Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Helena Celestino

20/07/2005 na edição 338


‘Ele inflamou a capital do mundo nos escandalosos anos 80, mas era nos clássicos que buscava inspiração. As fotos eróticas mostrando corpos musculosos e perfeitos de homens quase sempre negros criaram polêmica em Nova York mas estavam ‘apenas’ atualizando a arte de quatro séculos atrás. Esta é a tese de uma das mais interessantes exposições da atual temporada nova-iorquina, que abriu no início do mês no Museu Guggenheim e foi recebida com bom humor por críticos e público. ‘Robert Mapplethorpe e a tradição clássica’ mostra as fotos de um dos mais controvertidos artistas contemporâneos, porta-voz da cultura gay da década de 80, ao lado das gravuras dos maneiristas, um movimento artístico do século XVI que se espalhou pela França e o norte da Europa logo depois da morte do pintor renascentista Rafael.


Retratos têm semelhança com figuras mitológicas


É um curioso diálogo entre artistas de mundos e tempos bastante diferentes. Mapplethorpe, personagem típico da Nova York pré-descoberta do HIV, viveu e documentou o brilho desses anos loucos e acabou expondo em auto-retratos a sua decadência física até pouco antes de morrer de Aids. Os seus retratos de estrelas pornôs e do submundo sado-masô nova-iorquinos têm impressionantes semelhanças estéticas com os corpos de musculatura exagerada das figuras mitológicas que povoam as gravuras dos maneiristas. Os artistas desse movimento, com nomes pouco conhecidos do comum dos mortais, como Hendrick Goltzius, Jan Harmensz, Muller, também romperam com as normas do seu tempo e violaram a harmonia do classicismo para desenhar extravagantes homens musculosos, vistos de estranhos ângulos.


— Nossa missão é interpretar a arte contemporânea. Esta exposição mostra um Mapplethorpe diferente, não mais um artista controvertido, mas um clássico, quase um conservador — diz Germano Celante, curador de arte contemporânea do museu de Nova York.


Nesses anos de governo Bush e guerra cultural, a exposição do Guggenheim soa quase provocativa. Mapplethorpe virou símbolo da luta pela liberdade de expressão ao transformar-se no alvo de um movimento para limitar o financiamento público da arte considerada obscena pelos conservadores. Poucos meses depois da sua morte, em março de 1989, o Congresso americano aprovou uma lei impedindo a aplicação de dinheiro do governo em trabalhos que mostrassem ‘sado-masoquismo, homoerotismo, exploração sexual de crianças ou indivíduos engajados em atos sexuais’. Para deixar ainda mais explícito de que as fotos de Mapplethorpe estavam entre o que se considerava obsceno, o Congresso cortou o orçamento do National Endowement for the Arts, que organizara uma exposição do artista.


— A exposição nos lembra que não foi Mapplethorpe quem inventou e erotizou a imagem do homem nu. Ele estava conectado com a tradição de inspiração clássica que começou com Da Vinci e Michelangelo — diz Celante.


A idéia de reposicionar a obra de Mapplethorpe começou com um brainstorm entre o curador de arte contemporânea do Guggenheim e o de gravuras italianas do Hermitage. A intenção era aproveitar os acervos dos dois grandes museus para permitir um olhar novo sobre a iconografia atual. De São Petersburgo vieram 42 gravuras dos maneiristas e do museu de Nova York foram selecionados 92 dos 174 trabalhos da coleção de Mapplethorpe. Juntos eles traçam as raízes e identificam as fontes de inspiração do artista contemporâneo. Nenhuma das fotos sado-masô do artista está na mostra, a ênfase é nos nus, auto-retratos e flores, mas, mesmo quando o tema das fotos é leve, o estilo severo choca.


— Eu não gosto particularmente desta palavra: chocante. Estou à procura do inesperado e se vejo isso sinto obrigação de fotografar — disse numa entrevista em 1988.


A trajetória artística de Mapplethorpe começa com colagens no início dos 70 e as primeiras fotos são dos amigos: músicos como Patty Smith, artistas como Andy Warhol e Cindy Sherman, socialites e também monstros do circo de Long Island, transformistas, body builders , cujas imagens viraram ícones e valem hoje milhões de dólares. No início dos 80, o seu trabalho entra numa fase de refinamento maior dos temas e passa a procurar uma estética mais clássica. São suas fotos desse período que estão mostradas no Guggenheim, junto com algumas esculturas greco-romanas que colecionou. Mapplethorpe sempre disse que estava à procura da perfeição da forma mas são a crueza da luz, as estranhas poses e a musculatura dos corpos de seus modelos que o aproximam dos maneiristas. Aparentemente nunca teve nenhuma dessas gravuras mas chegou a fotografar suas esculturas no fim da vida, já precisando da ajuda do galerista.


— Se eu tivesse nascido 200 anos antes, teria sido escultor. Mas fotografia é um meio rápido de ver, de fazer escultura — dizia.


O clima político e cultural dos anos 80 não estava preparado para a franqueza sexual retratada por Mapplethorpe mas nessa releitura da suas fotos parece incompreensível tanto escândalo. Nos seus últimos trabalhos, opta por uma serenidade e um isolamento quase castos. Coisas de curador ou visões já depuradas pelo tempo?’


 


ESCOLA BASE


Thélio de Magalhães e Laura Diniz


‘Escola Base: TJ manda ‘IstoÉ’ pagar indenização’, copyright O Estado de S. Paulo, 20/7/05


‘A Editora Três, proprietária da revista IstoÉ, foi condenada ontem pelo Tribunal de Justiça (TJ) a pagar três indenizações de R$ 200 mil, com juros e correção, aos donos da Escola Base, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada, e ao motorista Maurício Monteiro de Alvarenga.


Em 1994, eles foram citados em reportagem como suspeitos de abuso sexual de alunos. Depois, a polícia concluiu que a acusação era falsa e o inquérito foi arquivado. Por 2 votos a 1, a 10.ª Câmara de Direito Público entendeu que a reportagem causou danos morais e físicos aos três e eles devem receber uma reparação. No voto vencido, o desembargador Testa Marchi argumentou que não houve exagero nos fatos narrados pela revista. Segundo ele, a responsabilidade pelo ‘linchamento moral’ dos três deve ser atribuída ao delegado que presidiu o inquérito e conduziu mal as investigações.


A advogada da Editora Três, Cláudia Regina Soares dos Santos, recorrerá ao TJ e, se necessário, ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Para ela, a reportagem ‘foi uma narrativa de fatos contidos em investigação policial, sem intenção ofensiva’. Segundo Cláudia, o texto não extrapolou o direito da imprensa de divulgar fatos investigados criminalmente.


O advogado dos donos da escola, Kalil Rocha Abdalla, disse que as vítimas moveram mais sete ações contra órgãos de imprensa e uma contra o governo estadual. Todas estão em grau de recurso. Dos oito processos contra jornais, revistas e emissoras de TV, Abdalla perdeu cinco em primeira instância.


Na ação contra o governo, o STJ decidiu que cada um dos três autores deve receber R$ 250 mil de indenização. O Estado recorreu ao Supremo Tribunal Federal. ‘Apesar de fazer praticamente 11 anos, eles até agora não viram a cor do dinheiro’, disse Abdalla.’

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