Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > UMA HISTÓRIA SOCIAL DA MÍDIA

Isabel Travancas

15/06/2004 na edição 281

‘Uma história social da mídia, Asa Briggs e Peter Burke, Jorge Zahar Editor, 380 páginas, R$ 49

O historiador inglês Peter Burke, em seu livro A fabricação do rei, no qual analisa a imagem pública de Luís XIV da França, declara: ‘O que me interessa quando escrevo sobre história é sobretudo a tarefa de fazer mediação entre duas culturas, entre o passado e o presente.’ É sobre a possibilidade desta mediação entre tempos e espaços distintos que trata seu novo livro Uma história social da mídia, escrito a quatro mãos com o pesquisador e reitor da Universidade Aberta Britânica, Asa Briggs. Briggs é autor de vários livros sobre radiodifusão. Burke é um pesquisador eclético, tem vários livros publicados no Brasil sobre temas variados como o Renascimento, a história do conhecimento, além do clássico sobre o Rei Sol. E não é apenas um visitante freqüente dos trópicos, como tem grande interesse por nossa história.

Uma história social da mídia é uma obra de fôlego. Procura abarcar a comunicação no mundo ocidental do século 15 aos nossos dias. Sabiamente os autores apontam, já no título, para a idéia de que essa é ‘uma’ história, não é a única, reforçando as escolhas que realizaram nesta seleção de eventos e reflexões. Outro ponto importante que Burke e Briggs enfatizam desde a introdução é o uso do conceito de mídia. Explicam que ele apareceu a primeira vez na década de 20, mas que eles irão usá-lo indistintamente desde a Bíblia de Gutenberg, porque entendem que o interesse pelos meios de comunicação é muito anterior ao aparecimento desta noção.

A obra, dividida em seis capítulos, tem diversas imagens que não apenas ilustram, mas fazem o texto respirar, uma vez que seu conteúdo é denso. O que não significa uma escrita árdua ou difícil para o leitor menos habituado com textos acadêmicos. Uma história social da mídia é contada nos seus detalhes, com suas peculiaridades e anedotas. Por trás delas está uma pesquisa minuciosa e aprofundada de cada inovação e seu contexto.

Os dois pesquisadores tiveram o cuidado de demarcar bem seus territórios, o que não acontece com freqüência em livros escritos em conjunto. A introdução e os dois primeiros capítulos são de autoria de Burke e os restantes e a conclusão são de Briggs. Ainda que esta divisão não comprometa o desenrolar do livro, fica evidente a marca e as diferenças de cada um deles.

Um dos méritos de um livro com estas dimensões e propósitos é não apresentar uma história de fatos e acontecimentos ou de invenções e inovações. À medida que vão entrando em cena novos elementos, seu contexto é apresentado, sem ênfase em alterações bruscas e irreversíveis. Como eles mesmos destacam: ‘Pensar em termos de um sistema de mídia significa enfatizar a divisão de trabalho entre os diferentes meios de comunicação disponíveis em um certo lugar e em um determinado tempo, sem esquecer que a velha e a nova mídia podem e realmente coexistem, e que diferentes meios de comunicação podem competir entre si ou imitar um ao outro, bem como se complementar.’ Esta preocupação está presente desde o surgimento da imprensa e sua relação com os manuscritos. Estes continuaram a ser usados para comunicações específicas. Lógica que se repete ao lembrarmos do surgimento do rádio, que, para muitos, ameaçaria os jornais – raciocínio que se repetiu com a invenção da televisão e que se perpetua com a entrada em cena da internet.

Os dois primeiros capítulos do livro abordam as transformações sofridas pela mídia desde a impressão gráfica no século 15 até a Europa Moderna. Burke fala das mudanças na forma de leitura, a relação entre divulgação oral e impressa, os acontecimentos políticos e sociais como a Reforma, as guerras religiosas, o Iluminismo e a Revolução Francesa. Para o historiador, neste movimento a participação do povo foi tanto causa quanto consequência da atuação da mídia. É sabido que o movimento político foi bom para a imprensa. Havia um grande número de notícias e as publicações se multiplicaram neste período, ainda que, como lembra Burke, em 1789 a maioria do povo francês não soubesse ler.

A questão da constituição de uma esfera pública nos termos de J. Habermas é o tema da discussão que fecha esta etapa do livro. O historiador procura trabalhar tanto a favor quanto contra a idéia do pensador alemão. Para Burke, contrariando Habermas, é possível pensar em esfera pública nos séculos 16 e 17. Ele enfatiza a sua fraqueza estrutural nos antigos regimes, distinguindo dois tipos de esfera pública: o temporário e o permanente, ou o estrutural e o conjuntural. Este é um dos pontos altos do livro, que em alguns momentos se excede em minúcias e exagera na quantidade de informação, condensando épocas e complexidades.

Essa falha se acentua no terceiro capítulo e em parte do quarto, escritos por Asa Briggs e que tratam das inovações decorrentes da Revolução Industrial, principalmente na área de transportes com o aparecimento do motor a vapor. Para Briggs, este é ‘o grande marco da história humana’ e trouxe implicações para a própria produção dos jornais que passaram a ser impressos mais tarde e trazer notícias mais recentes.

Em seguida, ele trata da invenção do transistor eletrônico, de como a própria relação com o tempo se modifica ao longo deste processo. O pesquisador talvez se entusiasme demais com a história das ferrovias, navios, correio, telégrafos, telefones e radiotelegrafia, esmiuçando detalhes que muitas vezes distanciam o leitor do objetivo principal do autor: relacionar estas novas máquinas e sistemas com a própria mídia.

Os dois últimos capítulos do livro são o filé mignon do trabalho dos dois historiadores, por estarem mais próximos do leitor na sua viagem no tempo – abordam os séculos 19 e 20 — e por dialogarem com autores fundamentais para a discussão sobre a indústria cultural e os meios de comunicação de massa, tendo em mente o acesso à informação e à melhoria da educação. Isso sem deixar de lado o poder destes meios e o seu papel na formação da opinião pública. Não por acaso, os autores citam uma fala de uma personagem do romance Coningsby, de Bejamin Disraeli, que afirma: ‘Deus fez o homem à sua própria imagem, mas a do público é feita pelos jornais.’

Tanto Burke quanto Briggs são cuidadosos ao se referirem à influência dos meios de comunicação de massa sobre os indivíduos. Eles apontam para o exagero da perspectiva dos pensadores da Escola de Frankfurt que demonizam a mídia, mas não negligenciam sua força. E, mesmo que rapidamente, os autores lembram de O público e a multidão, obra de Gabriel Tarde, hoje ausente das discussões e trabalhos sobre mídia.

O último capítulo intitulado ‘Convergência’ trata da tecnologia e traz uma história do computador, que, mesmo breve, é importante. Busca, ainda, sistematizar a discussão sobre a internet, a introdução do cabo nos sistemas televisivos e o avanço tecnológico que significou o computador de uso pessoal. Briggs não se esquece da dimensão do lazer, abordando os jogos e programas de diversão. Também não se deixa fascinar pela tecnologia, chamando a atenção para a questão do conteúdo das novas mídias, muitas vezes deixada de lado pelo entusiastas destas novidades.

Burke e Briggs finalizam a obra, que tem tudo para se tornar uma referência para estudiosos do tema, ressaltando que não houve um caminho único de desenvolvimento e que a principal característica dos fenômenos estudados é a complexidade. Complexidade que a aponta para a idéia de realimentação presente nas ciberviagens, mas que não pode, nem deve, ser exclusiva delas. Afinal, como salientam os autores, vivemos em um mundo onde há mais mediação do que em qualquer outro momento da história.’



MINORIDADE CRÍTICA
Fernanda Buarque de Hollanda

‘O nascimento da crítica’, copyright Jornal do Brasil, 12/06/04

‘Minoridade crítica: A ópera e o teatro nos folhetins da corte, Luís Antônio Giron, Ediouro, 416 páginas, R$ 49

Machado de Assis, José de Alencar e Gonçalves Dias são nomes que remetem diretamente o leitor a obras consagradas da literatura nacional. O valor literário inquestionável de seus romances e poemas leva a crer que a produção desses autores foi marcada desde o início por um merecido reconhecimento. Mas nem sempre foi assim. Pertencentes a geração pioneira de críticos musicais brasileiros, esses escritores, assim como outros jornalistas, sofreram preconceito por produzirem artigos considerados superficiais, relegados aos rodapés das publicações da imprensa nacional.

O preconceito e o desinteresse por parte da imprensa e do mercado editorial – mesmo a publicação das obras completas de autores como Gonçalves Dias desprezou muitos desses artigos – já podem ser considerados retaliados. No livro Minoridade crítica, o renomado crítico musical Luís Antônio Giron analisa o trabalho de seus colegas mais antigos, os autores de crônicas sobre óperas e espetáculos musicais realizados no período de 1826 a 1861, no Rio de Janeiro.

Giron demonstra que mesmo se tratando de uma atividade descompromissada, realizada por diletantes e não por profissionais com um conhecimento amplo sobre arte, a crítica produzida naquele período teve grande importância para a memória e para o progresso musical.

Além da importância para o desenvolvimento artístico, ao tocar em assuntos tão supérfluos quanto os belos ornamentos da coroa utilizada pela cantora lírica Rosine Stolz, durante sua apresentação musical, e tão importantes quanto o surgimento de um compositor lírico brasileiro, Carlos Gomes, autor do musical Il Guarany, as crônicas retrataram os costumes, hábitos e do pensamento da sociedade brasileira pós-colonial.

Era nos folhetins – termo então utilizado para publicações dedicadas às críticas musicais – que os articulistas expressavam suas posições estéticas e políticas. Na defesa ou na crítica de determinada prima-dona, os folhetinistas revelavam posturas nacionalistas ou colonialistas, por exemplo.

Semelhante a seus antigos colegas, que se utilizavam de temas e textos ‘menores’ e realizaram alguns dos documentos mais significativos da história cultural brasileira, o autor de Minoridade crítica faz de seu livro um importante estudo da atividade crítica e do surgimento dos cadernos culturais no Brasil a partir de um material menosprezado pela historiografia musical. Originalmente uma dissertação em musicologia histórica, apresentada em 1999 à Escola de Artes e Comunicações da USP, a obra de Giron é bem-sucedida em revisitar e revalorizar as crônicas musicais produzidas entre a Independência e o Segundo Reinado do Brasil.

O mérito de pesquisador, analista e intérprete do conteúdo dos folhetins é acrescido ao grande potencial de organizador do autor de Minoridade. A seleção e a publicação da antologia de críticas, que serviram de base para a realização da dissertação, permitem ao leitor acompanhar mais de perto a evolução estilística dessas críticas e entrar em contato com os primeiros cadernos culturais, uma novidade no jornalismo daquela época. A inclusão da antologia também possibilita saciar a curiosidade em relação aos primeiros exemplares da produção literária de autores bastante conhecidos, como o dramaturgo Martins Pena.

Divididas em sete períodos dentro da fase analisada, as críticas publicadas revelam a inexistência de um padrão comum, o que proporcionou uma grande diversidade de gêneros textuais, que assumiram formas de resenha, ensaio, crônica e afins. Uma liberdade gozada por seus escritores que só poderia ocorrer mesmo no período inicial de consolidação de uma nova atividade, de um novo estilo jornalístico, como a crítica musical.

É justamente nessa liberdade que se pode constatar a habilidade e o talento peculiar dos folhetinistas. Seja na capacidade de Machado de Assis de resistir ao estilo borboleteante de seus colegas, buscando crônicas mais sintéticas, ou por outro lado, na generalidade descritiva do texto de José de Alencar. Em ambos, o leitor pode verificar um prenúncio estilístico de suas consagradas obras.

Além de apresentar uma rica antologia de textos, o livro traz ainda uma seleção iconográfica interessante, com fotos do escritor Gonçalves Dias e da cantora lírica Rosine Stoltz, caricaturas sobre o universo musical e imagens de alguns folhetins. Esse recurso complementa a ampla contextualização presente na pesquisa do autor.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Isabel Travancas

Por lgarcia em 17/07/2002 na edição 181


MÍDIA / CRIANÇAS


"Investigação sobre a mídia e as crianças", copyright Jornal do Brasil, 13/7/02

"A CRIANÇA E A MÍDIA – Cecília von Feilitzen e Ulla Carlsson (organizadoras) Cortez, 552 páginas

Convidar o Lobo Mau e a Chapeuzinho Vermelho para conversar na mesma sala pode ser uma imagem ilustrativa da idéia de reunir criança e mídia em um livro. A indústria cultural e a mídia em particular têm sido vistas como vilãs da modernidade, o verdadeiro ?bicho-papão? das sociedades modernas, desde os trabalhos da Escola de Frankfurt, principalmente a obra de Theodor Adorno. A imagem da mídia como terrivelmente poderosa e perniciosa ainda está presente em análises e reflexões da atualidade. Mas o livro A criança e a mídia, organizado pela coordenadora da Câmara Internacional da Unesco para Crianças, Cecília von Feilitzen, e por sua diretora, Ulla Carlsson, está na contramão dessa corrente. O livro mostra o quanto os meios de comunicação estão presentes no nosso planeta – é difícil imaginar algum habitante da Terra que não seja de alguma forma e em algum momento seu receptor – e como eles são extremamente sedutores para crianças e jovens.

As educadoras não se iludem em achar que eles não são poderosos ou influenciam na formação das gerações futuras. Assim como não acreditam ser possível entender tais veículos como entidades separadas ou fora da sociedade. Eles são parte dela e devem ser compreendidos como um espaço privilegiado de produções simbólicas. Com esta publicação, as autoras buscam promover uma ampla discussão sobre a atuação e o poder da mídia, por meio de experiências e perspectivas das mais variadas regiões do mundo.

A obra é o resultado dos trabalhos realizados em 1999 pela Câmara Internacional da Unesco para Crianças com o objetivo de estimular programas que combatam a violência nos veículos de comunicação. Em março de 1998 foi editado o primeiro livro da entidade. Os artigos relatavam o que se aprendera sobre as crianças e a violência na mídia depois de décadas de estudo.

***


"A criança e os jogos da mídia", copyright Jornal do Brasil, 13/7/02

"Trata-se, portanto, de um livro de grandes dimensões em muitos aspectos. Inspirado num desejo utópico de transformar a realidade em diversas localidades, descreve a participação infantil e o que é denominado ?educação para mídia?. Esta expressão variável de país para país significa uma educação que ajude a compreender a mídia, assim como desperte a consciência crítica das crianças desde cedo. Esta proposta pedagógica deve ser entendida como interdisciplinar, na qual interagem a família, a escola e a mídia. Um de seus objetivos é integrá-la como parte obrigatória do sistema educacional.

A criança e a mídia reúne 39 artigos de 45 autores de profissões diversas, de 26 países, e traz uma diversidade de contribuições para a discussão da problemática relação da criança e do jovem com os meios de comunicação. Para isso, von Feilitzen e Carlsson dividiram o livro em seis partes. A primeira delas aborda o uso da televisão, do jornal, da rádio e da internet pelo público infantil e em três textos são analisados os dados estatísticos de 23 países, sobre o número de horas que uma criança assiste à televisão, assim como aos seus programas prediletos.

A imagem da criança na mídia é o tema da segunda parte e aponta para a estereotipização da criança, tanto na publicidade quanto no jornalismo. Percebemos que do Paquistão aos Estados Unidos as representações são as mesmas. As crianças são assunto dos jornais e merecem atenção em função de crimes e violência, sejam atos cometidos por elas ou contra elas. Na publicidade, elas surgem associadas a sentimentos ?puros? e funcionam como um apelo da inocência, como bem demonstrou Leeia Rao, diretora do Instituto de Comunicação de Manipal, em ?Advogados de uma nova sociedade de consumo: as crianças nos comerciais de TV?.

?A criança e a mídia no Paquistão? é o tema do texto de Masroor Mohsin Gilani, no qual o coordenador de mídia da Sociedade para Proteção aos Direitos da Criança discorre sobre a falta de comunicação entre a mídia e seu público, não apenas infantil. No Paquistão, onde o governo monopoliza a mídia eletrônica e permite que a imprensa desfrute de liberdade, o principal assunto dos meios de comunicação é o trabalho infantil. Tema polêmico na medida em que o governo local procura minimizar o problema, acusando a imprensa de explorá-lo sensacionalisticamente.

A terceira etapa do conjunto de trabalhos apresenta as inúmeras experiências e práticas de educação para mídia no Canadá, na África do Sul, na Europa, na América Latina, na Índia. É neste momento que o livro cresce, ao mostrar como o desejo de transformação e a busca da utopia de centenas de professores, pedagogos, jornalistas e crianças não foram em vão. São inúmeros os exemplos de Norte a Sul do planeta.

As histórias são as mais diversas e criativas e só reforçam a idéia de que a mídia precisa ser mais bem explorada e entendida como produtora de significados. Fica evidente o quão interessadas estão as crianças nesta experiência, como se vê nos artigos ?Educação para a mídia no Canadá?, de N. Andersen, B. Duncan e J.J. Pungente; ?A educação para a mídia na Europa?, de B. Tuffe; e ?O cenário da mídia em mudança na Índia?, de K. J. Kumar. Vale lembrar que o Brasil não foi esquecido e um dos seus representantes é o coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da ECA-USP, Ismar de Oliveira Soares.

Mas é ?A participação infantil na mídia?, tema da quarta parte, a mais interessante. Ao longo de 21 artigos tomamos conhecimento da riqueza e da diversidade das experiências envolvendo crianças do outro lado da cena. Não mais como leitores ou telespectadores passivos e submissos, e sim como produtores inventivos e engajados em apresentar uma revista mural na Índia, um programa de rádio em Burkina Faso, uma revista infantil na Tanzânia, vídeos no Japão e filmes de animação na Suécia.

Fica claro, após a descrição dos projetos de integração das crianças com a mídia, como a criação do Dia Internacional de Rádio e TV da Criança pela Unicef, em 1992, desempenhou um papel fundamental. Hoje, no segundo domingo de dezembro de cada ano, diversos países no mundo permitem que crianças se sentem na frente de microfones, manejem câmeras de vídeo, montem cenários de estúdios e transmitam notícias ao vivo na televisão.

E é nesta pedagogia de inserção da criança na mídia, na sua participação como produtora de notícias e entretenimento, que este enorme grupo de educadores acredita. Para desenvolver uma postura crítica em relação ao que assistem e consomem, mais do que analisá-los ou discuti-los em sala de aula, é preciso que estes jornalistas mirins possam tomar a frente e se fazer presentes e ouvidos. Já que uma das principais queixas das crianças é que elas não são ouvidas, são esquecidas.

O livro se completa com uma reunião de declarações e resoluções internacionais e nacionais que tratam da relação da criança com os meios de comunicação, enfatizando os direitos deste público que precisa ser visto como importante e especial, e um ?mapa? de associações preocupadas com as crianças em todo mundo, além de endereços na internet para serem acessados pelos jovens internautas que dominem a língua inglesa.

A criança e a mídia é uma obra de peso sobre o assunto
e, ainda que se apresente em alguns aspectos desigual, se destina a um público
bastante amplo como educadores, psicólogos, professores, jornalistas,
publicitários e estudiosos da comunicação e, principalmente,
para pais e filhos. Afinal, é fruto do trabalho de quem leva a criança
a sério."

 


"Criança engorda audiência de atrações impróprias", copyright O Estado de S. Paulo, 11/7/02

"A Rede Globo sabia que o Big Brother Brasil era um programa de grande audiência infantil quando levou ao ar, no dia 10 de junho, as cenas veladas de sexo entre os participantes Jefferson e Tarciana. Uma pesquisa realizada dois meses antes, em abril, pelo Ibope Telereport PNT (empresa do grupo Ibope) tinha revelado que o Big Brother é o programa mais visto entre crianças de 4 a 11 anos de ambos os sexos. A pesquisa listou os 30 programas de maior audiência nesta faixa etária. A Globo produz os 19 mais assistidos.

O 20.? programa na preferência infantil é o similar Casa dos Artistas, do SBT.

A pesquisa do Ibope foi usada pela emissora em uma peça publicitária veiculada em jornal. O levantamento mostra que da audiência total do Big Brother, 22,4% é formada por crianças. O Ministério da Justiça recomenda o BBB como um programa próprio para maiores de 16 anos. A grande audiência infantil, porém, aumenta a responsabilidade da emissora na edição do conteúdo exibido.

Outros programas da Globo, igualmente recomendados para o público adulto pelo Ministério da Justiça, também figuram entre os preferidos pelas crianças, de acordo com o levantamento do Ibope. O humorístico Casseta e Planeta, por exemplo, aparece em sétimo lugar, e o policial Linha Direta, é citado na nona posição.

O diretor da Central Globo de Comunicação, Luiz Erlanger, usa a recomendação do Ministério da Justiça para justificar a edição das cenas de sexo sob o edredon entre Jefferson e Tarciana em um programa de grande audiência infantil. ?Esses programas vão ao ar em horários ainda mais tardios do que os que são sugeridos pela classificação do Ministério da Justiça?, diz.

Erlanger reconhece que a cena em questão foi exibida de forma imprópria, mas atribui responsabilidade aos pais pelo controle dos programas vistos pelos filhos.

?Antes mesmo de a Central Globo de Qualidade registrar a primeira reclamação quanto a esse caso, a Marluce (Dias da Silva, diretora-geral da Rede Globo) se reuniu com a direção do programa e demonstrou sua insatisfação quanto à edição das cenas e isso não se repetirá mais?, diz ele. ?Mas com relação ao fato de crianças acompanharem o programa, o hábito delas é que é inadequado para a idade. A responsabilidade da emissora é cuidar para que a programação seja adequada para o horário, assim como a da famílias é zelar para que suas crianças assistam TV, estudem, durmam, etc. em horário adequado?, destaca.

?É muito comum a gente ver as crianças envolvidas, observando tudo?, lembra a psicopedagoga e especialista em educação infantil Orly Zucatto Mantovani de Assis, da Faculdade de Educação da Unicamp. Para ela, o conteúdo da maioria dos programas é realmente inadequado, mas é muito difícil se colocar contra tudo isso. A solução, segundo Orly, é a seguinte: ?Enquanto não se tem uma sociedade que exige que a mídia colabore com a moralidade, os pais precisam chamar para si a responsabilidade.? Para ela, deixar que a televisão assuma a função de babá significa expor as crianças a toda sorte de programação. ?É fundamental que a família se responsabilize em selecionar os programas que as crianças assistem.?

O ideal em relação à alfabetização televisiva, segundo ela, seria um adulto acompanhar tudo o que a criança assiste, discutir e conversar sobre o que ela está vendo. ?O que programas como Big Brother e Casa dos Artistas estão trazendo para o benefício das crianças??, questiona Orly. Outra preocupação é em relação às chamadas para os programas da noite, feitas a qualquer hora do dia, e que criam uma expectativa nas crianças. Orly dá como exemplo o policial Linha Direta, entre outros, que não são apropriados para elas.

A classificação dos programas é feita com base nas sinopses e leva em conta conteúdos que tenham cenas de violência, drogas e família. Tendo em vista esses valores, os programas são classificados por faixa de horário. O secretário nacional de Justiça, João Benedicto de Azevedo Marques, acredita que a classificação está dando resultado. Ele cita como exemplo o apresentador Ratinho, do SBT. ?Vi uma entrevista em que ele reconhece que os ?puxões de orelha? que recebeu colaboraram para que seu programa melhorasse.?

Diante da tela, o público se vê limitado. ?O telespectador é uma figura praticamente passiva diante da televisão. Não tem direitos, meios de se comunicar para mostrar o seu desconforto, sua discordância e fazer um controle da qualidade?, afirma Marques. Para reverter esse quadro, o governo propôs às emissoras a criação do ombudsman, um profissional que se encarregaria de fazer a ponte entre a emissora e o público.

O secretário já se reuniu com as emissoras, que prometeram estudar a proposta. ?Estamos estabelecendo um diálogo adulto. Pretendemos trabalhar numa linha de parceria e não na linha da imposição. É mais ou menos o que foi o Código de Defesa do Consumidor, que teve muita resistência, mas que hoje é algo vitorioso. Queremos valorizar o cidadão e dar o direito a ele de opinar. A idéia é que as emissoras criem um programa de uns 5 minutos para ser o momento do telespectador?, diz."

***


"Psicóloga diz que desligar o aparelho não é a solução", copyright O Estado de S. Paulo 11/7/02

"A maioria dos pais, embora se preocupe com o que seus filhos assistem na TV, não questionam ou mesmo não sabem como proceder efetivamente em relação aos assuntos ou programas apresentados. A conclusão é da mestre em psicologia educacional pela Faculdade de Educação da Unicamp, Ester Cecília Fernandes Baptistella. Segundo ela, para algumas famílias, a tarefa de educar as crianças para o uso da TV se resume a proibi-las de assistir. ?Mais que proibir, é necessário discutir e refletir a televisão enquanto fenômeno social?, recomenda a psicóloga, que dá algumas dicas de cuidados básicos a ser tomados pelos pais.

Limite o tempo de uso – ?Quando as crianças ficam muito tempo assistindo à televisão, deixam de realizar outras atividades importantes ao seu desenvolvimento, como brincar, conversar com outras crianças, exercitar-se, etc. Incentive-as a participar dessas atividades e, se possível, acompanhe-as. O ideal é que as crianças assistam no máximo de 2 a 3 horas diárias de programação, dando preferência a programas específicos de sua faixa etária.?

Conheça o programa – ?Pesquisas indicam que a maioria das crianças assistem programação imprópria para sua idade, com inúmeras cenas de sexo e violência. Saber dizer não também é um cuidado. Nem toda programação é indicada para as crianças, sobretudo as que apresentam formas violentas de resolução de conflitos. É importante planejar com as crianças o que assistir na TV e esclarecer o motivo da proibição. Lembre-se: a TV não é troféu, recompensa nem babá eletrônica.?

Ajude a criança a expressar opinião – ?Esta é uma tarefa difícil que deve ser trabalhada tanto na família quanto na escola. O diálogo constitui-se no fator crucial para o exercício de relações pautadas no respeito mútuo e na cooperação. É importante que as crianças aprendam cedo a exercer o direito de falar sobre o que pensam sem que suas reclamações sejam ouvidas e entendidas como queixas ou lamento. Além do mais, a criança deve lidar com as situações da TV e da mídia em geral, para poder refletir sobre ela.?"

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"Programação da tarde vai além do permitido", copyright O Estado de S. Paulo, 11/7/02

"Quem dedicar alguns dias para observar o conteúdo da TV aberta pode ficar espantado. Em plena tarde, zapeando o controle-remoto entre os dias 17 de junho e 1.? de julho, foi possível flagrar algumas cenas mais apimentadas do que a sessão velada de sexo do Big Brother.

Eram pouco mais de 14 horas do dia 19 quando o programa Note e Anote, da Record, mostrou os pais de Jefferson, protagonista da cena de sexo com Tarciana, no Big Brother, discutindo a vida amorosa do filho. Uma equipe da emissora entra ao vivo do Viaduto do Chá, região central de São Paulo. Os entrevistados classificam as cenas como um atentado à família brasileira.

Mas uma entrevistada defende Jefferson: ?Ele comeu porque ela deu.? É uma frase imprópria para ser reproduzida nesta reportagem, ainda mais naquela horário da TV…

A direção da emissora comenta o caso enviando o seguinte texto ao Estado:

?Este é o risco que uma entrada ao vivo corre. Como neste caso, se tratava de um ?povo-fala?, ou seja, respostas rápidas de pessoas que passam na rua, o risco é maior. É preciso destacar que a Record tem uma das maiores programações transmitidas ao vivo (mais de 80%) e casos como o citado são extremamente raros. ? Outro programa vespertino, Hora da Verdade, da Bandeirantes, coloca frente a frente pessoas comuns. A apresentadora é Márcia Goldschmidt. Um exemplo: o drama vivido por um rapaz de 18 anos que quer revelar ao pai que é homossexual, apresentado na tarde do dia 20. Enquanto várias campanhas pregam o fim do preconceito, o programa mostra o pai expulsando o filho de casa e dizendo que nunca vai perdoá-lo.

Outro drama mostrado pelo programa, no dia 26, foi o de Amanda, de 13 anos, grávida de um garoto de 14. ?É criança fazendo criança?, define a apresentadora. Márcia pressiona a menina: ?Quem te falou que era bom ter relações sexuais?? Diante da negativa do garoto em assumir o filho, uma participante da platéia questiona: ?Você acha que mulher é depósito de esperma?? Amanda desabafa, diante da exposição pública: ?Estou me sentindo um lixo.?

Para a direção da Bandeirantes, que respondeu por e-mail as perguntas encaminhadas à sua Assessoria de Imprensa, as reações da platéia não são previsíveis, já que o programa é ao vivo. ?A platéia é orientada a colocar-se de maneira adequada ao horário, mas a Band preserva a liberdade de expressão das pessoas. Trata-se de um programa ao vivo e, por isso, nem sempre é possível impedir uma manifestação infeliz. Mas são casos raros, absolutamente isolados e representam uma exceção. A Band tem critérios rigorosos no controle de tudo o que vai ao ar e todos os programas seguem o Código de Ética da emissora. Hora da Verdade trata essencialmente da realidade, que muitas vezes é dura, mas deve ser mostrada?, justifica a emissora, por meio de sua Assessoria de Imprensa.

A global Sessão da Tarde não inclui em sua grade do horário vespertino apenas filmes como o inocente Olha Quem Está Falando. O filme Ela É o Diabo, exibido no dia 18, mostra um pai de família que abandona sua esposa e filhos e vive tórridos momentos de amor com sua milionária amante. ?A escolha dos filmes é da própria emissora, mas dentro da classificação do Ministério da Justiça?, diz Luiz Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação.

A realidade é nua e crua, mas a ficção não fica atrás na exposição gratuita do sexo. A trama global Coração de Estudante, exibida às 18 horas, traz o garanhão Nélio (Vladimir Britcha) mostrando seus atributos físicos, o que significa desfilar por vários cenários apenas de cueca. Em um capítulo de Desejos de Mulher, às 19 horas, Júlia (Glória Pires) usa um palavreado vulgar: ?Por que ele estava se sentindo sozinho podia se esfregar com aquela biscate?? As novelas mexicanas, no SBT, também não ficam longe. O diretor Mauro Lissoni garante: ?Sempre que cenas ou termos fora de contexto fogem aos padrões do aceitável, procedemos a supressão, por meio da edição dos capítulos.?"

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