‘A chave é demográfica e começa com as crianças empurrando seus pais para o cinema. Mas a razão do sucesso desses filmes de animação é que eles tentam apelar para diferentes níveis de sensibilidade: crianças, adultos, universitários. São filmes-família’, explicou à Folha Tim Hill, roteirista do desenho ‘Bob Esponja’, que, apesar de empregar técnicas tradicionais de animação 2D, já conseguiu se pagar logo no primeiro final de semana em cartaz.

‘Do ponto de vista da Pixar, um bom filme é aquele que conta uma boa história. Não importa se é contada com o computador, com uma câmera ou com animação em 2D’, disse por telefone o executivo da Pixar Bill Kinder.

Um exemplo é ‘O Rei Leão’, animação em 2D da Disney que, em 1994, ultrapassou os US$ 700 milhões em bilheterias internacionais, colocando o filme na terceira posição das animações mais vistas da história -os dois primeiros são ‘Procurando Nemo’ (2003), da Disney/Pixar, e ‘Shrek 2’, da DreamWorks, que faturaram mais de US$ 800 milhões.

Mas tudo indica que, se continuar na trajetória iniciada com sua estréia no último dia 5 nos EUA, ‘Os Incríveis’ deverão se consolidar como os novos gigantes da Pixar. A saga da família de super-heróis forçosamente aposentada pelo governo, que chega ao Brasil em 10/12, já está perto dos US$ 200 milhões em bilheterias (mais do que o dobro dos US$ 92 milhões de seus custos).

Parece impressionante? Bem, talvez nem tanto quanto os US$ 185 milhões arrecadados em uma semana de vendas do DVD de ‘Shrek 2’, o supertrunfo da rival DreamWorks, de Steven Spielberg e Jeffrey Katzenberg. Passando a régua -o que ainda é prematuro, pois o DVD continua entre os dez mais vendidos do site amazon.com- o ogro já rendeu à cia. mais de US$ 1 bilhão.

‘O desempenho da animação tem sido um dos melhores de toda a indústria de entretenimento. Com um investimento de US$ 100 milhões, um filme pode fazer entre US$ 500 milhões e US$ 700 milhões. Dificilmente você encontra investimentos tão lucrativos assim em outros lugares’, avalia Jessica Reif, analista de mídia e entretenimento do banco americano Merryl Lynch.

Desde o final de outubro, data em que a DreamWorks disponibilizou parte de suas ações na Bolsa de Valores de Nova York, os papéis dessas companhias só têm valorizado. Catapultado pelo lançamento de ‘O Espanta Tubarões’, no início daquele mês, o aumento dos preços dos papéis da DreamWorks já é de 37,5%.

Disney e Pixar, que desde meados de agosto cresceu cerca de 30% na Nasdaq, tiveram entre outubro e a semana passada ações vendidas por valores de 8% a 10% maiores, respectivamente.

‘Os investimentos não param de crescer, mas com certeza nem todos os lançamentos vão atingir as metas de lucro sonhadas pelos investidores’, pondera Carlos Saldanha, diretor de animação do Blue Sky Studios, braço de animação digital da Fox, que realizou o também bem-sucedido ‘A Era do Gelo’ (2002). ‘Apesar de ter custado US$ 160 milhões e de ter a voz de Tom Hanks, ‘O Expresso Polar’, da Warner, não foi bom o suficiente para bater ‘Os Incríveis’, da Pixar’, alfineta.

Indicado ao Oscar de curta de animação deste ano, Saldanha, que atualmente trabalha em dois novos projetos da Fox, ‘Robots’ (2005) e ‘A Era do Gelo 2’ (2006), afirma que a briga está só começando. ‘Os recordes de bilheteria vêm sendo batidos por filmes de animação, não por filmes de Tom Cruise ou de Spielberg. Daqui para a frente, teremos a cada ano pelo menos um novo lançamento de animação por estúdio’, promete.’

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‘Fenômeno se repete no Brasil’, copyright Folha de S. Paulo, 28/11/04

‘O sucesso dos filmes de animação nos EUA é um fenômeno que vem se repetindo nos últimos anos também no Brasil. Dos dois principais blockbusters do gênero, ‘Procurando Nemo’, da Disney/Pixar, e ‘Shrek 2’, da DreamWorks, ambos ultrapassaram os 4,5 milhões de espectadores.

Por aqui, os resultados de bilheteria são medidos em número de pagantes e não pelo valor do ingresso, como ocorre nos EUA.

Segundo levantamento do instituto Filme B, no início de novembro, a nova animação da DreamWorks, o razoável ‘O Espanta Tubarões’, com apenas cinco semanas em cartaz, já atingia a marca de 1,7 milhões de pessoas no país e era o segundo filme mais visto ainda em cartaz depois do épico nacional ‘Olga’, que ultrapassava 3 milhões de espectadores, com 12 semanas em cartaz.

Da nova safra de animações que disputa a atenção do público americano, ‘O Expresso Polar’, da Warner, estreou na última sexta-feira em um grande número de salas de São Paulo.

‘Os Incríveis’, da Disney/Pixar, chega por aqui no próximo dia 10. A animação já tem pré-estréia em algumas capitais do país hoje.

‘Bob Esponja: O Filme’ está previsto para estrear em 24 de dezembro. O desenho animado é também exibido por aqui em formato de série pelo canal de TV paga Nickelodeon.

Um dos recursos para alavancar a audiência desses desenhos, que trazem consigo vultuosas ações de marketing, é semelhante no Brasil e nos EUA: o lançamento em um grande número de salas. ‘Nemo’, por exemplo, ocupou 313 salas, em sua estréia em 4 de julho de 2003. ‘Shrek 2’, que chegou ao país em junho deste ano, é o recordista da categoria, com 450 salas. Já ‘O Espanta Tubarões’ estreou em 342 salas.’

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‘Para especialistas, futuro não é só digital’, copyright Folha de S. Paulo, 28/11/04

‘3D ou não 3D? Eis a questão. Não necessariamente, é o que disseram à Folha os especialistas. O que conta no sucesso de uma produção desse tipo, concordam todos eles, é a qualidade da história.

‘Essa discussão toda lembra muito o que a gente ouvia quando apareceu o DVD, que era vendido como algo que tinha qualidade de cinema, enquanto as salas estavam deteriorando com qualidade de som e imagem lamentáveis’, diz Eduardo Rosemback, diretor de marketing da Disney no Brasil. ‘Diziam que o mercado de cinema iria morrer naquele momento, e não foi o que aconteceu. E com essa coisa do 2D versus 3D parece que estamos revivendo aquele momento, precipitando a morte de um formato que ainda tem muito para render.’

‘A novidade deste ano é o filme ‘Bob Esponja’, que apesar de ser 2D, está conseguindo um bom desempenho. O que importa é um bom filme, com personagens interessantes e uma história engraçada, não a técnica utilizada’, concorda Carlos Saldanha, diretor de ‘A Era do Gelo’.

O ônus da prova, porém, continua com as produções criadas em computação gráfica. O principal desafio para os animadores atualmente é vencer a resistência do público diante dos humanos modelados por computador.

Realismo, pero no mucho

‘Já criamos personagens humanos antes, mas sempre secundários. Em ‘Os Incríveis’ é a primeira vez que os fazemos como personagens principais. Eles expressam emoções humanas, mas você olha e percebe que são bastante caricatos’, disse Bill Kinder, da Pixar.

Todo o esforço empregado em ‘O Expresso Polar’, que funciona claramente bem para os cenários, não resolve ainda o problema da verossimilhança na animação. O filme de Robert Zemeckis empregou uma técnica chamada ‘mo-cap’, que consiste em instalar sensores faciais e corporais nos atores e depois retrabalhar sua aparência por computador.

O recurso também foi usado à vontade em ‘Matrix Reloaded’, o que resultou em lutas corpo-a-corpo em que os cabelos dos personagens mal saíam do lugar.

‘Houve uma época em que os filmes em live-action [com atores] tentavam usar a tecnologia para transportá-los a universos mais lúdicos. Agora, ocorre uma inversão. Como já dá para fazer praticamente tudo com a tecnologia, a preocupação é lutar para não cair de volta na realidade’, opina Rosemback.

Ainda que dos 43 longas produzidos nos últimos dez anos pelos estúdios norte-americanos apenas 15 empreguem técnicas de computação, uma rápida passada de olhos pelos lançamentos de 2005 – ‘Cars’ (Disney/Pixar), ‘Chicken Little’ (Disney), ‘Madagascar’ e ‘Wallace and Gromitt’ (DreamWorks) e ‘Robots’ (Blue Sky/Fox)- comprova: o futuro é tridimensional.

‘A fórmula é que não existe fórmula. A forma deve estar a serviço da história, não o contrário’, desconversa Rosemback.’

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‘Sem Pixar, Disney investe em estúdio próprio’, copyright Folha de S. Paulo, 28/11/04

Fsp, 28

‘Uma das grandes interrogações da indústria da animação atual não diz respeito a um futuro muito distante. Com a estréia em 4 de novembro de 2005 do longa-metragem ‘Cars’, dirigido por John Lasseter, o principal talento por trás da Pixar, acaba-se a parceria entre o estúdio e a Disney.

Steve Jobs, presidente da fabricante de computadores Apple e também da Pixar, anunciou no início do ano que não pretende renovar o contrato de distribuição que regeu o lançamento de seus seis primeiros filmes (‘Toy Story’, ‘Toy Story 2’, ‘Vida de Inseto’, ‘Monstros S.A.’, ‘Procurando Nemo’ e ‘Os Incríveis’).

Michael Eisner, atual chefão da Disney, nunca escondeu a disposição de continuar com a dobradinha. Um dos principais trunfos que o empresário tem na mão é que os direitos dos filmes não podem ser reclamados pela Pixar.

‘A Pixar não é dona de seus próprios filmes. Se fizer um novo acordo, certamente a companhia vai dobrar de valor’, afirma Jessica Reif, analista financeira do Merryl Lynch. ‘Mas é certo que, se houver esse acordo, a Pixar pagará uma taxa mais baixa pela distribuição dos novos filmes.’

Independentemente da renovação ou não do contrato, a Disney já se adiantou e tem investido em um estúdio próprio de animação por computador. Entre os projetos que já estão sendo tocados pelo estúdio estão ‘Chicken Little’, primeiro longa 100% em computador que a Disney faz com as próprias pernas, e ‘Toy Story 3’, ainda sem confirmação.

‘A Disney está preparada para isso há mais de uma década. Desde 96 investimos em um núcleo de computação gráfica, que trabalhou em cenas de filmes como ‘Mulan’, ‘Tarzan’ e ‘Dinossauro’, revela o diretor de marketing Eduardo Rosemback.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > CÁTEDRA OCTAVIO FRIAS DE OLIVEIRA

Getulio Bittencourt

Por lgarcia em 27/02/2002 na edição 161

CÁTEDRA OCTAVIO FRIAS DE OLIVEIRA

"Uma cátedra para Octavio Frias, pai", copyright DCI, 26/02/02

"Conheci Octavio Frias de Oliveira, o principal acionista da ?Folha de S. Paulo?, como repórter iniciante de seu jornal em 1974. Recebi então da editoria de cidade uma tarefa difícil, a de entrevistar o prefeito de São Paulo sobre a rodoviária paulistana, que ficava defronte à estação Júlio Prestes, no final da avenida Duque de Caxias, e pertencia, entre todos os empresários, ao próprio Frias.

A história foi publicada numa página inteira do jornal, e naquele dia, de passagem pela redação, Frias veio conversar comigo. Ele tinha várias perguntas apropriadas ao tema, do ponto de vista estritamente jornalístico, que eu deveria ter feito, mas não fiz. No fim, com sua franqueza às vezes brutal, ele concluiu: ?Bom, você não estava preparado para esta entrevista, não é??

Tive que admitir que era verdade.

A lenda no jornal dizia que ele começou a vida como contador, mas os anos, e sua incrível vivacidade, de fato fizeram dele um repórter mais perspicaz que os melhores na sua equipe. Quando comecei a participar dos almoços semanais de visitantes ilustres com editores na ?Folha?, aprendi muito com o seu estilo direto, honesto e implacável de fazer perguntas. Lendo seu próprio jornal, ele freqüentemente sabia mais do que as páginas revelavam, especialmente as de Economia, uma seção em que felizmente nunca trabalhei na sua casa.

A argúcia que Frias usa para indagar serve também para escolher talentos. Certa vez, o governador paulista Laudo Natel lhe telefonou, queixando-se que o prefeito paulistano José Carlos de Figueiredo Ferraz recebia melhor cobertura na ?Folha? do que ele. Frias ouviu a queixa e pesquisou o jornal por alguns dias. Depois, ligou de volta para Natel e sugeriu:

?Laudo, você deve contratar o assessor de imprensa do Figueiredo Ferraz. É um rapaz chamado Boris Casoy. Ele é muito esperto. Manda para nós uma série de notícias curtas sobre assuntos diferentes; é por isso que o Figueiredo Ferraz aparece em várias páginas. Já o seu pessoal manda poucas notas, e muito longas, que são mais difíceis de aproveitar?.

Infelizmente para a divulgação do governo estadual, Laudo Natel não seguiu o conselho. Frias acabou contratando Casoy, primeiro para fazer a coluna ?Painel?, e mais tarde, com a saída de Cláudio Abramo, para dirigir o jornal.

O grande Cláudio Abramo foi um dos talentos que Frias trouxe para relançar a ?Folha? no período da distensão lenta, gradual e segura do governo Ernesto Geisel. Outros, além de Casoy, foram Alberto Dines, Paulo Francis, Tarso de Castro, Mauro Santayana, Osvaldo Peralva, Samuel Wainer. Francis descreveu o grupo, numa conversa com Dines, como ?os comunistas do Frias?.

Mas a ?Folha? é o grande jornal que se tornou hoje também graças a Octávio Frias de Oliveira. O primeiro Grande Prêmio Esso da história da ?Folha?, concedido à entrevista que Haroldo Cerqueira Lima e eu fizemos com o general João Baptista Figueiredo em 1978, só foi publicada porque o editor-chefe da época (Boris Casoy) foi liberado por Frias para usar critérios puramente editoriais nessa decisão.

Cláudio Abramo, então assessor de Frias, ao encontrar-me no elevador alguns dias depois, me disse que se fosse o editor-chefe jamais publicaria aquela entrevista agressiva. Cláudio, por ser trotskista como Francis, talvez fosse mais uma vez para a cadeia se o fizesse, enquanto Boris, com um perfil conservador, não seria visto como um agente provocador contra a ditadura militar.

Só voltei a encontrá-lo no final da década de 1980, quando secretário de Comunicação Social do governo Sarney. Sempre em busca da notícia, ele me pediu uma entrevista exclusiva com o presidente da República para relançar a carreira de seu amigo Cláudio Abramo, que publicaria em grande estilo e duas páginas. Ele tornou-se desde ontem, merecidamente, nome de cátedra numa faculdade de jornalismo."

 

"Fiam homenageia publisher da Folha", copyright Folha de S. Paulo, 24/02/02

"O empresário Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, recebe amanhã às 20h30 o título de professor honoris causa da Fiam (Faculdades Integradas Alcântara Machado), em São Paulo. O evento faz parte das comemorações do 30? aniversário da instituição e homenageia os 40 anos do empresário à frente do Grupo Folha.

Também amanhã será inaugurada a Cátedra de Jornalismo Octavio Frias de Oliveira, que vai promover simpósios acadêmicos durante todo o ano, concurso de reportagem e outras iniciativas ligadas à comunicação.

A cátedra é a primeira de uma série de parcerias entre faculdades e empresas jornalísticas que a Fiam pretende realizar, segundo seu diretor, José Marques de Melo. A escola oferece cinco cursos de comunicação com 1.800 alunos -882 deles estudam jornalismo.

No seminário de amanhã, falam o diretor editorial da Folha, Otavio Frias Filho, o diretor-adjunto do jornal ?Valor Econômico?, Carlos Eduardo Lins da Silva, o colunista da Folha Clóvis Rossi e o jornalista Boris Casoy, âncora do ?Jornal da Record?.

Participa da solenidade o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, representando o presidente da República.

O título de professor honoris causa será entregue por Edevaldo Alves da Silva, presidente do grupo que mantém, além da Fiam, a FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) e a Faam (Faculdade de Artes Alcântara Machado). ?É uma homenagem a um guardião da liberdade de informação no país?, afirma Alves da Silva.

Como publisher da Folha, Frias revolucionou o modo de fazer jornalismo no Brasil, avalia Lins da Silva, 49. Inovou tecnicamente, com a impressão offset e a composição a frio, e implantou o projeto editorial que, alicerçado na isenção e no pluralismo, transformou a Folha no jornal de maior circulação do país.

?Foi a ?invenção? da independência como ativo jornalístico?, diz Clóvis Rossi, 59. Até então, afirma, o jornalismo brasileiro servia para defender causas políticas e interesses particulares.

?É o melhor empresário que conheço. Tem um surpreendente conhecimento do ser humano e um grande amor pelo país?, diz Boris Casoy, 61, que chefiou a Redação da Folha por nove anos, nas décadas de 70 e 80."

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