Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ENTRE ASPAS > O CÓDIGO DA VINCI

Jorge Félix

08/03/2005 na edição 319

‘Nem carrão nem iate. O editor de ‘O Código Da Vinci’, Geraldo Jordão Pereira, mantém a rotina um ano depois da publicação de um dos maiores sucessos editoriais de todos os tempos: todas as manhãs, por volta das dez e meia, ele chega à sede da Editora Sextante, em Botafogo, no Rio, vindo do mesmo apartamento a bordo do mesmo automóvel. ‘O que muda é a auto-estima’, afirma este seguidor das filosofias budista e franciscana. De fala mansa, gestos calmos e quase um inibido, Geraldo só revela mesmo uma ponta de soberba quando o assunto é livro. Aí, ele leva o dedo indicador ao nariz, dá dois tapinhas e ensina: ‘Tem que ter faro.’ Esta sensibilidade para escolher o que todo mundo vai gostar de ler, Geraldo desenvolveu ao longo de 50 anos de mercado editorial, desde que começou aos 17 na editora de seu pai, o lendário José Olympio.

Neste meio século, vendeu a JO, revolucionou o livro infantil com a Salamandra, também vendida, e entrou, sem preconceito, no mundo da auto-ajuda. Ao lado dos filhos, Thomas e Marcos, emplaca mais de 10 títulos entre os 30 mais vendidos no país. O melhor livro, porém, seria sua biografia. Nesta entrevista a NoMínimo, Geraldo fala de seus sucessos e fracassos no meio editorial, conta histórias de sua convivência com a nata da literatura brasileira e lembra o drama de esperar quatro anos na fila de transplantes para curar uma hepatite C. ‘O sofrimento não me fez mais religioso. Não acredito mais nas religiões. Acredito mais no cristianismo do que na igreja católica’, revela o editor de ‘O Código Da Vinci’. É justamente seu lado cristão que permite à Sextante enviar uma parte significativa das cifras de seu maior best-seller para outra grande paixão de Geraldo: os projetos sociais.

Qual é a receita para publicar um best-seller como ‘O Código Da Vinci’?

A gente tem que errar o menos possível. Sempre digo isso para meus filhos. Eu sou assistente deles. Sou um assessor ad hoc. (Dá uma risadinha) Eles é que tocam a editora. A minha tarefa é, sobretudo, a de escolher livros, analisar os originais, os títulos que vêm de fora. Depois, um deles lê também, coisa e tal, e publica-se ou não. A gente sempre chega a um acordo. Não tem receita. A receita é o faro (leva o dedo indicador ao nariz e dá dois tapinhas). Estou no ramo há 50 anos. Comecei a trabalhar em editora aos 17 anos. Estou com 67 de vida. Aprendi muito com os erros.

Qual foi o seu erro clássico, histórico?

Clamoroso assim? Tive também. Havia um padre canadense, chamado Marcel-Marie Desmarais, que publicou uns livrinhos pequenininhos chamados ‘Pílulas de otimismo’. Aquilo chegou às minhas mãos e eu achei tão água-com-açúcar, tão bobo… Naquele tempo, não havia leituras de auto-ajuda. Não quis publicar, acho que saiu pela Vozes ou Paulinas (o livro saiu pela editora Vozes). Foi um sucesso. Porque, desde aquela época (década de 70), as pessoas precisavam de alguma coisa que as ajudasse a refletir, a encontrar um caminho. Nós, da Sextante, enveredamos por essa linha. As pessoas falam ‘ah, é auto-ajuda’, ‘ah, é esoterismo’. Nada disso. Costumo dizer que o que nos norteia são livros que façam bem às pessoas. Se eu acho que é um livro que vai fazer bem a alguém, eu publico. Claro, tem que ser bom e sério. Então, a receita é essa: colocar-se na pele do piloto, perguntar-se se esse livro vai fazer bem a alguém. Às vezes. não se acerta.

Como foi a descoberta de ‘O Código Da Vinci’?

A minha mulher (Regina, com quem está casado há 40 anos) diz que eu só consegui pegar ‘O Código Da Vinci’ porque não mexo com computador. Tenho horror. É uma barreira emocional. Os meus filhos mexem com computador o dia inteiro. Entram na Internet, nos jornais americanos, nas revistas. Eu não. Leio sempre com muita atenção a revista ‘Publishers Weekly’. Leio com toda atenção as matérias, os anúncios. Um dia, vi uma notinha de um livro que iria ser publicado chamado ‘Da Vinci Code’ (título em inglês de ‘O Código Da Vinci’). Esse livro estava sendo escrito por um autor que já tinha escrito outros dois ou três livros, mas sem grande repercussão. Eu, como sou tiete do Leonardo da Vinci – quando era criança, na escola, cheguei a fazer até ensaio sobre ele – li a sinopsezinha pequena que descrevia o que o livro iria abordar. Aí veio aquele negócio ( leva de novo o dedo indicador ao nariz e dá outros dois tapinhas)… senti cheiro de sucesso. Telefonei para o editor americano e ele me disse que ainda não tinha provas, só seria publicado no ano seguinte. Eles trabalham com muita antecedência lá fora. Ele disse: ‘Se você quiser, mando o original.’ Eu respondi: ‘Tá ótimo.’ Ele me mandou e eu li num fim de semana. Pensei: realmente é bom. Nem tem como classificar. Liguei para os meus filhos e ocorreu um fato engraçado. Quando abrimos a Sextante, tinha estabelecido uma regra que só publicaríamos não-ficção. E aí eles falaram: ‘Mas papai, é um contra-senso, você que estabeleceu a regra’. E eu lhes disse: ‘Só não muda de idéia quem não as tem.’

E aí, pelo que se sabe, começou uma longa queda de braço entre vocês?

Eu disse que tinha certeza de que seria um sucesso. De repente, o livro foi lançado lá, quando estava ainda sendo traduzido aqui, e tornou-se o sucesso mundial. Foi aquela repercussão aqui também. Nós adquirimos por pouco mais de 10 mil dólares (em números exatos, 12 mil dólares), o que para o mercado internacional é uma bobagem. Qualquer livro de um autor como este custaria 50, 60, 70, 80 mil dólares.

O senhor falou em preconceito com a auto-ajuda e, logo no lançamento de ‘O Código Da Vinci’, as pessoas olhavam o livro com o nariz torcido. O senhor acha que ele sofreu por sair por uma editora especializada em auto-ajuda?

Não. Eu acho que não. O livro causou muita polêmica porque mexe com temas que são muito questionados, a questão da igreja, polêmicos mesmo, ou melhor, provocativos! Tanto é que já publicaram aí muitos livros discutindo ‘O Código Da Vinci’, uns contra, outros a favor. Nós não pretendemos seguir publicando ficção. Eventualmente, pode ser. Por exemplo: um livro recente de um autor muito querido nosso, pessoa muito amiga, o Mitch Albom, um americano, de quem publicamos um outro livro de não-ficção, ‘A última grande lição’. É um dos livros mais bonitos que já publicamos. É a história de um professor que está morrendo e um antigo aluno vai visitá-lo e começa um diálogo com ele. Muito bonito.

Quando o senhor…

Posso pedir uma coisa? Pare de me chamar de senhor, pode me chamar de você.

(Risos) OK, então. Você recebeu críticas ou uma estranheza do mercado livreiro porque a família de José Olympio estava editando auto-ajuda?

As pessoas comentavam, mas eu já tinha feito outra editora, a Salamandra, voltada para a literatura infanto-juvenil. Ela resistiu 22 anos. Depois foi comprada pela Moderna (hoje pertence ao grupo espanhol Santillana). Foi um segmento que me deu muita alegria, muito prazer porque acho que a salvação do mundo está na criança. Se você se dedica realmente à criança, no sentido de educá-la, de dar-lhe condições de satisfazer os futuros indivíduos adultos, o mundo vai ser bem melhor. Então, os livros que eu publicava mexiam um pouco com a cabeça da criança. Não eram livros bobocas. Autoras como Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Eliane Ganem, Cora Rónai, são todas excelentes.

A Salamandra mudou bastante o perfil dos livros infantis.

Eu acho, sim. Surgiram novos autores. As editoras passaram a cuidar mais do livro infantil e se voltar para ele. A Nova Fronteira, a Companhia das Letras, a Record passaram a publicar um livro infantil muito melhor. Quando eu vendi a Salamandra e decidi fundar a Sextante, não tinha certeza de qual era o nicho. Acho que a editora precisa ter um nicho. Ou é ficção, como muitas buscam, tornando a competição muito acirrada, ou, então, parte para livros técnicos. Achei que essa área da auto-ajuda era a ideal para o momento porque as pessoas estão muito sem rumo. Perdidas.

E os amigos, que conviveram com autores que seu pai lançou, não estranharam?

Pelo menos, não comentaram, tiveram elegância. Se tivessem estranhado, não mudaria nada. Eu não podia continuar a fazer livros como fazia porque faz parte do acordo comercial com quem comprou a José Olympio. Você se compromete a não fazer outra editora concomitante porque, senão, você começa a competir com a própria editora que vendeu (a José Olympio hoje pertence à Record). Também não podia partir para pegar livros ou autores da José Olympio, seria um contra-senso, atuar contra a editora de meu pai, onde trabalhei e onde aprendi tudo. Então, o que me sobra? Sempre tive uma preocupação grande com a qualidade de vida. Sou sociólogo e esse meu outro lado sempre pesou muito. Tenho um trabalho na área de responsabilidade social ao qual dou muita importância. E a Sextante, até o nome, foi isso. Sextante é o instrumento antigo que indicava o rumo para os navegantes.

Esse trabalho social está se ampliando desde os tempos que o senhor, (ele faz cara feia), quer dizer, você dirigia o Jardim Botânico?

Fui diretor-geral do Jardim Botânico por dois anos. É uma das minhas paixões. Demos uma revigorada ali, estava muito apagado, degradado. Foi um tempo para colocar ordem na casa. O Jardim Botânico é submetido ao governo federal; então; era da esfera do antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal e, agora, está no Ibama. Depende de muitas coisas de Brasília e tem muita gente que chega em Brasília vinda de outros estados e não tem uma cabeça carioca para entender o que é, o que precisa ser feito para preservar um local como o Jardim Botânico do Rio. Criamos a Sociedade de Amigos do Jardim Botânico, que tem mais de 3 mil e 500 associados e colabora para a manutenção. É um feito, acredito, numa sociedade sem tradição participativa.

É decepcionante cuidar de um local-símbolo como este e ver muitas coisas erradas na cidade? O que precisa mudar no Rio?

A cidade está mal cuidada. Você vai ao centro e não consegue andar. Está cheio de camelôs. No calçamento daquelas ruas do centro estão faltando pedras e você tem que tomar o maior cuidado para não cair, não esbarrar nos camelôs, nas barracas. É uma pena. O centro do Rio é lindo. Espero que o nosso alcaide veja isso. Se bem que ele está mais interessado em ser presidente da República do que em cuidar da cidade. A cidade está jogada às traças.

Mas o seu lado sociólogo não parou no Jardim Botânico, parece que foi até a Zona Oeste do Rio?

É, foi. Por meio da Firjan ( a Federação das Indústrias do Rio), desenvolvemos outros projetos sociais. Há pouco tempo, passei a integrar o Conselho Empresarial de Empresas Sociais. Os empresários começam a participar disso com mais empenho. Em Campo Grande (Zona Oeste do Rio), há um projeto que resgata meninas carentes, de três favelas, por meio de uma instituição de ensino, com cursos profissionalizantes, educação sexual, atividades artísticas e esportivas. São meninas resgatadas da marginalidade. São mais de 3 mil. Há empresas – como Shell, Ipiranga, Visa e a Sextante – que contribuem com uma parcela significativa. Há também um projeto com idosos.

Quer dizer que o dinheiro de ‘O Código Da Vinci’ vai para a zona oeste?

Uma boa parte. Mas é preciso deixar claro isso: a revista ‘IstoÉ Dinheiro’ fez uma capa dizendo que se o livro vendeu 400 mil, o autor tem 10% e, então, o editor tem 90%. É um desconhecimento do mercado editorial. Parece que você faturou realmente 7 milhões de dólares, o que está completamente errado. Meus amigos do pôquer falaram que vão aumentar a aposta porque eu fiquei milionário. O repórter sacou esse número do bolso do colete, com cálculos dele lá. Não é assim.

O que mudou na sua vida com o dinheiro do livro?

Nada. Não troquei de carro. Já tinha mudado do Cosme Velho para a Lagoa antes da publicação do livro. Não passei a consumir nada que não consumia. Foi uma riqueza para a minha auto-estima. Sem nenhuma extravagância. Não viajei. Apenas temos fôlego para enfrentar leilões de livros. Temos mais audácia e mais tranqüilidade.

É uma vitória depois de tantos problemas de saúde?

Sem dúvida. Foi uma fase dura (de 1988 a 2002, Geraldo, com hepatite C, aguardou por um transplante de fígado na fila dos transplantes). Fiquei 4 anos na fila. Tive brigas enormes com o Serra (então ministro da Saúde). Ele não dava a importância devida e o problema se tornou uma epidemia. A doença não se revela. A maioria dos doentes, quando descobre, só pode partir para o transplante. O Brasil não tem cultura de doação e o governo não estimula. A campanha da Aids foi boa, mas a de doação, não. Então, aconteceu uma epidemia de hepatite C.

O que muda quando se vê a morte tão de perto?

Você passa a relativizar muito. Tive muita proteção espiritual. Nunca acreditei que ia morrer. Depois da cirurgia, o médico disse que talvez eu não tivesse consciência, mas a equipe dele achava eu não passaria de duas semanas. Falei: ‘Então fiquei pela bola sete.’ E ele respondeu: ‘E a sete estava na boca da caçapa.’

Você ficou religioso?

Religioso, não. Estou em busca. Já tinha largado as práticas religiosas. Sempre acreditei no transcendente. Sempre tive essa preocupação. Procuro mais o budismo, que não é uma religião, é uma filosofia. Não acredito muito nas religiões. Acredito no Cristianismo e sigo a minha vida pelas determinações cristãs, mas não de religião. Acredito mais no cristianismo do que na igreja católica. As religiões hoje respondem muito pouco e a igreja católica não é exceção.

No que a auto-ajuda da Sextante difere das concorrentes?

Embora a gente tenha feito alguns livros na área espiritual, nunca fizemos livros espíritas, budistas, fizemos Dalai Lama, fizemos um autor americano que é médium. Temos um critério de seriedade que muitas do segmento não têm. Vamos chamar os livros de outras editoras de rápidos, de fáceis, ou melhor, ligeiros. Nós estamos procurando coisas mais permanentes. Livros que façam refletir, pensar.

Não pode ter preconceito, então?

Acho isso fundamental. Se você tiver nas mãos um original, enfim, que sofresse assim alguma resistência pelo fato de ser de umbanda, por exemplo, mas que fosse ajudar, fosse bem escrito, viesse de uma pessoa muito séria, tivesse uma mensagem, por que não publicar? Se for um livro que vai ajudar muita gente a ser melhor, por que não? Você pode até se enganar, achar que vai ser bem aceito e isso não acontecer. O que faz o livro é o boca-a-boca. Tem de ser lido e comentado. Não é anúncio de jornal, outdoor… é claro que se tem de fazer um pouco disso para dizer que o livro existe, mas a melhor propaganda é o livro. É como no cinema. Faz aquele oba-oba todo, mas, se não tiver um monte de gente falando: ‘Ah, você viu o filme do Almodóvar?’, o filme não acontece.

Por falar em cinema, a expectativa é grande com o filme ‘O Código Da Vinci’?

Será com Tom Hanks, um dos meus artistas preferidos no cinema. O livro tem muito isso. O best-seller estabiliza num determinado patamar e, depois, é natural que sofra uma queda, perca o interesse. De repente, por uma razão qualquer, um filme, por exemplo, tem um ressurgimento. Aconteceu isso com vários autores, a ‘Marguerite Yourcenar ‘ e tantos outros.

O brasileiro ainda lê muito pouco?

Ainda lê muito pouco. Lê mais, porque a população cresceu, mas lê pouco. Eu não chamaria ainda de hábito de leitura, como muitos chamam, eu chamaria gosto pela leitura. Ainda não tem. Quando a pessoa tem gosto, ela cria o hábito. É preciso muita coisa. O atual governo está interessado em fomentar a criação de um gosto maior pela leitura. Há a câmara setorial do livro que está se criando. Não conheço o Galeno (Amorim, coordenador do Plano Nacional do Livro e Leitura), mas me parece bom. A criação de bibliotecas é fundamental. O Brasil tem mais de 5 mil municípios e mil e poucas bibliotecas! Temos que criar bibliotecas e aparelhá-las.

O mercado editorial está sofrendo uma internacionalização grande.

É um movimento normal da economia brasileira. É sinal de que as editoras lá fora, que são empresas sérias e sólidas, estão vendo o Brasil como um mercado muito bom. Com a população que nós temos, se tivermos governos sérios e comprometidos em elevar o seu nível econômico, social e educacional, teremos um mercado imenso. Essa internacionalização obriga as editoras brasileiras a trabalharem com muita seriedade, com muito cuidado, com muito profissionalismo. Não dá mais para ser uma editora que faz o livro do amigo. Tem de ser muito profissional. Não dá para brincar em serviço. Antigamente, meu pai fazia livros fantásticos, claro, mas fazia livros de amigos. Políticos. Ou alguém pedia. Às vezes acontecia de dar certo; às vezes, não. É verdade que até hoje não se faz pesquisa editorial, nem aqui, nem no mundo inteiro. Não dá. Quando você faz uma coleção, uma série, fascículos, faz. A Editora Abril já deve ter feito muitas. Mas livro assim, não vai. Tem que seguir mesmo o faro (leva o dedo ao nariz e faz o gesto de novo).

O que o seu pai deixou como lição?

Ele dizia coisas muita engraçadas. Dizia que a vida é feita de acasos, circunstâncias e contingências. Levei um tempo para entender. Gosto de acoplar a esta frase dele um poema do Borges, esqueci o título, mas diz: ‘Se pudesse viver de novo, faria muito mais besteira, andaria mais descalço na chuva’, todos conhecem (o poema chama-se ‘Instantes’, atribuído ao argentino Jorge Luís Borges). Eu gosto muito daquele poema que é atribuído a ele e ninguém sabe se é dele ou não. E o Borges diz: ‘Você não sabe? A vida é feita de momentos, aproveite agora.’

Era mais saboroso ser editor no tempo de seu pai?

Ah, era diferente. O autor nunca marcava hora para ir à editora. Aparecia. E você tinha que estar lá, receber e conversar. Assim como eu tenho meus filhos para cuidar da editora, meu pai tinha os irmãos. Eu fazia de tudo, era revisor. Era um ótimo revisor. Tinha uma vista boa. Na José Olympio, tive a oportunidade de conviver com a nata da literatura. Hoje, os autores nem vêm à editora. Alguns você nem conhece. Lá passavam Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rêgo, Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa e tantos outros. Você os recebia e ficava naquele bate-papo, horas e horas, falavam de tudo, menos de literatura. (Risos) Falavam muito de cinema, de política. Meu pai era muito politiqueiro. Publicou Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck, Armando Sales de Oliveira. Não era sectário. Era aberto. Editava várias concorrentes. Fazia algumas restrições, mas era amplo.

Era uma convivência muito rica e uma excelente escola. Deve ter boas histórias daquela época.

Ótimas. O Guimarães Rosa, por exemplo, era um sujeito muito brincalhão. Você sabe que o meio literário é muito vaidoso. Alguns escritores detestam ser chamados de vaidosos, outros até fazem brincadeira. Era o caso do Guimarães Rosa. Um dia, eu estava sentado na sala de meu tio e adentrou o Rosa. Eu levantei e disse: ‘Salve o maior escritor brasileiro!’ E ele imediatamente: ‘Por que a restrição?’ E caiu na gargalhada. Foi uma cena muito hilária. Era assim o dia-a-dia.

Como é o seu trabalho no dia-a-dia de garimpar títulos?

Varia. São coisas que às vezes pintam, outras não. Por exemplo, há uns dois anos, encomendei um livro ao Leonardo Boff, de quem eu gosto muito, é pessoa muito querida. Eu sempre fui muito adepto de São Francisco, sabia que o Boff era franciscano, embora tivesse largado a batina. Então, pedi a ele para fazer um livro sobre a oração de São Francisco, que todo mundo conhece, todo mundo sabe, mas queria um livro que dissecasse um pouco essa oração muito bonita, do é dando que se recebe. Ele adorou a idéia. Parou tudo o que estava fazendo e escreveu o livro. Foi sob encomenda. Foi ótimo. Fez sucesso e foi muito bom. De vez em quando, a gente faz isso. A gente tem uma idéia, dá a idéia para alguém e a pessoa desenvolve.

Quais são as qualidades do bom editor?

A primeira delas é ter humildade, não achar que sabe tudo. Quando ler um livro e achar bom deve buscar a opinião de outras pessoas também. Não pode achar que é o dono da verdade. Às vezes, pode ser que, avaliando sozinho, até dê certo, mas não sempre. Então, essa humildade é fundamental. Acho que um certo bestunto também é imprescindível, uma certa inteligência mineira para avaliar, um conhecimento de mercado. Sabe, aquele negócio do faro (e faz o gesto mais uma vez).

Uma sensibilidade.

Uma sensibilidade… taí… para perceber se o público vai gostar. É muito sofisticado? Não é? Para que camada vai ser vendido? Aquilo que às vezes muitos não gostam de ouvir, mas é verdade, é aquele livro high-brow (gíria inglesa que significa intelectual, cabeçudo, papo-cabeça) e aí não vai pegar. Outras vezes, o livro é muito low-basement (rasteiro). Nosso segmento, na Sextante, é a faixa de classe média, mais intelectualizada, mas há o preconceito, que está sendo vencido, com o livro de auto-ajuda. De modo geral, o livro de auto-ajuda era de um nível e um estilo literário muito pobres. Como nossos livros estão elevando esse nível, estão subindo esse nível a um patamar mais palatável, você vê muita gente de bom nível intelectual aderindo e lendo. Nesse sentido, estamos muito bem, rompendo preconceitos e vencendo barreiras.’



NOVO JORNALISMO
Carlos Eduardo Lins da Silva

‘Coletânea lembra textos de Hunter Thompson e Capote’, copyright Folha de S. Paulo, 5/03/05

‘O lançamento de ‘Radical Chique e o Novo Jornalismo’, uma coletânea de textos diversos antes publicados em três livros de Tom Wolfe, e a morte de Hunter Thompson fizeram com que muitos jornalistas brasileiros refletissem sobre um dos movimentos mais importantes da história de sua profissão: o novo jornalismo, do qual Wolfe e Thompson foram expoentes.

Manifestação típica da inquietação cultural das décadas de 1950 e 1960 nos EUA, o novo jornalismo teve repercussão mundial, como seus assemelhados contemporâneos de outras áreas de manifestação artística ou intelectual.

A idéia era basicamente que o repórter tivesse grande (ou total) liberdade estilística para contar suas histórias, fugir dos padrões convencionais do texto jornalístico, enriquecê-lo com recursos antes considerados exclusivos da ficção. Mas era preciso manter fidelidade (embora não necessariamente absoluta) aos fatos reais apurados pelo jornalista.

O apelido de ‘Balzac da Park Avenue’ dado a Wolfe era bastante apropriado. O francês foi uma espécie de precursor do novo jornalismo, com a descrição atilada e elegante que fez dos salões de Paris da primeira metade do século 19, similar à que Wolfe fez da Nova York da segunda metade do século 20.

O livro é mais um excelente serviço que a coleção Jornalismo Literário presta à profissão no Brasil. É fundamental para os que a praticam conhecer os grandes textos que a tornaram, mais do que socialmente relevantes, culturalmente aprazíveis.

A admiração por Wolfe, Thompson, Truman Capote e outros, no entanto, não deve levar a conclusões irreais e saudosistas do tipo ‘é de reportagens do tipo ‘A Garota do Ano’ ou ‘A Sangue Frio’ que o jornalismo precisa para superar sua crise’.

Em primeiro lugar, o novo jornalismo foi um fenômeno que -apesar de ter provocado efeitos em diversos países, inclusive o Brasil- dificilmente poderia se reproduzir com intensidade similar à que teve nos EUA fora daquele país e daquela época.

Tratava-se de uma produção dispendiosa, só sustentável por uma indústria abastada. Esse foi um dos motivos pelos quais ele jamais se aproximou no Brasil da envergadura que teve nos EUA. Apesar de alguns jornalistas e veículos terem produzido reportagens memoráveis que nada deviam em talento às dos mestres. Para citar apenas uma pessoa, sob o risco de cometer injustiças, Marcos Faerman.

Mas o sucedâneo do movimento no Brasil foi, sem dúvida, constituído de peças muito mais isoladas do que as que formaram o original americano, as quais já eram ostensivamente exceções à regra.

Além da dificuldade material de sustentar reportagens desse gênero -que se agravou a níveis muito mais intensos-, houve alterações profundas no mercado e nos hábitos dos consumidores de informação, que tornam complicada a aceitação de produtos como essas grandes reportagens na mídia impressa. Por isso, vale ler Wolfe em livro. Mas não se deve alimentar ilusões sobre o retorno de seu estilo aos jornais e revistas.

Carlos Eduardo Lins da Silva é jornalista e diretor da Patri Relações Governamentais e Políticas Públicas

Radical Chique e o Novo Jornalismo Autor: Tom Wolfe Editora: Companhia das Letras Quanto: R$ 39 (248 págs.)’



BIBLIOTECA NACIONAL
Luiz Fernando Vianna

‘Jornais da Biblioteca Nacional geram atrito’, copyright Folha de S. Paulo, 3/03/05

‘Ao decidir transferir parte de seus milhares de jornais e revistas para um outro prédio, a direção da Biblioteca Nacional transformou em adversários funcionários da instituição. Os técnicos da Coordenadoria de Publicações Seriadas estão lutando contra a mudança por considerá-la uma ameaça ao patrimônio público.

Eles concordam com a necessidade da transferência para desafogar o prédio-sede -inaugurado em 1910 para abrigar 1 milhão de peças, tem hoje mais de 8,5 milhões. Mas pedem que sejam feitas obras antes da mudança. O primeiro documento nesse sentido é de abril de 2004. A instituição, presidida por Pedro Corrêa do Lago, não recuou da decisão.

Em fevereiro, os técnicos divulgaram um e-mail em que diziam que o edifício para onde o material deverá seguir em dois meses não tem ‘condições mínimas para guarda de acervo, diários oficiais e jornais originais muitas vezes únicos existentes no país’.

‘O prédio não tem condições climáticas nem elétricas adequadas para receber um acervo tão frágil’, afirma Maria Angélica Brandão Varella, ex-chefe da coordenadoria, exonerada no último dia 21. ‘Não há ar-condicionado, e a amperagem [intensidade da corrente] é insuficiente.’

Segundo a direção da Biblioteca Nacional, a exoneração de Varella ‘foi uma decisão administrativa interna rotineira’. Mas o Conselho Regional de Biblioteconomia considerou o ato uma retaliação à participação dela nos protestos contra a transferência. O conselho enviou, na última sexta, uma carta ao ministro Gilberto Gil (Cultura), pedindo que ‘interceda com a administração da biblioteca’ em favor dos funcionários.

Na mesma sexta, fiscais do conselho foram impedidos de entrar no ‘edifício anexo’ para avaliar suas condições. A direção pediu uma solicitação oficial, que deverá ser encaminhada até amanhã. A Folha também não teve autorização para entrar no anexo, porque, segundo a assessoria de imprensa, o prédio está em obras.

Segundo Célia Zaher, diretora do Centro de Processos Técnicos da biblioteca e presidente da Associação Internacional dos Bibliotecários, estão sendo feitas obras nos banheiros, nos pisos e nas janelas do anexo, que já abriga cerca de 1 milhão de peças.

Ela diz que a transferência dos periódicos é necessária para que se amplie, com recursos da Fundação Vitae, a segurança dos microfilmes guardados na sede.

‘Uma norma internacional conhecida de todos é que, para preservação, não se coloquem no mesmo local os originais e as cópias, pois, em caso de desastre, os dois estariam danificados ou perdidos. Assim, foi decidido construir um cofre contra fogo na sede e levar os periódicos já microfilmados para o anexo, já que esses originais não devem ser manuseados pelo público, só em caso de pesquisador excepcional.’

Os funcionários argumentam que seria mais prático transferir as matrizes dos microfilmes -o que o público consulta são cópias. Eles temem que os periódicos sejam danificados na mudança.

Dos 60 mil títulos dos periódicos, apenas 2.600 têm edições microfilmadas -exatamente as que vão para o anexo. Os jornais e revistas que serão transferidos estão sendo guardados em pastas e protegidos com plástico bolha. ‘Teria de ser feita uma higienização antes de pôr em pastas. O papel-jornal é muito fraco e pode sofrer danos no anexo’, diz Varella.

Os funcionários calculam que cerca de 80 mil volumes (grupos de exemplares) serão manuseados na mudança e temem pela interrupção do atendimento ao público, mas a direção da biblioteca afirma que isto não acontecerá.’

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