Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
Menu

ENTRE ASPAS >

Intolerância religiosa e intolerância anti-religiosa

Por Pedro Eduardo Portilho de Nader em 07/04/2009 na edição 532

Há muito tempo, quem acompanha o Observatório da Imprensa tem deparado, semana após semana, com os artigos de Paulo Bandarra atacando as religiões de modo geral – todas as manifestações de religião. Cada vez com mais freqüência, o OI publica as diatribes cada vez mais virulentas de Bandarra contra a religião. Surpreendentemente, a intolerância demonstrada por ele tem subido de grau – embora caiba apontar que seja, no fundo, apenas um aumento de grau nas demonstrações; a intolerância é sempre a mesma.

Bandarra, parece, quer ser o Cristopher Hitchens brasileiro – ele, inclusive, repete vários aspectos do polemista britânico nos ataques à religião em geral. Ataca toda e qualquer religião, ao invés de concentrar críticas às pessoas religiosas que defendem formulações intrínseca e manifestamente intolerantes. Ao proceder assim, ele junta essas pessoas que defendem formulações religiosas intolerantes e aquelas que defendem formulações religiosas tolerantes e benevolentes.

Bandarra observa que a defesa dos direitos humanos, os ideais humanistas e a valorização da liberdade humana seriam anteriores ao advento do cristianismo. Mas a existência de precedência não diminui – muito menos anula – o eventual vínculo do cristianismo com os valores humanistas. Assim como a eventual ausência de precedência não aumentaria esse vínculo.

Cientistas torturam animais

É desnecessário assinalar que não se trata, aqui, de defender o relativismo moral referente às religiões. Pelo contrário: acima já ficou claro que este artigo percebe uma linha que traça uma nítida separação entre, de um lado, as formulações religiosas intolerantes e, de outro, aquelas tolerantes.

Por outro lado, o procedimento de Bandarra é que acaba sendo relativista: ele certamente não aceitaria que o que faz com a religião se fizesse com a ciência. Consideremos, tão somente à guisa de exemplo, dentro do campo da ciência, o uso de animais. Bandarra trata o sacrifício de animais pela religião como uma barbárie (ele pode não usar o termo, mas a idéia é clara), condenando amplamente a religião por isso, mas certamente não gostaria que a ciência e a medicina fossem tratadas da mesma maneira por sacrificar animais. A diferença se justificaria, no seu entender, por uma pretensa superioridade da ciência em geral, e da medicina em particular, sobre a religião. Duas linhas de observação a esse respeito.

Primeiro, nem todas as pessoas religiosas defendem o sacrifício de animais, de modo que, é óbvio, as pessoas religiosas que defendem o sacrifício de animais não respondem por aquelas. Bandarra toma exemplos de formas particulares de religião e pretende tomá-las como universais a todas as formulações religiosas. Segundo, mas não menos importante: de uma perspectiva pragmática, não estritamente universalista, do ponto de vista dos animais sacrificados não existe a menor importância em nome de quem ou do quê eles são sacrificados. Além disso, cabe acrescentar, diferentes religiões sacrifica(ra)m animais, mas não os torturaram como cientistas já fizeram (por exemplo, cientistas norte-americanos injetaram o vírus HIV em chimpanzés, provocando AIDS neles e arruinando sua qualidade de vida durante anos pelo resto de suas vidas). Religiosos sacrificaram animais; cientistas, além de sacrificar, torturaram impiedosamente.

Inversão de causas e conseqüências

Certamente, não é a perspectiva pretensa e arrogantemente superior de Bandarra, mas também não é uma perspectiva sem qualquer valor o ponto de vista dos animais. Isso faz lembrar o aforisma de Nietzsche sobre a vida não poder ser avaliada: os vivos não podem avaliá-la por serem parte interessada; os que não são vivos também não podem avaliá-la, mas por um outro motivo completamente diferente.

Vejamos os aspectos mais agudos das hostilidades de Bandarra à religião.

No dizer de Bandarra, a religião é ‘fonte da intolerância’ (cf. seu texto no OI, 24/3). A idéia não é apenas a da constatação de que formulações religiosas geram intolerâncias (entendidas como fontes de intolerâncias). Muito mais do que isso, para Bandarra toda religião é geradora de intolerância: esse aspecto seria, no seu entender, a essência da religião. No esquema interpretativo de Bandarra, a religião é a causa e a intolerância é o seu efeito direto. Dessa forma, ele sugere que a intolerância seria causada, essencialmente, pela religião. Esse esquema opera segundo o princípio de razão suficiente aristotélico: a religião seria a razão suficiente para a existência da intolerância. Segundo esse esquema, a religião tenderia, essencialmente, à intolerância.

O esquema se sustenta numa generalização indevida das evidências de que formulações religiosas geraram intolerâncias. Para Bandarra, a religião é origem de todos os males de intolerância. Existe nesse esquema interpretativo um erro referente a causa e efeito. É preciso desfazer esse erro, invertendo causas e conseqüências num modelo interpretativo mais aberto.

Assim, enquanto no esquema de Bandarra a religião é a causa (‘fonte’) e a intolerância o efeito direto, é possível pensar que a incompreensão, a hostilidade, a aversão à sociedade aberta e a intolerância formam as condições de possibilidades (causas, mas não causa suficiente) e as formas de religião são uma possibilidade (uma conseqüência possível) dessas condições. Esse modelo abrange, inclusive, o desenvolvimento de formulações religiosas transigentes e tolerantes (que, no esquema essencialista, que é o de Bandarra, seriam, no máximo, anomalias contrárias à essência normal da religião, embora ele prefira simplesmente não admitir a existência de formas religiosas transigentes e tolerantes). Em contraste com aquele esquema interpretativo, esse modelo mais aberto também explica o surgimento de conseqüências da intolerância que não são religiosas, como, por exemplo, muitos casos de violência contemporânea desprovidos de vínculos fortes com a religião.

‘Segundo alguns dizem’

Antes de seguir para as considerações finais, convém apontar: não é possível, nas dimensões deste artigo, formular e desenvolver uma crítica à crença iluminista nas virtudes universais da ciência, crença intrínseca que dirige os ataques virulentos e monolíticos à religião feitos nos textos de Bandarra. Os estudos científicos devem ser considerados de uma perspectiva pragmática e nominalista e não da perspectiva global e universalista. Os ataques de Bandarra à religião são monolíticos porque sua crença iluminista na ciência também é monolítica.

Bandarra ataca todas as formas de religião a partir de um ponto de vista que é o da crença iluminista, mas não diz nada sobre as críticas que, já há muito tempo, são feitas aos pressupostos de sua crença, críticas que rejeitam a identificação do esclarecimento com uma pretensa ciência unificada e universal. A crença iluminista de Bandarra contém um essencialismo, de matriz aristotélica, expresso pela noção iluminista de ‘flecha do progresso’. O seu pressuposto é de que há uma ordem objetiva subjacente e um sentido único para o qual tudo deve tender. A ciência seria o elemento preferencial dessa pretensa flecha do progresso universal. Em Bandarra, tanto sua noção de religião, entendida como ‘fonte da intolerância’ (e a intolerância entendida como essência da religião), quanto sua crença iluminista na ciência, como instrumento do esclarecimento, são derivados de um essencialismo de matriz aristotélica.

Em tempo, para que não haja mal-entendido: não estou, de forma alguma, criticando a ciência, entendida de maneira pragmática e nominalista. A questão aqui é referente à concepção essencialista sobre ciência e religião e aos pressupostos dessa concepção. Convém lembrar as palavras do filósofo Karl Popper, crítico do essencialismo e defensor da ciência nominalista e do humanismo: ‘Não desejo ser mal interpretado. Não tenho hostilidade para com o misticismo religioso (só para com um misticismo anti-racionalista militante) e seria o primeiro a combater contra qualquer forma de oprimi-lo. Não sou quem advoga a intolerância religiosa’ (A Sociedade Aberta e seus Inimigos, capítulo 24). Para Bandarra, a ciência é universalista, generalista e está sempre em busca direta e positiva da verdade; diferentemente, na formulação de Popper, a ciência é nominalista, humanamente mais humilde e busca, ao invés da verdade, aferir as possibilidades da sua falseabilidade. Bandarra poderia estudar ciência e racionalismo lendo autores como Popper, não o que ‘segundo alguns dizem’ na Wikipédia, a enciclopédia livre que ele cita (cf. seu artigo no OI 31/3).

Neonazistas podem se esbaldar

Bandarra ataca o essencialismo próprio das religiões a partir de uma versão moderna – iluminista e científica – de essencialismo de matriz aristotélica. Assim, as hostilidades de Bandarra à religião têm a marca da intolerância e do autoritarismo característicos do essencialista. É o essencialismo que pauta, em Bandarra, suas formulações monolíticas e maniqueístas sobre religião e ciência. Seus ataques à intolerância religiosa são feitos em nome da intolerância anti-religiosa.

De observações particulares sobre formulações religiosas, Bandarra deriva enunciados generalistas sobre a religião. Esse procedimento, efetivamente, não é logicamente justificável nem é eticamente defensável. Assim, vejamos o que ele escreve: ‘Ateus não pedem dízimo, não constroem templos, não prometem vida fácil, salvação de nada, não excomungam ninguém’. Da observação de que pessoas religiosas pedem/pagam dízimo, constroem templos, excomungam etc., ele generaliza uma condenação para todas as pessoas religiosas e todas as formulações religiosas. Em contrapartida, ele deveria ser informado que ateus – e cientistas, em particular – também roubam, mentem, assassinam por mesquinharias, fraudam, estupram, são pedófilos, etc. Não são apenas as pessoas religiosas que o fazem e nem todas as pessoas religiosas – nem sequer a sua maioria – fazem isso, ao contrário do que ele pensa (ele parece achar que somente padres católicos praticam pedofilia e que somente pessoas religiosas são capazes de cometerem estupro).

O ápice é quando ele considera o anti-semitismo próprio do início do século 20 como essencialmente uma intolerância religiosa e trata nazistas como cristãos; assim, no seu entender, para o anti-semitismo ‘os judeus desrespeitavam a maioria, culminando no século 20 com a sua tentativa cristã [sic] de produzir a solução final na Alemanha: tentar eliminá-los mais uma vez’ (OI, 31/3). Neonazistas talvez possam se esbaldar com essa assertiva provinda de Bandarra.

Generalizações inadequadas

Num esquema generalista e universalista como o de Bandarra, divergências com caracteres religiosos são explicados como sendo causados pela intolerância religiosa: a religião seria a causa suficiente e os conflitos seriam o seu efeito direto. É preciso inverter essa relação num modelo mais complexo e nominalista de causas e conseqüências: a intolerância religiosa é conseqüência – não causa – de divergências e conflitos. No esquema interpretativo de Bandarra, certamente os conflitos entre árabes e israelenses seriam causados pela intolerância típica das religiões; a realidade é diferente do seu esquema interpretativo.

Deveria ser desnecessário assinalar: considerar exemplos de irracionalidade e incompreensão – ou, mais ainda, de manifesta intolerância – de pessoas religiosas e induzir daí uma condenação generalizada da religião como um todo, incluindo todas as formulações e todas as pessoas religiosas tolerantes, ignorando assim as diferenças, é irracional e intolerante. O equivalente a isso seria enumerar os maus usos da ciência por cientistas e os erros e graves descuidos médicos e daí generalizar sobre a ciência em geral e sobre as ciências médicas e os médicos em particular. Bandarra, repetindo Cristopher Hitchens, despreza precisamente o que é mais importante: as nuances entre intolerância, irracionalismo e incompreensão, de um lado, e transigência, ponderação e compreensão, de outro, nuances existentes entre as diferentes formas de religião. Os ataques virulentos e monolíticos à religião, feitos de uma perspectiva pretensamente universal, desconsideram as nuances preciosas referentes à transigência e compreensão e seus opostos.

Confundir exemplos particulares de formulações religiosas irracionais e intolerantes com todas as formulações e pessoas religiosas é igual a, por exemplo, confundir israelenses com judeus e confundir sionistas intolerantes com judeus e israelenses (mas apenas anti-semitas, confessos ou não, fazem essa confusão), ignorando a existência de todos aqueles judeus que efetivamente defendem a concórdia, a sociedade aberta e a convivência harmoniosa (mas somente ignorantes desconhecem a diferença ou a consideram irrelevante); é o mesmo que confundir fundamentalistas islâmicos intolerantes com todos os muçulmanos transigentes e pacíficos; é, ainda, o equivalente a confundir as ‘experiências científicas e médicas’ do doutor Mengele e seus associados nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial com as boas práticas de médicos.

Evidentemente, os exemplos de generalizações inadequadas e rudimentares poderiam ser multiplicados para ressaltar a intransigência imponderada e obtusa e os argumentos monolíticos e broncos do doutor Bandarra.

******

Bacharel em História e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP, Campinas, SP

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem