Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Ibope do Fantástico sobe com entrevista com casal Nardoni

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 22/04/2008 na edição 482

 


Leia abaixo a seleção de terça-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Terça-feira, 22 de abril de 2008


CASO ISABELLA NARDONI
Rogério Pagnan e André Caramante


Casal acertou ao falar à TV, dizem especialistas


‘Advogados ouvidos pela Folha consideraram acertada a estratégia da defesa de Alexandre Nardoni e Anna Jatobá de colocar o casal em rede nacional de TV para negar participação na morte de Isabella.


O resultado da entrevista dada ao ‘Fantástico’, da Rede Globo, foi criar uma dúvida a respeito da inocência do casal, avaliam esses advogados.


‘Quanto mais dúvida se lançar, tanto mais difícil fica condená-los’, afirmou o advogado Alberto Zacharias Toron. ‘É um caso que, sem a confissão, sempre terá a dúvida: será que não tinha mesmo uma terceira pessoa ali?’, complementou.


Esse é o mesmo entendimento de Rui Celso Reali Fragoso. Para ele, a entrevista, aliada ao depoimento dado pelo casal sexta-feira, pode complicar uma decretação de prisão preventiva. ‘Isso reverte parte da opinião pública’, disse ele.


Os advogados consideram a estratégia válida, diante da dimensão e das características especiais desse caso. ‘Embora juridicamente se possa dizer que eles pudessem permanecer em silêncio, de um ponto de vista de uma psicologia judiciária, de um ponto de vista da opinião pública, seria um suicídio [ficar em silêncio]’, diz Toron.


Para Roberto Delmanto Júnior, o caminho escolhido pela defesa do casal Nardoni, de não recorrer ao direito de só falar em juízo, não seria o mesmo que ele adotaria. ‘Eu acho que certos casos a melhor estratégia é o silêncio. Se eu te respondo uma coisa, você me contesta. Mas, se eu fico em silêncio, cria-se um vazio’, disse.


O advogado disse que não permitiria, por exemplo, que seu cliente prestasse um depoimento sabendo que a polícia poderia ter alguma prova ‘escondida na gaveta’.


Para o desembargador Henrique Nelson Calandra, do Tribunal de Justiça de São Paulo, a entrevista do casal foi positiva porque serviu para que as pessoas pudessem ter acesso aos argumentos de defesa dos principais suspeitos pelo crime.


Os advogados de defesa do casal pretendem entrar hoje com uma representação na Corregedoria da Polícia Civil apontando seis supostas irregularidades cometidas pela polícia durante a investigação.


Uma delas é a referência, durante o depoimento do casal na última sexta, a laudos que não estavam anexados ao inquérito.


‘É uma irregularidade. O interrogado, quando questionado, precisa ver a prova’, disse Rogério Neres


A Secretaria da Segurança Pública não se manifestou sobre o assunto.


Colaborou o ‘Agora’’


 


***


Para promotor, casal chorou mais durante entrevista à TV


‘O promotor Francisco José Taddei Cembranelli, responsável pela ação do Ministério Público Estadual contra o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, disse que ‘a quantidade de lágrimas’ foi o que mais chamou a sua atenção na entrevista concedida pelo casal ao ‘Fantástico’.


Para Cembranelli, foi bastante significativo comparar as reações de Nardoni e da mulher na frente das câmeras às que ambos tiveram durante as várias horas em que foram interrogados na sexta-feira.


‘Na delegacia, só um deles chorou e, ainda assim, não mais do que uns 30 segundos. Já na entrevista, eles choraram bastante’, disse Cembranelli.


‘A discrepância maior entre a entrevista concedida ao ‘Fantástico’ e os depoimentos prestados no Distrito Policial foi exatamente essa: não houve nenhuma emoção lá no distrito, eles responderam friamente as perguntas e negaram tudo.’


O promotor se referiu ao choro de Nardoni no 9º Distrito Policial (Carandiru). Ao ser interrogado, ele se emocionou apenas quando os delegados que cuidam do caso colocaram à sua frente um álbum com várias fotos da filha viva e também morta. ‘Na delegacia, ela [Anna] não chorou por um só instante’, disse o promotor.


Para Cembranelli, que tem acompanhado de perto o trabalho da polícia na investigação da morte de Isabella, o indiciamento do casal no inquérito policial aberto para esclarecer o assassinato da menina foi uma decisão correta dos delegados Calixto Calil Filho e Renata Helena Pontes.


Na opinião do promotor, os depoimentos de várias testemunhas, aliados aos laudos de peritos do IC (Instituto de Criminalística) e de médicos-legistas do IML (Instituto Médico Legal), foram importantes para que a polícia pudesse imputar ao casal a responsabilidade pela morte de Isabella. Entre hoje e amanhã, a polícia pedirá a prisão preventiva do casal.


Nos próximos dias, Cembranelli decidirá se denuncia o casal à Justiça pelo homicídio.’


 


Clóvis Rossi


Um certo gosto de sangue


‘SÃO PAULO – Duas ou três cartas sobre o caso Isabella me horrorizaram. Leitores aparentemente alfabetizados decretavam a culpa do pai e da madrasta da menina só com base nas informações que a polícia libera para o jornalismo. Jogam no lixo o devido processo legal, um dos principiais pilares da civilização.


Pensei que fosse reação restrita a exóticos de diferentes origens, atraídos pelos holofotes da TV, mas verifico, horrorizado, que há muito talibã solto por aí.


Na maioria das cartas, chovem críticas à mídia, apontada como única responsável pelo circo armado em torno do caso. Responsável, sim; única, não.


Sem que as autoridades -as ÚNICAS que detêm informações sobre o caso- alimentem o circo, não há circo, ou o circo é menos nefasto.


O pecado original é, portanto, do delegado, que, em vez de apenas investigar, atua simultânea e indevidamente como promotor, juiz e alto-falante, condenando o casal desde o início, antes mesmo das primeiras investigações. Se se pretende civilizar um país talibanizado, é preciso primeiro que a polícia se comporte com a discrição indispensável.


A polícia portuguesa, por exemplo, não acusou os pais no caso da menina inglesa Madeleine, muito parecido com o de Isabella. Quando o fez, a mídia foi atrás e teve que pedir desculpas publicamente, na primeira página, e ainda doar uma baita grana para um fundo criado pelos pais para procurar a filha. E o fizeram sem saber se os pais são de fato inocentes.


Quanto à mídia, não vejo nenhum capanga armado obrigando o telespectador (ou leitor) a ficar sintonizado nos programas policialescos ou, agora, no noticiário sobre a menina morta.


Há público -e grande- para isso. Alguns são apenas portadores da normal curiosidade humana. Outros têm gosto de sangue na alma, não nos iludamos.’


 


Janio de Freitas


O crime não precisa de outros


‘É URGENTE a intervenção de quem, no governo paulista, se faça respeitar, para impedir que mais atos de puro barbarismo ocorram no caso da menina Isabella.


A polícia paulista falseou a informação pública sobre os dias em que Anna Carolina Jatobá esteve em prisão temporária. De início sozinha em uma cela, por cautela contra previsíveis maus-tratos físicos por outras presas, como informado, foi depois entregue, na surdina, à sanha agressora da cela coletiva, como objeto de uma perversidade policial equivalente, no mínimo, à conivência com tortura.


Na iminência de nova prisão de Anna Jatobá e de Alexandre Nardoni, a responsabilidade última pelo que ocorra é do próprio governador, a quem cabem o dever e a autoridade de impor conduta legal e humana às polícias. E não é só em relação às prisões, passadas e esperadas, que providências de autoridade são necessárias e urgentes. Nada justifica que os parentes e os vizinhos de Anna Jatobá e de Alexandre sejam castigados de prisão em sua inocência, deixados pela polícia à mercê das hordas de cretinóides que ontem quiseram até invadir o prédio onde estariam os dois indiciados.


Não fosse o pai de Alexandre, Antonio Nardoni, que tem mantido atitude serena e colaborativa com todos, não se saberia das agressões físicas sofridas por Anna Jatobá, segundo ele, com os respectivos hematomas fotografados em casa. Estariam fotografados também no Instituto Médico Legal, no exame quando os dois foram libertados? Também não se sabe. Mas todos os dias sabe-se de cada pormenor pericial no apartamento, nas vestimentas e no carro do casal, e de cada dedução técnica sobre a queda de Isabella, de cada suposição investigativa. Agora, na altura culminante a que o caso chega, indispensáveis são providências de governo que, a par de refluir a agressividade badernosa, assegurem a máxima legalidade na execução do inquérito e nenhuma inverdade, omissão ou utilização maldosa de informações.


Não é certo que a fluidez ininterrupta de dados e especulações, proporcionada pela polícia e pela Promotoria, seja responsável pelo lado algo histérico na comoção geral com o crime. Mas alimentou, quando poderia ter sustado se reprimida pela autoridade estadual, o desvario das tevês na disputa de audiência, acirrada pelos novos e crescentes noticiários da Record, secundada pela BandNews. Apesar de seguidas pelos jornais, no jogo diário das influências mútuas, as tevês dividem com a passividade do governo paulista -em proporções desiguais e imprecisas- a responsabilidade pelo ambiente patológico que decorreu de um crime louco.


A imagem do Supremo Tribunal Federal sempre foi dada em grande parte, em muitos períodos a maior parte, por sua presidência e a maneira como estava exercida. Com a excelente e didática transmissão das sessões do STF pela TV Justiça, aquele papel adicional das presidências tornou-se ainda maior.


A ministra Ellen Gracie Northfleet passa amanhã a presidência do Supremo Tribunal Federal ao ministro Gilmar Mendes. O mínimo a dizer do seu exercício no cargo é que deixou um exemplo extraordinário de presidência: exemplo de educação em cada palavra, exemplo de competência e clara objetividade em cada voto, exemplo de segurança e oportunidade em cada decisão, exemplo de elegância em cada gesto. Primeira mulher a presidir o Supremo, dignificou também os homens em geral, cuja representação tinha deixado dívida, em muitos sentidos, naquela presidência.


Caso a ministra Ellen Gracie vá, de fato, para o Tribunal Internacional de Haia, para o Supremo será lamentável. Mas, se for de seu desejo, é mais do que merecido.


PS: E você não sabe como é bom encontrar razões para escrever uma nota como está aí em cima.’


 


CÉLULAS-TRONCO
Luiz Felipe Pondé


A imaginação do desastre


‘SOU A favor ou contra a manipulação de células-tronco embrionárias? A pergunta revela o modo estreito da polêmica. Prefiro vê-la na perspectiva de uma história do futuro. Proponho um recurso literário inspirado nos exercícios críticos do argentino Jorge Luis Borges, partindo do conceito de imaginação do desastre do americano Henry James.


Parece-me inevitável a legalização da pesquisa com células embrionárias humanas, pois a emancipação dos homens e mulheres demanda uma indústria da biofelicidade. Mas não é tudo. Imaginemos o que diria um articulista do ano 3008 sobre a questão.


‘No início do século 21, o mundo foi tomado por polêmicas que marcaram a entrada definitiva da cultura bio na história. Foi difícil para a inteligência da época compreender que a bioemancipação só aconteceria quando políticas do humano tomado como objeto fossem estabelecidas pelas democracias. Tal processo implicou esforços gigantescos da então incipiente ciência preventiva da reprodução.


As populações, miseravelmente limitadas aos modos de reprodução pré-históricos (confundia-se sexualidade com reprodução), entendiam o termo ‘humano’ como tendo uma aura de ‘divindade’ -palavra que, na época, guardava o mesmo significado que a ela atribuíam nossos ancestrais nas savanas africanas há 100 mil anos.


A reprodução humana ainda não era parte do mercado de bioprogramação, traço indicativo do atraso que imperava nas populações condenadas a superstições, como a confusão entre ‘amor’ e ‘acaso’ na reprodução: entregava-se à arbitrariedade de um orgasmo o destino da vida humana. Historiadores afirmam, segundo documentos das primeiras decisões jurídicas que finalmente libertaram a noção de ‘humano’ das malhas metafísicas, que era comum às populações de então ver nas biocontrovérsias apenas uma questão da antiga indústria farmacêutica. Hoje sabemos que ali acontecia a passagem do estado de caçador-coletor para a agricultura no tocante à reprodução da vida.


Só lentamente se percebeu que, sem um prévio esvaziamento do uso conservador da palavra ‘humano’, seria impossível a revolução baseada na manipulação legítima da matéria humana. Práticas libertárias como o ‘aborto’, termo que caiu em desuso com a noção de ‘liberdades reprodutivas’, também ganharam com esse esvaziamento. O desperdício de fetos deu lugar a uma progressista legislação a favor da utilização eficaz desse material na indústria cosmética.


As forças opressoras insistiam que ‘humano’ devia ser entendido também no sentido de agente sem atividade política democrática real (um absurdo lógico, já que hoje sabemos que são as práticas democráticas que definem a priori o que é humano e o que não é) e, assim, impediam a livre circulação dos bens reprodutivos humanos no mercado de biocapitais, fator essencial para a liberação dos bens biológicos que nos deram uma vida média ativa de cem anos.


A família guardava traços da ancestralidade patriarcal presa na falsa díade masculino/feminino, limitadora de uma humanidade que é, na realidade, sexualmente polimorfa. Com a vitória da biotecnologia, a reprodução da espécie superou a dependência da falsa crença no masculino e feminino como forma sexual da humanidade.


As cientistas sociais desde o final do século 20 trabalhavam no sentido de destruir qualquer significado da vida que não o sociopolítico. Destruindo o sentido comum de termos como ‘verdade’, ‘mal’, ‘bem’, ‘masculino’ ou ‘feminino’, abriram o caminho para a certeza de que poderíamos redefinir tudo a partir da propaganda, grande instrumento do socioconstrutivismo.


Então chegamos à reorganização legal do conceito de humano após a aniquilação da indesejável metafísica das palavras; juízes se lançaram à honrosa tarefa de recriar o mundo livre. As resistências foram neutralizadas graças à normalidade democrática.


Com a vitória definitiva da libertação social de mercado e o surgimento da emancipação científica, finalmente se percebeu a necessidade que a democratização da saúde tinha de fundar uma política de reprodução humana sustentável: leis definiram as condições necessárias para a produção de fetos viáveis. Uma marca da época era também o número desnecessário de crianças no mundo.’


De volta a 2008: mundo sombrio o vivido por esse articulista do futuro, em que percebemos, para quem vê sutilezas, que a democracia pode ser um modo invisível de fascismo.


LUIZ FELIPE PONDÉ é professor da pós-graduação em ciências da religião da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), da Faculdade de Comunicação da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e professor convidado da pós-graduação da Escola Paulista de Medicina, Unifesp. É autor de, entre outras obras, ‘Do Pensamento no Deserto’ (Edusp).’


 


CAMPANHA
Folha de S. Paulo


‘Bloquinho’ terá quase 4 minutos na TV


‘Com o PMDB hoje mais próximo do DEM, tucanos e petistas já começam a mudar suas estratégias de alianças. A meta é somar o maior número possível de siglas em busca de tempo na TV.


O ‘bloquinho’ PSB, PC do B e PDT teria aproximadamente quatro minutos em cada um dos dois blocos do horário eleitoral gratuito, um pouco menos do que o PMDB sozinho.


Segundo a legislação eleitoral, um terço do horário no rádio e na TV (dois blocos de 25 minutos às segundas, quartas e sextas) será dividido igualitariamente entre os candidatos e dois terços serão distribuídos proporcionalmente ao número de deputados federais eleitos na última eleição, em 2006.


O PMDB elegeu 89 deputados federais, contra 83 do PT, 66 do PSDB e 65 do DEM. Por isso, terá o maior tempo de televisão (veja quadro nesta página).


A estimativa dos principais partidos ouvidos pela Folha leva em conta um cenário eleitoral com dez candidatos a prefeito, amparados por 20 partidos.


O PT, que também negocia com os peemedebistas e com o ‘bloquinho’, tenta ainda atrair o PR -1min30s.


Nesse caso, na impossibilidade de contar com o PMDB e com o ‘bloquinho’, garantiria no mínimo cinco minutos a seu candidato.


No ranking da TV, o PP deverá ocupar a quinta posição, com cerca de dois minutos e meio, e também é alvo de cobiça. Mas a legenda deverá lançar Paulo Maluf.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Pressões do mercado


‘Saiu por Dow Jones, Reuters e Thomson, mas não por aqui. Para a agência de classificação Moody’s, que está para definir o sonhado ‘grau de investimento’, o Banco Central ‘entrou em pânico’. Quer dizer, ‘como não há problema de inflação no Brasil e as condições monetárias já são restritivas, a decisão parece passo na direção errada’. O ‘mercado estava clamando por alta e o BC agiu para acomodar pressões do mercado’, o que agora ‘introduz dúvidas sobre a ação do banco’.


José Serra também ataca, postou Kennedy Alencar. ‘O aumento nos juros tende a agravar a situação da conta corrente’, vai ‘encarecer ainda mais o serviço da dívida’, com ‘uma marcha negativa para a nossa economia no futuro’. No futuro, mas ainda sob Lula.


SUBMERGENTES?


A ‘Economist’ agora posta do ‘risco de superestimar os emergentes’. Diz que os Brics ‘simbióticos’, com Brasil e Rússia servindo commodities a Índia e China, ‘racharam’ nas Bolsas -e o investidor tem ‘decisões difíceis’ sobre países ainda vulneráveis a erros na política antiinflação.


O ‘Financial Times’ vai além, diz que os emergentes não são grupo ‘monolítico’ e fala até em ‘submergentes’.


A SECA AUSTRALIANA


Por outro lado, diz o ‘Wall Street Journal’, investidores seguem apostando nos Brics, em internet, energia. E até o ataque ao etanol baixou, com o secretário de Energia dos EUA dizendo que ‘o ponto principal é que [as críticas] não são razão para ignorar o seu grande potencial’ para a ‘saúde econômica da nação’.


O ‘NYT’, em reportagem e coluna, já começou a culpar a seca australiana pela inflação.


SOB CERCO


Nas manchetes de jornais e portais há dias, no Brasil, a campanha de Lula em defesa do etanol ecoa também no exterior, do ‘WSJ’ aos sites de busca, que destacam até que a safra de cana derrubou o preço mundial do açúcar. E ao que parece já convenceu o secretário-geral da ONU a cobrar, na manchete do UOL, o corte no subsídio agrícola.


Mas não estava na ONU o conflito de energia, ontem: a cobertura saltou sem parar entre Gana e o Paraguai, com a negociação virtual de Itaipu por Lula e Fernando Lugo.


SEM TABU


Com destaque na capa e foto de soja em Mato Grosso, o ‘NYT’ mostrou com longa reportagem que, ‘em tempos secos, grãos geneticamente alterados são menos tabu’


ARCO DE FOGO


Com foto de Alta Floresta na capa, o ‘NYT’ destacou na edição de sábado a operação antidesmatamento da Polícia Federal -que os senadores da região querem agora frear


‘COPYRIGHT’


A mudança foi na sexta, com transmissão sem fim. Veio domingo, com pai e madrasta no ‘Fantástico’. E seguiu ontem, nos telejornais, acrescendo entradas do show com o global Marcelo Rossi e Xuxa. ‘A mãe’, narrava a Globo, ‘participa do evento, bem perto do palco.’ E até no telão. Depois de perder no princípio para a evangélica Record, a católica Globo controla a exploração ‘com exclusividade’.


NO AR


O blog está de volta, desta vez visando aos eventos do ano -eleições nos EUA e no Brasil e Jogos Olímpicos na China. De segunda a sexta, pela manhã, vai complementar a coluna com o retrato de jornais, TV e a web, no país e pelo mundo’


 


MARCA
Julio Wiziack


Google se mantém como marca mais valiosa


‘Levantamento feito pela consultoria Millward Brown, especializada em pesquisas de mercado, revela que um terço das cem marcas mais valiosas do mundo pertence a empresas de tecnologia. O Google, com sua ferramenta de buscas pela internet, continua no topo da lista. Sua marca vale US$ 86 bilhões, alta de 30% em relação ao ano passado. Em 2006, ela estava em sétimo lugar, com US$ 37,4 bilhões. A GE é a segunda colocada, com US$ 71,4 bilhões (alta de 15%).


O setor de tecnologia destacou-se não só em número de empresas (28) mas também por registrar o maior crescimento, 55%, o que representou um acréscimo de US$ 187,5 bilhões ao valor total de suas marcas juntas.


Em 2007, as cem marcas mais valiosas somaram US$ 1,6 trilhão, montante que passou para US$ 1,94 trilhão em 2008, uma alta de 21%. Para fazer o cálculo, a consultoria -presente em 44 países- entrevistou aproximadamente 1 milhão de consumidores, cobrindo 50 mil marcas, e cruzou os resultados com os dados financeiros dessas companhias.


‘O desempenho das firmas de tecnologia chama a atenção, mas ele não foi uma surpresa porque elas estão mais presentes não apenas no dia-a-dia dos consumidores mas em seu imaginário’, afirma Valkiria Garré, diretora-executiva da Millward Brown no Brasil.


Isoladamente, a Blackberry, conhecida pelos smartphones (celulares inteligentes) que fizeram sucesso ao permitir a troca de e-mails, cresceu 390%, para US$ 13,7 bilhões.


A Apple, de Steve Jobs, subiu nove postos na lista, para o sétimo lugar. O efeito iPhone, o aparelho celular que navega pela internet, e o lançamento de produtos com design inovador fizeram a marca valer US$ 55,2 bilhões, uma alta de 123%.


Esse é mais um capítulo curioso na disputa entre Jobs e Bill Gates, da Microsoft, que continua estável na terceira colocação, com um crescimento de 29% em valor de marca, estimada em US$ 70,9 bilhões.


A fabricante de celulares Nokia foi outra que se destacou. ‘Primeiro ela voltou-se aos aparelhos de baixo custo, ganhando a Índia e a China’, diz Garré. ‘Depois, entrou com força na venda de conteúdos de valor agregado na internet, como uma loja virtual de música.’ Resultado: alta de 39%, batendo em US$ 44 bilhões.


Lucro pela marca


‘O ranking deste ano demonstra a importância do investimento nas marcas, especialmente em tempos de turbulência’, diz Joanna Seddon, principal executiva da Millward Brown. ‘Marcas fortes geram retorno superior e protegem os negócios de riscos.’


Segundo a pesquisa, é possível determinar até quanto da lucratividade das empresas é fruto da força de sua marca. Para isso, a Millward Brown criou uma escala que vai de 1 a 5. A pontuação 1 representa pouco impacto da marca na geração de lucro, e 5, o peso máximo.


‘Uma grife de luxo não sobrevive sem uma marca forte’, diz Garré. É o caso da Louis Vuitton, 19ª no ranking, avaliada em US$ 25,7 bilhões. Na lista da lucratividade, ela aparece com 5 pontos.


A Coca-Cola também depende bastante de sua marca para o sucesso das vendas. Sua pontuação é 4. Empresas de tecnologia, como o Google, a Microsoft e a Apple, são menos dependentes e estão empatadas com 3 pontos.’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


‘Duas Caras’ termina com casamento gay


‘A novela ‘Duas Caras’ terminará com um inédito, na teledramaturgia brasileira, casamento gay. Segundo o autor, Aguinaldo Silva, no último capítulo Bernardinho (Thiago Mendonça) e Carlão (Lugui Palhares) vão assinar um contrato de união civil em um cartório, ‘diante de quase todos os personagens da novela, que aplaudirão entusiasmados’.


Após a cerimônia, de acordo com os planos de Aguinaldo Silva, os dois irão se beijar. ‘O fato é que vou escrever o beijo entre Carlão e Bernardinho. Eu disse que vou escrever. Se vai ao ar já é outro problema’, afirma o autor. Em 2005, a cúpula da Globo vetou um beijo entre dois rapazes em ‘América’.


Segundo Silva, para merecer Bernardinho, Carlão terá que passar por uma redenção.


‘Bernardinho gastou o fundo de reserva do restaurante com a moto que Carlão destruiu. Agora está devendo a Juvenal Antena, que lhe dá um prazo para pagar. Por mais que se esfalfem, Bernardinho, Heraldo [Alexandre Slaviero) e Dália [Leona Cavalli] não conseguem levantar dinheiro suficiente. Na noite anterior ao fim do prazo fatal, Carlão, acometido pela culpa, é visto em Copacabana em circunstâncias suspeitas, e quando volta, traz o dinheiro. Onde o consegue? Ele não diz, mas fica claro para Bernardinho que ele sofreu e se humilhou para consegui-lo. E lhe deu uma prova de amor, sem dúvida’, conta Silva.


CONTA-GOTAS 1


A Globo anunciou em conta-gotas a entrevista feita com o pai e a madrasta da menina Isabella, exibida domingo. Durante o futebol, avisou apenas que o ‘Fantástico’ teria uma ‘novidade’ sobre o caso, uma ‘entrevista exclusiva’.


CONTA-GOTAS 2


No início do ‘Domingão do Faustão’, o apresentador avisou que era uma entrevista feita pelo repórter Walmir Salaro. Só mais de uma hora depois, às 19h37, o telespectador soube do que se tratava. A Globo adotou essa tática para evitar que a Record tivesse tempo de conseguir uma entrevista e a exibisse no ‘Domingo Espetacular’.


REFORÇO


A Globo aumentou as chamadas do ‘SP TV – 1ª Edição’, que tem perdido para a Record.


DESCANSO


A Record deu folga para Roberto Cabrini no final de semana. No próximo domingo, promete exibir reportagem em que Cabrini revelaria o que estava fazendo no Jardim Herculano, na última terça, quando foi preso com papelotes de cocaína.


CENÁRIO


A Globo vai montar no Leopolldo do Itaim-Bibi, em São Paulo, um painel de 20 metros de largura por cinco metro de altura para ambientar a festa de lançamento da próxima novela das seis, ‘Ciranda de Pedra’, domingo. O painel terá fotos do final dos anos 50 de locais como os edifícios Copan e Martinelli.


CENÁRIO 2


No cardápio da festa, estrogonofe de filé, hit da época em que se passa a novela. A trilha sonora terá bossa nova.’


 


WALTER SALLES
Sylvia Colombo


Bola em jogo


‘O cineasta Walter Salles, 52, está prestes a dar o pontapé inicial do que promete ser um ano agitado. Enquanto conclui ‘Linha de Passe’, longa que fica pronto em junho e estréia no Brasil no final de agosto; e o documentário ‘À Procura de ‘On the Road’, sobre a geração beat, que finaliza em outubro, o diretor de ‘Central do Brasil’ (1998) e ‘Diários de Motocicleta’ (2004) já tem dois outros projetos engatados.


Um é o filme ‘On the Road’, adaptação do livro de Jack Kerouac (1922-1969), que começa a rodar em 2009. O outro também parte de uma obra literária -’O Enteado’, romance do argentino Juan José Saer (1937-2005) que explora um episódio real. No século 16, a esquadra do navegador Juan Díaz de Solís desbravava o Rio da Prata quando, numa parada, os tripulantes foram devorados por índios antropófagos, à exceção de um grumete de 14 anos, que passou a viver com os nativos. Salles disse que foi tomado pelo livro por conter ‘algo fascinante: o embate entre o mundo selvagem e o dito civilizado. No final das contas, qual é qual?’.


Já a conclusão de ‘Linha de Passe’ põe fim a um drama vivido por ele e Daniela Thomas, com quem divide direção e roteiro. Em 2006, um dos também roteiristas, João Emanuel Carneiro, foi acusado de usar personagens do filme para criar os de sua novela global ‘Cobras & Lagartos’. À época, a Globo considerou o caso um ‘mal-entendido’ e chegou a regravar algumas cenas. Bráulio Mantovani (‘Tropa de Elite’) foi então integrado à equipe para fazer as mudanças necessárias na história original.


À Folha o cineasta diz que ‘Linha’ é um filme sobre a ‘frátria possível’, pois explora o tema da ausência do pai, que considera ‘um dos fatores explicativos do Brasil contemporâneo’. No elenco de jovens atores está Vinícius de Oliveira, protagonista de ‘Central’, que agora aparece como aspirante a jogador de futebol. A já tradicional parceria com Daniela Thomas é retomada nessa obra em que o improviso nos diálogos e nas filmagens foi essencial. Leia trechos a seguir.


FOLHA – Como é ‘Linha de Passe’?


WALTER SALLES – Como trata de cinco personagens principais, quatro irmãos e uma mãe grávida de um quinto filho, o roteiro, escrito por Daniela Thomas, George Moura e Bráulio Mantovani, segue diversos pontos de vista. A idéia nasceu de dois documentários do meu irmão João Moreira Salles. O primeiro sobre jovens que tentam entrar em times de futebol de segunda divisão, o outro sobre o fenômeno das igrejas evangélicas no Brasil.


FOLHA – O tema da ‘ausência do pai’ surgiu ao longo dos seus filmes ou é algo que já fazia parte de suas preocupações desde o começo? A sua experiência com relação à morte de seu pai influencia?


SALLES – A questão da ausência do pai precede a morte do meu pai [o banqueiro Walter Moreira Salles, morto em 2001]. Ela já está em ‘Terra Estrangeira’ [1996], continua em ‘Central’ e, agora, em ‘Linha de Passe’. Pais desconhecidos ou que partiram são recorrentes no Brasil. Um dos personagens é inspirado no caso real de um menino que passou anos procurando pelo pai, sobre o qual só sabia que era negro e motorista de ônibus. Roubou um ônibus e partiu por São Paulo, para chamar a atenção do pai ausente.


FOLHA – O Brasil é o país do futebol, porém, não há bons filmes sobre o tema. ‘Linha’ não é especificamente sobre isso, mas você tem uma explicação sobre a razão de ser tão difícil para nós, brasileiros, desenvolvermos o assunto no cinema, na literatura, etc.?


SALLES – Para começar, é dificílimo filmar futebol. É o oposto do boxe, que é um esporte essencialmente fílmico. São apenas dois personagens num espaço limitado. No futebol, são 22 jogadores em movimento no campo. Procuramos filmá-lo de forma livre, espontânea. O fato de o Vinícius jogar tão bem foi fundamental.


FOLHA – Esse modo ‘livre’ de trabalhar nasce de um enfado com o modo de se fazer cinema hoje? O improviso dá mais legitimidade a uma produção?


SALLES – Cada filme é um filme. Os irmãos Coen trabalham de forma precisa, milimétrica, planejando cada plano com antecedência. Já Paul Thomas Anderson descobre tudo na hora, não marca os atores, deixa-os evoluir livremente. E os últimos filmes de ambos são ótimos. No nosso caso, como estávamos trabalhando com jovens, fazia sentido buscar algo mais solto.’


 


***


‘Não há mais lugar para sonhadores’


‘Leia, abaixo, a continuação da entrevista com o cineasta Walter Salles.


FOLHA – Você fala do orçamento pequeno [de ‘Linha de Passe’]. Quanto foi? Por que não usar incentivos fiscais?


SALLES – Depois de fazer dois filmes de produção mais complexa (‘Diários’, em que atravessamos um continente, e ‘Água Negra’), a vontade de fazer um filme pequeno, com amigos como Daniela e Vinícius e uma equipe jovem, era grande. O fato de não usarmos incentivo decorreu das possibilidades de financiamento abertas por ‘Diários’ e do orçamento do filme, relativamente baixo. Todos os outros projetos da Videofilmes [produtora dele e do irmão João Moreira Salles] usam verba incentivada. Não há cinematografia independente que resista sem incentivo direto ou indireto do Estado, seja no Brasil, seja na França…


FOLHA – Por que adaptar ‘O Enteado’, do argentino Saer, ao cinema?


SALLES – Descobrir o livro de Juan José Saer foi um choque. Primeiro, pela qualidade da narrativa, nossos hermanos são realmente imbatíveis nesse território. Depois, há no livro algo interessante: o embate entre o mundo selvagem e o dito ‘civilizado’. Quem é quem? É um tema que Michelangelo Antonioni desenvolveu em ‘Tecnicamente Doce’, seu roteiro não filmado na Amazônia.


FOLHA – ‘À Procura de ‘On the Road’, o documentário, e ‘On the Road’, o filme, surgiram como idéias isoladas ou complementares?


SALLES – O convite para a ficção veio antes, mas o documentário foi se impondo. Por mais que seja um apaixonado pelo livro de Jack Kerouac, não faço parte daquela geração nem daquela cultura. A melhor maneira de mergulhar naquele universo foi refazer a rota de ‘On the Road’, encontrando e filmando os personagens do livro que ainda estão vivos, conversando com poetas como Gary Snyder ou Lawrence Ferlinghetti.


FOLHA – Por que o interesse pelos beats?


SALLES – Para começar, quase todas as microrrevoluções que nos informaram nos anos 60 e 70 são o resultado das portas que os beats abriram nos anos 50. A revolução sexual, a atração pela experimentação, pelo jazz e pela cultura negra, a expansão da mente com as drogas, o interesse pela ecologia que Snyder trouxe. Quando se adapta um livro, é preciso encontrar o elo que torna o projeto possível. Não é difícil, em ‘On the Road’, encontrar esses pontos de interesse…


FOLHA – ‘À Procura…’ terá entrevistas e dados inéditos. Que debate sobre o movimento pode suscitar?


SALLES – À medida que o documentário tomou corpo, ficou claro que a história dos beats pode ser entendida como a de filhos de imigrantes que não tinham lugar na América conservadora dos anos 50. [Allen] Ginsberg era filho de imigrantes judeus e comunistas da Europa do Leste. Kerouac, de franco-canadenses. Ferlinghetti e [Gregory] Corso, de anarquistas italianos. Eles colidiram com uma cultura impositiva e excludente, que não era muito diferente da dos EUA de hoje. A do ‘macarthismo’, da Guerra Fria, da política do medo. É esse arco histórico entre a América de Eisenhower e a de Bush que pode dar, aliás, uma atualidade ao filme de ficção.


FOLHA – Que aspecto pretende ressaltar? Viajar pela ‘América profunda’ hoje é topar com várias questões sobre a América de Bush, não?


SALLES – ‘On the Road’ pode ser visto como um livro sobre o fim da estrada. Não há mais lugar para sonhadores. Os EUA se definiram justamente no movimento e na expansão para o Oeste. Os westerns de John Ford e Howard Hawks falam disso: da constituição de uma identidade nacional. E o que acontece quando o território já está ocupado? Começa uma expansão além-fronteiras: é o desastre do Vietnã, do Iraque. Entre os novos territórios, no filme, há uma visão lisérgica do Grand Canyon, a imagem do western, da conquista territorial americana por excelência, agora deformada.’


 


 


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O Estado de S. Paulo


Terça-feira, 22 de abril de 2008


CASO ISABELLA NARDONI
Camila Rigi


Mãe de Isabella vê falsidade em declarações de pai e madrasta


‘O nome da menina Isabella Nardoni foi repetido por cerca de 3 milhões de pessoas ontem, no Autódromo de Interlagos, na zona sul de São Paulo, quando a mãe dela, Ana Carolina Oliveira, subiu ao palco do evento Paz Sim, Violência Não, organizado pelo padre Marcelo Rossi. Sem chorar, Ana Carolina acenou e agradeceu ao público.


Um dia depois do pai e da madrasta de Isabella virem a público negar em rede nacional que tenham alguma relação com o crime, ela preferiu não comentar as declarações. A única pessoa que citou o caso foi Masataka Ota, pai do menino Yves Ota (seqüestrado e morto em 1997). Segundo ele, Ana Carolina disse que a entrevista ‘parecia falsidade’. ‘Ela comentou que Isabella nunca quis morar com a madrasta. Ela adorava o pai, mas não pensava em morar com ele para sempre.’


Ota ressaltou que Ana Carolina ficou chateada com as declarações da madrasta, que pareciam insinuar que Isabella gostava mais da nova companheira do pai. Ele disse, no entanto, que a família Oliveira ‘nunca acusou ninguém’ e aguarda a conclusão da investigação.


Ana Carolina chegou por volta das 10h15 a Interlagos e só saiu por volta das 19 horas, com o encerramento da missa. Ela permaneceu durante todo o tempo na primeira fileira na frente do palco. Só por volta das 15 horas saiu do local, para visitar o camarim. Ali, conversou por cerca de 15 minutos com a apresentadora Xuxa Meneghel. Também trocou palavras com Hebe Camargo, Ivete Sangalo e Xororó.


Durante a sua apresentação, Xuxa fez uma citação ao caso Isabella. ‘A violência começa dentro de casa. Então, por favor, não batam nos seus filhos, conversem. Tudo começa com um beliscão, uma pancadinha. Espanca, estrangula, mata e fica por isso mesmo.’


Às 17h30, pouco antes do início da missa, Ana Carolina foi convidada a subir ao palco, acompanhada de seus pais, Rosa e José Oliveira – além do casal Ota. Quando o padre Marcelo foi cumprimentá-la, a multidão gritou o nome de Isabella. Também presentes no palco, o governador José Serra, o prefeito Gilberto Kassab e o ex-governador Geraldo Alckmin também cumprimentaram a mãe da menina Isabella.


Serra preferiu não comentar o caso. ‘A polícia chegou a conclusões e a Justiça fará deliberações finais. Eu não vou me pronunciar antes da Justiça.’


Em sua homilia, o bispo de Santo Amaro, d. Fernando Antônio Figueiredo, pediu a paz, para que casos como os de Isabella e Yves não voltem a acontecer.’


 


Laura Diniz


Promotor estranha emoção de casal na TV


‘A única novidade da entrevista que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá concederam anteontem ao Fantástico, da Rede Globo, foi, na opinião do promotor Francisco Cembranelli, ‘a emotividade, não observada quando interrogados pelas autoridades policiais’. Nos depoimentos, Anna Carolina pouco se emocionou e Nardoni chorou ao ver fotos da filha desde a infância até o laudo necroscópico.


Na TV, Alexandre e Anna Carolina disseram, entre outras coisas, que o relacionamento da família era harmonioso, que nunca encostaram um dedo na menina, que o sonho de Isabella era morar com eles e que são ‘totalmente inocentes’. Evitaram dar detalhes sobre o dia do crime, não mencionando fatos importantes ligados à morte de Isabella que pudessem, até mesmo, servir de provas a favor deles.


Ao Estado, o promotor Cembranelli disse que nada muda no caso com a entrevista, já que o casal repetiu a versão da negativa de autoria e comentou apenas informações periféricas, mal falando sobre o crime. Cembranelli afirmou que ‘eles não responderam o que a população gostaria de saber’, referindo-se à indagação de como justificariam a presença de sangue no carro. A resposta foi, assim como nos interrogatórios, ‘não sei’.


A escritora Ilana Casoy, especialista na elaboração de perfis criminais, notou que os dois ‘estavam constrangidos’, mas foram ‘corajosos’ ao tentar reverter o prejulgamento feito pela opinião pública. Mas criticou a exposição exacerbada do caso. ‘Isso não é plebiscito. O caso será decidido no Tribunal do Júri, se eles forem pronunciados.’


Para o criminalista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, a entrevista legitima o julgamento do casal pelo povo. ‘O público tem o direito de saber das coisas, mas há que se respeitar o sistema de Justiça. Acredito que o réu deve falar apenas para a Justiça’, afirmou. ‘Nossa Justiça tem um sistema de freios. É ele que pune, mas é ele que segura a execração pública, os linchamentos e a justiça com as próprias mãos.’ Para o advogado, que não viu a entrevista, ao dar satisfações ao povo pela TV, o casal autoriza que as pessoas os julguem.


O jurista Tales Castelo Branco acredita que as declarações de Nardoni e Anna Carolina ‘não alterarão absolutamente nada’ na cabeça das pessoas. Segundo ele, é possível apenas que a entrevista aumente o rancor de quem já os prejulgou e condenou.’


 


Cristina Padiglione


Fantástico vai a 42


‘Com mais de meia hora de entrevista do casal Nardoni ao repórter Valmir Salaro, a edição de anteontem do Fantástico bateu nos 32 pontos de média, com 42 de pico, ainda em dados da prévia de audiência – patamar que pode se alterar no resultado de índices consolidados. Isso leva em conta a soma do programa todo, que nos dois domingos anteriores registrou 26 (13/4) e 29 pontos (6/4) de média consolidada.


No horário do Fantástico, anteontem, o SBT teve 12 pontos de média e a Record, que também recorreu ao caso Isabella no Domingo Espetacular, mas sem novidades, somou 9 pontos. Todos os dados correspondem à prévia de audiência do Ibope na Grande São Paulo, onde cada ponto equivale 56 mil domicílios.


Todos os telejornais da Globo reprisaram ontem trechos da primeira entrevista do casal. Entrevistado por Ana Maria Braga, Salaro não se deixou apanhar por qualquer julgamento prévio, mesmo quando a loira quis saber a impressão pessoal dele sobre o casal.


As emissoras de TV de modo geral apostam que o caso continuará a determinar o zapping da audiência por pelo menos mais duas semanas.’


 


Arnaldo Jabor


A dor da falta de sentido


‘Tentei não ler sobre a morte de Isabella. Também evitei na época os detalhes do assassinato do menino João Hélio – na minha profissão há que selecionar horrores.


Mas não consegui. Vi o desfecho do caso da menina morta.


A tragédia não é só das vítimas, mas nós também sofremos para entender o mal incompreensível. Cresce aos poucos uma pele de rinoceronte em nossa alma; com o coração mais duro, ficamos mais cínicos, mais passivos diante da crueldade.


Como escreveu Oswaldo Giacoia Jr.: ‘O insuportável não é só a dor, mas a falta de sentido da dor, mais ainda, a dor da falta de sentido.’


Como entender que um pai e uma madrasta possam ter ferido, estrangulado e atirado uma menininha de 5 anos pela janela? Como entender a cara sólida e cínica que eles ostentam, para fingir inocência? Como não demonstram sentimento de culpa nenhum? Ninguém berra? Ninguém chora? Como podem querer viver depois disso? Como essa família toda – pais, mães, irmãos – se une na ocultação de um crime? Como o avô pôde dizer com cara-de-pau que ‘se meu filho fosse culpado eu denunciaria’? Que quer essa gente? Preservar o bom nome da família? Mas, são parentes ou cúmplices? Como podem os advogados de defesa posar de gravata e terninho e cara limpa, falando de uma ‘terceira pessoa’? Sei que eles responderiam: ‘todos têm direito de defesa…’, mas, como é que eles têm estômago?


A Polícia deu um show de bola pericial no caso Isabella, mas dá para sentir que nossa estrutura penal está muito defasada, com esse espantoso crescimento da barbárie. Como se pode tolerar que um sujeito que foi condenado na semana passada somente a 13 anos por ter esquartejado a namorada, alegando ‘legítima defesa’, possa ficar em liberdade ‘até esgotar todos os recursos que a lei prevê?’- como disse o STJ? Como entender que aquele jornalista Pimenta das Neves, que premeditou o assassinato da namorada com dois tiros pelas costas e na cabeça, condenado já há seis anos, esteja em liberdade ainda, na boa? E aquele garoto que matou pai e mãe nos Jardins de São Paulo e a família rica conseguiu esconder tudo?


As leis de execução penal têm de ser aceleradas, as punições têm de ser mais temíveis, mais violentas, mais rápidas. Há um crescimento da crueldade acima de qualquer codificação jurídica. Essa lentidão, esse arcaísmo da Justiça é visível não só nos chamados ‘crimes de classe média’, como também na barbárie que galopa nas periferias. O Elias Maluco – lembram? -, aquele que matou o Tim Lopes com golpes de espada, estava em ‘liberdade condicional’, pois a lei concede isso ao ‘cidadão’. Que cidadão? O conceito de cidadania tem de ser revisto. Cidadania é merecimento. Surgiu na miséria do País uma raça de subumanos, sub-bichos que todos os dias degolam, esquartejam, botam no ‘microondas’, e são ‘cidadãos’ – ‘tão ligados?’ Qual será o nome dessa coisa informe que a miséria está gerando? É uma mistura de lixo e sangue, uma nova língua de grunhidos, mais além da maldade, uma pura explosão de vingança. Não se trata mais de uma perversão do ‘humano’, mas de uma perversão do ‘animal’ em nós.


‘Ah… a lei é igual para todos…’, dizem os juristas de terno brilhante e bochechas contentes. Sim, tudo bem. Mas há novas formas de crime que têm de ser estudadas e antigos direitos e penas têm de ser revistos. Os pensadores da Justiça continuam a tratar os crimes como ‘desvios da norma’, praticado por cidadãos iguais. Tem de acabar o tempo dos casuísmos, das leniências, das chicanas. Vivemos trancados num racionalismo impotente diante desse bucho indomável da miséria, do ‘Alien’ que se forma como um monstro boçal nas ruas e periferias. Com o congestionamento de fatos tragicamente insolúveis, no beco sem saída da sociedade, vejo se formar um desejo crescente pelo horror, pela crueldade, quase que uma fome de catástrofe. Não falo dos analfabetos desvalidos e loucos, mas os assassinos de classe média já têm o prazer perverso de fazer o inominável.


E esse casal de pedra, esses monstros? Será que vão se defender em liberdade, esgotando ‘todos os recursos da lei’, como o esquartejador com ‘justa causa’ ou o assassino daquela menina morta pelas costas, livre e solto? Serão condenados a dez aninhos com atenuantes e macetes? Que acontecerá com eles, depois de estrangularem e jogarem a filha pela janela?


A lei tem de ser mais temida, mas rápida, mais cruel. Esse vazio da Justiça explica o sucesso de filmes como Tropa de Elite e até fantasias de linchamento em todos nós. Vejam as portas da cadeia onde estavam os dois assassinos.


E, por fim, por que tantos crimes contra as crianças? O caso do João Hélio, crianças decapitadas na Febem, crianças jogadas em pântano em Minas, crianças no lixão, aquela psicopata em Goiás que contratava meninas pobres para torturar e mais: pedofilia, espancamentos, tudo…


As crianças são fontes inconscientes de terror, de Herodes a Édipo e Moisés. O rei Agamenon matou sua filha Ifigênia para ter tempo bom em uma guerra. Que dizem os antropólogos dos rituais de matança de inocentes, como foi em nossa terra Pedra Bonita, que ficou vermelha do sangue? Em sociedades primitivas, o sacrifício de animais e o sangue de inocentes servem para afastar doenças, prever o futuro, saciando o ódio dos deuses. Será que matam nessas crianças de hoje o horror a um futuro que não há mais?


Lamentamos uma harmonia ainda inexistente e almejamos que ela seja alcançada. É tão inútil usar as palavras racionalmente, diante da brutalidade desse ‘outro país’ do crime e da miséria, que caio em desânimo: que adianta ficar os últimos 17 anos escrevendo em nome da ‘razão’?


E perguntamos, horrorizados:


‘Por que eles fizeram aquilo?’


Resposta: ‘Por nada…’’


 


TELEVISÃO
Flávia Guerra


Olho vivo e Faro fino


‘Móbile: construção que pode ser posta em movimento no ar. Peça de escultura formada de elementos individuais, feitos de material leve, suspensos artisticamente por fios, e que oscilam ao vento. Assim é a escultura criada por Alexander Calder que se tornou um clássico do século 20. Assim é o programa criado por Fernando Faro em 1963, exibido até 1967 na Tupi, que se tornou um clássico da liberdade de criação na TV brasileira. Quatro décadas depois, Móbile ganha novo fôlego, nova leitura e reestréia na TV Cultura em 28 de maio, às 22 horas, como parte da renovação por que passa sua programação.


Móbile, como diz a introdução que o apresenta, não é um programa como aqueles a que você está habituado. Não tem começo, meio e fim. É como se fossem peças soltas que a gente vai juntando. Não fazem um sentido. Não têm uma história. Começa quando você começa a assisti-lo. E, ao sabor do acaso, vai se modificando, tomando outra forma, ganhando outro sentido, como se fosse um móbile.


Idealizado por Faro, que também criou o lendário Ensaio, Móbile causou estranhamento, mas ganhou fãs incondicionais. ‘A gente adorava ver grandes textos da literatura serem recitados por grandes atores. Havia literatura, teatro, música, artes plásticas, dança… Tudo misturado. Quando a gente conta, parece simples, mas era tudo muito novo e fascinante’, rememora Elifas Andreato, que passou pelo set de gravações do novo Móbile há pouco mais de dez dias. De espectador , parceiro e amigo de Faro, Andreato (um dos grandes designers, ilustradores e artista de capas de discos brasileiros) passou a convidado do segundo programa, que vai ao ar em junho. Durante a gravação, o Estado acompanhou o modo sutil com que Faro se faz tão presente e, ao mesmo tempo, quase imperceptível em seu set. Andreato comentou uma por uma capas memoráveis que criou para a MPB. Chico Buarque, Clara Nunes, Vinícius e Toquinho, Adoniran Barbosa, Tom Zé, Paulinho da Viola, Elis Regina… Nomes e capas interativas (muito antes que o termo fosse banalizado pela informática) se sucediam e se misturavam ao relato emocionado. ‘Quer me fazer chorar? Vai conseguir. Sabe que te amo. Aprendi demais com você’, emociona, e faz emocionar, um artista marcado pela ‘forma Faro’ de produzir TV e cultura. Faro marcou época com Ensaio, o programa de entrevistas a grandes nomes da música brasileira que até hoje é exibido pela TV Cultura, copiado por outras emissoras e referência quando se quer falar da TV que não emburrece mas enobrece o artista e o espectador.


Assim como Ensaio, Móbile marcou época. Até mesmo quem nunca assistiu sabe de cor passagens inteiras, como a leitura do monólogo de Molly Bloom no clássico Ulisses de James Joyce ou as leituras e comentários de Juca de Oliveira para grandes textos do teatro.


Quem via adorava. Quem não viu não verá mais. Simplesmente porque não existem cópias dos programas originais. ‘Joguei tudo no lixo. Assim que o programa acabava, eu pegava as fitas e jogava fora’, explica Baixo, como ele chama e é chamado por todos. Por que matar assim a cria? ‘Porque não queria ficar preso à repetição. Não queria nada engessado para o futuro. Guardar programas era ir contra o princípio que havia me inspirado a criar o programa.’


Fadado a virar lenda, Móbile volta agora ao ar graças ao pedido de Paulo Markun, presidente da Fundação Padre Anchieta (mantenedora da TV Cultura), que pediu a Baixo para recriar o programa. ‘Voltei a fazê-lo porque Markun me pediu. Estou feliz. Quando criei o programa, não pensei em um formato fixo. O primeiro foi sobre o Kafka. E tinha de ser livre e começar a ser visto de qualquer ponto. Hoje ainda quero fazer um programa descompromissado, sem a neurose da audiência.’


Tudo ao acaso, em constante mutação, mas calcado em valores densos e precisos. Não é por acaso que o primeiro novo programa começa, após breve ‘dança silenciosa’ de Ana Catarina Vieira, com Ouro de Tolo (a canção, que vale por tantos tratados filosóficos, de Raul Seixas) recitada por Ana Catarina e Ângelo Madureira. A propósito, Faro estréia em junho na direção de um espetáculo de dança e assina O Nome Científico da Formiga, nova obra de Ana Catarina e Madureira.


A uma primeira olhada, como a escultura, Móbile pode causar estranheza no espectador de hoje, acostumado ao ‘método Pavlov’ de adestramento a que é submetido por programas que são sempre o ‘mais do mesmo’. Mas a graça de suas formas livres valem a segunda olhada. Móbile é, com sua maleabilidade, a prova de uma resistência. E, em um resgate do que deixou saudade, Baixo está (re)convocando seu exército para participar do programa. Por isso, Juca de Oliveira volta e conta como foi sua estréia nas artes cênicas.


Antônio Abujamra dá nova vida ao clássico monólogo de Molly Bloom. A literatura recitada na TV acaba dando um sabor inédito ao discurso repleto de nuances de Joyce. O texto, informativo, explica: ‘James Joyce também fez parte do movimento dadaísta e foi o autor de Ulisses, o grande romance do século 20, que tem nas suas últimas páginas o monólogo interior Molly Bloom.’


O texto é narrado por Antônio Abujamra enquanto atriz Lavínia Pannunzio dá forma às palavras rascantes de Joyce. É no público jovem que Baixo pensa quando concebe com rara liberdade cena tão lasciva e, ao mesmo tempo, erudita. ‘A linguagem da TV em si é redundante. Você sempre assiste à mesma piada, à mesma novela.Quero provocar. E falar com os jovens, principalmente os que fazem cinema, música. Escreva isso. Aliás, faça mais, traga-os aqui’, convoca este jovem que completa 81 anos em 21 de junho.’


 


Melchíades Cunha Júnior


Um programa que marcou época por dar vez à literatura


‘Depois de um sono que durou 41 anos, o Móbile será acordado – programa de televisão já exibido por nossas bandas, inventado e dirigido por quem mudou o jeito de lidar com essa máquina de fazer doido (apud Stanislaw Ponte Preta). Fernando Abílio de Faro Santos é o nome dele. Mas todos, ou quase todos, o chamam de Baixo, que é como ele trata todo mundo; se for mulher, é Baixa. Para quem tem nomes pouco comuns, como o meu, ele deixa de lado o Baixo e usa o nome próprio da pessoa, escandindo bem as sílabas. É o caso também do Demétrio, que é como Mino Carta foi registrado no cartório civil. Em retribuição, não o chamo de Fernando, mas de Ferdinand le Grand. Uma homenagem, por suposto.


O Móbile durou de 1963 a 1967. Eu era jovem na época, e não o perdia. Mas perdi, e muitas, aulas do curso de Direito na PUC, que começavam cedo e o programa costumava terminar tarde, já que não tinha hora certa para começar. Goulart de Andrade, companheiro de viagem de Ferdinand, diz que avançava pela madrugada.


Meu televisor, por sorte, pegava bem a TV Tupi, o Canal 4, que era o líder de audiência na época, com a TV Record, o Canal 7, já lhe pegando nos pés. As transmissões eram ao vivo e em preto-e-branco, o que talvez lhe acrescentassem um quid pluris, devido ao jogo de luzes inventado também por Ferdinand; fruto, pode ser, de suas experiências com encenações de peças no Teatro de Vanguarda – outro programa que desmentia a tirada de Sérgio Porto sobre os efeitos deletérios da televisão para as mentes sãs.


Foi através do Móbile que entrei em contato com autores como Ezra Pound, T.S.Eliot, Lewis Carroll, Umberto Eco, Erskine Caldwel, John Steinbeck,Gilles Deleuze, James Joyce, Paul Eluard, J. D. Salinger, Francis Scott Fitzgerald, Edmund Wilson e muitos mais. Não, não era um programa sobre literatura, mas dava vez à arte literária. Foi no Móbile que ouvi Lima Duarte lendo textos de Guimarães Rosa e poemas de Fernando Pessoa. Também eram freqüentes as aparições de Juca de Oliveira, Dionísio Azevedo, Décio Pignatari, Augusto de Campos, Marika Gidali, Chico Buarque…


Era, então, um programa de vanguarda? Era, mas sem ser chato e também sem pretender doutrinar o telespectador. Era também um programa de humor – um humor coloquial, onde o improviso, a sutileza e a inovação formal deixavam a gente com um sorriso discreto nos lábios. Em certos esquetes (ops), lembrava a turma do Monty Phyton, que surgiu bem depois.


Uma vez perguntei ao Ferdinand a razão do nome do programa, que supus ter ligação com o Eppur si muove, de Galileu Galilei. Nada a ver. Monsieur Le Grand inspirara-se nos móbiles de Alexander Calder – os delicados objetos do escultor americano, que se moviam se provocados. Ou seja, adquiriam vida ao sopro da brisa, da mão humana…


Copio um trecho da biografia de Ferdinand le Grand, escrita por Jefferson Del Rios, e que está no volume recém-lançado pela Fundação Padre Anchieta, em homenagem aos 80 anos do nosso amigo, sob o título fernando faro – baixo – homenagem ao maior produtor da MPB na televisão: ‘O programa estreou levando O Processo, de Kafka, para a televisão. Colocou no ar os poetas concretistas de São Paulo, Décio Pignatari e os irmãos Campos, fazendo improvisos, work in progress para sermos joycianos. Deu-se ao luxo de oferecer ao público o célebre e difícil monólogo de Molly Bloom que encerra Ulisses. Visto a distância, Móbile pode parecer amadorismo irreal e inviável em televisão. Não era.’


Depois do Móbile, Ferdinand criou, também na Tupi, o Poder Jovem, onde o forte era a MPB, acompanhada de algumas ‘loucuras’, como o surgimento, por exemplo, de uma voz em off pregando as excelências do pão-de-queijo de Araxá . Era uma revanche contra os pregões da pamonha de Piracicaba.


Ferdinand veio depois com o Divino Maravilhoso, ainda na Tupi. E continuou servindo seus deliciosos biscoitos, dentro e fora da TV, até culminar com o imperecível Ensaio, já na TV Cultura, que é quem trará de volta o Móbile nas próximas semanas.’


 


Keila Jimenez


Vem aí: Confissões 2


‘Diretor da Globo Filmes, Daniel Filho pretende tirar da gaveta este ano a continuação de um projeto de sucesso: Confissões de Adolescentes – A Nova Geração.


A segunda fase da série, que é um marco entre as produções independentes na TV aberta brasileira, está praticamente toda roteirizada, só à espera de um patrocinador, ou um parceiro televisivo, para passar a ser produzida.


‘Não vou largar o cinema, mas quero voltar a fazer mais TV. A continuação do Confissões está prontinha para começar a ser gravada’, conta Daniel Filho ao Estado. ‘Mas não vou me arriscar nessa sozinho, preciso de dinheiro para isso. Da primeira vez me dei muito mal.’


Daniel fala que bancou toda a produção de Confissões de Adolescente (1994) acreditando que faturaria alto com a produção. Enganou-se.


‘Quis fazer tudo filmado, e gastei o que tinha e o que não tinha’, lembra o diretor. ‘Não sei se até hoje recuperei o que perdi. Por isso, não lanço a segunda fase sem a segurança de retorno.’


Confissões foi exibida pela Cultura, e depois por Bandeirantes, Multishow e pela francesa TF-1.’


 


 


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