Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > CPI

Igor Gielow

19/07/2005 na edição 338

‘BRASÍLIA – O cerco se fecha. Depois de uma semana quase inacreditável na coleção de fatos insólitos (começou com dólares na cueca, passou por reais em malas e batida em loja de madame para acabar num clone imperfeito da famigerada Operação Uruguai), podemos esperar por mais emoções a partir de hoje.

A fábula de meias-verdades contada por Delúbio Soares e Marcos Valério não funcionou para delimitar o escândalo a poucos personagens e a crimes superáveis -além de oferecer aos eventuais enrolados no campo adversário uma saída conjunta.

A trama que vai sendo desenrolada a partir da análise do papelório que está chegado aos técnicos da CPI dos Correios vai demonstrando ligações intrincadas de interesses privados e partidários com o cheiro de dinheiro público permeando o processo.

E não se fala aqui dos arroubos da ala irresponsável da CPI, que vem atuando com conivência e apoio de setores preguiçosos da imprensa, adeptos do caminho suave da reprodução denuncista sem checagem.

Há vários fios pedindo para serem puxados. O fato de uma das empresas ligadas a Valério ter usado um contrato com os Correios para garantir um empréstimo que foi parar na mão de Delúbio pode não provar nada em si, mas indica que não havia compartimentos estanques no mundo de relações sob investigação.

Várias perguntas têm de ser respondidas. Por exemplo: os bancos cobraram os empréstimos? Não é ilegítimo nem leviano perguntar se eles levaram alguma vantagem por dar dinheiro ao partido no poder, e as senhas ‘crédito consignado’ e ‘CPI do Banestado’ já estão na praça. Isso fora as centenas de milhões de reais que apareceram sem origem identificada nas contas ligadas a Valério. De onde vieram, para onde foram?

A gravidade do que virá à luz determinará a resposta da pergunta final: se o presidente Lula continuará como inocente útil para aliados e opositores, ou se entrará no dança do processo ‘purificador’ previsto por Luiz Gushiken.’



Ancelmo Gois

‘Calma, Heloísa’, copyright O Globo, 17/7/05

‘Quinta de manhã, numa reunião fechada da CPI, Heloísa Helena, a senadora do P-SOL, soltou o verbo:

— É bom mesmo que não tenha imprensa! Aqui é um querendo comer o outro. E o pior é que é no mau sentido!’



Ricardo Noblat

‘Agachado ao lado de um carro perto do motel’, copyright Blog do Noblat (www.noblat.com.br), 15/7/05

‘O melhor amigo de um amigo meu se meteu no início deste ano em uma enrascada feia no Rio de Janeiro. Era de noite. E ele passava pela avenida Niemeyer com destino à Barra da Tijuca, onde jantaria em um restaurante com outro amigo.

‘Perto do Motel Vip`s, furou o pneu do carro. Ele desceu e começou a trocar o pneu. Nesse momento, irrompeu um tiroteio próximo dali na favela do Vidigal. Uma bala perdida atingiu a perna dele. O infeliz foi parar no hospital levado por dois PMs.

Se o problema dele tivesse terminado por aí, tudo bem. Mas não. A polícia quis saber o que ele estava fazendo ao lado de uma favela onde corre livre o comércio de drogas. E a mulher, o que ele fazia a poucos metros da saída de um motel.

Tem deputado se sentindo assim depois que assessores deles foram vistos nas imediações da agência do Banco Rural em Brasília. Ou na própria agência. Pior: depois que pessoas que têm o mesmo nome de assessores deles estiveram na agência.

A temporada de caça a políticos corruptos não discrimina entre suspeitos, acusados e supostamente inocentes – dado que a categoria dos inocentes até prova em contrário foi eliminada de quaisquer cogitações.

Foi visto agachado perto de um carro a poucos metros da entrada de um motel, prevaricou. E estamos conversados.’



Expedito Filho e Luciana Nunes Leal

‘Lista liga Severino e mais 21 a mesada’, copyright O Estado de S. Paulo, 17/7/05

‘BRASÍLIA – A CPI dos Correios recebeu de um ex-funcionário graduado do PP uma lista de 22 deputados que se beneficiariam do pagamento de mesadas supostamente distribuídas a mando do líder do partido na Câmara, José Janene (PR). Da relação constam os nomes de dois cardeais da legenda que até agora não tinham passado pela mira da CPI: o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PE), e o corregedor-geral da Casa, Ciro Nogueira (PI), responsável pela apuração das denúncias contra outros deputados.

A identidade do ex-funcionário vem sendo mantida em segredo pelos integrantes da CPI, que o apelidaram de Garganta Profunda. Os detalhes apontados pelo informante são copiosos e explicam o organograma do esquema.

Nesse desenho, o dinheiro seria distribuído por João Cláudio Genu, chefe de gabinete de Janene, que já foi citado por sua relação com o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza – acusado de operar o mensalão -, e pelo deputado João Pizzolatti (PP-SC). Segundo as informações levadas à CPI, os pagamentos eram feitos no apartamento do próprio Janene e numa sala da Comissão de Minas e Energia, controlada pelo grupo.

‘Isso é uma palhaçada da CPI, um delírio. Essa informação é fria e não vou me acovardar diante dela’, reagiu Janene, com indignação, ao tomar conhecimento da acusação.

As mesmas denúncias, citando a distribuição de dinheiro no apartamento de Janene e em cafés da manhã na Comissão de Minas e Energia, haviam sido feitas pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo.

MALAS DE DINHEIRO

De acordo com as informações repassadas por Garganta Profunda, Pizzolatti chegava a circular pelos corredores da Câmara carregando malas de dinheiro, para o que contava com o apoio de funcionários da área de segurança. ‘O sr. Renato Câmara, ex-assessor do deputado Pizzolatti, era seu principal operador’, disse o informante. O dinheiro que garantia o mensalão do PP teria como fonte operações de empresas estatais.

Além de considerar as informações de Garganta Profunda, a CPI pretende investigar as relações do ex-diretor de Furnas Dimas Fabiano Toledo com o empresário Airton Daré, que também seria ligado a Janene. ‘Dimas não é indicação nossa. Nunca indicamos ninguém em Furnas’, defende-se o deputado. Serão apuradas ainda as conexões de Janene no Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), já que a CPI tem informações de que a diretoria de Sinistros seria controlada por ele. Janene também teria estendido um tentáculo sobre a Petrobrás. O diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, apadrinhado pelo PP, teria um papel importante na irrigação financeira do esquema. A CPI vai esmiuçar as operações entre a Petrobrás e a American Distribuidora de Combustíveis – apontadas pelo informante como irregulares. ‘É outra mentira. Paulo Roberto é indicação do PT’, assegura Janene.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DE GUERRA

Igor Gielow

Por lgarcia em 28/11/2001 na edição 149

COBERTURA DE GUERRA

"Jornalistas somem em emboscada", copyright Folha de S. Paulo, 20/11/01

"Quatro jornalistas desapareceram ontem ao tentar chegar a Cabul vindos de Jalalabad, cidade a cerca de 150 km a leste da capital afegã e principal entreposto até a fronteira do Paquistão. Com base em relatos não confirmados, a Cruz Vermelha afirmou que eles haviam morrido.

Eles são Julio Fuentes, 42, do jornal espanhol ?El Mundo?, Maria Grazia Cutuli, 39, do italiano ?Corriere della Sera?, e dois funcionários da agência de notícias britânica ?Reuters?, um australiano chamado Harry Burton, 33, e o fotógrafo de origem afegã Azizullah Haidari, 33.

Os jornalistas viajavam em um comboio pela Província afegã de Nangarhar, quando homens armados abordaram os veículos em que viajavam perto de uma ponte em Tangi Abrishum, a cerca de 90 km de Cabul, de acordo com jornalistas que escaparam da emboscada. Dois carros que faziam parte de um comboio de oito veículos foram parados, seus ocupantes foram obrigados a deixar os veículos e, em seguida, teriam sido mortos, ainda segundo relatos não confirmados.

Um motorista afegão que chegou mais tarde a Cabul afirmou ter avistado um corpo durante o trajeto entre Jalalabad e a capital. Ele disse ter parado e, então, descoberto três outros cadáveres. Nenhum dos corpos tinha marcas visíveis. Um dos mortos era uma mulher. Os corpos ainda não tinham sido identificados até ontem à noite, e o relato do motorista não pôde ser confirmado por uma fonte independente.

Depois que os homens armados obrigaram o comboio a parar, os veículos que não estavam na linha de frente conseguiram fugir e retornaram a Jalalabad.

?Eu passei cerca de 10 minutos depois e vi uma correria em Saroubi [perto de Tangi Abrishum]. Uma pessoa disse que o Taleban estava atacando, mas decidimos ir em frente. Fomos parados por três homens armados, que nos roubaram, mas fugiram assim que viram um ônibus aparecer?, afirmou o jornalista grego Nikolas Vafiadis, da Antenna TV.

O relato dele é impreciso, como tudo na história até a noite de ontem no Afeganistão. As embaixadas espanhola e italiana em Islamabad confirmaram as mortes.

Os culpados também são desconhecidos. Apesar de a Rádio Afeganistão ter de cara dado como certa uma ação do Taleban, a maior probabilidade é a de uma ação de mercenários ou voluntários abandonados pela milícia quando ela deixou Cabul.

A Província foi tomada por líderes tribais contrários ao Taleban na semana passada, mas combatentes da milícia extremista ou fiéis à rede terrorista Al Qaeda, de Osama bin Laden, ainda estariam na região.

Cerca de mil voluntários paquistaneses estariam soltos pela área entre Cabul e a fronteira de seu país. Anteontem, quatro jornalistas franceses já haviam sido roubados por salteadores armados com fuzis no mesmo local do incidente de ontem.

A estrada entre Saroubi e Cabul passa por desfiladeiros nos quais de um lado há montanha, do outro, rio. O território ideal para emboscadas. A ONU ofereceu ajuda aos governos para recuperar os cadáveres e, segundo o porta-voz Eric Falt, está estudando reabrir vagas em vôos seus para tirar jornalistas do Afeganistão em uma eventualidade.

Três jornalistas estrangeiros foram mortos no Afeganistão há cerca de dez dias. Foram os repórteres franceses Johanne Sutton, 34, e Pierre Billaud, 31, e o jornalista alemão Volker Handloik, 40, que estava trabalhando para a revista ?Stern?."

 

"Curso ensina jornalistas a sobreviver na guerra", copyright O Globo, 25/11/01

"Num espaço de apenas oito dias, sete jornalistas foram assassinados no Afeganistão. Não por outro motivo, centenas de profissionais e empresas de comunicação do mundo inteiro já se conscientizaram de que cursos e treinamentos especiais para correspondentes de guerra podem evitar que o seu trabalho seja indesejado ou tragicamente interrompido.

A iniciativa pioneira de repassar experiência militar para jornalistas interessados na cobertura de guerras é de um grupo de ex-oficiais da SAS, as forças especiais britânicas que combatem lado a lado com os Estados Unidos no Afeganistão. Por menos de US$ 2 mil, o candidato a correspondente de guerra pode alistar-se nas fileiras da AKE (Awareness, Knowledge and Excellence, na sigla em inglês) para um curso intensivo de cinco dias nas trincheiras da empresa, criada há dez anos e localizada em Hereford, no centro-oeste da Inglaterra.

É onde eles são apresentados aos últimos lançamentos da indústria bélica, aprendem a se defender de tentativas de seqüestro, a se prevenir contra armas químicas e biológicas e, sobretudo, a escapar do fogo cruzado.

As estatísticas tornam-se alarmantes quando a memória registra que em 21 anos de guerra no Vietnã, a primeira mostrada pela televisão, 63 profissionais da imprensa foram mortos. Segundo a Federação Internacional de Jornalistas, só este ano 90 correspondentes de guerra tombaram no front. A organização Repórteres Sem Fronteiras lista 157 profissionais que encontraram a morte em 1994 nos conflitos de Ruanda, Bósnia e Argélia.

Jornalistas assassinados não receberam treinamento

A máxima de Napoleão Bonaparte, que desafiava cem mil baionetas, mas temia o poder de fogo resultante da união de três jornais, não deve ser usada mais como lema de guerra para jornalistas, como alerta Andrew Kain, diretor-executivo da AKE, em entrevista ao GLOBO.

– O fato de ser jornalista não o livra do perigo. Pelo contrário, jornalistas nesta missão são involuntariamente capazes de despertar a fúria dos dois lados em combate – adverte o executivo da empresa, hoje com escritórios também nos EUA, listando entre seus principais clientes as redes de tevê BBC, CNN, NBC e o grupo americano Time.

Pelos cursos de treinamento da AKE já passaram 800 jornalistas (600 britânicos e 200 de outros países, inclusive da América Latina). Entre eles estão rostos conhecidos da imprensa e televisão internacionais, como Chris Cramer, o britânico que dirige a CNN Internacional.

Jim Condon, ex-oficial da SAS, é um dos mais procurados instrutores. Em suas aulas, costuma narrar como um professor russo teve um dos dedos decepado por seus seqüestrados, acabando por ser assassinado. É uma tentativa de Condon de ensinar a seus alunos como proceder em casos de seqüestro. Os participantes do curso conhecem a identidade de seus instrutores, mas por questão de segurança, não sabem em quais conflitos eles atuaram.

– Nem a minha mulher conhece todas as minhas atividades militares – diz Condon, mantendo-se fiel ao protocolo militar britânico.

Ele dá um conselho para mulheres que são enviadas para a guerra:

– Nós ensinamos a todos os jornalistas a evitar riscos previsíveis numa guerra. Particularmente em relação às jornalistas, procurem se locomover sempre em companhia de homens – ensina Condon.

O veterano jornalista americano John Owen – ex-correspondente de guerra da rede canadense CBC, com passagens por Nicarágua, El Salvador, Cuba e Oriente Médio – recebeu o treinamento especial da AKE. Owen, hoje diretor do Fórum da Liberdade, critica a falta de preparo dos jornalistas assassinados no Afeganistão e particularmente a colega Yvonne Ridley, do jornal britânico ?Sunday Express?, detida por dez dias pelo Talibã por entrar clandestinamente no país e depois solta.

– Ela foi estúpida. Em primeiro lugar, Yvonne Ridley nunca esteve no Afeganistão antes. Em segundo, ela também pôs em risco a vida do tradutor que a acompanhava. Numa guerra, se você contrata alguém para atuar com a sua equipe, você é responsável pela segurança dele. Dos quatro jornalistas que morreram no início desta semana, nenhum havia recebido treinamento especial. Por isso, considero indispensável esse tipo de curso. As empresas não deveriam enviar ao front jornalistas despreparados – conclui.

Situações perigosas

Seqüestro: não tente zombar de seus seqüestradores, enfrentá-los ou tentar obter pequenos privilégios, como, por exemplo, uma escova de dentes.

Dinheiro: correspondentes precisam dispor de muito dinheiro em espécie, pois cartões de crédito são inúteis em áreas de conflito. Não saia com todo o dinheiro na carteira.

Equipamentos: leve uma garrafa de água capaz de filtrar bactérias nocivas. E uma máscara de gás.

Sob fogo cruzado: abaixe-se imediatamente. Coletes à prova de balas devem ser usados com freqüência. O melhor lugar para se esconder é atrás de um carro, próximo às rodas dianteiras."

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