Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > INTERNET

Jairo Marques

16/11/2004 na edição 303

‘Qualquer propriedade rural ou agroindústria do país já pode ter acesso à internet rápida, esteja localizada onde estiver.

Pelo menos 3.000 fazendas já adotaram o recebimento de sinal de acesso à rede mundial por banda larga (rápida). A tecnologia ganha espaço no campo devido à diminuição dos custos e à viabilidade técnica.

Além do acesso por rádio ou cabo, é possível optar pelo uso do sistema satelital para navegar na internet a partir de uma fazenda. Essa opção, por enquanto, tem sido mais difundida entre clientes corporativos de médio e grande portes da região Sudeste.

Granjas com produção em escala, empresas de fertilizantes, usinas de açúcar e fazendas que promovem leilões de gado e outros animais estão entre os atuais usuários da internet rápida.

Essa tecnologia tem sido usada para interligar unidades, facilitar o contato com clientes e fornecedores, fazer cotações e exibir produtos, como animais que são vendidos on-line.

‘Um novo uso que as agroempresas têm feito com o acesso à internet é promover o treinamento de funcionários à distância. Um exemplo é quando uma empresa precisa difundir uma nova forma de manejo para todas as suas fazendas’, afirmou Zaima Mendes Oliveira Milazzo, analista de desenvolvimento de produtos da CTBC, operadora com sede no Triângulo Mineiro.

Antena

A expansão da internet no campo só está sendo possível devido aos avanços tecnológicos que permitem que mais usuários compartilhem um espaço no satélite. A compactação do tamanho das antenas receptoras (de até dois metros de diâmetro, em média, para 75 centímetros de diâmetro) também ajuda.

‘As grandes fazendas estão em localidades não-atendidas pelos sistemas tradicionais de acesso à internet. Mas os empresários do campo querem agilizar seus negócios, ganhar mais e ter mais informações diretamente no local da produção. A solução, então, tem sido o uso do satélite, que ficou com custo até 50% menor do que há dez anos’, diz Claudio Frugis, da Nera, uma das empresas que comercializam os equipamentos no Brasil.

Afora a antena que receberá o sinal de satélite, que pode ser mantida por uma placa de energia solar, e o modem satelital, que levará as informações para o computador ou para a rede de computadores, não há diferença na navegação em relação à conexão convencional.

O serviço para as propriedades rurais pode funcionar 24 horas, sete dias por semana, dependendo da necessidade, e tem regularidade do sinal -de acordo com os fabricantes da tecnologia- até superior ao sinal por cabo.

As empresas que exploram a tecnologia de internet via satélite negociam com o governo federal para oferecer o serviço em escolas rurais, que poderiam se integrar na rede de ensino à distância.’



Revista Reportagem

‘O dono do campo’, copyright Revista Reportagem, 31/10/04

‘A internet gira em torno de dois aparatos básicos: 1) a Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann), uma entidade sem fins lucrativos que representa governos, organizações e tratados internacionais, sediada em Marina Del Rey, na Califórnia, EUA, responsável, entre outras coisas, pela distribuição de números de Protocolo de Internet (IP) e pelo Sistema de Nomes de Domínio (Domain Name System, DNS) que traduz os números de IP em uma seqüência de letras (o nome do domínio) e permite aos usuários encontrar seus pontos de destino na rede; 2) um computador no Departamento de Comércio dos EUA que contém a ‘lista telefônica’ da internet, pela qual se pode ter acesso a qualquer outro computador ligado à rede: A Icann tem vínculo com o governo americano, sob a forma de um contrato de pesquisa que remonta aos primórdios da internet, nos anos 80.

Em setembro, em uma reunião internacional em Genebra visando a formação de um grupo de trabalho da Organização das Nações Unidas com a tarefa de propor ações para o controle e o gerenciamento da rede, a lcann anunciou por meio de um dos seus vice-presidentes, Paul Verhoef, que até novembro de 2006 pretende desvincular-se completamente do governo dos EUA. A partir de então, prestaria contas somente à comunidade global.

A teoria Bush na rede

A delegação brasileira no encontro de Genebra defendeu a desvinculação ainda mais cedo, até novembro de 2005. 0 Brasil lidera campanha por um modelo multilateral para administrar a rede e a representação do país interpretou o anúncio como um passo positivo, porém insuficiente para a efetiva democratização do controle da internet, conforme relatou o correspondente do jornal Valorem Genebra, Assis Moreira. Antecipada para 2005, a autonomia da Icann coincidiria com a próxima etapa da Cúpula Mundial da Sociedade de Informação, na Tunísia, quando 192 países examinarão o futuro da internet, a questão do software livre e outros assuntos relacionados com as novas tecnologias da informação e da comunicação. Mas o problema crucial da internet é o do comando da infra-estrutura, hoje centralizado no Departamento de Comércio dos EUA.

Lá, um computador reproduz os endereços para outros 12 servidores – nove deles nos EUA e os outros na Suécia, Inglaterra e Japão. ‘É por essa rede que se pode, inclusive, desconectar um país da rede mundial, apagar ou incluir endereços, páginas etc.’, escreveu Moreira ao informar que circulavam na reunião de Genebra cópias do diário lnternational Herald Tribune do dia 20 de setembro com a notícia de que o Pentágono bloqueara o site do federal Voting Assistance Program, que orienta eleitores americanos fora dos EUA, sob o pretexto de defendê-lo do ataque dos hackers. Essa era a explicação de um porta-voz daquele órgão do governo americano. Ou seja, o Pentágono praticava na rede mundial de computadores os exatos termos da atual política externa dos EUA, a do direito ao ‘contra-ataque’ com a simples presunção da existência de um inimigo.

O Brasil deve insistir

A notícia mostra de modo bastante claro que o controle da infra-estrutura da internet significa o controle total da rede e dá razão ao brasileiro Sérgio Amadeu, presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), que defendeu em Genebra a posição de que o sistema deve ter um controle político, sim, e o mais democrático possível. Do modo como se opera hoje a internet, o governo dos EUA tem o poder de desconectar não apenas um site, mas um país inteiro ou toda uma região do mundo, quiçá o mundo inteiro. Por essa razão o Brasil tem encarado o assunto como questão de segurança nacional e reivindica a instalação de um servidor principal na América Latina. 0 governo dos EUA resiste à proposta e a protela baseando-se em argumentos técnicos que não convencem boa parte dos especialistas e provavelmente nem a si próprio. Com certo constrangimento, os americanos já cederam alguma coisa ao concordarem em fazer e fornecer cópias dos endereços arquivados nos servidores principais – os chamados DNS root name servers -, admitindo a possibilidade de queda total da rede.

É sensato supor que a democratização do controle da infra-estrutura não se fará com um estalar dos dedos e que a autonomia da Icann é, de fato, apenas um passo nesse sentido. Um grupo de trabalho com representantes de governos, de empresas e de organizações mais independentes será nomeado pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, para coordenar o debate. 0 Brasil deve insistir na sua participação, ao lado da China, índia, África do Sul e alguns ricos como a Noruega, que defendem a ‘governança multilateral’ da internet. E será preciso fazer frente à posição hegemónica dos EUA também no que diz respeito à ‘filosofia’ de operação da rede, em que as inovações, a expansão dos serviços e recursos e a própria abrangência da internet só tem sentido em um ambiente de mercado ‘pró-negócios’ -, com pouca ou nenhuma regulamentação. Afinal, proteção da dados, segurança na rede, conteúdo, custos de interconexão e propriedade intelectual são assuntos de interesse de todos os países.’



REDE TV!
Daniel Castro

‘Banco acusa Rede TV! de má administração’, copyright Folha de S. Paulo, 13/11/04

‘Sócio da Rede TV!, o Banco Rural Investimentos está acusando a emissora de má administração em uma ação judicial que corre na 16ª Vara Cível de São Paulo.

Na ação, o banco pede para ser excluído da sociedade com Amílcare Dallevo Jr. e Marcelo de Carvalho, sócios majoritários da Rede TV!. No final de 2002, a emissora formalizou a entrada do Rural em sua composição acionária. Dívidas de R$ 50 milhões da Rede TV! com o banco foram transformadas em quotas, equivalentes na época a 9,3% da sociedade.

O banco, no entanto, tentou vender sua participação para a Midiacred, mas Dallevo e Carvalho, argumentando desconhecer essa empresa, não aceitaram. O Rural entrou então com ação judicial para ser excluído da sociedade. Já conseguiu uma liminar.

O banco afirma na Justiça que os sócios majoritários da Rede TV! constituíram uma empresa paralela (Mídia TV Comercial) para receber o faturamento da sociedade. Em nota, o Rural afirma que Dallevo e Carvalho ‘estavam administrando a TV Ômega [razão social da emissora] de forma que inviabilizaria o negócio’.

A Rede TV! retruca. Diz que ‘o banco Rural está tentando fugir de suas responsabilidades e deveres de sócio da TV Ômega’. Afirma ainda que ‘o negócio da TV Ômega é totalmente viável e está sendo excelentemente administrado, conforme se pode constatar pelos seus bons resultados’.’



TV NO CELULAR
Cidade Biz

‘Série 24 Horas terá episódios para celulares em 23 países’, copyright Cidade Biz (www.cidadebiz.ig.com.br), 12/11/04

‘A série 24 Horas, exibida no Brasil pela Fox, vai realizar epísódios exclusivos para celulares. Cada um terá duração de 60 segundos.

A nova série estará disponível para os assinantes de um novo serviço de conexão rápida oferecido pela Vodafone. Os episódios começarão a ser exibidos em janeiro na Inglaterra, data da estréia da quarta temporada da série.

Segundo o especializado Magnet, por razões contratuais entre as redes e operadoras de TVs por assinatura, vários programas americanos – como a nova ‘Battlestar Galactica’ – são exibidos antes na Inglaterra.

Os ‘mobisódios’ (corruptela ao estilo corporativo para ‘episódios móveis’ ou ‘para celular’) depois estarão disponíveis para outros 23 países através da joint venture Verizon, incluindo os Estados Unidos. É provável que a série faça parte do serviço Vodafone Live! para celulares 3G, que também contará com clipes musicais e filmes.

Recentemente as operadoras começaram a investir pesado em conteúdo streaming para manter as pessoas o maior tempo possível olhando para a tela de seus aparelhos – seja através de mensagens de texto, serviços de áudio ou minigames. O anúncio marca o início dos planos da Vodafone, que comprou mais licenças de banda pública, para oferecer serviços de conexões de alta velocidade.

Depois da Inglaterra, a Fox irá introduzir o serviço em telefones celulares de alta velocidade de outros 23 países. A série 24 Horas ficou famosa por se passar em tempo real. Cada episódio descreve uma hora na vida de seus personagens.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > AMAZÔNIA VENDIDA

Jairo Marques

Por lgarcia em 03/07/2002 na edição 179

COMÉRCIO DE TESES

"Internet expõe e expande comércio de teses", copyright Folha de S. Paulo, 1/7/02

"Uma prática que se dissemina com as ofertas feitas pela internet está comprometendo a validade dos títulos em cursos de graduação e de pós-graduação do país: o comércio de monografias, trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado e teses de doutorado.

Os ?empresários das monografias?, como são conhecidos, espalham seus anúncios pela internet. Em apenas uma pesquisa em um site de busca da rede foram encontradas mais de 200 páginas fazendo ofertas para ?facilitar? a vida do estudante que é ?muito ocupado?, ?que trabalha muito? e que não quer se ?estressar? com um trabalho acadêmico, de acordo com os próprios anúncios das páginas.

A Agência Folha fez a pesquisa para mostrar como está disseminado o mercado de monografias a partir de um caso concreto que ocorreu em Santa Catarina.

Após receber denúncia de que alguns alunos estariam encomendando trabalhos pela internet, a direção da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) determinou que os professores evitem pedir pesquisas e fiquem mais alertas aos trabalhos apresentados pelos estudantes.

A universidade também está adquirindo um programa de computador que pode rastrear dados do trabalho na rede.

?O aluno pode pegar informações na internet. É normal. Mas comprar o trabalho é inadmissível e pode ter até desdobramentos jurídicos. Estamos pedindo aos professores que evitem pedir trabalhos e, se pedirem, exigir uma apresentação oral, uma prova sobre o tema. É preciso reduzir a demanda desses sites?, afirmou José Carlos Cunha Petrus, diretor do Departamento de Apoio à Pós-Graduação da UFSC.

Negociação

A Agência Folha, sem informar que se tratava de uma reportagem, enviou e-mails para 11 endereços eletrônicos pedindo detalhes do ?negócio?. Todos responderam. Dois disseram que não poderiam escrever o trabalho. Outros nove o fariam.

Nas entrevistas, os ?empresários da monografia? revelam detalhes do esquema que já estaria, segundo eles, ?profissionalizado?. O negócio está presente em várias partes do país: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Brasília e Amazonas são algumas delas.

Nas mensagens enviadas pela reportagem foram pedidos orçamentos para a elaboração de uma dissertação de mestrado, com 120 páginas, e para uma tese de doutorado, com 250 páginas. Para fazer o trabalho de um futuro mestre, o valor ficou entre R$ 600 e R$ 1.200. O trabalho de um doutorando varia de R$ 1.000 a R$ 4.000.

Os ?empresários?, que se identificam como ex-professores universitários, advogados experientes e até juízes aposentados, propõem-se a elaborar todas as fases do trabalho. O aluno não precisa se preocupar nem com a escolha de uma bibliografia. Caso o tema não esteja bem definido, também não há problema -os donos do negócio fazem isso.

?O senhor vai acompanhar passo a passo a elaboração do trabalho. Mensalmente nós vamos lhe mandar os capítulos. O seu acompanhamento vai ser total?, afirmou a dona de um site que faz trabalhos na área de direito.

Ela se identificou como ex-juíza federal aposentada e disse que sua ?equipe?, que seria formada por oito ex-juízes, faria trabalhos de pós-graduação para procuradores, promotores e juízes.

Em um dos sites que oferecem trabalhos (www.monoweb.cjb.net), há um suposto ranking das universidades que mais pedem os serviços, detalhes de como fazer o pedido e propaganda.

Um dos ?empresários?, durante conversa sobre os detalhes do negócio, identificou-se com o nome completo e como sendo professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)."

***

"Advogados vêem problema moral e não criminal", copyright Folha de S. Paulo, 1/7/02

"Advogados ouvidos pela Agência Folha apontaram que a discussão sobre a compra de dissertações e teses pela internet precisa ser no campo da ética e da moral. Penalmente, a questão é controversa e de difícil caracterização, segundo os especialistas consultados.

?É extremamente complicado caracterizar esse comércio como crime. Mas é uma prática abominável. A culpa não é exclusiva do aluno que compra a tese. Também é de quem vende, do professor orientador, que não percebe que seu orientando não pesquisou nada, e da faculdade, que aceita qualquer coisa?, afirmou o advogado Luiz Flávio Gomes, especialista em direito criminal.

Os advogados foram unânimes em dizer que uma punição imediata ao aluno que compra seu trabalho é a perda do título acadêmico ou a aplicação de nota zero.

?A rigor, eu posso encomendar um trabalho, desde que eu pague por ele. O direito autoral passa para quem adquiriu o serviço. No caso de teses, o assunto complica. Não é mais uma questão de direito de autor, mas efetivamente de fraude na elaboração do trabalho?, disse Andrea Oricchio Kirsh, advogada especialista em direito autoral."

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"Professor da UFRJ cobra até R$ 4.000", copyright Folha de S. Paulo, 1/7/02

"Um dos ?empresários da monografia? é professor de ciências sociais aposentado da UFF (Universidade Federal Fluminense) e atuante na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Vicente de Paulo Leitão disse, em conversa gravada, que não vê problemas legais nem morais em fazer trabalhos acadêmicos para outras pessoas.

Leitão manteria, há quatro anos, uma equipe com 15 pessoas oferecendo a elaboração de teses, dissertações e outros trabalhos universitários no Rio de Janeiro .

Em negociação feita pelo telefone com a reportagem, ele cobrou R$ 4.000, divididos em dez parcelas, para elaborar uma dissertação de mestrado de 120 páginas na área de direito.

Procurado pela Folha, Leitão, que se diz pós-graduado, confirmou o negócio, mas não deu detalhes de sua atuação e interrompeu a entrevista desligando o telefone.

?Escrever para os outros não tem nada de errado. A lei permite. Não é ilegal nem imoral?. O professor atribuiu a existência do negócio às universidades que não ajudariam os alunos a desenvolver seus trabalhos.

?As pessoas têm inúmeras razões para fazer isso. O senhor deveria falar das universidades que não ajudam o aluno. Assim como as pessoas que vão pedir dinheiro ao agiota, elas vão pedir (trabalhos) porque o Brasil não tem um sistema financeiro que as ajude.?

A assessoria de imprensa da UFRJ informou que a universidade interpreta a informação de compra de trabalhos acadêmicos com muita indignação e que considera a prática ?criminosa?.

Sobre o professor Leitão, a universidade informou que ?infelizmente? ele faz parte do corpo docente da instituição e que iria esperar a publicação da reportagem para tomar possíveis procedimentos administrativos.

O professor alegou que imoral foi a gravação sobre a negociação da compra da dissertação. ?Imoral foi o que vocês fizeram gravando a conversa. Essa reportagem que vocês estão fazendo é um trabalhinho chinfrim. Um trabalho de estagiário.?"

 

AMAZÔNIA VENDIDA

"?Venda da Amazônia vira paranóia na Internet?", copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 25/6/02

"Deixe a razão de lado por um momento e imagine isto: estudantes americanos aprendem que a Amazônia devia ser tirada do Brasil e transformada em uma ?reserva internacional? sob a administração da ONU. Forças especiais do Exército americano estão sendo treinadas na Flórida para assumir o controle daquela região uma vez lá estabelecidas. E, para acelerar o processo, a Harvard University defende seu imediato desmembramento do Brasil.

Tudo isso, é claro, é pura imaginação. A imaginação brasileira. Desde o nascimento, os brasileiros aprendem que ?a Amazônia é nossa?. Mas os governos nunca conseguiram exercer soberania efetiva sobre a região, a qual, de qualquer forma, continua sendo um mistério exótico para grande parte dos brasileiros. O resultado é uma paranóia nacional: a convicção de que forasteiros – especialmente os Estados Unidos, com seu passado acidentado na América Latina – invejam a posse sobre a maior floresta tropical do planeta e a querem para si mesmos.

Desde o ano passado, as desconfianças aumentaram ainda mais por causa de um mapa espúrio que apareceu em sites da internet e foi rapidamente aceito como verdadeiro. Extraído do que se disse ser um livro-texto escolar para alunos do primeiro grau adotado nos Estados Unidos, o mapa afirma que os americanos têm a ?missão especial? tomar à força a Amazônia dos oito países sul-americanos ?sem inteligência e primitivos? que a controlam.

Embora o texto seja claramente uma falsificação (pois está crivado de erros gramaticais e ortográficos que o falante nativo do inglês não cometeria), a controvérsia continua. Alguns brasileiros dizem que a CIA forjou o mapa para desacreditar aqueles que defenderiam a Amazônia da intromissão de estrangeiros. Outros não se preocupam com a autenticidade do mapa.

?O mapa pode ser uma fraude, mas que os Estados Unidos cobiçam a Amazônia e querem acabar com a soberania do Brasil sobre ela é indiscutível?, disse Rubim Aquino, um professor de História. Ele disse que enfatiza essa mensagem para seus alunos ?sempre que surge uma oportunidade?.

A área definida pelo governo brasileiro como Amazônia Legal ocupa 60% do território. Mas a região é habitada por menos de 10% da população brasileira, 175 milhões de habitantes. E a maioria dessa população vive no sul, ou ao longo do litoral, e nunca visitou a região.

?O sulista não conhece a Amazônia e desdenha a região e seu povo?, disse o paraense Lúcio Flávio Flávio Aquino, editor da Amazon Agenda, um importante informativo sobre a região. ?Há uma tendência a transferir a responsabilidade dos problemas para os estrangeiros, de forma a aplacar uma consciência culpada e afastar a culpa do Estado brasileiro que há muito trata a área como uma enteada.

A dura realidade, porém, é que poucos projetos de estrangeiros na região, desde a plantação de seringueiras da Fordlandia, da Ford Co., à fazenda pecuarista da Volkswagen, todos fracassaram porque os custos operacionais da Amazônia são altíssimos e a infra-estrutura é muito fraca.

Um dos grandes vilões da história brasileira é Henry Wickman, um naturalista britânico que é acusado de ter roubado sementes de seringueira há um século e as levar para a Malásia. Isso levou ao colapso do surto da borracha que tinha financiado a construção do Teatro de Manaus e permitiu que alguns magnatas brasileiros enviassem sua roupa suja para ser lavada na Europa – além de escravizar os seringueiros.

O que os brasileiros ainda não conseguem admitir é que Wickham obteve autorização legal para exportar as sementes. Como reconhece Roberto Santos, no livro História Econômica da Amazônia, as empresas britânicas e americanas buscaram transferir a produção da borracha para outro lugar porque o sistema brasileiro de produção era ineficiente e tinha despertado a ira de entidades contra a escravidão.

Hoje, o foco das suspeitas brasileiras foi transferido da borracha para a biotecnologia. Para citar um exemplo, o país está cheio de boatos de que o Instituto Nacional do Câncer de Washington enviou clandestinamente garimpeiros para roubar plantas medicinais.

Mitos fabricados, como esses, ajudam a explicar a difusão do mapa. Aperentemente ele se saiu de um site operado por um grupo da direita nacionalista. A esquerda do Brasil, porém, já mostrou uma queda pela fantasia amazônica.

Atualmente, a teroria favorita tem a ver com o Plano Colômbia, a inciativa americana para ampliar a luta da Colômbia contra os narcotraficantes e contra as guerrilhas marxistas. Grupos esquerdistas daqui dizem que o objetivo real da operação é dar aos EUA uma base segura que permita ao país capturar a Amazônia brasileira e então dominar o flanco esquerdo da Venezuela, do presidente Hugo Chávez.

Há também o Sivam, sistema de radares de US$ 1,5 bilhão que está sendo instalado por uma empresa americana. Embora o projeto vá aumentar a vigilância sobre a região, permitindo o rastreamento e interceptação de aviões traficando drogas, armas e ouro, muitos por aqui têm certeza de que o verdadeiro propósito é dar aos EUA a oportunidade de reunir informações por satélite sobre petróleo e recursos minerais que o país quer explorar.

Algumas dessas acusações são espalhadas porque o Brasil está às voltas com campanhas para as eleições presidenciais, nas quais a defesa da Amazônia sempre agrada às multidões.

Infelizmente para os americanos, provavelmente há pouco que possa ser feito para convencer os brasileiros de que essas considerações simplesmente não são verdade. Conforme disse Pinto, a Amazônia tem o nome que tem por causa de um delírio: os primeiros europeus a visitá-la imaginaram ter visto mulheres guerreiras, como aquelas da mitologia grega, metade mulher e metade cavalo, ao longo das margens do rio. ?A Amazônia sempre foi solo fértil para fábulas, o que dá a ela um lugar proeminente no incosciente coletivo deste país?, diz ele. ?As pessoas criam fantasmas, e é melhor não rejeitá-los.?"

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