Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 15 E 16/04

Jornal de Piracicaba

25/04/2006 na edição 378

CRISE POLÍTICA
Dennis de Oliveira

O jornalismo receiver como inocente útil ou propagandista deliberado

‘A incompetência do jornalismo ‘receiver’ (modalidade de jornalismo que se limita a amplificar declarações de determinadas fontes, sem qualquer contextualização ou relativização do lugar de onde elas falam) fica cada vez mais clara quando os escândalos se sucedem. Há uma dificuldade enorme de se entender os mecanismos estruturais do poder brasileiro o que se materializa em uma tendência de considerar que os fatos são meramente produtos de ações isoladas e aí, a política se resume a uma discussão pretensamente moralista. As argumentações de colunistas e analistas caem na fácil tentação da adjetivação, utilizando de preconceitos já sedimentados na sociedade e, com isto, em nada contribuindo para a elevação do debate político no Brasil.

O jornalista Cláudio Tognolli, da rádio Joven Pan e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, em artigo publicado na Caros Amigos de março, levanta uma interessante hipótese: se antes, o poder das empreiteiras sobre os políticos era enorme; hoje, são os das empresas de telecomunicações, privatizadas na gestão de Fernando Henrique Cardoso. Os grandes negócios do futuro próximo estão na área de comunicações TV digital, novas bandas da telefonia móvel, telemática e todos eles dependem de decisões da esfera política. Assim como as empreiteiras, nos anos 50 e 60 do século passado dependiam de decisões políticas no ramo das obras para aferirem grandes e lucrativos negócios, agora é a vez do setor de comunicações. As principais figuras dos recentes escândalos têm ligações com este setor. Um deles é o misterioso Daniel Dantas, do Banco Opportunity, que tangencia o noticiário político desde os escândalos das privatizações na era FHC sob a batuta do ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros e novamente agora na briga pelo controle da Brasil Telecom, com a Telemig e os negócios escusos com o publicitário Marcos Valério, entre outros.

Tognolli conta, em seu belo artigo, que este é o momento da ação do chamado ‘porta-trecos’: pilhas e pilhas de dossiês chegam as principais redações do país com denúncias, uma grande maioria mentirosa no meio de verdade. É o que procuradores chamam de vender fumaça. Tognolli: ‘Uma figura de dar nojo anda rondando as redações para vender fumaça neste ano eleitoral: alguns o chamam de taco solto, outros de porta-treco. Sempre trazem dossiês com todos esses vícios, de misturar mentira com verdade.’

Tudo isto acontece pela queda na investigação jornalística. Os repórteres, extenuados com o excesso de pautas, alguns sem o preparo necessário, outros com baixíssimo conhecimento das estruturas do poder e há os por intenções eticamente condenáveis (como uma poderosíssima revista semanal de informações cuja editora fez doações à campanha para um deputado federal do PSDB, o que por si só já coloca senões na sua isenção editorial) acabam limitando-se a potencializar as declarações plantadas dos figurões da política, a publicar dossiês que podem lhe render furos de reportagens (e muitos ‘foras’). Ou como inocente útil ou como propagandista deliberado de determinadas idéias, o jornalismo político está cada vez mais se afastando do seu real papel de fomentador do debate público.

Dennis de Oliveira é coordenador do curso de jornalismo da Unimep e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP’



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