Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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ENTRE ASPAS >

IstoÉ

17/10/2006 na edição 403

JORNALISMO LITERÁRIO
Luiz Chagas

Falando de perto

‘Instalado no cargo de editor da octogenária revista americana The New Yorker, Robert Remnick, 48 anos, levou a publicação à marca de um milhão de exemplares vendidos sem alterar-lhe o aspecto sisudo e as reportagens intermináveis. Quinto editor de uma linhagem iniciada por Harold Ross, Remnick é o primeiro repórter a galgar o cobiçado posto. William Shawn, o sucessor de Ross, nunca assinou uma matéria nos 35 anos em que esteve à frente da revista, nem sequer os 21 obituários de colaboradores que escreveu. Ficou célebre ao dizer para um deles que não lhe modificara o texto. ‘Apenas o tornei mais seu’, disparou.

Remnick, que ganhou o Prêmio Pulitzer em 1994, vem de outro mundo. Dentro da floresta (Companhia das Letras, 576 págs., R$ 62), com posfácio de João Moreira Salles, reúne reportagens do jornalista para a New Yorker, na qual ingressou em 1992. Bastaram-lhe três páginas para descrever a decadência de Mike Tyson, um café da manhã para falar sobre a amargura do então vice-presidente dos EUA, Al Gore, ao perder para George Bush em 2000, e algumas horas para detalhar a rotina do misantropo escritor Philip Roth. Tony Blair, o primeiro-ministro britânico, foi perfilado a partir de um episódio ficcional que Remnick leu em um livro. O jornalista admite que a maior dificuldade para os repórteres de celebridades é lidar com pessoas evasivas, na esperança de que cometam um deslize. Só que tais pessoas tomam todas as providências para evitar que isso aconteça.’



ENTREVISTA / JOÃO UBALDO
Eliane Lobato

‘Não agüento a cara deles’

‘A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, 65 anos, ainda não sabe o que vai fazer quando estiver frente a frente com a urna eletrônica. Quem lê seus artigos sabe que ele tornou público o seu descontentamento com o presidente Lula, a quem ajudou a eleger em 2002. ‘Não posso negar minha desconfiança de que Lula não é tão verdadeiro quanto quer fazer parecer’, diz ele. João Ubaldo tampouco considera a possibilidade de votar no tucano Geraldo Alckmin por total falta de afinidade ideológica. A saída óbvia seria o voto nulo, mas o escritor reluta: ‘Tenho espírito cívico.’ Esse desencanto com o quadro político brasileiro é a tônica de seu novo livro, A gente se acostuma a tudo (Nova Fronteira), que reúne crônicas publicadas nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. Nessa entrevista a ISTOÉ, João Ubaldo fala de política, realça a angústia de enfrentar diariamente a criminalidade carioca e revela como se livrou do alcoolismo: ‘Deixei de beber por causa da reza.’

ISTOÉ – Já decidiu em quem vai votar para presidente da República?

João Ubaldo Ribeiro – Eu não tenho em quem votar. Estou numa situação que me deixa exasperado porque tenho senso cívico. Minha posição é pública e devo dizer que agora estão inventando a moda de que Lula é um voto de esquerda. Esse pessoal que vive falando de esquerda pertence a uma área meio indefinida dos intelectuais, não faz idéia do que se seja isso.

ISTOE – Por quê?

João Ubaldo – Em primeiro lugar, Lula disse que não é de esquerda. Em segundo, o que ele fez de esquerda em seu governo? Aí vem uma gente que se acha cheia de razão e fala: você está por fora, você não sabe do plano que está montado para um segundo governo. Ninguém esculhambou mais Fernando Henrique do que eu. Agora, vamos botar o dedo em certas feridas. Não estou julgando ninguém e muito menos condenando. Tampouco estou fazendo acusações. Mas tem muita gente que armou uma boquinha de subsídio e financiamentos com o PT e não quer que o governo mude.

ISTOÉ – O que o faz criticar o governo Lula tão duramente em suas crônicas?

João Ubaldo – Eu estou, como a maioria dos brasileiros, com uma enorme frustração em relação ao candidato em quem eu votei. No começo do governo, eu apoiei e defendi Lula. Encontrava gente na rua querendo que eu o esculhambasse e dizia: é muito cedo, vamos dar uma oportunidade ao homem. Defendi Lula até na Europa. O problema não foi somente a corrupção não, foram todas as grandes bobagens e erros do governo.

ISTOÉ – Como os seus leitores reagem?

João Ubaldo – Tenho recebido e-mails dizendo que Lula fez um governo extraordinário. Eu fico de queixo caído quando leio isso. Uns me chamam de reacionário. Só não podem dizer, porque a documentação é púbica, que eu elogiei Fernando Henrique. Cheguei a escrever que se ele (Fernando Henrique) entrasse na academia (Academia Brasileira de Letras) eu não ia mais lá. Não sou o único que tem razão no mundo, posso estar inteiramente sem razão. Mas esse negócio de dizer que a opção de esquerda é Lula, ora vá para a…

ISTOÉ – O sr. viu o debate?

João Ubaldo – Eu me recusei. Não agüento ver a cara deles.

ISTOÉ – Não teve vontade de pelo menos conhecer a plataforma do candidato Geraldo Alckmin?

João Ubaldo – Não quis ver porque ele não tem.

ISTOÉ – O que esperava de Lula?

João Ubaldo – Ele foi um presidente constitucionalmente eleito, não assumiu o poder à testa de uma revolução. Então, o que ele pode fazer é muito limitado. Inclusive, disse isso quando era hora de defendê-lo. O que vocês querem que ele faça? Ele não é um ditador, foi eleito e tem de obedecer aos limites constitucionais, que são difíceis. Mas o que não se esperava foi o que aconteceu durante esse governo todo.

ISTOÉ – Refere-se às acusações de corrupção?

João Ubaldo – Eu não comecei as críticas nem pela corrupção. Foi pelo próprio governo dele, depois pintou a corrupção e eu critiquei também. O que eu esperava de Lula era, em primeiro lugar, um programa político, um programa de ação, que não há. O País não tem objetivo, é uma coisa pintando aqui, outra ali. Não existe nem projeto e nem sequer um slogan que motive, como ‘cinqüenta anos em cinco’ ou como ‘a nova fronteira’, como houve lá nos Estados Unidos.

ISTOÉ – Mas o que o sr. esperava de fato?

João Ubaldo – Esperava que Lula partisse para um combate duro e esperava votar nele na reeleição. Esse combate duro seria por uma reforma agrária decente, uma reforma tributária decente, uma reforma administrativa decente. Ele fala da educação, mas vá ao Fundão (onde se localiza a Universidade Federal do Rio de Janeiro), de onde minha filha graças a Deus saiu. Minha filha, no mesmo lugar onde circula estuprador, assaltante, matador. Assim como a Saúde, que Lula diz que melhorou. Ora, vamos botar um limite nessa conversa, eu não vou ficar ouvindo isso.

ISTOÉ – O sr. nem chegou a considerar a possibilidade de votar no candidato do PSDB?

João Ubaldo – É uma coisa difícil, para mim, votar no Alckmin. Não por ele pessoalmente, que nem conheço. Ele não me representa. Eu não tenho candidato, eu não tenho em quem votar. Eu e milhões de brasileiros.

ISTOÉ – O sr. comemorou a derrota de Antônio Carlos Magalhães na Bahia?

João Ubaldo – Não comemoro a derrota dele porque acho que nada vai mudar. Acredito que o novo governador da Bahia não vai se dar bem porque não tem vivência baiana e não vai pegar pela frente um adversariozinho qualquer. A verdade é que o jogo vai ser duro para ele na Bahia e ele vai ter dificuldade de governar. Já coloquei em Antônio Carlos o apelido de ‘Asfalt Man’, no tempo em que ele andou asfaltando a Bahia toda, já o esculhambei na Folha de S.Paulo. Politicamente, sempre estive na oposição. Mas comemorar o quê? O que significa o Antônio Carlos ser derrotado?

ISTOÉ – Em seu último livro o sr. fala da angústia pelo aumento da criminalidade.

João Ubaldo – Eu sinto a insegurança que todo o morador no Rio de Janeiro também sente. Vivo aqui, tenho filha carioca, não quero sair do Leblon (zona sul), fui muito bem acolhido no Rio. Mas já aconteceu, em certa área da cidade, que um sujeito estava em seu apartamento e entrou lá uma figura dizendo: vai saindo que eu quero esse apartamento. O cara espantado: mas eu comprei esse apartamento! E a figura: saia logo, que eu não tô com vontade de atirar hoje. O cara saiu. Isso aconteceu, saiu no jornal. O que falta acontecer? Agora, o assaltante passou a ser visto como um personagem de esquerda.

ISTOÉ – Quem criou esse ‘bandido de esquerda’?

João Ubaldo – A sociedade irresponsável que nasceu da conjunção da psicanálise e da sociologia de boteco. Não se ouve mais falar que alguém seja ruim, ninguém é responsável por seus atos, todo mundo é condicionado a fazer alguma coisa.

ISTOÉ – Explique melhor.

João Ubaldo – Se você é evangélico, foi o demônio que se apossou de você. Outra solução: o cara é fruto de uma formação horrorosa, desde pequeno cresceu vendo crimes. Ninguém tem culpa de nada. Se o cara é rico, dizem que o pai dele era tirânico e pão-duro, deu porrada, a mãe era muito fria: um menino traumatizado. Então, não há mais culpados. Isso se deve não à psicanálise, mas à vulgarização da psicanálise. E assim explicam qualquer coisa. Há também o modelo sociológico. O nosso presidente nasceu de família pobre e por essa corrente ele seria bandidão ou todos os moradores da Rocinha seriam bandidos.

ISTOÉ – Isso é resultado do pensamento politicamente correto?

João Ubaldo – Há poucos dias, uma velhota, e chamo assim à vontade porque estou na idade dela, reagiu a um assalto no Rio. Ela tinha uma arma. Houve uma movimentação de solidariedade com o ladrão e indignação com a pobre senhora que, reunindo toda a coragem, cometeu um ato ilegal. Tirou uma arma que não podia portar e deu um tiro na mão do assaltante. Coitado do infeliz do assaltante: foi vítima. A senhora foi presa.

ISTOÉ – O sr. parece bastante pessimista…

João Ubaldo – Sou realista. Eu não creio mais no futuro da humanidade como espécie. As evidências estão começando a se acumular. Furacão no Brasil, ciclone, esse tempo que está fazendo, o derretimento das calotas polares. A humanidade é uma espécie estúpida que se mata desde as cavernas. Só que, agora, com técnicas mais eficientes. Não acredito na sobrevivência da humanidade, por conseqüência, não acredito na sobrevivência do Brasil.

ISTOÉ – Mas o fato de escrever com indignação para criticar o que acha errado não revela que o sr. ainda tem esperança de que haja uma saída?

João Ubaldo – Sem um fiapo de esperança, chegamos à mesma situação do suicida. Evidentemente, eu vejo esse fiapo. Mas não vou ficar fazendo ressalva o tempo todo.

ISTOÉ – É verdade que o sr. se livrou do alcoolismo graças à fé religiosa?

João Ubaldo – Sou cristão, mas não me considero católico. Tinha esse problema, de alcoolismo. Um dia, e isso é coisa muito íntima, depois de rezar, eu amanheci sem sintoma da pancreatite que tive e quase me matou.

ISTOÉ – Como foi isso?

João Ubaldo – Depois da doença, continuei a beber. Voltei a sentir os sintomas da pancreatite, a doença mortal da qual escapei por milagre, passei 15 dias em semi-UTI. A uma segunda vez eu não sobreviveria, certamente. Então, fazia sermões a mim mesmo. Perguntava: vou beber? E meus filhos? E minha mulher? Uma noite, eu rezei como sempre, e me veio à cabeça prometer para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que, se amanhecesse sem engulhos, eu não beberia mais. No dia seguinte à minha reza, acordei e não senti náuseas. Tomei banho e fui à banca de jornal. No caminho, tem o boteco onde eu parava. Nesse dia, esqueci de passar no boteco. Nunca mais bebi. Vivo socado dentro do meu apartamento e o único contato com o pessoal de minha faixa etária é no bar. Continuo indo ao boteco e bebo meu guaraná tranqüilamente.’



******************

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Falando de perto

‘Instalado no cargo de editor da octogenária revista americana The New Yorker, Robert Remnick, 48 anos, levou a publicação à marca de um milhão de exemplares vendidos sem alterar-lhe o aspecto sisudo e as reportagens intermináveis. Quinto editor de uma linhagem iniciada por Harold Ross, Remnick é o primeiro repórter a galgar o cobiçado posto. William Shawn, o sucessor de Ross, nunca assinou uma matéria nos 35 anos em que esteve à frente da revista, nem sequer os 21 obituários de colaboradores que escreveu. Ficou célebre ao dizer para um deles que não lhe modificara o texto. ‘Apenas o tornei mais seu’, disparou.

Remnick, que ganhou o Prêmio Pulitzer em 1994, vem de outro mundo. Dentro da floresta (Companhia das Letras, 576 págs., R$ 62), com posfácio de João Moreira Salles, reúne reportagens do jornalista para a New Yorker, na qual ingressou em 1992. Bastaram-lhe três páginas para descrever a decadência de Mike Tyson, um café da manhã para falar sobre a amargura do então vice-presidente dos EUA, Al Gore, ao perder para George Bush em 2000, e algumas horas para detalhar a rotina do misantropo escritor Philip Roth. Tony Blair, o primeiro-ministro britânico, foi perfilado a partir de um episódio ficcional que Remnick leu em um livro. O jornalista admite que a maior dificuldade para os repórteres de celebridades é lidar com pessoas evasivas, na esperança de que cometam um deslize. Só que tais pessoas tomam todas as providências para evitar que isso aconteça.’



ENTREVISTA / JOÃO UBALDO
Eliane Lobato

‘Não agüento a cara deles’

‘A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, 65 anos, ainda não sabe o que vai fazer quando estiver frente a frente com a urna eletrônica. Quem lê seus artigos sabe que ele tornou público o seu descontentamento com o presidente Lula, a quem ajudou a eleger em 2002. ‘Não posso negar minha desconfiança de que Lula não é tão verdadeiro quanto quer fazer parecer’, diz ele. João Ubaldo tampouco considera a possibilidade de votar no tucano Geraldo Alckmin por total falta de afinidade ideológica. A saída óbvia seria o voto nulo, mas o escritor reluta: ‘Tenho espírito cívico.’ Esse desencanto com o quadro político brasileiro é a tônica de seu novo livro, A gente se acostuma a tudo (Nova Fronteira), que reúne crônicas publicadas nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. Nessa entrevista a ISTOÉ, João Ubaldo fala de política, realça a angústia de enfrentar diariamente a criminalidade carioca e revela como se livrou do alcoolismo: ‘Deixei de beber por causa da reza.’

ISTOÉ – Já decidiu em quem vai votar para presidente da República?

João Ubaldo Ribeiro – Eu não tenho em quem votar. Estou numa situação que me deixa exasperado porque tenho senso cívico. Minha posição é pública e devo dizer que agora estão inventando a moda de que Lula é um voto de esquerda. Esse pessoal que vive falando de esquerda pertence a uma área meio indefinida dos intelectuais, não faz idéia do que se seja isso.

ISTOE – Por quê?

João Ubaldo – Em primeiro lugar, Lula disse que não é de esquerda. Em segundo, o que ele fez de esquerda em seu governo? Aí vem uma gente que se acha cheia de razão e fala: você está por fora, você não sabe do plano que está montado para um segundo governo. Ninguém esculhambou mais Fernando Henrique do que eu. Agora, vamos botar o dedo em certas feridas. Não estou julgando ninguém e muito menos condenando. Tampouco estou fazendo acusações. Mas tem muita gente que armou uma boquinha de subsídio e financiamentos com o PT e não quer que o governo mude.

ISTOÉ – O que o faz criticar o governo Lula tão duramente em suas crônicas?

João Ubaldo – Eu estou, como a maioria dos brasileiros, com uma enorme frustração em relação ao candidato em quem eu votei. No começo do governo, eu apoiei e defendi Lula. Encontrava gente na rua querendo que eu o esculhambasse e dizia: é muito cedo, vamos dar uma oportunidade ao homem. Defendi Lula até na Europa. O problema não foi somente a corrupção não, foram todas as grandes bobagens e erros do governo.

ISTOÉ – Como os seus leitores reagem?

João Ubaldo – Tenho recebido e-mails dizendo que Lula fez um governo extraordinário. Eu fico de queixo caído quando leio isso. Uns me chamam de reacionário. Só não podem dizer, porque a documentação é púbica, que eu elogiei Fernando Henrique. Cheguei a escrever que se ele (Fernando Henrique) entrasse na academia (Academia Brasileira de Letras) eu não ia mais lá. Não sou o único que tem razão no mundo, posso estar inteiramente sem razão. Mas esse negócio de dizer que a opção de esquerda é Lula, ora vá para a…

ISTOÉ – O sr. viu o debate?

João Ubaldo – Eu me recusei. Não agüento ver a cara deles.

ISTOÉ – Não teve vontade de pelo menos conhecer a plataforma do candidato Geraldo Alckmin?

João Ubaldo – Não quis ver porque ele não tem.

ISTOÉ – O que esperava de Lula?

João Ubaldo – Ele foi um presidente constitucionalmente eleito, não assumiu o poder à testa de uma revolução. Então, o que ele pode fazer é muito limitado. Inclusive, disse isso quando era hora de defendê-lo. O que vocês querem que ele faça? Ele não é um ditador, foi eleito e tem de obedecer aos limites constitucionais, que são difíceis. Mas o que não se esperava foi o que aconteceu durante esse governo todo.

ISTOÉ – Refere-se às acusações de corrupção?

João Ubaldo – Eu não comecei as críticas nem pela corrupção. Foi pelo próprio governo dele, depois pintou a corrupção e eu critiquei também. O que eu esperava de Lula era, em primeiro lugar, um programa político, um programa de ação, que não há. O País não tem objetivo, é uma coisa pintando aqui, outra ali. Não existe nem projeto e nem sequer um slogan que motive, como ‘cinqüenta anos em cinco’ ou como ‘a nova fronteira’, como houve lá nos Estados Unidos.

ISTOÉ – Mas o que o sr. esperava de fato?

João Ubaldo – Esperava que Lula partisse para um combate duro e esperava votar nele na reeleição. Esse combate duro seria por uma reforma agrária decente, uma reforma tributária decente, uma reforma administrativa decente. Ele fala da educação, mas vá ao Fundão (onde se localiza a Universidade Federal do Rio de Janeiro), de onde minha filha graças a Deus saiu. Minha filha, no mesmo lugar onde circula estuprador, assaltante, matador. Assim como a Saúde, que Lula diz que melhorou. Ora, vamos botar um limite nessa conversa, eu não vou ficar ouvindo isso.

ISTOÉ – O sr. nem chegou a considerar a possibilidade de votar no candidato do PSDB?

João Ubaldo – É uma coisa difícil, para mim, votar no Alckmin. Não por ele pessoalmente, que nem conheço. Ele não me representa. Eu não tenho candidato, eu não tenho em quem votar. Eu e milhões de brasileiros.

ISTOÉ – O sr. comemorou a derrota de Antônio Carlos Magalhães na Bahia?

João Ubaldo – Não comemoro a derrota dele porque acho que nada vai mudar. Acredito que o novo governador da Bahia não vai se dar bem porque não tem vivência baiana e não vai pegar pela frente um adversariozinho qualquer. A verdade é que o jogo vai ser duro para ele na Bahia e ele vai ter dificuldade de governar. Já coloquei em Antônio Carlos o apelido de ‘Asfalt Man’, no tempo em que ele andou asfaltando a Bahia toda, já o esculhambei na Folha de S.Paulo. Politicamente, sempre estive na oposição. Mas comemorar o quê? O que significa o Antônio Carlos ser derrotado?

ISTOÉ – Em seu último livro o sr. fala da angústia pelo aumento da criminalidade.

João Ubaldo – Eu sinto a insegurança que todo o morador no Rio de Janeiro também sente. Vivo aqui, tenho filha carioca, não quero sair do Leblon (zona sul), fui muito bem acolhido no Rio. Mas já aconteceu, em certa área da cidade, que um sujeito estava em seu apartamento e entrou lá uma figura dizendo: vai saindo que eu quero esse apartamento. O cara espantado: mas eu comprei esse apartamento! E a figura: saia logo, que eu não tô com vontade de atirar hoje. O cara saiu. Isso aconteceu, saiu no jornal. O que falta acontecer? Agora, o assaltante passou a ser visto como um personagem de esquerda.

ISTOÉ – Quem criou esse ‘bandido de esquerda’?

João Ubaldo – A sociedade irresponsável que nasceu da conjunção da psicanálise e da sociologia de boteco. Não se ouve mais falar que alguém seja ruim, ninguém é responsável por seus atos, todo mundo é condicionado a fazer alguma coisa.

ISTOÉ – Explique melhor.

João Ubaldo – Se você é evangélico, foi o demônio que se apossou de você. Outra solução: o cara é fruto de uma formação horrorosa, desde pequeno cresceu vendo crimes. Ninguém tem culpa de nada. Se o cara é rico, dizem que o pai dele era tirânico e pão-duro, deu porrada, a mãe era muito fria: um menino traumatizado. Então, não há mais culpados. Isso se deve não à psicanálise, mas à vulgarização da psicanálise. E assim explicam qualquer coisa. Há também o modelo sociológico. O nosso presidente nasceu de família pobre e por essa corrente ele seria bandidão ou todos os moradores da Rocinha seriam bandidos.

ISTOÉ – Isso é resultado do pensamento politicamente correto?

João Ubaldo – Há poucos dias, uma velhota, e chamo assim à vontade porque estou na idade dela, reagiu a um assalto no Rio. Ela tinha uma arma. Houve uma movimentação de solidariedade com o ladrão e indignação com a pobre senhora que, reunindo toda a coragem, cometeu um ato ilegal. Tirou uma arma que não podia portar e deu um tiro na mão do assaltante. Coitado do infeliz do assaltante: foi vítima. A senhora foi presa.

ISTOÉ – O sr. parece bastante pessimista…

João Ubaldo – Sou realista. Eu não creio mais no futuro da humanidade como espécie. As evidências estão começando a se acumular. Furacão no Brasil, ciclone, esse tempo que está fazendo, o derretimento das calotas polares. A humanidade é uma espécie estúpida que se mata desde as cavernas. Só que, agora, com técnicas mais eficientes. Não acredito na sobrevivência da humanidade, por conseqüência, não acredito na sobrevivência do Brasil.

ISTOÉ – Mas o fato de escrever com indignação para criticar o que acha errado não revela que o sr. ainda tem esperança de que haja uma saída?

João Ubaldo – Sem um fiapo de esperança, chegamos à mesma situação do suicida. Evidentemente, eu vejo esse fiapo. Mas não vou ficar fazendo ressalva o tempo todo.

ISTOÉ – É verdade que o sr. se livrou do alcoolismo graças à fé religiosa?

João Ubaldo – Sou cristão, mas não me considero católico. Tinha esse problema, de alcoolismo. Um dia, e isso é coisa muito íntima, depois de rezar, eu amanheci sem sintoma da pancreatite que tive e quase me matou.

ISTOÉ – Como foi isso?

João Ubaldo – Depois da doença, continuei a beber. Voltei a sentir os sintomas da pancreatite, a doença mortal da qual escapei por milagre, passei 15 dias em semi-UTI. A uma segunda vez eu não sobreviveria, certamente. Então, fazia sermões a mim mesmo. Perguntava: vou beber? E meus filhos? E minha mulher? Uma noite, eu rezei como sempre, e me veio à cabeça prometer para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que, se amanhecesse sem engulhos, eu não beberia mais. No dia seguinte à minha reza, acordei e não senti náuseas. Tomei banho e fui à banca de jornal. No caminho, tem o boteco onde eu parava. Nesse dia, esqueci de passar no boteco. Nunca mais bebi. Vivo socado dentro do meu apartamento e o único contato com o pessoal de minha faixa etária é no bar. Continuo indo ao boteco e bebo meu guaraná tranqüilamente.’



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