Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > SEXTA-FEIRA, 6/01

Gil responde Caetano e
garante secretário no cargo

Por Luiz Antonio Magalhães em 06/01/2006 na edição 362

A polêmica envolvendo o ministério da Cultura ganhou mais espaço nesta sexta-feira com a resposta do ministro Gilberto Gil, publicada em todos os grandes jornais, à carta aberta de Caetano Veloso em que o compositor e cantor baiano hipotecava solidariedade ao poeta Ferreira Gullar na refrega deste com o secretário de Políticas Culturais no Ministério da Cultura, Sérgio Sá Leitão. Gil garantiu que o secretário fica no cargo, apesar da pressão de um grupo de artistas por sua demissão.


Outro tema de destaque do dia é a revelação, na Folha, que o diário londrino Daily Telegraph publicou reportagem, ‘sob o título ‘Carne barata brasileira importada é ‘subsidiada por trabalho escravo’’, em que o autor do estudo, o produtor rural David Ismail, descreve as condições que diz ter encontrado em fazendas do ‘Brasil central’, sem especificar que Estados foram visitados.’ A Folha traz também a defesa dos pecuaristas, que vêem na matéria a ação de um poderoso lobby comercial.


Os jornais também publicam nesta sexta artigos comentando a minissérie sobre a vida de Juscelino Kubitschek: na Folha, José Sarney escreve sobre o tema e no Estado, Ignácio de Loyola Brandão dedica sua coluna semanal à autora da minissérie, Maria Adelaide do Amaral.


Leia abaixo os textos desta sexta-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Sexta-feira, 6 de janeiro de 2006


CAETANO vs. GIL
Silvana Arantes


Barraco na cultura


‘O ministro Gilberto Gil tem nas mãos um pedido de degola de seu secretário de Políticas Culturais no Ministério da Cultura, Sérgio Sá Leitão. E também outro pedido, para que Sá Leitão fique.


Gilberto Gil está sob fogo cruzado. Caetano Veloso, Oscar Niemeyer, Fernanda Montenegro, João Ubaldo Ribeiro estão entre as assinaturas do texto contra Sá Leitão. O manifesto foi organizado pelo cineasta Zelito Viana e pelo produtor Luiz Carlos Barreto, com a intenção de obter de Gil e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a cabeça do secretário.


Ontem, em carta aberta publicada pela coluna de Mônica Bergamo, na Ilustrada, Caetano atacou Sá Leitão e o comportamento do MinC, afirmando que, quando um ministério ‘exige adesão total às suas decisões, estamos a um passo do totalitarismo’.


Caetano defendeu Gullar e cineastas que foram chamados de privilegiados pelo secretário. Na carta, o parceiro de Gil refere-se de maneira crítica ao projeto (que acabou arquivado) da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), visto por setores da produção de cinema e da TV como autoritário e centralizador.


Do lado dos que defendem Sá Leitão, os nomes mais conhecidos são os da professora de cinema Ivana Bentes e o do cineasta Joel Zito Araújo, que apoiavam a criação da Ancinav.


As outras 184 assinaturas no documento em favor do secretário e da ‘radicalização democrática das políticas culturais’ não têm relevo nacional -e esse é um ingrediente da disputa. ‘Quanto mais a pequena elite grita, mais fica patente que as políticas públicas do governo são efetivamente democratizantes’, diz Bentes.


O ministro enfrentou o tiroteio ontem. ‘Não li’, disse, a respeito da carta de Caetano. Mas afirmou que, ‘se querem a cabeça de Sá Leitão, não vão ter’. Gil estava no Rio de Janeiro, acompanhado de Sá Leitão, para divulgar a Copa da Cultura, que o MinC promoverá na Alemanha, em paralelo ao Mundial de futebol.


A origem do bafafá foi a crítica que o poeta e colunista da Folha Ferreira Gullar fez à ‘centralização’ da gestão Gil no MinC (Ministério da Cultura), durante Sabatina Folha, no último dia 21. Sá Leitão revidou em carta à Folha, classificando o poeta de ‘stalinista’, referência ao regime totalitário do ditador soviético Josef Stalin (1879-1953) -e o barraco começou (leia quadro abaixo).


Para Sá Leitão, o ‘objetivo da celeuma’ não é propriamente defender Gullar, mas preservar canais de acesso aos cofres do governo no financiamento do cinema e de outras obras culturais.


Gil modificou em sua gestão as regras de patrocínio das empresas estatais, visando a distribuir o dinheiro entre mais projetos e mais Estados do país.


No MinC, essa política é chamada de ‘descentralização’ e encarada como ‘o fim do balcão’ de atendimento especial para pedidos de patrocínio apresentados por artistas consagrados.


‘Essas pessoas não se conformam com regras republicanas e tratamento democrático, porque agora elas são tratadas como todos os outros produtores culturais deste país’, diz Sá Leitão.


O secretário afirma que Barreto atribui a ele a responsabilidade por não ter vencido os últimos concursos de patrocínio da Petrobras (maior investidora em cinema do país) e do BNDES, cujas regras de seleção também mudaram. A Folha tentou ouvir Barreto, que preferiu não se manifestar.


O debate do MinC com Gullar reacende as duas maiores polêmicas que Gil enfrentou no ministério. Na primeira, a do ‘dirigismo cultural’, o cineasta Cacá Diegues esteve ao seu lado. Na segunda, sobre a Ancinav, não. Agora, Diegues está contra Sá Leitão:


‘É inadmissível que um servidor público se dirija a um cidadão brasileiro nos termos em que esse rapaz se dirigiu. Ainda mais se tratando de um brasileiro como Ferreira Gullar. O ministro Gil sempre responde às críticas que recebe, justas ou injustas, de um modo cortês e altivo. Não há razão nenhuma para que um assessor seu seja tão grosseiro’, diz.


Foi Diegues quem classificou como tentativa de ‘dirigismo cultural’ as regras de patrocínio estatal formuladas pela Secretaria de Comunicação, em 2003 (à época sob comando de Luiz Gushiken). Previam contrapartida social e adequação dos projetos a políticas de governo.


Gil discordava de Gushiken e, com a gritaria dos cineastas, venceu a queda-de-braço e recebeu de Lula a missão de formular as políticas de patrocínio do governo. Em 2004, Gil quis dar um passo além, com a criação da Ancinav, que teria a função de regular os setores de TV e cinema.


Acusada de autoritária por Barreto, Diegues e outros representantes do cinema e da TV, a proposta foi abortada pelo governo, na maior derrota de Gil até aqui.


Mas as marcas do debate estão longe de cicatrizar. ‘Barreto e Zelito encabeçaram o debate contra a Ancinav nos mesmos termos que estão fazendo agora’, diz Bentes.


O cineasta Domingos Oliveira delineia a questão incômoda à esquerda e à direita. ‘É incrível o governo não ter se levantado contra o cinema sustentado pelas leis de renúncia fiscal. Isso inflacionou o mercado de modo artificial, porque o dinheiro não custa nada para ninguém e divorciou o cinema do público, porque não importa a bilheteria do filme, mas quanto ele capta.’’


Sérgio Rangel


Secretário fica no ministério, promete Gil


‘O ministro da Cultura, Gilberto Gil, defendeu Sérgio Sá Leitão, seu secretário de Políticas Públicas, e disse que ele fica no cargo. Leia a entrevista que Gil deu à Folha, ao lado de Sá Leitão.


Folha – O que o sr. achou da carta do Caetano Veloso, ontem na Folha, criticando Sá Leitão e o MinC?


Gilberto Gil – Não li. Ainda não li.


Folha – E o abaixo-assinado de 30 intelectuais enviado ao presidente Lula e ao sr. contra Sá Leitão?


Gil – É direito que cabe a todos. Estamos num Estado de Direito, de democracia. A cidadania se manifesta. Governo se manifesta. Povo se manifesta.


Folha – O que o sr. acha da afirmação do cineasta Zelito Viana de que o abaixo-assinado tem como objetivo ‘a cabeça’ de Sá Leitão?


Gil-[risos] Não terão.


Folha- Por quê?


Gil- É meu secretário, competente, trabalha em sintonia. Não estamos diante de nada que o desqualifique. O diálogo é assim. As pessoas se manifestam.


Folha – O que o sr. achou das críticas de Ferreira Gullar?


Gil – As críticas do Ferreira Gullar são as críticas do Ferreira Gullar. Quem sabe é ele.


Folha- Pretende encontrá-lo?


Gil – Encontro com todos. Se ele quiser, eu o encontro.


Folha – Voltando à carta de Caetano Veloso…


Gil – Não li, mas a Flora [Gil, sua mulher] me disse que ele foi carinhoso. Disse que me amava. Isto não vai abalar a nossa amizade. Fortalecerá ainda mais. Por sinal, mostra que pelo menos ele está tentando acompanhar.’



Editorial


Polêmica Na Cultura


‘Desde que foi criado, em 1985, o Ministério da Cultura padece de indefinição funcional. A polêmica atual em torno dos excessos do ministério ressalta certa desimportância do órgão e expõe a rarefação institucional vigente na casa.


Em sabatina promovida por esta Folha, o poeta Ferreira Gullar criticou de forma polida a política cultural do governo, que acusou de centralista. Em resposta, publicada neste mesmo jornal, o MinC elevou o tom e acusou o poeta de stalinismo. Setores da classe artística mobilizaram-se em defesa de Gullar, e o ministro Gilberto Gil enfrenta agora uma tormenta que traz à tona as incongruências de sua gestão.


A carta do ministério, assinada pelo secretário de Políticas Culturais, Sérgio Sá Leitão, é desmesurada. Um órgão do Estado não deveria rebater críticas -saudáveis e necessárias em regimes democráticos, frise-se- nos termos empregados com Gullar.


Inegável é o fato de que o MinC apresentou inclinações centralistas na atual gestão. O exemplo mais eloqüente foi a malfadada proposta de criação, em 2004, da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav). Destinado a regular as atividades do cinema, da televisão e das telecomunicações, o órgão reforçava de modo exponencial a ingerência do Estado sobre a cultura no país.


Some-se a isso o envolvimento insuficiente do ministro com o dia-a-dia de sua pasta. Ocupado em lapidar a imagem do país em viagens e ‘happenings’ no exterior, ausenta-se do posto em momentos decisivos.


Em que pese o caráter pontual do episódio polêmico -que também reacende rivalidades antigas da classe artística-, espera-se que o Ministério da Cultura seja capaz de dele fazer alguma autocrítica para orientar de modo mais claro suas diretrizes.’


JK NA GLOBO
José Sarney


Uma leitura de Juscelino


‘A minissérie na televisão sobre o presidente Juscelino Kubitschek desperta curiosidade sobre sua figura humana e sua participação na história do Brasil. A linguagem do cinema e da TV é uma leitura diferente. A realidade é uma outra ficção.


Sou um dos poucos políticos que viveram no Congresso Nacional aqueles tempos e tenho autoridade maior para falar sobre ele, porque fui seu adversário, vice-líder da oposição ao seu governo, a famosa ‘banda de música’ comandada por Carlos Lacerda.


Não tive nenhum contato com o presidente durante seu governo. Ao contrário, fui duro nas críticas, hoje por mim consideradas injustas. Mas juntei-me a um pequeno grupo de deputados -Ferro Costa, Seixas Dória, Haroldo Carvalho, Edílson Távora e outros- para divergir da UDN clássica e fixar o combate a Juscelino no seu abandono da parte social. Lançamos, de maneira pioneira no país, o tema do ‘Desenvolvimento sim, mas com justiça social’. Era o tempo da bossa nova na música, e Carlos Castello Branco, o grande jornalista, foi no embalo da marca e apelidou aquele grupo de ‘UDN Bossa Nova’; Murilo Melo Filho chamava-a ‘UDN de Macacão’. Foi em grande parte com esse enfoque que Jânio Quadros montou o seu discurso de campanha.


Fiquei amigo do presidente Juscelino depois que deixou o governo e mais ainda quando foi perseguido. Ele mesmo dizia ser eu o seu amigo ‘do ostracismo’. Nossa aproximação aconteceu por tê-lo recebido no Maranhão, na véspera do AI-5. Ele foi preso e foi aberta uma sindicância contra mim por tê-lo recebido e homenageado sendo ele cassado e inimigo do regime.


A grande marca do Juscelino foi ter mudado a mentalidade do país. Até sua presidência, o país não tinha visão de planejamento e caracterizava-se pela cultura do famoso ‘abismo’, condenado a nada dar certo, à luta de facções. Juscelino foi o ponta-pé da modernidade.


Por outro lado, sobressai sua competência em lidar com a democracia. Ele assumira condenado a ser deposto. Os perdedores do golpe de 55 estavam com as feridas abertas. O Exército, dividido com a perseguição aos oficiais envolvidos na República do Galeão e no Onze de Novembro. Daí as revoltas de Aragarças e Jacareacanga. Juscelino as enfrentou com a anistia, com o lenço branco da conciliação. Soube dividir a então monolítica e raivosa oposição. Criou condições de estabilidade. Juntou os melhores cérebros na economia, pôde realizar um programa de metas modernizadoras da estrutura do país e partiu para a construção de Brasília, saindo do Rio, como dom João 6º saíra de Lisboa.


Tudo isso não evitou que, naqueles anos, provasse o desgosto da impopularidade e das calúnias pessoais.


Lidou com os partidos com o estilo de encantá-los em vez de aliciá-los.


Era uma figura humana encantadora. Era um homem bom. Não tinha nem despertava ódios. Nossos presidentes de temperamento forte deram-se mal: Deodoro, Floriano, Arthur Bernardes, Jânio, Collor.


E, para mitificar sua imagem, teve a morte trágica, que tanto comoveu o país.


Ele mesmo disse em suas memórias que o melhor que fez foi preservar a democracia, não deixar que o país se partisse. Graças a ele, o Movimento de 64 foi adiado por dez anos. E só veio porque Jânio e Jango não eram Juscelino. Mas essa é outra história.


José Sarney escreve às sextas-feiras nesta coluna.’


BRASIL NO EXTERIOR
Fábio Victor


Jornal inglês ataca a pecuária brasileira


‘Um relatório produzido por um fazendeiro britânico e que será publicado neste ano no Reino Unido afirma que boa parte da carne bovina consumida no país vem de propriedades brasileiras que usam mão-de-obra escrava, acorrentam trabalhadores a árvores e foram desmatadas para dar lugar a pasto.


O influente diário londrino ‘Daily Telegraph’ publicou ontem reportagem (sob o título ‘Carne barata brasileira importada é ‘subsidiada por trabalho escravo’ ‘) em que o autor do estudo, o produtor rural David Ismail, descreve as condições que diz ter encontrado em fazendas do ‘Brasil central’, sem especificar que Estados foram visitados.


‘Fiquei chocado quando descobri como o crescimento [das exportações] da carne brasileira para a Europa estava causando tantos problemas no Brasil’, disse.


O fazendeiro afirmou que, em áreas remotas onde a floresta está sendo derrubada para dar lugar a pasto, verificou relações entre empregados e patrões ‘similares às piores cenas do apartheid’.


Segundo o relatório, nesses lugares trabalhadores analfabetos e sem-teto, em sua maioria do Nordeste, não têm acesso à assistência médica, são acorrentados a árvores ou até baleados. Obrigados a desmatar a floresta, não recebem salário, pois as despesas que têm com alimentação e acomodação, pagas aos empregadores, superam seus ganhos, alegou.


Segundo a reportagem, a viagem de Ismail foi bancada por uma bolsa da fundação Nuffield.


Críticas à carne bovina brasileira têm aparecido com freqüência na mídia britânica, na esteira do aumento nas exportações brasileiras. O Brasil é o maior produtor do mundo e nos últimos anos registrou recordes de crescimento das exportações -interrompido após o surgimento de focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul, em outubro, que provocou o embargo de vários países, Reino Unido incluído, à carne brasileira.


A reincidência da aftosa deu mais munição aos produtores rurais britânicos, que promovem manifestações sistemáticas contra a compra de carne brasileira.


O Reino Unido importa 35% da carne que consome. Em 2004, comprou 35 mil toneladas do produto ao Brasil, seu maior fornecedor fora da União Européia.


Também em outubro, após o surgimento dos novos focos, o ativista Georges Monbiot escreveu um artigo no diário ‘Guardian’ sob o título ‘O preço da carne barata: doença, desmatamento, escravidão e assassinato’, com argumentos semelhantes aos descritos por Ismail.


Na ocasião, o embaixador brasileiro no Reino Unido, José Maurício Bustani, publicou uma resposta no mesmo jornal a Monbiot, afirmando ser enganosa a associação do desmatamento ao aumento da exportação de carne (pois a maior parte da produção está concentrada fora da Amazônia) e que o problema do trabalho escravo é bem menor do que o alardeado e tem sido combatido pelo governo brasileiro.


Deste vez, a reação da Embaixada Brasileira em Londres foi tão ou mais furiosa. Oficialmente, os diplomatas atribuem o conteúdo do relatório publicado pelo ‘Telegraph’ à desinformação. Mas a Folha apurou que a reportagem foi interpretada como uma peça de propaganda dos produtores britânicos, que estariam assustados com o que foi definido por um deles como ‘as conquistas e a posição forte do Brasil na OMC [para reduzir os subsídios agrícolas dos países ricos]’.


Diplomatas também se queixaram que o ‘Telegraph’ distorceu declarações do chefe do setor de promoção comercial da embaixada, Alberto Fonseca. Segundo a reportagem, ele declarou ser impossível garantir que a carne vinda de áreas com floresta derrubada por escravos não estivesse chegando ao Reino Unido, algo que ele afirma não ter dito.’


Cláudia Dianni


Brasil vê interesse comercial em desqualificar país


‘O governo brasileiro acredita que a matéria publicada ontem pelo jornal britânico ‘Daily Telegraph’, baseada em um pesquisa que teria sido feita no Brasil, esconde interesses comerciais e a intenção de alguns setores de desqualificar o produto brasileiro, já que o país é o primeiro exportador mundial de carne.


Segundo os ministérios do Trabalho e das Relações Exteriores, os focos de trabalho escravo no Brasil não coincidem com os locais de produção e exportação de carne. As denúncias de trabalho escravo rural se concentram em fazendas no sul do Pará, no sul do Maranhão, no Norte do Tocantins e em algumas regiões de Mato Grosso, enquanto a carne exportada recebe selo de certificação e é proveniente de rebanhos criados em Goiás, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná.


‘O trabalho escravo é um problema no Brasil e no mundo e tem sido combatido no Brasil, mas a grande maioria dos produtores rurais não utiliza mão-de-obra escrava e muito provavelmente o que está por trás disso é uma disputa comercial’, disse o secretário-executivo do Ministério do Trabalho, Alencar Ferreira.


Segundo ele, desde 1995 há grupos móveis de combate ao trabalho escravo que libertam trabalhadores em regime de privação da liberdade com agentes da Polícia Federal e do Ministério Publico do Trabalho. Ferreira disse que foram libertados 17.863 trabalhadores, dos quais 11.970 nos últimos três anos. As fazenda são incluídas em lista pública, atualmente com 157, e os donos são processados. Os trabalhadores libertados recebem indenização e são incluídos em programas sociais.


O Itamaraty teme que o aumento das exportações brasileiras, que chegaram a US$ 118,3 bilhões em 2005, e da presença do país em foros internacionais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), fomente uma espécie de campanha sistêmica contra os produtos agrícolas brasileiros, patrocinada por setores externos rivais.


Segundo diplomatas que negociam em foros comerciais, a reforma da PAC (Política Agrícola Comum) da União Européia reduziu o número de rebanhos em vários países. A Irlanda e o Reino Unido, como produtores de gado, deveriam se beneficiar disso, ao fornecer o produto aos vizinhos, mas receberam um duro golpe nos últimos anos por causa da crise da ‘vaca louca’, e o mercado acabou sendo ocupado pela carne brasileira, livre da doença.’


***


Pecuaristas apontam lobby contra o Brasil


‘Em Mato Grosso do Sul, maior mercado exportador de carne do país, o superintendente de Agricultura Wilson Roberto Gonçalves disse que ‘atribuir o bom preço da carne brasileira à mão-de-obra escrava e ao desmatamento é lobby dos pecuaristas europeus, tentativa de boicotar’ o Brasil.


‘Nossa carne é praticamente orgânica, por isso é de boa qualidade e conquistou o mercado externo. Na Europa, se o governo cortar o auxílio, quebra a pecuária.’


O diretor-secretário da Famasul (Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Ademar Júnior, afirma que não existe mão-de-obra escrava na pecuária brasileira. ‘Aqui o trabalho é mais barato que na Europa e ainda assim o salário rural é maior que o urbano. Um peão ganha em torno de R$ 450’, disse Ademar Júnior, que também é criador de gado no Estado.


De acordo com ele , a criação extensiva permite que o pecuarista tenha dois ou três funcionários para tomar conta de mil cabeças de gado.’


INTERNET
Folha de S. Paulo


Google venderá downloads de programas de TV


‘O Google deve anunciar hoje o lançamento de uma loja on-line de vídeos, com programação de entretenimento, esportes e notícias, de acordo com pessoas envolvidas no lançamento ouvidas pelo jornal britânico ‘Financial Times’.


Os usuários poderão usar o serviço, que deve se chamar Google Video Store, para comprar downloads de vídeo, como já é possível fazer no portal AOL dos EUA ou usando programas como o iTunes, da Apple.


Analistas dizem que o lançamento é uma das tentativas mais ambiciosas até agora de trazer conteúdo de televisão para a internet.


É também o primeiro grande serviço oferecido pelo Google no qual os usuários terão que pagar pelo conteúdo, além de ser a primeira vez que a empresa estabelece relações comerciais fortes com companhias produtoras de conteúdo.


De acordo com o ‘Financial Times’, os primeiros vídeos a serem disponibilizados serão programas de TV do canal CBS, clipes musicais da Sony BMG, programas de notícias do ITN e material televisivo da NBA.


O objetivo do Google é formar um ‘mercado aberto de conteúdo digital’, no qual qualquer um que faça vídeos possa vendê-los via internet. No entanto, segundo o ‘FT’, os downloads de vídeos não serão feitos diretamente no navegador, e sim em um programa ao estilo do iTunes que terá que ser instalado na máquina do usuário.


O ‘FT’ noticia também que o Google deve participar de um ‘pacote’ de software para consumidores que será distribuído gratuitamente pela internet por várias empresas rivais da Microsoft, em uma tentativa de enfraquecer o lançamento da nova versão do sistema operacional Windows.


Com o ‘Financial Times’’


FSP CONTESTADA


Painel Do Leitor


Faixa


‘‘Em relação à nota ‘Franjas de ouro’ (coluna de Mônica Bergamo, Ilustrada, 5/1), sobre a licitação para a faixa presidencial, são necessários os seguintes esclarecimentos. A faixa presidencial foi instituída pelo decreto 2.299, de 21 de dezembro de 1910, pelo então presidente da Republica, marechal Hermes da Fonseca. Desde aquela época, a Presidência da República segue exatamente o mesmo padrão determinado nesse decreto para todas as faixas presidenciais confeccionadas ao longo desses 95 anos. O edital de licitação publicado no ‘Diário Oficial’ da União em 4 de janeiro de 2006 contém as mesmas especificações estabelecidas pelo decreto de 1910.’


Denise Mantovani, secretária-adjunta da Secretaria de Imprensa da Presidência da República (Brasília, DF)


Caixa


‘Gostaria de trazer esclarecimentos a respeito da reportagem ‘Direção da Caixa beneficiou BMG, diz TCU; bancos negam’ (Brasil, 4/1). 1. As negociações para aquisição de carteiras de crédito consignado a aposentados do INSS, pela Caixa, foram realizadas com diversos bancos integrantes do Sistema Financeiro Nacional e tiveram como objetivo aproveitar um novo nicho de mercado que se abrira e do qual já participavam os grandes bancos brasileiros; 2. As propostas de aquisição de carteira tiveram como objetivo obter a maior lucratividade, sendo exigidas diversas garantias (coobrigação do banco cedente, caução de parte do valor de aquisição e garantia fidejussória). Esse alto grau de exigências está entre os motivos alegados pelos bancos que não aceitaram ceder suas carteiras para a Caixa. 3. Sobre a cessão de créditos do BMG para a Caixa, todos os aspectos técnicos (jurídico, financeiro e operacional) foram analisados pelas áreas internas e obtiveram pareceres favoráveis. A operação foi formalizada em conformidade com os parâmetros adotados na praxe bancária para operações da espécie. Em nota pública, a Febraban reconheceu a legitimidade e conformidade da operação. 4. A lucratividade da operação com o BMG está acima da média do mercado e acima da rentabilidade dos recursos que originalmente estavam aplicados em tesouraria com rentabilidade de Selic, uma vez que a operação com o BMG rende, no mínimo, Selic mais 3,9% ao ano. 5. O resultado projetado para a Caixa nas quatro primeiras operações é de R$ 266 milhões (R$ 123 milhões em 2005) e, para todas as sete operações realizadas até o momento, é da ordem de R$ 355 milhões. A Caixa aguarda o exame do mérito da questão e se manifestará no foro e ocasião adequados sobre as razões que justificaram uma operação normal que apresenta rentabilidade compatível com os padrões do sistema bancário.’


Gabriel de Barros Nogueira, assessor de imprensa da Caixa (Brasília, DF)


São Paulo


‘O balanço que a Folha publicou a respeito da ação da Prefeitura de São Paulo em 2005 está incompleto e distorcido (‘Programas de Serra estão em ritmo lento’, Cotidiano, 4/1). Deixa de informar, por exemplo, que a distribuição de medicamentos, embora ainda imperfeita, foi, sim, regularizada e que o gasto per capita em medicamentos cresceu 35% em relação a 2004. Atribui a idealização do programa Remédio em Casa à gestão anterior, equívoco primário, pois a ex-prefeita apenas anunciou que pretendia fazer esse programa depois que o então candidato José Serra apresentou o projeto. Cobra uma duplicação das equipes de saúde da família no município em um ano, esquecendo que o período de mandato é de quatro anos. Idem em relação à reforma dos postos de saúde, afirmando, erradamente, que o prefeito havia prometido reformá-los todos ao longo de 2005. Aliás, a reportagem omite o dado de que todos esses postos já foram informatizados: no final de 2004, apenas 20 estavam informatizados; no final de 2005, 457 postos. Afirma que o hospital do M’Boi Mirim foi ‘lançado’ pela prefeitura anterior, o que não é verdade. No terreno destinado ao hospital, até o início de 2005 ainda continuava instalada uma fábrica. A reportagem ainda deixa de citar reformas de grande envergadura que estão em pleno andamento, como a do Hospital do Campo Limpo. Cria uma suposta figura, acima do bem e do mal, que seriam os ‘movimentos populares de saúde’ da capital, sem esclarecer nem sua abrangência nem sua filiação político-partidária, mas dando largo espaço para críticas superficiais, como também omite a óbvia tendência petista do Instituto Polis. Não é indevido entrevistá-los, mas caberia esclarecer aos leitores suas vinculações políticas.’


Maria Cristina Cury, secretária municipal de Saúde (São Paulo, SP)


Resposta da jornalista Fabiane Leite – A reportagem priorizou os projetos mais importantes do prefeito e mostrou a sua situação atual. A distribuição de remédios em casa foi lançada na gestão passada no segundo semestre de 2004. O início das negociações para obtenção do terreno do Hospital do M’Boi Mirim também se deu na gestão anterior. Reportagens publicadas na época da campanha comprovam o compromisso do prefeito de reformar todos os postos em 2005.


Política cultural


‘Caetano é um tremendo compositor, um de meus favoritos. Mas, sempre que emite alguma opinião política, fala bobagens (coluna de Mônica Bergamo, Ilustrada, pág. E2, 5/1) Estamos a um passo do totalitarismo? Onde? No Brasil é que não é. Caetano poderia ler algum dos grandes jornais, qualquer dia, para ver o imenso número de criticas que são feitas ao governo -muitas grosseiras e descabidas- e a forma sem-cerimônia, irônica e também muitas vezes grosseira e preconceituosa como o presidente é tratado. Isso seria possível em um país a um passo do totalitarismo? Acho que Sérgio Sá Leitão não precisava ter dado a resposta que deu, mas a reação que está gerando é desmedida. Caetano já sofreu na pele com o totalitarismo, mas parece que esqueceu.’


Pedro Eugenio Beneduzzi Leite (Brasília, DF)


‘Adorei as palavras de Caetano Veloso sobre esse pessoal do governo que ‘anda para trás’ ao se posicionar a favor de Ferreira Gullar. Aliás, amadorismo, oportunismo e outros ismos totais é com esse governo mesmo.’


Maria Bernadeth Keko Ribeiro (São Paulo, SP)’


SBT
Daniel Castro


SBT dá férias a casais de ‘reality show’


‘Isto é incrível: o SBT deu férias coletivas aos 12 participantes do ‘reality show’ ‘Casamento À Moda Antiga’. É a primeira vez no Brasil que todos os integrantes de um ‘reality’ de confinamento são liberados para passar uma temporada longe das câmeras.


Os seis casais deixaram a ‘Casa dos Noivos’ (como é chamada a locação onde a atração é gravada) no último dia 23. Voltam dia 16.


Isso subverte a lógica dos ‘reality shows’ de confinamento e a proposta do programa, que é a de manter os casais juntos. Liberados, cada um dos 12 participantes foi para suas próprias casas.


A explicação oficial do SBT é que deu oportunidade para que os casais passassem o fim de ano juntos, e, assim, conhecessem as famílias de seus parceiros. Extra-oficialmente, as férias foram forçadas. Primeiro, por economia (boa parte da produção está em férias). Segundo, para permitir que o programa passe a ser gravado quase simultaneamente, o que melhoraria sua audiência.


‘Casamento À Moda Antiga’ está sendo gravado desde outubro, mas só estreou em dezembro. Os programas que vão ao ar até o próximo dia 22 já estão gravados desde antes do Natal.


A atração deu dez pontos de audiência nos últimos dois domingos, o que é pouco para esse dia. Mas reagiu nesta semana. Com apresentação de Jorge Kajuru, a edição da última terça deu nove pontos, média boa para dias úteis.


OUTRO CANAL


Sobe Apresentado por Heleine Heringer, o ‘Jornal da Record’ está ligeiramente melhor no Ibope do que com Boris Casoy. Deu médias de sete pontos entre segunda e quarta. Nas primeiras segunda, terça e quarta-feiras de dezembro, registrou cinco pontos.


Retorno Um dos responsáveis pela implantação do Canal 21, em 1996, Rogério Brandão está de volta à emissora. Assumiu a direção de criação e conteúdo do 21, no lugar de Rogério Gallo, que passará a produzir documentários musicais para a Band.


Crise de elenco Depois de perder Malu Mader, a minissérie ‘JK’ sofreu outro desfalque. Convocado para ‘Sinhá Moça’ (próximo título das 18h), Osmar Prado não interpretará mais José Maria Alckmin na terceira fase de ‘JK’. Será substituído por Paulo Betti.


Alta O segundo capítulo de ‘JK’ deu média de 41 pontos, dois a mais do que o primeiro, indicador de que a minissérie ‘pegou’. Mas, a partir da semana que vem, quando será precedida por ‘Big Brother Brasil’, a tendência é sua audiência cair.


Festa O ‘Globo Rural’ completa hoje 26 anos no ar. Para comemorar, a edição do próximo domingo terá novos cenário, identidade visual e arranjo de seu tema musical de abertura, além de uma longa reportagem especial de José Hamilton Ribeiro sobre a situação dos peixes no Pantanal.’


BELÍSSIMA


Laura Mattos


Filme de Daniel Filho antecipa final feliz de ‘Belíssima’


‘Glória Pires é o Tony Ramos de saia, certo? E Tony Ramos, por sua vez, a Glória Pires de calça.


Com praticamente o mesmo tempo de carreira (ele, 40 anos, ela, 37), os dois quase não fizeram teatro -ela, só uma peça infantil-, têm breves e pouco marcantes passagens pelo cinema, mas são a cara da televisão brasileira.


Discretos e bem casados, mantêm uma imagem ‘do bem’ na vida real. Nas histórias, são mais heróis do que vilões. Não obstante, nunca haviam formado um par romântico ao longo destas quatro décadas de telefolhetins.


Eis que a Globo se dá conta do desencontro e tome overdose: Tony e Glória estão juntos em ‘Se Eu Fosse Você’ (Globo Filmes), que estréia hoje em 200 salas de cinema e antecipa o final feliz da novela ‘Belíssima’ (Nickos/Tony deverá conquistar Júlia/Glória).


No longa, de Daniel Filho, eles vivem uma típica crise de casamento até que, por obra do além, acordam com os corpos trocados. Agora, literalmente, Glória vira Tony de saia e vice-versa.


Todo mundo diz que o todo-poderoso diretor global não sabia que os atores seriam unidos pela novela de Sílvio de Abreu. ‘Se Eu Fosse Você’ foi filmado em abril de 2005, ‘Belíssima’ estreou em novembro, mas tudo não passou de uma ‘feliz coincidência’.


E bota feliz nisso. Na semana de pré-estréia, o filme foi visto por 85 mil espectadores, enquanto ‘Sexo, Amor & Traição’ (2004), da mesma produtora, a Total, atingiu 77 mil no período. Walkiria Barbosa, sócia da Total, diz que ‘obviamente ajuda o fato de ter o casal da novela’. ‘Foi uma coincidência, como ocorreu com ‘Sexo, Amor & Traição’ [com Malu Mader e Fábio Assunção, à época protagonistas da novela ‘Celebridade’] e ‘Avassaladoras’ [2002, com Giovanna Antoneli, a então Jade de ‘O Clone’].’


Mas o casal-coincidência de ‘Se Eu Fosse Você’ não basta para a Globo Filmes, sócia do longa. A própria novela ‘Belíssima’ faria propaganda do filme no capítulo de ontem. Isso sem falar no merchandising do ‘Casseta & Planeta’, ‘Domingão do Faustão’ e ‘Altas Horas’. O espaço, que não é pago, custaria em torno de R$ 2 milhões se o fosse. Outros R$ 2 milhões serão gastos com o lançamento do filme, cuja produção teve orçamento de R$ 5 milhões.


É o bombardear publicitário de sempre na Globo, que já fez blockbusters mas não conseguiu salvar alguns do naufrágio, como ‘Acquaria’, com Sandy e Junior.


Tony e Glória são a cara da TV, e ‘Se Eu Fosse Você’ parece um sitcom ampliado, cheio de clichês televisivos. Cláudio (Tony) é um publicitário, casado com a madame Helena (Glória). Com a troca de corpos, um tem de copiar os trejeitos do outro, e os atores, com dignidade, conseguem fazer rir. É especialmente cômica a cena em que Tony, com a alma de Glória, observa seu famoso dorso peludo: ‘Amor, e se eu depilasse o peito?’.


Tony conta que quase tudo foi filmado de primeira tomada, sem repetir a cena, para ‘não perder o frescor que a comédia exige’. Glória ressalta que o roteiro ‘exigiu muita concentração do casal’.


Na história, ao ser incorporado pela mulher, Cláudio cria uma campanha para lingerie que ‘entende a alma feminina’. Lembra muito o argumento de ‘Do que As Mulheres Gostam’, no qual o publicitário (Mel Gibson) faz a mesma coisa após conseguir ler o pensamento das mulheres. Outra coincidência de Daniel Filho.’


Claudio Szynkier


Diretor reprocessa fórmula para ter sucesso garantido


‘Um dos filões mais mágicos da comédia americana é o da troca de corpos. E, quem diria, os anos 80, terreno longínquo e colorido onde reside esse filão, estão assombrando o cinema atual. Até no Brasil. Que o diga Daniel Filho. ‘Se Eu Fosse Você’ parte dessa possibilidade magnífica de câmbio: Claudio (Tony Ramos) e Helena (Glória Pires) vivem bem em um belo bairro no Rio. Mas o casamento cansou, e Claudio enfrenta uma crise em sua agência. É quando acorda no corpo da mulher e ela, no dele. Novo cotidiano: Helena, na carcaça de Claudio, reeducando o corpo para fazer xixi e chefiando a agência. Claudio na de Helena, regendo coral e menstruando.


Tudo se esgotou na comédia? Não. Ocorre que, no projeto comercial de Daniel, e da Globo, o que vale é reprocessar, cuidadosamente, fórmulas consagradas e argumentos criativos. Para dar certo. E é exatamente essa vocação de empreendimento planejado e cuidadoso dos filmes de Daniel a razão que faz sua lucrativa obra representar não muito como cinema. Há, sim, elegância clara na forma como o diretor, em uma ronda com a câmera, apresenta a casa e a rotina matinal dos personagens para depois embaralhar tudo: com a troca de corpos e por meio dos mesmíssimos ângulos, cria um interessante sentido de estranhamento minutos depois, em um segundo passeio pela casa.


Mas esse esforço esconde a vontade de se costurar apenas uma parábola sobre o casamento como grande e didático aprendizado. Em outra pele, os dois, nesse embaralhamento, enxergarão a vida conjugal de forma mais justa e equilibrada. Daniel, como prevê a cartilha da Globo, quer agregar, quer conciliar. Agregam-se e conciliam-se os cônjuges; agrega-se o espectador ao empreendimento global, via códigos que o confortam, que o conduzem por estímulos de uma felicidade fácil. A elegância revela-se meio doutrinadora e burocrática. E o humor, calcado na figura dos personagens ‘mutantes’ no quadro, mas antes na cultura do empreendimento cuidadoso, não dá grandes gags: o que poderia se caracterizar pela astúcia soa mesmo brando e previsível.


Se Eu Fosse Você Direção: Daniel Filho Produção: Brasil, 2005 Com: Tony Ramos, Glória Pires, Thiago Lacerda, Danielle Winits Quando: a partir de hoje nos cines Bristol, Eldorado, Frei Caneca Unibanco Arteplex e circuito’


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O Globo


Sexta-feira, 6 de janeiro de 2006


CRISE POLÍTICA
Luiza Damé e Cristiane Jungblut


Dulci: imprensa fustiga e às vezes passa do ponto


‘Ao comentar o relacionamento entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a imprensa, ontem, o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci, disse que o papel da imprensa é fustigar, mas acrescentou que às vezes ‘passa do ponto’. Concordou, porém, que isso faz parte do processo. Dulci disse ainda que a mudança de comportamento do presidente – que concedeu entrevistas a rádios e à TV Globo – não aconteceu devido à proximidade da campanha eleitoral de 2006, mas foi aconselhado a falar mais com a imprensa. Segundo ele, os jornalistas ‘passaram a fazer perguntas mais substantivas.’


Apesar de o presidente criticar em seus discursos a atuação da imprensa em relação ao governo, o ministro disse que houve um avanço no relacionamento entre Lula e os jornalistas. Dulci falou sobre o assunto durante entrevista a emissoras de rádio do sistema Radiobrás e ao responder a uma pergunta sobre o fato de o presidente Lula estar se mostrando mais acessível à imprensa.


– Diria que foi um avanço, mas não foi por razões eleitorais e muito menos por causa daquela entrevista em Paris. É porque se chegou a um entendimento melhor, os jornalistas que cobrem o Palácio do Planalto também passaram, com relação ao presidente, a perguntar questões mais substantivas de ação de governo – afirmou Dulci. – Nós que estamos ao lado do presidente sempre nos empenhamos para que ele falasse ao máximo com a imprensa. Mesmo sabendo que a imprensa cumpre seu papel e fustiga e, às vezes, até passa do ponto em alguns casos, mas esse é o papel da imprensa.


Lula quer mais divulgação das ações do governo


Dulci disse que Lula sempre tratou com cortesia e respeito a todos os jornalistas. Mas em seus discursos o presidente costuma reclamar que a mídia não retrata com a devida importância as ações do governo. Em outro episódio, durante encontro no Itamaraty com uma autoridade estrangeira, Lula se mostrou contrariado com a insistência dos jornalistas em chamá-lo em voz alta e fazer perguntas sobre a crise:


– O presidente sempre tratou com muita cortesia os jornalistas em geral.


Dulci ainda defendeu os cursos de informática e usou como exemplo dessa evolução nas profissões a antiga profissão do presidente Lula: a de torneiro mecânico.


– Hoje, para ser um torneiro mecânico em uma oficina precisa saber informática. Então, até para realizar um trabalho que antigamente era puramente braçal, hoje precisa saber usar o computador.’


CAETANO vs. GIL
O Globo


Gil reage a Caetano e Gullar: ‘Peçam minha cabeça’


O ministro da Cultura, Gilberto Gil, reagiu ontem à polêmica levantada pelo poeta Ferreira Gullar e que ganhou o apoio de Caetano Veloso, para quem a gestão de Gil está ‘a um passo do totalitarismo’, como escreveu em carta publicada na ‘Folha de S.Paulo’. O ministro saiu em defesa do secretário de Políticas Culturais do ministério, Sérgio Sá Leitão, ao responder a Caetano:


– Peçam a minha cabeça ao presidente – desafiou Gil.


Sá Leitão respondera às críticas de Gullar ao ministério chamando o poeta de defensor do stalinismo.


– Digam qual é o próximo passo, apontem o que é totalitarismo no ministério. Digam. Totalitarismo? É vago, eu não sei o que é, me digam, eu também preciso saber – disse o ministro, segundo a Agência Estado, após almoço no Palácio Gustavo Capanema, no Rio.


– O que é que Sá Leitão fez de errado? O que ele fez em nome do ministério que não esteja de acordo com a orientação do ministério? Por que não pedem a minha cabeça em vez de pedir a dele? Peçam a minha cabeça, peçam ao presidente – disse Gil.


O ministro disse ainda que Caetano ‘está exercendo papel de cidadão’ que acompanha o trabalho do ministério:


– Vejo com bons olhos. (Caetano) não é como alguns outros que fazem críticas e ao mesmo tempo dizem que não acompanham o trabalho – disse, numa referência indireta a Gullar.


Copa da Cultura é lançada por Gil em meio à polêmica


O ministro lançou ontem no Rio o projeto Copa da Cultura, que vai levar este ano apresentações de cultura brasileira à Alemanha durante a Copa do Mundo. O projeto começou no meio da polêmica: um dos artistas convidados é Ferreira Gullar, que em dezembro criticou a centralização da política cultural do MinC e foi chamado de stalinista por Leitão.


Segundo Sá Leitão, o convite a Gullar para a Copa da Cultura está de pé. O poeta disse que aceita, mas pode ‘desaceitar, se acharem que é um favor que estão fazendo’.


Sá Leitão disse ter achado válida a atitude de Caetano:


– É absolutamente democrático ele se manifestar. Mas não concordo com ele: totalitarismo seria se um órgão público não pudesse se expressar. Não houve ataque pessoal a Gullar. Tanto que o convite feito a ele, para participar da Copa da Cultura, está totalmente de pé. Haveria totalitarismo se esse embate de idéias criasse discriminação.


Sá Leitão disse que as críticas aos órgãos públicos são necessárias e que sua resposta foi uma reação à crítica de Gullar:


– Nessa entrevista, Gullar admitiu que não acompanhava bem o funcionamento do ministério. É como eu criticar um livro dele sem ter lido.


Na carta, Sá Leitão escreveu: ‘A ‘centralização’ não era a marca registrada dos finados regimes stalinistas dos quais Gullar foi e segue sendo um defensor?’. Segundo o secretário, o termo stalinista foi usado porque Gullar enfatizou na entrevista seu passado comunista.


– Militei no PC e, quando houve a cisão, os stalinistas foram para o PCdoB. Qualquer um com um mínimo de conhecimento histórico sabe disso. Fui respondido de modo insultante. Aliás, não me responderam. O argumento deles foi me desqualificar – disse Gullar.’


***


O que eles disseram


‘FERREIRA GULLAR: ‘Não me envolvo diretamente, ou acompanho (as ações do Ministério da Cultura). Mas ouço reclamações de diferentes áreas de que não está cumprindo bem seu papel. Dizem que os projetos não andam. Nem solicitações de verbas. Houve centralização que não sei se continua.


SÉRGIO SÁ LEITÃO: ‘Não deixa de ser curioso um comunista criticar algo ou alguém por uma suposta ‘centralização’. A ‘centralização’ não era a marca registrada dos finados regimes stalinistas dos quais Gullar foi e segue sendo um defensor?’


MANIFESTO: ‘Nós abaixo assinados vimos explicitar nosso repúdio pela forma como um funcionário do alto escalão do Ministério da Cultura (Sérgio Sá Leitão) trata um dos maiores intelectuais vivos deste país, o poeta Ferreira Gullar’. (O texto é assinado por Zelito Vianna, Luiz Carlos Barreto e mais de 20 artistas e profissionais da área e foi enviado ao Ministério da Cultura no fim de dezembro)


CAETANO VELOSO: ‘A crítica a Gullar partiu do poder público. O Ministério da Cultura é governo (…), suas aprovações ou desaprovações são oficiais. Um poeta não pode expurgar um governo. Governos totalitários são viciados em expurgar poetas. Se um ministério demonstra não aceitar críticas – pior: exige adesão total a suas decisões – estamos sim a um passo do totalitarismo’.’


JORNALISMO INVESTIGATIVO
Apurar e noticiar


Luiz Garcia


‘A imprensa brasileira está em alta perante seu público, a imprensa americana rolou despenhadeiro abaixo. Pode ser uma generalização excessiva, mas não falta quem tenha essa impressão, cá e lá.


Na presente e já longa temporada de escândalos políticos, é inegável que a turma de cá tem produzido uma cascata de denúncias de políticos contra políticos e contra sócios de políticos, fora as de ladronaços contra ladravazes, quase tudo confirmado por secretárias e intermediários diversos.


Nos Estados Unidos, a partir do 11 de setembro – com raras, embora notáveis, exceções – grande parte da mídia freqüentemente sacrificou a busca independente dos fatos no altar do patriotismo. Alguns já não fazem isso, como diversos analistas e repórteres de jornais sérios, por exemplo o ‘Washington Post’ e o ‘New York Times’. Mas as primeiras páginas e os noticiários de grande parte das redes de TV foram e continuam sendo acríticos e mesmo coniventes com o discurso patriótico – e, como o tempo tem mostrado, deslavadamente desonesto – da Casa Branca. E o mesmo clima dominou por muito tempo o Congresso americano.


Sente-se que a situação já começa a mudar – principalmente devido à justificada falta de otimismo sobre a situação no Iraque. Boa parte da mídia já pergunta mais, duvida mais, investiga melhor e, principalmente, menos se deixa manipular pela Casa Branca. Mas a recuperação do prestígio e da confiança da opinião pública é sempre processo longo e acidentado. Sem contar que a política oficial de manipulação da verdade continua em vigor.


Do lado de cá, não nos fará mal algum temperar a sensação de dever cumprido com uma saudável dose de autocrítica. Mesmo levando em conta a farta divulgação dos erros e delitos cometidos por Governo Lula & Associados, é preciso reconhecer: praticamente todas as trapalhadas vieram à luz porque políticos quiseram, na forma que lhes interessava, no momento que desejaram.


Não se discute que a mídia tem trazido à luz fatos e comportamentos que a opinião pública desejava e precisava conhecer. E comentaristas podem interpretar corretamente o que se passa, em artigos e editoriais.


Mas o comportamento é, quase sem exceções, reativo. Muito mais entrevistamos do que investigamos. Claro que é preciso ouvir quem tem algo a revelar, mas essa é apenas parte do ofício. Faz falta a informação crucial cavada por servir exclusivamente à opinião pública – e não oferecida gentilmente pelo político A para prejudicar o político B ou o partido C.


E onde se vê a aplicação rigorosa do saudável princípio de que a informação vinda de interessados deve ser usada apenas como ponto de partida para a apuração, jamais como notícia pronta e acabada? A maioria das acusações que têm cruzado os ares tem se revelado verdadeira. Mas isso não justifica deixar de trabalhar como se deve.’


INTERNET


Aguinaldo Novo


Internet veloz, fraude mais ainda


‘Desconfie sempre das mensagens eletrônicas que pedem para você ‘atualizar’ seus dados bancários, inclusive todos os números da senha pessoal. Cuidado também com avisos de que seu nome ‘está na lista negra da Serasa’ ou, por oposição, que você ‘está com sorte e foi escolhido para receber um grande prêmio’. Ao responder a esses e-mails, você terá engrossado as cifras de crimes bancários e financeiros pela internet, que só em 2005 devem ter provocado um prejuízo estimado em R$ 300 milhões para os usuários – 50% a mais do que em 2004.


Esse tipo de fraude já responde por 40,13% de todos os registros feitos pelo Centro de Estudos, Resposta e Treinamento de Incidentes de Segurança no Brasil (Cert.br), contra 5,3% até o ano anterior. O números de casos passou de 4.015, de janeiro a dezembro de 2004, para 27.292 em todo o ano passado. O Cert.br, que é mantido pelo Comitê Gestor de Internet no Brasil, admite que esses números podem ser ainda maiores, já que a entidade depende do interesse e da boa-vontade de administradores de redes e usuários domésticos em informar os golpes.


– Os usuários precisam encarar a internet com o mesmo cuidado com que encaram qualquer outra transação financeira – afirma a analista de segurança do Cert.br Cristine Hoepers.


Bancos: R$ 2 bi em segurança


O alvo preferencial dos vigaristas virtuais são os computadores domésticos, que dispõem de menos recursos de proteção do que os sofisticados sistemas mantidos por bancos e administradoras de cartões de crédito. Geralmente, o usuário é induzido a abrir um arquivo eletrônico (conhecido como trojan , de cavalo-de-tróia) para ‘atualizar seus dados’. O arquivo esconde um programa ilegal que se instala no computador e rouba as informações armazenadas na máquina. O internauta também pode ser induzido a entrar num site (endereço) falso do banco em que mantém sua conta – golpe conhecido como phishing (de fishing , pescaria em inglês).


Pesquisa recente da America Online e da Aliança Nacional para a Segurança Cibernética mostra que os internautas no resto do mundo também ignoram o perigo das mensagens virtuais. De acordo com o estudo, uma em cada quatro pessoas que usam o computador para fazer transações financeiras está exposta, todos os meses, a mensagens eletrônicas falsas que tentam roubar suas informações pessoais. No caso do Brasil, explica Cristine, a explosão atual de registros reproduz a popularização da internet nos últimos dois anos. E as conexões em banda larga possibilitam ainda ficar mais tempo navegando pela rede mundial de computadores.


No fim de agosto do ano passado, a Polícia Federal (PF) prendeu 128 pessoas acusadas de participar da maior quadrilha especializada em crimes virtuais no país. Juntos, eles teriam desviado mais de R$ 80 milhões. Batizada de Operação Pégasus, a ação teve a participação de agentes em São Paulo, Minas Gerais, Pará, Espírito Santo e Goiás (base do grupo). Segundo a PF, todo o dinheiro roubado era depositado em contas de laranjas ou utilizado no pagamento de contas de terceiros.


Organizados, os falsários criaram até uma divisão de tarefas. Programadores clonavam as páginas dos bancos e montavam as mensagens com o trojan , enquanto outro grupo tinha a tarefa de despachar esses e-mails para o maior número possível de internautas.


– Nos meses seguintes à operação, o volume de tentativas de golpes caiu cerca de 20% – afirma o delegado Cristiano Barbosa Sampaio, da Divisão de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal.


No mês passado, Sampaio seguia as pistas deixadas por outro grupo de contraventores que tenta burlar a vigilância dos grandes bancos. Recentemente, instituições como o Bradesco e o Itaú distribuíram a seus clientes cartões com até 40 senhas diferentes que devem ser digitadas todas as vezes em que forem usados os serviços de internet. Outra tecnologia disponível é a do token , uma chave com senha extra que muda a cada minuto. A PF descobriu, porém, que já existiria um novo programa de computador capaz de copiar e armazenar todos os números dos novos cartões.


A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) afirma que os investimentos em sistemas de proteção somaram cerca de R$ 2 bilhões nos últimos dois anos, mas ressalta que a segurança passa também pela educação do brasileiro.


– Algumas pessoas caem nos golpes por boa-fé. Mas na maioria dos casos o que existe é negligência – diz o diretor de cartões e negócios eletrônicos da Febraban, Jair Delgado Scalco.’


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Prevenção é a melhor estratégia


‘SÃO PAULO. Não adianta comprar o programa antivírus mais eficiente do mercado se não forem seguidas algumas orientações básicas para se precaver contra os golpes financeiros na internet. A primeira regra é lembrar que bancos e empresas de cartão de crédito não pedem alterações de cadastro por meio de mensagens eletrônicas. Também não abra arquivos enviados por e-mail, mesmo que venham de pessoas conhecidas.


Se precisar usar o site de seu banco na internet, o internauta deve confirmar antes a existência de um cadeado amarelo na parte inferior da tela. Isso indica que a transmissão de dados entre o computador e o servidor da instituição financeira é codificada e não pode ser fisgada por hackers . Páginas seguras também contêm ‘https’ no campo de endereço.


Outra recomendação de especialistas é criar senhas diferentes para cada serviço, evitando ainda datas de aniversário ou seqüências fáceis de memorizar (o melhor é misturar letras, maiúsculas e minúsculas, a números). O Cert.br traz em seu site (http://cartilha.cert.br/dicas) uma série de orientações de segurança.’


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Microsoft entra no reino da música digital


‘LAS VEGAS. De olho na concorrência cada vez mais acirrada, o fundador da Microsoft, Bill Gates, apresentou ontem o novo serviço de download de músicas e o software para habilitá-lo. O pacote faz parte da estratégia para competir com o já consagrado iTunes, da Apple. O programa vai se chamar Urge (ânsia, em inglês) e chegará ao público com mais de dois milhões de canções disponíveis em sua lista. As músicas estarão também disponíveis através de assinaturas e haverá uma linha exclusiva proveniente da MTV. Os arquivos, no entanto, não terão compatibilidade com os equipamentos iPod.


A música é apenas uma parte da iniciativa da Microsoft. Durante uma feira de produtos eletrônicos em Las Vegas, Gates afirmou que pretende unir à sua linha de softwares, programas de entretenimento integrado a aplicações cotidianas, como envio de mensagem, redação de textos e navegação pela internet.


– Nos referimos a esse momento como a década do estilo de vida digital – disse Gates, ao lado do cantor Justin Timberlake.


Gates anunciou ainda uma parceria com a DirecTV, com benefícios para os seus clientes e do braço britânico do grupo televisivo, BSkyB. A joint-venture permitirá que os usuários adquiram vídeos da DirecTV.


Apesar da ruidosa disputa com a Google, a maior empresa de busca na internet, o fundador da Microsoft disse temer mais a competição com a IBM. Na verdade, devido aos variados segmentos em que atua, a Microsoft enfrenta concorrência de várias empresas poderosas, como Sony, Apple e Nokia.


– As pessoas tendem a acompanhar a disputa com um de nossos rivais apenas – disse Gates.


A Microsoft não é a única empresa a se mexer no competitivo mundo do entretenimento digital. A Google anunciou ontem, de acordo com o ‘Wall Street Journal’, que vai lançar um serviço que permitirá aos internautas comprarem vídeos da CBS, da NBA e de outros provedores. Segundo o jornal, a empresa fará o anúncio oficial hoje.’


THE OBSERVER
O Globo


Um domingo mais enxuto


‘LONDRES. Mais um jornal britânico sucumbiu à febre do formato tablóide. A partir deste domingo, dia 8, o ‘Observer’, publicado pelo Grupo Guardian Newspapers, vai inaugurar seu visual em Berliner. O lançamento do novo formato do jornal dominical vai contar com uma ampla campanha publicitária – que inclui cinema, TV, rádio, imprensa e internet – informou ontem o site especializado em mídia Intellagencia.com.


Os moradores de Londres, por exemplo, vão ganhar um mapa da cidade, chamado ‘Change your Sunday’ (mude seu domingo), com sugestões de lazer dominical dos repórteres do ‘Observer’. Os anúncios na TV e no cinema vão mostrar a mudança física do formato grande para o Berliner.


Todas as páginas do novo jornal serão em cores. Haverá também uma nova revista mensal, a ‘Observer Woman’, que vai se juntar às já existentes ‘Sport Monthly’, ‘Food Monthly’ e ‘Music Monthly’. Na primeira edição do ano – e a última no formato tradicional – o editor do ‘Observer’, Roger Alton, disse que a nova revista ‘vai cobrir de tudo, de sexo e relacionamentos a cirurgia plástica’.


Segundo Alton, o formato é hoje um fator determinante na decisão do leitor sobre que jornal comprar: ‘Para muitos o tradicional domingo acabou, substituído por um dia de atividade – seja fazendo compras, trabalhando, vendo filmes ou exposições’.


O ‘Observer’, de 214 anos, é o jornal dominical mais antigo da Grã-Bretanha.’


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O Estado de S. Paulo


Sexta-feira, 6 de janeiro de 2006


CRISE POLÍTICA
João Domingos


Uma revista só para os feitos de Lula


‘O Palácio do Planalto começa a distribuir neste fim de semana 1,2 milhão de exemplares de seu ‘jornal de prestação de contas’, com as ações do governo federal nos três primeiros anos de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A publicação, em formato tablóide, tem 36 páginas impressas a cores. A produção e impressão ficaram a cargo da agência de publicidade Lew, Lara, e custaram R$ 976 mil.


O jornal – mais uma ofensiva do Planalto no ano eleitoral – narra os feitos que o governo considera os mais positivos, como ‘ações de cidadania, em educação e saúde, democracia e diálogo, construção de novas universidades, desenvolvimento econômico e emprego, política externa, abertura de ferrovias, melhoria de portos e aeroportos, retomada da indústria naval, consertos de rodovias e novas hidrelétricas’.


POLÊMICAS


Enfim, as realizações do governo que, lamentou o presidente Lula, na entrevista para o Fantástico, da TV Globo, no último domingo, não puderam aparecer na mídia porque esta, em seu entender, só deu destaque ao noticiário sobre corrupção.


Entre os capítulos do jornal de prestação de contas dos três primeiros anos do governo de Lula, há um que provocará polêmicas, com certeza: o que aborda o combate à corrupção.


De acordo com a publicação, este foi o governo que mais combateu a corrupção, o crime organizado e a lavagem de dinheiro. Acontece que o governo está sob suspeita de ter montado um grande esquema para comprar deputados, o chamado mensalão. Isso, sem falar no caixa 2 de mais de R$ 55 milhões, já admitido por antigos dirigentes do PT, como o ex-tesoureiro Delúbio Soares.


Segundo o Palácio do Planalto, os 1,2 milhão de exemplares serão distribuídos para todos os órgãos públicos, o Congresso, o Judiciário, para todas as escolas públicas, pela Caixa Econômica Federal, que os levará também a todas as suas agências, aos consulados e embaixadas brasileiros, às prefeituras, Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores.


ESTADOS


Também foi a Lew, Lara que produziu, ao custo de R$ 20 milhões, as peças publicitárias sobre realizações do governo federal que estão sendo divulgadas pela TV em cinco Estados – São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná – e no Distrito Federal. A agência, juntamente com a Matisse, tem contrato de R$ 146 milhões com o governo federal até setembro.


A propaganda é feita nos Estados de maior população – exceto a Bahia, que ocupa o quarto lugar, e o Distrito Federal, onde o presidente Lula mora.


De acordo com o governo, os Estados foram escolhidos por terem mais habitantes – portanto, mais eleitores – e pelo maior volume de investimentos federais.


Mas é neles também que estão os principais adversários do presidente Lula num possível embate pela sucessão presidencial: o prefeito José Serra e o governador Geraldo Alckmin (PSDB, em São Paulo) e os governadores Aécio Neves (PSDB, Minas Gerais), Germano Rigotto (PMDB, Rio Grande do Sul) e Roberto Requião (PMDB, Paraná), além do ex-governador Anthony Garotinho (PMDB, Rio de Janeiro).’


CAETANO vs. GIL
Felipe Werneck


Gil a artistas: ‘Peçam minha cabeça a Lula’


‘‘Peçam minha cabeça ao presidente.’ Assim o ministro da Cultura, Gilberto Gil, reagiu à polêmica iniciada pelo poeta Ferreira Gullar e ampliada pela carta aberta em que Caetano Veloso diz que o ministério do ex-companheiro de tropicalismo está ‘a um passo do totalitarismo’. Gil saiu em defesa do secretário de Políticas Culturais, Sérgio Sá Leitão, cuja resposta à crítica de Gullar motivou a manifestação de Caetano.


‘Digam, apontem, o que é totalitarismo no ministério? Totalitarismo? É vago, eu não sei o que é, me digam, eu também preciso saber’, disse ao Estado, acrescentando que não há ‘nenhuma razão’ para a saída do secretário. ‘O que é que Sá Leitão fez de errado? O que ele fez em nome do ministério que não esteja de acordo com a orientação do ministério? Por que não pedem a minha cabeça em vez de pedir a dele?’


Ele ressalvou que a polêmica faz parte do estado democrático. ‘Tá bom , tá ótimo.’ Caetano, na sua opinião, ‘está exercendo papel de cidadão’ que acompanha o trabalho do ministério: ‘Vejo com bons olhos, (Caetano) não é como outros, que fazem críticas e ao mesmo tempo dizem que não acompanham o trabalho’, disse, numa referência indireta a Gullar.


Gil disse que ‘sempre foi difícil’ tirar privilégios – na carta, Caetano cita frase de Leitão, que se referiu aos críticos como ‘ex-privilegiados do cinema’. ‘Eles estão dizendo que havia privilégios e que estamos acabando? Está errado? A idéia do ministério é que a política pública evite isso (o privilégio), que o edital, todos os modos democratizantes do processo decisório sejam adotados. Se está errado, me perdoem, eu não sei qual é o papel do governo. No nosso entender, o papel do governo é esse.’


BARÕES


Sá Leitão afirmou ontem que é vítima de ‘campanha difamatória’ de um grupo liderado pelo cineasta Luiz Carlos Barreto. ‘Havia acesso privilegiado aos cofres públicos, agora a política é democrática. Eles se sentem como ex-privilegiados, como se houvesse direito adquirido. Agora é tudo por editais’, disse. ‘Há interesse de querer derrubar quem eles identificam como sendo adversário dos interesses particulares deles.’ Barreto não foi localizado para responder.


O secretário não criticou Caetano e acha seus argumentos ‘bons de debater’. ‘Levar isso adiante agora só interessa a quem quer antecipar campanha eleitoral. Sabe o que que vai acontecer? Vai começar uma competição entre esses barões da cultura para ver quem é que vai bater mais no ministério. Para se colocar mais em oposição ao Lula’, argumentou.


‘Seria totalitário se tomássemos medidas usando o poder de Estado: não gostamos do Gullar, discriminamos o Gullar. Mas isso não está colocado, o Minc não fez e não fará nada disso’, afirmou. ‘Não é porque o cara critica o ministério que vou passar a tratar ele como inimigo, agora eles são assim. Como rebati uma crítica, passaram a me tratar como inimigo.’’


JK NA GLOBO
Ignácio de Loyola Brandão


Breve encontro com JK


‘Sou admirador (deveria dizer saudavelmente invejoso) da carreira de Maria Adelaide Amaral. Ela faz com talento aquilo que sonhei ter feito e nunca fiz por preguiça ou incompetência. Sempre quis escrever roteiros de cinema. Mais tarde acrescentei de minisséries. Novelas nunca, é preciso fôlego, resistência à pressão, armadura contra ansiedades e certa dose de insanidade. Prefiro ‘assistir’ aos textos de Silvio de Abreu, com quem compartilho as mesmas referências cinematográficas; de Gilberto Braga, Walter Negrão (onde andas, Negrão?) ou do Benedito Ruy Barbosa, que começou carreira ao meu lado no jornal Última Hora, onde eventualmente víamos, deslumbrados, Danuza, mulher de nosso patrão Samuel, e ícone brasileiro.


Apesar de bem mais nova do que eu, Maria Adelaide foi minha contemporânea na Editora Abril, em departamentos e andares diferentes. Ainda que nos cruzássemos no Dedoc, o arquivo, point mais efervescente da empresa. Lugar de gente instigante, de pessoas interessantes, divertidas, politizadas. Nunca se revelou, porém, muita notícia chegou ao estrangeiro denunciando calamidades da ditadura saiu por canais próprios do Dedoc. No Dedoc se pesquisava e eu via Maria Adelaide conversando com Irede Cardoso, pedindo coisas ao seriíssimo Bira, convivendo com a indignada Angélica, dada como morta nos porões dos militares e que, de repente, reencontrei viva em Havana em 1978. Havia também Otavia, uma japonesa zen que fazia breves massagens relaxantes, o que provocou a perplexidade do Roberto Civita que ali deu uma incerta, uma tarde.


Ao ler a biografia de Maria Adelaide, escrita por Tuna Duek, a esfuziante, descobri uma identidade. Um dos filmes favoritos dela foi Férias de Amor (Pic Nic), com William Holden e Kim Novak, então a estrela mais bonita do mundo. Mas Adelaide tinha olhos para Susan Strasberg, que no filme fazia a irmã patinho feio, fumava escondido, desmascarava a hipocrisia provinciana americana, lia muito e queria ser escritora. Ora, era toda uma geração que cultuava Susan, filha de Lee Strasberg, o homem que tinha criado o Actors Studio e desenvolvido o método Stanislavski, o mesmo do Arena e do Oficina, aqui no Brasil.


De uma carreira de atriz abandonada pelo bom senso, Adelaide saltou para a dramaturgia. A Resistência, Bodas de Papel, Chiquinha Gonzaga (maravilhosa e com uma atriz que explodiu, Regina Braga), De Braços Abertos, Para Sempre, Tarsila foram alguns textos, até chegar a Mademoiselle Chanel. Vitoriosa, ela dominou o teatro e, paralelamente, percorreu a televisão. Trabalhou com Cassiano Gabus Mendes, o pioneiro que merece uma volume da coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, pelo que fez e ensinou. Colaborou com Silvio de Abreu, Alcides Nogueira, Walter Negrão, Lauro Cesar Muniz, todos pesos pesados. Aprendeu, e bem. É de Maria Adelaide um momento único, a adaptação de Os Maias, de Eça de Queiroz, uma das mais belas minisséries de nossa TV, apesar dos esforços da cúpula global para derrubá-la. E não foram deliciosas A Casa das Sete Mulheres e Um só Coração?


Por que tudo isso? Por causa de JK, a minissérie de todas as noites, depois de Belíssima. JK, o presidente bem-amado, o estadista (merece a palavra) moderno, o otimista, o bem-humorado que nos fez acreditar que o Brasil poderia ser grande, ao contrário desse Lula soturno, de maus bofes, incompetente. JK, sigla mágica. O homem de um Brasil que seria e não foi porque teve Jânio, Jango e os generais. Vivemos hoje um momento curioso, porque sem nada ter sido estruturado, passamos a repensar períodos em que fomos felizes. Está aí o filme Vinicius, enternecedor e que faz bem à alma. Ou o documentário Os Cariocas, produzido pela Wollner, e que resgata o Rio dos anos 40 aos 60. Acrescentemos os DVDs de Chico Buarque e de Maria Bethânia e o livro sobre Carmem Miranda. Agora, JK. Não é nostalgia, é material para reflexão. Professores deviam indicá-lo para discussão em aula. Pais precisam recomendar aos filhos dizendo: ‘Tivemos belas figuras em nossa história, não é esse nojo em que chafurda Brasília.’ Com JK, de Adelaide e Alcides Nogueira, vemos que há vida inteligente na televisão.


No domingo, me ligou o ator Marco Antonio Pâmio que vai interpretar na minissérie um colunista social que teria sido inspirado em Jacinto de Thormes. Pâmio tinha lido minha crônica sobre Jacinto e queria saber mais, saber tudo. Como eram as colunas, a sociedade, os mitos, o jornalismo naquele tempo, como o Jacinto revolucionou, as suas fontes, maneira de agir e trabalhar, a influência que exercia, seu estilo, jeito de ser. Acima de tudo, a integridade da figura. O personagem/colunista não tem nome, ao que soube. Não seria o momento de relembrar a importância de Jacinto e nomeá-lo?


Quanto a JK, tive um encontro com ele. Não mudou a história, nada acrescentou à vida política, nem registrou. Eu mal tinha começado em jornal em São Paulo, quando me mandaram cobrir a inauguração da Mafersa, na qual Juscelino estaria presente. Eu estava com 21 anos, havia chegado do interior, era acanhado e fiquei paralisado com a responsabilidade. Havia uma única pergunta sobre o FMI. Fui à cerimônia e não me atrevia a me aproximar. Naquele tempo não existiam aparatos de segurança, tropas de choque, homens de preto se comunicando por rádio. A certa altura, o experiente fotógrafo Ruy Costa me empurrou: ‘Agora! É a última chance, o homem vai embora.’ Jogou-me em cima de JK que se virou, tranqüilo: ‘O que quer, meu filho?’ Juscelino era bem vestido, tinha aplomb, como se dizia. Ele sorriu, respirei aliviado, o sorriso prosseguiu e entendi por que a Nação inteira adorava aquele homem. Há instantes em que percebemos como as coisas são e por que são. Perguntei, ele respondeu e acrescentou: ‘O que mais?’ Nada. Era uma só a pergunta que deu manchete no dia seguinte. Minha primeira manchete, sonho de todo jornalista, motivo de orgulho.’


ZÉ DO CAIXÃO PREMIADO
Jotabê Medeiros


Diretor dribla maldição de 50 anos e embolsa prêmio


‘Após 50 anos fazendo cinema no País, período no qual realizou 38 filmes (e deixou outros 20 inacabados), um veterano cineasta conseguiu uma proeza anteontem: pela primeira vez, foi premiado num concurso de cinema federal.


Anteontem à noite, o diretor José Mojica Marins, o Zé do Caixão, foi a uma churrascaria com amigos para festejar a façanha, maior do que superar 2 Filhos de Francisco e levar 6 milhões de espectadores ao cinema (isso é café pequeno, ele já fez com seu segundo filme, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, em 1966). Na churrascaria da zona sul, picanha sanguinolenta no cardápio, drinques coloridos para brindar: Mojica está podendo.


O veterano diretor de filmes de terror, que fará 70 anos em 13 de março, nunca recebeu um centavo do governo para fazer seus filmes. Passou os 21 anos de atividade da antiga Embrafilme, entre 1969 e 1990, batendo na porta da estatal, mas nunca passou da soleira. Agora, vai receber R$ 1 milhão do Concurso Público de Apoio a Obras Cinematográficas de Baixo Orçamento, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura.


‘Vai ser a fita mais cara da minha vida’, disse Mojica anteontem, antes do merecido desjejum. ‘Meus filmes nunca passaram dos R$ 60 mil.’ A Encarnação do Demônio, o filme que ele vai rodar a partir de abril, é um roteiro de 40 anos, foi escrito em 1966. Mojica estima que, com aportes financeiros da Petrobrás e outras empresas, conseguirá R$ 2,2 milhões para a produção. E faz planos eufóricos e ambiciosos para o futuro.


‘Vou poder pagar bem os técnicos, os atores. Teremos muitas locações. Quero filmar numa favela, no centro de São Paulo. Vou convidar o Anselmo Duarte para fazer um mafioso, é um baita de um ator, o povo esqueceu do cara. Vou convidar também a Íttala Nandi. A Malu Mader. A Alcione Mazzeo. Tô pensando também no Raul Cortez e no Ney Latorraca.’ Para a trilha sonora, ele já tem duas bandas na cabeça: Sepultura e Titãs.


‘Havia, há um preconceito contra o terror’, disse Mojica, que enfrentou 84 concorrentes para ficar entre os 5 premiados. ‘Eu só não sei o motivo. A morte não sai nunca de moda, a morte existe sempre’, afirmou. Ele é autor de dois dos maiores clássicos do gênero terror, À Meia-Noite Levarei Tua Alma(1962) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver(1966). Após ter seus filmes lançados pela distribuidora Something Weird nos Estados Unidos, passou a acumular admiradores famosos: Quentin Tarantino, Joe Dante, John Landis, Tim Burton, Paul Schrader, Roger Corman e John Walters.


Mas das mãos do governo, até um ano atrás, Mojica só tinha recebido pauladas. Seus biógrafos, André Barcinski e Ivan Finotti, sustentam no livro Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, de 1998, que ele é um dos cineastas mais perseguidos pela censura oficial em toda a cinematografia nacional. Nos anos 60, dos quatro principais filmes com o personagem Zé do Caixão, dois estavam interditados pela censura e os outros dois tiveram 65% de seu conteúdo cortado. O Despertar da Besta ficou 18 anos retido nas gavetas do Ministério da Justiça.


Em setembro, no entanto, sua sorte começou a virar. Em 2005, recebeu a Ordem do Mérito Cultural das mãos do presidente da República, em Brasília. ‘Tive um tratamento muito bom. Tinha muitos cineastas lá, gente muito grande. Levei um papo legal com o Lula. Ele me contou que, quando era deputado, estava em Campinas e um garoto olhava para ele sem parar. Ele ficou espantado. Aí o garoto foi até ele e disse: ‘Você é o Zé do Caixão, não é?’. O pai do menino tentou consertar, disse que aquele era um candidato a presidente. Mas o menino não quis saber, ficou frustrado.’


O cineasta também tentou a carreira política. Nas últimas eleições para a vereança em São Paulo pelo nanico PTC, teve 6,5 mil votos. ‘Tive mais votos que o dono do partido, mas não fui eleito.’


Além de Mojica, os outros contemplados pelo concurso do Baixo Orçamento são os filmes Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro; Fronteira, de Rafael Conde; O Grão de Mostarda, de Petrus Cariri; e Revoada, de José Umberto Dias.’


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Valor Econômico


Sexta-feira, 6 de janeiro de 2006


IMPRENSA INTERNACIONAL
Matías M. Molina


Maior jornal econômico do mundo


‘‘The Wall Street Journal’ e o ‘Financial Times’ competem para ser o jornal de economia mais importante do mundo. Mas nenhum deles disputa o título de maior jornal mundial de economia, que está, desde há muitos anos, com um diário japonês, o ‘Nihon Keizai Shimbun’.


O ‘Nikkei’, como também é chamado – seu nome por extenso significa ‘Jornal Econômico do Japão’ -, tem uma circulação diária de 4,6 milhões de exemplares impressos (3 milhões da edição matutina e 1,6 milhão da vespertina), o que representa mais de duas vezes a circulação mundial combinada do ‘Journal’ (1,75 milhão da edição impressa americana, 86,5 mil da européia e 83,5 mil da asiática; ) e do ‘FT’ (432 mil).


Os números do jornal econômico japonês são ainda mais impressionantes quando se considera que o número de seus leitores teve, nos últimos anos, um ligeiro crescimento, enquanto o de seus concorrentes de língua inglesa apresentam estabilidade ou declínio.


A circulação nos Estados Unidos de ‘The Wall Street Journal’ alcançou seu pico mais alto no fim dos anos 80, quando tocou a marca dos 2 milhões de exemplares. Desde então oscila em torno do 1,8 milhão. O ‘Financial Times’ chegou a ultrapassar o meio milhão de cópias no fim dos anos 90, mas agora luta para deter uma incessante hemorragia de leitores em seu próprio mercado doméstico, o Reino Unido, onde a circulação caiu de 190 mil nos anos 80 para 134 mil em outubro último. Se forem considerados apenas os exemplares integralmente pagos, o número cai para 94 mil.


O jornal japonês, porém, circulava em 1977 com um total de 2,9 milhões de cópias. A edição matutina se estabilizou em torno dos 3 milhões a partir dos anos 90, mas a vespertina cresceu pelo volume de informações que publica, devido ao fuso horário, das economias da Europa e dos EUA.


Uma característica do ‘Nikkei’ é a competição interna. Nem o ‘Journal’ nem o ‘FT’ têm concorrência direta em seus mercados domésticos, mas o ‘Nikkei’ precisa enfrentar diariamente um rival de grande envergadura. O ‘Sangyo Keizai Shimbun’ (Sankei), editado pelo Fuji-Sankei Group, que é o maior grupo de mídia do Japão, vende cerca de 3 milhões de exemplares por dia (2,1 milhões na edição da manhã e 878 mil na da tarde). Maior, portanto, que a circulação dos dois jornais anglo-saxões somados.


Dentro do mercado japonês, porém, o ‘Nikkei’ é apenas o quarto maior jornal por circulação. Está atrás do ‘Yomiuri Shimbun’ (14,1 milhões), ‘Asahi Shimbun’ (12,2 milhões) e ‘Mainichi Shimbun’ (5,6 milhões), que são diários de informação geral. O ‘Sankei’ é o quinto maior. Para chegar pontualmente a seus leitores, o ‘Nikkei’ é impresso em cinco cidades do Japão.


Um fator que contribuiu para a penetração do ‘Nikkei’ foi sua cobertura dos assuntos internacionais, e não apenas os aspectos econômicos, que o tornou para muitos assinantes não ‘o segundo jornal’, como acontece com a maioria dos diários de economia, mas ‘a primeira leitura’.


Apesar desses dados impressionantes, o ‘Nikkei’, devido à barreira da língua, é pouco conhecido fora de seu próprio país. Em 1987, começou a ser impresso nos Estados Unidos e na Europa, e hoje tem seis pontos de impressão no exterior, mas sua circulação internacional é relativamente pequena, de apenas algumas dezenas de milhares de cópias, lidas principalmente por executivos de empresas japonesas no exterior.


Em 1963 lançou uma edição semanal em inglês, ‘The Japan Economic Journal’, para ter uma presença internacional, com conteúdo traduzido da versão japonesa. Hoje esse semanário é impresso no Japão, na Europa e nos Estados Unidos. Seu círculo de leitores é estreito. Das 24 mil cópias vendidas, a metade circula no Japão, onde é lido em grande parte por executivos ocidentais. O autor destas linhas o assinou durante um tempo. O jornal, que em 1991 mudou seu nome para ‘The Nikkei Weekly’, é bem feito, porém mais informativo do que analítico. Seu foco principal é a economia e principalmente os negócios japoneses.


Isso significa que, com toda sua enorme circulação, o ‘Nikkei’ tem uma relevância e influência no panorama internacional bem inferior à do ‘Journal’ e do ‘FT’, seus dois principais competidores.


A história do ‘Nihon Keizai Shimbun’ começa em 1876 com o ‘Chugai Bukka Shimpo’ (‘Jornal com o Preço das ‘Commodities’ Nacionais e Internacionais’), um semanário de quatro páginas lançado por Takashi Masuda, que dirigia uma das mais importantes ‘trading companies’ japonesas, a Mitsui. Recebeu ajuda financeira do governo. O lançamento do jornal se deu em um período de profundas mudanças na sociedade japonesa, com o início da era Meiji, o fim do feudalismo, a abertura do país às correntes internacionais e a fundação de um grande número de jornais. Os principais diários que circulam hoje no Japão têm origem naquela época.


Em 1885 foi transformado em diário e em 1889 mudou seu nome para ‘Chugai Shogyo Shimpo’ (‘Notícias Comerciais Nacionais e Estrangeiras’). O nome atual data de 1946, o ano seguinte ao fim da Segunda Guerra Mundial. Desde então, sua circulação cresceu rapidamente. Em 1947 já vendia 335 mil cópias.


A partir daquela época, o ‘Nikkei’ adotou uma política de acordos editoriais com as melhores publicações do Ocidente. Assinou um acordo em 1952 com o ‘Journal of Commerce’, americano, que era um diário de prestígio, e com o ‘Financial Times’. Posteriormente se associou à Dow Jones, com a qual manteve estreitos laços ao longo de várias décadas. Quando em 1975 decidiu aventurar-se ao exterior com a Nikkei International, a editora americana ficou com 20% do capital.


Ao mesmo tempo, começou a instalar escritórios e representações no exterior, assim como sucursais em todo o território japonês. Acompanhando o rápido crescimento do país e o auge do ‘milagre japonês’, tornou-se em 1962 o maior jornal mundial de economia, ao ultrapassar a circulação de ‘The Wall Street Journal’.


O ‘Nikkei’ adotou várias iniciativas que confirmaram sua posição. Assim como o ‘Financial Times’ e a Dow Jones preparam e dão seu nome aos mais conhecidos índices da bolsa de seus mercados domésticos, o índice Nikkei elabora o índice de seu nome, o mais importante da bolsa de Tóquio.


Mas, ao contrário dos outros grandes jornais mundiais de economia, que diversificaram suas atividades em várias áreas, a empresa editora do ‘Nikkei’ preferiu manter o foco como o principal fornecedor de informação sobre os negócios japoneses – para o mercado interno e para o resto do mundo.


A Pearson, por exemplo, que publica o ‘Financial Times’, se desfez da maioria de suas operações de informação profissional e de negócios, como ‘newsletters’ especializadas e serviços on-line. Seus principais negócios são o setor de educação e a edição de livros. O ‘FT’ é o cartão de visitas do grupo e a atividade de maior prestígio, mas não é a mais importante.


A Dow Jones, editora de ‘The Wall Street Journal’, comprou a Telerate, de informação financeira em tempo real, nos anos 90, para competir com a Reuters e a Bloomberg. A iniciativa foi um desastre. Tentou e fracassou em sua tentativa de dar informação econômica pela televisão. Teve melhores resultados com a compra de uma pequena cadeia de jornais nos Estados Unidos. Não mostrou interesse para editar ‘newsletters’ ou revistas de negócios, um território que foi ocupado pela McGraw-Hill.


O grupo japonês dedicou-se quase que exclusivamente a oferecer o mais amplo leque possível de informações dirigidas ao homem de negócios. Emprega, com esse fim, mais de 1,4 mil jornalistas em todas as suas publicações. A empresa editora, Nihon Keizai Shimbun, Inc., lançou em 1971 o ‘Nikkei Ryutsu Shimbun’ (especializado em marketing, que circula três dias por semana, com 225 mil exemplares), em 1973 o ‘Nikkei Sangyo Shimbun’ (diário de negócios, com 241 mil exemplares) e em 1987 o ‘Nikkon Kin-Yu Shimbun’ (diário de finanças, com 49 mil exemplares).


Criou uma divisão de revistas e publicações profissionais, a Nikkei Business Publications, a maior desse setor no Japão. Lançou, por exemplo, a revista ‘Nikkei Money’, com o modelo da ‘Money’ americana, e chegou rapidamente ao meio milhão de exemplares; a ‘Nikkei Business’, revista quinzenal e depois semanal de negócios, publicada mediante acordo com a ‘Business Week’, revista da McGraw-Hill; a ‘President’, no modelo da ‘Fortune’, quando esta era mensal. Publica também as revistas ‘Nikkei Trendy!’ e a edição japonesa da ‘Scientific American’. No total, mais de 30 revistas. Edita mais de 300 livros por ano. Esta unidade, de certa maneira, foi o equivalente japonês da editora americana McGraw-Hill, empresa com a qual a Nikkei também se associou.


A Nikkei foi muito ativa em provocar o debate em torno das teorias econômicas. Organizou seminários, levou ao Japão os mais famosos nomes do momento, como Milton Friedman, John Kenneth Galbraith, Paul Samuelson, e estabeleceu prêmios anuais para livros de economia.


Seguindo o caminho também trilhado pelos outros grandes jornais japoneses, a empresa entrou com firmeza no negócio da radiodifusão. Lançou o primeiro canal a cabo e satélite de informação econômica, o Nikkei Satellite News. Criou em 1999, em associação com a Dow Jones, a Nikkei CNBC, que não foi bem-sucedida. Controla também seis emissoras de televisão aberta e a primeira cadeia privada de ondas curtas do Japão, a Nihon Shortwave Broadcasting.


A empresa investe pesadamente, com os lucros proporcionados pelos meios impressos, para tornar-se uma provedora de informação de economia na era eletrônica. Possui o mais completo banco de dados de negócios do Japão e dispõe de um crescente serviço de informação eletrônica on-line.’


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