Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > SOCIEDADE

Inteligentes e bobos: fora da curva

23/03/2011 na edição 634


Jornal do Brasil, 23/3


Deonísio da Silva


Inteligentes e bobos: fora da curva


O talento é hereditário! A imbecilidade também. Essas teses foram defendidas no livro The bell curve (A curva do sino), de Richard J. Herrnstein e Charles Murray.


O título designa um conhecido gráfico das estatísticas, semelhante a um sino. A parte mais abundante é medíocre. Assim, muito inteligentes são poucos; muito bobos também são poucos.


Um dos primeiros a dar sentido positivo à mediocridade foi o poeta latino Horácio. Ele viveu no século I a.C. e defendeu a aurea mediocritas (algo como mediocridade de ouro). Para viver com dignidade não é preciso ser ambicioso. Basta ficar longe da extrema pobreza e da riqueza exagerada. Afinal é preciso levar em conta a brevidade da vida. Para que vivermos angustiados com o que jamais obteremos? A ideia está desenvolvida em Odes II, 10, 5.


O pensador francês Michel de Montaigne, nos Ensaios, e o médico e escritor ítalo-argentino José Ingenieros, em O homem medíocre, estão entre os que influenciaram a alteração dos significados de mediocridade e medíocre, dando-lhes fumos de coisas indesejáveis. Ou ao menos foram assim lidos e interpretados por muita gente.


A curva do sino consagrou o que vinha sendo senso comum. Os casos de extrema deficiência são tão raros quanto os de extrema excelência. Em resumo, acima da média são poucos; abaixo da média também.


Segundo os autores americanos, não vale a pena gastar muito dinheiro público em investimentos sociais e educativos. Os inteligentes vão se juntando de um lado, os bobos de outro. Deixaram claro também que os brancos pertencem ao primeiro grupo, e os negros ao segundo.


Disfarçaram preconceito racial e visão equivocada acerca dos pobres em critérios muito controversos. No futuro descobriremos em que equívocos pesquisadores alienados, com fama de sábios, apoiaram suas pesquisas.


De todo modo cabe lembrar que o sociólogo inglês Cyril Burt, que, entre tantos títulos honoríficos era também Sir, antecedeu os americanos baseado em estatísticas semelhantes, que, aliás, servem para tudo. Ele estudou 40.000 pais e filhos, detendo-se em particular no caso de 53 pares de gêmeos que cresceram separados para afirmar o caráter inato da inteligência.


Cyril Burt morreu em 1971. Em 1976 o jornal Sunday Times revelou que ele tinha inventado os gêmeos, era mentalmente perturbado, sofria de vertigem de Ménières e inventava os próprios triunfos com os quais se exibia.


Títulos, prêmios e honrarias podem e devem ser contestados. O pirata Francis Drake era Sir também, e até mesmo o Prêmio Nobel da Paz foi dado a conhecidos facínoras e embusteiros. E vários agraciados com o Nobel de Literatura foram premiados por razões extraliterárias.


Multidões acreditaram nas besteiras de Cyril Burt. Inclusive a monarquia inglesa. O homem médio acha que se uma coisa vende muito, é boa, e que se alguém recebe o título de Sir ou o Prêmio Nobel só pode estar acima do bem e do mal.


Não é bem assim, mas o trabalho de desfazer equívocos é mais lento do que o de cometê-los.


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