Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Jornal Já

02/05/2006 na edição 379

ENTREVISTA / LUIZ CLÁUDIO CUNHA

Elmar Bones

‘Tem que abrir essa caixa-preta’, 28/04/06

‘Com passagem pelas redações dos principais veículos de comunicação do país, o jornalista gaúcho Luiz Cláudio Cunha, 55, vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo em 1979, ocupou o cargo de editor de Política da sucursal de Brasília da revista ISTOÉ nos últimos quatro anos. Foi demitido após divulgar, em 27 de março, sua ‘Carta ao Chefe – Como a ISTOÉ virou ISTOERA’. A mensagem foi enviada ao diretor-editorial da revista, Carlos José Marques, com cópias para Domingo Alzugaray, diretor da Editora Três, e para o Observatório da Imprensa.

O texto relata – com exemplos citando edição, matéria, página, e comparando material original com o publicado – o ‘esquentamento de matérias’, com direito a ‘melhora da fala dos entrevistados’. Também mostra foto-montagens que foram apresentadas como imagens verdadeiras, caso de José Dirceu pilotando uma Harley Davidson que ele iria comprar (o ex-ministro está processando a revista, diz nunca ter andado de moto na vida).

É mais um desgaste para a ISTOÉ, que sofreu com outros episódios recentes: após dar capa ao caso Ibsen Pinheiro, denunciando que o ex-deputado fora incriminado por um erro de Veja, a revista concorrente publicou matéria ‘Uma farsa chama IstoÉ’, em que diz, entre outras coisas, que a revista publica matéria paga. Depois, durante as investigações sobre o mensalão, outra publicação da Editora Três foi acusada por Marcos Valério de ter recebido R$ 300 mil para não publicar uma entrevista com a sua secretária.

Os episódios narrados por Luiz Cláudio Cunha aconteceram após a ida de Carlos José Marques para a direção da revista, em janeiro deste ano. ‘Quero quebrar esta caixa-preta e propor um debate sobre o empobrecimento continuado de algumas de nossas principais revistas semanais. ISTOÉ afundou num mar de futilidades e amenidades, tragada por uma pauta desorientada e açoitada por textos curtinhos de idéias e de talento. Nas suas mãos, a velha e boa semanal do Seu Domingo morreu, acabou, já era’, ataca o jornalista, em sua carta.

Nesta entrevista ao JÁ, feita por e-mail, Cunha explica os motivos de seu gesto que, até o momento, só está tendo repercussão na internet.

JÁ – Você fez o que muitos profissionais têm vontade de fazer, mas não fazem por medo de se queimar no mercado. Você acha que se queimou?

Luiz Cláudio Cunha – Se eu estivesse preocupado com queimaduras, não teria mandado brasa na carta. Qualquer outra consideração teria tirado dela a sinceridade e a contundência necessária para que fosse lida com atenção. Botei pra fora o que estava entalado na garganta e comprimido no coração. Não pensei muito nas possíveis conseqüências de mercado que ela poderia produzir, fechando portas aqui ou ali.

Pensei mais em abrir uma discussão que fica, quase sempre, confinada a quem demite e a quem é demitido – e depois é afogada numa mesa de bar. Foi por isso que resolvi, de forma pensada, mandar uma cópia ao Alberto Dines, no Observatório da Imprensa, para não correr o risco de ver minha longa missiva jogada na lixeira do Marques. Se ele não leu, muita gente com certeza leria no Observatório, abrindo a discussão que era meu principal objetivo.

Acho que consegui chegar lá, para desencanto do novo diretor, que não conseguiu captar o lado mais generoso de minha intenção. Tanto que, dias atrás, conversando com um amigo meu, ele se lamentou, achando que eu fui ‘covarde e sorrateiro’ ao divulgar a carta: ‘Essas coisas não deviam ser colocadas na rua’, reclamou o Marques. Se a rua condena, é porque algo condenável está sendo cometido. O grave é que o Marques, pelo jeito, sabe disso.

JÁ – Quais os fatos que deram origem à carta?

LCC – Desde a chegada do Marques à direção da revista, em janeiro, as coisas mudaram – para pior. Na gestão anterior, do Hélio Campos Mello, eu me surpreendi com o nível de autonomia e liberdade que a redação de São Paulo dava aos seus repórteres. A sucursal de Brasília propunha a pauta, discutia a linha da matéria, sugeria a foto, o título, a chamada, o lead – e o texto saía praticamente incólume. Com o Marques, chegou a idade das trevas. Com seu brilho e sapiência, ele determinava o título, o tom do texto, a abertura da matéria e até a foto, sempre pré-determinada por um fax enviado de São Paulo mostrando a cena, a pose, o ângulo exato que ele queria ver na ilustração produzida pelo fotógrafo.

Subitamente, a equipe de Brasília, onde militava gente do talento e da experiência de Tales Faria, Sônia Filgueiras, Donizete Arruda, Amaury Ribeiro Jr, André Dusek, se viu reduzida a um bando de robôs, esperando o bip redentor do gênio de São Paulo. Nosso espaço profissional foi se estreitando, à medida que crescia o espantoso intervencionismo do novo diretor, até que começou o processo de enxugamento da revista. Sem consultar o chefe da sucursal, Tales Faria, ele mandou demitir o Amaury e o Donizete. Tales pediu as contas e eu também. Marques mandou dizer que não tinha dinheiro para me demitir. Fiquei ali, como morto-vivo, num projeto que não me agradava, com uma direção em que não confiava, pensando no que fazer. Resolvi botar minha aflição numa carta, aberta ao dono da editora e ao site de debate dos jornalistas, e desabafei. Uma semana depois fui demitido. E a porteira, pelo jeito, continua aberta.

Esta semana, pediu demissão a editora de economia da sucursal de Brasília, Sônia Filgueiras. No Rio de Janeiro, quem acaba de pedir as contas é o diretor da sucursal, Mino Pedrosa. Sinal dos tempos. Mino é o repórter responsável por dois momentos históricos do jornalismo brasileiro: a entrevista de Eriberto, o motorista que derrubou Collor, e a investigação sobre a violação do painel do Senado, que levou à renúncia dos senadores Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda. A ISTOÉ de Marques já não estimula, nem segura profissionais deste quilate.

JÁ – Você denuncia que, no caso das fotos, ainda havia um problema mais grave, a manipulação.

LCC -Nunca vi, em quase quatro décadas de jornalismo, tanta ousadia no uso desrespeitoso da fotografia. Desrespeito com o profissional que fez a foto, desrespeito com a personagem da foto e, mais grave, desrespeito com o leitor, enganado por uma trucagem que adultera a realidade, que mente, que distorce, que engana. Não é esta a função do jornalismo, não é este o papel do jornalista. Na carta, eu cito o exemplo da surfista catarinense, que teve o rosto montado numa foto captada no Havaí, e o exemplo grotesco do ex-ministro Zé Dirceu montado numa moto que ele nunca viu, nunca teve e nunca dirigiu, pelo simples motivo de não ser motoqueiro. São grossas mentiras, ilustradas, que mostram o nível de irresponsabilidade a que pode chegar uma revista entregue a maus profissionais.

São deslizes éticos que merecem uma atenção redobrada de nossos sindicatos e a condenação pública dos leitores. Não são exemplos isolados. A cada dia, aparecem novos casos, provando que Marques pode ser uma espécie de ‘serial killer’ da ética jornalística. Vou dar aos leitores do JÁ um novo exemplo – ainda inédito – de licença poética do incansável Marques. A edição 1901 de ISTOÉ, de 29 de março passado, traz a reportagem ‘Índio quer vestibular’. É um exame exclusivo da Universidade de Brasília destinado aos povos indígenas. Na página 52, uma ilustração dupla: uma foto de índios numa sala de aula e, ao lado, a imagem bonita de um índio de cocar, rosto pintado de vermelho, braços cruzados segurando um caderno e uma caneta Bic.

A legenda da revista diz que as fotos são de Acácio Pinheiro/Cespe-UnB. Mentira. Só a foto da sala de aula é de autoria de Acácio. A outra é do fotógrafo André Dusek, da sucursal de Brasília da ISTOÉ, que fotografou o índio xavante João Tsidzapi seis anos antes, numa matéria especial sobre os 500 anos do descobrimento do Brasil. A foto foi publicada na página 36 da edição 1595 de ISTOÉ, do dia 26 de abril de 2000. O xavante João aparecia com a cara lavada e séria de índio que não via motivo nenhum para festa. Tanto que não exibia nenhuma tintura no rosto, nem cocar.

O xavante não tinha cocar, nem pintura, nem caderno, nem caneta. De semelhança, entre uma foto e outra, só o adereço branco no pulso esquerdo. Marques, pelo jeito, achou a foto original muito descolorida e tascou uma folclórica alegoria para deixar nosso casmurro xavante com cara de cacique carnavalesco da Marquês da Sapucaí. E chegou ao requinte de enfiar o caderno e a esferográfica para sintonizar melhor a foto com o tema da reportagem. Marques, ao que parece, é um daqueles brancos que acham que índio gosta mais de apito do que de respeito à sua identidade. Pior: imagina que os leitores fazem parte da tribo de selvagens ignorantes que se deixam enganar por espelhinhos e bugigangas jornalísticas.

JÁ – Qual foi a repercussão? Além do Observatório da Imprensa, alguém mais publicou? Fora da internet, alguma coisa? Por que uma reação dessas?

LCC -No que me diz respeito, a repercussão foi excelente. Nunca recebi tanto telefonema, tanto e-mail, todos tocantes pela solidariedade, pela força, pelo sentimento coletivo de desabafo. Fora a repercussão em blogs cuja existência eu nem imaginava. Mas senti uma certa ausência no debate das chamadas entidades de classe, os sindicatos, que deveriam ser os principais interessados na questão. Não sei bem qual a razão, mas a carta passou meio batida pela área. E as graves questões éticas que levanto, imagino, seriam um bom tema para reflexão de todos nós, a começar pelos sindicatos, que se batiam tanto pelo finado Conselho Federal de Jornalismo. Os problemas que levanto na carta não precisam de nenhum CFJ para serem debatidos. Os atuais conselhos de ética sindicais já seriam uma instância apropriada para isso. Mas eles devem estar ocupados com problemas mais urgentes.

JÁ – E a grande imprensa, em fase tão moralista, porque faz que não vê?

LCC -Não sei. Talvez não considerem esta questão relevante.

JÁ – A ISTOÉ seria um caso extremo no conjunto da imprensa brasileira ou, ao contrário, é representativa de um modelo vencedor?

LCC – Infelizmente, não parece ser uma exceção. E pode ser o exemplo de um modelo perdedor, a partir da gestão Marques. Este jornalismo semanal ligeirinho, colorido como uma arara, com a profundidade de um pires e a eternidade de uma bolha de sabão, pode estar se espalhando como uma saída esperta para a crise econômica, que impõe redações baratas, enxutas e rentáveis. A concorrência com a mídia eletrônica e o boom da Internet estão produzindo um efeito esquisito nas revistas: em vez de se diferenciarem, estão cada vez mais mesmerizadas pelo mundanismo, pela futilidade, pela superficialidade.

Não querem incomodar ninguém – nem o poder, nem o cérebro do leitor. Reproduzem em suas páginas os modismos e as demandas idiotas de temas que pretendem resumir as graves questões da sociedade: a nova dieta milagreira, os cuidados com o corpo e a estética, a mais recente engenhoca high-tech que vira sonho de consumo, o universo shopping center que resume o horizonte da classe média que compra revistas cada vez mais amenas. Eu ainda sou otimista e acho que o leitor não é, não pode ser o imbecil que eles imaginam.

JÁ – Como vê a atuação da imprensa na atual crise política?

LCC – Sempre que a imprensa sai na frente, com seus perdigueiros, e antecipa fatos e revela bastidores, ela cumpre exemplarmente seu papel. Em vários momentos, agora e no passado recente, isso aconteceu. Quando ela se acomoda, só repercutindo o que os políticos e o Congresso debatem, ela patina e perde o passo. Boa parte do relatório da CPI dos Correios foi antecipado e induzido pela cobertura da imprensa. A mesma imprensa que se surpreendeu, no geral, com a contundência e precisão da denúncia do procurador-geral da República, indo além do que dizia a mídia e do que concluía a CPI. Ninguém teve a coragem, como o procurador, de chamar Zé Dirceu de chefe da quadrilha.

JÁ – E os jornalistas, os ditos profissionais? Boris Casoy pedindo impeachment de Lula significa o quê?

LCC – Acho que o impeachment pode vir de duas formas: ou pela rejeição do eleitor, nas urnas de outubro, ou por fatos graves que apontem o envolvimento e a responsabilidade de Lula lá com os 40 espertalhões denunciados pelo procurador-geral. Não cabe aos jornalistas clamar por impeachment ou proclamar inocência do presidente. Os fatos devidamente apurados é que vão determinar se Lula é o sujeito oculto da quadrilha ou uma figura meramente omissa diante de tanta roubalheira. O julgamento político do presidente, pelo tacão precoce do impeachment ou pela vontade soberana do eleitor, vai se processar, no seu devido tempo, na cabeça pensante do cidadão. O jornalista, como sempre, vai testemunhar a História, não antecipá-la.’



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