Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Jornal do Brasil

10/02/2009 na edição 524

ORTOGRAFIA
Deonísio da Silva

Nós falimos e vós falis, ninguém mais, 5/2

‘RIO – Uma boa notícia para este começo de 2009 é que ele e eles não podem falir. Aliás, tu também não podes falir. E digo mais: até eu não posso falir.

Quem garante é a norma culta da língua portuguesa. Falir veio do latim fallere, enganar, fracassar, naufragar. O mesmo étimo está presente no inglês, o latim do império: fail, sinônimo de break, quebrar, become insolvent, tornar-se insolvente, go bankrupt, ir à bancarrota. Na linguagem de advogados e economistas significa ‘suspender os pagamentos aos credores por impossibilidade de satisfazê-los e ter declarada judicialmente a falência’.

Quem quiser falir no presente, pode fazê-lo também em italiano. O verbo é conjugado em todas as pessoas do presente do indicativo: io fallisco, tu fallisci, egli fallisce, noi falliamo, voi fallite, esse faliscono.

Somos um país feito por imigrantes, muitos dos quais vieram do país de Dante. Não será difícil falir em italiano, já que muitos oirundi faliram, faliriam, faliam e falirão, pois o verbo é conjugado em todos os tempos, modos e pessoas no italiano.

O Acordo Ortográfico não vai mexer nesta questão. E o verbo falir continuará defectivo na primeira, na segunda e na terceira pessoas do singular. Na língua portuguesa, nós falimos e vós falis, todas as outras pessoas não podem falir. Pelo menos, no tempo presente do modo indicativo.

O presente do subjuntivo é ainda mais radical. Nenhuma das três pessoas do verbo, tanto do singular como do plural, poderá sequer desejar que venha a falir. Leitores, se alguma autoridade obrigá-los a falir, somente o fará de modo solene, na segunda pessoa do plural: ‘Fali vós’. Mas alguma autoridade dirá isso?

Acho que não. As quebradeiras dispensam as solenidades, ainda que adorem os eufemismos. Lemos que houve descontinuidade no trabalho, não desemprego em massa. Mortes em Gaza? Não, é mais bonito dizer baixas, como se diz dos assassinatos em todas as guerras. Genocídio, vulgo acabar com a raça deles, nem pensar. Limpeza étnica, apesar de a expressão ser horrorosa, soa menos horripilante. Afinal, limpar veio de limpo, do latim limpidus, claro, transparente.

O propósito é evitar o disfemismo, antônimo de eufemismo. Disfemia em grego é palavra de mau agouro, blasfêmia. Já eufemismo, do grego euphemismós, pelo francês euphémisme, hoje designa modo de dizer que doura a pílula das palavras para que ouvintes, espectadores e leitores engulam o que a mídia lhes enfia olhos adentro, goela abaixo.

Os políticos não usam mais a segunda pessoa do plural. Os tempos são outros. Getúlio Vargas ainda cultivou a solenidade da segunda pessoa do plural. Nos discursos e na carta com que fez seu testamento político, diz: ‘Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte’. ‘Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta’.

O jornalista Mylton Severiano, entrevistando o professor e sociólogo Francisco de Oliveira na revista Caros Amigos (Ano XII, número 142, janeiro de 2009) lembra a previsão de Graciliano Ramos: o comunismo não daria certo no Brasil porque o proletariado não sabia o que queria dizer uni-vos. Ouve em resposta que o movimento das ligas camponesas ‘nasceu para comprar caixão de defunto’, pois ‘morria anjinho todo dia’.

Os antigos romanos designavam proletarius aquele cuja única produção era a proles, prole, que só sabia fazer filhos.

A mortalidade infantil e as proles já não são tão grandes, mas ainda estão ligadas a outras questões delicadas, que se não forem resolvidas levarão muitos à falência, palavra do mesmo étimo de falir e de falecer.

* Deonisio da Silva é vice-reitor de cultura e coordenador de letras da Universidade Estácio de Sá’

 

 

TELEVISÃO
Nelson Hoineff

É bom a TV estar tímida, 7/2

‘A televisão aberta brasileira perdeu audiência. Isso é fato, mas não se deve fazer um drama. A explicação é simples: a TV não é mais um veículo massivo como foi no passado. Quando se compara a audiência de uma novela de hoje, como Caminho das Índias, com o público de uma novela de ontem, como Roque Santeiro, por exemplo, que chegou a 99 pontos de audiência, está se comparando públicos muito diferentes.

O público de uma novela de 1995, por exemplo, estava totalmente voltado para a televisão, que era a mídia dominante. Hoje a sociedade tem outras fontes de lazer e cultura à mão, como a internet, o MP3, o celular, a TV paga etc. Ora, isso é bom! Essa conjuntura torna o consumo mais parecido com a sociedade, que é altamente heterogênea. Não deveria ser estranho caírem os índices do Ibope: estranho é haver 70% da população ligada no mesmo programa. Houve uma época, aliás, em que para se sentir parte da sociedade o indivíduo precisava assistir à novela. Se ele chegasse ao trabalho sem ter visto o capítulo do dia anterior não entrava nas conversas, simplesmente não tinha assunto. Hoje, o tempo que as pessoas dedicam à televisão é menor, já que o tempo para tudo é mais exíguo.

Esse fenômeno da queda da importância da TV tem duas grandes causas. A primeira é a emergência das redes por assinatura, que dividiram o público; a segunda, a migração dos jovens para qualquer uma das outras mídias já citadas. São estes últimos que compõem boa parte da audiência atualmente, por terem mais tempo livre.

Portanto, quando você está falando de uma novela que atinge 27 pontos no Ibope hoje, isso é ótimo para a trama, já que é uma margem elevada de público, e ótimo para a população, que está olhando em outras direções também. Não é ‘culpa’ do autor ou da história, é isso mesmo: o público mudou, é preciso aceitar e se adaptar. Com os jornais aconteceu o mesmo. Alguns grandes vendiam 1 milhão por dia e hoje têm tiragem de 300 mil exemplares nos fins de semana.

É necessário contextualizar tudo. O público de TV é três vezes menor hoje do que foi há 10 anos. Mas nem tudo está perdido para essa mídia: o fato de a fabricação da TV móvel estar crescendo e de a nova geração de telefones celulares receber sinal dos canais, possivelmente vai aumentar a audiência dos programas da manhã, que hoje ficam com apenas cerca de 1 ponto.

Em um balanço geral, portanto, é bom que a TV esteja mais tímida.’

 

 

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