Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > CRÍTICA & JORNALISMO

José Paulo Lanyi

29/03/2005 na edição 322

‘Interessante, a entrevista de Melchíades Cunha Júnior no ‘Papo na Redação’ deste Comunique-se. Boa, sobretudo pela sinceridade com que o ombudsman interno do Estadão define o seu estado de espírito ao analisar os seus colegas: ‘Só sei que não desejo a função para ninguém, nem para o pior dos meus inimigos’. Douglas Couto, registrado aqui como freelancer, quis saber se o entrevistado se sentia à vontade para criticar os próprios colegas de Redação. A resposta foi franca, como, de resto, todas as outras do jornalista de São Paulo. ‘Não. E, para ser sincero, não gosto da função. Mas procuro exercê-la com profissionalismo. A única coisa que me favorece é a minha idade. Tenho 67 anos, muita janela e muita quilometragem. Mas não gosto de ser crítico e, comumente, sou obrigado a sê-lo’.

Um leitor não gostou da resposta do ombudsman e rechaçou-lhe o sentimento de contrariedade: ‘Esquisita a posição do sr Melchíades. Se não gosta, peça as contas’. Não, as coisas não são tão simples assim. Digo isso de cadeira porque, guardadas as características de cada função, a crítica ‘externa’ da mídia também é circundada pela aura da incompreensão e do desconforto. E não me passa pela cabeça ‘pedir as contas’ por isso.

Fala-se muito da crítica, mas pouco das motivações. Por que alguém decide ser crítico profissional? Tenho algumas pistas:

1) O sujeito é apaixonado pelo setor analisado e faz de tudo para melhorá-lo;

2) O sujeito é apaixonado pelo setor analisado, mas, por soberba (expressão utilizada por Melchíades, em outro trecho da entrevista), faz de tudo para destruí-lo;

3) O sujeito é um especialista involuntário. Trabalhou tanto no assunto que, por decisão própria ou a convite de terceiros, enveredou-se pela análise permanente;

4) O sujeito é pop. Exemplo: aquele músico que, do dia para a noite, torna-se o astro dos comentários esportivos da TV (e do jornal também);

5) O sujeito é sádico e quer aparecer. Combinação deletéria… Quanto mais aparece, mais estragos produz e, assim, mais aparece…

6) O sujeito é especialista em generalidades (ou seja, jornalista clássico). Ele é tão bom nisso que, com algum treino, poderá falar, com rara propriedade, sobre as coisas do turfe e, no dia seguinte, da culinária malaia;

7) O sujeito é chato, palpiteiro, sabe tudo. Tem que ser ouvido, ainda que à força;

8) O sujeito é ‘polêmico’. De preferência, ‘do contra’, ainda que não acredite em nada do que escreva.

Não há nada mais solitário do que o exercício honesto da crítica do trabalho dos colegas. Se o crítico fala mal, é ‘traíra’, o ‘quinta-coluna’ da confraria. Se fala bem, é puxa-saco, interesseiro ou, para ficarmos no patamar mais ameno, provoca ciúmes nos que, ‘injustificadamente’, não foram elogiados.

O crítico é uma espécie de maquiador de cadáveres. A semelhança está no fato de ser um profissional necessário, ainda que poucos consigam compreendê-lo…’Como alguém pode ter estômago para isso?’. A diferença é que, quando não se debruça nas memórias, também é dado a estragar a imagem dos vivos.

O crítico é o coveiro, é o lixeiro, o cidadão que tem que fazer o que a maioria não quer. Bom, pela entrevista do Melchíades e pela experiência deste colunista, muitas vezes o crítico também não quer.

Pior do que ser crítico é ser crítico no Comunique-se. Tudo o que se escrever aqui em cima será criticado aí embaixo. Nos ‘tijolinhos’ se exerce a crítica da crítica. De forma geral, o leitor é jornalista, o que piora ainda mais a situação dos articulistas do portal. Não sei se você sabe, mas jornalista é bicho dos mais neuróticos, dos mais imperativos, dos mais ‘opinionistas’ (como destacou Melchíades), dos mais pretensiosos de que se tem notícia na face da Terra. Daí para a maldadezinha, para as campanhas personalistas, para a irresponsabilidade é um salto de formiga. Ainda bem que há o contraponto dos que criticam com a sobriedade que o equilíbrio impõe.

A solidão do crítico cresce em progressão geométrica, quando ele se propõe a denunciar o que quer que seja, nesse nosso cercadinho. Enfrenta a ira desgovernada dos denunciados (calúnias, injúrias e difamações a quilo e a la carte), a oposição dos amigos dos denunciados, a indiferença de uma maioria apática, o despeito dos invejosos, o aplauso silencioso dos que lhe abraçaram a causa (tão silencioso que de nada vale)…

Tudo isso na balança, sempre perguntarão a quem queira trabalhar direito: – Mas vale a pena?

A resposta poderia ser esta: – Nem sempre. Mas alguém tem de fazê-lo.’



PRÊMIO ESSO EM AÇÃO
Milton Coelho da Graça

‘Renan strikes again. Na Indonésia (2).’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 22/03/05

‘Da mesma maneira como no discurso ao receber o Prêmio Esso de Reportagem 2004, Renan Antunes de Oliveira não sabe como parar ao contar a história de sua matéria com os brasileiros presos na Indonésia. Ele reconhece ser prolixo quando fala, mas insiste – como qualquer outro bom repórter: tudo o que escreve merece ser publicado.

Esta história começou em Joinville, quando ele fazia uma matéria sobre a fábrica Tigre (vocês sabiam que há mais de dois anos os trabalhadores ocuparam a fábrica e a mantiveram operando? Alguém viu alguma matéria sobre isso em nossa imprensa?). A mãe de Rodrigo estava na cidade e dava uma coletiva. Renan achou que seria perda de tempo fazer perguntas ali – ‘numa situação dessas as mães choram, choram, e não dizem nada’.

Renan preferiu procurar o advogado da família e marcar um encontro para aquela mesma noite. Pediu então a d. Clarisse e outros parentes de Rodrigo ajuda para visitar ‘o menino’. Mas garante que não assumiu qualquer compromisso sobre o conteúdo da reportagem que iria escrever e explicou claramente que ‘não dá para confiar em jornalista’.

O medo de Renan é que o Fantástico chegasse antes à Indonésia e, por isso, tratou de correr. Fez contato com d. Carolina, mãe de Mauro, e conseguiu também o apoio dela. Aí, foi a São Paulo e vendeu sua idéia ao Hélio Campos Melo, diretor de redação de IstoÉ.

Passagem na mão, voou num sábado para Amsterdam, engrenou a conexão para Jacarta e, domingo, com o benefício de dez horas de diferença de fuso, já estava num hotelzinho em Tangarang, a um quilômetro da cadeia. Com notas de 50 dólares, abriu caminho na burocracia presidiária e, antes que a noite chegasse, já estava conversando com Mauro e Ricardo na sala do comandante.

Renan dá mais um conselho experiente: ‘Em qualquer lugar do mundo, sempre aparece alguém honesto.’ Foi por isso que não pôde entrar e tirar fotos dos presos em suas celas. Não houve nota de 50 capaz de convencer o sujeito que tinha de dar a autorização. Foram quatro conversas de duas horas cada que resultaram nos dois textos – o da IstoÉ e o do pequeno Jornal Já, de Porto Alegre. A diferença entre os dois é a velha inimiga de Renan: a disciplina editorial. Mário Simas Filho, redator-chefe da revista, admira Renan imensamente, mas diz – como dezenas de outros chefes pelo Brasil afora – que ele não é fácil de aturar. O texto inicial era grande demais – 40 mil toques – e alguns trechos foram mexidos pelos editores. Renan implicou com os cortes, as mexidas e até com o Paulo Coelho na capa.

Foram horas de discussão (e até desaforos), mas um acordo foi alcançado com a capa já definida e o caderno com a matéria já na gráfica. Mas os dois lados acham que valeu a pena. O consolo de Renan foi colocar a íntegra de sua matéria no valoroso Jornal Já, que pode ser acessado aqui.

***

‘Renan strikes again. Na Indonésia.’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 20/03/05

‘Não deixem de dar uma olhada na ISTOÉ (1849, de 23 de março). Renan, o imprevisível, ganhador, (sob queixas e aplausos) do Prêmio Esso de Reportagem 2004, está em Jacarta contando a história de Mauro e Rodrigo, os dois brasileiros apanhados com cocaína – numa asa delta e numa prancha de surfe, respectivamente.

Como é que Renan foi parar na Indonésia, não tive tempo de apurar. Quem pagou a viagem e o resto, também ainda não sei. Mas ele está lá, caros amigos, mantendo a velha tradição do repórter que corre atrás. Tenho certeza de que nós, os jurados finais do Esso 2005 – Dora Kramer, Eduardo Ribeiro, Luiz Weis, Marcos de Sá Correia, Roberto Mugiatti, Mário Chimanovitch e eu – ganhamos mais um motivo para confirmar que acertamos. Vocês, por favor, cliquem no link e leiam mais uma incrível matéria do Renan.

Passaralho pode realmente voar

Todos conhecemos o estilo do sr. Nelson Tanure para equilibrar o orçamento dos seus jornais. Agora mesmo, um mês antes de lançar o new look da Gazeta Mercantil (anunciado para meados de abril), achou conveniente iniciar os festejos com a demissão de mais 30 pessoas. Quase simultaneamente, lançou uma proposta para assumir o controle da Varig. Sua oferta inclui 100 milhões de dólares em grana viva – vindos de associados ainda não-identificados. O ministro José Dirceu acha interessante essa oferta, como também a Fundação Rubem Berta, que, segundo Luiz Nassif, é o principal obstáculo para uma solução adequada da confusão Varig. Pilotos, comissários e todo o ‘conteúdo’ dos aviões deveriam conversar com os jornalistas para saber o que significa o vocábulo ‘passaralho’.

Ainda sobre JB: Ziraldo vai assumir o comando do Caderno B, recebendo por isso um pagamento mensal de 40 mil reais, segundo fonte ligada à direção do jornal. Ziraldo não confirma esse número porque cada um dos colaboradores será contratado diretamente pelo JB e ele desconhece o total. O novo Caderno B será, na verdade, o Caderno do Rio e, entre outros nomes, terá Aldyr Blanc, Fausto Wolff, Marina Colassanti, Vitor Paiva (filho de Miguel Paiva, criador do gatão de meia idade), Fernando de Castro e outros.

Ziraldo diz que estava devendo uma baba ao JB pela impressão da revista Bundas e propôs pagar a conta com trabalho (pelo menos durante um ano ou ano e meio) num encontro com Nelson Tanure. ‘Pensava que ele era japonês e a outra surpresa foi a simpatia que mostrou durante a conversa’ – relembra Ziraldo.

O novo Caderno Rio surgirá em meados de abril, provavelmente junto com o novo visual da Gazeta Mercantil.’



Renan Antunes de Oliveira

‘Na Balada Da Morte’, copyright Jornal JÁ, 18/03/05

‘Em Jacarta

Ainda não caiu a ficha do paranaense Rodrigo Muxfeldt Gularte, 32 anos, nem a do carioca Marco Archer Cardoso Moreira, 43, os dois brasileiros condenados à morte na Indonésia por tráfico de cocaína. Na quinta-feira 17, Marco perdeu o último apelo à Suprema Corte, dependendo agora de um improvável perdão presidencial para ser beneficiado com prisão perpétua.

Durante quatro dias de entrevistas na cadeia de Tangerang, entre a quarta-feira 9 e o sábado 12, eles deram muitas gargalhadas relembrando suas aventuras. Os dois não estavam nem aí para a possibilidade de enfrentar o Criador, via pelotão de fuzilamento, ou passar o resto de suas vidas presos nos cafundós da Ásia. Se sentem como se tudo fosse apenas uma bad trip.

Eles confessaram ser traficantes tarimbados. E demonstraram, sim, algum arrependimento, mas só por ter embalado mal a droga que levavam em seus equipamentos esportivos, permitindo a descoberta pela polícia. Ela pegou Rodrigo com seis quilos escondidos em suas pranchas de surf, em 2004. E Marco com 15 na sua asa delta, em 2003.

Os dois homens que hoje dividem a mesma cadeia chegaram lá por trajetórias diferentes no mundo das drogas. Rodrigo foi mais usuário do que traficante, começou cheirando solvente aos 13 anos. Marco entrou no tráfico aos 17, já no topo da pirâmide, diretamente com os cartéis colombianos. Ambos fizeram várias viagens bem-sucedidas para muitos países, antes de se danaram no aeroporto da capital Jacarta, portão de entrada para se chegar na ilha de Bali, o paraíso dos pirados.

Os dois faziam parte de gangues diferentes. Na cadeia, formaram um laço instantâneo. Ficaram amigos ao ponto de dividir prato e colher. Suas afinidades: não terminaram os estudos, jamais trabalharam, sempre foram sustentados por outros, exploraram as famílias, viveram só pras baladas.

PROTEÇÃO MATERNA

As mães deles – mulheres sofridas, esperançosas e guerreiras – estão em campanha pela liberdade dos ‘garotos’, como elas e parte da imprensa tratam os dois barbados. Depois de gastarem os tubos com eles, estão raspando os cofres para resgatá-los. Na falta de uma boa causa além do incondicional amor de mãe, usam a bandeira do repúdio à pena de morte, de forte apelo na fatia esclarecida da humanidade.

Dona Clarisse, de Rodrigo, mobiliza o Itamaraty para proteger o seu. Dona Carolina, de Marco, obteve da Câmara de Deputados o envio de um apelo de clemência ao parlamento indonésio. A proposta, do deputado Fernando Gabeira, foi aprovada em plenário com apenas um voto contra, do deputado Jair Bolsonaro, um ex-militar linha-dura que há décadas luta pela adoção da pena de morte no Brasil.

Os diplomatas brasileiros em Jacarta trabalham nos bastidores para reverter as sentenças. Estão confiantes que vai dar certo. Notam a moleza do sistema porque só um traficante foi executado até hoje, dos 30 condenados sob as duras leis antidrogas indonésias de 2000. Era um indiano pobretão.

Pela expectativa otimista deles será possível reduzir a pena de Rodrigo para prisão perpétua, em segunda instância, negociando em dinheiro uma redução maior ainda na terceira, para 20 anos, com soltura em sete, talvez 10 – é sabido que o Judiciário indonésio adota uma regra não-escrita de trocar tempo de encarceramento por uma pena pecunária.

Eles admitem que no caso de Marco, já sentenciado em última instância, vai ser mais difícil. Será preciso um perdão presidencial apenas para reduzir de pena de morte para prisão perpétua, e depois negociar a saída. É que ele se tornou uma causa célebre porque fugiu do aeroporto quando foi descoberto com a droga, protagonizando uma caçada policial acompanhada em rede nacional de tevê.

Os custos para dar jeitinho nas sentenças e as despesas para manter os dois em celas cinco estrelas podem chegar a quase 200 mil dólares por cabeça. Dona Clarisse tem até mais para salvar Rodrigo; dona Carolina anda passando o chapéu. O desenrosco deve ser demorado: na melhor das hipóteses seus garotos voltariam pra casa entrados em anos, um quarentão, outro cinqüentão.

Agora o quadro sinistro: o fuzilamento do indiano pobretão, ocorrido em fevereiro, sinaliza uma mudança perigosa para os sonhos de liberdade dos brasileiros – a de que só dinheiro já não adianta mais.

É que a execução saiu por insistência do general durão Togar Sianipar, chefe da agência antidrogas deles. O homem está ‘hukuman berta bagi pembana narkotik’. É isso mesmo: punindo severamente o narcotráfico.

Togar prometeu livrar a Indonésia das drogas até 2015, combatendo também a corrupção do sistema judicial – fechando o balcão de negócios a diplomatas e criminosos. Togar foi quem mandou pintar aquele aviso do hukuman em letras garrafais no aeroporto de Jacarta. Seu plano é simples e brutal: fuzilar os traficantes que pisarem no país.

‘MORTE AOS CRISTÃOS’

O povão muçulmano o apóia. No tribunal, durante o primeiro julgamento de Rodrigo, em fevereiro, a platéia pedia ‘morte aos traficantes ocidentais cristãos’, descrição na qual se encaixam os dois brasucas. O pedido da massa deixa o governo firme para rejeitar as campanhas internacionais por direitos humanos, livre de dúvidas existenciais sobre a pena de morte.

O modelo prende e mata já deu certo na política, em 1965, quando o país se dividia entre esquerda e direita. Em quatro meses, o presidente-general Suharto implantou o capitalismo fuzilando quase um milhão de comunistas.

Esta tradição não parece assustar os brasileiros sentenciados ao fuzilamento. Nos momentos de maior delírio eles já se enxergam, Marco em Ipanema e Rodrigo nas praias de Floripa, contando aos amigos como se livraram da fria.

Rodrigo sonha que políticos influentes amigos da mãe vão pressionar Lula para que ele interceda oficialmente a seu favor, pedindo clemência ao presidente indonésio. Marco anda tão avoado que até já encomendou de Casemiro, um amigo no Rio, o último modelo de asa-delta.

Paradoxalmente, a prisão é o momento de glória de suas vidas: ‘Somos os únicos entre 180 milhões de brasileiros’, diz Rodrigo, deslumbrado com a notoriedade obtida com o narcotráfico – cujo pico de audiência é entre jovens ricos praticantes de esportes radicais.

Eles acreditam nas chances de transformar o limão numa limonada. Estão com tudo pronto para botar um diário na internet. Planejam contratar videomakers para acompanhar seus dias. Negociam exclusividade na cobertura jornalística, começaram a escrever livros com a experiência.

A estratégia familiar-diplomática é varrer o assunto drogas pra baixo do tapete, dirigir a sensibilidade dos brasileiros contra a pena de morte. As mães vão chorar em rede nacional de televisão enquanto for preciso, até se criarem as condições políticas para que Lula peça clemência.

Mesmo com um mar de lágrimas será difícil para o presidente interceder por traficantes confessos, num momento em que o mundo enfrenta o pesadelo das drogas. Para superar o conflito moral, os diplomatas esperam a hora certa para usar o argumento jurídico da inexistência da pena de morte no Brasil, o que em tese não permitiria que ela fosse aplicada aos brasileiros no exterior – uma sandice que equivaleria a um passaporte à impunidade.

Uma benção para os planos de libertação foi o tsunami que arrasou uma zona pobre da Indonésia: familiares e diplomatas contabilizam cada avião brasileiro de ajuda humanitária como um ponto para a futura negociação.

MORDOMIA NA PRISÃO

Enquanto esperam, os dois compram privilégios para viver como marajás na cadeia – ambos estão com o cordão umbilical ligado nas contas bancárias das mães: ‘Aqui é como numa pousada, muito legal, só que jogaram a chave fora’, diz Rodrigo, satisfeito, mesmo sendo acostumado ao conforto de sua suíte com sauna, na casa da família, em Curitiba. Marco também não resmunga, mas sente saudades dos apês na Holanda, EUA e Bali.

Enquanto os 1300 presos muçulmanos estão amontados em 10 por jaula, cada um dos brasileiros tem sua cela. E elas estão equipadas com TV, ventilador, geladeira, forno elétrico, som pauleira. No jardim privativo criam pássaros, podam bonsais, alimentam os peixes do laguinho, cuidam da gata Tigrinha.

O serviço é excelente: presos pobres fazem a faxina, lavam as roupas deles, são garçons nas festas, cabeleireiros, pedicures. Os dois podem receber gente sem formalidades, todos os dias. Rodrigo já foi visitado pela família, pela namorada, a empresária carioca Adriana Andrade, e pelo parceirão Dimitri ‘Dimi’ Papageorgiou.

Dimi é outro garotão com mais de 30, carioca de pais gregos, acusado de ser líder da quadrilha contratante do malfadado transporte das pranchas recheadas de coca. Apareceu na cadeia para ver seu mula Rodrigo, deu 2 milhões de rúpias para ele se virar, dinheirama que vale só 500 pilas. Mas agora Dimi não vai mais poder ajudar: ele foi preso, em fevereiro, pela Polícia Federal, no Brasil – aquelas rúpias dadas a Rodrigo poderão lhe fazer falta.

Marco recebeu a visita de amigos de Bali e de uma senhorita conhecida apenas como ‘Dragão de Komodo’, sua namorada indonésia. A moça também é sentenciada, está na área feminina da prisão. Dona Carolina já esteve com ele duas vezes, a última no niver, em outubro, quando deu uma festinha com brigadeiros e refris – depois, tirou uma soneca na cela do filho.

Dona ‘Carola’ é funcionária pública aposentada, superdescolada. Conquistou a simpatia dos carcereiros de Marco com seu ‘show do milhão’. Foi assim: cansada do assédio deles por dinheiro para cigarros, ela trocou 1 milhão de rúpias em notas de 10 mil (quase R$2,50) e saiu pelo pátio jogando as cédulas para o alto. Guardas e presos lutaram para recolher a mixaria.

Mais showtime na cadeia: os dois recebem suas visitas íntimas no sofá da sala do comandante. De vez em quando pinta um ecstasy. E nas noites quentes rola até um chopinho gelado, cortesia de um chefão local, preso no mesmo pavilhão. Lá, a balada não pára nunca.

A comida é tudo de bom. Marco tem curso de chef na Suíça, dá show na cozinha. Na semana passada seu cardápio incluía salmão, arroz à piemontesa, leite achocolatado com castanhas para sobremesa. O fornecedor dos alimentos é Dênis, um ex-preso tornado amigão. Ele pega a lista por celular e traz tudo fresco do Hypermart.

Quando o amigão está ocupado e a geladeira vazia, Marco chama a cobrar a mãe no Rio, que liga pra mãe de Rodrigo em Curitiba, que aciona a Embaixada, que despacha um chofer pra garantir o fome zero da dupla.

Como Tangerang é uma prisão provisória, nos arredores de Jacarta, Rodrigo e Marco estão como naquela piada da hora do recreio no inferno. O secretário do diabo pode anunciar o fim dos privilégios a qualquer momento. Pior do que o fogo será a transferência deles para o Carandiruzão de uma remota ilha no Sul, onde serão misturados com 10 mil presos muçulmanos: aí será bom começarem a rezar para Alá.

Sempre otimistas, já têm planos para tentar se refazer lá embaixo. Rodrigo bola um jeito de demonstrar sua habilidade em pesca submarina, para presentear peixes ao comandante da nova cadeia e conquistar sua amizade.

Difícil saber como é que lhe ocorreu uma idéia destas. Mas é fazendo planos absurdos como esse que eles passam os dias. As baladas da cadeia, o papo encorajador das famílias, o apoio dos diplomatas e a expectativa de que suas ações possam ficar impunes dão um tom surrealista pra todas conversas deles.

Num papo, Rodrigo revela sua crescente admiração pelo companheiro, já o acha até injustiçado. ‘Marco teve uma vida que merece ser filmada’, exalta, contando ter oferecido um roteiro sobre o amigo à cineasta curitibana Laurinha Dalcanale. ‘Ele fez coisas extraordinárias, incríveis.’

O repórter pede um exemplo de tal obra. ‘Ué, viajou pelo mundo todo, teve um monte de mulheres, foi nos lugares mais finos, comeu nos melhores restaurantes, tudo só no glamour, nunca usou uma arma, o cara é demais.’

Menos, Rodrigo. Menos.

Ele pára alguns segundos, reflete um pouco. Sai devagar do deslumbramento com as vantagens do narcotráfico sobre um emprego comum. Muda o tom e pede ajuda: ‘Por favor, brother, quando você for escrever, dê uma força, passe uma imagem positiva nossa, pra ajudar na campanha’.

Então diga lá o que você vai fazer quando for solto: ‘Bota aí que eu quero trabalhar 10 anos pro governo dando palestras pra crianças sobre a roubada que é o tráfico’.

Ele diz e saboreia o efeito das palavras. Traga seu Marlboro, acaricia Tigrinha. Parece sério, joga a fumaça pra cima. Quando solta tudo, o corpo já está se chacoalhando. É que ele não conseguiu conter o riso.

‘VOU SAIR DESSA’

Seu último desejo: voar mais uma vez em São Conrado

Marco Archer já esperava ter a pena de morte confirmada no Supremo Tribunal indonésio, como ocorreu na quinta 17. Sua única esperança agora é um apelo do Itamaraty ao presidente indonésio por clemência. Isto lhe pouparia a vida, mas o deixaria para sempre na cadeia. A execução ainda pode demorar cinco anos.

Quem é Marco? Um carioca, com o apelido chinfrim de Curumim. Ele cresceu classe média na Ipanema dos ricos. Queria ser um deles. Em 80, aos 17 anos, foi à Colômbia disputar um campeonato de asa delta. Voltou campeão, mas mordido pela mosca azul do narcotráfico: sacou como ganhar dinheiro fácil.

‘Alguém no hotel me deu uma caixa de fósforos com cocaína. Depois da primeira viagem, nunca fiz outra coisa na vida, tenho mais de mil gols’, exagera.

Ele conta que serviu de mula no Hawai, Nova York, Europa toda. ‘Fazia viagens rentáveis, ficava meses sem trabalhar.’

Na cadeia, Marco passa horas olhando fotos amassadas que guarda numa pasta preta imunda. São recuerdos de suas viagens, de belas mulheres, de carrões e barcos: ‘Não posso me queixar da vida que levei’.

Orgulha-se: ‘Nunca tive CPF, nem cheque, não servi ao Exército. Só votei uma vez na vida. Foi no Collor, amigo da família’.

Com o dinheiro do tráfico, Curumim manteve apartamentos em três continentes, abertos pra patota da asa delta, do surf, da vida boa: ‘Nunca perguntaram de onde vinha meu dinheiro’.

Marco conta que saiu do Brasil para morar em Bali há 15 anos, ‘cansado de ver meu irmão (Sérgio) bater na minha mãe para obter dela dinheiro pras drogas’. O irmão morreu de overdose em 2000, mas a estas todas ele tinha tido seu infortúnio: em 1997 caiu da asa, sofreu várias fraturas.

Dali pra frente sua atividade de mula de drogas diminuiu, as contas de hospitais cresceram. Ficou quase dois anos sem andar, até conseguir se recuperar. Hoje anda com dificuldades, com as pernas cheias de pinos de metal.

Pra decolar outra vez na vida boa ele preparou aquele que seria seu último golpe, faturar 3 milhões e 500 mil dólares inundando Bali com cocaína.

Foi ao Peru, pegou 15 quilos com um fornecedor, por uma bagatela, menos de 100 mil dólares (dinheiro que ele obteve com um chefão americano, com quem dividiria os lucros da operação).

Marco meteu a droga nos tubos de sua asa delta. Saiu de Iquitos, no Peru, para Manaus, pelos rios da Amazônia. ‘Eu me misturei com turistas americanos e nunca fui revistado’, gaba-se. De lá embarcou para Jacarta: ‘Tava tudo pronto pra ser a viagem da minha vida’.

No desembarque, mete o equipamento no raio x. A asa de Marco tinha cinco tubos, três de alumínio e dois de carbono. Este é mais rijo e impermeável aos raios: ‘Meu mundo caiu por causa de um guardinha desgraçado’.

Como foi: ‘O cara perguntou porque a foto do tubo saía preta. Eu respondi que era da natureza do carbono. Aí ele puxou um canivete, bateu no alumínio, fez tim tim, bateu no carbono, fez tom tom’.

O som revelou que o tubo estava carregado. Foi o fim de uma bem-sucedida carreira de 25 anos no narcotráfico.

Marco ainda conseguiu dar um desdobre nos guardas. Enquanto buscavam as ferramentas, ele se esgueirou para fora do aeroporto, pegou um prosaico táxi e sumiu – ajudado pelo fato de falar fluentemente a língua bahasa.

Estava com tudo pronto para escapar no iate de um amigo milionário, mas aí azar pouco é bobagem. Um passaporte frio que ele tinha foi queimado por um cúmplice que também fugia da polícia.

Depois de 15 dias pulando de ilha em ilha no arquipélago indonésio – estava tentando chegar ao Timor do Leste -, passou sua última noite em liberdade num barraco de pescador, em Lombok.

Acordou cercado por um esquadrão policial, armas apontadas. Suplicou em bahasa, tiveram misericórdia dele.

Na cadeia esperando a execução, procura levar seus dias na malandragem carioca, na maior paz com os carcereiros, sempre fazendo piadas, cozinhando-lhes pratos especiais.

Acabou pro Curumim? ‘Vou fazer tudo para continuar vivo e sair dessa’.

NAS DROGAS DESDE OS TREZE

Rodrigo nasceu em Foz do Iguaçu. É neto de latifundiário produtor de soja, filho de mãe milionária, dona Clarisse. O pai é um médico gaúcho de Santana do Livramento, Rubens Borges Gularte.

Aos 13, já em Curitiba, Rodrigo começa nas drogas, cheirando solventes. ‘Era um garoto maravilhoso, a alegria da família, nunca levantou a voz’, isso é tudo o que a mãe lembra dele naquela época.

Com 18 é preso fumando baseado no parque Barigüi. O pai queria deixar que ele fosse processado. A mãe não concorda, suborna um delegado com mil dólares pra soltar o garoto: ‘Se fossem prender todos que fumam’, justificou dona Clarisse.

O garoto ganha seu primeiro carro. Bota amigos dentro e sai pela América Latina como um Che Guevara mauricinho, bebendo e se drogando. ‘Fiz cada loucura’, lembra.

Aos 20 Rodrigo era um rapaz de 1,84m, magrão, modos educados, cheio de namoradas. Teve um breve romance com a professora catarinense Maria do Rocio, 13 anos mais velha, fazendo Jimmy, hoje com 12, autista. Raramente via o filho: ‘Eu não estava preparado para a paternidade’, admite.

Rodrigo passa a viajar muito e pira total: ‘Em Marrocos, fumei o melhor haxixe’. No Peru: ‘Coca da pura’. Na Holanda: ‘Ecstasy de primeira’.

Aos 24, sai bêbado e drogado de uma festa. Bate o carro num táxi, tenta fugir, bate noutro, abandona tudo e corre pra casa da mãe. Ela dá uma volta na polícia, chama um médico, interna o garoto.

Na ficha de internação, o médico João Carlos anota: ‘Mostrou onipotência, estava depressivo’.

Nos anos seguintes a mãe fez de tudo para ele dar certo. Abre para Rodrigo uma creperia, em Curitiba. Não deu. Uma casa de massas, em Floripa. Não deu. Mandou pra fazenda. Não deu. Rodrigo vai estudar no Paraguai. Não deu. Ele se matricula na UFSC. Não deu.

Rodrigo começa no tráfico: ‘Fiz várias viagens à Europa só para trazer skunk’, confessa.

‘Se ele fazia isso, não sei onde metia o dinheiro, porque nunca tinha um tostão’, rebate a mãe.

A prisão: ‘Os carinhas me deram as pranchas com cocaína dentro. Embarquei em Curitiba, onde o raio x é ruim, pra desembarcar em Jacarta’.

O narco também não deu certo.

Agora ele se lamenta: ‘Só depois soube que os japoneses doaram um raio x potente pros indonésios, eles pegaram a droga’.

Rodrigo filosofa: ‘Meu erro foi a coca. O skunk é energia positiva, o ecstasy dá um barato legal, mas a cocaína é do mal’.

Um desabafo: ‘Se a parada tivesse dado certo eu estaria surfando em Bali, cercado de mulheres’.

Seu futuro: esperar as negociações do Itamaraty e tentar reduzir a pena em segunda instância.

Uma novidade: ele está namorando firme. Com uma menina indonésia, caixa de um supermercado, prima de um condenado. Ela entrou para visitar o parente, os dois se pegaram no olhar. Ele foi no primo, soltou um plá, consegui atrair a menina.

Ela vem uma vez por semana, ele dá uns amassos nela, na sala do comandante.’



‘GILETTE PRESS’
Marion Just e Tom Rosenstiel

‘Fornecendo Noticias Prontas’, copyright O Estado de S. Paulo, 29/03/05

‘Marion Just é professora de ciência política no Wellesley College. Tom Rosenstiel é diretor do Projeto para Excelência em Jornalismo em Washington Embora os presidentes trabalhem duro para divulgar suas mensagens, o governo Bush foi além do limite, especialmente com o uso agressivo dos falsos novos segmentos chamados de ‘press releases (notícias de governos, empresas, ONGs, para a imprensa) em vídeo’. Mas o que é ainda mais notável é como tem sido fácil para a Casa Branca fazer com que emissoras regionais e locais de TV levem ao ar essas notícias prontas.

Por que tem ocorrido isso? Um exame mais atento de alguns números complicados das emissoras locais oferece a resposta e revela muito sobre a nat-P0Lureza do mercado de comunicação hoje.

De 1998 a 2002, o Projeto pela Excelência no Jornalismo e pesquisadores de Wellesley conduziram pesquisas com diretores de jornalismo dessas emissoras e analisaram o conteúdo da programação local da televisão em emissoras de todo o país. Em 2001 e 2002, perguntamos a diretores de jornalismo de televisões locais se eles usavam presss releases em vídeo do governo ou terceiros, e se o faziam, se identificavam a fonte.

Nesses dois anos, só uma pequena maioria dos diretores de jornalismo pesquisados disse que nunca levou ao ar press releases em vídeo (56% em 2001, perto de 60% no ano seguinte). Uns 10% adicionais disseram que embora os usassem, sempre faziam questão de dar a fonte.

Mas isso significa que de um quarto a um terço dos diretores de jornalismo de nossas pesquisas exibiam os press releases em vídeo e revelevam a fonte ocasionalmente, raramente ou nunca. Por que fariam isso, se o jornalismo de press release sempre foi considerado um insulto? Outra evidência dá a resposta. Durante muitos anos, o público das notícias locais nos tradicionais horários das 18 horas e 23 horas foi diminuindo.

Mesmo assim, relataram os diretores de jornalismo, as empresas donas dessas emissoras geralmente continuaram a esperar altos ganhos, normalmente margens de lucro de mais de 40%.

Para ir de encontro a essas demandas, a maior parte das emissoras acrescentou programação, normalmente sem adicionar recursos. Em 2001, quando perguntados ‘o que é novo na sua emissora’, 29% dos diretores de jornalismo disseram que acrescentaram programação.

A porcentagem foi maior para as emissoras nos menores mercados com os menores recursos; nestas cidades, quase 40% das emissoras acrescentaram horas. E 71% de todas as emissoras registraram cortes de orçamento.

Um diretor de jornalismo escreveu: ‘Acrescentar um boletim jornalístico às 17 horas. Não há equipe para torná-lo um programa local.’ Em 2002, 555 dos diretores de jornalismo citaram aumento de carga de trabalho na equipe como sua principal preocupação. E as emissoras tinham mais probabilidades de cortar suas equipes que aumentá-las.

‘Cortes de orçamento; congelamento de vagas, menos dinheiro e mais responsabilidade’, escreveu um diretor de jornalismo.

Podíamos ver os efeitos no ar. De 1998 a 2002, mostrou um estudo de 33.911 reportagens de televisão, a porcentagem de material externo de terceiros aumentou de 14% para 23% de todas as reportagens.

Enquanto isso, a porcentagem de matérias que incluíam um correspondente local caiu de 62% para 43%.

Emissoras locais estão recebendo ordens de fazer mais com menos, e foram obrigados a depender mais de notícias pré-fabricadas para apertar o cinto. Então, não temos que procurar muito para descobrir como o governo Bush conseguiu fazer com que seus press releases em vídeo fossem ao ar. As empresas públicas que são donas de emissoras de televisão estão tão empenhadas em aumentar o preço de suas ações e agradar seus acionistas que estão afastando as notícias para fora do jornalismo.’

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