Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > MÍDIA & PODER

Hélio Fernandes

01/02/2005 na edição 314

‘Jaime Lerner é um injustiçado. Jamais um governador ajudou tanto, tantos jornalistas. Agora nem falam nele, com medo de dossiê.

É uma injustiça, Alberto Dines não levar o ex-governador Jaime Lerner, ao ‘Observatório da Imprensa’. Ele prefere o editorial que escreveu em 1967, quando era Editor do Jornal do Brasil. Título: ‘Necrológio e martirológio’. Atacando um jornalista autêntico, para servir à ditadura. É incoerente a redemocratização. Como o Brasil nunca teve memória, nem lembrança, nem recordação, os que resistiram e se sacrificaram, são ultrapassados pelos que colaboraram.’



Alberto Dines responde:

‘Injusta é a natureza humana que castiga um jornalista talentoso, no fim de sua carreira, com estes incontroláveis surtos de torpeza. Nos onze anos e onze meses em que este Observador ocupou o cargo de Editor-Chefe do JB jamais escreveu um editorial. Um corpo de respeitados redatores e escritores revezavam-se nesta tarefa (Antonio Callado, Luiz Alberto Bahia, Otto Lara Rezende, Wilson Figueiredo, Pedro Gomes, Hermano Alves, Mario Faustino, entre outros) sob o comando do presidente da empresa, M.F. do Nascimento Brito. Conviria que Helio Fernandes expusesse publicamente as razões do seu contencioso com o ‘Jornal do Brasil’ que lhe vendeu o título da ‘Tribuna da Imprensa’.

Quem recebe ajuda de políticos, inclusive do governador do Paraná, Roberto Requião, é Hélio Fernandes.’



JORNALISMO & ÉTICA
Olavo de Carvalho

‘Cartinha ao Observatório da Imprensa’, copyright site Olavo de Carvalho (www.olavodecarvalho.org), 11/01/05

‘A propósito da notícia transcrita abaixo em apêndice, enviei o seguinte e-mail ao Observatório da Imprensa. Para evitar equívocos, informo que faço essas cobranças porque não considero o Alberto Dines, de maneira alguma, um jornalista desonesto, apenas alguém viciado por décadas de maus hábitos gerais da mídia brasileira.

‘Vocês podem me informar por que, nas suas matérias, os conservadores são sempre identificados como tais, enquanto os esquerdistas têm o direito de ser designados por suas profissões ou qualquer outra qualificação neutra, sem o carimbo ideológico respectivo? Já não me refiro nem à distorção grosseira de rotular conservadores como ‘extremistas de direita’, mas a uma perversão muito mais astuta e sutil, que é uso do termo próprio num contexto propositadamente falseado. Por que Thomas Sowell é um ‘colunista conservador’ e Dan Rather é apenas ‘o âncora da CBS’ e não ‘o âncora esquerdista da CBS’? A mensagem subentendida é que o conservadorismo é um viés digno de destaque, enquanto o esquerdismo, sendo a atitude normal e obrigatória da humanidade pensante, coincide com a objetividade pura, com o ‘centro’, e não requer precaução similar. Nada poderia ilustrar melhor o viés do OI do que a recorrência obsessiva desse cacoete de linguagem. Se vocês se policiarem para abster-se desse tratamento discriminatório, talvez aprendam, por efeito retroativo da disciplina estilística, a ser um pouco menos discriminatórios no pensamento. (E não venham me fazer cobrança idêntica quanto ao Mídia Sem Máscara, pois este se apresenta honestamente como publicação de combate, voltada a contrabalançar o viés esquerdista dominante na mídia, e não como órgão apolítico de mera fiscalização da qualidade profissional como o OI. O MSM jamais carimba ninguém sem antes haver-se carimbado a si próprio como liberal-conservador. O OI é um jornal de combate esquerdista que não ousa dizer seu nome.)’’



Alberto Dines responde:

‘Um filósofo pode ser tolo? Um sábio pode ser ardiloso? Um defensor da fé pode agir de má-fé? Um esclarecido pode ser tão rancoroso? As aleivosias disparadas por Olavo de Carvalho contra este observador e este Observatório têm o mérito de provocar oportunos questionamentos. É o que se poderia designar como ‘Filosofia pela Porta dos Fundos’.’



Carlos Heitor Cony

‘A ética de cada um’, copyright Folha de S. Paulo, 28/01/05

‘Meu professor de filosofia no seminário gostava de citar a ética de são Tomás e a de Benedetto Croce, éticas diferentes, de épocas e conceitos até contraditórios. Severo nas aulas, fora delas era brincalhão.

Causou-nos espanto quando, encerrando uma lição sobre são Tomás e Croce (somente ele seria capaz de juntar os dois ao mesmo tempo), saiu-se com esta: ‘No fundo, ética é aquilo que desejamos que os outros façam de acordo com os nossos preconceitos’.

Daí que comprei para sempre a distinção que ele fazia entre moral e ética. Para muita gente, as duas são uma coisa só. Há aquela piada do general que, quando ouvia falar em cultura, puxava o revólver. Existe uma variante: a do banqueiro que, quando ouve falar em cultura, puxa o talão de cheques. Os dois estão certos, observadas as características e conceitos de cada um.

Nunca se falou tanto em ética na mídia, nas conferências, simpósios, colóquios, manifestos disso e daquilo. Todos se consideram éticos, o que é do direito de cada um. E cobram dos outros um comportamento equivalente -é mais ou menos o que dizia o meu professor.

Contradizendo são Tomás (Benedetto Croce ainda não existia), Voltaire se espantava porque o autor da ‘Suma’ considerava ético o fato de Deus, criador de todas as coisas, ter colocado na cauda das raposas a mancha branca que as distingue de outros animais parecidos. Por quê? Voltaire lembra a resposta do Doutor Angélico em defesa da ética divina: porque facilitam o alvo dos caçadores de raposa, a ‘serial killer’ dos galinheiros e troféu daqueles que praticam a arte que os eruditos chamam de ‘venatória’.

(Para a massa de leitores, que é heterogênea e, em princípio, fundamentalista na questão da ética e dos bons costumes, é dose citar são Tomás, Benedetto Croce e Voltaire. Mas esperem pelo que vem mais adiante).

Lembrei, lá em cima, as variantes do militar e do banqueiro quando ouvem falar em cultura. Um professor da Universidade de Lübeck, que publicou recentemente um tratado sobre as diferenças entre as civilizações européia e norte-americana (o nome dele também é complicado: Christian-Maltus Honneberg), criou outra variante: ‘Quando ouço falar em ética, puxo o revólver que não tenho’. Deve ter motivos para fazer uma confissão dessas.

Tentaram estabelecer uma escala. A ética em geral, abstrata como toda a filosofia, de Platão a Leandro Konder, foi dividida em ramais, sendo um deles, o de nome mais arrevesado, a deontologia, responsável pelo espécime igualmente arrevesado, o deontólogo ou, como querem alguns dicionários, o deontologista.

Trocada em miúdos, a deontologia seria a ética de cada mister ou atividade humana. Haveria a ética do dentista, a do médico, a do advogado, a do jornalista, a do filatelista, a do apicultor (o Heródoto Barbeiro, nas horas vagas, é apicultor, aliás, o único que conheço).

Tenho experiência sobre essa tal deontologia. Em 1965, em frente ao Hotel Glória, no Rio de Janeiro, um pequeno grupo de jornalistas e cineastas promoveu um protesto pacífico contra o marechal Castelo Branco, que então presidia o regime militar instalado no ano anterior.

Foram presos, o que seria natural. E foram chamados de ‘cafajestes’ na primeira página de um grande jornal e, lá dentro, no editorial, de ‘baderneiros’. Tanto na primeira página como no editorial, o jornal invocou a ética abstrata e a deontologia específica.

Os cafajestes eram Antônio Callado, Glauber Rocha, Flávio Rangel, Joaquim Pedro de Andrade, Mário Carneiro, Thiago de Mello, Márcio Moreira Alves e outros.

Na outra ponta da corda ideológica, o Partido Comunista Brasileiro, também na primeira página de seu jornal, chamou os manifestantes de ‘pequeno-burgueses vulgares’. Apesar de uma corda que se preze ter apenas dois lados, no caso da ética, a corda tinha três: Alceu Amoroso Lima, em artigo no ‘Jornal do Brasil’, chamou os cafajestes, baderneiros e pequeno-burgueses vulgares, nada mais, nada menos, do que de ‘heróis’.

O mesmo acontece, recentemente, com a ética no plano internacional. A deontologia estabelece regras diferentes para israelenses e palestinos. Estão se matando uns aos outros, de forma bárbara, mas estão cheios de ética. Palestinos consideram heróis os suicidas que se explodem com bombas que criminosamente explodem inocentes do outro lado da corda. E israelenses realizam ataques com bombas sofisticadas que explodem inocentes do lado contrário.

Voltando ao cenário doméstico, nada mais ético do que contrair empréstimos do governo, empréstimos que não serão pagos, desde que se criem empregos e se defendam postulados sadios. Nada mais ético do que acusar o concorrente de marretas publicitárias, marretas iguais e até maiores, feitas pelo acusador.

Em ambos os casos, tanto nos empréstimos oficiais como nas marretas publicitárias, não há a desculpa da lei comum, aquela que é votada no Congresso. O mesmo Congresso que é habitualmente acusado de não ter ética nem deontologia.’

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