Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > HOJE É DIA DE MARIA

Giuliana Reginatto

25/01/2005 na edição 313

‘Aos 10 anos, estrela de Hoje É Dia de Maria avalia as agruras e delícias da fama

Dois meninos tentam, sem sucesso, armar uma rede de vôlei entre os postes da Rua José Castrioto, uma via pacata da periferia de São José dos Campos. O que era uma atividade rotineira para eles se tornou uma aventura quase arriscada desde que a microssérie Hoje É Dia de Maria estreou na Globo. O fluxo de carros intensificou-se tanto na região, que atrapalhou a brincadeira das crianças. Ao ver o carro da reportagem um garoto logo grita: ‘Vocês estão procurando a menininha da TV?’ E aponta para um condomínio de casas pequenas e simples, onde veículos de emissoras e jornais disputam espaço.

Ali, a cerca de 100 quilômetros da capital, vive a nova estrela da Globo. Com apenas 10 anos e sem nenhuma experiência como atriz, Carolina Oliveira acaba de assinar um contrato de dois anos com a emissora. Esse foi seu prêmio pela surpreendente atuação como Maria, a protagonista da série. Especula-se, até mesmo, que Carolina já está escalada para o elenco de Belíssima, a próxima novela de Sílvio de Abreu, que em setembro substitui América na faixa das nove. Pelo Projac, comenta-se que Carolina vai interpretar uma guia turística que fala grego. Seus pais devem ser Marcos Palmeira e Taís Araújo.

No pequeno bairro onde vive, chamado Parque Nova Esperança, Carolina é apenas a Carol do time de vôlei. ‘Eu era a capitã da equipe’, lembra a menina, espreguiçando-se no sofá da sala. Ela está cansada. Na primeira manhã em que acordou em casa, após uma temporada de quatro meses no Rio de Janeiro, já tinha compromisso marcado: gravar um programa no estúdio da TV local. Durante a tarde, em vez de aproveitar as férias escolares, dividiu seu tempo entre as reportagens por telefone e os jornalistas que apareciam em sua casa. ‘É difícil para uma criança de 10 anos ficar repetindo a mesma coisa o tempo todo’, diz a mãe, Rosemary Oliveira.

Carolina já percebeu que virar atriz pode ser bastante exaustivo. ‘Fui passear no shopping e uma senhora apertou minha bochecha e disse que eu estava linda e maravilhosa. Às vezes me pedem fotos’, conta a menina. Não existe soberba nas palavras dela. Inocente, ri dos elogios e fala com naturalidade sobre seus famosos colegas de trabalho. ‘A dona Fernanda foi muito legal comigo’, diz ela, sem imaginar que contracenar com Fernanda Montenegro é o sonho de muito ator experiente.

Para viver Maria a menina aprendeu a cantar, dançar, interpretar e falar com sotaque caipira. Segura como uma veterana, disputou a vaga com 2 mil garotas e conquistou a confiança do diretor Luiz Fernando Carvalho, o `tio Fernando´, nas palavras da pequena. Quem entra na casa de Carolina chega a pensar que o diretor é mesmo algum parente dela. Ele aparece na sala, carregando a menina no colo, no maior porta-retrato da mesa. ‘No meu quarto tem outra foto do tio Fernando’, avisa a menina, que divide o cômodo com o irmão Leonardo, de 5 anos.

O peixe Quirino ocupa quase a cama toda de Carolina. Foi um presente do amigo Daniel, seu parceiro de brincadeiras durante os intervalos das gravações. ‘Eu adotei o Daniel! A gente tem até o mesmo sobrenome. O peixe se chama Quirino porque é o nome do Daniel na série’, derrete-se a menina. Além do bicho de pelúcia, Carolina trouxe da viagem um artigo nada infantil: o livro A Preparação do Ator, de Constantin Stanislavski. ‘Adoro ler. Meu primeiro livro foi uma versão infantil de Os Miseráveis, na primeira série’, conta.

Apesar da proximidade com a praia, Carolina gostou mesmo é do flat, na Barra da Tijuca, onde se hospedou com a mãe e descobriu a TV a cabo. ‘Passava desenho até a noite. Eu adorava!’, diz. A menina, que estudava em uma modesta escola de Parque Nova Esperança, terminou o ano em uma elegante instituição do Recreio. Sua mãe, que trabalhava como auxiliar de odontologia, pediu licença para acompanhá-la. Só o pai permaneceu em São José, onde trabalha como motorista. ‘É bom reunir a família outra vez’, desabafa Carolina.’



Adriana Del Ré

‘Giramundo completa trama com a arte de `bonecar´’, copyright O Estado de S. Paulo, 20/1/05

‘Eles não são atores, mas quase parecem ter vida própria. Suspensos por fios aparentes, os bonecos construídos pelo grupo Giramundo e pelo artista argentino Catin Nardi, da Cia. Navegante, têm chamado a atenção pela singela integração com os atores reais na minissérie Hoje é Dia de Maria. No caso de alguns bonecos do Giramundo, eles constam até no roteiro e ganharam papel de destaque, como o Pássaro, que acompanha Maria e, ao se transformar em humano, é o personagem Amado, vivido por Rodrigo Santoro.

Convidada pelo diretor Luiz Fernando Carvalho, a trupe do Giramundo viu-se diante de um desafio. O diretor descartou a possibilidade de bonecos criados em animação, a partir de protótipos feitos pelo grupo. Queria vê-los interagindo com os atores, submetendo-os a movimentos complexos. Outra dificuldade foi manter os manipuladores fora do alcance das câmeras, no alto, em espécies de guindastes.

Por isso, foram necessários dois marionetistas no Projac, no Rio, sob a supervisão do diretor de planejamento do Giramundo, Marcos Malafaia, coordenador de produção e de projeto gráfico na minissérie. ‘Adaptávamos os bonecos de acordo com a demanda das cenas’, recorda Malafaia. ‘Não foi um mar de rosas; se a minissérie possui virtudes foi decorrente da disposição de todos para experimentação. E nós, do Giramundo, somos movidos pelos desafios.’

Amigo do grupo, o artista Catin Nardi, que costuma manipular as próprias criações, abriu uma exceção: deixou que os marionetistas do Giramundo manipulassem seus bonecos construídos com cabaça e com capacidade de movimentação que impressionou Carvalho. Seus patinhos, que apareceram nos primeiros capítulos, fizeram grande sucesso. Responsável pela abertura da novela As Filhas da Mãe, Catin acredita ser este um trabalho inovador. ‘Hoje é Dia de Maria é um marco na forma de se fazer televisão.’’



Leila Reis

‘‘É comum menosprezar a inteligência do espectador’’, copyright O Estado de S. Paulo, 20/1/05

‘Atriz fala sobre dificuldades que enfrentou em Hoje É Dia Maria e que não fará mais novelas inteiras

Dama do teatro, da TV e do cinema, Fernanda Montenegro está orgulhosa de integrar o elenco da microssérie Hoje É Dia de Maria, em que interpretou a cruel madrasta da pequena protagonista. Diz que o resultado compensou as dificuldades e que a aceitação do público só surpreendeu porque é praxe achar que o ‘facilzinho’ é que dá ibope. Nesta entrevista, a premiada atriz conta que não vai mais fazer novelas inteiras. ‘Repetir não é do meu temperamento, gosto de fazer coisas que não sei.’

Novela nunca mais?

Não é assim, mas uma novela inteira nunca mais. É um trabalho exaustivo, que vai se tornando desinteressante. É esticar a corda além do possível.

Já foi mais fácil?

Até a novela Zazá foi possível, acho que ainda estava me surpreendendo com a industrialização do processo. No período em que se faz novela, a gente morre para o mundo, não vai a lugar algum. Eu tenho outros interesses: cinema, teatro e minha vida.

Como é fazer minisséries?

Ser chamada é uma espécie de premiação, porque é um trabalho de mais qualidade, porque se tem ambição de fazer um DVD ou filme, como O Auto da Compadecida.

Como foi trabalhar em Hoje É Dia de Maria?

Extraordinário, foi um trabalho de muita coragem. É maravilhoso, no momento em que coisas estão desinteressantes, achar alguém que te abre uma caixinha. Interessante é fazer algo que você não sabe como se faz. Repetir não é do meu temperamento, gosto de fazer coisas que não sei.

O som dos primeiros episódios não estava muito nítido. Você estava gripada?

O palco no qual trabalhamos – a bolha – não tinha ar refrigerado, havia muita fumaça para compor aquela luz, poeira. Foi como trabalhar dentro de um forno de pizza horas seguidas. Houve uma gripe geral, mas nos salvamos. O problema do som não foi por minha causa, mas problemas técnicos.

Foi muito difícil trabalhar?

A maior dificuldade foi o calor, mas se não fosse daquele jeito não teríamos aquelas imagens. Depois que a gente faz, vê que está bonito, a tendência é achar que foi fácil. A adesão dos atores mais ligados ao teatro foi imediata. Foi quase uma ópera, uma cenografia teatral em cima de um tablado onde se caminha e nunca sai do lugar. Foi um trabalho muito marcante e uma audácia do Luiz Fernando Carvalho.

Qual foi o momento mais difícil?

A hora em que dou uma surra na Mariazinha (Carolina Oliveira). A cena foi dura, comecei a bater em cima da caixinha de som que fica na cintura da menina, pancadaria da boa que até machucou a minha mão. Maltratar criança é muito duro, ainda bem que não era eu, mas a madrasta de Maria.

Hoje É Dia de Maria deu audiência de novela. Você acha que o telespectador mudou?

A gente prejulga o telespectador, acha que só o que é facilzinho é penetrável e tem ibope. Muitas vezes se nivela por baixo para facilitar, porque se supõe que ele pode não entender e se aborrecer. É tão comum menosprezar a inteligência de quem está nos assistindo que, quando dá certo, ficamos espantados. O público mudou, é capaz de gostar de temáticas que não o cortejam como Hoje É Dia de Maria.

Você tem projetos para a TV?

Não, há 4 anos tenho feito cinema, participando de projetos irrecusáveis. Em maio será lançado Casa de Areia, de Andrucha Waddington (genro), em que contraceno com a Fernanda (filha) e vou ao festival de Berlim apresentar Redentor, de Cláudio Torres (filho).

É bom trabalhar em família?

É bom, é como no circo, a gente vai vivendo junto, passando por experiências, sofrendo.

Como participar da cerimônia do Oscar te marcou?

Foi fantástico, mas deu para ver que é um mundo mais da indústria do que da arte. Para o meu imaginário pareceu coisa de ficção científica estar perto de atores como Jack Nicholson, Meryl Streep e eles nos olharem como igual.’



Amelia Gonzalez

‘As histórias da história’, copyright O Globo, 21/1/05

‘Banda é banda; ciranda é ciranda. Quem toca em banda não toca em ciranda; quem toca em ciranda não toca em banda. Íris Gomes, escritora e pesquisadora de cultura popular, só soube disso quando viu ‘seu’ Alvino, músico da banda Santa Cecília, botar seu instrumento debaixo do braço e ir embora resmungando quando viu os Coroas Cirandeiros preparados para tocar com eles:— Ora, onde é que já se viu fazer esta misturada de som?

O ‘sacrilégio’ estava sendo cometido em Paraty, mas por uma boa causa. É que o diretor Luiz Fernando Carvalho queria uma ciranda com instrumento de sopro para tocar a música de São José quando Maria (Carolina Oliveira) encontrasse Zé Cangaia (Gero Camilo) na minissérie ‘Hoje é dia de Maria’, que acaba hoje. Mas ciranda não tem sopro, só banda é que tem. O jeito era juntar as duas.

— Ele pede, eu digo OK. Depois me viro para arranjar as coisas que ele me pediu — diz Íris, bem-humorada.

Por isso, na contenda entre cirandeiros e músicos de banda, a pesquisadora pensou rápido. Com jeitinho, contou ao maestro que era filha de músico, que a minissérie serviria para resgatar a cultura popular. Conseguiu quebrar a resistência. Músicos e cirandeiros se juntaram e venceram até um bizarro obstáculo: como não tinha partitura, Íris cantou a música de São José, sentada numa calçada de Paraty, para que eles pudessem pegar o tom.

A história da menina Maria, como se vê, não teve apenas oito capítulos. Começou no fim de agosto do ano passado, quando Luiz Fernando combinou um encontro com Íris para falar sobre o projeto que passeava pela cabeça dos dois há uns dez anos. O diretor chegou ao local do encontro com a boneca de pano que a personagem Maria carrega para todo lado. Era um código: a boneca é um objeto pessoal, muito querido da pesquisadora, e estava com ele desde que começaram a pensar no projeto. O fato de Luiz ter levado a boneca ao encontro queria dizer que a minissérie deixaria de ser só um projeto.

— Chorei quando vi a boneca no ar — diz Íris.

Para cada obstáculo, uma história diferente

A partir daquele encontro, ficou acertado que a pesquisadora, quase uma fiel escudeira de Luiz Fernando, não trabalharia só a prosódia (estudo da forma de falar) com os atores, tarefa que há 20 anos ela exerce na Globo, a maioria com obras do diretor de ‘Hoje é dia de Maria’. Luiz Fernando pediu que a escritora usasse sua experiência também como conhecedora de cultura popular para descobrir o que era possível inserir em cada cena e dar toques mais reais à minissérie. Foi assim que Íris começou também a sua ‘viagem’. Precisou contar muitas histórias para trazer gente que ilustrasse o caminho de Maria.

Até com índios, uma raça que não gosta nada de sair de suas terras, Íris precisou usar a imaginação. A pedido de Luiz Fernando, desembarcaram no Projac oito xavantes da aldeia Pimentel Rodrigues, de Água Boa, no Mato Grosso. Mas trazê-los foi o maior sufoco.

— Eu já tinha trabalhado com eles em ‘A muralha’. Sabia que não viriam se eu contasse uma historinha boba. Como na aldeia deles é costume fazer um cortejo para cada um dar um presente aos noivos, eu disse que eles iriam fazer o mesmo. Seriam vários presentes, e o último índio do cortejo iria entregar ‘a noite’ para Maria.

Até aí foi fácil. Convencidos de que iriam ajudar a divulgar uma tradição, os índios embarcaram rumo ao Projac. Mas, na hora que Íris pediu para eles confeccionarem tangas com palha…

— Índio não faz tanga. Só índia. E não teve história que desse jeito. Arranjei uma alternativa: botei todo mundo para tecer uma trama permitida e adaptei.

Trazer uma folia de reis foi outra epopéia. Íris e Luiz Fernando cismaram que esta seria a forma de festejar o casamento da Madrasta (Fernanda Montenegro) com o pai (Osmar Prado), no primeiro capítulo. Só que, tradicionalmente, folia de reis é uma festa religiosa e não foi feita para alegrar casamento. Quem disse que o mestre Tião, da Folia de Reis de Duque de Caxias, convencia-se a entrar na gravação com a trupe? Íris entrou em ação com suas histórias.

—- A folia de reis existe para simbolizar a visita dos Reis Magos à família sagrada. E o casamento? Não é um sacramento pelo início de uma família? Mestre Tião não teve como não concordar.

Só não deu para que eles fizessem a oração que fazem antes de cada apresentação porque a gravação estava atrasada. Mas outro grupo, os 30 negros de Contagem, Minas Gerais, driblou o relógio nervoso da equipe e fez todo mundo rezar um Padre Nosso antes da dança da umbigada, característica de festas da cultura africana. O evento foi ao ar no capítulo de terça-feira. Sem a reza.

— Teve gente que chegou para mim e disse: ‘Nossa, há quanto tempo eu não rezava um Padre Nosso’.

Terminam aqui, por enquanto, as histórias de Íris. Na verdade, uma trama que começou há muitos anos, na década de 80, quando, junto com Luiz Fernando, ajudou a levar ao ar um especial de um dia chamado ‘Uma mulher vestida de Sol’ , do texto de Ariano Suassuna.

— Acho que foi ali o start para ‘Hoje é dia de Maria’.

Que, até onde contam as histórias de corredores do Projac, está cotada para virar um seriado fixo.’

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