Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > MEMÓRIA / CABRERA INFANTE

Humberto Werneck

01/03/2005 na edição 318

‘‘Sou um reacionário de esquerda’, respondeu Guillermo Cabrera Infante quando, numa entrevista, lhe pedi que se definisse politicamente.

À sua maneira -brincando o tempo todo com as palavras-, o grande escritor cubano, morto na noite da última segunda-feira aos 75 anos, em seu exílio londrino, fazia questão de situar-se com nitidez. Embora criticasse a revolução cubana, da qual cedo desembarcou, o autor de ‘Três Tristes Tigres’ e ‘Havana para um Infante Defunto’ não queria ser confundido com outros intelectuais e artistas cubanos convertidos à direita militante.

Revolucionário bem antes da queda do ditador Fulgencio Batista, no primeiro dia de 1959, Cabrera Infante foi esquerdista, mas não comunista. Costumava dizer que ganhou anticorpos ao ver o contorcionismo ideológico a que seus pais, militantes obedientes, eram forçados pela trajetória bamboleante do PC cubano. Se esteve uma vez em cana, aos 23 anos, não foi por motivos políticos, mas por ter publicado um conto ‘obsceno’.

Cabrera participou da luta contra Batista e, em 1959, se tornou editor de ‘Lunes de Revolución’, suplemento cultural do diário ‘Revolución’. Fez do seminário uma notável publicação de vanguarda literária, artística e ideológica. A experiência durou até que Fidel Castro, em 1961, enquadrasse os intelectuais cubanos: ‘Dentro da revolução, tudo, contra a revolução, nada’.

Cabrera ficou meses sem trabalho -’sou o primeiro desempregado do socialismo’, repetia aos amigos. Vivia do que ganhava sua mulher, a atriz Myrian Gómez. Em 1962, conheceu um exílio branco: adido cultural em Bruxelas. ‘Como em Cuba não tem Sibéria’, resumia, ‘me mandaram para a Bélgica’. Voltou a Havana para o enterro da mãe, em 1965, entregou o cargo e em 3 de outubro seguiu em definitivo para o exílio -primeiro em Madri, depois em Londres, onde viveria de 1966 até a sua morte.

Refúgio na língua

De seus 75 anos, mais de 40 foram passados longe da pátria -circunstância que, para um escritor, pode ser dramática, na medida em que o priva do contato cotidiano com o seu idioma.

Assombrado por esse fantasma, Cabrera refugiou-se na sua língua -não propriamente a espanhola, mas a cubana, com suas riquíssimas nuances e peculiaridades. Pode-se indagar se teria explorado tão radicalmente as virtualidades da língua falada em Cuba se não tivesse sido forçado a viver longe de seu país. Ou se teria sobrevivido se não tivesse feito de Myrian Gómez, no frio de Londres, a sua ‘Cuba portátil’.

Na obra de Cabrera Infante, distinguida em 1997 com o mais prestigioso prêmio literário para a língua espanhola, o Cervantes, o ponto alto ficou sendo o romance ‘Três Tristes Tigres’, ambientado na Havana pré-revolucionária.

Dele saíram aqui, também, ‘Havana para um Infante Defunto’, romance autobiográfico de alta voltagem erótica; ‘Mea Cuba’, coletânea de artigos e ensaios quase sempre políticos; ‘Fumaça Pura’, ensaio sobre o charuto escrito originalmente em inglês; e ‘Vista do Amanhecer no Trópico’, composto de vinhetas que percorrem a história de Cuba na busca de mostrar que, antes ou depois da revolução socialista, o país de Guillermo Cabrera Infante viveu sempre sob alguma tirania.

Humberto Werneck é jornalista e escritor, autor do livro ‘O Desatino da Rapaziada’ (Companhia das Letras) e organizador de ‘Minérios Domados’ (Rocco), de Helio Pellegrino’



O HOMEM NA VARANDA
Luiz Fernando Vianna

‘‘Cronista’ do Rio respirava acidez’, copyright Folha de S. Paulo, 25/02/05

‘Em crônica de junho de 1978, José Carlos Oliveira escreveu: ‘Estou construindo, fragmento por fragmento, o romance balzaquiano de minha geração; depois da minha morte isto ficará tão claro que os sobreviventes terão a certeza de que, ao menos em relação a mim, viveram às cegas’.

A profecia de Carlinhos Oliveira -como era chamado por todos- começa a ser posta à prova 19 anos depois de sua morte, aos 51. Está chegando às livrarias ‘O Homem na Varanda do Antonio’s’ e ‘Diário Selvagem’, dois volumes que dão a partida na redescoberta da obra deste que foi um dos mais ácidos e autodestrutivos cronistas brasileiros.

O rótulo ‘cronista’, aliás, era algo que o incomodava. Escreveu no ‘Jornal do Brasil’ de 1961 a 1984, quatro vezes por semana, publicando contos, folhetins e até crônicas. Mas, para ele, estava produzindo um painel do Brasil fraturado pelo regime militar.

‘De uma vez por todas, não sou cronista. Apenas abro a máquina de escrever e começo a respirar’, escreveu. ‘A imagem do cronista estava condenada a uma certa amenidade (…) até que eu arrebentei com ela’, disse em 1978.

Descontada a mitomania típica dos alcoólatras, ele não estava de todo errado. Talvez só Antônio Maria e Nelson Rodrigues tenham sido tão provocadores.

‘Era o melhor de todos porque foi além da tradição leve das crônicas. Não queria distrair o leitor, mas provocar reflexões, inquietar. Seu estilo misturava literatura, filosofia, psicologia, histórias do cotidiano e memorialismo’, afirma o jornalista e escritor Jason Tércio, organizador dos dois livros e autor da excelente biografia ‘órfão da Tempestade’.

‘O Homem na Varanda do Antonio’s’ reflete a mais famosa faceta de Oliveira: o boêmio. Ele foi personagem e narrador das histórias dos bares da zona sul carioca dos anos 1960 e 70. O Antonio’s, no Leblon, era seu principal escritório, de onde observava a vida.

Nas crônicas, o destemor de Oliveira é claro. Ele criticava unanimidades como Chico Buarque, brigava com direita e esquerda, expunha seu alcoolismo. Sem compromisso de publicação, nos diários que escreveu entre 1971 e 1986, reunidos em ‘Diário Selvagem’, era ainda mais explícito.

Falava sem meias-palavras sobre suas relações sexuais -inteligente e muito popular, atraía as mulheres apesar da notória feiúra-, os vários dias sem tomar banho, suas fantasias homossexuais (não concretizadas, ao que parece) e as dores provocadas pela pancreatite que o fez abandonar a bebida nos últimos anos.

‘A verdade é que só agora, ainda no túmulo, estou acordando. Ainda não estou completamente podre’, anota. ‘Ninguém desconfia que o maior escritor brasileiro, desde Machado de Assis, já está em atividade’, fala de si mesmo, em hora de euforia. Os textos mostram que Carlinhos Oliveira tinha esses dois lados e muitos outros.’



REPRESENTAÇÕES…
Adriano Schwartz

‘O guardião das massas’, copyright Folha de S. Paulo, 27/02/05

‘‘Representações do Intelectual’ traz seis conferências radiofônicas proferidas por Edward Said pela BBC em 1993. A questão que dá título ao volume sempre foi uma das principais preocupações do importante teórico da literatura, morto há dois anos, e, ao longo do livro, vai se acumulando uma série de definições do papel dessa controvertida figura.

Para Said, a luta central do intelectual é contra a ‘miséria humana e a opressão’ e, para tanto, cabe a ele não se valer de estratégias que distorçam o seu desempenho público, como ‘floreios retóricos, o silêncio cauteloso, a jactância patriótica e a apostasia retrospectiva’.

Nessa argumentação, a palavra-chave é ‘público’, pois, partindo de Antonio Gramsci, ele defende com insistência a necessidade de o intelectual assumir a função de ‘representar todas as pessoas e todos os problemas que são sistematicamente esquecidos ou varridos para debaixo do tapete’.

Representação não-unânime

A condição do exilado é também especial, segundo o autor. Ver e refletir ‘de fora’ estando dentro ou teimar em não se adaptar às condições locais provocam uma ‘espécie de amargura ranzinza’ que pode se tornar até um estilo de pensamento. O modelo por excelência dessa situação é certamente o filósofo alemão Theodor W. Adorno, que, levado pela devastadora política nazista a morar nos Estados Unidos, odiava ‘todos os sistemas (…) com igual aversão’.

A profissionalização cria dificuldades, já que põe em xeque a autonomia do pensamento.

De acordo com Said, há pressões com as quais o intelectual precisa lidar: a especialização, o culto do técnico ou do perito credenciado, a tendência para o poder e a autoridade. A saída seria adotar a postura do amador e ‘levantar questões morais no âmago de qualquer atividade’, dirigindo-se à autoridade não como um ‘bajulador profissional’, e sim como a sua consciência crítica.

É claro que essa é uma redução bastante esquemática de algumas das idéias do autor. Vale mencionar que, ao discuti-las, com vagar e erudição, ele recorre com freqüência a exemplos biográficos e da causa palestina, pela qual lutou durante anos. O resumo é suficiente, contudo, para perceber que a ‘representação’ do intelectual proposta por Edward Said não é unânime.

Um outro importante teórico da literatura, o alemão naturalizado norte-americano Hans Ulrich Gumbrecht, por exemplo, vem, em artigos e palestras, defendendo algo diferente.

Intelectual conselheiro

Para o professor da Universidade de Stanford (e aqui arrisca-se a esquematismo ainda maior), não faz sentido que um intelectual se posicione sobre assuntos variados publicamente, assumindo a função de um ‘conselheiro’.

A ele, de modo muito mais modesto, cabe atuar como um ‘catalisador de complexidades’, ‘pensar e imaginar o que ninguém mais pensa nem imagina (justamente por não ser nada ‘prático’ fazê-lo), acumulando assim uma reserva de pensamentos, visões e desejos não pragmáticos, mas capazes de manter a sociedade receptiva a possíveis mudanças futuras, capazes de preservar a flexibilidade social’ (‘O Conselheiro Andrógino e o Intelectual Frio’, Mais!, 2/5/2004).

Não é difícil perceber que no Brasil, pelo menos idealmente e por inúmeras contingências históricas impossíveis de mencionar, prevalece a idéia do intelectual público. Torna-se proveitoso, então, rememorar algumas das principais lições de Said: nunca colocar a solidariedade antes da crítica; universalizar de forma explícita os conflitos; recusar a lógica do convencional e aceitar o risco; discutir incessantemente com todos os guardiões de visões ou textos sagrados. Esta, a última, parece, como nunca, de especial relevância.

Adriano Schwartz é professor de arte, literatura e cultura do Brasil na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP-Leste. É autor de ‘O Abismo Invertido’ (editora Globo).

Representações do Intelectual

128 págs., R$ 29,00 de Edward W. Said. Trad. Milton Hatoum. Companhia das Letras (r. Bandeira Paulista, 702, conjunto 32, CEP 04532-002, SP, tel. 0/ xx/ 11/3707-3500).’

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PRIMEIRAS EDIçõES > FERNANDO SABINO

Humberto Werneck

Por lgarcia em 18/04/2001 na edição 117

ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

ASPAS

FERNANDO SABINO

"Páginas soltas", copyright Jornal do Brasil / no. (www.no.com.br), 14/4/01

"Aos 77 anos, Fernando Sabino não dá sinais de que esteja para pendurar suas chuteiras literárias. Pelo contrário, não se cansa de mandar títulos novos para as livrarias. De 1998 para cá, foram quatro (Amor de Capitu, No fim dá certo, O galo músico e A chave do enigma). Nos últimos tempos, parece preocupado com a posteridade – mais exatamente, com o uso que se possa fazer de seus escritos quando já não estiver por aqui. Razões não lhe faltariam para estar apreensivo. Basta ver a avidez com que certos herdeiros vão desamarrotando e publicando qualquer papel achado na gaveta do falecido.

Escaldado pela repetição desse espetáculo deprimente, Fernando Sabino já formalizou – em cartório – o seu desejo de que venha a ser considerada obra sua apenas aquilo que ele tenha posto em livro. Dois anos atrás, ao receber na Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis, começou o bem-humorado discurso de agradecimento revelando que estava empenhado na elaboração de sua ?obra póstuma antecipada?. Falava a sério: O galo músico, de 1998, desencavara quatro contos publicados na extrema juventude por um escritor que, segundo um amigo malicioso, ?foi precoce e continua?. Muito vivo, decidiu ser póstumo já, encarregando-se ele mesmo da exumação de velhos escritos, com direito a um retoque aqui e outro ali. O trabalho parece ter sido arrematado agora, com o lançamento de Livro aberto (Record), catatau de 656 páginas que traz como subtítulo Páginas soltas ao longo do tempo.

Põe tempo nisso: são seis décadas de intensa escrevinhação em revistas e jornais. O texto que abre o volume, a crônica O caçador de borboletas, é de 1939, dos 15 anos de Sabino – já então autor veterano, pois fizera aos 12 a sua estréia tipográfica. A partir daí se desenrola, ano a ano, um fio cronológico que tem na outra ponta um artigo de 1998. O que ele acondicionou entre uma data e outra não é um saco de gatos, mera transcrição de velhos recortes e de alguns inéditos, como se poderia temer, mas uma miscelânea não apenas bem armada como quase sempre interessante.

Alguma coisa terá entrado como simples curiosidade – meia dúzia de artigos de crítica literária, ou que outro nome tenham, por exemplo, três deles dedicados à obra de Octavio de Faria. O último, de 1953, tem como tema o romance Os loucos e como abertura esta frase: ?Termino a leitura chorando?. Fez bem o improvisado crítico em não perseverar no gênero. Mas vale a pena ler, neste Livro aberto, os prefácios que escreveu, já maduro, para vários volumes da coleção Novelas imortais (Flaubert, Henry James, Tchekhov, Melville, Stevenson e Pirandello, entre outros), por ele organizada para a editora Rocco.

O Sabino que o leitor conhece e reconhece começa a existir nas crônicas enviadas de Nova Iorque, entre 1946 e 1948, para O Jornal e o Diário Carioca. Parte delas foi reunida em A cidade vazia, de 1950. Mas sobrou material digno de prelo – recuperado agora, junto com alguns textos que o cronista eliminou ao relançar o livro, em 1958. De quebra, inéditos, os dois únicos poemas que Sabino confessa ter escrito – versos despretensiosos, brincadeiras em cartas aos amigos Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino.

É nessa produção nova-iorquina que desponta o humorista Fernando Sabino, observador sagaz da aventura do cotidiano – título da seção que o consagrará pouco mais tarde nas páginas da revista Manchete. Abre-se ali a melhor fase do escritor, que se estenderá por cerca de 20 anos, até meados da década de 1960. É desse período não apenas a sua obra-prima, o romance O encontro marcado, como também as suas crônicas mais bem realizadas, em especial as de O homem nu.

No romance ou nos relatos curtos, o Sabino desses anos áureos é notável não apenas pelas histórias que conta, mas, sobretudo, pela maneira como as conta, capaz de converter em arte o que seria simples ?causo?. O jeito sabiniano de narrar, seu toque veloz, elíptico, sem enfeites, dá a não poucos leitores a ilusão de que poderiam eles próprios escrever coisa igual.

A produção desse período compreende uma série de histórias, só agora postas em livro, que Sabino escreveu durante algum tempo para o Diário Carioca sob o título geral O destino de cada um e o pseudônimo Pedro Garcia de Toledo, nas pegadas do que fazia, com mais êxito, Nelson Rodrigues em seu A vida como ela é.

O cronista é menos deleitável quando se aventura pelo lirismo, pela reflexão, pelo comentário grave, ocasiões em que não raro derrapa para o lugar-comum e a pieguice, como nas poucas linhas de Natal, com que se despede do ano de 1988. A profundidade não é o seu forte. Seria preciso dizer-lhe: profundo não dá pé. Humilde e bem-humorado, Fernando Sabino chega a transcrever em Livro aberto a carta em que um leitor lhe cobra mais substância. Sua proposta é outra, contar boas e divertidas histórias, e nisso é mestre – como atestam centenas de textos, curtos ou longos, recolhidos nas páginas de Livro aberto. ?Estranho ofício é o de escrever?, anota ele a certa altura. ?De tudo que já publiquei na vida, houve sempre um leitor que achasse ser a melhor e um que achasse ser a pior coisa já escrita por mim. Por isso mesmo é que publico o que bem entendo.?

Assim como fez com as sobras de sua colaboração nova-iorquina, Sabino juntou no Livro aberto as crônicas enviadas de Londres, onde viveu por quase três anos entre 1964 e 1966, e não aproveitadas em coletâneas como A inglesa deslumbrada (1968). Por seu volume e qualidade, valeriam um livro à parte. O mesmo se diga de um punhado de saborosos perfis de personalidades – Maria Bethânia, Roberto e Erasmo Carlos, o artista plástico Calasans Neto, o playboy e cineasta Carlos Niemeyer, os cantores Ivon Curi e Maria Lúcia Godoy, o craque Nilton Santos, o editor Alfredo Machado e muitos outros -, alguns dos quais haviam sido eliminados da coletânea Gente a partir da segunda edição. Dois bares também foram perfilados: o Colbies, de Nova Iorque, e o carioca Antonios.

Leitores que sejam bichos literários vão se regalar com o episódio da briga e posterior reconciliação, muitos anos mais tarde, com o poeta Pablo Neruda. Vão passear pelo Rio em companhia do poeta inglês Stephen Spender, amigo de Sabino desde os tempos de Manhattan, ou do romancista americano John Dos Passos, cujo nome sugeriu ao escritor mineiro, naquele ir e vir, o apelido de ?Johnny Walker?. Ou se surpreender com o romancista Autran Dourado a mastigar cantáridas num programa de televisão para testar as apregoadas propriedades afrodisíacas desses besourinhos.

Não faltará quem se divirta com uma irreverente sugestão de Sabino para que nas eleições da Academia Brasileira de Letras só os acadêmicos possam ser votados – o que, a longo prazo, permitiria a um deles ocupar todas as 40 cadeiras. Quem prefere a História e a política lerá com interesse um longo relato jornalístico sobre a revolução cubana em seus começos – o ano era 1960 -, pouco mais tarde publicado em apêndice ao livro Furacão sobre Cuba, de Jean-Paul Sartre, que inaugurou a Editora do Autor, de Sabino e Rubem Braga.

As páginas finais do Livro aberto reservam ao leitor uma palavra, datada de 1992 mas provavelmente inédita, sobre Zélia, uma paixão, o infeliz lançamento que há dez anos confiscou a poupança literária de Fernando Sabino. Avesso desde então a entrevistas, será talvez a primeira vez que ele se manifesta publicamente sobre o assunto. Não se trata, afirma, de uma ?aventura extraliterária? em sua carreira, como houve quem dissesse, mas de um ?desafio apaixonante? – o de ?escrever em termos de ficção sobre um insigne personagem da vida real?. Não chega a dizer que se saiu bem na empreitada. Limita-se a observar que poucos entre seus detratores leram o livro, e que a explicação para as críticas está na personagem, não no livro.

Pode ser. Mas Madame Bovary, a personagem de Flaubert, também não era flor que se cheirasse. Será necessário, um dia, desviar a mira de Zélia, sem aspas, e voltá-la para Zélia, com aspas. Só então, desapaixonadamente, vai ser possível encarar as qualidades e defeitos desse ?romance-biografia? – capenga como romance, indigente como biografia. Desde já, no entanto, é preciso libertar Fernando Sabino do pelourinho a que permanece atado e devolver-lhe a sua poupança literária. A leitura de seu Livro aberto vem mostrar que isso é de direito."

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